19 dezembro 2014

pinheiro de natal

Tenho dado comigo a olhar repetidamente para o pinheiro de natal que, ano após ano, continuamos a montar e a colocar numa das esquinas da sala onde todos estamos. Há quem goste desta época - eu também gosto - e se sinta confortado pela árvore devidamente ornamentada e iluminada - eu também não. Este ano, a nossa, que já nos acompanha há doze natividades, numa existência que podemos adjectivar de eterno retorno, ganhou renovada vida. Nesse dia o entusiasmo e a dedicação da prole foram notáveis. Curiosamente e para infelicidade da própria árvore, todos os anos esse entusiasmo passa rapidamente e, desde esse dia, ela ali está desprezada, toda enfeitada mas apagada e sem a atenção e centralidade que gostaria. Não sei como é na outras casas, mas pela indiferença que sinto nas minhas crianças, desconfio que afinal quem gosta mesmo de ter o pisca-pisca colorido a dominar o ambiente são mesmo os adultos. Não houvesse crianças e eu garanto-vos que deixaria de ter o trabalho de a montar, decorar, iluminar e, depois, desmontar, empacotar e armazenar. Ficaria para sempre sepultada num qualquer canto da garagem sob um manto crescente de poeiras.

para LER nos próximos dias...


01 dezembro 2014

30 novembro 2014

não sabia...

«O dromedário tem o olho do cu mais elegante de todos os animais que conheço, nada tem que ver com a carne rosada e berrante do recto que se vê num cavalo. E produz a mais delicada bosta - uma forma elíptica, muito perfeita, que depressa endurece ao Sol. A forma e a textura de uma noz-pecã». (Bruce Chatwin, in Granta nº4)

12 novembro 2014

baú da memória VI

Inscrito na Pedra...
É uma das recordações que a custo e só muito vagamente consigo alcançar, mas recordo um dia de Páscoa, algures na minha adolescência, em que na missa de Páscoa, foi feita com pompa e alguma circunstância a inauguração do altar da igreja. Tal como acontecia todos os anos, a missa da Páscoa era das mais concorridas e a igreja estava repleta de gente. Naquele dia, excepcionalmente, a celebração eucarística foi presidida por um Bispo e concelebrada pelo pároco local. Recordo que a determinado momento, depois de devidamente abençoada a pedra do novo altar, esse Bispo proferiu algumas palavras acerca desse mesmo altar e que disse que estava inscrito na própria pedra o registo daquele momento de inauguração. Fiquei muito curioso, pois mesmo estando muito próximo do altar, do lugar onde me encontrava não vislumbrava qualquer inscrição. Quando a missa terminou, deixei as pessoas sair do templo e os padres desaparecerem na sacristia, para averiguar e encontrar tal inscrição. Desloquei a decoração da mesa, revirei os linhos que a cobriam, mas nada. Mistério.
À hora de almoço, em casa da Avó, reuniu-se a família e entre ela, estavam também, o Bispo e o Padre que tinham dito a missa. Ingénuo, resolvi perguntar pela inscrição. Como resposta obtive apenas um sorriso benevolente. Não esqueci, mas a inquietação foi, naturalmente, desaparecendo.
Até que chegado a 2014 e tratando da história de vida de D. Manuel António Pires que, a propósito, está a concluir-se; encontro o texto da intervenção acerca dessa inauguração do altar da igreja. É um texto pequeno em que é feita uma explicação da centralidade e sacralidade do altar e se apresentam as razões da atracção do homem crente para o altar: "Adoração – Acção de graças – Propiciação – Satisfação". Refere também o motivo da minha inquietação... "Num pergaminho, embutido no altar, constam todos estes dados". Agora sei que "pergaminho" foi a razão do meu sobressalto. Agora sei também que isto aconteceu no dia 19 de Abril de 1987.

28 setembro 2014

popular problems

Só ontem o fui comprar. Só o hoje o estou a ouvir, repetidamente. Gosto, apesar de uma ou outra música me parecerem desalinhadas. Deve ser má impressão minha. Tenho que ouvi-lo mais vezes.
Tal como sempre, muito bom.

22 setembro 2014

mesa redonda

Em S. Joanico e a debater "mundo rural como fonte de conhecimento científico". Registos acabados de chegar...



Para ver mais fotografias do festival Sons & Ruralidades, visite aqui a página da AEPGA.

16 setembro 2014

festival sons & ruralidades


Eu vou lá estar para conhecer o festival que já vai na sua nona edição e eu nunca participei, e para participar numa mesa-redonda subordinada ao tema "mundo rural como fonte de conhecimento científico" e onde se pretende «a partir de exemplos concretos demonstrar a importância deste objecto e/ou meio de estudo para diversas áreas de investigação, pondo a hipótese de se tratar de um caminho mais sustentável e integrado do que algumas das soluções que têm sido mais frequentemente apontadas, como o turismo ou o apoio ao empreendedorismo» (organização). Será no próximo dia 20, às 15 horas, na aldeia de S. Joanico. Para mais informações visitem o site da AEPGA (aqui). Apareçam.

15 setembro 2014

LER do trimestre

Já cá tenho a revista de Setembro, (Outubro e Novembro). Com muito bom aspecto para ser consumida nas próximas horas e dias. Contudo, continua a saber a pouco...

feira do livro do porto

Aproveitei o fim-de-semana para ir conhecer a "nova" feira do livro da Invicta. Sendo um visitante e comprador assíduo, era com grande expectativa que aguardava esta edição, esta nova vida da feira. Sem conhecer os pormenores e os bastidores de toda a incompatibilidade entre a APEL e a CMP, foi com satisfação que vi a iniciativa da Câmara do Porto ao assumir a organização deste histórico evento da cidade. Depois a feliz escolha do local, os jardins do Palácio de Cristal, que são para mim e sem qualquer dúvida o melhor local para acolher um certame deste género. A ideia de ter levado a feira, durante alguns anos, para a Avenida dos Aliados foi peregrina e esse local, apesar de central, é um local inóspito, sem sombras, sem equipamentos de apoio, sem lugares sentados, pouco convidativo e, não menos importante, sem estacionamento. Muito pouco propício para o passeio, para a contemplação e para a leitura.
Foi uma rica tarde que a família passou entre livros, actuações de rua e passeio pelos espectaculares, sombrios e frescos jardins do Palácio de Cristal. Mesmo não tendo encontrado nada de muito interesse para mim e por isso não ter comprado nenhum livro, gostei muito de perceber as diferenças nos expositores: Muitos livreiros, pequenos livreiros, muitos alfarrabistas e de vários locais do país, grande variedade editorial e gráfica.
Para além de esperar que assim volte acontecer, acho que durante os próximos dias ainda lá vou outra vez, talvez numa hora em que haja menos confusão. É verdade, dizem-me que a LeYa não estava lá. Não lhe senti a falta e assim está bem.

08 setembro 2014

inquietação existencial


Como os tempos mudam? É a questão que me ocorre ao ler este excerto, propositadamente descontextualizado, de uma carta datada de meados da década de sessenta do século XX. Segundo informações posteriormente recebidas, a inquietação teria mesmo razão de ser, pois pouco tempo depois o autor abandonou o sacerdócio e terá casado, quiçá, com uma das bailadeiras...

fortuna?


Caído de um livro muito velho, que ao se folhear permitiu encontrar várias preciosidades como esta. Terá sido uma fortuna no início do século XX? Terá o seu proprietário resgatado o seu valor? Ou terá ficado esquecido nas páginas desse livro? Não adivinho a resposta, mas gostei de imaginar que esse valor poderá ter ficado todo este tempo a render no fundo de um "cofre" qualquer. Fortuna.

13 agosto 2014

a verdade histórica de um retrato

Quando o Papa João XXIII convocou, através da Bula «Humanae Salutis», o Concílio Vaticano II, no dia 25 de Dezembro de 1961, iniciou um processo que levaria, nos meses e anos subsequentes - o Concílio terminaria no dia 8 de Dezembro de 1965 - milhares de membros da Igreja até Roma e à cidade do Vaticano. Entre esses muitos homens do Clero que para aí se deslocaram, estava D. Manuel António Pires, então bispo de Silva Porto, Angola. Viajou para Roma, no fim do mês de Setembro de 1962, como membro integrante da comitiva portuguesa que iria participar no conclave. Ao todo participaram 39 elementos do clero português. D. Manuel viajou de Bragança até Madrid na companhia de D. Abílio Vaz das Neves, então bispo da diocese de Bragança-Miranda, e no carro desta diocese. De Madrid foram de avião até Roma. Com estes dois prelados viajaram também o secretário de D. Manuel, o padre Manuel Vale e seu irmão Francisco Vale.
Os trabalhos do Concílio só iniciaram no dia 11 de Outubro de 1962, o que proporcionou alguns dias de descanso e de turismo pela cidade. Foi também nesses primeiros dias que D. Manuel foi recebido, em audiência, pelo Papa João XXIII. Desse singular e curto momento ficou o registo fotográfico, onde podemos verificar que nessa reunião participaram também, pelo menos, mais dois sacerdotes.

