31 dezembro 2007

26 dezembro 2007

A História de uma Abelha

Aproveitando o sossego e o retiro destes dias do bacalhau, para sair de casa e distrair a criança, fomos ao cinema. Pela primeira vez em Bragança, com a companhia da Emília, assistí ao último sucesso de animação, na sua versão portuguesa. Aconselho, vivamente, todos os miúdos e graúdos.

“A História de Uma Abelha” (BEE MOVIE) é a romântica história de Barry Bee Benson (Jerry Seinfeld), uma abelha recém saída da universidade desiludida com a perspectiva de ter apenas uma saída profissional – fabricar Mel.
Numa inesperada oportunidade de sair da colmeia, a vida de Barry é salva por Vanessa, uma florista de Nova Iorque. À medida que a sua relação floresce, os olhos de Barry abrem-se para o mundo dos humanos e ele rapidamente descobre que as pessoas têm uma papel decisivo no consumo de mel em larga escala. Armado com esta informação, Barry apercebe-se da sua verdadeira missão na vida e decide processar a raça humana por roubar o mel às abelhas. Como resultado, as comunidades de humanos e abelhas envolvem-se como nunca antes, cada uma apontando o dedo à outra. Barry é apanhado no meio e dá consigo com problemas bastante invulgares para resolver…
(aproveita-se o parêntesis para, num discurso socialmente correcto, desejar a todos, um rico futuro...)

17 dezembro 2007

(des)Concertação Social

Dia do acordar, em sede de concertação social, do aumento do salário mínimo nacional para o ano de 2008. As reacções públicas já conhecidas são unânimes no elogio deste acordo e o mais folclórico, como não poderia deixar de ser, foi o do Governo, nomeadamente, do 1º Ministro que, visivelmente satisfeito, não se conteve nos auto-elogios.
A verdade é que este aumento, na ordem dos 5,7%, é o maior aumento conseguido nos últimos 10 anos e, objectivamente, signficará que o salário nacional passará de cerca 403 para 426 euros. Se isto é positivo?... não me parece. É pouco... será, por algum tempo mais, pouco. Muito pouco. No entanto, esta é uma daquelas contra-producências recorrentes na governação do país, uma vez que, ano após ano, assistimos, por esta mesma razão, ao encerramento de inúmeras empresas, fazendo com que o pouco passe a nada. Esperemos que este ano possa ser diferente.

14 dezembro 2007

O Rei irá nú!?

Mesmo no findar deste dia, histórico para quem manda nesta europa, registo aqui aquilo que me atormenta o ser. Entretanto, quero que saibam que hoje nada ví, lí ou ouví acerca deste passeio milionário de eléctrico.
Porque será que esta europa foi pensada, construída e, agora, acordada, ao revés dos cidadãos!?... Porque será que a europa agora negociada e contratualizada só acontece porque os cidadãos europeus não foram tidos nem achados!?....
Pois é, tal como diz a história, o rei vai nú, mas não sabe de tal condição. Estes reis, os europeus, vão nús e também não o sabem, mas vão saber e não tardará.

10 dezembro 2007

TMN

Sou fidelizado à TMN desde sempre, ou seja, desde o primeiro momento (MIMO) em que tive acesso a esse advento das comunicações móveis. Foram já vários os aparelhos e os tarifários adoptados. Recentemente, adoptei por uma solução empresarial, o que me permitiu, desde logo, adquirir sem custos equipamento superior e de (suposta) excelente qualidade, depois e também, algo que muitos amigos meus já faziam há anos, pude começar a amealhar pontos (por cada euro gasto recebo 1 ponto), e por fim, passei de carregamentos pré-pagos, para facturação "pós-paga". Muito bem e genericamente satisfeito com o serviço, fui amealhando os preciosos pontos, na esperança de um dia os poder utilizar na aquisição de um qualquer novo modelo. Até hoje, dia em que resolvi visitar a loja TMN mais perto e, confiante e acertivo, disse ao "menino" que me atendeu, que pretendia trocar os meus pontos (hoje cerca de 2000) por um novo equipamento. Na resposta, calma e simpática, encontrei o rápido caminho para a hesitação, depois para o desconforto e, por fim, para a revolta e a irritação. Então não é que o meu contrato não me permite trocar os pontos por equipamentos!?... Aliás, segundo percebi, no meu caso, só posso trocar os pontos por vales de desconto, vejam bem, na FNAC! Merda.
Agradeci e acabou.

Assim estão os meus joelhos

Cada vez mais admiro e respeito a ciência médica e aqueles(as) que a executam e interpretam. É, de facto, necessária uma condição superior.
Todos aqueles, poucos, que por aqui vão passando saberão do problema mecânico que apresento e que se tem prolongado ao longo do tempo, sem que nenhum desses "especialistas" o consigam diagnosticar.
A inicial declaração ganha força com o mais recente relatório médico, resultante de uma TAC realizada aos dois joelhos e que, julgo eu, é ilegível para o comum dos mortais. Por isso, só por isso, aqui o transcrevo. O documento actualiza o estado destas duas peças mecânicas, essenciais para o bom funcionamento da "máquina".
Digam lá se não é do caraças!?... e, já agora, se percebem alguma coisa!?...
Joelho Direito:
Não se observa descontinuidade dos arcos meniscais que indiquem laceração meniscal com tradução tomodensitométrica.
Não há também sinais de roturas dos ligamentos cruzados e dos complexos ligamentares colaterais.
O tendão quadricipital não mostra alterações.
Derrame articular com distensão do recesso supra-rotuliano sem que se identifiquem corpos livres calcificados intra-articulares.
Coexiste fina lamina de liquido na bursa do gastrocnémio/semi-membranoso formando uma discreta bursite de Baker.
Remodelação osteofitária mínima no corno femoral medial por osteoartrose incipiente no compartimento femuro-tibial medial sem lesões císticas geódicas subcondrais. Nota-se uma discreta esclerose subcondral na faceta lateral da rotula admitindo-se patologia degenerativa incipiente fmuro-rotuliana, constatando-se no entanto normal o alinhamento da rotula da troclea femoral na posição do estudo.
Joelho Esquerdo:
Aspecto atenuado de ambos os meniscos não se notando no entanto lesões e continuidade evidente do tipo fractura meniscal.
Não há sinais de rotura dos ligamentos cruzados e dos complexos ligamentares colaterais. O tendão rotuliano não mostra também alterações.
Derrame articular de médio volume com distensão do recesso supra-rotuliano também sem imagens atribuíveis a corpos livres calcificados intra-articulares. Nota-se no entanto marcada distensão da bursa do gastrocnémio/semi-membranoso formando um volumoso quisto de Baker que se estende longitudinalmnte por cerca de 8 cm e medindo um diâmetro transverso máximo de 4 cm, com um diâmetro antero-posterior que não excede os 2 cm; não se definem corpos livres calcificados intra-bursais nem há alteração da gordura adjacente que indique inflamação ou rotura do quisto de Baker.
Alterações degenerativas mínimas no compartimento femuro-tibial medial com uma discreta remodelação osteofitária marginal do respectivo condilo femoral sem áreas de esclerose ou transformação cística geódica sub-condral. Tal como no joelho direito questionam-se alterações degenerativas mínimas no compartimento femuro-rotuliano com uma ligeira esclerose subcondral da vertente lateral da rotula, sem evidente báscula ou subluxação lateral mas de avaliação limitada pelo derrame articular.

04 dezembro 2007

Apreensivo!

Porque há dias foi notícia, mas eu não tive tempo para aqui o referir, e porque, desde então, vivo angustiado, partilho com todos a minha apreensão com o recente reavivar do espatafurdio acordo ortográfico com o Brasil. Não consigo perceber a necessidade de tal "coisa". Afinal, daquilo que conheço, o Português do Brasil é Brasileiro e é algo estranho ao Português, portanto, o caminho deveria ser o contrário. Mas esta é a minha opinião... se houver quem me possa ajudar a perceber tal, só agradeço. Obrigado!

Gerundio de Ler

O mais recente livro de VPV (só para os amigos, que no seu caso, são todos os que gastam dinheiro com os seus livros). Acabado de adquirir e, logo, lido... pouco mais de 100 páginas dedicadas a esse "lugar" cujos sinónimos me abstenho de inumerar...

"Louis Henri Loison, o general maneta que participou nas primeiras invasões sob o comando de Junot, e que aterrorizou o Portugal criando a expressão popular «ir pró maneta»"

Mascararte - 3ª Bienal da Máscara

Com esta fotografia (que tirei algures na década de 1990) ganhei o segundo prémio do concurso de fotografia da 3ª Bienal da Máscara em Bragança. O esforço foi mínimo, apenas tive que ir ao "báu" e escolher. O que se manifestou um grande problema, pois hesitei muito... a selecção foi difícil. Só podia enviar três trabalhos. Parece que afinal escolhi bem. Os prémios serão entregues dia 15 de Dezembro no Teatro Municipal de Bragança, a partir das 23 horas. Lá estarei.

25 novembro 2007

De Pavia a Valadares

Ao volante deste clássico das quatro rodas viajei do Alto Alentejo até Gaia durante longas e silenciosas cinco horas. A uma velocidade média de 80 kms por hora, sem rádio, sem vidros abertos e com direito a ar forçado, revivi algumas sensações de tempos já idos, das primeiras aventuras ao volante da velha Renault 12 de meu pai (sempre, ou quase, com o consentimento de minha mãe e respectivo desconhecimento do pai...). A nudez dos interiores, a resistência da direcção, os elevadores manuais dos vidros, a caixa de velocidades tipo tractor, a mão que de vez em quando tem que desembacear o vidro, as paragens periódicas para o carro arrefecer, o conjunto de chaves (uma para a ignição, uma outra para as portas e ainda outra para o depósito de gasolina), os cheiros, o volante de material degradável, a buzina fora do volante (no manipulo dos piscas), e mais, por exemplo, a uma velocidade de cruzeiro de 100 kms por hora, não consegui ultrapassar um único veiculo, ligeiro ou pesado... o que indica desde logo que, por este país de IPs e ICs "ninguém" viaja abaixo dessa velocidade. De resto, confesso também que, ao contrário do que acontece no dia-a-dia, foi uma condução com emoção e prazer.

