31 dezembro 2018

últimas horas, dias, de 2018

Aproveitando o frio da capital transmontana, mantenho-me refugiado e embrulhado em mantas e cobertores, ou melhor, agora são ederdons quem nos mantém a temperatura e aquece a estrutura. Para além do estado semi-dormente que esse aconchego propicia, vou aproveitando os intervalos lúcidos para ler. São vários os livros que se acumularam nos últimos meses e estão em fila de espera para meu prazer e sabedoria.
Hoje, último dia de 2018, por volta das seis da manhã iniciei a leitura desta obra, obrigatória para qualquer cidadão deste mundo, e que por estúpida omissão e gritante ignorância, ainda não li. Aliás, não conheço de todo a obra de André Malraux. Aí está uma das provas da minha enorme ignorância. Ainda assim, vou tentando recuperar e melhorar essa minha condição.
Bom ano de 2019 para toda a gente.

28 dezembro 2018

um escritor feliz

Porque escreve afinal?
Porque amo estar o dia inteiro fechado em casa a escrever; porque o cheiro do papel e da tinta é um vício; e porque acredito na imortalidade das bibliotecas.
É, então, um escritor realizado?
Sim, sou um escritor feliz.
E o que é a felicidade?
Uma vida com sentido. Tudo o que aconteceu comigo foi porque escrevi. A minha única religião é a Literatura.
(Orhan Pamuk, na FIL de Guadalajara, 2018)

a igualdade

Boaventura Sousa Santos (esse mal amado pela lusa pátria das ciências e afins...), no Jornal de Letras (nº 1258), escreve sobre o desafio que lhe propuseram para a sua participação no 1º Fórum Mundial do Pensamento Crítico, que se realizou em Buenos Aires, no passado mês de Novembro. O repto era: explicar a igualdade aos 1% mais ricos do mundo.
Daquilo que escreveu, saliento e transcrevo as seguintes ideias:

No século XXI, e depois de todas as vitórias dos movimentos feministas e antirracistas, seria mais correcto explicar não a igualdade mas a diferença. A igualdade não existe sem ausência de discriminação, ou seja, sem o reconhecimento de diferenças, sem hierarquias entre elas.
(...)
Temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza e o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.
(...)
A filosofia eurocêntrica - e as epistemologias do Norte que dela nasceram e deram origem à ciência moderna - assenta na contradição de defender em abstrato a igualdade universal e ao mesmo tempo justificar que parte da humanidade não é plenamente humana e não é, por isso, abrangida pelo conceito de igualdade universal, seja ela constituída por escravos, mulheres, povos indígenas, povos afrodescendentes, trabalhadores sem direitos, castas inferiores.
(...)
Uma metáfora menos chocante será a de pensar que a ajuda ao desenvolvimento ajuda de facto os países a desenvolver-se. Ao contrário do que promete, ela contribui não para desenvolver os países mas para os manter subdesenvolvidos e dependentes dos mais desenvolvidos.
(...)
As epistemologias do Sul que tenho vindo a defender partem dos conhecimentos nascidos nas lutas daqueles e daquelas que viveram e vivem a desigualdade e a discriminação, e resistem contra elas. Estes conhecimentos permitem tratar a igualdade como denúncia das desigualdades que oculta ou considera irrelevantes para a contradizerem. Permitem também tratá-la como instrumento de luta contra a desigualdade e a discriminação. Apenas para dar um exemplo: as epistemologias do Sul permitem reconceptualizar o capital financeiro global, o verdadeiro motor da extrema desigualdade entre pobres e ricos e entre países ricos e países pobres, como uma nova forma de crime organizado.
(...)
À luz das epistemologias do Sul, os crimes cometidos pelo capital financeiro global serão uns dos principais crimes de lesa-humanidade do futuro. Junto com eles e articulados com eles estarão os crimes ambientais.

27 dezembro 2018

26 dezembro 2018

o tédio

Ausente da blogosfera e da actualidade global, local e até pessoal, no último par de meses, aproveito agora o ritmo mais vagaroso das horas para espreitar e, retroactivamente, ler aquilo que fui deixando escapar. Num desses lugares, bem frequentado e com excelente memória, encontrei este excerto que aqui transcrevo e descontextualizo do seu ambiente natural. Parece-me bem, bem demais.

Temos hoje horror ao tédio. A nossa atenção e sentidos são permanentemente convocados, estimulados e titilados por um vendaval ininterrupto de notícias divertidas, vídeos engraçadinhos e outros excitantes palermas. Tudo é programado ao milímetro e ao segundo para impedir o ennui e para eliminar os pensamentos melancólicos do nosso espírito, cada vez mais infantilizado. A principal função do polegar oponível do Sapiens consiste agora em deslizar imagens patetas no ecrã de um smartphone. Nas praias e nos cafés, nos jardins ou nas ruas, tudo agarrado ao telemóvel. A toda a hora, de dia e ou de noite, levamos connosco uma Coney Island de bolso, muito portátil. Com isso evacua-se o tédio, decerto, mas perde-se também o seu enorme valor cultural e civilizacional. Sem falar no "ócio criativo", outrora muito apreciado nas melhores universidades inglesas, eram as tardes lânguidas da puberdade que levavam os adolescentes a ler. A ler horas a fio, sob o incentivo do tédio e da circunstância singela, mas decisiva, de não haver nada para fazer, absolutamente nada. Devoravam-se obras quilométricas, intermináveis mas fundamentais, que hoje amarelecem nas prateleiras, esmagadas pelo pó da ignorância e pela sujidade da desmemória. Para um teenager, entre a gratificação imediata de um like e a lenta e densa trama de Guerra e Paz a escolha é óbvia, irrecusável. Sem tédio, perdendo-se a capacidade de lidar com o tédio, é impossível aprender uma língua morta, estudar com afinco o latim ou o grego antigo, repetir à náusea os exercícios de violino ou harpa, gastar os dias a contemplar as nuvens do céu ou as avezinhas dos bosques. Não é por acaso que a Inglaterra, cinzenta e húmida, sempre foi grande terra de birdwatchers.
Matámos o tédio, muito bem, paz à sua alma. Mas, com essa morte, matámos também o que restava da nossa cultura humanista, baseada no livro e na leitura, na música dos planetas, no espanto da Natureza. Duvidam? Uma em cada cinco das livrarias registadas no Ministério da Cultura já não existe. Das restantes, apenas um terço reúne os requisitos para ser considerada livraria; e 40% dos livros ali expostos acabarão por ser devolvidos às editoras, por falta de compradores. Depois do tédio, as trevas. 

António Araújo, in "Entre as brumas da memória", dia 26/12/2018.

12 novembro 2018

mediascape: porque não?