Imagem 1 - Pontifícia fotografia tirada no fim da audiência, no dia 1/10/1962. Para além de João XXIII e D. Manuel, podemos ver também o Padre Francisco Vale (do lado direito da fotografia).  

No regresso a Portugal e a Bragança e depois da curta estadia no Vaticano, o padre Francisco Vale trouxe consigo um exemplar dessa fotografia. Mas pelos vistos, por mais que olhasse para ela, não estava satisfeito com a sua qualidade e, principalmente, com a disposição dos seus elementos. Por isso, mesmo antes de partir para o Rio de Janeiro onde foi passar uma temporada, resolveu intervir e para tal, solicitou os serviços do fotógrafo Ricardo, em Bragança. O que pretendia era uma manipulação, em que ele passasse para o lado oposto da fotografia, trocando de posição com o outro sacerdote e, assim, ficar ao lado do Papa. Para além disto, escreveu no verso desta fotografia:
«na fotografia do Sr. Bispo devem ficar em vermelho: a capa, o laço e a faixa, botões e cordão; em cor de ouro: cruz peitoral e seu cordão, anel.»
O referido profissional tratou de dar resposta ao solicitado e enviou, via Correio, o resultado para o Pe. Francisco. Só que este não ficou nada agradado com o resultado, pois continuava longe do Sumo Sacerdote. Voltou a escrever ao fotógrafo, mas desta vez num tom mais acintoso, reafirmando a vontade de constar para a posteridade ao lado do Papa. O fotografo Ricardo, acossado pela carta recebida, rapidamente tratou de proceder à manipulação da fotografia. O resultado dessa montagem foi enviado para o Brasil, para aprovação do Pe. Francisco. No verso dessa "fotografia" manipulada, escreveu:
«o tapete será retocado para ficar uniforme, assim como a cruz será disfarçada e ficar apenas a porta»
Imagem 2 - Ensaio da montagem efectuada, em que o Pe. Francisco aparece já do lado esquerdo da imagem, mas ainda sem os referidos retoques e acabamentos.

O trabalho estava concluído e o Pe. Francisco agradado, agora sim, pois estava, finalmente, no sítio certo. Muito rapidamente tratou de reproduzir essa fotografia e em vários tamanhos, distribuindo-as pela sua família. Enfim, conseguiu oficializar a sua versão da audiência papal, que aconteceu no longínquo dia 1 de Outubro de 1962.
A única fotografia conhecida desse momento até ao presente, imortalizada na parede de um salão nobre da casa familiar e em rica moldura dourada, foi essa em que aparece do lado direito de João XXIII e do lado esquerdo da fotografia.
Imagem 3 - Fotografia final, depois da manipulação e das alterações solicitadas pelo Pe. Francisco. Único exemplar conhecido durante todo este tempo.

Só agora, em 2014, e quando se procedeu à derradeira limpeza dos seus aposentos, foi possível encontrar a documentação (fotografias e correspondências), que permitiu conhecer a verdadeira história de uma simples fotografia.

12 agosto 2014

o catedrático da uniformidade

«O jardineiro, como aqueles de que falo, não se dá bem com a luxúria das flores, os seus peristilos e estames, a sua fecundação e até o seu perfume. O jardineiro é um asceta da tesoura, um catedrático da uniformidade. Talha a sebe como quem folheia palimpsestos. Desvia os olhos da carnação da rosa; sente-se bem com as folhas mortas e os galhos secos.» (Agustina Bessa-Luís in A Quinta Essência)

05 agosto 2014

raposa parda

Vivemos desde miúdos com o imaginário da velha história da Raposa que vai ao galinheiro roubar tudo aquilo que consegue. E se puder vai regressar sempre até exterminar toda a comunidade de galináceos. Pois bem, aquilo a que não estamos habituados é ver Raposas a entrar pelo espaço urbano, para bem perto dos humanos procurarem alimento. É o que está a acontecer em frente a minha casa. Uma família de Raposas, todos os dias e quando a noite se prepara para chegar, sai do pequeno espaço "selvagem" onde habitam sitiadas pela urbe e vem para a rua à procura de alimento. Ninguém sabe como foram ali parar, mas a verdade é que há meia dúzia de meses que ali estão. As respectivas autoridades já foram alertadas, mas até agora nada fizeram e o seu agregado familiar tem vindo a diminuir, não sabemos se por escassez de alimento ou se pela acção directa dos muitos cães que por ali vagueiam. Não deixa de ser interessante vê-las aproximarem-se dos humanos e quase comerem das suas mãos. Por outro lado, não deixa de ser muito triste saber que estão condenadas a morrer a qualquer momento.



    (fotografias tiradas um destes dias com o telemóvel)

mediascape: ódio


Como será possível viver assim? Como será possível sequer sobreviver assim? Assim com um eterno sentimento de insegurança e de terror? Assim sem poder perspectivar um futuro, uma vida normal e em paz? Não consigo sequer imaginar.O mais recente e actual conflito em Gaza trouxe-nos, uma vez mais, momentos e imagens impossíveis de crueldade, chacina e extermínio. Ao longo destes dias pudemos ver em directo a destruição impiedosa e cega. Ao ver essas imagens e sua brutalidade não pude deixar de reflectir sobre a raiz, ou melhor, a força que alimenta esta carnificina, o ódio. Ódio que historicamente se alimenta de fanatismos e fundamentalismos e, depois, de momentos como este. E para o perceber bastou-me colocar no lugar de um qualquer palestiniano a quem Israel matou um filho, uma mulher, um pai ou mesmo a família toda e, por nada, destruiu a sua casa, bens e pertences. Imaginem só que uma destas crianças é um vosso filho... Estamos perante um ódio de morte sem fim.

28 julho 2014

grande guerra, a primeira

No dia em que se assinalam cem anos sobre o início oficial da primeira guerra mundial - foi no dia 28 de Julho de 1914 que o Império Austro- Húngaro declarou guerra à Servia, faço referência a este livro de Tim Butcher que estou a ler. Nele podemos encontrar a história de Gavrilo Princip, jovem sérvio bósnio que um mês antes assassinara o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro; facto que acabou por precipitar o mundo naquele horrendo confronto. "O Gatilho" narra a história deste jovem que sonhava com a independência do seu país e mudou o mundo para sempre.Num relato apaixonante, que combina a história, as viagens, a biografia e a literatura, Tim Butcher narra todo o contexto que deu origem à Primeira Guerra Mundial, bem como as suas consequências, sobretudo a da Guerra da Bósnia. Descreve a viagem de Princip e a viagem do próprio autor seguindo-lhe os passos, contextualizando o território e a história e conhecendo inclusive os descendentes da família Princip.


16 julho 2014

mediascape: "e o burro sou eu"

Sim, o burro foste tu Scolari, ao permitires a maior derrota e, acima de tudo, a maior humilhação que o Brasil já sentiu. E essa humilhação não foi apenas desportiva. É todo um país que vive e sofre com as aventuras da sua selecção nacional. Nada nem ninguém poderia antever esta hecatombe do futebol brasileiro perante a organizada e disciplinada Alemanha, mas eram já muitos os sinais de que algo não corria bem no seio da canarinha.
Não tenho problema algum em admitir que gostei muito dessa humilhação. Primeiro porque nunca gostei da soberba, depois porque, independentemente dos sucessos ou fracassos das outras selecções, detesto a sobranceria dos brasileiros, pelo menos daqueles que afirmam Deus como sendo seu conterrâneo e que, numa atitude fundamentalista, educam os seus filhos com a certeza que no futebol serão sempre os melhores do mundo. Detesto, igualmente, a forma como esses mesmos brasileiros se referem aos "seus patrícios". A derrota de Portugal frente à Alemanha foi mote para a "gozação" e para a chacota. Pois bem, aí esta a torna-jeira. É que sempre ouvi dizer que quando se atiram pedras para o ar, é preciso saber se o nosso telhado é de vidro...
Aquilo que aconteceu agora ao Brasil irá ter repercussões impossíveis de adivinhar. É uma ferida aberta e que demorará a cicatrizar. Não haja dúvida de que o futebol no Brasil - o jogador, o treinador, o treino, o dirigismo e tudo o resto - estão em crise. Dá a sensação que estagnaram algures na década de oitenta e de lá para cá apenas se preocuparam com a sua irracional crença.
O jogador brasileiro é, por defeito, um supersticioso. A sua aparente e verbalizada fé em Deus, não é mais do que uma vulgar crendice, traduzida em gestos rápidos e trapalhões ao entrar e ao sair do campo, assim como através da verbalização obrigatória de um "Graças a Deus" com o qual abrem a boca e iniciam qualquer frase ou raciocínio. Insuportável.
Afinal, os burros já não somos nós.

