30 abril 2011

a lenda das giestas

Hoje desde manhã cedo, quando saí à rua, reparei que por todo o lado, várias pessoas procuravam nas bermas das estradas e transportavam ao colo ramos de giestas floridas. Num primeiro momento nem sequer me lembrei que hoje era o último dia do mês de Abril e amanhã, dia primeiro de Maio. Claro que logo depois me lembrei da velha prática popular que consiste em colocar esses ramos nas fechaduras das portas e janelas das habitações durante toda esta noite. Desde sempre me lembro de isso acontecer, tanto na região do Porto como em Trás-os-Montes, mas só hoje fui tentar encontrar a origem de tal ritual. Segundo reza a lenda, conhecida como "lenda das Maias", estas foram utilizadas pelos judeus para identificarem a casa onde Jesus Cristo, ainda bebé, pernoitava, quando a sua família tentava escapar à morte decretada por Herodes. Pelos vistos, inexplicavelmente, na manhã seguinte todas as portas dessa localidade tinham um ramo de Maias nas suas fechaduras, impossibilitando assim aos soldados de Herodes identificar o local onde estava Jesus. Segundo a mesma lenda, nasce aí o velho ritual que ainda hoje podemos encontrar um pouco por todo o país, mas principalmente nas localidades do norte. Dizem também que se colocam as giestas (conhecidas em muitos locais como Maias, devido a florirem normalmente no mês de Maio) em todas as fechaduras de portas e janelas para defender a casa e impedir que os espíritos maus, as bruxas e toda a maldade possa invadir o espaço "sagrado" por excelência que é o lar, a habitação familiar. Neste rito, ciclicamente praticado, encontramos uma forte componente da crença e religiosidade popular que, apesar da sistemática e histórica sensura exercida pela Igreja, conseguiu sobreviver até hoje nas práticas populares da experiência do sagrado. Para além desta crença, que eu não tenho, devo dizer que gosto da giesta e que quando florida é muito bonita e cheira bem.
(ao alto, imagem retirada da internet, mas que bem retrata a paisagem predominante, nesta época, de grande parte do monte no norte do país)

27 abril 2011

em flagrante delito...

... e não me avisaram.

iniciativa mais sociedade

O Jornal de Negócios publicou algumas propostas para o programa eleitoral do PSD elaboradas pelo movimento da sociedade civil "Mais Sociedade", movimento promovido pelo presidente do PSD e constituido por ilustres pensantes da área social democrática, que se propõem reflectir sobre Portugal e apresentar soluções e propostas para todas as nossas maleitas. Um dos mais proeminentes e mediáticos pensadores desse grupo é o guru dos planos inclinados, o professor João Duque que veio agora defender a proposta de que o recurso ao fundo de desemprego deverá implicar uma redução da pensão de reforma. Inacreditável até onde vai a voragem económica e social desta gente. Num plano superior e prismaticamente inclinado, estes senhores consideram que é uma questão de justiça social penalizar os malandros dos desempregados, que só assim estão porque não gostam de trabalhar. Pois claro.
Em vésperas de eleições legislativas propostas para programas de governo como esta só nos podem deixar perplexos e preocupados com a possibilidade destas mentes brilhantes chegarem ao governo e aos diferentes ministérios da nação. Com iniciativas e propostas como esta, ficamos é com a sensação de que a real ambição deste movimento é menos sociedade, e se possível acabar de vez com essa coisa incómoda que são os portugueses, acabar com essa maçada que é o estado social e também, já agora, com essa invenção anacrónica que são os direitos dos trabalhadores e dos cidadãos. Afinal para que servem!?

exclamação

"Santa cona do assobio."

26 abril 2011

especialmente do brasil e outros...