A história noticiada há dias é simples de contar. Um holandês de 69 anos sente-se discriminado pela idade que tem, vai daí inicia batalha jurídica para que o tribunal, logo o Estado, lhe retire vinte anos à sua idade. Diz ele que se podemos mudar de nome e até de género, porque não mudar a idade. Aqui está mais um exemplo da estupidez humana, ou então, aqui está um exemplo de como um indivíduo ridiculariza a sociedade, brincando com as suas instituições. Confesso que, tendo que escolher, preferiria a segunda opção e que isto não fosse mais do que o reflexo do tédio acumulado deste, pelos vistos, ilustre cidadão holandês.
Vivemos, de facto, tempos magníficos que, com toda a minha certeza, irão um dia ser estudados e, depois, ajuizados como tempos de completa alienação social, de estupidificação crónica e sistémica.
Este caso relembra-me aqueles, normalmente figuras publicadas, que, tendo chegado já a uma determinada idade, teimam em afirmar-se eternamente jovens, ("de espírito" ou "de mentalidade" dizem eles), apesar da carcaça já meia apodrecida. Está bem, está. Não entendo a resistência ao envelhecimento. Percebo que custe ter consciência de que o fim se aproxima e de que a imagem devolvida pelo espelho não reflicta a ideia que temos de nós mesmos, mas é assim para todos e de nada serve a negação, a não ser para diferentes e variados graus de ridicularização.

09 novembro 2018

concordo, mas...


Eu também considero que os maus tratos a animais não é uma questão de gosto, mas sim um indicador civilizacional que nos localiza enquanto sociedade. Como tal, também me custa saber que há em Portugal uma "tradição" tauromática que ainda congrega muitos(as) portugueses(as), que consideram aceitável - para alguns, defensável até - o ritual de morte lenta dos toiros em arenas para gáudio das "multidões".
Percebo também as reacções, mais ou menos, efusivas e espalhafatosas do lobby pró-toiradas, que conscientes do seu extermínio, vão vociferando contra tudo e contra todos, não se apercebendo que são uma espécie em vias de extinção e que o tempo não lhes é favorável. Veja-se o triste papel a que Manuel Alegre se sujeitou ao escrever aquela carta aberta a António Costa, implorando ao primeiro-ministro que não se deixe influenciar por minorias da sociedade que são contra a caça e as touradas. Mais triste ainda é ele, tão formado e informado, não se aperceber que "minoria" é já quem "caça" e quem "toureia".
Com isto também quero dizer que, apesar da opinião contrária que tenho sobre as duas matérias (caça e tourada), não me parece producente extinguir por decreto tais actividades. Legislar, educar novas gerações para a sua restrição, parece-me muito mais aconselhável e, tal como já está dito, o tempo encarregar-se-á de extinguir tais práticas, pelo menos, nos formatos e espaços em que ainda hoje acontecem.
Mas sim, concordo com a Ministra da Cultura.

01 novembro 2018

a decadência

A História também tem qualquer coisa de imponderável. As grandes civilizações perfeitas caíram sozinhas. O Ocidente, provavelmente, também cairá. Até pelo excesso. Comparo muito o nosso tempo a um momento de decadência. Atingimos o cume do que era possível atingir, do bem-estar social, das liberdades, dos direitos, da defesa da saúde. Chegámos provavelmente o mais perto da perfeição que era possível. Mas tornámo-nos numa sociedade de abundância, do desperdício, da falta de cuidado. A partir daí, só se pode descer.
(...)
Estamos a descer, como os romanos desceram. A vomitar para comer mais. As pessoas comem, comem e depois vão para os ginásios correr em máquinas, quando podiam andar no chão. Falta capacidade de inovação, o que é visível até nas pulsões retro da moda, em coisas que me parecem obscenas, como vestir calças esfarrapadas. A abundância estraga o indivíduo, hipervaloriza-o e desequilibra-o. É um desarranjo da forma de viver, o que é muito perigoso. Vivemos num tempo de muitos perigos e ameaças.
(Hélia Correia, in Jornal de Letras)

25 outubro 2018

mediascape:assumpção

"Nestas eleições, eu não votaria no Brasil."
Assunção Cristas, líder do CDS-PP, na Rádio Renascença.

Para memória futura. E, acima de tudo, como testemunho de como se assumem posições políticas claras e inequívocas no que diz respeito ao que se deseja para a sociedade...

19 outubro 2018

granta

Chegou ontem, na volta do carteiro, o número dois da Granta em língua portuguesa, a última edição coordenada por Carlos Vaz Marques e cujo tema é: Deus/es. Vamos ler.

mediascape:aberração

É preciso falar de educação de forma concreta. A educação é quando a avozinha ou o avozinho vai lá a casa e a criança é obrigada a dar o beijinho à avozinha ou ao avozinho. Isto é educação, estamos a educar para a violência sobre o corpo do outro e da outra desde crianças. Obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa como obrigação coerciva é uma pequena pedagogia que depois cresce.

Esta foi a frase proferida por Daniel Cardoso no programa Prós e Contras, do passado dia 15 de Outubro e que veio incendiar os media e, principalmente, as redes sociais. Não vi em directo esse programa que se dedicava, em especial, ao movimento me too, e só muito depois me apercebi do que acontecera e, em particular a esta peculiar afirmação.
Eu aceito todas as teorias científicas, toda a evolução do discurso científico e a possibilidade da diversidade exploratória e/ou hipotética das noções, dos constructos e dos conceitos que almejam a teoria, o princípio ou regra geral em ciência, ainda que possa não concordar com ela. Para além disso, o que mais existe no edifício da ciência são ideias, princípios, conceitos e teorias, proscritas, assim como idiotas desacreditados.
Sobre esta afirmação apenas quero dizer o seguinte: não quero saber se existe ou não conhecimento científico(?) construído sobre o assunto, importa-me manifestar o meu completo desprezo por este tipo de discurso, proveniente por uma minoria que, sob todas as formas e através de todos os meios à sua disposição, procuram fazer vingar a sua agenda, ou seja, normalizar aquilo que é uma anormalidade e, acima de tudo, ostracizar o comportamento afectivo dos indivíduos, sejam eles adultos ou crianças, naquilo que é a relação afectuosa/amorosa familiar e entre gerações, numa missão evangelizadora daquilo que consideram ser o ideal de comportamento entre as pessoas. Numa palavra: aberração.

post-scriptum - ao escrever estas linhas lembrei-me da agenda do tão famoso "politicamente correcto" e de que no seu fundamentalismo/radicalismo/univocidade, é bem capaz de tolerar, ou mesmo defender, este tipo de afirmações. Que estupidez! Uma vez mais, reafirmo: aberração.

novo projecto


Estou desde hoje, oficialmente, envolvido no projecto SHARE - Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe, naquilo que é a sétima "vaga" realizada em Portugal. Este é um projeto multidisciplinar e multi-nacional que disponibiliza dados sobre a saúde, o estatuto sócio-económico e as redes sociais e familiares de mais de 120.000 indivíduos, com 50 anos ou mais (cerca de 297 mil entrevistas) de 27 países europeus (+ Israel).
Para além do interesse profissional que me motiva à participação, há também o interesse académico e a possibilidade de aceder, gratuitamente, a esta gigantesca base de dados relativa às gerações mais velhas da população de muitos dos países europeus (+ Israel).
Para conhecerem o projecto e/ou para se inscreverem e terem acesso a este acervo, consultar aqui.