Nota: Texto escrito no dia 8 de Julho de 2014, num local isolado e sem acesso à rede.

as duas razões


Recentemente foi-me oferecido o livro "Nós e a Europa, ou as duas razões" de Eduardo Lourenço, cuja 4ª edição é de 1994. Nele, o autor faz um conjunto de reflexões acerca da relação entre Portugal e a Europa, assim como acerca das várias dimensões da identidade nacional, por semelhança, contraste ou diferenciação em relação às demais identidades europeias e em relação à construção do espaço europeu, na qual participamos desde meados da década de oitenta.
Um dos textos que destaco e que mais me chamou a atenção é, precisamente, o primeiro: "Identidade e Memória", no qual Eduardo Lourenço afirma que Portugal, os Portugueses não têm qualquer dúvida séria relativa à sua existência e à sua identidade... "o nosso grau de segurança ontológica, enquanto povo, é dos mais elevados".
Apesar de ser uma reflexão perfeitamente datada e com cerca de três décadas*, penso que se lê com perfeita actualidade e mesmo num período conturbado da nossa existência, como têm sido estes últimos anos, conseguimos manter "a consistência, a força, a coerência do nosso sentimento de identidade, amalgamadas que estão com a vivência de um espaço-tempo próprio homogeneizado pela língua, pela história, pela cultura, pela religião enquanto «habitus» sociológico, pela sua própria marginalização no contexto europeu, o seu lado «ilha» sem o ser. Mas talvez mais ainda pela presença e permanência, por assim dizer, físicas, ao alcance dos olhos e das mãos, de uma estrutura social de um arcaísmo extremo, quer dizer, de um enraizamento profundo no passado".

* Palestra proferida pelo autor num colóquio em Durhan (EUA), em 1984.

Nota: Texto escrito no dia 7 de Julho de 2014, num local isolado e sem acesso à rede.

manuais escolares, outra vez

Este é um daqueles assuntos que mais parece um mito de eterno retorno, pois é algo que, ciclicamente, me assalta - e, concerteza, a quase totalidade dos pais e encarregados por crianças em idade escolar - o sistema nervoso e a tranquilidade da alma. Para ser mais preciso, essa angústia acontece todos os anos durante o período das férias de Verão.
A ditadura dos manuais escolares. Já aqui reflecti sobre este assunto, mas neste momento e sem tentar ser repetitivo, retorno a ele porque fui surpreendido por mais um pormenor sórdido desta super-indústria que esmaga, ano após ano, as economias das famílias. Nos últimos dias recebi por email a lista de livros para o próximo ano lectivo da minha filha. No email enviado pela sua Directora de Turma alertava-se para uma nota que acompanhava essa listagem e onde se podia ler:
"Muito Importante: de acordo com o Despacho nº15971/2012, as Metas Curriculares estão a ser implementadas nas diferentes disciplinas segundo o quadro abaixo. Assim, apesar de os manuais adotados não mudarem, estes sofrem adaptações por parte das editoras. Isto implica que os alunos não possam usar a edição antiga dos mesmos manuais".
Bem, eu sei que o mais fácil e cómodo seria nem sequer pensar no assunto, comprar os livros e seguir com a minha (nossa) vida, mas não consigo, é mais forte do que tentativa de racionalizar a questão. Ora porra! Legisla-se que os manuais escolares ao serem adoptados têm uma duração de vida de seis anos, dando alguma estabilidade pedagógica e algum alívio financeiro às famílias. Não satisfeitas com isto as editoras trataram logo de tentar contornar esse constrangimento legal ao seu negócio e lucro, inventando essas adaptações de ano para ano. Se posso perceber o desconforto que essa legislação criou e a tentativa das editoras de salvaguardar o seu negócio, já não consigo perceber a atitude das escolas e dos professores ao aceitarem essa estratégia meramente comercial e que não visa o interesse pedagógico e dos alunos.
Inadmissível esta chantagem sobre os alunos, professores e escolas. Ou seja, adoptam-se os livros por seis anos, mas o livro do 1º ano nada terá haver com aquele que for comprado no 6º e último ano.
Não percebo também a passividade do ministério da educação que, consciente destes factos, nada faz para travar este sector editorial, que se apresenta com um fortíssimo lobby e que encontra sempre forma de contornar a lei.
Enfim, lá vamos nós "andando com a cabeça entre as orelhas...".

Nota: Texto escrito no dia 6 de Julho de 2014, num local isolado e sem acesso à rede.

30 junho 2014

instante urbano XXVIII

Adivinhava-se mais uma manhã igual a tantas outras passadas no Arquivo Distrital de Bragança. Lugar bonito, ambiente tranquilo e "mergulhos" ao século XIX e XVIII. Nessa manhã, mal me tinha instalado e ainda sozinho na enorme sala de leitura, sinto um anormal burburinho que se foi aproximando. Uma visita de estudo de alunos do ensino básico. À frente do grupo a técnica do Arquivo que iria guiá-los pelos diferentes espaços e que ao ver-me cumprimentou-me e pediu-me licença para me incomodar durante uns minutos.
- Concerteza... - respondi eu, antevendo o que iria suceder.
Num ápice me vi rodeado de dezenas de crianças que, sem cerimónia, se aproximaram até para lá (cá) do meu limite de espaço vital e de conforto. A técnica explicou aos miúdos o que se podia fazer naquele espaço e depois pediu-me para eu lhes explicar o que estava a fazer.
Tentando utilizar uma linguagem simples lá tentei demonstrar o que andava a investigar e para que servia essa investigação. Depois de uma curta apresentação e de algumas dicas da Técnica do Arquivo, para terminar a minha intervenção, perguntei se alguém queria saber mais alguma coisa.
Depois de um breve silêncio, aconteceu isto:
- Para que serve o computador? - pergunta um miúdo que estava com a cara colada ao monitor e que pelo aspecto não queria saber de mais nada a não ser do computador.
- Porque é que as folhas têm esta cor, estão tão amarelas? - pergunta outro.
- Mas o que estás aqui a fazer? - e outro...
- Tu não fazes mais nada? - e outro...
- Ficas aqui muito tempo? - e outro...
A todas as questões fui tentando responder até que a técnica, com um sorriso nos lábios, disse que era melhor continuarem a visita e deixarem o investigador trabalhar. Assim, foram.

26 junho 2014

o melhor do mundo e arredores

Eu não gosto muito, ou mesmo nada, de escrever sobre futebol. Nem sobre o meu clube, nem sobre a selecção, mas a prestação da selecção nacional neste mundial do Brasil foi má demais.
Nada correu como devia ou teria que correr. Andaram-nos a vender a ideia de que este era o ano de Portugal e aí a comunicação social desempenhou o papel principal. Uma mensagem fraudulenta, que criou expectativas infundadas.
Uma convocatória errática, com jogadores que não eram os melhores nas suas posições e um selecionador teimoso, mas ao mesmo tempo permeável às pressões externas: às pressões de interesses alheios e à indústria do futebol. Com Paulo Bento a sensação que fica é que ele escolhe sempre os mesmos. Parece uma família.
Depois a questão física e a condição com que a maioria dos jogadores se apresentaram para este torneio. Outra vergonha. Dos guarda-redes aos ponta-de-lança, todos apresentavam índices de competitividade muito baixos. Lesões a toda a hora e em todo o lado, cuja culpa não pode ser o tempo, a humidade ou o calor. 
A histeria criada pelos media à volta da comitiva portuguesa, em geral e à volta de Ronaldo, em particular, foi uma vergonha. A notícia era sempre o penteado de Ronaldo, o sorriso de Ronaldo, o aceno de Ronaldo, as meias do Ronaldo, o espectáculo dentro do espectáculo...
Por último, o melhor do mundo. Reparem como não adiantou de nada, nem esperar que um só jogador possa fazer o que deveria ser uma equipa a fazer. Tantos jogadores fantásticos e eficazes temos visto neste campeonato - o frio Mueller, o esteta Van Persie, o simples Messi e o deficiente Eimar, entre outros. O vedetismo, o brilho da divindade ofuscou o resto, o principal, que seria o todo, a equipa. "À mulher de César não basta ser, tem que parecer" e a Ronaldo não basta ser o melhor do mundo e passear-se pelos campos. Tem que jogar, acreditar e efectivar. Nunca o fez neste torneio. É inadmissível.
Pode ser muito importante para o próprio e para a legião de fãs e de gajas que têm sonhos húmidos com o rapaz, mas a verdade é que foi um flop e é inadmissível para um jogador profissional com as responsabilidades de Ronaldo. O melhor do mundo e arredores afinal nem o melhor dos nossos conseguiu ser.
Por tudo isto e mais, ainda bem que já fomos eliminados. Já deveríamos ter sido eliminados não fosse o golo de Varela contra os EUA. Melhor, nem lá deveríamos ter ido. A verdade é esta. Simples e mais barata. O resto é caca.

20 junho 2014

até que enfim...


