No dia em que assinalo uma data pessoal e familiar relevante, a introspecção é a de que, com esta idade e depois de todos estes anos, permaneço convictamente disponível para os meus e existo nas suas horas e compromissos. O resto são interstícios.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
31 março 2026
desconstruído, destilado, essencial
O meu afilhado mais novo, no final da tarde deste Domingo, o de Ramos, ofereceu-me este CD duplo de Nick Cave. Não o conhecia e é com assombro que o estou a ouvir repetidamente desde então. Idiot Prayer é um filme-concerto e álbum ao vivo, gravado e transmitido durante a pandemia.
No livreto que acompanha o CD, Nick Cave explica: "Adorava tocar versões desconstruídas das minhas canções... destilá-las até à sua forma essencial... com a pandemia o mundo entrou em confinamento e caiu num estado estranho, num silêncio auto-reflexivo. Foi nesse silêncio que eu comecei a pensar na ideia de não só gravar estas canções, como também filmá-las."
Sozinho ao piano, percorre a sua reconhecida discografia e o resultado é brutal, lindo e intenso. Adorei, muito obrigado Manuel.
30 março 2026
estive uns dias sem ir à Baixa
Não precisarei de explicar o que é, ou onde é a Baixa da cidade do Porto, mas acontece que num destes dias de Sol e com temperatura bastante primaveril, regressei ao centro da cidade depois de algumas semanas sem lá ir e o contraste foi brutal. Bem sei que o turismo que um dia chegou ao Porto veio e ficou, mas ainda assim ainda conseguimos sentir alguma sazonalidade na frequência e intensidade desse turismo.
É certo que não se trata de algo novo ou conjuntural. Actualmente o Porto é uma cidade turistificada, ou seja, alterou o seu modo de vida de modo a dar resposta às solicitações do turismo sem se preocupar com as necessidades e solicitações da sua população. Esta é uma das definições possíveis de turistificação.
Aquilo que encontrei na baixa da Invicta por estes dias foi impactante, relembrou-me que a cidade não é para eu fruir, não sou necessário, não sou bem-vindo e até agradece que eu não ande por lá a estorvar o veraneio de quem visita a cidade. Depois, trouxe-me até aqui e a plasmar nestas linhas esta gentrificação social que tanto me incomoda.
25 março 2026
bibliotecas privadas
No passado Sábado, dia 21 de Março de 2026, na sua coluna semanal do jornal Público, José Pacheco Pereira, escreveu sobre as bibliotecas pessoais um texto muito sentido, de verdadeiro e bonito. Poderia digitalizá-lo e colá-lo aqui, seria mais fácil, mas prefiro relê-lo e ir partilhando aquilo que me parece mais interessante.
"AS BIBLIOTECAS PESSOAIS COMO RETRATO"
"Há muito que se pode aprender no mundo das bibliotecas pessoais e sem ele tudo fica mais pobre, mas nos nossos tempos isso é a regra"
"Estamos numa época de desvalorização do livro, logo, das bibliotecas pessoais. Não adianta vir com estatísticas de leitura, nem de vendas nas livrarias [...] sem ter em conta o outro lado, que é o da desaparição das bibliotecas pessoais como extensão identitária de uma vida, seja intelectual ou académica, seja apenas dos livros que se leram, [...]. Refiro-me a bibliotecas que não são de bibliófilos, não têm raridades, apenas livros comuns."
"As bibliotecas pessoais suportam mal a sua transmissão por morte do seu criador, e a maioria acaba mal. Hoje é infelizmente comum a desaparição das bibliotecas pessoais, que as bibliotecas públicas não aceitam receber, [...] que filhos e netos não querem, também muitas vezes por [...] escassez de espaço nas novas casas, e que são vendidas ao desbarato, algumas vezes ao peso, deitadas ao lixo ou destruídas."
"Uma ideia perniciosa é de que muita biblioteca pessoal "não tem interesse", são "refugo" de repetidos que ninguém quer, e isso ajuda a uma desvalorização objectiva de livros que podem e têm função. Uma dessas funções é ajudar o mundo dos excluídos dos livros e das bibliotecas. [...] Mas há muito que se pode aprender nas bibliotecas pessoais mais comuns, precisamente por serem pessoais. [...] As bibliotecas pessoais são um retrato muito fidedigno do seu criador."