08 outubro 2018

sim

Sou também louco pela montanha. (...) Caminhar por entre as colinas, simplesmente caminhar e olhar. (...) Não sou uma criatura do mar, um amante da democracia das praias. A montanha opera uma selecção rude. Quanto mais se sobe, menos gente se encontra. A solidão é, sem dúvida, a grande prova. Valerá a pena viver-se, viver consigo próprio?
(George Steiner, 2006:143)
Viver de ti. Só.

decência

Uma boa, ou melhor, uma alegre notícia a atribuição do prémio Nobel da Paz a Denis Mukwege, médico ginecologista congolês, e a Nadia Murad, activista e ex-escrava sexual dos extremistas do Estado Islâmico. Duas personalidades discretas e sem direito aos grandes palcos mediáticos, que na sua vida quotidiana contribuíram, e contribuem, efectivamente para denunciar os crimes de violência sexual que vitimam milhares de mulheres em todo o mundo. Esta notícia é tanto mais importante e relevante, quando nos media e durante os últimos meses, se especulou sobre a possibilidade de este prémio ser entregue a Donald Trump e a Kim Jong-un, o que seria não só uma estupidez, como uma autêntica palhaçada.
Afinal ainda há esperança.

04 outubro 2018

subscrevo

Tudo o que importa agora é política e não cultura. Não aceito isso. Acho que a cultura é superior à política. A política é interessante e importante e vital, e sou uma analista política, mas ponho a cultura num plano mais elevado. 
Camille Paglia, in revista Ler nº 149, página 78.

instantes

Perceber que teremos alguns minutos de paz e sossego para a leitura, mesmo que apenas pequenos instantes, é sempre uma alegria. Depois, depois é só reunir esses recantos do nosso tempo e verificar aquilo, o tanto, que conseguimos.

02 outubro 2018

desalento

Conheci Robert Mapplethorpe através do livro "Just Kids" (2010) de Patti Smith, no qual a autora lhe dedica a narrativa dos seus anos de juventude, do seu relacionamento e da sua separação. A descoberta dessa personagem trouxe a normal curiosidade sobre ela e bastou uma pesquisa no Google para satisfazer esse interesse. Agora que uma exposição de obras suas está patente em Portugal e, ainda por cima, no Porto, preparava-me para a ir visitar, mas com toda a polémica que se instalou à sua volta, com o completo esvaziamento de qualquer putativo interesse estético ou artístico dessa colecção e a sua transformação num conjunto de imagens pudicamente ofensivas à moral e aos bons costumes da nossa parvónia, perdi a vontade. Já não vou. Lamento perder esta oportunidade próxima, mas desconfio que aquilo que está agora a acontecer em Serralves é apenas um exercício voyeurista.

(na imagem, roubada do google, Patti Smith e Robert Mapplethorpe)

01 outubro 2018

esquecimento

Foi no momento em que arquivava a revista LER de Verão (nº 150) que verifiquei, com espanto e incrédulo, que não tinha adquirido o número anterior (nº 149), relativo à Primavera deste ano. Como foi possível tal esquecimento, foi o pensamento que me acompanhou durante os dias seguintes. Depois desse sobressalto inicial, logo tratei de a adquirir. Agora, que já cá está, retroactivamente, vou LER.

19 setembro 2018

mediascape:aliança e impostos

Leio no Diário de Notícias online que Santana Lopes, hoje e no momento em que formalizava a fundação do seu novo partido, no Tribunal Constitucional, afirmou que a Aliança tem como missão a redução de impostos... se quiserem pôr um rótulo na Aliança é: menos impostos.
A sério Dr. Santana Lopes?! Então e onde irá buscar o valor correspondente a essa redução de impostos? Esta era a questão que lhe deveria ter sido, de imediato, colocada pelos jornalistas presentes, mas não, para punch-line é mais do que suficiente e servirá para as parangonas das próximas horas e dias.
Ainda assim, nós sabemos a resposta a essa hipotética pergunta. Para desobrigar aqueles que mais podem pagar impostos, o Sr. Dr. Santana Lopes irá compensar os cofres da fazenda pública, obrigando aqueles que menos têm, logo menos podem pagar - os trabalhadores, pensionistas e desempregados, assim como irá reduzir os encargos com as obrigações de um estado social, ou seja, reduzir investimentos na educação, saúde e justiça.
Se comparado com estes senhores da Aliança, Mário Centeno (e as suas cativações), é um mãos-largas.

18 setembro 2018

esplanadas

Lugar, por excelência, para eu estar. Lugar, vivido e sentido, para eu ficar. O gostar de esplanadas poderá, melhor, deverá, ser entendido como uma declaração do meu estado ideal de existência. É lá que habito considerável parte do meu tempo estival. Condição essencial: ter sombra. É que só os lugares equipados com esse equipamento, que me permite ficar, se podem designar como tal; Condição quase-essencial, mas em certas circunstâncias, prescindível: ter Wi-Fi. Maior parte das vezes até nem é necessário estar ligado na rede, mas confesso que me sinto mais confortável, sabendo que a qualquer momento poderei conectar-me.
As esplanadas são o meu lugar de Verão.

mediascape: os buracos e os ridículos

Ele há coisas que de tão estúpidas, idiotas ou parvas, não queremos acreditar que possam ser verdade. O caso em apreço aconteceu, ou pelo menos foi notícia, este Verão e constituiu-se do seguinte teor:
Uma instituição norte-americana, a Healthline, através do seu sítio na internet, publicou um guia direccionado para a comunidade LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgéneros, Queers, Intersexuais e Assexuais), onde sugere a substituição da designação médica de vagina pela designação de buraco da frente, tudo em nome de um discurso mais inclusivo e para não ferir a susceptibilidade das referidas comunidades, assim como para não discriminar as pessoas com identidade trans ou não-binária.
Buraco da frante?!?!?
Esta gente não sabe mais como chamar a atenção e, assim sendo, vão produzindo estas alarvidades linguísticas, apenas e só para serem vistos, para manterem os holofotes mediáticos na sua causa (?), nos seus discursos e nos seus comportamentos. Deixem-se de merdas, a vagina há-de ser sempre a vagina, ou melhor, a cona há-de ser sempre a cona (e façam o favor de a pronunciar, tratar e designar em maiúsculas). Obrigado.