Nalguns casos perdendo a cabeça, noutros à pesca de etnografias locais e, por fim, o resultado do esforço de amigos do outro lado do Oceano. Obrigado. Muito bom.
- Foucault, Michel, 1994, A vontade de saber - história da sexualidade I, Lisboa, Relógio D'Água;
- Foucault, Michel, 1994, O uso dos prazeres - história da sexualidade II, Lisboa, Relógio D'Água;
- Foucault, Michel, 1994, O cuidado de si - história da sexualidade III, Lisboa, Relógio D'Água;
- Afonso, Belarmino (introdução), 1985, Raízes da Nossa Terra - Cancioneiro Transmontano, Bragança, Delegação da Junta Central das Casas do Povo de Bragança;
- Junior, Santos e Mourinho, António, 1980, Coreografia Popular Transmontana (extracto do fascículo IV do vol. XXIII dos Trabalhos de Antropologia e Etnologia), Lisboa, Sociedade Portuguesa de Antropologia;
- Ferreira, Marieta de Moraes e Amado, Janaína (org.), 2006, Usos e Abusos da História Oral, Rio de Janeiro, Fundação Getulio Vargas;
- Geertz, Clifford, 2006, O Saber Local, Petrópolis, Editora Vozes;

25 abril 2011

pois é...

Depois da hipotética polémica, o exclarecimento que me parece devido e que desmonta determinadas construções do mundo... (só agora publicado por ausência de digitalizador)

abril de fmi

Quando estruturei e alinhavei esta intervenção, a vontade era chegar aqui e dizer-vos simplesmente que acabou, que todos os valores do 25 de Abril afinal de contas apenas têm servido determinada retórica e que neste Abril de FMI, este ritual seria pífio e comprovadamente inconsequente. Depois, a própria realidade se encarregou de me dar materiais e, acima de tudo, alento para resistir e persistir na defesa desses mesmos valores. Agora, mais do que nunca.
A vertigem do tempo actual precipitou-nos num carrossel catastrófico. Têm sido assim os últimos meses, em Portugal, na Europa e no mundo. Quem pressentiria a tempestade, não de areia mas de liberdade, gerada nos desertos do Norte de África de onde sopra o familiar vento suão? E a onda não parou: apesar de o povo líbio estar encurralado entre os tanques de Kadhafi e os mísseis da NATO, ela expande-se até à Síria, Iémen e Arábia Saudita, governadas por reis e déspotas petrolíferos, todos “bons amigos do Ocidente”. Recentes são as ondas sísmicas e o tsunami japonês que abalaram o mundo, sobretudo pela catástrofe nuclear de Fukushima, cujo alcance ninguém hoje consegue medir…onde param os arautos do nuclear!!!!???
Também o velho continente foi abalado por tempestades, mas de outro tipo, que já colheram a Islândia, a Grécia, Irlanda e agora Portugal. Mas não vão ficar por aqui… Não se trata de catástrofes naturais, mas provocadas pela ganância financeira num mundo desgovernado pelo neoliberalismo. A bolha especulativa da economia de casino estava programada para rebentar, como alertavam há mais de uma década vários prémios Nobel da economia. Desde finais de 2008, os Estados cuja intervenção nos mercados foi diabolizada ao longo de décadas, injectaram triliões para salvar bancos cujos activos estavam ao nível do lixo, apesar de receberem notas elevadas das agências de rating. As mesmas ratazanas e os mesmos bancos que, a partir de 2010, lançaram a gigantesca operação especulativa contra as dívidas soberanas dos Estados que os salvaram. Eis o capitalismo neoliberal em todo o seu esplendor!
Nos 37 anos da madrugada libertadora do 25 de Abril, Portugal está colocado perante desafios que tocam directamente os fundamentos da celebrada “revolução dos cravos”. QUE DIA É HOJE? Citando “FMI” de José Mário Branco, um clássico cada vez mais actual, “o FMI não aterrou na Portela, coisa nenhuma”… Mas a dura realidade é que eles aí estão! E, ao contrário do que nos querem fazer crer, nem todos perdem com a sua chegada: os bancos, por exemplo, já sonham com o seu quinhão de liquidez dos 80 mil milhões de euros a baixo juro para subirem as taxas que impõem à economia produtiva e a dezenas de milhares de cidadãos ameaçados de despejo por já não conseguirem pagar a prestação da casa.
A grande questão hoje é: quem ganha e quem perde com o FMI? Quem paga a dívida externa e a enorme dívida social aos trabalhadores e aos dois milhões abaixo do limiar da pobreza? A esta pergunta crucial, só há duas respostas: a do bloco FMI, e a do bloco anti-FMI, consubstanciada pela esquerda nacional. Há alternativas em Portugal e na Europa, indiciadas no processo judicial contra as agências de rating, interposto pelo grupo de economistas encabeçado pelo professor José Reis. Não é caso inédito: a Islândia varreu do poder os políticos responsáveis pela crise, elegeu uma nova Constituinte e meteu os banqueiros corruptos na prisão. Mais ainda: recusa, e bem, pagar a dívida aos bancos ingleses e aos agiotas que especulam sobre a dívida soberana.
Nos ásperos tempos que vivemos, Abril volta a ser tempo de luta, volta a ser tempo de resistência, volta a ser tempo de afirmação nacional.
Recuperemos a velha lírica de Sérgio Godinho: “Só há Liberdade a sério quando houver a Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação, quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir…”
Obrigado.
(intervenção na Assembleia Municipal de Bragança, mais ou menos a esta hora...)

