31 dezembro 2020

passagem de ano

Desde que me lembro, quer dizer, desde que sou gente e tenho memória, a passagem de ano foi sempre em comemoração familiar ou de amizade. Nos últimos vinte anos, pelo menos, esta noite foi quase sempre passada em Bragança e em família, e será preciso recuar até ao século XX para assinalar noites de réveillon em fulia ou festa. Em todo o caso, convém declarar que sempre preferi ambientes mais recatados, mais intimistas e mais aconchegados, para me despedir do ano velho e receber o novo. Desta vez, hoje, e por imposição (que não só aceito, como subscrevo) tudo será diferente: não haverá convívio com amigos ou família alargada, não haverá grandes cozinhados, nem doçarias; seremos só três, das quatro pessoas do agregado e o menu dita que a festa será simples, mas apetitosa e bem bebida. Venha 2021 que 2020 não deixará saudades.

figura do ano


Quando estamos a poucas horas do fim deste miserável ano, é de inteira justiça destacar como figura do ano o nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS), não só pela sua qualidade, como também por ter a capacidade e resiliência no combate à pandemia. Foi a figura central no combate à COVID-19. Desde a sua criação nunca tinha sido confrontado com tamanho desafio e os resultados só não são melhores, porque durante os últimos anos (décadas) os diferentes governos deste país, preferiram investir o dinheiro público na lógica das parcerias público-privadas na saúde, do que no reforço do SNS, naquilo que são os recursos humanos, os meios, as infra-estruturas e os equipamentos necessários para uma melhor e maior capacidade de resposta aos problemas de saúde dos portugueses. Esperemos que esta experiência possa ser motivo para uma nova atitude daqueles que mandam para com a Saúde Pública em Portugal. Nada contra os privados, mas se são privados devem actuar e sujeitar-se às regras de mercado. Acredito, quero e desejo, (n)um SNS cada vez mais eficiente, mais próximo e com maior capacidade para nos tratar e cuidar de todos nós. Viva o SNS!

ano revolucionário e inesquecível

Termina hoje 2020, o ano horribilis para a grande maioria de nós. Foi de facto um ano difícil, mas ao perspectivá-lo considero que, acima de tudo, foi um ano, física e psicologicamente, exigente. Ao mesmo tempo, e se o analisarmos com alguma isenção das nossas experiências pessoais e particulares, vamos percebê-lo como um ano revolucionário. Passo a explicar: vimos as nossas vidas, sociais, profissionais, pessoais e até íntimas, alteradas, como que num sobressalto sem aviso prévio, não por motivações políticas ou militares, mas por força da natureza humana e suas fraquezas ou debilidades. Este vírus atacou-nos precisamente no aspecto que mais caracteriza a nossa espécie, a sociabilização, e nós tivemos que nos habituar, sob o poder dessa força invisível, a abandonar ou, no mínimo, a limitar as nossas interacções, os nossos contactos físicos e de proximidade. Isto, apesar de aparentemente banal, foi significativo e ainda será cedo para percebermos o seu impacto nas nossas vidas e no futuro da nossa espécie. Esperemos para perceber que alterações paradigmáticas iremos testemunhar. 2020 será um ano inesquecível na biografia de cada um de nós (mesmo na daqueles que faleceram por causa deste vírus). Será também um ano riquíssimo para a futura produção literária, para a investigação científica - uma palavra de especial reconhecimento para a Ciência, que teve em 2020 um dos seus momentos de maior relevância e valorização - e para a análise social que se vai realizar. Durante as próximas décadas serão inúmeros os estudos, os prémios e os reconhecimentos pelo trabalho realizado durante esta pandemia. Pessoalmente, ainda que haja anos que recorde com maior ou menor intensidade, não tenho dúvida que 2020 será o ano, ou melhor (pois não sei o que me espera), será um dos anos da minha vida e que marcará indelevelmente a minha existência.

27 dezembro 2020

dia D

Hoje é o dia D da vacinação para a Covid-19 em Portugal. Um dia assinalável e, esperamos, memorável. Irá ser um processo lento e moroso, mas importa salientar o esforço e a dedicação de todos quantos estiveram nesta luta desigual desde o início. Está o mundo eufórico com este novo momento que marca o princípio do fim desta terrível pandemia e assinala igualmente um feito jamais alcançado de produção de uma vacina em tão curto espaço de tempo. É de facto incrível o que a Ciência pode fazer pelo Ser Humano. É em momentos como este, de afirmação, que deveríamos todos reflectir sobre a importância da Ciência na qualidade de vida que usufruímos e aproveitarmos para contribuir para derrubar todos os mitos, preconceitos e equívocos que teimam a sobreviver em muitas cabeças (pouco) pensantes. É uma vitória da Razão sobre a ignorância e sobre o dogma. Viva a Ciência.


Nesta fotografia, Marta Temido, a Ministra da Saúde, apresenta publicamente a vacina da Pfeizer que ontem chegaram, pela primeira vez, a Portugal. Um momento histórico e se há pessoa que merecerá todo o reconhecimento e gratidão pelo que fez ao longo de todo este tempo é ela. Muito bem.

22 dezembro 2020

o diário

O diário é a memória quase imediata do quotidiano.
Maria António Oliveira, in Granta nº 6, 2020:34

21 dezembro 2020

mediascape: barbárie


A notícia é do jornal Público e encontrei-a no Twitter. Foi lá que desde logo reagi, perante o horror que os meus olhos viam e liam. Confesso que, num primeiro momento, não acreditei, pensei tratar-se de uma falsa notícia ou uma brincadeira, mas depois a realidade ganhou esta tremenda dimensão e eu fiquei incrédulo. Como é possível tamanha carnificina? Quem promoveu? Quem autorizou? Como é possível?
Esta é uma daquelas coisas que eu jamais irei entender: o prazer de matar animais. A criação de zonas de caça, legais e autorizadas pelo Estado português, é uma licença para este tipo de cenário. Eventos como as montarias são o enquadramento legal que possibilita esta mortandade. Nunca entendi a lógica destes crimes organizados contra a natureza, que se repetem por todo o território nacional. Enquanto autarca em Bragança, questionei várias vezes a autorização e organização deste tipo de eventos, muito populares entre os autarcas locais e representantes associativos, tendo sido inclusive motivo de alguma chacota e desprezo. Enquanto cidadão mantenho a minha afirmação: se eu mandasse proibiria a caça e a pesca. O único evento que estas bestas poderiam organizar seria num recinto fechado, cada um com a sua arma, até um deles conseguir caçar todos os outros. Seria muito divertido e propenso a sorrisos, trofeus e selfies no final. Assim, bem depressa teríamos um mundo muito melhor.

frustração revestida de mágoa

Carrego nova mágoa, que se concretizou ou efectivou nos últimos dias. Há algum tempo que sei tratar-se de uma frustração pessoal, íntima e intransmissível, que se vinha a adiar sine die, e que de nada valeu tentar projectar nos meus filhos essa vontade e esse gosto. Esta mágoa resume-se e explica-se pela rejeição do meu filho mais novo em continuar o estudo de guitarra e formação musical.

