29 abril 2019

mediascape:coincidências

Duas notícias quase simultâneas sobressaltaram-me os sentidos: A primeira dizia que a Câmara Municipal do Porto, depois de uma proposta do vereador da CDU, se preparava para classificar a casa onde o escritor Almeida Garrett nasceu como património municipal e, também, iria estudar a possibilidade de a vir a adquirir e transformar num polo do museu do Liberalismo. A segunda, praticamente sucedânea, dizia que essa mesma casa tinha ardido e ficado completamente destruída, tendo sobrevivido apenas a fachada principal.
Andam a passar-se episódios muitos estranhos na Invicta. Esta nova situação relembrou-me de imediato a tragédia ocorrida aqui há meses na zona do Bolhão em que um edifício ainda ocupado, mas pretendido para o negócio do turismo local, ardeu por completo, tendo matado uma idosa que aí vivia. Não creio em coincidências, principalmente quando sei que o "mercado" se transformou numa autêntica selva anárquica, na qual vale tudo ou quase, sobre a qual as instituições que a deveriam regular e supervisionar, ávidas da sua quota-parte de lucros tributários, fecham os olhos e até incentivam toda e qualquer especulação.
Uma vergonha o que se está a passar na minha cidade.

um néscio com poder

Utilizando (uma vez mais) o Twitter, o Presidente brasileiro, afirmou recentemente que o seu ministro da Educação, Abraham Wientraub, estuda descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia, querendo com isto dizer que, sem prejuízo dos alunos já inscritos, o estado brasileiro vai deixar de custear estes cursos de ciências sociais e humanas. Para justificar esta afirmação, Jair Bolsonaro escreve: “A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta”. Reforça esta ideia com o seguinte propósito: "O objetivo é focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina."
Não sei se não seria mais saudável passar a ignorar tudo o que nos chega das terras de Vera Cruz, pois a ignomínia é já incomensurável e, acima de tudo, inqualificável. Só mesmo um bando néscios, abrutalhados e ignorantes exímios poderia defender uma ideia como esta. Poderíamos estar perante uma atitude reflectida e ponderada, ideológica, para afastar o comum nos cidadãos do Conhecimento, naquilo que poderia ser designado de racismo de inteligência, mas não acredito que assim seja, pois apesar de em última análise, ser isso que se vai verificar, o que move esta gente, reconhecendo a sua inferioridade intelectual, é o ódio pelo Saber, pela Cultura e pelo Cosmopolitismo, preferindo contribuir para a imposição de uma sociedade limitada e castradora, de cidadãos inaptos, ignaros, embrutecidos e desinformados.
Para além do pormenor de uma certa equidade que se espera de um governo naquilo que é a oferta pública no ensino superior, importa recordar que as ciências sociais/humanas, em geral, e a Filosofia, em particular, são essenciais para o progresso de uma sociedade, naquilo que são os critérios para o Conhecimento, naquilo que são os critérios éticos e morais, naquilo que pode ser um pensamento crítico e reflexivo e, também, naquilo que deverão ser ganhos efectivos de consciência - individual e colectiva - ao ultrapassar a banalidade, o facilitismo e a preguiça do senso comum.

25 abril 2019

25 de Abril sempre!


Uma ideia simples e clara que importa repetir até à exaustão.
Foi há 45 anos e esse tempo todo trouxe consigo um inevitável e crescente desconhecimento e/ou ignorância sobre o seu significado e importância, que por sua vez, permitiram a relativização desse momento re-fundador da nossa sociedade. É, pois, perante esses perigos que vão sitiando a nossa democracia, que será sempre imperativo reafirmar os seus valores.
Viva o 25 de Abril.

23 abril 2019

dia do livro

Hoje é o dia mundial do Livro e nada melhor de que assinalar a efeméride comprando, ou pelo menos, lendo literatura que importa. Eu, que entre outros, trago na cabeceira os Contos Escolhidos de Guy de Mompassant (1850-1893), comecei o dia com ele e, agora que saí de casa, aproveitei o pretexto de um café na Fnac para espreitar as promoções deste dia e o resultado foi o que a fotografia apresenta. Boas leituras.

12 abril 2019

talvez esta seja uma revolução religiosa em curso


É com esta afirmação que Alfredo Teixeira termina o seu ensaio "Religião na sociedade portuguesa", acabado de sair na colecção dos ensaios da fundação(nº 93), da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Aproveitei um par de horas vazias de uma manhã desta semana para o ler. Mais um excelente ensaio desta colecção para quem se interessa pelas questões do sagrada e do religioso, que procura retratar e explicar as actuais formas de crer e pertencer em Portugal.
Partindo de duas questões: a) Como se caracterizam as identidades religiosas em Portugal?, e b) O que persistiu e o que mudou com as alterações das formas tradicionais de vivência crente e a emergência de novas paisagens religiosas?, o autor serve-se de três eixos de observação - destradicionalização, individualização, diversificação - para retratar a mudança de um mundo do "Deus da nossa terra" para as formas religiosas de um mundo globalizado. Mudança esta que Alfredo Teixeira especula de revolução religiosa em curso. Será?

02 abril 2019

conte-me a sua história

A editora Esfera dos Livros, segundo consta, por ocasião do dia do Pai, lançou no mercado um caderno-livro, ou livro-caderno, no qual os “Pais” são convidados a escrever a sua história. Só por estes dias, nas minhas deambulações quotidianas entre livros, o descobri e logo me chamou a atenção. Ideia engraçada e barata (preço de 8,50 €). É verdade que a sua estrutura é muito simples, as propostas de títulos para os textos e capítulos, nalguns casos é pobre, noutros chega a ser infantil, mas se o entendermos como um instrumento de construção de memórias individuais, num primeiro momento, e, depois, num âmbito mais alargado, como a construção de uma real memória colectiva, não deixa de ser uma ideia gira e interessante. Considero que todos os pais (e também, todas as mães), deveriam ser obrigados a escrever (preencher) um livro destes. Tal como já aqui afirmei, a propósito dos alguns fotográficos familiares, deveria ser obrigatório legendar todas as fotografias, também todas as pessoas, por exemplo e se não quisessem antes, ao chegar aos 60, ou 70 anos, seriam obrigadas (por decreto) a este exercício de memória.

justiça social


Agora que se concretizou a redução dos preços dos passes sociais, importa reforçar a importância desta medida, naquilo que verdadeiramente significa para milhares e milhares de cidadãos e famílias portuguesas. António Costa, e o seu governo, não conseguiria encontrar melhor medida de cariz social do que esta. Assim se governa a pensar e para os portugueses. Ainda que em ano de eleições, esta medida é de tal forma impactante na economia das famílias portuguesas, que o facto de haver eleições é um perfeito pormenor. À esquerda do PS, os partidos, de certa forma surpreendidos, tentam reclamar para si o ónus da pressão política que tornou possível tal novidade; À direita do PS, é o desnorte, o caos, o horror, incrédulos e sem capacidade de reacção, a não ser a manifestação de opiniões ridículas de alguns opinadores e politiqueiros (os de costume), que tentam questionar a justeza social e económica desta medida, não se apercebendo que ela é superior a qualquer devolução de rendimentos, redução de impostos ou aumentos salariais, pois vem beneficiar precisamente os contribuintes e as famílias com menores rendimentos, que são quem utiliza, por necessidade, os transportes públicos. Muito bem António Costa e o seu governo ao sacar da cartola este Coelho. Agora só falta investir seriamente nas infra-estruturas e nos equipamentos circulantes, para que possamos afirmar a mudança de paradigma nos transportes públicos em Portugal.