28 maio 2010

na cabeceira III

Num encontro para comemorar o centenário da República portuguesa foi-me apresentado o arquitecto Luís Mateus, que estava presente na qualidade de orador. Nunca ouvira falar dele nem da sua Asssociação Repúblicana, no entanto, foi desde o primeiro momento cordial e afável, o que motivou desde logo, penso eu, uma empatia recíproca. Ficámos na conversa acerca das identidades, dos sentimentos de pertença e da construção de narrativas locais, regionais, nacionais, transnacionais. A certa altura, para ilustrar uma ideia, ele refere um autor Libanês, que um dia no preâmbulo deste livro terá escrito:
Outros que não eu teriam falado de "raízes"... Não emprego esse vocabulário. Não gosto da palavra "raízes" e da imagem ainda menos. As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas; mantêm a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem: "Se te libertas, morres!"
As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. Respiramos a luz, cobiçamos o céu e quando nos metemos na terra é para apodrecer. A seiva do solo natal não nos sobe pelos pés em direcção à cabeça, os pés só nos servem para andar. Para nós só as estradas contam. São elas que nos guiam - da pobreza à riqueza ou a outra pobreza, da servidão à liberdade ou à morte violenta. Elas fazem-nos promessas, levam-nos, empurram-nos e depois abandonam-nos. E então morremos, tal como nascemos, à beira de uma estrada que não escolhemos.
A citação que não terá sido, compreensivelmente, fielmente verbalizada, ficou-me na memória, mas como é normal em mim, não consegui sequer fixar o nome desse autor, apenas que era Libanês. Fiquei a pensar nesse momento e nessa citação. Regressado ao Porto, depressa procurei encontrar o rasto a tal obra. Fui a uma Fnac e logo descobri o nome e a certeza que existia um exemplar desse livro numa outra loja em Lisboa. Fiz o pedido e passadas 2 semanas pude ir buscá-lo à loja. Vinte euros por cerca de 420 páginas de texto. Ávido procurei o preâmbulo em busca de tal citação. Hoje, passados três dias, acabei a leitura desta história auto-biográfica, talentosa e virtuosamente bem escrita.

imaginário

O imaginário é como um museu de imagens, sejam elas passadas, possíveis, já realizadas ou a realizar e pode manifestar-se em todas as ocasiões, seja nos sonhos, nos delírios, nas visões ou mesmo nas alucinações. O homem não pode viver sem imaginário, sem o prazer do imaginário porque ele é, antes de tudo, um antídoto do medo, principalmente do medo da morte porque, felizmente ou infelizmente, o homem é o único animal a ter consciência dela.
Alfredo Saramago

24 maio 2010

memória

Na minha aldeia, nunca houve cemitério. As sepulturas estão espalhadas pelo meio das casas, por vezes nos promontórios, por vezes num olival - como no caso do meu pai -, no vinhedo dos eirados, ou sob uma árvore centenária. Há também campas muito antigas escavadas em rochas e pelas quais se interessaram os arqueólogos...
No que diz respeito ao meu avô, garantiram-me que ele tinha sido enterrado não longe de sua casa, num campo de amoreiras - sem mais precisão; fui então à sua procura com dois anciãos da aldeia, que o tinham conhecido na infância, que tinham assistido outrora às suas exéquias, e que me indicaram uma fila de velhas campas dizendo que seria "provavelmente" uma daquelas. A ideia que eu quisesse saber exactamente qual era parecia-lhes meritória, mas absurda - e para falar verdade, um capricho de emigrante.
Amin Maalouf

18 maio 2010

evidência

A proximidade traz-nos o pormenor. Permite-nos aceder à região quase íntima, onde conseguimos com todo o cuidado contemplar os sucessos da criação e os insucessos da manutenção. Essa quase intimidade, quase sempre, revela-nos a imperfeição dos detalhes que, consequentemente, nos repelem os sentidos e afastam as ideias. Detalhes, que é como quem diz defeitos, que existem e estão lá para serem descobertos. E tem havido sempre uma descoberta, um qualquer detalhe que logo repele os sentidos. Sempre ou quase sempre, menos em ti.