16 dezembro 2020

mediascape: predisposição

Hoje, no jornal Público, e a propósito das eleições presidenciais e da situação pandémica que vivemos, é apresentada uma sondagem para o Público e RTP na qual são incluídos alguns indicadores muito reveladores das nossas percepções da realidade que experimentamos actualmente. Em relação aos números ou percentagens dos candidatos, pouco ou nada há a dizer ou comentar. Agora, em relação à pandemia não posso deixar de assinalar os dados agora conhecidos:


No primeiro gráfico, relativo à vacinação é evidente uma maioria clara de pessoas disponíveis e com vontade de serem vacinados, o que significa que felizmente e ao contrário daquilo que alguma, pouca inteligência nacional, quer fazer crer, já para não falar dos cavaleiros do apocalipse e das teorias da conspiração que populam pelas nacionais redes sociais.
Em relação ao segundo gráfico, ainda mais conclusivo e evidente, não restam dúvidas que os portugueses concordam com as medidas que a DGS e o Governo têm ditado para o país. Isto também contrariando muita da opinião publicada nos últimos meses, por aqueles que acham desde o início da pandemia que os portugueses estavam contra os sucessivos estados de emergência decretados. Pois bem, eu julgo que a maioria dos portugueses, tal como eu, não querem ser infectados pelo Coronavirus, nem querem correr riscos desnecessários. Ainda que por aí andem umas bestas irresponsáveis e negacionistas, pedem-nos para ficar em casa, só temos é que em casa ficar. É simples.
No terceiro e último gráfico, verificamos uma relativa contradição face ao segundo gráfico. Se por um lado a esmagadora maioria concorda com os estados de emergência, uma relativa parte dessa maioria não quer maiores restrições no Natal e concorda com a livre circulação entre concelhos e os habituais encontros familiares. Preocupante, digo eu.
Dia 18 de Dezembro, o Primeiro Ministro irá dirigir-se ao país para comunicar aquilo que poderemos ou não fazer durante o período das festividades natalícias. Espero que a razão não seja abandonada e que não haja cedência aos apelos mais emocionais e afectivos. Aquilo que não precisamos de todo agora é da "demissão" dos nossos responsáveis pelo combate à pandemia. Mais do que nunca, para não morrermos na praia. 

estranha forma de reagir...


Inserido num esforço de leituras sobre os tempos de agora, a pandemia e aquilo que poderemos vir a experimentar nos próximos tempos, comprei um conjunto de livros de alguns autores que publicaram recentemente os seus pensamentos, ideias e juízos sobre o assunto. Também porque é o mais curto e de fácil leitura, li nas últimas horas este pequeno ensaio de Bernard-Henri Lévi, filósofo e escritor francês. Para além de um diagnostico da situação, ou mundo, ou ainda vida, pré-Covid, com o qual eu consigo concordar, a leitura que faz de toda a situação experimentada nos quatro cantos do mundo e, em particular, no mundo ocidental é bastante caustica e pessimista. Contesta as teorias e medidas securitárias, contesta os que querem aproveitar o vírus para destruir a nossa civilização e o nosso modo de vida, enquanto tiranos da obediência que, a coberto da urgência sanitária e do delírio higienista, querem estrangular a liberdade dos cidadãos.
Este texto de Lévi foi escrito, tal como o próprio admite, algures entre finais de Abril e o mês de Maio de 2020, altura em começamos a "desconfinar", o que de certa forma, lido deste mês de Dezembro de 2020, me pareça uma análise imperfeita ou incompleta. Talvez neste momento o autor tenha já uma outra perspectiva daquilo que transformou o mundo numa prisão de alta segurança, panóptica e paranóica, de saúde e higiene pública. Seria interessante conhecer a evolução da sua opinião. De resto, compreendo a sua perspectiva, mas ainda assim sou dos que privilegia a salvaguarda da saúde dos indivíduos em detrimento de qualquer lógica ou princípio económico-financeiro. Haverá muito tempo para nos dedicarmos a esse esforço.

elegia do livro

A civilização que inventou o livro tal como até aqui o conhecemos, inventou também as condições requeridas para a sua leitura e que essas nos moldaram antropologicamente durante séculos e constituem um património cultural que precisamos de preservar.
(...)
O Património humano, cultural e espiritual, que o livro representa é, por isso, incalculável. O que o livro põe em jogo é muito mais do que o livro.
(...)
Os livros não nos tornam só leitores, tornam-nos também cidadãos.
(...)
Protejamos o património cultural que os livros representam. Eles são mapas para decifrar de onde viemos. Mas são também telescópios e sondas apontadas ao futuro.
(José Tolentino Mendonça, in Revista LER nº 157, 2020)

04 dezembro 2020

aquisições

Chegados nos últimos dias, bem adequados aos dias que vivemos.

o plano de vacinação

Foi conhecido ontem o plano nacional de vacinação da Covid-19 preparado pela task-force responsável pela elaboração do mesmo. Não assisti à conferência de imprensa de apresentação do plano, mas já tive oportunidade de o conhecer e não posso deixar de dizer que, de uma forma geral, parece-me muito bem construído e preparado, naquilo que são as diferentes fases, as prioridades, os objectivos e os grupos de maior risco, já identificados e que terão prioridade no acesso à vacina. Não consigo perspectivar alternativas a esta proposta. Também me parece muito bem que a sua gestão seja centralizada na DGS e que a distribuição e vacinação, pelo menos, nas primeiras fases, seja realizada através dos Centros de Saúde. É claro que tudo isto é ainda uma planificação em papel e só quando se passar à operacionalização no terreno é que vamos saber se a estrutura do Serviço Nacional de Saúde conseguirá dar resposta a uma missão desta envergadura. Vai ser um processo longo e demorado. Aos portugueses só nos resta ter paciência, manter as regras estabelecidas para combater o vírus e aguardar pela nossa vez de sermos vacinados.

01 dezembro 2020

o heterodoxo

Acordei com a notícia do falecimento de Eduardo Lourenço. Um dos principais pensadores da contemporaneidade em Portugal desaparece aos 97 anos, deixando uma obra brilhante e seminal para as gerações vindouras. Será, sem qualquer dúvida, uma referência do pensamento português do século XX e XXI, aquele que nunca desistiu de procurar Portugal no seu labirinto.

30 novembro 2020

expectativa, ilusão ou falsa esperança?

Espero, sinceramente, estar enganado e esta percepção ser mais resultante do meu mau feitio e do moderado pessimismo relativamente à pandemia.
Já todos devem ter reparado que de há uma ou duas semanas a esta parte, os media iniciaram uma campanha informativa sobre a proximidade da existência de uma, ou várias vacinas para combater a COVID-19 e avançam já com os planos de distribuição e aplicação dessas vacinas, com previsões de quantidades, estratégias de distribuição, locais de vacinação, grupos prioritários, entre outros pormenores, que me parecem extemporâneos. A verdade é que os próprios governos de vários países europeus, e não só, embarcaram nesta lógica de antecipação informativa, transmitindo ideias contraditórias e pouco precisas, que demonstra bem a ansiedade de toda a gente face à possibilidade de uma eminente cura para esta terrível doença.
Eu não sei o que vai acontecer, nem quando vai acontecer, mas precavido que estou, desconfio desta vertigem informativa. Estarão mesmo as vacinas em vésperas de serem aplicadas à população? Essa distribuição e vacinação irá iniciar neste curto espaço de tempo que tem sido anunciado? Estarão criadas as condições logísticas suficientes e capazes de dar resposta à dimensão desta operação? E por último, será a vacina eficaz e capaz de derrotar definitivamente o raio do vírus? Como vêem são demasiadas as perguntas e dúvidas que ainda não vi satisfatoriamente respondidas e esclarecidas na polifonia das televisões, dos jornais, dos opinadores e afins.

22 novembro 2020

vamos LER


Já está nas bancas a revista LER nº 157, correspondente ao período Primavera/Outono 2020. Em vários momentos percebi as dificuldades que esta publicação foi tendo em ser publicada. Não conheço os pormenores, mas percebo que o facto deste número compreender o intervalo "Primavera/Outono" é sintoma de que algo não estará bem. Sempre espero estar enganado e que a LER possa manter-se viva e interessante. Vamos então LER.