Já começava a não acreditar na sua publicação. Foram longos seis anos de espera para chegar até nós (vós). Com a chancela de Burkeley, Universidade da Califórnia, este livro reúne um conjunto de textos de um grupo heterogéneo de académicos e investigadores portugueses, espanhóis e americanos. Fica, igualmente e a par da tese que em breve publicarei, como um dos principal registos da frequência do mestrado em Estudos Culturais que realizei a partir de 2008.
Já apresentado nos EUA, mas ainda sem datas agendadas para Portugal, sei que acontecerá algo em Lisboa e algo no Porto. Já pode ser adquirido aqui e em breve no circuito comercial normal.

nova LER

Ora aí está a revista LER numa nova existência (mais uma...), com novo formato, nova paginação, novo grafismo, novos conteúdos, novo preço e nova periodicidade - agora trimestral (se bem entendi, Março, Junho, Setembro e Dezembro). Apesar dessa perda na frequência mensal, temos agora uma revista grande, com boa apresentação e com artigos muito interessantes. Estava um pouco receoso que o processo de mudança fosse significar perda qualitativa, mas não, pelo menos neste "primeiro" número. Aguardemos por Setembro para confirmar essa ideia e, acima de tudo, para haver mais.

Apesar de trimestral e de haver muito tempo para a ler, acontece que já está lida e, assim, posso destacar a boa entrevista ao grande Ferreira Fernandes, a nova secção "correspondentes", o ensaio "A angústia de não ler o suficiente", o texto de Tim Butcher sobre Gavrilo Princip (excerto da obra "o Gatilho") e, por último, o texto de António Mega Ferreira "Tolstoi ou o caminho da redenção".

25 maio 2014

mediascape: selfies

Agora que estou a ver a Quadratura do Círculo e a ouvir o Pacheco Pereira, lembrei-me do seu artigo de ontem, "dia de reflexão", no Jornal Público. Num artigo intitulado "O dia da censura", em que o autor se questiona sobre aquilo que se pode ou não pode dizer, perguntar, ou mesmo pensar no dia de reflexão para as eleições europeias, a determinado momento escreve:
"...Ou de como o selfie do PS é uma afronta aos direitos humanos da câmara fotográfica que teve de rebaixar a sua condição de telefone inteligente para minimizar o ar de parvos dos fotografados, que é o aspecto que os selfies dão às pessoas? Será que posso hoje falar em nome dos direitos da máquina, obrigada a estas violências?"

a quem possa interessar, eu vou lá estar...


granta portugal


Com o número três já nas bancas, confirma-se a iniciativa da editora Tinta da China. Pena é não ser mais assídua, pois a sua qualidade é excelente. Queremos mais. 

22 maio 2014

relíquias



Dois livrinhos encontrados no acervo do Padre Manuel Vale, relativos à novena da Senhora da Serra. Quando fiz trabalho de campo e escrevi (2007) acerca desse santuário li muitas referências a estes velhos livros, mas nunca os tinha encontrado. Aí estão. Um de 1836 e outro de 1890. Bonito.

15 maio 2014

a floresta


Mais um excelente número (42) da colecção «ensaios da fundação». Neste ensaio o autor propõe-nos um olhar sobre a nossa floresta, um dos principais recursos do país. Perceber as suas indústrias, a sua biodiversidade, os serviços ambientais, os ecossistemas, os riscos activos, dos quais se destacam os incêndios. Leitura importante para quem também se interessa pelas questões da ruralidade.

02 maio 2014

Tio Padre Manuel (R.I.P.)


Desde muito novo me habituei a tratá-lo por Tio Padre Manuel, pois pertencendo a uma família onde havia mais padres e até bispos, era natural e necessário haver elementos distintivos. Em todo o caso, recordo-o sempre como uma pessoa muito séria, muito reservado, altivo e ríspido no convívio com toda as pessoas. De miúdo lembro-me de ter algum medo dele e sempre que queria passar pela canelha, espreitava para ver se ele estava ou não na varanda. Era aí que ele passava muitas horas dos seus dias a andar de uma ponta para a outra, sempre atento a quem passasse na estreita passagem que dava acesso à eira. Normalmente essa passagem era só utilizada pela família, o que implicava sempre ter que conversar com ele. Era curioso e queria saber para onde ou de onde vínhamos. Enquanto miúdo não me lembro de ter tido uma conversa séria com ele. Apenas o essencial da boa educação. Recordo-o no altar a rezar a missa, sempre disposto a dar sermões e recordo-o nas suas caminhadas diárias pelas redondezas da aldeia, aproveitando para conversar com quem se cruzasse no seu caminho. Mais tarde, já crescido começamos a comunicar, ainda que a espaços e sempre com mais interlocutores por perto. Sempre que era preciso, lá pedia a meu pai para servir de intermediário, pois a fama de homem antipático e misantropo, tolhiam-me a vontade de me dirigir a ele.
Na aldeia a sua fama era de pessoa inacessível e de difícil trato. Apenas os seus sobrinhos mantinham uma relação mais ou menos próxima e cordial com ele. Dizia-se que ele nunca quis ter uma vida de sacerdote, que ele quando era jovem era um rapaz muito pimpão e com muitas pretendentes. Terá sido uma promessa a sua mãe a força que o empurrou para essa vida.
Foi já muito perto do seu fim que consegui vencer os meus preconceitos e dirigir-me a ele. A propósito da história de vida de D. Manuel António Pires que estou a escrever, sabia que ele tinha sido seu secretário pessoal em Silva Porto - Angola e, portanto, seria uma fonte importante de informações e documentações. Assim foi. Visitei-o três vezes no início de 2013, ainda não estava doente e pareceu-me sempre bastante lúcido, apesar das falhas de memória. Afinal, encontrei alguém com muita vontade de falar, prestável e até afável... Contou-me muitos episódios da sua aventura em África e enquanto secretário do Bispo de Silva Porto. Mostrou-me fotografias e documentos. Emprestou-me todo o material que eu quis. Confidenciou-me que nunca gostou muito de ser pároco e de aturar paroquianos e que foi essa a principal razão pela qual aceitou ir para Angola. Falou-me do seu padrinho, sua grande referência na vida e de como gostava de "grabanços".
Desde então não voltei a falar com ele. Sei que o seu fim foi um processo lento e de alguma agonia. Faleceu hoje, dia 1, quando contava já noventa e muitos anos. Com ele, desaparece a sua geração na família. Lamento a sua morte e lamento, acima de tudo, não ter tido a sensibilidade para o ter conhecido mais e melhor.

[Imagem: Pe. Manuel Vale (2º à esquerda), com outros 3 missionários a jantar a bordo do navio Pátria entre Lisboa e Luanda no início da década de 60. Fotografia do seu acervo pessoal.]

28 abril 2014

instante urbano XXVII

Num dia de relativo calor, hoje, entro no carro e o cheiro que sinto é idêntico àquele que guardo na memória da velhinha R12. Se há memória boa em mim, essa é a olfactiva. Boa recordação. 

a quem interessar... eu vou

a senhora e o ouro peregrino

Nos longos serões à lareira, abrigados das terríveis geadas e procurando aquecer os ossos antes de enfrentar o desconforto da cama, conversava-se acerca de tudo; daquilo que nos dizia respeito, mas também acerca daquilo que nada era nosso. Aproveitando a presença de alguns familiares e vizinhos, desfiava-se conversa, trocavam-se informações importantes sobre as coisas do lugar, coscuvilhava-se sobre a sorte e o azar dos outros e contavam-se histórias, factos ou ficções, de um tempo passado que só a memória dos mais velhos alcançava.
Uma dessas histórias que repetidamente fui ouvindo relatava acontecimentos dos meados do século XX. Pelos vistos por essa época as mulheres da aldeia e de muitas outras povoações desfizeram-se, se não de todo, pelo menos de grande parte do seu ouro e prata. Sem grandes hesitações ou dúvidas ofertaram-no a Nossa Senhora de Fátima que por esse tempo andou em peregrinação por terras de Trás-os-Montes.
Foi em Junho de 1949, entre os dias 1 e 17, que aconteceu essa peregrinação da imagem da Senhora por toda a diocese de Bragança, depois de ter feito igual viagem pela diocese da Guarda. A Igreja organizou e preparou com os maiores cuidados e pormenores essa visita. Através dos seus elementos (organizações, párocos e religiosos(as)) foi passando a mensagem ao povo. Também através do seu principal órgão de comunicação, o Jornal Mensageiro de Bragança, ia dando instruções acerca dos percursos, das datas e horas das cerimónias, assim como dos comportamentos apropriados para os leigos e devotos da Senhora.

 (JMB - 1/5/1949)

(JMB - 10/5/1949)

Estes dois recortes retirados do Jornal Mensageiro de Bragança, exemplificam muito bem a atitude da Igreja naquela ocasião. Num tempo em que a esmagadora maioria da população da diocese vivia numa miséria atroz, a Igreja, passeando a sua "Mãe", sempre rica e oponente, não hesitou, com o seu discurso pedinte e ganancioso, retirar o pouco e o nada dessa gente temerosa. Enfim, outros tempos.    

