29 janeiro 2015

observação não participante

"Mulheres ajoelhadas nos bancos com cabeçadas de carmesins à volta dos pescoços, cabeças baixas. Uma fornada ajoelhada no comungatório. O padre ia passando junto delas, murmurando, segurando a coisa nas mãos. Parava a cada uma, tirava uma hóstia, sacudia uma gota ou duas (estão elas em água?) e punha-a esmeradamente na boca dela. O seu chapéu e a cabeça afundavam. Depois a próxima: uma velha pequenina. O padre inclinou-se para a pôr na boca dela, murmurando o tempo todo. Latim. A próxima. Feche os olhos e abra a boca. O quê? Corpus. Corpo. Cadáver. Boa ideia o latim. Estupefica-as primeiro. Hospício para os moribundos. Não parece que elas a mastiguem; apenas a engolem. Ideia singular: comer bocados de um cadáver por isso os canibais tomam o gosto. (...) Elas estavam à sua volta aqui e ali, com as cabeças ainda baixas nas suas cabeçadas carmesins, à espera de que aquilo se lhes derretesse nos estômagos. Algo como aqueles mazzoth: é esse tipo de pão: pão ázimo. Olha para elas. Até aposto que as faz sentirem-se felizes. Chupa-chupa. Faz mesmo. Sim, é o chamado pão dos anjos. Há uma grande ideia por trás disso, espécie de sensação do reino de Deus dentro de ti. Primeiros comungantes. Abracadabra um dinheiro cada uma. Depois sentem-se todos como membros de uma única família, o mesmo que no teatro, todos no mesmo barco. Sentem-se sim. Tenho a certeza disso. Não tão sós. Na nossa confraternidade. Depois saem com os espíritos elevados. Válvula de escape. A questão é se realmente acreditas nisso. Cura de Lourdes, águas do esquecimento, e a aparição de Knock, estátuas que sangram. Um velho adormecido ao pé daquele confessionário. Daí aqueles roncos. Fé cega. A salvo nos braços do venha o reino. Acalma toda a dor. Acordar a esta hora no ano que vem". 
James Joyce 

26 janeiro 2015

pela oitava vez e atrasado...

Não sei bem porque motivo me tenho esquecido da data, mas já é o segundo ano consecutivo que não assinalo o aniversário do Apurriar no dia 24 de Janeiro. Prefiro sempre pensar que não é esquecimento, mas sim ocupação exagerada do cérebro e falta de tempo para aqui vir partilhar o tempo e o espaço. Depois de um ano muito ausente e com poucas entradas, tenciono regressar com maior frequência às reflexões e à escrita breve. Obrigado pelas vezes que aqui têm vindo espreitar e, talvez, me têm lido. Continuemos.

25 janeiro 2015

primeiro dia do resto das nossas democracias, espero...

Ao contrário de muitos, preferi esperar pelo dia de hoje para manifestar a minha alegria e satisfação pela vitória do Syriza nas eleições gregas. Não é que precise de ver para crer, mas quase, pois nunca fui daqueles que gostam de deitar os foguetes nas vésperas das festas e dias santos. Tive receio verdadeiro do poder do sistema instituído e da força da pressão imposta pela Europa, mas pelos vistos não resultou e os gregos votaram mesmo pelo fim da austeridade. Que excelente notícia para todos e para nós também.
Conheci o Alexis Tsipras no Porto na campanha das últimas europeias, ouvi-o e gostei do seu discurso sobre a Europa. Não acredito em salvadores, omnipotentes, mas acredito que esta vitória poderá ser o princípio de tantas outras pela Europa que irão derrotar o paradigma vigente. Não sei como será o dia de amanhã, mas sei que não será fácil para os gregos e para os europeus, mas esta é a primeira hipótese real de algo mudar. Esperemos que sim. Desejo a maior sorte e saber a Tsipras e seus companheiros. Força.
Estou contente. Sem grande alarido, vou deitar o meu foguete e celebrar.
Viva a democracia. 
Vivam os gregos e viva a Europa liberta deste jugo tecnocrata e financeiro.
Que bom.