23 abril 2011

pelos oprimidos...

"Caras amigas e amigos,
Depois de 30 anos de governos PS / PSD / CDS, não estará na altura de mudar?
Vamos continuar a aceitar o estado ladrão? Ou vamos escolher um novo caminho?
O povo vai acordar...
Disperto pelos oprimidos em revolução!
Abraços,"
(de um amigo, hoje na minha caixa de correio electrónico)

pelo dia mundial do livro e dos direitos de autor

21 abril 2011

conversa para as famílias

Esta declaração de Páscoa de Passos Coelho transmitida através do Facebook e conhecida hoje é um perfeito anacronismo visual e comunicacional. Aquele cenário e a presença da mulher, a mão dada e o ambiente familiar, o conteúdo da mensagem e os votos finais, tudo transpira a antanho, a nostalgia por um outro tempo e um outro país. O que pretende esta gente com este tipo de iniciativa!?.. É que em pleno século XXI, utilizando as novas tecnologias, assistirmos a um momento como este (já houve outros idênticos, do mesmo interveniente e também de Cavaco Silva), assim muito de repente, remete-me imediatamente para as conversas em família que Marcelo Caetano, enquanto Presidente do Conselho, impunha aos portugueses, através da televisão e da rádio, onde paternalmente explicava as opções do Governo, desde o mais pequeno e insignificante pormenor até às questões de Estado. Ficou célebre aquilo que Marcelo Caetano disse no primeiro desses serões:
"Nem sempre as circunstâncias proporcionam ao chefe do Governo oportunidade para, num discurso, esclarecer o seu pensamento ou elucidar o público sobre problemas correntes ou objectivos a atingir. Mas os actuais meios de comunicação permitem conversar directamente com as pessoas, sem formalismos, sem solenidades, sempre que seja julgado oportuno ou necessário".
Conseguem imaginar, ainda que fosse possível, Salazar a utilizar o Facebook para comunicar com os portugueses!? Eu não. E neste caso de Passos Coelho, sinto que há muito de ideológico neste tipo de estratégia comunicacional, quase que um ideal refundador de um determinado tipo de sociedade. Para além do desenquadramento espacial e do desfasamento temporal, considero-a civilizacionalmente perigosa.

19 abril 2011

sem comentários

(capa do Jornal Público de hoje)