26 abril 2014

avô cantigas

Hoje a matiné foi para assistir um espectáculo do Avô Cantigas. A primeira canção que cantou foi a cantiga do avô Cantigas e no seu fim o artista disse que essa canção era um clássico, pois faz este ano trinta e dois anos de existência. Relembrou aos mais pequenotes que essa mesma música já serviu para entreter os seus pais. Verdade. Bastou esta afirmação para me levar para uma reflexão acerca do assunto.
Os meus filhos vêem os mesmos filmes e desenhos animados, lêem as mesmas histórias e ouvem as mesmas músicas, que eu um dia também pude ver, ouvir ou ler. Mas eu nunca tive acesso às histórias e às brincadeiras que entreteram os meus pais nas suas infâncias. Uma ou outra sobreviveu e serão como que imortais, mas na sua grande maioria desapareceram. A razão principal para tal reside no facto de no intervalo entre a geração dos meus pais, agora avós, e a minha ter-se dado o advento das novas tecnologias e da magia da gravação - cassete, vhs, cd, dvd, disco duro, pen, etc - que contribuíram definitivamente para a perpetuação das memórias. Creio que se chegar a ser avô, irei continuar a propor aos meus netos as cantigas do avô Cantigas. Fungagá.

22 abril 2014

07 abril 2014

a verdade nacional

Numa recente pesquisa ao arquivo digital do Jornal Mensageiro de Bragança, encontrei este parágrafo.

Não querendo descontextualizar, informo que este excerto foi retirado de um artigo intitulado "Nova mascarada trágica e sacrilega" do então Presidente da Câmara Municipal de Vinhais, Padre Firmino Martins, nas páginas 1 e 2 da edição nº 254 de 10 de Janeiro de 1949.

curas...

Aproveitando o facto de hoje se assinalar o Dia Mundial da Saúde:
Ao abrir um velho baú guardado na cave de uma casa desabitada, encontrei uma data de papeis soltos e correspondências de um outro tempo. No meio disso tudo, dei com os olhos numa velha receita para a cura do herpes Zóster - infeccioso e provocado pela reactivação do vírus da varicela, doença popularmente conhecida por zona. Como ainda hoje não há cura eficaz para essa doença, há quem tenha fé em curas alternativas e na boa sorte...

04 abril 2014

escritora a sério


Assinalando o centenário de nascimento de Marguerite Duras - 4 de Abril de 1914. Li-a quando jovem, continuo a lê-la quando adulto. Escrita impressionante. Do livro Escrever que utilizei na tese de mestrado, a propósito do acto de escrever:
"Gostava de contar a história que contei pela primeira vez a Michelle Porte, que tinha feito um filme sobre mim. Num dado momento da história, eu encontrava-me naquilo a que se chamava a despensa na «pequena» casa com a qual comunica a casa grande. Estava só. Esperava Michelle Porte nessa despensa. Fico muitas vezes assim, sozinha, em lugares calmos e vazios. Durante muito tempo. E foi nesse silêncio, nesse dia, que, de repente, vi e ouvi contra a parede, muito perto de mim, os últimos minutos da vida de uma mosca vulgar.
Sentei-me no chão para não a assustar. Já não me mexi mais.
Estava só com ela em toda a extensão da casa. Até então não tinha pensado em moscas a não ser, sem dúvida, para dizer mal delas. Como vós. Fui educada, tal como vós, no horror desta calamidade que afecta o mundo inteiro, que transmite a peste e a cólera.
Aproximei-me para a ver morrer.
Ela queria escapar à parede onde se arriscava a ficar prisioneira da areia e do cimento depositados sobre essa parede com a humidade do parque. Ela debatia-se contra a morte. Aquilo durou talvez entre dez a quinze minutos e, depois, parou. A vida tinha tido de parar. Fiquei ainda a ver. A mosca continuou contra a parede, como eu a tinha visto, como colada a ela.
Enganara-me: ainda estava viva.
Fiquei ainda ali, a olhá-la, na esperança de que ela fosse recomeçar a ter esperança, a viver.
A minha presença tornava essa morte ainda mais atroz. Eu sabia-o e fiquei. Para ver. Para ver como essa morte invadiria progressivamente a mosca. E também para tentar ver de onde viria essa morte. De fora, ou da espessura da parede, ou do solo. De que noite viria, da terra ou do céu, das florestas próximas, ou de um nada ainda inefável, muito próximo, talvez, talvez de mim, que procurava achar os trajectos da mosca em trânsito para a eternidade.
Já não sei o fim. Sem dúvida que a mosca, já sem forças, terá caído. As patas ter-se-ão descolado da parede. Terá caído da parede. Já não sei mais nada, a não ser que me fui embora. Disse para comigo: «Estás a ficar louca». E fui-me embora dali.
Quando a Michelle Porte chegou, mostrei-lhe o lugar e disse-lhe que uma mosca tinha morrido ali, às três e vinte. A Michelle Porte riu-se muito. Teve um ataque de riso. Tinha razão. Sorri-lhe para acabar com a história. Mas não: continuou a rir. E eu, quando vo-la estou a contar, assim, de verdade, na minha verdade, é o que acabei de dizer, o que foi vivido entre mim e a mosca e que ainda não se presta ao riso.
A morte de uma mosca é a morte. É a morte em marcha em direcção a um certo fim do mundo, que alarga o campo do último sono. Vemos morrer um cão, vemos morrer um cavalo e dizemos qualquer coisa, por exemplo, coitado do bicho… mas se uma mosca morre… não dizemos nada, não tomamos nota, nada.
Agora está escrito. Talvez seja neste género de derrapagem – não gosto desta palavra – muito sombria, que nos arriscamos a incorrer. Não é grave mas é um acontecimento único em si mesmo, total, de um significado enorme: de um sentido inacessível e de um alcance sem limites. Pensei nos judeus. Odiei a Alemanha como nos primeiros dias da guerra, com todo o meu corpo, com toda a minha força.
(…)
Também está certo que a escrita conduza a isso, a essa mosca em agonia, quero dizer: escrever o pânico de escrever. A hora exacta da morte, consignada, tornava-a já inacessível. Dava-lhe uma importância de carácter geral, digamos que um lugar determinado no mapa geral da vida sobre a terra.
Essa exactidão da hora a que ela tinha morrido fazia com que a mosca tivesse tido exéquias secretas. Vinte anos depois da sua morte, a prova aqui está, ainda se fala dela.
Eu nunca tinha contado a morte dessa mosca, a sua duração, a sua lentidão, o seu medo atroz, a sua verdade.
A exactidão da hora da morte remete para a coexistência com o homem, com os povos colonizados, com a massa fabulosa dos desconhecidos do mundo, as pessoas sós, aquelas da solidão universal. A vida está em toda a parte. Da bactéria ao elefante. Da terra aos céus divinos ou já mortos.
Eu não tinha organizado nada em torno da morte da mosca. As paredes brancas, lisas, sua mortalha, estavam já ali e fizeram com que a sua morte se tenha transformado num acontecimento público, natural e inevitável. Aquela mosca estava, manifestamente, no fim da vida. Eu não podia impedir-me de a ver morrer. Já não se mexia. Havia também isso, saber, também, que não é possível contar que essa mosca existiu.
Já passaram vinte anos.
(…)
Sim. É isso, esta morte da mosca, tornou-se o deslocamento da literatura. Escrevemos som o saber. Escrevemos a olhar uma mosca morrer. Temos o direito de o fazer.
(…)
À nossa volta todo o escrito, é isso que é preciso chegar a perceber, todo o escrito, a mosca, ela, escreve, nas paredes, escreveu muito na luz da sala grande, reflectida pelo tanque. Ela podia aguentar-se numa página inteira, a escrita da mosca. Então seria uma escrita. A partir do momento em que ela poderia sê-lo, ela é já uma escrita. Um dia, talvez, no decorrer dos séculos que hão-de vir, ler-se-ia essa escrita, seria também ela decifrada e traduzida.
(…)
Podemos também não escrever, esquecer uma mosca. Olhá-la, apenas. Ver como, por sua vez, ela se debateria."
(Duras, 1994:40 a 48)

28 março 2014

fonte de eterna inspiração

Não conhecia André Gorz, jamais lera uma palavra da sua escrita, até que um dia destes tropecei nesta linda capa. Peguei nele e li-o ainda antes de o comprar. Bonito e sentido texto o autor escreve nesta carta dirigida à sua companheira de sempre. Escrito perto do final da vida de ambos, esta carta será o testamento das suas vidas, vividas lado a lado. De todas as passagens bonitas, marcantes e memoráveis que a sua leitura me deu a conhecer, há uma que pelo seu significado político e até essencialista, talvez pela empatia, me marcou:
"Tanto quanto consigo lembrar-me, sempre detestei o estilo de vida dito «opulento» e seus desperdícios. Tu recusavas seguir a moda e julgava-la segundo os teus próprios critérios. Recusavas-te a permitir que a publicidade e o marketing te dessem necessidades que não sentias. (...) Acabámos por adquirir, ao fim de dez anos, um Austin velho. O que não nos impediu, porém, de continuar a considerar a motorização individual como uma escolha política execrável, que põe as pessoas umas contra as outras, na pretensão de lhes oferecer o meio de se livrarem de um destino comum. Tinhas para as despesas correntes um orçamento que definias e gerias de acordo com as nossas necessidades. Faz-me lembrar que tu tinhas concluído, já aos sete anos de idade, que o amor, para ser verdadeiro, deve desprezar o dinheiro. Tu desprezava-lo." (páginas 68 e 69)


Ainda o estava a ler e já sabia a quem o ia oferecer. Assim fiz.

evolução epistemológica

Ir a uma consulta de clínica geral e depois de explicada a situação e identificadas as maleitas sentidas, ser aconselhado pela especialista em medicina geral e familiar a experimentar sessões de acupunctura e de yoga. Apesar destas serem já muito populares entre nós, nunca um especialista, formado e formatado pela academia e com um discurso historicamente hermenêutico e uma prática conservadora, me aconselhara sair da ciência positivista. Como evolui o conhecimento científico e vai incorporando ou normalizando todas as outras terapias, outrora irreconhecíveis e estigmatizadas.