acasos, por vezes, felizes

Partilhei aqui há dias a minha história da PlayStation5. Pois bem, dia 19 essa história teve o seu epílogo e foi mais ou menos assim:

a) Nas vésperas desse dia consegui chegar à conversa com alguém que trabalha na Fnac (será razoável não identificar a pessoa), expus a minha situação e os esforços desenvolvidos para conseguir uma para o meu filho. Sem poder prometer, disse-me que caso houvesse a mais, reservaria uma para mim;

b) No dia 19 saí de casa por volta das 10 horas para tratar do assunto. Conduzi até ao Gaiashopping e ainda antes de ir à Fnac, dirigi-me ao quiosque para registar o Totoloto e o Euromilhões, o que faço semanalmente e sempre às quintas-feira, desde que existem esses dois "jogos sociais". Quando a menina conferiu o primeiro talão (do Totoloto) a máquina deu sinal de prémio, e ela exclamou que tinha um prémio grande. Como eu nunca confiro os resultados e só quando vou registar o da semana seguinte é que sei se tenho prémios ou não, não fazia a mínima ideia. Foi com satisfação e a pensar na feliz coincidência que caminhei para a Fnac;

c) Ao contrário do que esperava, não havia confusão na Fnac. Caminhei por entre os livros, procurei novidades e promoções, dei a volta pelo sector dos jogos e informática e dirigi-me para o bar onde tencionava tomar um café e deixar-me ficar a ler um texto que estava em atraso. Mal me sentei, a pessoa amiga, veio ter comigo e disse-me que já tinha uma consola reservada para mim. Apesar de ter vontade, não lhe pude dar um abraço de agradecimento;

Bem, não eram ainda as 11 horas da manhã e já eu estava a regressar a casa com a PlayStation5 e sabendo que o Totoloto me tinha pago o caro presente. Há acasos que não se conseguem explicar e, neste caso, a coincidência ainda é mais expressiva, porque em tantos anos a jogar, jamais me calhara na sorte mais do que meia-dúzia de patacos. Continuarei a jogar.

a cultura, sempre a cultura


Ontem, no jornal Público, Pacheco Pereira com mais uma pequena reflexão sobre a importância das humanidades e do humanismo para as democracias, tal como as conhecemos até hoje.

16 novembro 2020

desejos próximos


Dois dos livros que quero comprar nos próximos dias. Claro que ao saberem disto, poderão surpreender-me e presentear-me. Eu agradeço sempre e retribuo.

novilingua portuguesa

Eu respeito todas as pessoas, homens, mulheres e indefinidos. Não tenho qualquer pré-conceito em relação aos géneros e suas nuances, naquilo que agora se denomina "não-binários". Aceito e compreendo que haja quem não se reconheça no sistema "binário" (géneros masculino e feminino), e isso não poderá ser factor de discriminação ou menorização na nossa sociedade. Não há, portanto e para mim, qualquer questão em relação a esse assunto.
Mas ao mesmo tempo, não consigo perceber a obsessão com esta coisa nova chamada "linguagem neutra em género" como exigência para uma língua e sociedades inclusivas. Agora surgiu a notícia de um novo sistema, chamado ELU, que pretende ser um conjunto de propostas sobre como referir-se, na língua portuguesa, às pessoas não-binárias ou cujo género é desconhecido ou indeterminado, assim como a grupos com diferentes géneros, sem recorrer ao uso do "masculino genérico". Assim, este sistema ELU (elu é a substituição dos pronomes ele e ela...) propõe, entre outros dislates:
Elu em vez de ele ou ela;
Delu substitui dele ou dela;
Nelu no lugar de nele ou nela;
Aquelu para substituir aquele ou aquela;
Outros exemplos:
Menino/a. → Menine.
Todos/as. → Todes.
Esposo/a. → Espose.
Obrigado/a. → Obrigade.
Pintor/a. → Pintorie.
Cidadão/Cidadã. → Cidadãe.
Irmão/Irmã. → Irmãe.
Ladrão/Ladra. → Ladrãe.
Há tolinhos para tudo e mais alguma coisa. Mas que raio, quem sofre sempre é a língua portuguesa. Não param de mexer com ela. Que porra! Ela não carece de decretos ou de modas para se transformar e evoluir. Deixem a língua portuguesa em paz. 

15 novembro 2020

património e metamorfose

O património como um museu ou como uma tradição, é um lugar de consolação, também porque é onde encontramos objectos ou referências antigas ou novas que amamos, mas sobretudo porque perdemos a noção de tempo. Falo de um tempo fugaz e imediato, porque ganhamos o conceito de duração. E desejamos também a procura melancólica do diálogo entre hábitos, afectos, tradições e culturas e isso leva-nos a considerar hoje o património cultural como uma permanente metamorfose.
(Guilherme d'Oliveira Martins, in Jornal de Letras nº 1307, Novembro 2020)

dia da Regueifa

Sei que não é um elemento gastronómico transversal à totalidade do nosso território e que há quem nunca a tenha provado, mas para mim, Domingo significa obrigatoriamente sair de casa pela manhã para comprar Regueifa, e houve até Domingos que tive que sair uma segunda vez para comprar mais. A que costumo comer não será das melhores, nem esta região é famosa na sua confecção. Das famosas conheço a de Penafiel e a de Famalicão, mas não me queixo, nem deixo de a comprar. Hoje foi dia de Regueifa com manteiga.

"Outono triste em cárcere"

Parou agora de chover mas sopra um vento terrível. Caminhar para o Inverno parece-me invariavelmente encurtar o futuro. Desta vez, mais ainda. Muito mais. Tão perto de haver vacinas, este será inevitavelmente o fim do mundo para tantas pessoas. Sobem os números. Não dobram os sinos. Já repararam? Este ano há boicote aos sinos para que ninguém se aperceba do que é morrer tanta gente.
(Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1307, Novembro 2020)

11 novembro 2020

carneiro me sinto

Conseguirei contar a história em poucas palavras. O meu filho quando fez nove anos, em Março de 2020, queria como presente a Playstation. Andou meses a falar no assunto e nós, pais, tentámos explicar-lhe que não fazia sentido comprar nessa altura porque estaria a sair a nova Playstation5. A custo lá o conseguimos convencer, não recebeu nenhuma prenda e, ainda por cima, o seu 9º aniversário coincidiu com o início do primeiro confinamento e não pudemos festejar. Neste entretanto manteve sempre a pressão e não deixou morrer o assunto, até que soube que a nova Playstation seria lançada dia 19 de Novembro. Escusado será dizer que anda numa ansiedade...
Avisado que sou, ou julgo ser, desloquei-me a uma Fnac para me informar. A loucura está instalada, pois a cerca de 15 dias do dia 19 de Novembro, já não aceitavam encomendas. Conselho do funcionário que me atendeu: dia 19 venha logo às 9 horas para tentar conseguir uma das poucas que teremos à venda...
Hoje, a 8 dias do lançamento, recebi uma mensagem da Fnac a aconselhar-me um agendamento para os dias que se aproximam e, assim, evitar filas... Agendei para esse dia, logo pelas 9 horas da manhã. O agendamento foi aceite, vão-me contactar em breve.
Tudo isto deixou-me a pensar...
a) que porra, não nos conseguimos desligar da máquina...
b) que porra, os gajos sabem-na toda e têm-nos presos pelos beiços...
c) que porra, não posso, nem quero, desiludir o miúdo...
Enfim, lá irei eu.

07 novembro 2020

finalmente!


Resisti, nestes últimos dias, vir aqui escrever sobre o processo eleitoral, ou melhor, sobre a contagem de votos nas eleições dos EUA, porque achei por bem, desta vez, esperar pela declaração oficial da eleição para reagir. É que em 2016 dei como certa a eleição de Hillary Clinton e jamais imaginei que os americanos iriam eleger uma personagem como Donald Trump. Elegeram e tiveram o que mereceram. Quem perdeu foram eles e, claro, o resto do mundo. Foram quatro anos inacreditáveis, de uma indigência política e social como jamais aconteceu.
Finalmente, o desqualificado e ignóbil Donal Trump foi rejeitado pelos seus concidadãos. Não foi preciso um impeachment, uma revolta ou revolução civil. Democraticamente, ainda que com tremenda polarização, mas com urbanidade, os americanos votaram maioritariamente em Joe Biden. Trump e os seus cães de fila poderão estrebuchar, gritar por fraude eleitoral, recorrer aos tribunais ou até, irresponsavelmente, incitar à violência dos seus indefectíveis apoiantes. Com tranquilidade, tal como o recém-eleito 46.º presidente afirmou ao longo desta semana, no fim foram eleitos.
Não serão dias tranquilos, nem será um mandato fácil, mas um passo de cada vez. Neste momento, celebremos a derrota da besta e sua prole.