18 abril 2011

as minhas vacas, ou uma conversa de merda

Depois de almoço e durante um par de horas, na taberna, agora café do Lexinho, estive a jogar à Blota – jogo de cartas consignado a duas ou três aldeias e que um dia eu ainda hei-de trabalhar, depois disso e enquanto acabava a última Superbock, estive à conversa com alguns conterrâneos mais velhos. É sempre um prazer ouvir esta gente, as suas histórias, as suas aventuras, as suas vidas, as suas mágoas, enfim, as suas memórias. Falava-se de vacas e outros gados e do seu progressivo desaparecimento da paisagem da aldeia. Outrora foram às centenas, depois às dezenas e por fim, antes do seu total desaparecimento, apenas algumas unidades. Hoje não existe uma única vaca em toda a aldeia. Esta gente fala-me com notória nostalgia e saudade desse tempo, em que a aldeia tinha mais animais e, também, mais gente. Eles bem sabem que a vida era dura e mais difícil do que a de hoje, mas percebo-lhes a preferência por esse outro tempo. A propósito dessa convivência diária com os vários gados, recorda-se a imundice permanente das bosteiras, especialmente no Inverno, nas ruas e canelhas da aldeia – parece que estou a sentir o cheiro intenso das bostas de vaca a fermentarem no calor do pino do Verão, ou a ver-me, no Inverno, a caminhar pela aldeia, saltitando nas pontas dos pés, para evitar a merdice lamacenta. Relembra-se também a importância que tinham essas bosteiras para algumas das actividades agrícolas, tais como estrumar as terras e malhar o pão -nas eiras onde se malhava o trigo e o centeio. Por essas alturas, os mais velhos mandavam os miúdos, munidos com pás e carretas, procurarem pela aldeia as bosteiras frescas (recém-defecadas), recolherem-nas e trazerem-nas para as eiras, onde eram espalhadas, de forma a forrar o chão. Deixava-se secar e então depois podiam os homens malhar as espigas de cereal. Os grãos ficavam presos na bosta, os cuanhos e as palhas esvoaçavam, depois bastava varrer… Por fim, demos por nós a recordar alguns dos nomes dados às vacas. Não havia uma vaca que não tivesse um nome próprio. Um e outro iam recordando os nomes que, ao longo da vida, foram dando aos seus animais e o que é certo é que esse nome permitiu-lhes guardar na memória algumas das características desses animais. A atribuição de um nome a uma vaca serviria não só para as distinguir, como também para o próprio diálogo entre o lavrador e as suas vacas. Dizem-me que elas reconheciam o seu nome e respondiam a esse estímulo. A verdade é que a lista de nomes possíveis é imensa e a atribuição era sempre feita enquanto vitelas, sendo da exclusiva responsabilidade dos seus donos. Pontualmente, eram as crianças dessa casa quem escolhia o nome dos seus animais. Quando havia a compra ou venda de vitelas ou de vacas, uma das preocupações era conhecer e manter o nome que o anterior dono atribuia a esse animal. A escolha do nome obedecia em muitos casos a características físicas (ruiva, clara, amarela, morena, menina, roliça), ou temperamentais (castiça, malandra) do animal em questão, noutros casos a escolha era feita por relação com a época do ano em que nasceram (cereja, laranja, castanha), noutros casos ainda acontecia dar-se o mesmo nome da progenitora, ou de uma outra vaca de boa memória que esse lavrador tenha tido. Convém recordar que o sustento de cada casa, de cada família, dependia fortemente da sorte e saúde dos animais de trabalho. Normalmente, na mesma casa não havia vacas com os mesmos nomes. Este exercício de memória realizado por estes lavradores, traz-me à memória alguns momentos da minha infância, em que também eu convivia com esses animais e conhecia pelo nome as vacas da família. Momentos inesquecíveis de “ir” com as vacas para o lameiro, ou conduzir um carro-de-bois, ficarão registados para sempre. Agora que penso nisso, recordo com especial carinho a Cereja, uma vaca corpulenta, escura e temperamental, mas muito trabalhadora. Aproveitando o bom tempo que teremos pela frente, aqui está uma imaterialidade engraçada que irei estudar com mais atenção e trabalhar com cuidado redobrado, no meu futuro próximo. Boa.
(Ao alto, um belo par de exemplares da raça mirandesa, a trabalhar algures no Parque Natural de Montesinho.)

16 abril 2011

solilóquio

Tu sorris e o teu sorriso irradia até mim. Tu ficas pensativa e eu, em pânico, sério me torno.

13 abril 2011

solilóquio

Com tanto para ler e reler para depois escrever e reescrever, gastar tempo com tricas e trucas intestinas e orgânicas apurria-me. Ser responsável e interveniente nesse cenário, deixa-me desgastado. No entanto, o situacionismo forçado, impõe-me a disposição necessária para esse activismo. Vamos lá.