17 março 2014

festival da canção

Tal como grande parte dos portugueses que tenham 30 ou mais anos, recordo os serões em que o país parava para assistir ao festival da canção. Durante décadas esse era um momento marcante da vida artística e do entretenimento nacional. Era sempre grande a expectativa para conhecer os artistas e os temas a concurso, assim como era com ansiedade que assistíamos à votação feita pelo júri descentralizado pelas capitais de distrito e, por incrível que pareça, acreditava-se na competência, justiça e na idoneidade desses painéis de jurados. Entretanto, o mundo mudou, tudo mudou e o evento, outrora, marcante e estruturante, perdeu centralidade, qualidade e, acima de tudo, perdeu razão de existir. Não se percebe a insistência da RTP num formato esgotado e que pouco dignifica o serviço público de televisão. Este ano, por razões "amigas", assisti aos dois episódios, ou melhor, às duas partes do festival e fiquei muito embaraçado, sentindo mesmo vergonha alheia, com o espectáculo de uma tristeza confrangedora que os meus olhos podiam ver. Silvia Alberto e José Carlos Malato bem tentavam manter a dignidade da coisa, mas perante o vazio de conteúdo, a falta de entusiasmo do pouco público presente e a fraca prestação dos concorrentes, era notório o desconforto. Por muito que repetissem que o ambiente estava fantástico, por muito que gabassem os temas e os seus intérpretes, percebia-se mesmo através da TV que estávamos perante um tremendo acto falhado da RTP com direito a apupos e vaias para o vencedor. Desconheço o resultado das audiências, mas até o facto de a votação ser feita pelos telespectadores, através de telefone, demonstra bem a dimensão do concurso. Depois, se repararmos com atenção, são sempre os mesmos: apresentadores, concorrentes, produtores, convidados, homenageados, etc. Dá a sensação de haver uma clique de privilegiados que carece deste espaço para justificarem a sua existência e que cristalizaram, ou mesmo, fossilizaram julgando deter a exclusividade da música ligeira em Portugal e que não se aperceberam que o mundo que os rodeia evoluiu par algo diferente. Sem julgar o papel que tiveram e a sua relativa importância, estou farto de António's Calvário's, de Simone's de Oliveira, de Ary's dos Santos, de Carlos Paiões e de todas as outras santidades da nossa história recente. Aquilo que assistimos foi um tremendo exercício de saudosismo por um Portugal que já não existe, nem voltará a existir. Sei da importância da memória para a vida dos indivíduos e das comunidades, mas assim não, é decadente e atávica.
PS - assisti com toda a atenção e não gostei de nenhuma das 10 músicas em concurso. Assisti com toda a atenção aos momentos musicais produzidos pelo meu amigo José Lourenço e destaco o desempenho do Henrique Feist, que uma vez mais demonstrou ser um excelente artista.

08 março 2014

dumping generalizado

Desconfio até que já não é a primeira vez que eu verto para palavras este assunto.
Eu não percebo nada do assunto e nunca fiz qualquer esforço por entender da poda. Por outro lado, não serei um típico consumidor, daqueles que compram, compram e compram. Contudo, não posso deixar de me apurriar com aquilo que vou vendo por todo o lado, principalmente nos grandes altares do consumismo pós-moderno que são os shoppings. Como é possível que os comerciantes e os lojistas apresentem promoções durante meses e meses?! Como é possível apresentarem durante todo esse tempo descontos que em muitos casos chegam aos 70% do preço de venda?!... Alguma coisa estará errada, pois ou eles estão a vender abaixo do preço de custo, algo que não me parece razoável, sequer racional, ou então a margem de lucro com que habitualmente trabalham é de tal forma grande, que se podem dar ao luxo de perder mais de metade do seu lucro, algo que apesar de estranho me parece ser o que de facto acontece. Isto, a ser verdade, só revela o roubo que todos, enquanto consumidores, aceitamos durante o restante tempo sem promoções e o processo de globalização e a chegada de produtos manufacturados em países do terceiro e quarto mundo só vieram promover essa desregulação dos mercados. Nada contra a venda/compra de produtos e espécimes mais baratos ou muito mais baratos; tudo contra a venda/compra de produtos e espécimes mais caros ou muito mais caros do que aquilo que realmente valem. Atenção, desconfio que são corrêssemos atrás das promoções e as ignorássemos, os preços acabariam por descer substancialmente, acabando assim com toda a especulação.

07 março 2014

de todo o ano de 2013 e princípio de 2014

Não sei bem porque razão, mas talvez por distracção ou esquecimento, reparo agora que a última vez que aqui actualizei os livros que adquiri ou me foram oferecidos aconteceu em Dezembro de 2012. Por tanto, farei agora a referência àqueles que de lá e até ao presente entraram no acervo:
- Castro, Pe. José de (1946 a 1951), Bragança e Miranda, 4 volumes, Lisboa, Academia Portuguesa de História;
- Foucault, Michel (1998), As Palavras e as Coisas, Lisboa, Edições 70;
- Fernandes, Armando e Ferreira, Manuel (2011), Figuras notáveis e notórias bragançanas, Bragança, Fundação Mensageiro de Bragança;
- Centeno, Mário (2013), O trabalho, uma visão de mercado, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Silva, Filipe Carreira da (2013), O futuro do estado social, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Barros, Pedro Pita (2013), Pela sua saúde, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Rodrigues, Ernesto e Ferreira, Amadeu (coord.) (2013), A Terra de Duas Línguas II - antologia de autores transmontanos, Bragança, Lema d'Origem;
- Tiza, António Pinelo (2013), O Diabo e as Cinzas, Lisboa, Âncora Editora;
- Marques, Carlos Vaz (coord.) (2013), Revista Granta I, Lisboa, Tinta da China;
- Tiza, António Pinelo (2013), Mascaradas e Pauliteiros - etnografia e educação, Lisboa, Eranos - edições e multimédia;
- Sousa, Fernando de (2013), Bragança na época contemporânea (1820-2012) - volumes 1 e 2, Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Mota, Francisco Teixeira da (2013), A liberdade de expressão em tribunal, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Osswald, Walter (2013), Sobre a morte e o morrer, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Aboim, Sofia (2013), A sexualidade dos portugueses, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Pereira, Alfredo Marvão (2013), Os investimentos públicos em Portugal, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Sarmento, Joaquim Miranda (2013), Parcerias público-privadas, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Rosa, Maria João Valente e Chitas, Paulo (2013), Portugal e a Europa: os números, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Jorge, Vitor Oliveira e Iturra, Raúl (1997), Recuperar o espanto: o olhar da antropologia, Porto, Edições Afrontamento;
- Menezes, Manuel (2011), Os fiados nas tabernas espelhos das realidades aldeãs: Alvite e Rio de Onor, Moimenta da Beira, Edições Esgotadas;
- Le Breton, David (2004), Sinais de Identidade - tatuagens, piercings e outras marcas corporais, Lisboa, Miosótis;
- Vieira, Ricardo (2009), Identidades Pessoais, Lisboa, Edições Colibri;
- Santo, Moisés Espírito (2006), Os Mouros Fatimidas e as aparições de Fátima, Lisboa, Assírio & Alvim;
- Marques, Carlos Vaz (coord.) (2013), Revista Granta II, Lisboa, Tinta da China;
- Mesquita, José Alegre (2012), Selores... e uma casa, Vila Nova de Gaia, Euedito;
- Moura, Vasco Graça (2013), A identidade cultural europeia, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Marques, Hermínio Cunha (1998), As alminhas no concelho de Carregal do Sal, Carregal do Sal, Câmara Municipal de Carregal do Sal;
- Câmara Municipal da Lousã (1986), Alminhas do concelho da Lousã, Lousã;
- Simpson, Duncan (2014), A Igreja Católica e o Estado Novo Salazarista, Lisboa, Edições 70;

LER... e mais um ciclo que termina


Saiu para as bancas hoje o número 133 da Revista LER e com ele a notícia, em editorial, de que este será o último número mensal da revista. A partir daqui a periodicidade será trimestral, regressando assim ao formato anterior a 2008. Compreendendo as dificuldades editoriais, lamento o desaparecimento desta que tem sido uma companhia assídua de alguns dias de cada mês. Aguardemos pelo novo formato e esperemos ser surpreendidos.