24 novembro 2007

Natalidade, Interioridade e o Presidente

"Eu não acredito que tenha desaparecido dos portugueses o entusiasmo de trazer vidas novas ao mundo" (Presidente da República Anibal Cavaco Silva, hoje na Guarda)
Sr. Presidente, cá por mim é sempre um prazer e só de pensar no assunto já estou a ficar entusiasmado…
Em visita por terras da Guarda, o Presidente da República resolveu abordar o problema da baixa natalidade. Até aqui tudo bem, mas a abordagem não podia ter sido pior. Para além de responsabilizar todos os cidadãos portugueses por não cuidarem do futuro e continuidade da nossa nacionalidade, pateticamente ingénuo pergunta:
- Porque é que nascem tão poucas crianças em Portugal?
- O que é preciso fazer para que nasçam mais crianças em Portugal?
Não sei como é que a plateia que o ouvia não desatou à gargalhada!?.....

23 novembro 2007

Tabuada do Tempo *

Esta será também uma homenagem ao meu tempo e a todos aqueles que ao longo dele tiveram por missão ensinar-me e explicar-me a "tabuada". Segundo me fazem saber os meus primeiros e últimos mestres, ainda por cima, em acumulação com o fardo da progenitura, nunca terei sido bom aprendiz, nunca tendo saído da maior e anónima mediocridade escolar.
De facto, todos os anos que passaram neste intervalo de tempo até hoje, serão o resultado de uma qualquer tabuada produzida por alguém; e até podem ter escolhido várias conjugações, pois 2x10=20, como 5x4=20 ou então, 3x7=21, ou ainda, 6x3=18, etc, etc...desconheço qual a escolhida, mas também é-me indiferente. Sei que todo o tempo é passível da tabuada.
O tempo este, o de agora e presente, é o de reproduzir tudo aquilo que um dia produziram em relação a nós. Agora, é a nossa prole que tem que apreender, muitas vezes contrariada, pois a brincadeira é sempre melhor e a responsabilidade ainda não é um conceito esclarecido. Cá por casa, está mais do que percebido que a criança, agora que chegou a sua vez de aprender essa arte de ler e escrever, não acha grande piada às letras, principalmente quando se vê obrigada a juntar, na escrita e na leitura, duas ou mais espécies... o esforço tem sido no sentido de a fazer compreender a necessidade dessa construção, porque na realidade, no seu entendimento, um B e um A é BA (como 1+1=2), mas BA + TA já não tem que ser BATA.
Embuido neste esforço pedagógico familiar, dou comigo a reflectir sobre esta "coisa" básica e elementar que é o alfabeto e o seu domínio. Algo que damos como certo e universal e, por isso, o desvalorizamos. O que é um erro, pois, por incrivel que possa parecer, ainda hoje, há quem não o conheça (analfabetismo), quem não o saiba utilizar (apedeutismo) e também quem não o compreenda (iliteracia). Também, constato que este é o grande primeiro momento, será a primeira alavanca, que permitirá à criança desenvolver o seu individualismo e a sua personalidade. Por fim, estes serão os últimos momentos em que conseguimos enganá-las, ou pelo menos, omitir, ao ler o que nos apetece, como aconteceu até aqui quando questionados...
Acima de tudo interessa-me saber que neste processo ontogenético tudo possa acontecer naturalmente e sem grandes expectativas e/ou exigências. Ser criança, foi, é e quero que continue a ser, sinónimo de ingenuidade, de irresponsabilidade, de liberdade e de criatividade. A seu tempo, depois de muita tabuada conjugada, as responsabilidades chegarão.. Sem pressa.

* - Título de um livro de Cristovão de Aguiar, com o qual me cruzei, um destes dias, nos corredores de uma FNAC.

19 novembro 2007

Arrastões Bancários

Vivemos um tempo em que, a cada dia que passa, chegam até nós, mediaticamente, notícias de assaltos, ou pelo menos tentativas de assaltos, por vezes mais, por vezes menos violentas e dramáticas, a instituições e/ou equipamentos bancários. Custa-me saber que a prática tem vindo a aumentar, mas mais me custa o mediatismo e o sensacionalismo adoptado por aqueles que tem por função informar, aquando do tratamento deste tipo de notícias; é que de nada nos serve, e principalmente, de nada serve às polícias e demais entidades, os testemunhos ignorantes daqueles que assim, e só assim, conseguem os seus 5 segundos de "fama" e "notoriedade".
Hoje, a propósito de mais uma tentativa frustrada de assalto a uma dependência bancária, houve quem, numa tentativa de justificar esta prática e o seu registo frequente, a associasse à recente alteração do código penal, nomeadamente no que diz respeito à nova lei da prisão preventiva. Dizem estes que, esta onda de assaltos está relacionada com a libertação de vários presos preventivos, consequência da entrada em vigor dessa nova lei.
Isto para além de ser extemporâneo, é especulativo e procura, sem dúvida, retirar proveitos políticos.
Sem conseguir alcançar toda a problemática, dado o desconhecimento em pormenor, podemos, contudo, fazer uma leitura "sensorial" da realidade da sociedade e dizer que, às tantas, esta escalada de acções violentas, cujo propósito é conseguir dinheiro, não é estranha ao deterioramento, também em escalada, da situação social e, principalmente, financeira dos indivíduos e das famílias portuguesas, assim como não será estranha ao permanente aumento do desemprego. Desta hipotética relação não ouvi eu, ainda, os "experts" do quinto poder. Aliás, seria interessante, para além de necessário, estudar este fenómeno social, procurando as reais causas e razões, para depois então encontrar as soluções certas e apropriadas.

17 novembro 2007

15 novembro 2007

Que grande entrevista

Com o pc portátil em cima dos joelhos estou a ver o programa semanal de Júdite de Sousa "Grande Entrevista", que hoje entrevista a Dra. Joaquina Madeira, actual Provedora da Casa Pia. Tudo isto acontece depois das primeiras denúncias da Dra. Catalina Pestana que aqui há umas semanas, ao semanário SOL, afirmou que as agressões e as violentações continuam a existir na Casa Pia.
Esta senhora, responsável máxima desta instituição que (des)cuida de cerca de 500 crianças e jovens em regime de internato, passa ao lado de todas as questões. Por mais que a entrevistadora a questione, ela simplesmente não diz nada de relevante. A razão de ser desta entrevista supostamente era saber da própria provedora da instituição o seu conhecimento da realidade, mas ela persistentemente diz que não tem conhecimento de nada...
Aqui está mais um exemplo de um espaço, supostamente, nobre, porque em prime-time, que acaba por ser um flop.
Frase da noite: (a proposito das declarações da antiga provedora) "talvez não tenha sido a melhor forma e a altura para as fazer.... sabe, a casa precisa de tranquilidade!" - eu pergunto: tranquilidade para os porcos dos pedófilos poderem continuar a sua pérfida rotina!?... até quando!?... o verdadeiro problema é que são os próprios donos do sistema que dominam os meios que lhes permitem manter o status actual e só assim se percebe a indignação desta senhora pelas permanentes denúncias relativas à sua instituição.

13 novembro 2007

Reforma da Europa

Passados alguns dias do famoso acordo do Conselho Europeu, em Lisboa, sobre o Tratado Reformador, houve já tempo para conhecer o documento, perceber as lógicas e as tendências e perscrutar as diferentes reacções e opiniões acerca do mesmo.
De facto, o agora acabado e fechado Tratado (de Lisboa) não serve os interesses da Europa, uma vez que assenta em fundamentos neo-liberais e preconiza uma agenda militarista.
Por agora, e após 6 anos de problemas internos, a União Europeia deveria regressar aos seus verdadeiros deveres. Mas não, as alterações acordadas no Tratado apenas abordam os problemas nalguns aspectos e os próximos desafios de forma superficial. E mais, as futuras competências da União Europeia permanecem em aberto. Por outro lado, confirma o poder autoritário do Banco Central Europeu e o seu único objectivo – o controlo dos preços; consagra as políticas do Pacto de Estabilidade, que atingem a Despesa social e o investimento públicos, fazendo recair sobre os mais pobres as consequências das políticas orçamentais restritivas; e insiste no princípio da “concorrência livre e não falseada”, ao abrigo da qual explodiu a precariedade dos vínculos laborais, a diminuição de direitos e a compressão salarial.
Ao mesmo tempo, é, erradamente, apresentado como um acordo, um diagnóstico sobre os mercados de Trabalho na Europa, que na verdade abre caminho à extensão do conceito de flexi-segurança ao conjunto da União. A coberto deste slogan – “flexi-segurança”, o patronato e a Comissão Europeia apostam na desarticulação da Contratação Colectiva, na liberalização dos despedimentos individuais e na precariedade dos vínculos. A sua preocupação não é a segurança mas a flexibilidade, o que desvirtua e descentraliza o valor do Trabalho na construção do projecto europeu. Assistimos a uma regressão de natureza civilizacional. A Europa não precisa de mais flexibilidade porque já tem precariedade a mais. Precisa é de um novo Contrato para a Solidariedade que alargue aos imigrantes, às mulheres e aos jovens, os direitos e regalias sociais como condição para resolver a diferença entre ricos e pobres, povos e regiões.
Apesar de este Tratado reconhecer a Carta dos Direitos Fundamentais, o que, em si, é positivo, não podemos esquecer as insuficiências e as limitações dessa mesma Carta. Assim como, o facto de o novo Tratado aceitar a sua não universalidade no espaço europeu, ao dar à Polónia e ao Reino Unido o direito de optout.
Sendo um filho do Tratado Constitucional, em matéria de Política Externa reafirmam-se todos os objectivos e procedimentos que impedem a União Europeia de ter, no plano mundial, uma política independente dos Estados Unidos. O Tratado consagra a subordinação da defesa europeia à Nato, uma organização militar ofensiva quando, pelo contrário, deveria sustentar a sua dissolução em nome de um sistema de segurança colectiva sob a égide das Nações Unidas; recomenda o aumento das despesas militares, quando deveria fazer precisamente o contrário; e admite o envolvimento de forças multinacionais europeias nas missões militares em nome da defesa dos “valores”(!?) e “interesses”(!?) da União. É esta a dimensão militarista do novo Tratado e a sua subordinação à lógica imperial num momento em que aumentam exponencialmente os riscos de novas guerras. Não aceito esta lógica e defendo o desarmamento da União Europeia, a redução dos orçamentos da Defesa nos Estados-membros e o abandono deste ambiente belicista, que mesmo sob a ameaça do terrorismo global, só tem servido para atacar e coagir os direitos fundamentais dos cidadãos e dos estados ou nações.
O projecto europeu deveria envolver, cada vez mais, os cidadãos de toda a União, através da informação, do esclarecimento e do conhecimento da realidade agora proposta e, depois, a realização de referendos nacionais como garantia de legitimidade e como condição da ratificação parlamentar. Todo o incómodo e mal-estar que se sente junto dos responsáveis e decisores políticos europeus, quando se adianta a hipótese de referendar o Tratado tem fundamento, pois esses senhores (todo-poderosos) não esqueceram aquilo que os holandeses e os franceses, responsável e democraticamente, decidiram ao enterrar o Tratado Constitucional. Com esta fuga estratégica, deixam perceber a sua consciência do real e efectivo afastamento das populações em relação às políticas e à própria ideia de Europa. Assim, por temerem reacções adversas evitam a todo o custo os referendos nacionais.
É assim que, cada vez mais estou certo de ser já o tempo de aposentar esta União, que ao longo da sua já longa existência nunca foi, minimamente, compreendida e que, provavelmente, nunca convenceu os cidadãos. Apenas essa elite que é a classe política e dirigente, nos centros de decisão e de poder, foram assumindo e acreditando, em nome de todos e ao longo destas décadas, no compromisso da construção europeia.
A seu tempo, acontecerá! … O que a Europa precisa, para além das nomenclaturas, é um novo Tratado refundador dos valores, dos deveres, dos direitos e das regalias sociais que fundaram a diferença do nosso continente no mundo.Por acreditar numa Europa aberta a todos e a todas que nela vivem, considero indispensável a realização, em Portugal, de um referendo que questione os portugueses se aceitam ou não esta solução. Ainda por cima, o actual Primeiro-Ministro português, quando candidato ao lugar, garantiu (evito o termo “prometeu”) que os portugueses seriam chamados a pronunciar-se acerca desta matéria e seriam democraticamente responsabilizados pela decisão política. Aguardemos.
(publicado no Jornal Nordeste no dia 06/11/07)