04 novembro 2020

distopia

Deveríamos viver tendo por ambição um futuro utópico, ou seja, a ambição de uma realidade sempre melhor do que aquela que agora experimentamos. Contudo, a verdade é que vivemos tempos (e já não é de hoje) em que apenas conseguimos vislumbrar distopias para aquilo que há-de vir. Não é ser pessimista, nem tão pouco derrotista, mas olhando à nossa volta, não poderemos deixar de estranhar tudo aquilo que vai sucedendo, um pouco por todo o mundo e, principalmente, na Europa, que nos remete para esse ambiente que julgávamos pertencer ao mundo do imaginário e da ficção. Não, é real e estamos a experimentá-lo. Vivemos de facto num mundo distópico.
Vem isto a propósito da leitura que terminei esta madrugada, enquanto ia espreitando o desenvolvimento da contagem dos votos nos EUA. Submissão, de Michel Houellebecq, é um bom exemplo daquilo que atrás referi. Publicado pela primeira vez em 2015, remete-nos para uma França em 2022 e conta-nos a vida de um professor universitário num país polarizado pelas religiões e suas culturas. O livro foi recebido com várias críticas, entre elas a adjectivação de ser uma distopia e algo impensável numa república como a francesa. Pois bem, estamos em 2020 e a realidade não anda muito longe daquilo que é proposto pelo autor. Aconteceu, também, a triste coincidência de o ter começado a ler no dia em que o professor francês, Samuel Paty, foi barbaramente assassinado à porta da escola onde leccionava.

03 novembro 2020

in memoriam

Acabadinha de chegar à caixa do correio. Até o humor se altera e ficamos mais bem dispostos. Prioridade na pilha de leituras.

um dia importante

Hoje é um dia importante para todos nós. Todos nós que vivemos neste mundo. Bem sei que é um lugar comum, mas as eleições presidenciais nos EUA foram, são e serão sempre um momento relevante para a nossa existência e têm repercussões globais. Espero e desejo ver o desqualificado inquilino da Casa, que dizem ser Branca, corrido de lá para os seus domínios do Show Business, habitado pelas fake news, pela junk food e pela trash people, de onde nunca o deveriam ter deixado sair. Não é tarefa simples e até ao lavar dos cestos será sempre vindima. Joe Biden não me entusiasma a amígdala, mas será a única escolha possível se os americanos quiserem regressar a uma qualquer normalidade que este analfabeto e inábil tem vindo a destruir desde 2016. God bless America.

02 novembro 2020

no fio da navalha

A propósito da declaração do Primeiro-Ministro no final do Conselho de Ministro, no passado Sábado, e as posteriores reacções e comentários que, incessantes, se vão ouvindo nos media, eu, que assisti em directo a essas declarações, não consigo ser crítico do comportamento e do discurso de António Costa e seu Governo - foi explícito e, principalmente, foi pedagógico. Claro que tem havido erros de gestão da pandemia, má comunicação, informações contraditórias, mas caramba, estamos numa situação impossível de gerir. Já aqui o disse e vou repetir: respeito e admiro muito aqueles(as) que têm dado a cara e estão ao leme desta situação desde o início da pandemia, pois sendo uma realidade extrema, nova e de uma intensidade tal, é de uma injustiça gritante estar sempre a criticar, ainda por cima, sem apresentar alternativas. Percebeu-se nas palavras de António Costa uma tremenda incerteza sobre o que aí vem, foi notório o desconforto com a atitude irresponsável de muitos portugueses e foi perceptível o fio da navalha em que o Governo e demais instituições responsáveis se encontram neste momento. Serão sempre decisões difíceis que implicarão consequências gravíssimas para a nossa sociedade. Respeito.

01 novembro 2020

Sean Connery

Faleceu ontem aos noventa anos o actor Sean Connery. A julgar pelas reacções que foi possível encontrar um pouco por todo o lado, o actor irlandês era reconhecidamente uma figura maior da sétima arte. São muitas as referências à sua ligação à mítica personagem de James Bond, mas para mim Sean Connery foi referência numa fase mais avançada da sua carreira. Nunca tive paciência para o 007 e por isso foi em filmes como O Nome da Rosa, O Rochedo, Lancelot - o primeiro cavaleiro, ou Caça ao Outubro Vermelho, que o reconheço como uma figura carismática, com uma presença magnética e imponente. Ainda hoje, quando em zapping, encontrando-o no ecrã é razão para ficar a ver. Sean Connery envelheceu muito bem.

31 outubro 2020

frugalidades

A notícia é ja do dia 17 de Outubro, mas na altura não tive tempo para a ler com atenção e, por isso, guardei-a no pc. Hoje olhei-a com detalhe e não posso deixar de a comentar. Entre outros pormenores, diz a notícia:

Metade da população portuguesa já ouviu falar em dieta mediterrânica e conhece algumas das principais recomendações a ela ligadas. (...) Foram ouvidos 1000 indivíduos — 60% dos quais disseram já ter ouvido falar deste padrão alimentar. Dentro deste grupo, 80% mostraram conhecimento (o cálculo dos 50% é feito com base nestas duas percentagens) e conseguiu identifi􏰀car pontos importantes como o uso do azeite, o consumo elevado de horto- frutícolas, a preferência dada ao pescado em detrimento da carne ou o consumo de leguminosas. Curiosamente, nota Maria João Gregório, a frugalidade, que é uma das características fundamentais da dieta mediterrânica, não é referida pelos inquiridos. (...) (os dados) revelam é que quem segue este tipo de alimentação são sobretudo as mulheres (33%) e o grupo etário entre os 16 e os 34 anos (33%). À medida que aumenta a idade, a adesão à dieta mediterrânica diminui de maneira expressiva: são só 27% os que têm entre 35 e 64 anos, e a partir dos 65 anos a percentagem cai para 19%. Também o nível de escolaridade tem relevância: no grupo dos que aderem a esta dieta, 35% têm mais de 12 anos de escolaridade e 30% têm um nível económico considerado “confortável ou muito confortável”. (...) Por que é que certos grupos sócio-económicos mostram mais abertura à dieta mediterrânica do que outros (sendo que seria de esperar que a população mais velha e mais rural seguisse, tradicionalmente, este tipo de alimentação, o que não acontece. (...)
Houve nas últimas décadas uma série de mudanças que ajudam a explicar alterações na forma como comemos. (...) Há um “crescente apelo à responsabilidade individual”, uma gestão difícil da casa e do trabalho (74,5% das mulheres continuam a dedicar uma hora ou mais por dia à preparação das refeições), ao mesmo tempo que surgiu uma “oferta mais fragmentada”, com muita comida rápida e transformada, a que se soma um “relaxamento em relação às regras” da hora da refeição. Mas há também “contratendências” que passam pela valorização da produção nacional, dos produtos de proximidade, feitos com menor impacto sobre o ambiente, e ainda de algumas tradições alimentares. É de destacar igualmente a questão do consumo de carne, cuja redução é recomendada pela dieta mediterrânica (e não só). (...)
Quarenta e nove por cento das pessoas ouvidas no II Grande Inquérito à Sustentabilidade, do ICS, dizem-se dispostas a reduzir o consumo de carne, e 26,5% a deixar de comer carne. E também aqui há um dado curioso: os mais dispostos a fazer esta alteração são as mulheres das áreas metropolitanas e com maior nível de escolaridade; os menos disponíveis para o fazer são os homens com mais de 65 anos, dos meios rurais e com menor nível de escolaridade. (...)
Estas são algumas das principais conclusões de um estudo encomendado pelo Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direcção-Geral da Saúde, e apresentado ontem pela directora, Maria João Gregório, na conferência Dieta Mediterrânica à Portuguesa, um evento promovido pelo Grupo Jerónimo Martins e que se realizou no Pátio da Galé, em Lisboa, com transmissão directa online, para assinalar o Dia Mundial da Alimentação. (Jornal Público, 17 de Outubro de 2020, página 37)

