31 dezembro 2011

2011

Agora que nos aproximamos vertiginosamente de um novo ano e sabemos da irreversibilidade do processo, não faltam por aí, manifestações públicas de encerramento ou laudatórias sobre dois mil e onze. Não sou muito dado a balanços ou a previsões depois de o “jogo” ter findado, principalmente quando não entendo que essa reflexão seja consequência ou signifique o fim de um qualquer ciclo ou findar de um qualquer projecto. Aceito que o final de um ano possa ser praticado como um tempo de reflexão e, desconfio, todos ou quase assim procedemos. Mas a verdade é que a nossa experiência ontogénica apenas nos permite viver algumas dezenas de finais de ano e, nada mais experimentamos do que um eterno retorno do calendário anual. De qualquer forma, fazendo esse exercício introspectivo, só poderei dizer que 2011 foi, em termos pessoais, um irrepetível e excelente ano.

30 dezembro 2011

coisas pequeninas...

Como gosto de ocupar o meu tempo a falar com a gente. Não com qualquer gente. Com a gente à qual eu pertenço. Gente que também sou eu. Falar do tempo e da vida, do muito e do pouco que fulano ou sicrano têm, da indigência daquele e da prisão do neto da tia Coisa, da doença do pai deste e da ganza que o outro teima em fumar em público. Coisas, nadas, vidas alheias e esquivas. Adequar a minha atitude à dimensão do quintal local é sempre um desafio ao qual tento dar resposta. Falar com todos daquilo que eles quiserem. Beber aquilo que me é oferecido e pagar quando assim devo. Acompanhar assuntos que jamais dominei ou conheci. Como gosto de estar neste lugar, com esta gente que conheço sempre. Isto num dia em que mais um de nós foi a enterrar. Cada vez serão menos os convivas neste lugar. Mas insistirei, por cá continuarei a vir. Sempre.

29 dezembro 2011

na cabeceira...


Via Carção e a Associação Almocreve, leio os primeiros parágrafos desta ficção brasileira que viaja pelo mundo e pelo Nordeste Transmontano e tem como temática central as questões da identidade.  

28 dezembro 2011

sonho, sonho

«No círculo espiritual, também para mim não há barreiras – e tenho sentido, além do amor e do ódio, outros sentimentos que lhe não posso definir, é claro, porque só eu os vivo, não havendo assim a possibilidade de lhos fazer entender nem por palavras, nem por comparações. Sou o único homem que esses sentimentos emocionam. Logo seria desnecessário ter uma voz que os traduzisse, visto que a ninguém a poderia comunicar. Aliás o mesmo acontece com as horas mais belas que tenho vivido. Só lhe posso dizer as que de longe se assemelham às da vida e que por isso exactamente são as menos admiráveis.»
«Agora passo-lhe a esboçar algumas voluptuosidades novas.
«Um corpo de mulher é sem dúvida uma coisa maravilhosa – a posse de dum corpo esplêndido, todo nu, é um prazer quase extra-humano, quase de sonho. Ah!, o mistério fulvo dos seios esmagados, a escorrer em beijos, e as suas pontas loiras que nos roçam a carne em êxtases de mármore... as pernas nervosas, aceradas – vibrações longínquas de orgia imperial... os lábios que foram esculpidos para ferir de amor... os dentes que rangem e grifam nos espasmos de além... Sim, é belo; tudo isso é muito belo! Mas o lamentável é que poucas formas há de possuir toda essa beleza. Emaranhem-se os corpos contorcidamente, haja beijos de ânsia em toda a carne, o sangue corra até... Por fim sempre os dois sexos se acariciarão, se entrelaçarão, se devorarão – e tudo acabará em um espasmo que há-de ser sempre o mesmo, visto que reside sempre nos mesmos órgãos!...
«Pois bem! Eu tenho possuído mulheres de mil outras maneiras, tenho delirado outros espasmos que residem noutros órgãos.
«Ah!, como é delicioso possuir com a vista ... A nossa carne não toca, nem de leve, a carne da amante nua. Os nossos olhos, só os nossos olhos, é que lhe sugam a boca e lhe trincam os seios... Um rio escaldante se nos precipita pelas veias, os nossos nervos tremem todos como as cordas duma lira, os cabelos sentem, dilatam-se-nos os músculos... e os olhos de longe, vendo, vão exaurindo toda a beleza, até que por fim a vista se nos amplia, o nosso corpo inteiro vê, um estremeção nos sacode e um espasmo ilimitado, um espasmo de sombra, nos divide a carne em ânsia ultrapassada... Atingimos o gozo máximo! Possuímos um corpo de mulher só com a vista. Possuímos fisicamente, mas imaterialmente, como também se pode amar com as almas. Neste caso são mais doces, mais serenos, mas não menos deliciosos, os espasmos que nos abismam.
«Há ainda outra voluptuosidade que, por interessante, lhe desejo esboçar: é a posse total dum corpo de mulher que sabe unicamente a um seio que se esmaga.
«Enfim, meu amigo, compreenda-me: eu sou feliz porque tenho tudo quanto quero e porque nunca esgotarei aquilo que posso querer. Consegui tornar infinito o universo – que todos chamam infinito, mas que é para todos um campo estreito e bem murado.»
(Mário Sá-Carneiro in Homem dos Sonhos)