16 maio 2010

deste fim-de-semana

Coimbra

Figueira da Foz

Viana do Castelo

13 maio 2010

sinais de fumo

A conversa, assim saboreada e sentida, franca, desinibida e descontraída, consciente, reflectida e acutilante traz-nos sempre, ou quase, o melhor que há para ser falado, dito ou discutido. Partindo de posicionamentos diferenciados e perspectivas várias, os assuntos lançados para cima da mesa ganham outra dimensão, outra vida, outro interesse e/ou motivação. Assim se passam, e bem, momentos, horas das nossas vidas. A pretexto de uma qualquer refeição, sabemos que aquilo que nos lá leva é sempre a possivel conversa, muita conversa... e claro, quando não, alguma desconversa.
A propósito das perceptiveis actualidades, muito facilmente nos apercebemos e nos encontrámos no abismo civilizacional que temos experimentado, pelo menos naquilo que a nossa memória nos permite alcançar. Aquilo que fomos e somos, aquilo que tivemos e temos, aquilo que pudemos e podemos. As crianças que fomos, as crianças que agora são. Como nós fazíamos e como elas agora fazem.
Tudo isto para chegarmos à conclusão que, afinal, há sempre um passado; que, afinal, também nós vivemos uma antiguidade; que, afinal, também nós fizemos os nossos sinais de fumo.

09 maio 2010

tertúlia pós-laboral repúblicana e revolucionária


Este foi o grupo de amigos que sobejou até de madrugada da iniciativa da Assembleia Municipal e Câmara Municipal de Bragança - Debate sobre a República e o 25 de Abril, 1º de um ciclo de 4 debates a promover no âmbito do programa das comemorações do Centenário da República no municipio de Bragança. Aconteceu ontem, dia 7 de Maio, no Auditório Paulo Quintela e os oradores convidados para este 1º encontro foram o Coronel Vasco Lourenço (ao meu lado direito e 5º a contar da esquerda da fotografia) e o Arquitecto Luís Mateus (ao meu lado esquerdo e 3º a contar da direita da fotografia). Agradeço o envio da fotografia ao "taberneiro" amigo, José Lourenço (o da boina...), deste momento intimista de partilha de experiências e vivências únicas daqueles que nos propíciaram o país e a sociedade que hoje somos. Aquilo que ouvi(mos) e pude(mos) dizer, não irei esquecer. Foi um momento grande e bonito para mim. Senti-me constituinte vivo de uma dada história, pois pude partilhar ideias e, principalmente, reflexões com um dos heróis de Abril.

06 maio 2010

apanhado pelo grande irmão

de feiras e dias soltos

- Giddens, Anthony, 2009, Sociologia (7ª edição), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian;
- Domingues, Álvaro, 2009, A Rua da Estrada, Porto, Dafne Editora;
- Lechner, Elsa (org.), 2009, Histórias de Vida: Olhares Interdisciplinares, Porto, Edições Afrontamento;
- Alegre, Manuel, 2010, O Miúdo que pregava pregos numa tábua, Alfragide, D. Quixote;
- Gonçalves, Joaquim, 2003, Santuário da Senhora da Graça no Monte Farinha, Mondim de Bastos, Casa das Estampas do Santuário;
- Pelayo, Primo Casal, 1988, A Ermida do Monte Farinha, Mondim de Bastos, Edição de autor;
- Steiner, George, 1992, No Castelo do Barba Azul, Lisboa, Relógio D'Água;
- Elias, Norbert, 2006, O Processo Civilizacional, Lisboa, D. Quixote;
- Ramos, Francisco e Silva, Carlos, 2003, Tratado das Alcunhas Alentejanas, Lisboa, Edições Colibri;

05 maio 2010

happy hour

Pela primeira vez visitei a Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII. Para além dos livros que comprei a bom preço e das inúmeras editoras presentes, gostei principalmente da presença de alguns alfarrabistas, se não me enganei, contei três expositores destes especialistas do livro "velho" e "gasto". Outro aspecto que muito apreciei foi a existência de uma "happy hour", todos os dias de 2ª a 5ª feira, entre as 22:30 e as 23:30, período em que muitas editoras vendem os seus livros a 50% do valor de capa. Muito interessante este conceito que, para além de permitir adquirir livros a preços espectaculares, leva a que haja uma afluência maior de visitantes a essa hora tardia. Poderiam bem exportar este conceito para a Feira do Livro do Porto. Aguardemos com expectativa.

01 maio 2010