Não querendo ferir ou suspeitar da qualidade e da importância do estudo realizado, acho sempre alguma piada a esta coisa das "dietas" e das generalizações a propósito dos hábitos alimentares das diferentes comunidades por associação ao território em que vivem. Claro que sim, as comunidades sempre se alimentaram daquilo que a sua terra sazonalmente propiciava e só muito recentemente foi possível introduzir nas suas "dietas" produtos não autóctones e não sazonais. Esta estranheza face à resistência ao consumo disto e daquilo, ou as preferências, são perfeitamente compreensíveis. Por exemplo, na "minha" aldeia, na terra fria transmontana, até ao final do século XX, comer um citrino, como uma laranja ou tangerina, era um luxo e raramente possível. O limão não fazia parte dos ingredientes para o tempero na cozinha transmontana. Portanto, quando alguém queria presentear outro, era comum oferecerem-se laranjas. Um bem escasso e apetecível. Em relação ao consumo de carne, não sei qual é o espanto de serem os mais velhos a resistirem ao seu abandono, pois são aqueles que têm memória do tempo em que ela era escassa na sua alimentação (os tempos da fome), portanto, agora que a podem consumir, porque raio haviam de não o fazer...
Dois pormenores: a frugalidade e a tradição. Em relação a esta, considero que a tradição alimentar, seja de que região, geografia, ou comunidade for, disse sempre respeito ao leque disponível de produtos alimentares nessa região, transformando-se numa espécie de habitus social e, por isso, hoje podemos encontrar uma gastronomia regional - temperos, modos de preparação e apresentação, doçaria, entre outros. Em relação à ideia de frugalidade, é parva a ideia de que, durante gerações e gerações, e também ainda hoje, as comunidades, com excepção dos grupos sociais mais abastados, viveram com abundância alimentar. Muito pelo contrário, a frugalidade foi uma constante na condição de maior parte das comunidades humanas.
Por último, la pièce de résistance, não deixa de ser curioso e até metafórico do tempo que vivemos, o facto deste evento ter sido promovido pelo Grupo Jerónimo Martins, esse expoente nacional da comercialização de bens alimentares e "comida rápida e transformada", tão saudáveis e tão frugais.

30 outubro 2020

mano mais novo


O mano mais novo está imparável. Gosto muito deste vídeo. 

25 outubro 2020

um novo início

O título destas linhas terá dois sentidos ou duas possíveis significações. Por um lado, a pandemia que teima em nos cercar e sitiar, obriga-nos a reforçar cuidados e a reiniciar processos e rotinas que se julgavam ser já pretérito; por outro lado, esta grande incerteza naquilo que é o nosso presente, faz-nos questionar se algum dia iremos ter acesso a uma qualquer normalidade livre e a salvo deste maldito vírus.
Esta pequena reflexão, que me tem acompanhado nos últimos dias, deixa-me inquieto e, ao mesmo tempo, resignado. Inquieto porque estou saturado desta clausura auto-imposta e resignado porque tenho consciência, face aos números actuais da pandemia em Portugal e no resto da Europa, de que não haverá alternativa a um novo confinamento imposto por lei e para a totalidade do país.
Hesito se devo, ou melhor, se quero iniciar aqui uma segunda série de textos "enclausurado", dedicados a essa experiência pessoal que foi o primeiro confinamento. Irei aguardar mais uns dias para perceber o desenvolvimento da situação pandémica e as consequentes medidas das nossas autoridades.
Relembrando as palavras de George Steiner, pergunto-me: Teremos nós direito a um novo início?

mediascape: ridícula

Vão-me desculpar, não é má vontade, nem sequer birra, mas não faz qualquer sentido este tipo de iniciativas. A vontade de agradar aos munícipes, aliada a uma vontade de se mostrarem actualizados e nesta moda "à distância", não se adequam com determinadas actividades ou eventos. Apenas ridícula a intenção de promover concursos "online" de produtos naturais locais e regionais.

22 outubro 2020

constatação

Habituei-me, ao longo dos últimos anos, a registar a minha agenda quotidiana no telemóvel, prescindindo das velhas e clássicas agendas de bolso ou de secretária. Acontece que há um par de dias essa agenda digital (a minha secretária particular, como eu a chamo), que transporto no écran principal do meu telemóvel, teima em afirmar: "nenhum evento nas próximas duas semanas". Não sendo totalmente verdade, eis a constatação do vazio em que se transformou o meu futuro próximo.

19 outubro 2020

ciência ingénua

Só por ingenuidade poderíamos pensar que a ciência moderna é uma sólida fonte de sabedoria. Na maioria dos casos, como bem escreveu Nietzsche, a ciência moderna não produz pensadores, mas operários especializados que se limitam a cumprir ordens, como soldados no campo de batalha.
Viriato Soromenho Marques, in jornal de Letras nº 1305 - Outubro 2020.

17 outubro 2020

macaco de ano

Acabei ontem de manhã a leitura deste livro, o último de Patti Smith. Ainda que permaneça no universo das suas memórias e num tom confessional, neste texto Patti Smith escreve sobre os seus últimos anos, sobre as suas amizades e projectos, viagens, encontros e desencontros, até às vésperas do confinamento, já em 2020. Patti Smith é, para mim, acima de tudo, uma boa escritora e lê-la é também conhecer parte da cultura popular americana, com suas estrelas e ídolos, dos últimos cinquenta anos.

O acto de escrever em tempo real com a intenção de obrigar o presente a desviar-se do rumo que está a tomar, de lhe escapar ou de fazer com que abrande, é obviamente fútil, se não mesmo totalmente estéril. E é claro que, ao escrever este epílogo de um epílogo, estou ciente de que já estará obsoleto quando chegar aos leitores. Contudo, como sempre e tendo ou não um objectivo específico em vista, sinto-me compelida a escrever com fervor e esperança, entrelaçando realidade, ficção e sonho. Ao regressar a casa, sento-me à secretária que pertenceu ao meu pai e transcrevo o que escrevi. (página 274)

mediascape: infantilização

Passámos de ser uma sociedade europeia que privilegiava o pensamento e a racionalidade, a filosofia e a literatura, ou a literatura como filosofia moral, a uma sociedade de crianças grandes que brincam umas com as outras ou mutuamente se agridem com furor por coisas sem importância. A agressão tem como contrapartida a lisonja, propiciada por fotografias idiotas em pose e dando a ilusão da beleza e da viagem, ou do luxo e da intimidade, do erotismo empacotado. É um filme inofensivo de banalidades que nada acrescenta nem diminui, serve de sintoma da infantilização.
Clara Ferreira Alves, in revista E (jornal Expresso), 17 Outubro 2020.

16 outubro 2020

Gato Morto

O novo projecto musical do mano mais novo chama-se Gato Morto e, nos últimos dias, lançaram o primeiro single do álbum que vai ser lançado em 2021. Gosto deste som. Para o caso de não conseguirem identificar, o mano mais novo é o da guitarra.

13 outubro 2020

mediascape: ver para crer

A expressão que se utiliza na minha aldeia quando o pobre desconfia da grandeza da esmola é: - Finta-te! E foi a minha reacção instintiva ao ler esta pequena notícia de hoje, no jornal Público. Mas alguém acreditará que, depois de décadas de desmantelamento da rede ferroviária nacional, principalmente no interior do país, agora vão investir e reconstruir a rede de forma a servir todas as capitais de distrito? Eu não acredito, mas gostava muito de ver isso concretizado. Infelizmente, não passa de mais um aparatoso anúncio, tal como aconteceu com o TGV, os aeroportos e outros que tais. Bem típico das governações socialistas.

09 outubro 2020

ainda as jornadas culturais em Balsamão

Chegaram-me hoje alguns registos fotográficos da minha passagem pelas XXIII Jornadas Culturais de Balsamão. Partilho alguns desses momentos:






04 outubro 2020

cultura e Igreja

Tal como aqui tinha informado e anunciado, participei nas XXIII Jornadas Culturais de Balsamão que decorreram este fim-de-semana (de 1 a 3 de Outubro). Estive em Balsamão no dia 2, dia da minha intervenção, e tive a oportunidade de assistir e participar no programa completo desse dia. Uma das intervenientes, no início da sua intervenção, partilhou com a audiência uma pequena reflexão que me deixou pensativo e também a reflectir sobre esse "pormaior". Disse ela, algo do género: - Não deixa de ser interessante e até curioso o facto de, num tempo em que não se fala de cultura em lado nenhum, seja aqui e seja a Igreja a estar disponível e interessada em promover espaços e jornadas onde podemos partilhar conhecimento e cultura. 