Post-Scriptum
A estas mentes brilhantes e talentosas, sempre na vanguarda do saber, apetece-me aconselhar, tal como já fiz anteriormente e noutros contextos, a leitura de:

09 setembro 2018

LER

Cada vez mais atrasada em relação à respectiva estação do ano, aí está a revista LER do Verão de 2018. Vamos LER.

03 setembro 2018

coesão territorial

Ao ler a entrevista do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa ao Expresso e ao perceber a sua intenção de impor ao Governo, em sede de orçamento de Estado, a redução dos preços dos passes sociais de Lisboa e dos 18 concelhos que pertencem à Grande Lisboa, lembrei-me de imediato daquele projecto "Movimento pelo Interior" que apareceu com grande protagonismo mediático algures no mês de Maio, ou seja, há cerca de quatro meses, com um programa subscrito por várias luminárias, especialistas e reconhecidos académicos, e composto por um conjunto de medidas que prometiam inverter o eterno e crónico abandono do interior do nosso país.
Pois bem, mesmo com esse relatório e essas propostas em mãos, o Governo não consegue inverter, ou pelo menos simular essa inversão do forte centralismo da capital. Não só não vamos ter qualquer medida efectiva de promoção do interior, como vamos reforçar o peso de Lisboa e suas populações na despesa no Orçamento de Estado que se avizinha.
Na altura em que foi conhecido o documento desse Movimento pelo Interior, não tendo tido tempo para o ler com atenção, imprimi-o e guardei-o para estes dias de férias. Está lido e avaliado. Em breve trarei aqui as minhas considerações. Em todo o caso, mais do mesmo!... com aparato, com pomposos signatários, com luzes e laçarotes, mas nove fora nada. Certo?!

mediascape:irreparável


Imagens como esta não podem deixar de nos incomodar, mas sabendo que se trata do centenário Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, a impressão ainda é maior. Não podemos ficar indiferentes à destruição completa e definitiva do maior acervo e espólio da cultura brasileira e sul americana. Era neste bonito palácio oitocentista que se encontrava o maior acervo histórico e antropológico da cultura brasileira, logo, sul americana, logo, ameríndia, logo, portuguesa.
Lamentável é saber que esta jóia da cultura brasileira foi, nos últimos anos, esquecida e desprezada pelo poder e que já desde 2014 que a sua dotação financeira não era satisfeita totalmente. Segundo relatos que nos chegam do lado de lá do Atlântico, o seu orçamento anual era pequeno e mesmo assim prescindível para a sua tutela. Uma vergonha e uma irreparável perda.

01 setembro 2018

mediascape:inveja

Toma hoje posse como Responsável da Biblioteca apostólica e do Arquivo do Vaticano José Tolentino Mendonça. Na entrevista que dá ao Público de hoje confessa que a sua primeira preocupação é ocupar-se dos relatórios sobre o estado actual da Biblioteca e do Arquivo. Serão as suas leituras prioritárias. Mas como bibliotecário deverá enamorar-se também pela espantosa biblioteca e tem uma lista mental infindável de tesouros que gostaria de encontrar no tempo, e exemplifica:
- Codex Vaticanus, do século IV, que contém o mais antigo texto completo da Bíblia em grego;
- Os dois volumes da Bíblia de Gutenberg, que foi o primeiro livro impresso no Ocidente, segundo a técnica de impressão moderna;
- As Etymologiae, de Santo Isidoro de Sevilha, que contêm um dos primeiros tratados sobre como organizar uma biblioteca;
- A Commedia de Dante ilustrada por Sandro Botticeli;
- O Apocalipse de São João ilustrado por Albrecht Durer;
Para lá das escolhas pessoais, a verdade é que o sentimento que me assalta é muito pouco cristão, e não posso deixar de sentir considerável inveja pelo privilégio de aceder a tamanho tesouro.

mediascape:horários

Discussão do momento: deve-se ou não continuar a mudar a hora na Europa, entre os horários de Verão e de Inverno?
Sondagens a nível europeu para um lado, pareceres técnicos e de especialistas para outro lado, aquilo que vai acontecer, já percebi, é que o horário de Verão vai ser o escolhido e deixaremos de atrasar o relógio no mês de Outubro.
Para ser sincero, não quero saber se alternamos ou não entre os dois horários; não me interessa; não me preocupa; nem percebo a importância dessa discussão. É-me indiferente acordar de dia ou acordar de noite; é-me indiferente regressar a casa ainda de dia ou já de noite. Façam o que bem entenderem.
No entanto, naquilo que pude perceber das preocupações dos técnicos/especialistas, a escolha de um horário e o fim da alternância entre horários poderá trazer alguns distúrbios às crianças e jovens, naquilo que poderá ser alguma confusão em acordar e ir para a escola ainda de noite. Pois bem, na minha mais insignificante opinião, o que está errado, e não é de agora, é fazer as crianças de 4, 5, 6, 7 anos entrarem na escola entre as oito e as nove da manhã. Se querem fazer algo de benéfico, alterem os horários escolares e distribuam-nos pelo dia e não os façam madrugar para estudar. Nunca percebi esta imposição da escola começar às 8:15, ou às 8:30, ou às 9:00. Tanto dia, tantas horas, tanta tarde, tanta luz solar para aproveitar.

mediascape:vale dos caídos

Vale dos Caídos, nas imediações de Madrid, é o altar da extrema-direita espanhola, onde se presta o culto a Franco e a Primo Rivera. É igualmente o símbolo máximo e paradigmático das históricas cisões na sociedade espanhola, que se traduz num contencioso permanente que chegou aos nossos dias. Acontece que o governo socialista de Pedro Sánchez, não só quer exumar os restos mortais do ditador Franco que se encontram sepultados nesse local, como pretende transformar o Vale dos Caídos num memorial às vítimas da Guerra Civil e do franquismo, assim como criar uma Comissão de Memória, com a vigência de dois anos e com a finalidade de apurar a verdade do que ocorreu, contribuir para o esclarecimento das violações de direitos humanos e das graves infracções cometidas durante a Guerra Civil e o franquismo. Tarefas, todas elas, de difícil concretização, pois as feridas abertas nesse período negro da história de Espanha ainda não estão saradas e, seja por omissão, seja por ocultação, nunca houve um verdadeiro ajuste de contas com o passado.
A este propósito, hoje no jornal Público, o seu director - Manuel Carvalho, e em editorial, escreve que "a exumação do cadáver de Franco e as melhores formas de matar a simbologia extremista do Vale dos Caídos" demonstra como "a Espanha continua a debater-se com os vírus que originaram o franquismo e que, ainda hoje, persistem em perturbar o seu metabolismo nacional", enraizados na sociedade através de um radicalismo de direita e em instituições como a Igreja.
Manuel Carvalho tem razão quando afirma que não basta apagar os lugares da memória para que esta seja erradicada do presente, mas também será verdade que sem esses lugares de memória, será bem mais difícil, geracionalmente, perpetuar essas memórias. Só podemos e devemos desejar que o PSOE seja, finalmente, bem sucedido neste seu propósito.

setembro, dia primeiro

Ainda que o regresso só esteja previsto para os próximos dias, o dia primeiro de Setembro é, para mim, dia de retomar algumas rotinas e de recuperar pensamentos, ideias e preocupações. O mês que agora inicia é sempre muito grande, pleno de tarefas e eventos aos quais não conseguimos escapar. Depois destes dias e semanas de férias em que estive ausente e me abstive de aqui vir, é tempo também de retomar o hábito de partilhar aquilo que me importa e interessa. Comecemos.