21 janeiro 2015

mediascape: borgen

Não sei se vi o primeiro episódio ou não, mas sei que desde que parei para ver um episódio desta série dinamarquesa fiquei agarrado à TV. Borgen, que em português significa castelo, ficciona o quotidiano de um governo resultante de uma coligação liderada por uma mulher. Para além da real-politik e dos bastidores dos gabinetes ministeriais, dos arranjos e das negociações entre partidos da coligação e partidos da oposição, a série revela também, de forma clara e sem clichés, as ligações entre os ministérios, os acessores dos ministérios, os spin-doctors e os média, nomeadamente, imprensa e televisão. É esquisito ouvir essa língua estranha e distante que é o dinamarquês e custa-me não ter a certeza se a tradução das legendas é ou não bem feita. Ainda assim, vale a pena continuar a ver ao serão no canal 2 da RTP.

16 janeiro 2015

o combate civilizacional

Ainda a propósito do atentado da semana passada contra o Charlie Hebdo, recebi nos últimos dias no meu email, vários exemplares da sua última edição, já posterior ao atentado e que na sua primeira edição em papel esgotou os cerca de 3 milhões de exemplares. Não sei se chegou a Portugal e se foi vendido em quiosques, mas eu teria sido um daqueles que nem hesitaria em adquirir um exemplar, isto, mesmo não sendo um apreciador do género. Aliás, penso que mais do que o inconsequente "Je suis Charlie" que se banalizou por todo o lado, a melhor homenagem e o meio mais eficaz de desconstruir o discurso dos radicais islâmicos seria reforçar a leitura e as vendas do Charlie Ebdo. Isso sim, seria uma bofetada nesse lixo humano. Não gostam, temos pena. Mas nós somos assim.

12 janeiro 2015

a descobrir

Depois de vários meses em lista de espera, chegou a vez de ler o pesado Ulisses. A minha iliteracia literária, desculpando a redundância, ainda não me tinha permitido chegar a James Joyce. Aqui estou eu e a gostar.

silva porto

Durante os últimos meses em que andei às voltas, tentando calcorrear os caminhos de uma outra vida, vivida nos sertões africanos, dei com a grande figura histórica de Silva Porto, até então um perfeito desconhecido para mim (ignorante). Essa descoberta levou-me a procurar mais informações a seu respeito. Li vários trabalhos acerca do seu percurso e acerca sua aventura e fiquei, posso admiti-lo, admirado pelo seu carácter.
António Francisco Ferreira da Silva (adoptaria mais tarde o apelido Porto) nasceu na cidade Invicta, em 24 de Agosto de 1817. Filho de gente muito humilde, bem cedo teve que se fazer à vida. Primeiro, aos 12 anos, emigrou para o Brasil onde permaneceu alguns anos entre o Rio de Janeiro e a Baía. Depois tentou a sua sorte em Angola, mas rapidamente regressou à Baía. Tendo ficado fascinado pelo que viu em Angola, regressou e iniciou-se aos 22 anos como explorador africano. Percorreu quilómetros e quilómetros de savanas, negociou com vários sobas e régulos. Estabeleceu-se no planalto do Bié, num local que denominou de Belmonte e onde construiu a sua embala. Fez inúmeras viagens, desbravou matos e conquistou tesouros, mas regressava sempre à sua embala de Belmonte. Lugar onde pretendia passar o resto da sua vida. Só que alguns dos senhores da região começaram a suspeitar das suas boas maneiras e das suas pretensões, acabando por ser ameaçado de morte caso não abandonasse as suas terras. Foi assim que Silva Porto, já com uma idade bastante avançada e que sempre dissera que Belmonte, depois da sua morte, passaria a ser propriedade de Portugal, se viu obrigado a decidir sobre o seu futuro. Perante a sensação de desonra e de que tudo estava perdido, escreveu no seu diário:
«Última disposição. Acondicionando os objectos precisos, a fim de deixar a nossa vida em ordem, o que mais tarde se há-de vir no conhecimento afirmativo ou negativo, restando-nos pouco tempo de que dispor, dizemos que a nossa última disposição está feita de há muito, deixando este mundo conforme o encontrámos - isto é - nascemos pobres e assim morremos, esperando que Deus e sua Mãe Santíssima nos julgarão segundo a Justiça Divina».
Envolveu-se na bandeira das quinas, deitado sobre os barris de pólvora, acendeu um fósforo e fez-se explodir. Sobreviveu à explosão, mas morreu passados alguns dias, no dia 1 de Abril de 1890. Os seus restos mortais chegaram a Portugal só passado um ano, tendo sido enterrado no cemitério da Lapa, na cidade que o viu nascer.
Anos mais tarde, na década de vinte, Belmonte passou a chamar-se Silva Porto em sua memória.
Visitei o monumento tumular no cemitério da Lapa.