10 novembro 2007

a moderna mania da classe média ocidental de que percebe de vinhos. Basta ver certas cenas em restaurantes com reputação de "Boa Garrafeira" - saloios conferenciando gravemente com o escantão e provando o que lhes põem à frente com fervor de peritos.
(Vasco Pulido Valente, hoje no Público)

Da máfia

Os 10 mandamentos para mafiosos e aspirantes a, devidamente anotados (a azul).
Extraídos de papelinhos, conhecidos por "pizzini" encontrados nos bolsos de Salvatore Lo Piccolo, chefe da máfia siciliana, recentemente detido.
1 - Ninguém se pode apresentar por si mesmo a outro dos nossos amigos. Terá de ser uma terceira pessoa a fazê-lo; (quando o eu passa a ele e o ele passa a eu...)
2 - Não cobiçar as mulheres dos amigos; (só a daqueles que não são amigos)
3 - Nunca ser visto com polícias; (senão morre!)
4 - Não frequentar bares; (apenas a Igreja e as casas da família e amigos - leia-se mafiosos)
5 - Estar sempre disponível para a Cosa Nostra; (claro, haverá outra hipótese!?...)
6 - As nomeações devem ser absolutamente respeitadas; (afinal quem manda é o mister... quem joga ou não joga... quem vive ou não vive... quem morre ou não morre...)
7 - As mulheres devem ser tratadas com respeito; (ora aqui está um exemplo vivo do maior dos discursos machistas e chauvinistas)
8 - Quando interrogados, responder sempre com a verdade; (estranho.... então e se for a polícia a interrogar!?... dizem a verdade?)
9 - O dinheiro não pode ser apropriado se pertencer a outros ou a outras famílias; (então a máfia não é uma actividade ilícita de extorsão e de coação!?)
10 - Não é possível ter relações com a polícia; (se tiver bigode e cheire mal dos sovacos...)

06 novembro 2007

José Socrates versus Santana Lopes III

Das restantes intervenções registo as seguintes expressões:
"Tudo sobe acima da inflação" (Jerónimo de Sousa)
"Os Srs. (PCP) nunca querem mudar nada!..." (José Socrates)
"Acabou por ser um momento do canal memória!... Sr. 1º Ministro mude de canal!" (Paulo Portas)
"O Sr. Deputado (Paulo Portas) já merecia que alguém lhe dissesse isto!" (José Socrates)
"Tanta expectativa e afinal... é altura de devolver os bilhetes! Pois afinal só tivemos direito à velha direita." (Francisco Louçã)

José Socrates versus Santana Lopes II

A primeira intervensão de Santana Lopes pareceu-me mais direccionada para a sua própria bancada do que para o 1º Ministro e Governo. Não questiona sequer o orçamento e já depois de o Presidente da AM o ter avisado do fim do seu tempo, lá puxou pelo IVA e IRS... pouco ou nada. José Socrates agradeceu e não perdeu nova oportunidade para fazer comparações.

José Socrates versus Santana Lopes I

Em directo, através da Antena 1, acompanho o debate quinzenal com o 1º ministro. Nesta primeira intervenção introdutória, de realçar a permanente necessidade que o nosso 1º ministro tem de fazer comparações com os 3 anos anteriores ao seu mandato... ou seja, partiu desde logo para o ataque, defendendo assim o seu mandato (sempre se disse que a melhor defesa é o ataque). Segundo dizem, Santana Lopes permanece impávido e sereno, enquanto Paulo Portas não para de escrever...

05 novembro 2007

Feriados, Pontes, Fins-de-Semana e Afins

Lugares por onde andámos nestes últimos sete dias, em género de férias...


02 novembro 2007

Palco

A não perder hoje, bem tarde, no Palco da RTP2 (anunciado para as 2 da manhã), PJ Harvey "On Tour" e Rufus Wainwright "Live at Filmore.

31 outubro 2007

Qualidade

Miguel Vale de Almeida apresentou à poucos dias a sua página de internet, associada ao seu blog "Os Tempos que Correm". Foi a minha mais recente descoberta. Muito bom visual e graficamente. O conteúdo, tal como não poderia deixar de ser, é excelente e reafirma a qualidade do autor. Há muito acompanho a obra do Miguel, mas desconhecia o seu blog e, agora, o seu lugar. Aconselho, fundamentalmente, por uma questão de bom gosto.

29 outubro 2007

Gerundio de Ler

Mesmo antes de chegar a público, já eu o procurava. Acabou por vir até mim através do meu amigo Lourenço. Preciso-o pelo contraditório...

26 outubro 2007

Pensamentos de George

Numa breve sessão de perguntas e respostas, depois de uma palestra na Fundação Gulbenkian, Jeorge Steiner vai pensando em voz alta...

Morrem diariamente pessoas à fome e, embora existam meios para o evitar, ninguém faz nada.

Espanta-me que os pobres não se revoltem.

Não percebo como é que ainda não foi assassinado nenhum desses empresários que encerram fábricas e depois se metem nos seus jactos privados para ir passar férias a Barbados.

(na China com a preparação dos Jogos Olímpicos de Pequim) Estão a limpar ruas inteiras e a despejar as pessoas das suas casas.

Se vier a surgir um novo Platão ou um novo Mozart, ele será indiano...

A cultura ocidental está muito, muito cansada. (....) tivemos uns óptimos dois mil anos, agora devemos dar a vez a outros.

(o que vai substituir a religião!?...) Dará com certeza origem a outra coisa qualquer, porque a maior parte das pessoas não conseguiria suportar o vazio.
- Ideias soltas retiradas do P2 do Jornal Público desta Sexta-feira -

22 outubro 2007

O que nos sobrevive?

Sem grandes preocupações mas embalado pela grandiosidade do som da Antena 2, medito sobre esta questão existencial, que os humanos transportam e que perdura no tempo, de geração em geração, como uma verdade absoluta e universal.
Falo, num primeiro momento, da morte, esse derradeiro momento que todos e todas, os vivos, podem encarar como certo. Mais tarde ou mais cedo, através de diferentes processos, mais ou menos dolorosos e penosos, acontece a todos e a cada um. Independentemente da percepção e da atitude perante esse abrupto momento único e intransmissível, pessoalmente, não me assusta ou inquieta a alma. Custa-me antecipar ou antever o sofrimento inerente a tantos e tantos momentos que precedem a morte. O resto, em consciência, não importa... para onde vamos, como vamos, porque vamos?... serão sempre questões menores.
A esta distância, que nunca sabemos se curta ou longa, pergunto-me sobre o que restará de nós!?... Bem sabendo que o mundo e a vida prosseguirão naturalmente o seu percurso e o tempo não parará, tenho para mim que, por muito que vivámos, a nossa existência será sempre pequena e insignificante relativamente ao que há-de vir.
É neste tipo de raciocínio que parto para a segunda parte, motivação deste texto. A questão é aterradoramente simples e, muito provavemente, cada humano, um dia, a colocou... o que irá sobreviver de nós, à nossa morte? Se a pergunta é simples, a resposta de simples nada tem, até porque nunca ninguém o pode afirmar ou confirmar.
O Homem religioso responderia, sem qualquer dúvida, que a mente sobrevive num outro plano e num outro estado. O Homem místico garantíria que haveria algo mais, não precisando, afirmaria outras experiências. O Homem da ciência, tipicamente agnóstico e racional, provaria que tudo não passa de matéria, logo e consequentemente, tudo se transforma em algo.
Para mim, e num esforço eclético, aceito e respeito todas as hipóteses ou possibilidades. No entanto, prefiro a célebre e sábia frase que diz que a missão de cada indivíduo estará completa quando a sua obra contempla: um filho, uma árvore e um livro. Contudo, parece-me que este raciocínio é húmilde e pouco ambicioso, assumindo uma atitude economicista. Acredito que podemos e devemos produzir mais... muito mais somos capazes de atingir e, isso sim, concerteza, perdurará ao nosso tempo.

19 outubro 2007

Como pode ser!?...