23 julho 2018

mediascape: contramão

Aconteceu um destes dias. Vários condutores que circulavam na A12, perante o cenário de um grande incêndio próximo da auto-estrada, que provocava imenso fumo, resolveram fazer inversão de marcha e circular em contramão.
Não sei qual teria sido a minha reacção numa situação destas, mas apesar de saber que tal atitude é muito perigosa, parece-me extemporânea a reacção da Protecção Civil, ao condenar esses condutores. Para além disto, não me restam dúvidas que tal comportamento só aconteceu porque na memória de todos nós estão ainda todos aqueles que morreram nas estradas portuguesas, vítimas dos incêndios do último Verão. É muito preocupante percebermos que, apesar de todas as promessas por parte das autoridades, os cenários de pânico, de perigo eminente, de reacções extemporâneas, permanecem, estão latentes. Sorte ainda não ter vindo calor a sério.

17 julho 2018

as identidades que matam


Não recordo o dia, nem a hora, mas sei que foi numa conversa com o cantor José Mário Branco, nas últimas semanas, que ouvi da boca do cantor que um dos livros que mais o marcaram foi este "Identidades Assassinas" de Amin Maalouf. Fiquei curioso, até porque já conhecia o autor, de um outro seu trabalho magnífico em que vai em busca das suas "Origens". Procurei-o nas lojas do costume e logo me apercebi que não seria fácil encontrá-lo. Trata-se de uma edição de 1999 da extinta Difel e, por isso, só em alfarrabistas ou na internet o poderia encontrar. Numa busca na internet e contactando vários alfarrabistas, apenas consegui que dois me respondessem afirmativamente. Finalmente o livro cá me veio parar às mãos e foi com alguma expectativa que depressa o li.
Trata-se de uma reflexão do autor - franco-libanês - acerca da importância das identidades individuais, da importância dos sentimentos de pertença a um determinado grupo e da relevância dessas dimensões identitárias na evolução das sociedades, no confronto de ideologias, na sobrevivência das comunidades, nas disputas religiosas e origens dos movimentos extremistas, radicais e fundamentalistas, e no enorme hiato que existe entre as civilizações ocidental e oriental/muçulmana.
Perfeitamente datado e contextualizado - final do século XX (antes do 11 de Setembro de 2001, entre outros) - poderemos até considerá-lo ultrapassado em várias das suas afirmações, mas em todo o caso, parece-me pertinente atentar nalgumas das questões suscitadas:

Porquê estes véus, estes tchadors, estas barbas severas, estes apelos ao assassínio? Porquê tantas manifestações de arcaísmo, de violência? Será tudo isto inerente a estas sociedades, à sua cultura, à sua religião? Será o Islão incompatível com a liberdade, com a democracia, com os direitos do homem e da mulher, com a modernidade?

As respostas não são simples e o autor afirma que não acredita no exagero da influência das religiões sobre os povos, enquanto se negligencia a influência dos povos sobre as religiões, exemplificando, com o caso europeu. Se o cristianismo modelou a Europa, a Europa também modelou o cristianismo. Este é hoje o que as sociedades fizeram dele. Elas transformaram-se, material e intelectualmente, e transformaram consigo o seu cristianismo (p.74). Reforça esta ideia, escrevendo que a sociedade ocidental inventou a Igreja e a religião que tinha necessidade, tal como no mundo muçulmano, a sociedade produziu constantemente uma religião à sua imagem e que quando os muçulmanos atacam violentamente o Ocidente, não é só por serem muçulmanos e por o Ocidente ser Cristão, é também por serem pobres, dominados, ridicularizados e por o Ocidente ser rico e poderoso.
Um pouco mais à frente, o autor dedica-se à explicação/justificação da tal enorme diferença que podemos verificar entre o mundo ocidental e o resto do mundo, afirmando:

Esta primavera formidável da humanidade criadora, esta revolução total, científica, tecnológica, industrial, intelectual e moral, este longo trabalho “de buril” efectuado por povos em plena mutação, que todos os dias inventavam e inovavam, que sem cessar faziam tremer as certezas e sacudiam as mentalidades, não foi um acontecimento entre outros, foi único na História, foi o acontecimento fundador do mundo tal como o conhecemos hoje, e produziu-se no Ocidente - no Ocidente e em nenhum outro lugar. (...) Será que esta mutação se produziu graças ao cristianismo, ou apesar do cristianismo? (...) A emergência, no Ocidente, durante os últimos séculos, de uma civilização que iria tornar-se, para o mundo inteiro, a civilização de referência, tanto no plano material como no plano intelectual, de tal modo que todas as outras se encontraram marginalizadas, reduzidas a um estado de culturas periféricas, ameaçadas de extinção. (...) A partir de que momento se tornou esta predominância da civilização ocidental virtualmente irreversível? A partir do século XV? Nunca antes do século XVIII. Do ponto de vista que hoje é o meu, pouco importa. O que é certo, e fundamental, é que um dia uma civilização resoluta tomou as rédeas da carruagem planetária nas suas mãos. A sua ciência tornou-se a ciência, a sua filosofia tornou-se a filosofia, e este movimento de concentração e de “estandardização” nunca mais parou, pelo contrário, não deixa de acelerar, alargando-se ao mesmo tempo a todos os domínios e a todos os continentes. (p.81 e 82)

Uma crise de identidade é associada à causalidade de vários sentimentos de repulsa, aversão e repúdio face ao mundo ocidental...