Apenas quero manifestar a minha simpatia e concordância com tal raciocínio, realçando o facto de as Jornadas Culturais de Balsamão se realizarem há vinte e três anos consecutivos. Uma realidade que transforma, sem qualquer dúvida, estas Jornadas em património que importa preservar, promover e apoiar. Hei-de regressar.

26 setembro 2020

a ciência e Portugal

A decadência portuguesa. Tem alguma explicação para esse fenómeno?

Não, não tenho. (...) Vou apenas circunscrever-me à minha área, que é a questão científica. Em primeiro lugar, não deteto uma decadência assim tão grande. A ideia de que não houve prática científica em Portugal no século XVII é exagerada. A prática científica em Portugal foi sempre modesta e não devemos fazer ficções sobre o passado. (...) Era possível pôr pessoas com baixos níveis educativos a fazer actividades cientificamente interessantes. Mas com o desenvolvimento da ciência, isto começou a ser impossível. As escolas exigiam grande qualidade. A partir do século XVII, ter bons cientistas, ou ter boas pessoas a fazer tarefas científicas (para não usar a palavra "cientista", que é do século XIX) obrigou a ter boas escolas. (...) Em Portugal isto foi sempre uma dificuldade, a existência de sistemas de ensino de boa qualidade, estáveis, duradouros. E no século XVII começou a notar-se.

( Henrique Leitão, entrevista à revista LER nº 156 - Inverno 2019-2020 )

desgraçada trindade

Hoje, no jornal Público, Pacheco Pereira é muito acertivo naquilo que escreve a propósito deste tríptico que nos desgraça enquanto comunidade.  

25 setembro 2020

envelhecendo

Sentado na cadeira do barbeiro, reparo no cabelo que me vai caindo, aos molhos, na bata que me envolve. Os cabelos mais escuros que ainda tenho são de uma claridade crescente, que poderia adjectivar de cinzentos ou prateados, não me consigo decidir. Mas não há como fugir à realidade: já não tenho cabelos escuros.

24 setembro 2020

bateu-nos à porta

Depois de todos aqueles meses confinados, depois de um desconfinamento com grandes reservas e cuidados, depois de todo um Verão sem poder ser Verão, depois das mil e uma preocupações com a higiene pessoal e da família, eis que o bicho nos bate à porta. Ainda não entrou, pelo menos oficialmente, mas já nos obrigou a isolamento profiláctico rigoroso, sem qualquer contacto pessoal e comunicação telefónica entre divisões da mesma habitação. Ainda que a causa deste possível contágio resulte de muita irresponsabilidade e incúria, por enquanto, prefiro não tecer qualquer comentário, nem identificar a situação. Aguardemos. Por hora, estamos bem. Hoje é o dia do primeiro teste da Covid e a ansiedade é grande. Vamos ver o que aí vem.

23 setembro 2020

o Outono

Não é segredo para ninguém, muito menos para aqueles que me rodeiam e conhecem, a minha preferência pelos ambientes mais frescos e até frios. Ainda que diferente de qualquer outro já experimentado, bem vindo seja o Outono e os seus humores temperamentais de luz, cor e aconchego. Assim sendo, é sempre um prazer ir ao guarda-fatos buscar os casacos e as camisolas, recolocar o guarda-chuva à mão de utilizar e aguardar pelas chuvas que hão-de vir.

21 setembro 2020

mediascape:golo

No fim-de-semana em que iniciou mais um campeonato nacional das ligas profissionais, o eco do descontentamento do sector pairou por toda a comunicação social, porque a DGS mantém os espectadores longe dos estádios de futebol e não se prevê uma alteração dessa restrição a curto prazo. Eu até entendo e aceito o desagrado e as terríveis consequências financeiras destas medidas e percebo que o universo do futebol esteja a sofrer como jamais sofreu. Claro que o futebol sem adeptos nas bancadas é uma merda, mas o coro que se faz ouvir parece que não entende (ou não quer entender) que são mais do que justificáveis as razões que impedem a presença de pessoas nos estádios. É que ao contrário de outras manifestações ou eventos de massas, o futebol tem um elemento explosivo que se chama GOLO! E é esse momento orgásmico quem prejudica a indústria do futebol. Como poderiam controlar centenas ou milhares de pessoas espalhadas por um estádio, nesse momento de alegre e efusiva manifestação? Impossível. Portanto, haja paciência e mantenham-se as portas dos estádios fechadas.

18 setembro 2020

reencontro

Hoje foi o dia em que a minha criança regressou à escola, depois de mais de seis meses de ausência. A expectativa do miúdo era grande, mas maior era a ansiedade e o turbilhão de sensações dos seus pais sobre este regresso. Admito que estou moderadamente pessimista em relação ao funcionamento das escolas neste contexto e estou consciente que a maioria das estruturas e equipamentos escolares não conseguem dar respostas satisfatórias às recomendações e exigências da DGS.

Nestes últimos dias, todas as dúvidas e questões ganharam relevância e, ainda ontem, comentava em família que aquilo que me apetecia fazer neste momento era pegar na família e refugiar-me num recanto qualquer, longe e afastados deste turbilhão contagioso. Infelizmente não temos essa possibilidade, mas seria a minha vontade, pelo menos até esta tempestade se afastar.

Entretanto, ao acompanhar o miúdo à escola e ao vê-lo no reencontro os seus colegas, alegres e felizes a falar e a brincar, todos essas dúvidas e questões em relação ao início do ano, se desvaneceram e, claro, o lugar deles é lá, na Escola, onde mais do que o conhecimento, importa a socialização, a brincadeira, os encontros e desencontros, para poderem ser crianças saudáveis e equilibradas. Viva a ESCOLA.

15 setembro 2020

jornadas culturais




Em breve por terras de Balsamão, eu vou lá estar para falar da Casa de Recolhimento das Oblatas do menino Jesus da Mofreita, no concelho de Vinhais. Será a minha primeira participação nestas Jornadas que vão já na sua vigésima terceira edição. Até lá.

08 setembro 2020

todos ao teatro

Ainda a propósito das tralhas que tenho para arrumar, encontrei o programa do Teatro Municipal de Bragança, agora dirigido pelo amigo João Cunha, para o último terço do ano 2020 (de Setembro a Dezembro), que o próprio me ofereceu num destes dias. Para além da qualidade do próprio programa que, apesar de variado e eclético, pode ser alvo de diferentes e variados juízos, retive o olhar na última página deste pequeno livreto que, para além da ficha técnica e ficha de preenchimento para receber informações regulares sobre as suas actividades, apresenta aquilo que são verdadeiros incentivos para a população frequentar este espaço cultural. Já não há desculpas para não ir ao teatro.

leituras e descanso

No momento em que arrumo as tralhas e me preparo para regressar a casa, depois de quase três semanas de descanso e também de trabalho de campo, verifico os livros que trouxe para a "cabeceira" e consegui ler. Não atingi o meu objectivo, mas fiquei apenas a um livro de o conseguir. Enfim, é tempo de regressar e organizar o que agora se colheu, para depois reiniciar as velhas rotinas. Vamos lá.

saudade e esperança

Quando mergulhamos em bibliotecas e arquivos somos, por vezes, surpreendidos por informações e dados inesperados, não expectáveis e até originais. Ao folhear livros e documentos antigos, não é raro encontrar pequenos papéis a servirem de marcadores, ou com pequenas notas ou apontamento, ou pagelas de santos e santinhas, mas desta vez o que encontrei num documento de 1845, foi esta pequena mensagem de saudade e esperança com cerca de trinta anos. Não consigo ficar indiferente e questiono: Terá sido esquecimento? Terá sido intencional? Qual seria a probabilidade de o destinatário encontrar esta missiva nesta selva de documentos históricos? Sempre bonito e intrigante.

ao léu

Mais um pedaço da vida de Luiz Pacheco ao léu. Leitura do serão passado, esta edição de António Cândido Franco que apresenta e comenta a correspondência de Pacheco para João Carlos Raposo Nunes, vem reforçar aquilo que eu penso sobre o Luiz Pacheco. Foi uma das escritas mais livres e criativas do século XX em Portugal. Desalinhado e anárquico, fez e desfez, abalou e escandalizou o mainstream literário e cultural nacional, com coragem e desassombro. Cada vez que o leio e cada vez que sei mais sobre a sua vida e escrita, fico com apetite para mais conhecer, e o tanto que ainda há para descobrir sobre o grande Pacheco.