11 abril 2011

bravo

Hoje cheguei a Bragança e reencontrei a minha criança, que tinha vindo uns dias antes para casa dos avós. Quando me sentei com ela, perguntando-lhe pelo que tinha feito, logo me quis mostrar as novidades, que segundo o seu juízo, são exclusivamente as novas "coisas" que lhe ofereceram. Mostrou-me várias bugigangas apropriadas para uma miúda de nove anos, mas mostrou-me também uma revista Bravo, versão portuguesa, que pedira à Avó. Nesse momento fiquei incomodado, uma vez que me lembro perfeitamente de também a ter comprado na minha, cada vez mais longinqua, adolescência. Nunca me passara pela cabeça que os jovens de hoje, em Portugal, ainda se sentissem atraídos por esta publicação, cuja origem, se não estou em erro, era e é alemã. Muito menos imaginei que mesmo em Português esta revista atraísse crianças e pré-adolescentes. No meu tempo, que aconteceu na segunda metade da década de oitenta, apenas existia em Alemão, portanto, bem se pode perceber que apenas nos interessavam as imagens, os posters e uns pequenos autocolantes que colávamos nas capas da escola. São vagas as memórias dos seus conteúdos, mas recordo bem uma secção, que presumo, seria de sexologia e onde algumas imagens a cinzentos nos permitiam ver alguns pares de mamitas desnudadas. Que excitação, meu deus...

adenda - Ao escrever este texto, senti-me tal e qual o Nuno Markl na sua rúbrica Caderneta de Cromos. Tenho quase a certeza que ele já falou do cromo "Bravo". O que disse já não recordo, mas tal como eu, também ele na sua adolescência foi um assíduo cliente.

10 abril 2011

verbo, polarizar

Aquilo que está a acontecer em Portugal é muito triste e perigoso. Nunca como nos dias de agora se assistiu a tamanha campanha de difusão ideológica, tamanho esforço por mentalizar as "massas" para a inevitabilidade do projecto neoliberal e tamanha concertação opinativa nos média. O esforço é comum: fazerem crer que a intervenção do FEEF e do FMI é solução única para resolver os problemas financeiros actuais da nação. É MENTIRA. Foram já várias as opiniões defendendo outras soluções menos penosas para o país e seus cidadãos - é preciso saber qual é a verdadeira dívida; é preciso saber quem pagará que parte dessa dívida. Por outro lado, é patente o receio que as entidades europeias e outras manifestam relativamente ao resultado das eleições em Portugal. Por isso querem acordo pré-eleitoral e por isso impõem pressão sobre os responsáveis políticos nacionais. Vejam até onde já chegou o pânico quando se subscrevem documentos como este, que se intitula de "Um Compromisso Nacional"...
Num tempo breve, como aquele que teremos até às eleições legislativas impõe-se uma polarização séria, clarificadora e bem visível entre aqueles que defendem o "bloco" FMI e aqueles que defendem o "bloco" anti-FMI. Será a intervenção do FMI o elemento que separará aqueles que aceitam a bancarrota do país e aqueles que acreditam e defendem uma alternativa credível de governação à esquerda e que permita aos portugueses a soberania de dizer que NÃO. Será esse o esforço, será essa a luta, para mim também.

07 abril 2011

FMI e o Estado de Excepção

“A ideia é destruir o que tem sobretudo valor de uso e favorecer a apropriação privada, a preço de saldo, do que tem valor de uso e muito valor de troca.” João Rodrigues