A felicidade do mundo e a sua infelicidade, tudo isto veio do Ocidente.
Onde quer que se viva neste planeta, toda a modernização é, daqui em diante, ocidentalização. Uma tendência que os progressos técnicos não fazem senão acentuar e acelerar. Um pouco por todo o lado encontramos, evidentemente, monumentos e obras que trazem consigo a marca de civilizações específicas. Mas tudo o que se criou de novo - quer se trate de construções, instituições, instrumentos de conhecimento, ou modos de vida - foi criado à imagem do Ocidente. (...) Esta realidade não é vivida da mesma maneira pelos que nasceram no seio da civilização dominante e por aqueles que nasceram fora dela. Os primeiros puderam transformar-se, avançar na vida, adaptar-se, sem deixar de serem eles mesmos; poderíamos mesmo dizer que, para os ocidentais, quanto mais se modernizam, mais se sentem em harmonia com a sua cultura, somente os que recusam a modernidade se encontram desfasados. Para o resto do mundo, para todos aqueles que nasceram no seio de culturas desfeitas, a receptividade à mudança e à modernidade coloca-se em termos muito diferentes. Para os chineses, para os africanos, os japoneses, os indianos ou os ameríndios, assim como para os gregos e os russos, para os iranianos, os árabes, os judeus ou os turcos, a modernização implicou constantemente o abandono de uma parte de si mesmos. Mesmo quando ela suscitava por vezes o entusiasmo, nunca se desenrolava sem uma certa amargura, sem um sentimento de humilhação e de renúncia. Sem uma interrogação dolorosa sobre os perigos da assimilação. Sem uma profunda crise de identidade. (p.83 e 84)

Pode-se bem imaginar o sentimento que poderão experimentar os diferentes povos não ocidentais, para quem, desde há numerosas gerações, cada passo na sua existência se acompanha de um sentimento de capitulação e de negação de si próprios. Foi-lhes necessário reconhecer que o seu saber estava ultrapassado, que tudo o que produziam nada valia comparado com o que se produzia no Ocidente, que a sua manutenção da medicina tradicional resultava da superstição, que o seu valor militar não passava de uma reminiscência, que os seus grandes homens que tinham aprendido a venerar, os grandes poetas, os sábios, os militares, os santos, os viajantes, não contavam para nada aos olhos do resto do mundo, que a sua religião era suspeita de barbárie, que a sua língua era estudada apenas por meia-dúzia de especialistas… (…) Sim, a cada passo da sua vida, encontram uma decepção, uma desilusão, uma humilhação. Como não ter uma personalidade mortífera? Como não sentir a sua identidade ameaçada? Como não ter o sentimento de viver num mundo que pertence aos outros, que obedece a regras ditadas pelos outros, um mundo onde se sentem órfãos, estrangeiros, intrusos ou párias? (p.86 e 87)

O autor termina a sua reflexão partilhando aquilo que considera serem as inquietações da mundialização actual:

a) uniformização pela mediocridade - a ideia segundo a qual a efervescência actual, mais do que conduzir a um enriquecimento extraordinário, à multiplicação dos meios de expressão, à diversificação de opiniões, conduz paradoxalmente ao inverso, ao empobrecimento: assim, esta multiplicidade desenfreada de expressões musicais apenas desembocará, no final de contas, numa espécie de música de ambiente, afectada e adocicada. Assim, o formidável cadinho de ideias terá como resultado uma opinião unanimista, simplista, um menor-denominador-comum intelectual, a tal ponto que toda a gente, à excepção de um punhado de excêntricos, acabará por (…) engolir o mesmo caldo informe de sons, de imagens e de crenças;
b) uniformização pela hegemonia - Será a mundialização algo mais do que uma americanização? Não terá ela como consequência principal o impor ao mundo inteiro uma mesma língua, um mesmo sistema económico, político e social, um mesmo modo de vida, uma mesma escala de valores, os dos Estados Unidos da América? A acreditar em algumas pessoas, o conjunto do fenómeno da mundialização não passaria de um disfarce, de uma camuflagem, de um cavalo de Tróia, sob o qual se dissimularia uma empresa de dominação. É legitimo interrogarmo-nos se a mundialização não irá reforçar a predominância de uma civilização ou a hegemonia de uma potência. Isto apresentaria dois perigos graves: o primeiro, o de vermos, pouco a pouco, desaparecer línguas, tradições, culturas; o segundo, o de vermos os membros dessas culturas ameaçadas adoptarem atitudes cada vez mais radicais, cada vez mais suicidas.
Os riscos de hegemonia são reais. (p.126 a 129)

um homem bom


A notícia chegou madrugadora. Morreu João Semedo, dirigente e ex-coordenador do BE. Notícia esperada, mas sempre triste. Foi uma enorme honra ter conhecido e ter privado com o João.





Alguns dos momentos em que o acompanhei por terras de Trás-os-Montes.

30 junho 2018

organizar o silêncio

No passado dia 22 de Maio, quando da sua morte, a minha reacção perante aquilo que foi dito e escrito sobre ele, foi resgatar das prateleiras do armário, onde vou amontoando livros, os dois que sabia ter, para os colocar mais perto de mim e, assim que possível, os ler. Sabia da sua qualidade, sabia da sua importância para o consciente e para o inconsciente americano, sabia da sua importância para o retrato de uma determinada América - a da luta entre os géneros, entre as raças, entre as classes sociais, entre as confissões religiosas - sabia da sua importância para o (re)conhecimento de um ethos social e cultural nem sempre perceptível ou identificável. Por tudo isto e mais, sabia que teria que ler Philip Roth. Foi por isso que, um dia, comprei esses dois livros.
Agora, terminei a leitura de um deles, A Mancha Humana, onde o autor faz um retrato de vidas americanas do pós-guerra (2ª guerra mundial e Vietname), com todas as suas convulsões políticas e sociais, as suas manias e convenções, os seus tiques e hipocrisias. Segundo Roth, a mancha humana (americana) contamina e destrói tudo à sua volta, destrói a natureza e contamina os animais.
O narrador desta história, Nathan Zuckerman, que a determinada altura da sua vida desistiu da vida social e foi viver na solidão da montanha, a esse propósito, afirma:

O segredo de viver com um mínimo de sofrimento na voragem do mundo reside em atrair o maior número de pessoas para as nossas ilusões; o truque para viver sozinho aqui em cima, longe de todas as perturbadoras confusões, seduções e expectativas, afastado, sobretudo, da própria intensidade, consiste em organizar o silêncio, em pensar na sua plenitude de cume de montanha como capital, no silêncio como riqueza crescendo exponencialmente. No silêncio circundante como a fonte de proveito que escolhemos e a nossa única coisa íntima.

De facto, reflectindo sobre esta citação que tanto me diz, organizar o silêncio não é tarefa fácil ou simples. Não é, acima de tudo, acessível a qualquer um. Desconfio até que para a maioria dos indivíduos o silêncio é dispensável e dele fogem permanentemente, preferindo as referidas voragem, intensidade e confusão. No que a mim diz respeito, revejo-me integralmente nesta frase do narrador [ e por isso a trago aqui]; projecto-me para essa solidão, para esse isolamento, idealizo-me nessa necessidade, nessa ânsia pelo silêncio. Não sei, talvez um dia o alcance e, depois, o consiga organizar.