02 setembro 2020

técnicas

Era uma técnica de meditação que eu usava na altura: pegava numa ideia, registava-a mentalmente num papel imaginário e, com ela na mão, revirava-a mentalmente, concentrando-me nela; depois amarfanhava-a numa bola e deitava-a fora.

David Means, in Granta nº5 (Maio 2020)

01 setembro 2020

numa rádio, às vezes perto de mim



mediascape: abjecta

A notícia do dia, a correr nas edições online dos media e nas redes sociais, é um abaixo-assinado a favor do respeito pela objecção de consciência dos pais que não queiram que os seus filhos frequentem a disciplina de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento. Assinaram este bolorento documento, para além dos seus promotores Manuel Braga da Cruz e Mário Pinto, cerca de cem personalidades portuguesas, entre elas, Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, D. Manuel Clemente, Pedro Lomba, Miguel Morgado, Rui Machete, Manuela Ferreira Leite, António Bagão Felix, Adriano Moreira, José Ribeiro e Castro e até o socialista(?!) Sérgio Sousa Pinto. Este grupo peticionário muito homogéneo e conservador insurge-se contra a imposição e a obrigatoriedade da frequência e avaliação dessa disciplina no Curriculum da Escola Pública, alegando falta de liberdade para os pais nas escolhas educativas e uma imposição do Estado em algo que é competência da família.

Programa curricular da disciplina Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento.

Pois bem, tendo em conta o programa curricular conhecido dessa disciplina, aqui reproduzido, onde podem estas luminárias encontrar motivos para objecção de consciência?! Estou mais certo e convencido que aquilo que estes reumáticos mentais pretendem é promover um retrocesso civilizacional e que as liberdades civis que temos vindo a conquistar não se consolidem na sociedade e que um dia possam ser revertidas. Abjecta a consciência destes peticionários.

tem razão, sim senhora

jornal Público de 1 de Setembro de 2020

eis a questão

Aproveitando o embalo do último post, partilho a minha preocupação imediata: a aproximação do início do ano lectivo e as incertezas que me assaltam sobre aquilo que vai acontecer. Tenho estado atento a tudo quanto é dito e escrito sobre o assunto - comunicações oficiais da DGS e do Governo, opiniões publicadas e opiniões avulsas de amigos e conhecidos - e não consigo vislumbrar uma estratégia, uma linha de pensamento segura e acertiva sobre o assunto. A minha criança vai para a escola daqui a quinze dias e ainda não fomos informados de nada: horários, turmas, intervalos, cantina, regulamentos de funcionamento, planos de contingência, medidas de segurança individuais, etc.. São inúmeras as questões e as dúvidas, e nesta incerteza continuo a ponderar não deixar o meu filho ir à escola. Bem sei que não posso mantê-lo refém deste vírus para toda a vida, mas mantenho a minha perspectiva de que é mais importante proteger-lhe a saúde do que expô-lo a riscos desnecessários apenas e só pelo benefício da aprendizagem. Não haverá qualquer perda, se não aprender este ano, aprenderá no próximo. Terá toda a sua vida para o conhecimento.

uma mudança de época

Ontem à noite lia o último jornal de Letras e, nas suas páginas 25 e 26, encontrei um texto de Fernanda Henriques sobre a actual e urgente necessidade de mudança de paradigma, com a revalorização do trabalho das mulheres e a com a ideia de uma economia do cuidado, remetendo e revisitando o pensamento de Maria de Lourdes Pintasilgo. De facto, num contexto de crise global provocada pela Covid, que para além dos problemas de saúde pública, veio evidenciar as fragilidades do nosso modo de vida - capitalista, consumista, globalizado. Tal como já aqui reflecti várias vezes nos últimos meses e já muitos outros o disseram e escreveram, teremos mesmo que parar para repensar naquilo que ambicionamos para a nossa vida e para o nosso planeta. Penso e espero que este não seja apenas um interlúdio temporal para depois regressarmos ao mesmo consumismo desenfreado e irresponsável; espero que esta pandemia que se globalizou seja um ponto sem retorno e permita a mudança de paradigma naquilo que é o entendimento do mundo e que possamos baixar a febre de felicidade imediata e a todo o custo, medida em unidades do PIB, que avassala o planeta (Viriato Soromenho-Marques, no mesmo jornal de Letras - nº 1302). Teremos que pensar "fora da caixa" e libertar-nos das sedutoras e irresistíveis amarras dos consumos imediatos. Ao contrário do que nos tentam fazer crer, é possível existir sem tanta oferta, sem tanto lixo, sem tanta poluição, basta para isso procurar conceber novas estruturas conceptuais para a vida de cada um de nós e, depois, para as comunidades. Procuremos então, e com afinco, uma nova época para um futuro possível para aqueles que nos hão-de sobreviver.

30 agosto 2020

prazer de estar

a vida nos bosques

Já não sei onde li sobre este autor e em particular sobre esta sua obra, mas sei que foi o meu fascínio pela possibilidade de isolamento, afastamento e solidão, que me levou à sua descoberta e leitura. Demorei mais tempo do que o habitual para o ler, porque outras leituras e outros interesses se intrometeram. Só agora, em férias, consegui terminá-lo.

Henry David Thoreau (1817-1862) foi um autor de meados do século XIX e, em vida, apenas publicou duas obras, sendo uma delas este "Walden", que é um tremendo e detalhado relato da sua experiência de vida sozinho e isolado, nas margens do lago Walden, rodeado de densa floresta e a quilómetros das povoações vizinhas. É também uma reflexão sobre a essência da existência humana - das suas ambições, necessidades, angustias e curiosidades. Gostei muito desses capítulos em que o autor reflecte sobre a sua existência, sobre o sentido da sua vida e sobre a beleza da vida num ambiente natural, desprovido de materialidades e isento da socialização humana. Gostei menos e até achei aborrecidos os capítulos em que ele se dedica a quantificar cumprimentos, larguras, profundidades, quantidades de pregos e tábuas, espessuras de gelos, etc., etc. Percebo o sucesso, à época, desta singular obra.

Deixei os bosques por uma razão tão boa como aquela que para lá me levou. Talvez por me ter parecido que tinha várias vidas para viver, não podendo desperdiçar mais tempo com aquela. É impressionante a facilidade com que insensivelmente caímos numa determinada rotina e estabelecemos para nós um trilho batido. (...) Quão arraigados os hábitos da tradição e do conformismo! Não quis comprar uma passagem num compartimento fechado para poder viajar defronte do mastro e no convés do mundo, porque de lá podia apreciar melhor o luar entre as montanhas. E não desejo agora descer ao compartimento. (Thoreau, 2018,350)

mediascape: desresponsabilização

O país levantou-se em peso contra um desabafo em off do primeiro-ministro que qualicou de “cobardes” dois ou três médicos envolvidos nos acontecimentos do lar de Reguengos de Monsaraz. Houve a imediata tentativa de transformar as suas palavras numa ofensa à classe médica, manchando o seu papel “heróico” no combate à pandemia. Independentemente de eventuais razões políticas, só consigo encontrar uma justicação para o facto de a Ordem dos Médicos ter criticado sistematicamente todas e cada uma das decisões do Governo: defender o seu interesse corporativo. Se alguma coisa corresse mal... Qualquer entidade pública ou privada que enfrente um problema, antes de o comunicar a quem deve resolvê-lo, comunica-o à comunicação social. Não vejo outro motivo, na generalidade dos casos, que não o da desresponsabilização. A ideia de que um organismo ou uma instituição, se têm um problema, a primeira coisa que devem fazer é tentar resolvê-lo com os meios de que dispõem não faz parte dos hábitos da sociedade portuguesa.
( Teresa de Sousa, in jornal Público - 30/08/20202 )