Há doentes a aguardar cinco meses por uma consulta no Sistema Nacional de Saúde. (Jornal Público)

17 outubro 2007

Desarranjo

Nunca gostei de fazer os outros esperar por mim, nem nunca gostei de saber que estou a incomodar ou desestabilizar a vida de terceiros. Muito pelo contrário. Ao pôr a hipótese que poderei estar a ser inconveniente e transtornar a vida a alguém, abstenho-me, sequer, de incomodar.
Poderia dar inúmeros exemplos ou situações em que tal sucedeu. Mas que importa!?...
Sei que, sempre que tenho um compromisso, faço os possíveis, e mais, para estar, não a horas, mas sim uns minutos antes, para não fazer esperar quem quer que seja. Esta minha obsessão, sei, irrita e enerva aqueles que me rodeiam, pois estou permanentemente preocupado com os horários a cumprir.
Não gosto das pessoas que abusam da boa vontade dos outros, neste caso de mim. Principalmente quando esse abuso causa evidentes transtornos e nos desarranja o normal desenrolar do quotidiano. Desculpem o desarranjo.

16 outubro 2007

Perdoa-me !?

O BCP terá perdoado 15 milhões de euros de juros a empresas controladas por José Goes Ferreira, accionista do BCP. O mesmo banco terá também perdoado uma dívida a Filipe Jardim Gonçalves, filho do presidente do conselho geral do BCP Jardim Gonçalves, no valor de 12 milhões de euros. Dois dos maiores accionistas, Pedro Teixeira Duarte e Joe Berardo, pediram explicações ao presidente da comissão de auditoria do banco. O Banco de Portugal disse que não tem comentários a fazer.
Eu também sou cliente do BCP.
Eu também sou um devedor ao BCP.
Eu também não quero pagar a minha dívida.
Eu também quero ser perdoado.

12 outubro 2007

Prémio Nobel

Foi ontém conhecido o vencedor, neste caso vencedora, do Nobel da Literatura 2007. Trata-se de Doris Lessing, romancista nascida na antiga Pérsia e desde há muitos anos a residir em Londres.
Não me posso pronunciar quanto ao mérito ou justiça desta distinção, pois para mim, esta senhora é uma perfeita desconhecida, assim como o seu trabalho e a sua obra o são e serão.
O que julgo pertinente e interessante, do ponto de vista da observação e análise, é o facto de, a partir de hoje e durante os próximos meses, os seus livros passarem a grandes éxitos comerciais. Curioso comportamento este dos leitores mundiais... afinal em que ficamos!?... É-se distinguido e galardoado com o Nobel da Literatura porque o trabalho produzido tem qualidade superior e é reconhecido, ou só se é reconhecido e passa a ser bom porque se ganhou o Nobel!?...

11 outubro 2007

Fight Club

Nas horas tardias dos serões destes últimos tempos, e porque nada ou pouco me atrai e me prende à televisão, numa atitude que entendo ansiosa, utilizando o comando, vou alternando de canal, consecutivamente e a uma velocidade considerável, na expectativa de encontrar algo bom.
Dos pacotes standartizados que os operadores da televisão por cabo disponibilizam aos clientes, que podem ser até dezenas de canais, eu usufruo de apenas alguns, talvez uns dez. A propósito, gostaria de por à consideração a possibilidade de cada um dos clientes puderem escolher e criarem uma lista personalizada de canais, que seriam pagos individualmente e, assim, ajustar as grelhas às necessidades e aos gostos de cada cliente.
Mas regressando às noites dos tais dias, em que vou saltando de canal em canal, por vezes consigo suster tal ímpeto e movimento no canal EuroSport, que na sua programação, por volta das 22 ou 23 horas, emite torneios de Fight Club. A verdade é que dou comigo perfeitamente hipnotizado pela pré-disposição daqueles individuos para a violência e, principalmente, a disponibilidade para serem violentamente agredidos.
Chegados aqui e depois desta surpreendente revelação (para mim próprio), interessa fazer uma declaração de interesses, pois considero-me um individuo estupidamente pacífico, que recrimina qualquer expressão de violência e que, ao longo do tempo, o meu tempo, se tem esquivado à mais insignificante manifestação de força.
Num esforço introspectivo e, fundamentalmente, retrospectivo até às idades de menino ou petiz, apenas guardo na memória um episódio no qual assumi o papel de protagonista lutador: algures na década de 80, agredi cobardemente (porque de costas), um outro miudo, vizinho e companheiro de brincadeiras. E tudo durante um partida de damas... sei que a dada altura agarrei no tabuleiro das damas, de madeira, e dei-lhe com toda a força nas costas com esse pedaço de madeira, que acabou por se partir em pedaços. Quim era o seu nome.
Para além deste momento, nada mais digno de registo. Portanto, acabou por ser uma descoberta, o facto de conseguir tolerar estas actividades... que alguns consideram desporto. De facto, e apesar da efectiva violência, entre os participantes há lealdade e correcção. Agrada-me, quando comparado com outros desportos, a rapidez dos combates - 3 rounds de 3 minutos cada, o que obriga a uma intensa acção.
Lembro também, agora e aqui, até porque desconfio que quem aqui chegou, quando se deparou com o título adoptado, teve no pensamento o filme homónimo protagonizado pelo grande Edward Norton. Na verdade e por fim, um título para se ter e rever.

10 outubro 2007

Antropomorfização do Território

A propósito do Plano de Ordenamento do Parque Natural de Montesinho, que se encontra, até ao próximo dia 17 de Outubro, em período de discussão pública, na qual participei enquanto membro da Assembleia Municipal de Bragança, mas acima de tudo, participante enquanto cidadão atento e preocupado com a realidade local e regional, permito-me agora, informado e conhecedor do documento em questão, tecer algumas considerações e criticar aquilo que considero ser um perfeito disparate que em nada beneficiará a região e, principalmente, as populações locais.
Sou um defensor da existência das áreas, das reservas e dos parques naturais, e neste caso concreto, quero que o Parque Natural de Montesinho (PNM) exista, que seja uma reserva da natureza e que a marca respectiva seja reconhecida e com sucesso. Valorizo a preocupação, a realização e a existência de um plano que estruture e enquadre administrativamente o território do Parque. Acredito também, na competência e na honestidade intelectual da equipa de técnicos responsáveis pela elaboração deste documento, pois sendo elementos pertencentes a uma organização, o ICNB, que promove a conservação da natureza e a biodiversidade, será legitimo que de uma forma evidente, declarada e inequívoca, privilegiem todos os elementos e caracteres naturais, endógenos e autóctones em detrimento da maximização da exploração dos recursos por parte do Homem e das Comunidades. Aliás, estranho seria que a atitude do ICNB fosse outra ou díspar.
Para além dos pormenores mais técnicos e específicos, interessa-me referir aquilo que considero ser o pecado original deste Plano de Ordenamento. O seu total distanciamento do HOMEM e das suas Comunidades.
Há um conjunto de práticas, um corpus habilitis e um modus faciendi, que têm permitido a permanência dessas comunidades neste habitat natural que é o território do PNM e que este Plano de Ordenamento poderá, a curto, a médio ou longo prazo, pôr em causa.
O Homem necessita de se identificar com o espaço que o rodeia. Pertencemos a um grupo com o qual partilhamos uma experiência temporal num determinado território, enquanto espaço produzido, entendido e organizado. Ocupamos caminhos, frequentamos lugares, como os cafés ou tabernas, cultivamos as terras, vamos à missa, etc., sempre tendo em conta a identidade partilhada com o grupo a que pertencemos. Viver é isto...
Estas práticas e representações estão intrinsecamente ligadas à paisagem e à vivência quotidiana, relacionando as necessidades mais vitais com o entrosamento dos habitantes de uma comunidade. Assim, poderemos compreender as fortes raízes que nos prendem ao território e como ele é importante e omnipresente, na estrutura lógica das representações e significados.
Por exemplo, os campos e as bouças que formam estrutura com a casa. Estes espaços possuídos e trabalhados por uma família e pela comunidade não são homogéneos e têm valores diferentes, pois a natureza dos terrenos predispõem-nos para diferentes cultivos e, por questões de prestígio, algumas parcelas podem ter cultivos mais cuidados. Assim, os diversos campos adquirem intimas relações com os trabalhos, as estações do ano e os produtos. Assistimos, então, à antropomorfização dos territórios, pois não há comunidade rural – freguesia, aldeia ou lugar, que não reconheça por um determinado nome cada recanto do seu território. Nomes como veiga, teixo, portela, fraga longa, lama, ribeira ou couto são frequentes nos termos e indicam um eterno sentido de pertença que tem, no entanto, um duplo sentido, uma vez que os indivíduos moldam o espaço, ao mesmo tempo que se deixam moldar por ele, pois o espaço é uma realidade duradoura e é através dela que podemos perpetuar no tempo a nossa memória individual, mas principalmente, a colectiva. Não conseguiríamos rever o passado se ele não se conservasse no meio que nos envolve.
É por isto que considero que este documento, mais do que um conjunto de artigos e alíneas, está pejado de significado e pode, deve ter uma leitura genérica e abrangente, no que concerne à perspectiva humana e sua presença neste território. É também por isto que desconfio que este documento é a demonstração de que o conhecimento deste território, por parte dos técnicos responsáveis, não será assim tão efectivo, deixando, igualmente, transbordar a ideia que os seus mentores e redactores estão bem longe do território em questão. Uma vez mais, vemos a região esquartejada e mapeada, de bem longe, através de controlos-remotos… e por isso, eles, não conseguem perceber que existe aqui, tal como em todos os territórios, uma forte simbiose entre o Homem e o espaço que habita.A equipa multidisciplinar do ICNB, afinal, não será assim tão “multi”, pois em nenhum momento manifestam qualquer preocupação social. Pena é que, na sua defesa intransigente da preservação dos valores e das espécies vegetais e animais, não seja também contemplada a espécie HOMO SAPIENS.
(publicado no Jornal Nordeste do dia 09/10/2007)

05 outubro 2007

Sim..., pois é... eu também!...