16 junho 2018

reset to USA democracy


Depois de ter visualizado, no youtube, o lançamento/debate deste livro, na feira do livro de Lisboa, em que participaram Daniel Oliveira e Pacheco Pereira, foi com bastante curiosidade que li, nas últimas horas, este pequeno livro, editado em Portugal pela Tinta da China.
Trata-se de um ensaio de um pensador político de esquerda, assumidamente de esquerda, que, através de uma escrita acessível ao comum dos leitores, faz uma crítica acérrima e assertiva (ainda que num ou noutro ponto discutível) à esquerda americana, ou seja, aos liberais e aos democratas. Segundo este autor, a esquerda americana, ao longo das últimas décadas, desde a presidência de Ronald Reagan, concentrou todas as suas energias na adesão ao liberalismo identitário e na defesa de políticas identitárias, entregando-se sem resistência à política dos movimentos sociais assentes na identidade, perdendo qualquer noção daquilo que os cidadãos partilham e daquilo que une a nação. Consequência disto, não são capazes de reflectir sobre o bem comum, não conseguem perspectivar uma ideia de futuro partilhado e, acima de tudo, promovem um narcisismo económico, uma guetização, ou um sectarismo, ou ainda, uma balcanização das minorias entre si, levando ao alheamento e indiferença do seu eleitorado habitual(?).
Ao mesmo tempo, Mark Lilla, entende que a eleição de Donald Trump e a sua presidência propiciaram o momento ideal para a esquerda começar de novo ("reset"): reconstruir a identidade em torno do que une o povo, encorajando o sentido de dever mútuo e inspirando todos na nação e no resto do mundo.

Os movimentos que remodelaram o nosso país ao longo dos últimos 50 anos tiveram um impacto muito positivo, especialmente na forma como mudaram, como se costuma dizer, corações e mentes. O que talvez seja a coisa mais importante que qualquer movimento concretiza, (...) mas durante um período de tempo considerável os movimentos não são capazes só por si de atingir fins políticos concretos. Precisam de políticos e funcionários públicos integrados no sistema, solidários com as metas do movimento, mas dispostos a empenhar-se no trabalho lento e paciente de fazer campanha eleitoral, conceber e negociar a aprovação de legislação, e controlar a burocracia que assegura a sua aplicação. (página 88)

08 junho 2018

mediascape:desintoxicação

“Ninguém poderá encontrar o seu caminho num mundo tecnológico se não souber ler, escrever, contar, respeitar os outros e trabalhar em equipa. Os telemóveis são um avanço tecnológico, mas não podem monopolizar as nossas vidas”.
Jean-Michel Blanquer, ministro da educação.

Soube-se hoje que a Assembleia Nacional francesa aprovou a proibição do uso de telemóveis nas escolas da República Francesa. Medida que entrará em vigor a partir do próximo ano lectivo.
Muito bem. Não poderia estar mais de acordo, pois tal como é dito pelos promotores deste projecto-lei, agora aprovado, esta é uma medida de desintoxicação, que tem por objectivo contribuir para a redução das distracções em sala de aulas e combater casos de bullying.
Bem podia a República Portuguesa imitar a Francesa e decretar também a proibição dos telemóveis em espaços escolares. Eu subscreveria tal medida.

o experimentalista


A notícia chegou-me à hora de almoço. Anthony Bourdain morreu; ter-se-á suicidado.
A sério?
O espanto perante a notícia do seu suicídio acontece naquilo que era, ainda é, a convicção de que alguém que é pago para viajar pelo mundo e suas cidades, a conhecer culturas e gastronomias tão diversificadas, é reconhecido, é apreciado e é famoso, não poderia ter razões para acabar com a sua vida. Quem não gostaria de poder ter uma vida semelhante?!...
Enfim, aquilo que me atraiu em Bourdain e que fazia com que o tolerasse - sim, não há pachorra para tanto especialista, tanto chef, tanto programa/concurso sobre cozinha e sobre empratamentos, já para não falar da inenarrável e moderníssima experiência em que se transformou o verbo comer - era o seu aparente (isto porque em televisão não vemos tudo) desalinhamento em relação ou status quo gastronómico vigente nos últimos anos. A sua capacidade de adaptação às diversas experiências gustativas, a sua vontade de experimentar, a sua tolerância para tudo quanto, nos dizem que, faz mal à saúde, a promoção que fazia a ingredientes, pratos e especialidades marginais, ausentes das grandes cozinhas e dos menus dos "grandes" chef's e especialistas. Acima de tudo, nos seus programas de televisão, agradava-me o seu apetite por todo o tipo de comida, a sua vontade de experimentar, a sua vontade de comer.

antologia autores transmontanos

O convite surgiu nos primeiros meses de 2017. A Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa organizou esta antologia de autores transmontanos e solicitou a sua organização/coordenação ao seu sócio e membro Dr. Armando Palavras.
Eu respondi ao desafio com um texto sobre as Nomeadas em Trás-os-Montes. O livro foi lançado no passado dia 26 de Maio, em Lisboa, no IV Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, organizado pela mesma Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Ainda não tive a oportunidade de olhar para o resultado final, pois não tendo ido ao referido congresso, ainda não me enviaram o exemplar a que tenho direito enquanto autor. Aguardo com expectativa a sua chegada. Por enquanto, apenas conheço a capa do mesmo...

04 junho 2018

"O vinho é o novo alvo dos proto-higienistas"

Transcrevo todo o texto, porque a mensagem deve passar na íntegra e não fora do seu contexto. Cambada de palermas.

Não é fácil explicar a um europeu que viva a norte dos 45º de latitude, que nós (no Sul) bebemos vinho às refeições, que temos o costume de não beber vinho como os finlandeses bebem vodka, que raramente bebemos sem comer, que dois copos de vinho por dia não são uma ameaça à paz mundial (como determinou o SNS britânico) – e que desprezamos o seu hábito de beber forte durante dois ou três dias (até cairem) e de aparecerem, depois, como puritanos, em culottes, com mau hálito e a implicar com tudo. Parece que há na UE uma “corrente de pensamento” proto-higienista, fomentada por burocratas que usam todos a mesma gravata, as mesmas cuecas e o mesmo tom de pele, que quer equiparar as garrafas de vinho a cargas de álcool eslavo, inutilizando os nossos rótulos com avisos mortais e ameaças de morte (à semelhança dos maços de tabaco). Se isso acontecer, Portugal e outros países civilizados do Sul da Europa devem pedir a rápida desanexação da UE. Esta é, por isso, uma crónica racista: contra a raça dos palermas e dos rostos pálidos que não sabem distinguir um vinho (com a sua carga de cultura, tradição, brilho, humanidade) de uma ampola de vodca bebida no aeroporto. Ninguém me convence de que isto não é uma conspiração de fascistas tolos, ainda por cima – lamento dizê-lo, ó pátria de grandes bebedores – irlandeses, o que é uma pena.