22 dezembro 2011

entre o verão e o inverno...

Novos registos para o meu acervo que, felizmente, vai crescendo com qualidade, digo eu:
- Catroga, Fernando (2011), Ensaio Repúblicano, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Garoupa, Nuno (2011), O Governo da Justiça, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fernandes, José Manuel (2011), Liberdade e Informação, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Martins, Bruno (2011), Descobrir o Santuário de Nossa Senhora da Serra (Guia do Visitante), Rebordãos, Confraria Nossa Senhora da Serra;
- Marques, Gentil (1997), Lendas de Portugal (5 volumes), Lisboa, Círculo de Leitores;
- Bourdieu, Pierre (2009), A economia das trocas simbólicas, São Paulo, Perspectiva;

18 dezembro 2011

another stupid idea...

A empresa que produz os anúncios da marca Old Spice deve ser mesmo muito boa naquilo que faz e eu devo ser mesmo um gajo muito estúpido, pois a série de anúncios que promovem essa marca associando-a ao conceito de masculinidade vai-se reinventando através de novos atributos dessa mesma condição masculina. Agora anda pelas rádios um que diz que "homem que é homem não bebe leite, come a vaca". Minha nossa, o que é isto?! Imitando o personagem Diácono de Herman José, eu diria: "Não havia necessidade!.. agora só falta virem dizer que homem que é homem não faz amor, fode."
Enfim.