Num dia dedicado ao descanso, à família e à leitura dos diários e, também, semanários, encontro no jornal Expresso algo que me faz aqui vir e, numa atitude de reconhecimento, registar a franqueza, a verdade e o oportunismo do comentário. Então, diz assim João Pereira Coutinho, na sua coluna de opinião semanal:
Anjos Caídos
O País já falou sobre a espantosa ressurreição de Santana Lopes na Sic-Notícias. E, pelos vistos, falou bem: não se interrompe um ex-primeiro-ministro por causa de um treinador de futebol, certo? Talvez, se considerarmos o problema em teoria. Mas, como diriam os brasileiros, na prática a teoria é outra. Sobretudo quando do outro lado está a jornaista Ana Lourenço. Se Santana tivesse abandonado, sei lá, um Mário Crespo, uma pessoa até perdoava. Digo isto com todo o respeito pelo Mário Crespo. Mas com a Ana Lourenço, não há perdão: abandoná-la em directo é abandonar a encarnação mais próxima que temos de um anjo (SIM...). Aliás, ainda ninguém me convenceu de que a Ana não é um anjo (POIS É...), deixado cair pelo faro político do diabólico Dr. Santana.
É perante esta heresia que deixo aqui o meu recado: para a próxima, quando o assunto meter política, convida-me a mim, doce Ana. E, já agora, interrompe-me as vezes que quiseres. Eu, por ti, fico sempre (EU TAMBÉM!...).

02 outubro 2007

Bem Vindo à Família

Este é o Torga, o mais recente membro da família. Aos 3 meses de idade, apresenta-se algo tímido e trapalhão... começa a reagir ao nome e ensaia já um curto e rouco ladrar. Puro exemplar de uma das raças tipicamente portuguesas - Cão de Gado Transmontano.

01 outubro 2007

Mundial Dia da Música

Essa linguagem universal que em toda a parte, por todo o mundo, dos confins às capitais, por entre minúsculos sons e estridentes ruídos, num movimento perene, se ouve e se faz sentir.

when de music's over, turn of the lights,
turn of the lights for the music is your special friend.
dance on fire as it intends,
music is your only friend until the end.
cancel my subscription to the ressurrection,
send my credentials to the house of detention,
i got some friends inside,
the face in the mirror won't stop,
the girl in the window won't stop.
a feas of friends alive she cried,
waiting for me inside.
before i sink into the big sleep,
i want to hear
the scream of the butterfly.
come back, baby, back into my arms.
we're getting tired of hangin' around,
waiting around with our heads to the ground.
i hear a very gentle sound,
very near yet very far, very softly, very clear,
come today, come today.
what have they done to the earth?
what have they done to our fair sister?
ravaged and plundered and ripped her and bit her,
stuck her with knives in the side of the dawn
and tied her with fences and dragged her down.
i hear a very gentle sound...
with your ear down to the ground...
we want the world and we want it... now!
persian night! see the light!
save us! jesus! save us!
when de music's over, turn of the lights,
turn of the lights for the music is your special friend.
dance on fire as it intends,

music is your only friend until the end... until the end!
(Jim Morrison, 1968)

27 setembro 2007

Dignidade e Respeito

Para alguns uma atitude desmedida e desproporcionada, mas para mim um momento digno, só para alguns... em directo na SICNotícias, ontém à noite, este Senhor, que por acaso é ex-Primeiro Ministro, não gostou de ser interrompido pelo directo da chegada do Mister Mourinho ao Aeroporto da Portela. Tal como disse, antes de sair do estúdio "...anda tudo doido!..."

22 setembro 2007

Candidatura ao (des)emprego

Mais uma triste notícia. Que de tão triste dá mesmo vontade de rir. Não é que a TAP exige indemnizações aos candidatos a hospedeiros de bordo!?... Diz hoje a edição do Jornal Público que a empresa quer que os seleccionados se comprometam a pagar de 50 a 700 euros, se faltarem a uma das quatro fases de recrutamento.

Violentam-nos na Carteira

Mais um momento digno de registo e proveniente da mais alta tecnologia de ponta, existente na iluminada mente de quem, actualmente, nos governa e tem como ambição suprema a simplificação do país. (aconteceu ontem e hoje é notícia) Em plena Assembleia da República, o Primeiro Ministro, no debate quinzenal, segundo as novas regras, anunciou a abertura de mais um serviço nas Lojas do Cidadão: O Balcão Perdi a Carteira - onde será possivel recuperar os documentos pessoais num mesmo local e ao mesmo tempo. Brilhante! Como é que ainda ninguém se tinha lembrado disso... agora, já poderemos perder a carteira com tranquilidade, pois como dinheiro não temos, a preocupação é, na realidade, o valor intransmissível dos nossos documentos, que nos identificam. Mas então nas Lojas do Cidadão não existem já os vários balcões que nos permitem resolver essas situações!?... Passaportes, Bilhetes de Identidade, Certidões, Nº Contribuinte, Nº Beneficiário da Segurança Social, entre outros, já são uma realidade nesses espaços. A não ser que queiram acabar com os diferentes serviços já existentes, desculpem mas parece não um "simplex", mas sim um "complex".
Para além de também, simbolicamente, e a partir de agora, ser o próprio estado a prever e a aceitar que, de facto, os Portugueses e as Portuguesas são violentamente agredidos na carteira.

17 setembro 2007

o tempo da terra

Refresh de Aquisições

- Loução, Paulo Alexandre, 2006, Portugal, Terra de Mistérios (7ª edição), Lisboa, Ésquilo Edições;

- Urtigão, Ramalho, 2007, As Farpas - vol. 5, Lisboa, Círculo de Leitores;

- Coelho, Adolfo, 1993, Obra Etnográfica - vol. I - Festas, Costumes e outros materiais..., Lisboa, Publicações Dom Quixote;

- Coelho, Adolfo, 1993, Obra Etnográfica - vol. II - Cultura Popular e Educação, Lisboa, Publicações Dom Quixote;

- Parafita, Alexandre, 2002, Antologia de Contos Populares - vol. 2, Lisboa, Plátano Editora;

- Parafita, Alexandre, 2007, Os Provérbios e a Cultura Popular, Vila Nova de Gaia, Edições Gaialivro;

- Moutinho, José Viale, 2007, Lendas de Trás-os-Montes e Alto Douro, Lisboa, Esfera do Caos;

12 setembro 2007

Livraria Leitura

Agora que penso nisso, bem me lembro de ter lido, num qualquer jornal, que a Leitura tinha sido vendida. Mas que desilusão, mas que tristeza senti hoje, quando dei de caras com a loja fechada e com todas as suas vitrinas cobertas com papel.
A Leitura foi sempre a minha livraria. Não estarei a exagerar se disser que 90% dos meus livros foram lá adquiridos. Como está localizada no centro da cidade do Porto e dada a minha preguicite congénita e crónica, nunca fui um visitante ou cliente assíduo, preferi sempre reunir em lista as compras necessárias e, depois então, uma ou duas vezes por ano, fazer a minha demorada visita.
O que sempre mais me agradou neste espaço foi a grande variedade e qualidade de títulos e obras, assim como a grande disponibilidade dos funcionários para nos auxiliar, orientar e sugerir. Também, o facto de podermos encomendar qualquer obra, em qualquer idioma, era apreciado e vantajoso.
Enfim, fica aqui esta nota de tristeza e de desconforto, sentida pelo desaparecimento da única livraria técnica das sociais ciências e afins da Invicta.

11 setembro 2007

Study Case

A propósito da triste história de Madeleine, que agora acompanho de muito longe, através dos ecos, reparo no despropósito dos órgãos de comunicação social, que nos últimos dias, obrigaram o mundo, pelo menos, o nosso, a um "tilt" psicológico com esta história. Independentemente do que vier, do seu epílogo, é interessante verificar como os "entendidos" e os "opinion makers" deambulam ao sabor das tendências e do conta-gotas informativo. Irresistível para muitos, para mim estúpida e irracional, a apetência canibal das objectivas e dos microfones, empurrados por frenéticos editores informativos e directores comerciais, que hávidos de scores de audiências, nos dão o objecto do mais pérfido dos voyeurismos. Concerteza, haverá quem esteja a beneficiar com isto. Concerteza, este será um caso, para mais tarde (vamos ver quando), constar nos manuais da escola jornalística. Em relação aos média, ainda nos falam da auto-regulação... vejam bem como eles se têm regulado...

08 setembro 2007

05 setembro 2007

Serviço Público

A RTP, arauta da prestação de serviços públicos, na sua página de internet, disponibiliza a localização das suas delegações regionais, agora através de um mapa de Portugal. Conheça agora e aqui (visitem também o original), o novo e revolucionário mapa do nosso pequeno país. Resultado da mais cabal e estúpida ignorância, que afinal desconhece o país e, incrivelmente, não sabe onde estão localizadas as suas delegações... ou seja, gasta o nosso dinheiro, mas não sabe onde!

O Regresso

Sem comentários, partilho os retratos de alguns lugares por onde andei neste intervalo do tempo.




26 agosto 2007

Homenagem

De longe, no dia em que desce à terra, o meu pesar pelo desaparecimento de Eduardo Prado Coelho. Personalidade incontornável na cultura portuguesa e ponto de referência e influência para mim, enquanto homem de esquerda, que previligiava a polémica e a ironia. Desde sempre o acompanhava no "O Fio do Horizonte", coluna diária no seu e no meu Público. A sua morte, sem ser uma surpresa, deixará concerta uma lacuna dificil de colmatar.

20 agosto 2007

Agosto, mês dos portugueses todos

Convidado para um baptizado de uma pequena prima, emigrante em Paris, sou "coagido" a estar presente, o que faço sem grande vontade, mas minimamente incomodado. Continuo a não aceitar esta imposição da igreja, e depois reforçada pela pressão social e do grupo/família, para com os indefesos e inocentes recém-nascidos... Mas isso será outro assunto, que poderemos, sempre que assim o entenderem, trazer à discussão.

Sentado numa cadeira de escola, em Vila Flor, enquanto os demais comensais devoram as recorrentes mesas de aperitivos, numa tentativa de observação distanciada, reparo nos comportamentos e apetites vorazes que, de uma só acentada, devoram tudo e mais.

Depois, mal o anfitrião convida para o almoço, lá vai o rebanho todo, ao primeiro toque, todos respondem... Entretanto, e porque era preciso dar tempo para que as iguarias ficassem prontas, o mesmo anfitrião, também músico, resolveu dar alguma música ao "pessoal".