28 agosto 2020

gabriela

restaurante Gabriela em Sendim (Miranda do Douro)

Ontem, dia 27 de Agosto, aproveitando uma viagem até às terras de Miranda, resolvemos regressar à famosa e antiga Gabriela. Eu conheci-a já no século passado, talvez em 1995 ou 1996 e sempre guardei esse momento como uma experiência superlativa. A verdade é que nunca mais lá regressei e só agora, passados mais de vinte anos, se proporcionou lá voltar. Sendo monotemático, ou seja, servindo apenas posta de vitela, quem lá vai já sabe com o que pode contar. Nesse aspecto não houve alterações e a qualidade da carne mantém-se excelente. Contudo, vim de lá um tanto ou quanto desiludido, pois a memória que guardara dessa primeira e única experiência foi tão boa, eu diria, quase idílica, que agora só poderia ser pior. De facto, apesar da boa qualidade da carne, a Gabriela de Sendim, já não é o que um dia foi e há outros restaurantes na região, e até fora dela, que conseguem vender melhores versões da posta de vitela. Não sei se valerá a pena lá regressar. 

25 agosto 2020

finalmente a LER

LER Inverno 2019/2020 - nº 156

24 agosto 2020

visitas

Tinha três cadeiras em minha casa: uma para a solidão, duas para a amizade e três para reuniões. Quando chegavam visitas em número maior e inesperado havia apenas a terceira daquelas cadeiras para todos, que, em geral, economizavam espaço ficando de pé.

Henry David Thoreau, in "Walden ou a vida nos bosques" (1854).

21 agosto 2020

desinfestação

Hoje, dia em que iremos de férias, é dia também da higienização anual dos meus livros. Aproveitando o facto de que iremos estar ausentes cerca de três semanas, ainda que a espaços alguém venha a casa, acabei de encharcar os móveis e estantes com naftalina. Bem sei que o cheiro é tremendo e insuportável para muita boa gente, um anacronismo em desuso, mas tem sido remédio santo para a praga das traças que me vão devorando os livros. Assim, pelo menos, mantenho-as bem longe e sei que quando regressar vou encontrar um cemitério delas. Bendita naftalina.

19 agosto 2020

tédio

Em férias desde o início do mês de Agosto, permaneço confinado às paredes de minha casa. Apesar de já ter saído uma ou outra vez para passear, a maioria das horas e dias são passadas dentro de casa. Se durante o confinamento, as rotinas estavam estabelecidas e fomos dando conta do recado, agora que já não somos obrigados a estar fechados, os dias e suas horas custam a passar. Sempre fui muito caseiro e sempre gostei de estar em casa, mas tem sido um tormento o tédio que se apoderou de mim. Não me apetece fazer nada: nem ler, nem escrever, nem TV, filme ou série. Não me consigo concentrar em nenhuma tarefa. Apenas me apetece sair daqui. Para onde? Não sei, para lugar nenhum ou para qualquer um. Estou cansado de estar em casa e este tédio estraga-me os dias de "férias".

16 agosto 2020

mediascape:lamentável

Já aqui me referi ao lamentável facto de Lisboa ter acolhido os jogos das fases finais da Liga dos Campeões deste ano, mas só agora, quando a fase dos quartos-de-final já terminou, me apercebi que afinal os portugueses não podem televisionar os jogos. Que raio pode interessar aos portugueses uma competição à qual não podem assistir no estádio, nem assistir à sua transmissão televisiva? A detentora dos direitos de transmissão para Portugal é uma empresa chamada Eleven Sports, que nem eu nem grande parte dos portugueses conhecemos, e que tem um serviço disponível mediante o pagamento de uma mensalidade.

Quando vi o solene e excitado anúncio realizado pelos nossos governantes desta competição, seria expectável que pudéssemos assistir aos jogos. Não, equívoco nosso, afinal não foi um prémio para os portugueses e, em particular, para os profissionais de saúde. É só para alguns, para aqueles que podem e querem pagar para ver. Lamentável.

12 agosto 2020

the literary man hotel



Quando na sexta-feira à noite, dia 31 de Julho, se decidiu visitar as Berlengas nesse fim-de-semana, achámos por bem aproveitar para visitar mais alguns locais da região saloia e, por isso, tratei de procurar hotel para a noite de Sábado para Domingo. A primeira opção que me apareceu no monitor do booking foi este hotel em Óbidos. Espreitei duas ou três fotografias e nem precisei ver outras ofertas, não hesitei e de imediato fiz reserva. Adoraria ter a minha casa, o meu espaço, assim decorada - da cozinha, passando pelos corredores e casas-de-banho, terminando nos quartos. Um conforto.

11 agosto 2020

tanta parra para tão pouca uva



Eu já cá estive há muitos anos. Algures na década de 90 do século passado e a memória que guardei deste lugar em nada se assemelha com aquilo que agora encontrei. Numa perspectiva semiótica, consigo perceber o esforço realizado para a patrimonialização e valorização do território e suas actividades económicas. No entanto, não posso deixar de partilhar a relativa desilusão face àquilo que é promovido e à imagem construída para o turismo nacional e até internacional. Óbidos, ou melhor, o seu casco histórico é um lugar bonito e bem preservado, mas a sensação com que fiquei encaixará na perfeição no velho e popular dito: "tanta parra para tão pouca uva".

10 agosto 2020

a Berlenga





Sugerido pela minha filha, no primeiro dia de Agosto viajámos até Peniche com a intenção de visitar as famosas ilhas das Berlengas. Não conseguindo escapar às lógicas e dinâmicas do turismo local, a única forma de aceder a esse território insular é a bordo numa das embarcações dedicadas a transportar turistas entre a marina de Peniche e a ilha maior - a Berlenga Grande. Depois de quase uma hora de viagem lá chegámos e desembarcámos no chamado aldeamento dos pescadores. Passeamos pelos trilhos da ilha e visitámos o forte de S. João Baptista. Regressámos para perto do porto à espera da hora de regresso ao continente. Nesse entretanto, escrevi:

Estou sentado numa pequena e única esplanada, sobranceira ao porto, no aldeamento dos pescadores. A Andreia e os miúdos foram até uma pequena enseada, encaixada entre as arribas, pois eles queriam meter-se na água, aqui limpa e transparente. Estou sentado de frente para uma íngreme arriba, no cimo da qual vejo o topo vermelho da estrutura metálica do farol da ilha. Pelas conversas que ouço à minha volta, estes negócios de transporte e acomodação de turistas são explorados por pequenas empresas familiares e todos se conhecem. O aldeamento, pelo que percebo, serve apenas de abrigo e suporte às actividades existentes - mergulho, vigilância e conservação da natureza, turismo, etc. Existe um restaurante, mas este ano está fechado e em remodelação. Neste pequeno bar, servem apenas sandes, saladas, pastelaria, gelados e, claro, bebidas. Como é já hora de almoço, chegam-me odores variados de carnes e, principalmente, peixes grelhados.

É um território inóspito e árido, sem qualquer condição para a existência ou permanência de vida humana. É uma reserva natural, santuário para aves marinhas, de beleza agreste e selvagem. Enquanto vou bebendo cerveja, imagino o que seria este lugar sem o movimento turístico e como gostaria de aqui vir passar uma temporada de isolamento ou retiro. Isto dito depois de uma fase de confinamento parece parvo, mas esta ideia de ilhéu, obrigatoriamente isolado, fascina-me. Por fim, e sem excluir algum sentimento de inveja, avisto ao largo, vários iates, veleiros e lanchas ancoradas, que estarão abrigados pelas arribas da ilha, num intervalo das suas possíveis longas viagens.