instante urbano xxix

Comentário escutado hoje num café logo pela manhã:
Ela: Já reparaste como a mulher do Sr. Y está diferente, depois dele morrer... Parece mais espevitada.
Ele: Isso ficam todas! Qual é a novidade?!
Ele e Ela: (risos)

07 janeiro 2015

Charlie Hebdo

Interrompo aquilo que estava a fazer, para, estupefacto, assistir ao ataque terrorista desta manhã em Paris. Por muito que nos digam que estes episódios irão aumentar e de que estamos em estado de guerra permanente, pelo menos, desde o 11 de Setembro de 2001, a cada novo episódio não consigo deixar de ficar perturbado pela sua concretização, e acima de tudo, horrorizado pelas motivações de tais actos. São na sua aparência questões de crença e de vingança religiosa, mas os seus fundamentos são civilizacionais. Muitos estudiosos e pensadores têm alertado para o sentimento de ódio crescente que o Islão tem incrementado nas suas escolas e nas suas mesquitas para com o Ocidente e o seu modo de vida. Por muito que nos custe aceitar, esse Islão não hesitaria em nos extinguir da face da terra e foram e são as marcas que nos distinguem, enquanto sociedade, desse Islão, que acabaram por permitir situações como a de hoje. E França é um bom paradigma desse confronto latente entre civilizações, bem no coração da Europa. Quero e defendo uma sociedade tolerante, integradora e multi-cultural, e pratico um relativismo cultural na minha visão do mundo, mas cada vez me custa mais aceitar a actual diferença civilizacional entre o Ocidente e os estados Islâmicos. Por outro lado, estou consciente da enorme dificuldade que uma sociedade e um estado livres e democráticos terão para conseguir evitar tragédias deste género, mas a resposta é e será sempre, ser indefectível na liberdade, na democracia e na valorização do ser humano, nas nossas escolas, nas nossas instituições, na nossa comunicação social, enfim, nas nossas sociedades. É isso que nos diferencia e distancia da ignomínia e da barbárie.

04 janeiro 2015

acabamentos

Ainda que falte algum tempo para o dia em que será folheado pelos leitores, algo que só acontecerá lá para o final do mês de Março, mostro-vos o resultado gráfico daquilo que me ocupou parte do tempo durante os últimos três anos e quase na totalidade nestes últimos meses de 2014. A Ana Rita está a fazer um excelente trabalho gráfico e porque me acabou de enviar estas primeiras imagens, inacabadas, e eu estou contente com o resultado, aqui o partilho...





02 janeiro 2015

inevitabilidade

A criança, a minha criança, que ainda há bem pouco tempo era um bebé, deixou de me chamar por "papá", trocando esse querido vocábulo pelo ordinário "pai". Sei que irei ter, para sempre, saudades.

01 janeiro 2015

novo ano para vida velha

Não sou dado a grandes sentimentalismos perante a perspectiva de cada um dos anos "novos" que se vão precipitando uns atrás dos outros, nem sou dado a idealismos, preferindo o pragmatismo da real existência quotidiana, por isso, dou cada vez menos importância a estas time-marks que nos organizam a vida. Desejo cada vez mais poder passar esses dias com os meus, mas isolado do resto do mundo, num qualquer cabeço de monte isolado. Claro que, egoista, fico feliz e satisfeito por continuar a contar cada um dos anos cronológicos, mas sei que será, continuará a ser a mesma e velha vida. Ainda bem.

Joe Cocker R.I.P.

Acabo de saber da morte de Joe Cocker. O facto de não olhar para a TV, a não ser para ver algo que já espero e o facto de ter estado algo isolado da rede, permitiu-me estar ignorante do seu desaparecimento. Não sou grande admirador da sua música ou voz, mas algumas das suas músicas fazem parte do meu imaginário juvenil e estiveram presentes durante algum tempo. Lamento.