E isso sim, foi o momento. A razão destas palavras, pois que não restem dúvidas de que o português está aqui. Isto é Portugal, e nós os de cá gostamos é disto, alegria, bem dançada e, se possível, bem bebida.

Tudo está ainda bem, neste momento em que acabo estas palavras... Talvez mais logo outra música se sinta.

07 agosto 2007

Les Veilles des Vacances

Quand je me dispose à laisser à l'environnement des jours toute les année, parmi le mouvement des preparativeses et de la méfiance pour oublier quelque chose de indispensable, j'organise les jours de summering mentalement. Puisque la famille n'a pas choisi la destination avant, nous irons passer aux jours un le Bragança et Vila Boa et plus tard, en principe, nous voyagerons jusqu'aux Crêtes de L'Europe, c'est-à-dire, du nord de l'Espagne (Astúrias célèbre). Cependant, je vais choisir les lectures pour de nos jours… rien dans spécial, mais très en béton, donc la bibliographie à lire pour le prochain travail est substantielle.
Par rapport aux moments dans Trás-os-Montes deux ou trois de certains choses: beaucoup de repos, beaucoup de visites aux archives de zone - placer par excellence pour lire et étudier, et quelques après-midis et nuits en Vila Boa, centre de mon monde et où pour ces tailles, cycliquement d'année pendant l'année, je vais en trouver de cela que je sais depuis toujours, mais des forces plus grandes et des circonstances de la vie, suis obligé de vivre bien loin. Le village rétablit… est asse'à marcher un minute pour ses rues, pour percevoir que c'est mois d'août… cependant, et année après année, je démontre cela chaque fois que je suis ignorant de plus de personnes, principalement nouveau.
Il est temps de trouver vieux connu, des parents et des enfants, des familles, voisin et des amis. Celui est la période de sa réintégration dans le groupe qui, obstinément et l'eternum d'annonce, veut appartenir. Moi aussi et sans doutes… bien qu'à plus apprécier le calme et la tranquilité que le village me fournit en mois restants de l'année.
Pour savoir et percevoir la motivation et la volonté de ces autres, au Portugal, connu pour des avecs, que nous elles sommes égaux, bien que les différences relatives, elles je consacrent ces mots, ainsi écrit dans le Français.
Jusqu'à déjà et toujours.

06 agosto 2007

Um dia heróis, depois e agora, hediondos assassinos

"Neste reino ou numa província da Nova Espanha, indo certo espanhol com seus cães à caça de veados ou de coelhos, um dia, não achando caça, pareceu-lhe terem fome os cães, e tomando um rapazinho a sua mãe com um punhal lhe corta aos bocados braços e pernas, dando a cada cão sua parte, e depois de comidos aqueles bocados da criança, a todos eles atira o corpito para o chão." (pág. 97)

Reza a história dos manuais escolares acerca das epopeias dos descobrimentos, assim como cantamos, todos nós, aos heróis do mar e ao nobre povo, que por marcos assinaláveis perpétuaram o nome de Portugal.
O problema é que essa nossa verdade esconde uma outra, horrenda verdade, que é história dos povos achados (sim, porque agora designa-se "achamento"). Assim como quem espreita para o ouro lado da medalha para realmente a conhecer, nós também deveríamos conhecer a história confrontando as diferentes perspectivas e versões de uma mesma história que é comum a tantos e tantos povos. A isto dá-se o nome de relativismo.
Embuído deste espírito (missionário), leio a Brevíssima Relação da Destruição das Índias, de Bartolomé de Las Casas, dada a conhecer em Sevilha no ano de 1552 e editada pela primeira em Portugal em 1990 (!?). Este texto foi durante séculos um livro maldito. O autor descreve o inferno e a infâmia criados na América pelos tão celebrados descobridores quinhentistas. Relata de uma forma, por vezes, escabrosa e snuff, a conquista militar dos povos indigenas, levada a cabo a sangue e fogo e que veio a representar um dos maiores etnocícios da História, cujas repercussões ainda não puderam ser varridas da vida real.
Continuamos a enganar as nossas criancinhas e eu não sei porquê!?....

03 agosto 2007

Canhoto e esquizofrénico

Finalmente uma resposta científica para uma das minhas questões existênciais. Mas porque raio eu, ao contrário de 90% do resto da humanidade, sou canhoto!?... a resposta, encontrei-a no Jornal Público de ontém, dia 2 de Agosto, num artigo que afirma que foi descoberto o gene associado à habilidade na mão esquerda e que tem por nome LRRTM1. Segundo o coordenador da equipa de investigadores, Clyde Francks, este gene é comum a toda a humanidade, mas apresenta-se em diferentes formas: quando uma das versões deste gene é herdada do lado paterno aumenta a probabilidade de nascer canhoto.
Mas como não há bela sem o senão... ficamos também a saber que esse mesmo estudo indica a probabilidade de haver uma relação entre esta assimetria cerebral e algumas doenças mentais - a esquizofrenia, por exemplo. Enfim, sendo o LRRTM1 responsável também pelas funções da fala e a emoção, emocionalmente digo que espero que estes meus genes não se cansem e entrem em ruptura...

29 julho 2007

Boa Sorte

Pela primeira vez partilho um video plasmado do YouTube. Visito alguns blogues que usam e abusam deste portal para partilharem os seus (maus) gostos com o resto da comunidade. Para mim é um experiência nova e que, por isso, não foi fácil de executar... digámos que só hoje consigo publicar aquilo que queria fazer na passada 5ª feira. Em relação ao video e à música em si, não vou fazer grandes comentários ou grandes elogios. Comecei a ouvir esta música esta semana na Antena 3 e gostei.
No contraditório, afirmo aqui que não gosto de brasileiros(as) a cantar, nem gosto particularmente deste senhor Harper, mas esta "cantiga" soa bem e por isso aqui vai.

26 julho 2007

Idade Outra

Sempre ouvi dizer que é nos filhos que percebemos o tempo a passar. É ao constatarmos o crescimento da nossa prole, que admitimos o nosso (de)crescimento e o peso dos anos a passar. Contudo, nunca até ao dia de hoje, tinha percebido que aquilo que, normalmente, se designa a primeira idade (se aqui englobarmos a infância, a adolescência e a juventude), para mim já passou. É verdade, sim senhor a afirmação inicial, pois a minha descendência tem crescido e bem, o que significa que o tempo não para e, apesar de me considerar "jovem", de facto e na realidade, já não será aí que me encontro...
Recordo agora todos(as) aqueles(as) que já a caminho da 4ª idade, continuam a afirmar que se sentem jovens.... que o que importa é o espirito... a vontade e a disposição...
Como enganados estão, os coitados!
O "clic" que me faltava para o admitir, foi a conversa que hoje mantive com dois médicos que consultei. Por mais que continue a enganar-me, considerando que ainda não cheguei a esse outro estadio do meu processo ontogenético, que será o anterior ao último, o diagnóstico frio e racional com o qual fui confrontado, que anúncia sintomas e hipóteses para quadros clínicos que, pessoalmente, sempre associei às idades maiores, derrotou toda e qualquer atitude narcisica relativa ao mito da eterna juventude.
Entretanto e nas entrelinhas de tais cenários, fiquei também a saber que não sou considerado obeso, não sou hipertenso e tenho vantagens genéticas (seja lá isso o que for...).

23 julho 2007

Estar à Janela

Num qualquer lugar e num qualquer momento, dei comigo a pensar e a reflectir sobre o estado ou condição que é estar à janela. Estranho e, para mim, anormal, pois raramente me encontro em tal circunstância. Pelas avenidas das cidades e localidades, por onde diariamente circulo, tento, em diferentes horas e momentos do dia e noite, apanhar, em flagrante, alguém à janela. Tarefa difícil...

Até há uns anos atrás, num tempo de uma outra vivência e de uma outra mentalidade, a janela era uma instância. Nada acontecia que não fosse à janela. Era um espaço social. Por excelência, alvo de inúmeras odes, em trovadorescas cantigas de amigo e de amor, eruditos elogios e várias prosaicas considerações, a janela faz parte do nosso património imaginário e de uma simbologia nacional de uma existência de antanho. Quem não recorda as famosas estrofes de Vitorino, onde ele encontra à janela a menina com os cabelos ao vento e tem que esperar por uma prenda dela para se poder ir embora...

De facto, hoje em dia e cada vez mais, as janelas perderam a sua função social, ou seja, já não se vai para a janela e por lá se fica... Quem é que, hoje, se põe à janela!?... Ninguém ou quase ninguém...

Ainda assim, e depois de inúmeras observações que testaram esta minha teoria, para confirmar a mesma, indaguei amigos e conhecidos e, salvo (a cada vez mais rara) excepção dos fumadores, que afirmam utilizar as mesmas para não poluírem os ambientes interiores, todos os outros admitem (denotando eu nas suas expressões alguma perplexidade pela constatação) nunca ou quase, irem ou estarem à janela.

Pois é, cada vez mais, as janelas são entendidas como elementos construtivos funcionais, fundamentalmente, como meios de conseguir luz e ar. No dia em que nos apresentarem alternativas sugestivas não acredito que lhe possámos resistir. Num futuro, que desconheço se próximo ou não, concerteza outras soluções surgirão e sem grandes pejos, trocaremos as actuais e inúteis janelas por essas outras formas de vermos e sentirmos o mundo que nos envolve.

Não me lembro de estar à janela. Essa predisposição para ver "quem passa" indicará também um conjunto de atitudes ou estados mentais, tais como: passividade, conformismo, indiferença ou alienação.

Eu prefiro continuar a ser quem passa...