17 dezembro 2011

13 dezembro 2011

documento de uma só cor

Depois de vários meses em que o tema de uma Reforma Administrativa esteve na agenda política e mediática, finalmente ficámos a conhecer o “Documento Verde” que fundamenta e descreve os processos de tal reforma. Numa apreciação global, poderei começar por considerar que as propostas deste “documento de uma só cor” não servem para o país, nem para as suas populações e comunidades e quero, desde já, também, manifestar a minha preocupação perante a possibilidade desta reforma vir a acontecer nos moldes propostos pelo actual governo. Por exemplo, é mentira que as autarquias locais tenham um peso significativo no Orçamento de Estado, pois as 4259 freguesias existentes em Portugal representam apenas 0,13% da despesa do Orçamento de Estado. Mas a minha argumentação não é economicista.
É, agora, mais do que evidente que estamos perante o maior ataque de sempre à democracia local, nascida no 25 de Abril e que os acordos com a troika não passam de pretextos para a aplicação dos velhos projectos do PS e PSD, de alteração das leis eleitorais autárquicas, reforçando o bipartidarismo, a centralização do poder e a limitação drástica da autonomia do poder local, consagrado na Constituição. Tal como alertava quando aqui trouxe este assunto – em 8 de Março de 2001 – “não devemos aceitar que esta vontade de reduzir seja o caminho para um efectivo reforço da centralização do poder em Portugal”. Por outro lado, parece-me também evidente que este projecto de reforma procura manipular os sentimentos da população face à crise: o combate ao despesismo e aos excessos das empresas municipais – e aqui reforço a ideia de que é preciso, pura e simplesmente, extinguir a sua grande maioria; a ideia, mil e uma vezes repetida, de que há políticos e órgãos a mais, usada para restringir o pluralismo e diminuir o controlo democrático dos cidadãos e das oposições, facilitando a corrupção e os clientelismos. Neste contexto, importa ainda referir a estratégica extinção da IGAL, de forma quase silenciosa, ainda antes do conhecimento público deste “Documento de uma só cor”.
Não havendo qualquer dúvida quanto à necessidade de se proceder a uma reforma administrativa, volto a insistir na ideia de um modelo administrativo bem reflectido e bem estruturado e na ideia de uma reorganização do mapa territorial coerente, que respeitem os princípios democráticos, tais como: a) os critérios demográficos e de área geográfica mínima para a existência de freguesias deverão considerar variáveis como a orografia, a rede de transportes públicos e a concentração ou dispersão do povoamento; e b) a extinção, fusão ou agregação voluntária de freguesias/municípios deverá exigir parecer positivo do respectivo órgão deliberativo – Assembleia de Freguesia ou Municipal, confirmado se necessário por referendo local. Para esta possibilidade ser viável, deverão ser regulamentadas as convocações de referendos locais por iniciativa de cidadãos.
Ainda durante o mês de Novembro a Assembleia Municipal de Bragança promoveu uma sessão de discussão pública acerca deste documento, onde foram conferencistas os deputados da Assembleia da República, eleitos pela região. Para além de outras considerações que me abstenho de aqui fazer, foi notória a dificuldade em fazerem a apologia desta reforma e, para além do mais, foi perceptível o desconforto, a insegurança e a desconfiança em relação à sua aplicabilidade no território nacional. Do ponto de vista da audiência, pareceu-me que os autarcas locais, aqueles que seriam os mais interessados em ouvir e perceber, saíram de lá sem saberem mais do que aquilo que já sabiam…
A oposição e a contestação ao “Documento de uma só cor” e à reforma da administração local, bem expressa no último congresso da ANAFRE, realizado em Portimão, não deverá ficar pela oposição aos critérios para a extinção/fusão das freguesias. Não deveremos esquecer que os ataques que este governo prepara contra a regionalização, a lei das finanças locais, a lei eleitoral autárquica, composição dos executivos municipais, etc., constituem um pacote que configura o maior ataque de sempre à democracia local. A desvalorização que o PSD/CDS estão a fazer em relação às freguesias é apenas uma das peças da desvalorização da democracia autárquica e local em geral, que o governo protagoniza e quer impor.
(enviado para o Jornal Nordeste, publicável dia 13 de Dezembro de 2011)

07 dezembro 2011

bordalo dias, o senhor lusofonia


Mal ainda me chegou às mãos, emprestado pelo mano mais novo, e já estou maravilhado com esta obra de arte e com a qualidade das sonoridades deste grande trovador do mundo lusófono. Fausto é, indiscutivelmente, o grande embaixador cultural da lusofonia. Para ouvir longa e repetidamente. Entretanto, fica aqui um pequeno video de um momento de pré-produção deste mesmo trabalho.

02 dezembro 2011

dezembro tresmalhado

É mais do que revisitado na escrita literária e na não-literária o factor tempo: As horas, os dias, os meses e os anos que passam são permanentemente registados, adjectivados e valorizados. Também aqui, eis-nos chegados à última parcela mensal de 2011. Num início de mês de Dezembro, sempre mais curto em dias úteis e sempre mais esbanjador em euros, tento convencer-me de que vai ser este o ano em que conseguirei alterar definitivamente a minha atitude face ao "facto social total" que é o Natal. Muito provavelmente estarei, uma vez mais, a enganar-me apenas a mim próprio, mas sei que todos os anos tenho tido vontade de abandonar os comportamentos consumistas que adicionam, por esta altura, grande parte dos indivíduos. Tenho-me lembrado do elemento "crise" como potencial álibi para, enfim, me livrar, mas nem assim... Invejo aqueles(as) que não fazem parte deste grande rebanho. Ambiciono o dia em que conseguirei ser também uma ovelha tresmalhada.

por estes dias...

...frios e em que o agregado familiar anda eivado, aproveitemos para LER.

01 dezembro 2011