A anunciação de um pedido nacional para uma intervenção externa (curioso como alguns teimam em chamar-lhe ajuda…) da FEEF e do FMI não terá sido propriamente uma surpresa para a maioria dos portugueses. A dúvida que poderia restar seria o timming dessa iniciativa, o que nos obrigou a viver os últimos meses numa espécie de limbo existencial, misto de ansiedade e de suspensão pelos dias que hão-de vir, num futuro próximo.
É disparatada, quanto a mim, a teimosia dos média em estabelecer comparações económicas e sociológicas com aquilo que aconteceu ao país em 1983, aquando da última intervenção externa do FMI, pois não me parece razoável comparar o Portugal de então com aquele que hoje somos. Também não me preocupa serem “outros” a fazer aquilo que “nós” não soubemos fazer. Aquilo que me preocupa é saber como poderão sobreviver os portugueses à pressão deste torniquete transnacional, que transforma os indivíduos em números e, por isso, insensível é aos seus problemas e às suas condições de vida. Nesta lógica, não importará até quando e até onde nos vão retorcer para conseguirem aquilo que já há muito procuram.
Convém não esquecer que se aqui chegamos é porque fizemos determinado caminho. Caminho esse que percorremos, alegres e sorridentes, mas ignorantes do verdadeiro sentido e objectivo daqueles que nos conduziam por aí. Não terá sido por falta de avisos e alertas de alguns eminentes especialistas, entretanto enxovalhados na praça pública e mediática, nem por falta de democracia que os portugueses teimaram em eleger os mesmos de sempre para nos governar. Tal como alguns afirmam, teremos aquilo que merecemos, mas não sejamos inocentes, pois não esteve propriamente nas mãos e nos votos dos portugueses a possibilidade de arrepiar caminho e escolher outro destino que não este. Senão vejamos:
A escalada globalizante acompanhou a apropriação da palavra “globalização”, que, supostamente, deveria explicar a dialéctica fragmentação/globalização. Esta palavra veio directamente das teorias japonesas da gestão pós-fordista e, inicialmente, começa por ser utilizada pelos especialistas de marketing para designar a segmentação dos públicos-alvo ou a divisão de grandes segmentos transfronteiriços de comunidades de consumidores com os mesmos sócio-estilos, os mesmos modelos de consumo. Foram os “evangelistas do mercado” e os think tanks neoliberais, tais como o Adam Smith Institute, em Inglaterra, cujo objectivo consistiu em desenvolver uma reflexão capaz de pesar sobre as políticas públicas, quem concorreram explicitamente para o sucesso da sociedade prometida pela “revolução neoliberal”, projecto de uma nova ordem em que o mercado se torna o principal árbitro de todas as transacções, quem trouxeram para primeiro plano um fascínio vanguardista pela figura do consumidor, relegando para planos inferiores a figura do cidadão. A doutrina do livre-câmbio da “soberania absoluta do consumidor” reconheceu-se no perfil de um telespectador que se tornou autónomo graças ao seu poder intangível de determinar o sentido dos programas.
A marginalização do cidadão pelo consumidor realizou-se à custa da interrogação sobre os agentes de produção, o mercado, o Estado e a decomposição/recomposição do Estado-Nação, mas também sobre o novo estatuto do consumo, cada vez mais integrado nas matrizes industriais do pós-fordismo. O consumo torna-se ele próprio em produção de informações para o produtor. A relevância que irá ser gradualmente atribuída ao termo “sociedade civil” exprime, igualmente, essa necessidade de uma “caixa-negra”, tapa-misérias de um vazio de problematizações. Mistificada como espaço liberto da diversidade, da pluralização das identidades fragmentadas, esta sociedade civil surge como antítese do Estado-Nação. Este culto da sociedade civil deslegitimou o próprio princípio de políticas públicas.
Finalmente o esforço neoliberal parece ter alcançado o seu fim (!?) com a desregulamentação total dos mercados, com o esvaziamento dos estados soberanos e com o despojamento da cidadania individual, naquilo que Giorgio Agamben (2010) designa de identidade sem pessoa. O mesmo autor tem razão quando afirma que as democracias ocidentais - a própria civilização ocidental contemporânea - criaram voluntariamente um estado de emergência permanente que, progressiva e metodicamente, tem vindo a despir de cidadania os seus indivíduos. Paradigma vigente desde então e até ao presente.
Mesmo perante a perspectiva bem realista de virmos a viver, durante um período ilimitado, num estado de excepção - com abolição ainda que provisória do poder legislativo e do poder executivo, num vazio de direito e numa zona de anomia onde a distinção entre o que é público e o que é privado é desactivada, onde a norma se tornará indiscernível da excepção e as liberdades individuais poderão ser suspensas – prefiro acreditar que a presença de forças estranhas e ilegítimas não determinará o nosso humilhante aprisionamento nesse estado de excepção.
Não posso terminar sem antes referir o ridículo que esta infeliz situação significa para todos aqueles que nos têm governado nas últimas décadas. É soberba a incompetência e é também magnífica a desresponsabilização desses ilustres intervenientes. E engraçado seria, se não demasiado triste e vergonhoso, todos eles não perderem a face e, qual imaculadas, apresentarem-se sempre impolutos e como fazendo parte da solução, outra e outra vez. Até quando vão os portugueses aturar isto?
(texto enviado para o Jornal Nordeste)