20 julho 2007

Nunca fui para a cama com nenhuma mulher sem lhe pagar, e convenci as poucas que não eram da profissão pela razão ou pela força a que recebessem o dinheiro nem que fosse para o deitar no lixo. Por volta dos meus vinte anos comecei a fazer um registo com o nome, a idade, o lugar, e uma breve memória das circunstâncias e do estilos. Até aos cinquenta anos eram quinhentas e catorze mulheres com as quais tinha estado pelo menos uma vez. Interrompi a lista quando já o corpo não me deu para tantas e podia continuar as contas sem papel. Tinha a minha ética própria.
Gabriel Garcia Márquez in "...das minhas putas tristes"

18 julho 2007

Em Digressão

Servindo-me das maravilhas que são as novas tecnologias e quando o Alfa em que viajo, circula a cerca de 180 kms por hora, algures entre Lisboa e o Porto, aproveito para reflectir sobre esta nova experiência que é fazer apresentações de "algo" por nós criado. Alguns dos meus amigos, quando lhes disse que iria publicar um livro, depressa concluíram que a minha missão nesta vida estaria então finalizada. Nada mais falta cumprir e assim poderei partir descançado...Entretanto, confesso que muito me agradou, não o reconhecimento ou a notoriedade que possa ter advido deste projecto, mas sim o facto de algumas editoras se terem mostrado interessadas em editar o mesmo. Com a devida modéstia posso dizer que pude escolher a editora que mais me interessou. Depois, veio o tempo da partilha e das apresentações, o tempo de agora, em que sou obrigado, por clausulas contratuais, a deslocar-me a outras cidades para aí dar testemunho do meu trabalho. Nada me custa e fui, irei com o maior dos prazeres. Contudo, agora que já o "provei" não poderei deixar de referir, a confusão de sensações experimentadas... Se por um lado me sinto recompensado pelo esforço e dedicação e é agradável perceber a reacção das pessoas que contactam com o livro, por outro lado, a simples partilha que é a publicação do trabalho, significa abdicar daquilo que até aqui era só meu e agora será do "mundo" e de todos. Também significa o meu consentimento e aceitação de um julgamento público e/ou da academia relativo às minhas qualidades, não tanto enquanto escritor, mas fundamentalmente enquanto cientista social e antropologo. Tranquilo e satisfeito com o até aqui conseguido, viajo de regresso a casa. Confidêncio que ver um livro meu, com destaque, exposto e à venda na Fnac não me deixa indiferente (impressões primeiras de um qualquer principiante). No que diz respeito às vendas e ao sucesso comercial do livro, estou perfeitamente a "oriente". Sei que no dia 29 deste mês estaremos na Fnac em Gaia... Até lá.

16 julho 2007

Com o fim à vista

Depois de 1800 páginas divididas em 4 livros e quando me faltam cerca de 20 páginas do epílogo, posso partilhar a satisfação daquilo que, um dia (em Novembro de 2005), obstinadamente decidi fazer. Passado este tempo todo, por entre muitos outros registos, consegui vencer a "guerra" que este clássico me ofereceu e, agora, em "paz" poderei derivar e escolher outro objecto para a minha teimosia em colmatar as graves omissões de um tempo ido, no qual muito e bom me escapou.
Não amamos a quem é bom, mas é bom a quem amamos.
Lev Tolstói

13 julho 2007

Eu também...

Dos 96 mil alunos que fizeram o exame de Matemática do 9.º ano, 24.600 não tiveram mais do que um valor (escala de 1 a 5). No conjunto, 72,8 por cento tiveram negativa na prova. É o pior resultado em três anos de exames. O que aconteceu?
Hoje no Jornal Público

12 julho 2007

O Mercado

A saturação dos ruídos, a confusão dos intensos e frescos aromas anunciam um novo e exótico mundo. Adivinha-se um espaço repleto de estranhas formas e vivas cores. Sinto que nesta aparente anarquia, tudo e todos encontram o seu lugar.
Viver bem e ser feliz são duas coisas diferentes e a segunda, se não houver uma magia qualquer, não me acontecerá certamente. Para isso deveria acontecer qualquer coisa verdadeiramente fora do natural.
Mozart numa carta a Bullinger

11 julho 2007

Foi Notícia






Dia Mundial da População

Não conseguindo contabilizar, nem sequer alcançar a dimensão da população do nosso mundo, mas atento aos pormenores, que aqui e ali, pelas melhores e/ou pelas piores razões, são notícia. Hoje, em qualquer órgão de omunicação social, poderemos encontrar aspectos posítivos e negativos da evolução da população mundial. Mas como não poderia deixar de ser, reflicto sobre a lusitana situação e os seus evidentes desiquilibrios.

O litoral português devia formar uma província à parte, esguia, fresca e alegre, só de areia e espuma.
(acerca do interior) (...) Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição. (...) Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, (...) serras sobrepostas a serras. Montanha paralelas a montanhas. (...) Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura, aos vinte anos, (...) alguns emigram para as Arábias de além-mar. (...) Deixam um rasto luminoso por onde passam, e voltam mais tarde, aos sessenta, de corrente ao peito... (...) e continuam a comer talhadas de presunto cru.
Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia.

Assim escrevia, já em 1950, Miguel Torga acerca das etnográficas clivagens portuguesas. Salvaguardando as devidas evoluções e distâncias, muito provavelmente, hoje, Miguel Torga não alteraria muito do seu texto ao observar a realidade portuguesa.

Neste momento, recordo também o clássico e fundador trabalho de Thomas Malthus, que em plena Revolução Industrial Inglesa, pensa, analisa e reflecte sobre a demografia e a economia "mundiais". O Ensaio sobre o Princípio da População, publicado em 1798 é uma obra notável pela sua presciência da realidade do planeta nos séculos seguintes e até aos dias de hoje. Um trabalho que deveria ser lido pelos nossos governantes, principalmente por aqueles que pensam e decidem o país e gerem o território.


10 julho 2007

Aquisições

Referência para as últimas aquisições e ofertas livrescas:

- "A Indústria das Sedas em Trás-os-Montes (1835-1870)" de Fernando de Sousa, Edições Cosmos, 2001;

- "Portugal" de Miguel Torga, Dom Quixote, 2007;

- "A Sagração da Primavera" de Aurélio Lopes, Edições Cosmos, 2007;

- "O Enterro do Galo" de Aurélio Lopes e João Serrano, Edições Cosmos, 2006;

- "O Silêncio dos Livros" de George Steiner, Gradiva, 2006;

08 julho 2007

Sete Maravilhas!?....

Muito hesitei em escrever o que quer que fosse sobre este festival dos monumentos. Mas, por fim, achei conveniente partilhar as seguintes considerações:

Concordo que, passados cerca de 2500 anos sobre a anterior eleição, era já tempo de a "sapiencia" se dedicar à análise e ponderação do que de mais importante e significativo existe no mundo, tendo como principal critério, a valoração enquanto património para a humanidade. Até porque das antigas sete maravilhas só uma resiste e grande parte delas mais do que qualquer valor material, estavam impragnadas de valorizações simbólicas e discursos míticos (por exemplo, os jardins suspensos da Babilónia provavelmente nunca existiram). Esta valorização simbólica transformava-as em maravilhas, resultado do trabalho extraordinário dos antigos e quase inatingíveis ou irrepetíveis.

O que agora aconteceu não foi nada disto. Mesmo concordando genericamente com a lista dos 21 candidatos, o método utilizado não foi o correcto, transformando aquilo que deveria ser uma referência para toda a humanidade, em algo parecido com um festival da canção, ou um Big-Brother... substituindo a sabedoria de um conjunto de individualidades que outrora se reuniu e magnanimamente elegeu as antigas maravilhas, pelo democrático televoto e o moderno netvoto, delegando na sabedoria e nos conhecimentos das massas (ignorantes, iletradas e info-excluídas) a responsabilidade dessa decisão.

Como se o acumular de votos destes anónimos e ignorantes fosse a garantia de qualidade e de excepção desses monumentos!?... vejam o exemplo do Cristo Rei do Rio de Janeiro... como pode alguém considerar aquilo uma maravilha!? Quanto mais ser eleita uma das sete!?.... Então e as Pirâmides de Gizé!?... as únicas que ainda eram (até ontém), hoje foram ultrapassadas e perderam tal estatuto. Como!? Uma palavra também de reconhecimento para os muitos monumentos ou lugares que, edificados pelo homem, teriam aqui lugar e em muito dignificam a nossa condição de humanos e "construtores".

Enfim, mais um momento de consumo imediato, que custou milhões de euros e dolares e que, concerteza, alguns poucos beneficiaram e muito com o mesmo, mas que ninguém racional e inteligente pode aceitar. A propósito, a UNESCO, que é quem se dedica a estes assuntos do mundo, desde sempre se demarcou desta iniciativa...

As antigas e ainda muito válidas MARAVILHAS:
Pirâmides de Gizé
Jardins Suspensos da Babilônia
Estátua de Zeus em Olímpia
Templo de Ártemis em Éfeso
Mausoléu de Halicarnasso
Colosso de Rodes
Farol de Alexandria

05 julho 2007

Momento Interessante

A propósito do seu livro "Foi assim" Zita Seabra foi a convidada desta noite do programa semanal de Judite de Sousa. Confesso que não sou grande (nem pequeno) fã da entrevistada, mas gostei da sua postura seca, do seu discurso frio e racional, da frontalidade e da objectividade com que respondeu às questões, nem sempre agradáveis ou fáceis, da entrevistadora. Servirá a entrevista e, principalmente, o livro como mais um testemunho vivo de parte da "história negra" nacional e mesmo internacional do século XX, protagonizada por essa "superioridade moral" chamada comunismo. Não fazia intensão de o comprar, mas agora, tenho razões para o fazer.

04 julho 2007

"A solidão campestre em que passei os melhores anos da minha juventude, a leitura dos bons livros a que me dediquei por inteiro, fortaleceram as minhas predisposições naturais para os sentimentos afectuosos, e tornaram-me devoto quase à maneira de Fénelon. A meditação em locais retirados, o estudo da natureza, a contemplação do universo, forçam um solitário a voltar-se incessantemente para o autor das coisas e a procurar com suave inquietação a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente. Quando o meu destino voltou a lançar-me na torrente do mundo, já aí não encontrei nada que pudesse, por um momento que fosse, atrair o meu coração."
Rousseau
bem vindo adeartes. É sempre bom ter por perto a certeza da excelência. Visitem nos atalhos.