"Há muitas, mas naquilo que é a "voz" das bibliotecas pessoais, muitas vezes com surpresas, dedicatórias, sublinhados, papéis metidos no interior dos livros. Um mundo."
LER
Ainda que para lá do fim das estações mais frias, sabe sempre bem dar de caras com esta revista. A LER de Outono/Inverno 2025/2026 está, agora que as temperaturas começam a subir, disponível e eu contente por já a ter comigo. Vou LER.
16 março 2026
o peso da máscara
Participei no passado Sábado, dia 14 de Março, num seminário denominado "O Peso da Máscara - património cultural imaterial desde a raia", promovido pela AEPGA e pela Universidade de Salamanca, em Miranda do Douro. A convite do colega antropólogo e amigo Arsenio Dacosta, professor em Salamanca, moderei um dos painéis, cujo tema "Desafios na Gestão do PCI a partir do Território" e no qual foram oradores membros de grupos e associações de mascaradas e de rituais do ciclo de Inverno na região. Nesta mesa estiveram presentes: o grupo de Constantim (Miranda do Douro), de Bruçó (Mogadouro) e de Riofrío de Aliste (Zamora). Na mesa anterior, a primeira, foram oradores: Associação Maschocalheiro, Bemposta (Mogadouro), o Velho e a Galdrapa de São Pedro da Silva (Miranda do Douro) e Pobladura de Aliste (Zamora).
Em jeito de resumo, eu destacaria algumas ideias que me parecem pertinentes e sobre as quais deveremos reflectir, mas antes do resto, reafirmar a oportunidade e a relevância desta iniciativa da AEPGA e Universidade de Salamanca, principalmente, por terem dado espaço e tempo aos actores de cada festividade para se pronunciarem e manifestarem as suas opiniões, percepções e perspectivas. Muito importante auscultar e perceber aquilo que são os seus entendimentos sobre as manifestações de que são protagonistas, cruzá-las com aquilo que é o saber académico e/ou científico e com aquilo que é a sensibilidade e disponibilidade dos poderes autárquicos.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi as diferentes percepções entre os grupos presentes sobre o objectivo dos seus rituais, ou seja, alguns entendem que os rituais são feitos pelos locais e para essa comunidade e não para visitantes ou turistas, e outras localidades entendem que podem e devem divulgar e receber todos quantos queiram visitá-los, isto é, as suas festas são também para esses públicos visitantes. Depois, há quem considere que o principal problema destes rituais não foi o despovoamento e a emigração, mas sim o desinteresse das gerações mais novas, por considerarem esses ritos desinteressantes e antiquados. Também há quem faça questão de manter a independência financeira/económica e são contra a permanente dependência de subvenções e subsídios, pois dizem que isso não só adultera a essência do rito, como poderá promover outros interesses que não a própria festa.
Foi referida a importância pedagógica destes rituais e da permanente necessidade de transmissão entre gerações. Assim como também foi referido, por mais do que uma colectividade, que estas festividades não são entendidas como "modas" e que não pretendem massificar ou turistificar as suas festas, ainda que saibam que não podem impedir que as pessoas visitem nesses dias as suas aldeias.
Depois de um almoço na zona histórica da cidade de Miranda do Douro, viajámos para Sendim e para a oficina do artesão Carlos Ferreira que, de forma magistral, nos fez uma apresentação da sua arte e do património que são as Máscaras das diferentes localidades e festividades.
09 março 2026
questão presidencial
No dia, e na hora, em que António José Seguro toma posse como Presidente da República, em sessão solene na Assembleia da República, importa-me reflectir sobre aquilo que foi a magistratura de Marcelo Rebelo de Sousa ao longo dos seus dois mandatos.