05 março 2014

sétima arte

Por estes dias em que tanto se fala de cinema, filmes, "oscars", vencedores e vencidos, dediquei algumas das minhas horas à arte. Assim e sem qualquer ordem cronológica, pude ver:
+ Blue Jasmine, com a bonita e talentosa Cate Blanchett numa personagem assombrosa;
+ Capitão Phillips, que vale por ficcionar algo que terá acontecido realmente;
+ De Bicicleta com Mòliere, de certa forma uma desilusão face às expectativas;
+ O Passado, intenso e marcante;
+ Golpada Americana, bem ao jeito de Hollywood;
+ O Lobo de Wall Street, com DiCaprio e uma alucinante narrativa;
+ O Conselheiro, e o seu excelente elenco;
+ Reasonable Doubt, sem merecer qualquer comentário;
+ A Rapariga que roubava Livros, com mais uma excelente prestação de Geoffrey Rush e uma história lindíssima;

16 fevereiro 2014

JRC


Poderia dizer que continuo a descobrir o autor, mas já o conheço e reconheço a sua escrita. A cada livro que dele leio fica sempre a sensação que a narrativa é curta e que depressa demais se chega ao seu fim. Uma vez mais José Rentes de Carvalho (JRC) leva-nos a percorrer os caminhos da sua memória, desta feita não pelas arribas do douro e pelas invernias transmontanas, mas pelas duas margens do rio Minho. Sempre num ambiente rural e de extrema pobreza, JRC apresenta-nos um portugal de meados e segunda metade do século XX, miserável e esfomeado, sempre afoito pela transgressão e pela aventura que a actividade do contrabando proporcionava. Elemento, aliás, recorrente na obra deste escritor. Foi leitura nesta tarde soalheira. Venha o próximo.

15 fevereiro 2014

gratificante

Os nossos amigos e conhecidos recorrerem a nós para aconselhamento quando querem comprar um livro para ler ou para oferecer é sempre gratificante. Acabou de acontecer.

14 fevereiro 2014

a caminho de casa...

Conhecedor que não sou da cidade de Lisboa e dos seus recantos, acabo por percorrer sempre os mesmos percursos e revisitar sempre os mesmos lugares. Nestes dias por lá passados, as tardes acabaram obrigatoriamente no balcão do Beira Gare, snack-bar petisqueira junto à Estação do Rossio, para beber uma ou duas Imperiais e a trincar uma Chamuça e um Croquete. Última paragem quando a tarde era já noite, depois, casa. Apesar do seu aspecto gorduroso e de higiene duvidosa, sabe-me sempre bem. Em muitos aspectos faz-me lembrar o Conga - casa das bifanas, no fundo da Rua do Bonjardim no Porto. 

(fotografia roubada daqui)

13 fevereiro 2014

meo, a segunda vida da tmn

Provavelmente já não existem, ou quase não existem clientes como eu, mas a verdade é que o desaparecimento da TMN não me agradou, fiquei até triste. Mantinha com essa marca uma relação que remontava aos primórdios da telecomunicações móveis em Portugal. Fui-lhe sempre fiel, nunca a troquei por nenhuma outra e agora, que parte, sinto-me abandonado, traído e sem saber o que fazer. Bem podem apresentar a MEO como sendo a segunda vida, ou afirmar que tudo ficará igual para os seus clientes. Não me parece e assim sendo, não me sentindo obrigado a qualquer compromisso com esta segunda via, irei arranjar outra, uma com a qual me sinta confortável e possa fidelizar. Pois é, eu sei, sou uma espécie de cliente em extinção, afectivo e pouco racional, não importa pois quando gosto, gosto. 

12 fevereiro 2014

instante urbano XXVI

Ali para os lados de Entrecampos, que é como diz entre o Campo Grande e o Campo Pequeno, numa destas manhãs, estava eu sentado num café a ler o jornal e a tentar escapar ao dilúvio que afogava Lisboa, quando numa mesa ao lado três ou quatro pessoas, por entre um café, comparavam a qualidade do metro de Lisboa e o metro do Porto. Uma voz feminina, que me obrigou a levantar a cabeça, através da sua indumentária verbal afirmou que, tendo vivido algum tempo em Vila Nova de Gaia, sabia bem da qualidade do metro do Porto, mas ninguém poderia chamar "àquilo" metro, pois na verdade é apenas um simples eléctrico. Então não é? Claro que sim, pois ele nem sequer anda debaixo da terra. O de Lisboa sim, é um metro a sério, anda debaixo de terra e é muito mais eficaz, não há comparações possíveis.
Santa ignorância, digo eu sem comparações.

por falar em cultura e em identidade...


Tenho que fazer referência ao excelente ensaio de Vasco Graça Moura - A identidade cultural Europeia - publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, na sua colecção Ensaios da Fundação. Aproveitando o intervalo dos pingos da chuva destes últimos dias, li este pequeno texto que de uma forma sucinta apresenta a história pouco ou nada linear da Europa e as contradições, os conflitos, as dúvidas, os colapsos, as inquietações, as realizações e as descobertas desse percurso para tentar encontrar no final da história uma ou mais identidades possíveis. Muito interessante e muito didáctico. Livro que entrará desde já nas minhas referências bibliográficas e que "obrigarei" os meus alunos a ler.

Stuart Hall (R.I.P)


Foi através do Jornal Público que fiquei a saber da recente morte de Stuart Hall. Conheci a sua obra quando frequentei as aulas de mestrado de estudos culturais, não fosse ele um dos fundadores do centro que foi o berço dos Estudos Culturais na Universidade de Birmingham. Nascido na Jamaica Stuart Hall, viveu desde 1951 na Grã-Bretanha e, por ser emigrante, viveu naquilo que ele considerou "a condição arquetípica da modernidade tardia". Escreveu sempre a partir da diáspora pós-colonial, de um engajamento com o marxismo e o debate teórico sobre cultura num contexto de globalização complexa e contraditória. É através destas suas reflexões que se torna uma das principais referências actuais sobre as dimensões político-culturais da globalização, vistas a partir da diáspora negra.

07 fevereiro 2014

escrever para viver, viver para escrever

Outra notícia interessante que encontrei nesta nova revista LER e trazida por Bruno Vieira Amaral, diz que um inquérito realizado pela Digital Book World no Reino Unido a mais de nove mil escritores revelou que mais de 50% dos escritores que estão ligados a editoras ganham menos de 600 libras esterlinas (730 euros) por ano. Bruno Vieira Amaral questiona e bem: o que é que os motiva no negócio da escrita? Aponta várias hipóteses para resposta a esta pergunta, mas evidencia que estes não vêem a escrita como um negócio. Para eles o dinheiro não é a principal motivação. Viver da escrita é um luxo, mas viver para a escrita é uma missão.

06 fevereiro 2014

omnisciência tecnológica

A notícia poderá até nem ser nova, mas eu apenas a conheci hoje através da revista LER. Segundo esta, a Amazon está a preparar-se para enviar encomendas aos seus clientes ainda antes de eles as fazerem. Lí as "instruções" e não fiquei confuso, nem sou um tecno-céptico, mas a ambição parece-me desmedida e pretensiosa e tal poder de antecipação significaria uma capacidade comercial que iria desestruturar as lógicas comerciais tal como hoje as conhecemos e provocar uma autêntica revolução comercial.
Estará a Amazon.com a ambicionar construir uma nova torre de babel desmaterializada? É preciso estar consciente que a omnisciência é um dom apenas reservado às entidades superiores ou divinas.
José Mário Branco escreve sobre este assunto:
Da Amazon, o gigante mundial da distribuição, já se espera tudo. Há uns meses, foi anunciado o proje­to de usar, num futuro próximo, drones para fazer entregas em qualquer ponto dos EUA num intervalo inferior a 30 minutos. Escolhe-se o que se quiser no site e meia hora depois um veículo voador do tamanho de um helicóptero telecomandado pousa no quintal das traseiras com a encomenda. Impressionante, sim, mas o engenhoso e insaciável Jeff Bezos não se fica por aqui em termos de arrojo tecnológico. Na ânsia de ser sempre mais rápida do que a concorrência, a Amazon está a preparar-se para enviar encomendas aos seus clientes ainda antes de eles as fazerem. Exato: é como se lhes adivinhassem os pensamentos e as intenções. Valendo-se das quantidades incalculáveis de informação armazenada sobre hábitos de consumo (das compras feitas no passado às wish lists, passando pelo tempo que o cursor permanece a pairar em cima de um determinado item), um sistema informático calculará que produtos terão uma probabilidade elevada de serem ­encomendados e acionará o respetivo «envio antecipado». Assim, quando o cliente clicar por fim no botão de compra, o produto já estará em trânsito, ou em espera num armazém mais próximo da morada de destino. Levada às últimas consequências, a ideia acabará por descartar a própria vontade do consumidor, esse obstáculo final à absoluta fluidez do sistema. Chegará o dia em que a Amazon anunciará o algoritmo capaz de definir – sem que tenhamos voto na matéria – o que na verdade cada um de nós precisa de ler, ver ou ouvir.

nova LER...