05 abril 2011

urbanidade

A propósito de alguns debates transmitidos pelas televisões nos últimos tempos, apercebi-me da utilização recorrente do termo "urbanidade", enquanto locução adverbial qualitativa, ou seja, "com urbanidade" dos seus intervenientes. Essa insistente verbalização incomodou-me, até porque não me era familiar e soava-me a anacronismo. Logo parti para os dicionários disponíveis e encontrei: "(do latim urbanitas), enquanto substantivo: qualidade do que é da cidade, da urbe, do que é urbano; diferente da ruralidade; delicadeza requintada, observação das boas maneiras no relacionamento com os outros, acompanhadas geralmente de finura e elegância na linguagem, distinção no porte, nas atitudes; Parecido com civilidade, cortesia, polidez; diferente grosseria, rusticidade. Enquanto adverbio, modo polido, delicado, atencioso."
Num tempo em que as ancestrais oposições entre o rural e o urbano se esbateram e em que assistimos a uma permeabilidade social e demográfica entre estes dois, cada vez menos, distintos "universos" parece-me que a utilização deste qualificativo se cingirá a uma qualidade essencialmente social, verificável numa espécie de esteticismo social com certo sabor a dandismo, bem característico de determinados ambientes urbanos e com laivos de elitismo ou pseudo-elitismo. Considero assim que a atribuição desse virtuosismo não poderá ser um exclusivo desse reduto da condição urbana e ofenderá todos os demais.

04 abril 2011

02 abril 2011

desejos e placebos

Agora que tentamos habituarmo-nos à nova realidade demográfica (e sonora) familiar e quando atento no interesse, na curiosidade e no cuidado com que a irmã olha para o recém-chegado irmão, relembro o longo caminho, ou pelo menos partes desse percurso que foi necessário fazer para aqui chegarmos.
Depois de um período de nojo a criança retomou o discurso reinvindicativo em relação ao seu direito, e nossa obrigação de pais, de ter um irmão ou uma irmã. A sua persistência tem sido vigorosa, principalmente junto da mãe, a quem diariamente tem perguntado se já está grávida e/ou porque não está ainda.
Em tempos, a mãe tentando dar a resposta adequada à clássica pergunta da inocência infantil, resolveu dizer-lhe que se engravida tomando um comprimido. Desde então, e agora particularmente, a pergunta é diária:
- Já tomaste o comprimido?
- Não, ainda não. Tenho que ir à farmácia comprá-lo.
- Então vamos lá. Quando vamos?

E assim a mãe foi conseguindo adiar a tomada de tal comprimido. Acontece que nos últimos dias a miúda regressou violenta e expressivamente ao assunto e, neste último fim-de-semana, "obrigou" mesmo a mãe a tomar o milagroso comprimido. Como sabia (a mãe tinha-lhe dito) que a toma era feita antes de dormir, não adormeceu enquanto tal não aconteceu. Num estado eufórico e ansioso, deitada ao lado da mãe, chamou-me para ir buscar o comprimido. Eu e a mãe, cúmplices neste engodo, trocámos olhares embaraçados, como quem não sabe como proceder...
Lá fui à busca de algo que a mãe pudesse simular ingerir. A escolha racaiu no anti-inflamatório Voltaren. Regressei ao quarto com o dito comprimido e um copo de água. Fora de sí, a criança controlava bem de perto todos os movimentos. Não havia qualquer hipótese de a enganar e a mãe teve mesmo que meter à boca o comprimido, ao qual juntou um pouco de água. Depois disto a criança agarrou-se à barriga da mãe e encheu-a de beijinhos enquanto dizia que já estava... virei costa e sorri, certo que a mãe tinha retido a dragueia algures na boca e não o tinha ingerido. Puro engano. Ela ingeriu-o mesmo e com isso ficou agoniada o resto da noite. A miúda depressa adormeceu a seu lado, concerteza certa de missão cumprida e, quiçá, a sonhar com a barriga da mãe a crescer e com as brincadeiras que um dia fará com seu irmão ou sua irmã.
Agora, nova missão pedagógica, explicar-lhe que nem sempre o comprimido dá resultado.

01 abril 2011

sectarismo verbal

Não gosto de ouvir e ler os políticos e os arautos da opinião publicada referirem-se aos portugueses utilizando o substantivo colectivo "o povo". Prismaticamente, soa-me sempre a desprezo social. A sua pronunciação traz sempre uma carga simbólica pejorativa enorme e é soberbo o plano inclinado de quem assim fala. Afinal, quem vota não é o povo, são os indivíduos portugueses enquanto cidadãos de Portugal.