Eu, que nunca votei nele, aquando da primeira eleição, comecei por apreciar a atitude descontraída e franca com que se dava ao contacto, não só com a comunicação social, como também e principalmente, com os portugueses com quem interagia, demonstrando uma empatia e preocupação com as situações com que era confrontado. Isto era ainda mais evidente quando, por contraste com o seu antecessor, Anibal Cavaco Silva, que jamais conseguiu abandonar aquele ar taciturno, sorumbático, bem característico de um personagem esfíngico e asséptico, que fugia de qualquer contacto pessoal com os cidadãos e só a custo falava, o estritamente necessário, com a comunicação social.
Depressa essa nova atitude presidencial degenerou num habitus obsessivo e compulsivo de estar, fazer, acontecer e, acima de tudo, dizer qualquer coisa. Para Marcelo o importante era manter em si os holofotes comunicacionais e numa incontinência verbal, ao ter opinião sobre tudo e mais alguma coisa, em grande medida, banalizou a sua função, a sua magistratura, a sua presidência, a tal ponto que, a partir de certa altura, era já impossível sequer vê-lo e ouvi-lo.
Durante estes longos dez anos que agora terminam, muito aconteceu em Portugal e Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu, sem qualquer dúvida, inscrever o seu nome na história da democracia portuguesa. Eu, mesmo não apreciando o estilo, aceito esse lugar e distinção sem qualquer problema e, sei, que o seu sucessor, hoje empossado, e em quem eu votei sem qualquer dúvida ou reserva, será também um bom Presidente da nossa República. A única dúvida que me resta é se num futuro, mais ou menos longínquo, ainda teremos saudades de Marcelo Rebelo de Sousa. Essa é a questão!
04 março 2026
o quarto
Não foi, é ou será tarefa simples ou fácil verter em palavras a experiência sensorial que vou aqui partilhar. Este é um daqueles momentos em que gostaria ser um bom escritor, ter a arte de um surrealista, por exemplo, para me libertar a mente daquilo que testemunhei e, através das palavras, conseguir alterar essa realidade. Ou então, ter a arte de um neo-surrealista e ser capaz de criar um ambiente fantástico ou um cenário burlesco e teatral. Mas, infelizmente, nem uma, nem outra arte, apenas a discrição factual, ao jeito de diário de campo, de uma memória sensorial traumática.
Quero falar de um quarto, anónimo mas concreto, sem localização mas específico, que visitei uma única vez e o impacto de tal experiência foi devastador, como que uma epifania deplorável que eu gostaria de não ter vivido. É que nada me poderia ter preparado para tal, jamais imaginei que alguém das minhas relações e por quem nutro sentimentos de amizade habitasse em tais condições.
Desde o momento em que pus os pés na soleira daquele edifício, logo desconfiei do que me aguardava. Todo o edifício, interior e exterior, em cimento, como que inacabado, vão de escadas e escadarias escuras, sujidade por todo o lado, sem qualquer indício, ou sequer hipótese, de conforto. Subi até ao primeiro andar e, logo no cimo desse lanço de escadas, uma porta à esquerda, fechada à chave como se de uma habitação se tratasse, que mal se abre me ofereceu o horror... numa desarrumação difícil de descrever ou ilustrar, nada parecia fazer sentido, mas que ao mesmo tempo era, eu sabia isso, o espaço vital e "organizado" por alguém que nele vivia.
O espaço teria, mais ou menos, quatro metros de cumprimento e cerca de três metros de largura e todo ele estava saturado de "coisas", que os meus olhos e nariz só conseguiam adjectivar como entulho ou lixo. Aos meus olhos, tratava-se de um depósito de velharias, muito velhas e gastas, fechado há muito tempo e para o meu nariz, o odor era insuportável e estava impregnado em cada objecto, cada farrapo ou mobília. Não tive coragem de tocar em nada e fiz, discretamente, alguns registos fotográficos com o meu telemóvel, não para mais tarde recordar, mas como prova de que ali estivera e vira o que vi.
Quem ali e assim viveu teve um tecto, é verdade, no entanto, o caos no espaço existente entre aquelas quatro paredes esmagou-me a consciência, tal foi a sensação de indigência, abandono, indignidade e despojamento. Aquilo que foi, durante muitos anos, a casa de alguém, não era sequer digno desse nome. Muito triste.
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