Pouco tempo depois de a ir buscar ao quiosque e logo depois de um passar de olhos rápido, posso desde já dizer que não gostei da nova revista. E digo nova, não porque haja qualquer novidade gráfica, ou conceptual, mas porque este é o primeiro número em que os seus colaboradores cronistas não foram convocados para tal. Poderei estar apenas a estranhar e a precisar de habituação. Talvez, mas Inês Pedrosa, Onésimo Teotónio Almeida, Eduardo Pitta, Pedro Mexia et all, faziam-me ansiar sempre pela revista. Resta, neste número, a entrevista a Mário de Carvalho e, depois, aguardar os próximos números para LER.

03 fevereiro 2014

António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva

Numa aldeia remota de Trás-os-Montes, reuni com um grupo de convivas que sob o pretexto da amizade e da fraternidade, reúnem periodicamente à mesa e alarvemente saboreiam o melhor que há na gastronomia local. Convidado e sem saber do que se tratava e para o que ia, fui surpreendido pela qualidade dos produtos cozinhados e completamente esmagado pela qualidade cultural e tertuliana desse encontro. Não ia preparado para a dimensão e profundidade das palavras que acompanharam o repasto. Um dos assuntos que mais me fascinou foi a reflexão acerca da dimensão humana e intelectual de alguns dos mais ilustres pensadores e autores portugueses.
Por se falar de António Vieira, o padre, enquanto grande vulto do século XVII, da sua obra, da sua vida e da sua coragem, referiu-se o nome de Bartolomé de Las Casas e da sua obra mais conhecida - Brevíssima Relação da Destruição das Índias - onde o autor faz a descrição dos horrores cometidos pelos espanhóis nas descobertas e conquistas realizadas no século XVI pelo continente americano. Obra de referência para os espanhóis que a consideram única, desconhecendo por absoluto a similaridade da obra do português que pouco tempo depois experimentou algo de semelhante nas terras de Vera Cruz. António Vieira será, poucas dúvidas restam, um dos maiores autores da língua portuguesa de todos tempos e foi com ele que surgiu a ideia de quinto império, enquanto crença messiânica e que legitimou o movimento autonomista português em relação à coroa espanhola. Para Vieira os impérios seriam: Assírios, Persas, Gregos e Romanos, aos quais se acrescentaria um quinto, o império português.
Depois, e numa vertiginosa viagem pelo tempo, chegamos ao século XX e a Fernando Pessoa que na Mensagem retoma o tema iniciado por António Vieira e se refere aos cinco impérios, diferindo da escolha de Vieira e identificando o império Grego, o Romano, o Cristianismo e a Europa do Renascimento e das Luzes. A estes, Fernando Pessoa acrescenta um quinto império, o cultural.
Mais tarde e ainda durante o século XX Agostinho da Silva ao reflectir sobre essa crença, transforma o quinto império no império do Espírito Santo, afirmando-se como um cavaleiro do Espírito Santo. 
Esta viagem pelo imaginário lusófono e pela obra destes autores, levam-me de imediato a querer ir revisitar algumas leituras e a descobrir outras tantas. Para o tempo que aí vem.

02 fevereiro 2014

Philip Seymour Hoffman (R.I.P)


Ao saber da sua morte, sempre precoce e estúpida com anúncio prévio de meses ou mesmo anos, recordo o actor que aprendi a apreciar e a admirar. O seu aspecto flácido, incontido e ar deslavado, servido por uma cara laroca de puto reguila e guloso, não o impediram de ter alcançado a fama e a glória de Hollywood. Recordo muitos dos seus personagens, uns maiores, outros menores, uns mais felizes, outros desastrados, mas destaco acima de tudo a intensidade dos seus desempenhos. Nem sequer falarei do papel que lhe permitiu ganhar um Oscar - Capote em 2005, preferindo referir os filmes que me marcaram e nos quais Philip Hoffman contribuiu grandemente para que tal acontecesse. Pessoalmente, destaco os filmes Boogie Nights (1997), The Big Lebowsky (1998), Magnólia (1999), e depois, mais recentemente, aqueles que, para mim, fizeram de Hoffman um dos mais brilhantes actores da actualidade: The Savages (2007) e Synedoche, New York (2008). De qualquer forma, o facto de saber que ele participava em qualquer filme, era o suficiente para eu os querer (tele)ver. Lamento o desaparecimento de um talentoso intérprete.

27 janeiro 2014

mais um ano, pela sétima vez

Por lapso de memória, que é como quem diz que se esqueceu, assiná-lo hoje a passagem para o oitavo ano de existência do apurriar. A data exacta da sua fundação é 24 de Janeiro de 2007. Neste momento, quero apenas reafirmar a vontade de continuar e de manter activo este espaço. Para início de mais um ano, e como já terão verificado, procedeu-se a uma pequena alteração do seu aspecto, num esforço de o manter esteticamente actualizado. Muito obrigado pela partilha deste tempo.

grande chico...

Chico do Vale - "Pedro, O Coelho" from MPAGDP on Vimeo.

15 janeiro 2014

mediascape: tecnocracia

Segundo o Jornal i, amanhã irá ser conhecido um estudo sobre literacia social, promovido pela Universidade Católica, pelo Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano e pela União Europeia. Segundo as conclusões desse estudo, os indivíduos que mais possibilidades materiais têm são os menos disponíveis para ajudar os outros, ou para defender uma causa justa, demonstrando que as pessoas se vão acomodando ao seu crescente bem-estar e sucesso, esquecendo ou alheando-se da situação dos restantes indivíduos, com quem não partilham riqueza, benefícios e privilégios. O responsável por esse estudo afirma que o sistema de educação é o grande responsável por esta situação, pois durante as últimas décadas a escola dedicou-se a um ensino demasiadamente técnico e esqueceu-se da condição humana e da ética humanista.
Impressionante como em poucas décadas se esvazia uma sociedade dos seus valores éticos, morais e cívicos. Vivemos a era do neo-individualismo - cada um de si, por si e exclusivamente para si. Estupidificante, ou melhor, mais ricos e mais estúpidos.

14 janeiro 2014

instante urbano XXV

Este é um episódio que não experimentei ou testemunhei. Chegou-me aos ouvidos através de um amigo que, à mesa de um café e por entre gargalhadas, partilhou o sucedido. Desconheço a veracidade dos factos ou se os mesmos pertencem ao anedotário à ordem da oralidade ordinária e maldizente. Sem juízos ou moralismos, aqui vai:

À conversa com um amigo e a propósito da nova moda da comercialização digital, através do sítio "OLX", discutia-se a segurança, fiabilidade e qualidade do serviço prestado e a eficácia das transacções comerciais. Esta é já uma forma segura e eficaz de se conseguir vender e comprar de tudo o que possamos imaginar, apesar de existir sempre o risco de burla, engano ou má-fé. Que o diga um rapaz seu conhecido que através desse espaço de trocas comerciais digitais encomendou um produto, cuja publicidade garantia o aumento substancial do seu pénis. Vá-se lá saber porquê, pagou cem euros e ficou a aguardar a encomenda. Não teve que esperar muito e para seu espanto e vergonha, o engenho milagroso que encontrou na encomenda foi uma simples e eficaz lupa.

12 janeiro 2014

mediascape: papel

Sobre Borges escreveu-se que a "erudição é uma forma moderna do fantástico" ou seja é uma forma de criação mesmo que não use, nem mereça, esse nome. Por isso as bibliotecas, mesmo mortas, como são na maior parte todas as grandes bibliotecas, são uma construção humana ímpar. Se há civilização, é aqui que está, também nos pobres versos de todos estes humanos que tiveram a enorme presunção de escrever livros, nem que seja para dar uso às palavras.
(José Pacheco Pereira, In Jornal Público de 11/01/2014)

10 janeiro 2014

sr. fnac

Não sei se é só impressão minha, mas as lojas da Fnac estão a perder qualidade. De há algum tempo a esta parte tenho reparado que a oferta de livros e de música tem vindo a diminuir. Para além disso, o cuidado com a apresentação, com o estado de conservação dos produtos expostos tem sido negligenciado. Não quero ser injusto, mas parece-me que o Sr. Fnac já conheceu melhores dias. Desde a sua chegada a Portugal em 1998, a marca construiu uma rede de lojas por todo o país com uma excelente oferta de catálogos de livros e música. Com isso destruiu muitos dos pequenos comerciantes especializados, que não resistiram à esmagadora capacidade de promoção, de preço e de programação da marca francesa. Depois de conseguiram praticamente o monopólio desse negócio, abandonam os seus clientes e deixam um vazio tremendo. Lamento, acima de tudo, ter também contribuído para essa concorrência desleal. Agora, nem me deveria lamentar, mas lamento.

07 janeiro 2014

baú da memória V

Retomo assim uma rubrica há anos esquecida. A minha mãe em arrumações recentes encontrou três pedaços velhos de serapilheira bordados. Logo se apercebeu que deveriam ser trabalhos de escola de algum dos seus filhos. Perguntou-me se me recordava de algum deles. Num primeiro momento disse que não, mas depois de verificar com atenção encontrei nas costas de um deles uma etiqueta identificativa que eliminou qualquer dúvida.
Este foi um trabalho de tapeçaria que fiz na disciplina de Trabalhos Manuais do 7º ano, isto no longínquo ano de 1986. Fica o registo.