Shopping Brasília

Enquanto faço horas para uma visita de revisão ao médico e porque está um dia chuvoso, decido-me revisitar este lugar mítico da invicta urbe.
É um dos espaços que trago nas memórias infantis, vindas dos finais dos anos 70, principios dos 80. Os dias de criança aqui passados foram, sem dúvida, de grande alegria para mim e para o meu irmão Daniel. Concerteza, tínhamos o direito a um gelado ou uma guloseima extraordinária e suplementar.
Nessa época, este centro comercial acabado de inaugurar (outubro de 1976) era o maior exemplo ibérico das novas tendências e modas... apesar de ainda num estado precoce de desenvolvimento, atraía as massas da população que, curiosas e com sede de inovação, podiam aqui experimentar novas sensações. Estava então em expansão e lembro-me perfeitamente da abertura de novas lojas, novas alas e pisos.
Hoje, ao deambular por estes infindáveis e labirinticos corredores, outrora largas e movimentadas avenidas, agora estreitas ruas, dadas as novas e pós-modernas exigências, experimento uma sensação estranha de nostalgia. Talvez não a consiga traduzir aqui, mas ao procurar pontos de referência de então, para me orientar, chego à conclusão que já nada está igual e que as lojas são diferentes. Contudo, consigo identificar uma das lojas que sempre aqui esteve e que sempre me atraiu: Isabel Queiroz do Vale... quem não se lembra dos anúncios da rádio e da tv... para além do "vale".
Depois de aleatoriamente e sem destino percorrer os vários pisos, alguns pormenores ressaltam-me à vista e à razão: num espaço curto de tempo, desde a porta de entrada, três pessoas pediram-me esmola; grande percentagem das lojas estão desocupadas; um número considerável das mesmas, está ocupada por lojistas orientais e indianos, o que demonstra bem a alteração e a substituição dos públicos que incluem nos seus circuitos pendulares citadinos este espaço comercial (aliás, este é um movimento urbano clássico e está por demais estudado - vejam o exemplo do centro comercial Dallas, na Av. da Boavista, onde a substituição dos logistas e consequentemente dos públicos, significou o princípio do fim do mesmo).
Por fim, uma palavra para o conceito e estrutura do próprio centro, que acusa o passar dos anos e que deixa perceber a necessidade de alteração dos percursos da população e públicos, para novos lugares e espaços habitacionais e comerciais, alguns daqui bem perto: cidade do porto e peninsula.
Ao revisitar o Brasília podemos sentir o (des)conforto de há umas décadas atrás, experimentar sensações demodé e em desuso... tudo mais pequeno e com uma lógica em extinção.
Quanto tempo mais aguenterá!?...

29 junho 2007

Novos Protagonismos

Comissão de acompanhamento do plano de ordenamento do parque natural de Montesinho ignorada

A comissão de acompanhamento do plano de ordenamento do parque natural de Montesinho, constituída no âmbito da assembleia municipal de Bragança denuncia uma total falta de respeito por parte do Instituto da Conservação da Natureza e do próprio ministro do ambiente, para com este órgão representativo das populações. Este organismo foi criado precisamente para defender os interesses do município e particularmente dos residentes na área do parque natural de Montesinho. A comissão, solicitou ao ICN informação sobre o plano de ordenamento mas nunca recebeu resposta.
Luís Vale, presidente desta comissão afirma que a tutela simplesmente atenta contra os direitos dos órgãos autárquicos democraticamente eleitos, e insiste que esta comissão mantém todo o interesse em acompanhar o processo para quando o documento chegar à fase de discussão pública poder dar um parecer devidamente fundamentado. Esta argumentação já foi enviada ao ministro do ambiente, mas mais uma vez a comissão ficou sem respostas: “ uma das últimas comunicações foi feita precisamente ao ministro do ambiente e também não obtivemos qualquer tipo de resposta a esse nosso contacto e daí também a nossa indignação relativamente a isso.”A comissão já teve acesso à proposta do plano de ordenamento, mas recorrendo à câmara municipal representada na comissão técnica de acompanhamento. No dia de Assembleia Municipal, espera-se uma discussão mais aprofundada sobre este tema.

Um momento de uma longa jornada

Consequências para o Concelho de Bragança e para o País, das políticas e opções do Governo na reestruturação dos serviços da Administração Pública.

Serão sempre de salutar iniciativas destas, que promovam a reflexão e a discussão sobre os reflexos e consequências que se sentem no concelho e na região das políticas e estratégias governamentais. Estaremos sempre disponíveis para essa reflexão, aliás, essa reflexão já há muito tempo está feita por nós e são mais do que conhecidas as permanentes consequências negativas para a região dessas estratégias e politicas nacionais. Aquilo que, neste momento, estranhamos é a necessidade, é a vontade do PSD em trazer isso para aqui, pois aquilo que acontece hoje, não difere daquilo que aconteceu ontem, nem será estranho o que acontecerá amanhã. Isto não significará que concordamos com a actual atitude política do governo socialista e não invalida que possámos criticar a sua actuação, que se tem caracterizado por uma obsessão reformista, fundamentada numa pseudo racionalização e contenção de despesas.

Gostaria de vos relembrar aquela frase que diz: “cada um só tem aquilo que merece”, o que se aplica na perfeição aos portugueses e a nós aqui também, pois quem tem votado nestes governos não merecerá muito mais do que aquilo que eles serão algum dia capaz de nos dar. Meus Senhores, minhas Senhoras, são já mais de trinta anos do mesmo…

Nas ciências sociais há um princípio metodológico que é frequentemente utilizado, designado holismo, em que para explicar um fenómeno particular ou individual, é sempre preciso analisar esse fenómeno como resultante de um conjunto de acções, de crenças ou de atitudes colectivas. De alguma forma, o holismo metodológico não valoriza o indivíduo na sua dimensão racional e psicológica, situando-o mais como um elemento dentro de uma estrutura social que orienta e explica a sua acção. Explicado de uma outra forma, o holismo privilegia o todo em detrimento das partes que o constituem.

Se utilizarmos este princípio metodológico nesta nossa reflexão, muito facilmente perceberemos que o paradigma actual se baseia nesta visão holista do país, aliás, em retrospectiva, concluímos que a visão dos sucessivos governos democráticos, até hoje, tem sido essa e a mesma, apesar de algumas nuances de protagonismos e pomposas designações.

O defeito desta perspectiva aplicada na administração e gestão do território, é o facto de este todo que é o país ser constituído por inúmeras partes com especificidades e com características próprias e dispares entre si, o que por si só, deveria obrigar a uma atenção e dedicação individual, de forma a garantir o sucesso de todas as partes e assim beneficiar o todo. Mas não, a prática é precisamente a oposta, decide-se para o todo e depois aplica-se indiscriminadamente pelas partes.

Os senhores do poder e dessa “coisa” superior que é a estratégia nacional, com esta visão holista do território, agarram-se aos números e às estatísticas para fazer e desfazer, sem conhecerem a real dimensão do país e das diferentes regiões e, principalmente, sem pensarem nas pessoas.

Dois exemplos desta prática comum no governo socialista:

1. A lei da mobilidade tem como objectivo eliminar 75 mil postos de trabalho na Administração Pública, que poderão ser substituídos por “tarefas” a realizar por trabalhadores e trabalhadoras sujeitos a vínculos precários (em outsourcing, com contratos individuais de trabalho ou contratos a termo). Os primeiros passos já foram dados no Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, onde a lista de pessoas a dispensar já foi elaborada pelos serviços. Tendo estas pessoas recebido uma carta a informar a sua colocação numa bolsa de emprego público, o que implica a passagem por várias fases, a saber:
- Uma transição de 60 dias, ganhando o mesmo salário;
- Uma requalificação de 10 meses, auferindo 5/6 do salário;
- e uma compensação por tempo indeterminado, ganhando 4/6 do salário;

Esta fase só termina quando o trabalhador reinicia funções num outro organismo público ou privado, se aposenta, se desvincula voluntariamente, ou (vejam bem) sofre uma pena disciplinar que provoque a desvinculação.

O que se pretende com isto e de facto, é desmoralizar as pessoas e levá-las a rescindir os seus contratos. Não se trata de agilizar ou rentabilizar os serviços públicos, mas sim de os fragilizar e privatizar. A obsessão do combate ao défice não é mais do que uma máscara de um processo que coloca trabalhadoras e trabalhadores da função pública em casa com cortes nos salários e deixa os cidadãos à mercê de piores serviços públicos afectando os seus direitos sociais.

2. O relatório da Comissão do Livro Branco das Relações Laborais, que foi esta semana apresentado pelo ministro do Trabalho aos parceiros sociais, propõe mudanças no Código Laboral que incluem a redução das férias para 23 dias, em vez dos 25 a que podem hoje chegar, a admissão de que ocorram despedimentos por alegação de incompetência. Propõe-se também a redução do valor do subsídio de férias, a impossibilidade de anular um despedimento em tribunal só por razões processuais e a liberdade de trabalhadores e empresas gerirem o número de horas de trabalho, através de bancos de horas.
A proposta alarga o número de situações previstas para que a empresa e o trabalhador possam acordar uma diminuição no salário, com o acordo da Inspecção de Trabalho.
Em relação à liberdade negocial, a lei actual diz que empresas e trabalhadores não podem acordar condições menos favoráveis do que as previstas nas convenções colectivas. A comissão admite mudar o artigo, para aumentar o grau de liberdade negocial.
O documento defende, ainda, que a lei não deve fixar um número de horas para a jornada de trabalho, mas referir apenas a duração de trabalho semanal e anual.

Outro elemento que gostaria de trazer para esta reflexão e que em muito tem prejudicado a nossa região é a essa “coisa” mais que pós-moderna da macro ou micro economia, que está na moda nos discursos dos políticos que é a escala. “É preciso adquirir escala!” ou “qualquer projecto tem que ter escala!” são frases que em catadupa saem da boca dos nossos governantes.

Exmos. e Exmas., desculpem-me mas não percebo como é que as pessoas podem ganhar escala. As pessoas não são coisas nem números… e quando falamos da nossa região, segundo eles, é disso que se trata, da falta de escala e dimensão. Por isso, há que centralizar esforços, meios e equipamentos para adquirir essa tal escala e, consequentemente, afastar os serviços das populações.

Aqui, assistimos a uma permanente troca de acusações entre a bancada do PS e a do PSD, no que diz respeito à culpabilidade destas acções. “Eu não, mas tu sim” – afirmam constantemente, sem perceberem que tanto faz, para a região, o governo ser de um partido ou de outro… estamos em perda e assim iremos continuar… até um dia.