(Francisco José Viegas, no seu blogue - A Origem das Espécies. Aqui)

30 maio 2018

colecção revista Brigantia, finalmente

Após longos e difíceis cerca de 13 anos consegui, hoje, terminar a colecção das revista Brigantia. Estes foram os últimos três números que hoje trouxe para casa, conseguindo assim reunir toda a colecção. Quer dizer, talvez me falte um ou outro suplemento que, normalmente, era vendido com a revista, mas cuja associação é impossível agora fazer e encontrar. Ainda assim, a alegria é enorme, pois desde que iniciei esta empreitada, com particular insistência nos últimos anos, tinha por objectivo chegar ao dia em que ostentaria os mais de sessenta "livros" que compõem toda a colecção.
Foi o amigo Nuno Canavez, da Livraria Portuense, que me ofertou estes três últimos números. Fica o meu reconhecido agradecimento.
A partir deste momento, acompanharei, atento, a edição de novos números e esperarei, ansioso, pelo renascimento do seu cariz original - etnografia, arqueologia, história, etnologia e até antropologia, de âmbito local e regional.

(volume II - nº 2/3 - 1982)

(volume IV - nº 3 - 1984)

(volume XVI - nº 1/2 - 1996)

28 maio 2018

26 maio 2018

so free, I think I'm


I'm so free
I'm so free now
The way that I walk is up to me now
and if I breathe now 
I could scream now
you can hear me.
Nobody's gonna keep me down
I don't want to go down
I'm so free from you
I'm so free.
(Beck, I'm so free, in Colours, 2017) 

Num dia especial como o de hoje. 
A ideia de liberdade continua a ser superior. Ser livre é outra coisa, mais difícil, menos pragmática e ao alcance de poucos. Ainda assim, quando o percurso vai mais do que a meio, a percepção que tenho é de privilégio, de considerável liberdade, num mundo que nos esmaga, que nos vai comprimindo e orientando num sentido único e obrigatório.

Este senhor, passados tantos anos, continua a fazer excelente música. Um dos grandes.

22 maio 2018

de um simples

Já viste! Então vamos para o Céu e depois o que acontece?! Ficamos ali para sempre a fazer o quê?! Ficamos ali a adorar a Deus para sempre?! Já viste! Eu não sei...

21 maio 2018

por um Portugal mais digno


Faleceu hoje António Arnaut, fundador do PS e, acima de tudo, mentor e arquitecto do Serviço Nacional de Saúde (SNS), que o 25 de Abril de 1974 permitiu e foi, sem sombra de dúvida, o seu grande e maior contributo para aquilo que hoje podemos ser e ter. O maior tributo que o país lhe poderá prestar será a defesa e reforço do SNS, perante as persistentes e permanentes ameaças provenientes de sectores da sociedade que nunca o quiseram, perceberam ou defenderam. A hipocrisia desses poucos - pessoas e organizações - persiste e tem conseguido degenerar o projecto inicial de António Arnaut e seus pares. Com o seu desaparecimento ficamos todos mais pobres, a referência ética e moral persistirá, tenho a certeza. Profundo agradecimento por essa nobre visão de uma sociedade mais equalitária, mais justa e mais digna.

16 maio 2018

mediascape: foi chato?

Os acontecimentos de ontem em Alcochete são, a todos os níveis, inaceitáveis e intoleráveis, mas as declarações do presidente do Sporting, na noite de ontem, à Sporting TV, são inacreditáveis e demonstrativas da completa deriva psicológica e alienação emocional daquele que deveria ser o principal garante de tranquilidade e estabilidade.

Eis algumas dessas afirmações:
Foi mau, foi chato ver as famílias ligarem preocupadas.
- Garantidamente vamos estar atentos a quem fez estes atos.
- Está tudo a correr dentro da normalidade. O crime faz parte do dia a dia.

Tudo isto não foi chato. Tudo isto foi uma tragédia para o futebol nacional, para o Sporting e, acima de tudo, para nós enquanto sociedade. Uma vergonha imensa.

15 maio 2018

agora em língua portuguesa

Acabadinha de chegar às minhas mãos, a Granta, no seu primeiro número da nova série em língua portuguesa. Vamos ler.

ter de escrever...

Entre em si mesmo. Investigue o fundamento que o chama a escrever; ponha à prova se ele lança raízes até ao lugar mais profundo do seu coração, admita se teria de morrer caso lhe fosse vedado escrever. Sobretudo isto: na mais silenciosa hora da sua noite, pergunte a si mesmo: tenho de escrever?

(roubado do blogue vizinho - aqui na íntegra)

13 maio 2018

outras palavras...

(na última página do jornal Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, de Maio)

papel de parede


Por estes dias de celebração do campeonato nacional de futebol, a minha criança apareceu em casa com este poster, que o avô lhe deu, e pediu-me para o colar numa parede do seu quarto. É uma nova fase do seu crescimento que se inicia, pois até aqui só me foi pedindo para colar Mikey's, Nemo's, Patrulhas Patas e afins. Agora, chegou a vez da loucura pelo futebol e seus ídolos, mas também sei que este interesse também será substituído por um outro, lá mais para a puberdade. Sim, estarei preparado para essa outra fase, e será com prazer que lhe colarei esses outros posters, podendo mesmo, se assim quiser, forrar as paredes do quarto com esse apelativo papel de parede.

10 maio 2018

para a Ana



( dia 21 de Abril de 2018 )

06 maio 2018

literatura juvenil


Já aqui admiti as minhas graves falhas enquanto leitor e o tanto e importante que deveria ter lido desde miúdo, mas não o fiz. Enquanto jovem era suposto ter lido um conjunto de clássicos da literatura juvenil, só que não o tendo feito, foi já mais velho que me dediquei a essas leituras.
Calhou agora, não por acaso, a leitura das Aventuras de Robinson Crusoe, de Daniel Dafoe. Digo não por acaso, porque tive como motivação inicial a recente visita à Euro Disney e o facto de o meu filho ter adorado a árvore-habitação de Robinson Crusoe e à qual subimos várias vezes.
A história que Daniel Dafoe nos conta é a de um jovem inglês que, contrariando os conselhos dos pais, se aventura nos mares, atraído pela liberdade e aventura da descoberta de novos mundos. Estávamos no século XVII, período grande das rotas comerciais marítimas entre a Europa e suas colónias e este jovem, narrador da sua própria história, conta-nos as tremendas aventuras porque passou, desde naufrágios, guerras e escravidão, até ao seu longo e total isolamento numa pequena ilha e sobrevivência durante quase três décadas. Esse relato é acompanhado com muitas reflexões - de caracter filosófico, moral, religioso, prático e até animal - sobre essa condição de extremo isolamento.
A leitura deste relato de uma experiência limite da condição humana, aviva-me o gosto e o chamamento que sempre recordo ter sentido pela condição de isolamento, de procurar espaços e lugares vazios e de preferir estar sozinho. Consciente desta minha preferência, sei também que jamais sobreviveria a uma circunstância semelhante à de Robinson Crusoe e que aquilo que entendo como ideal para mim teria que ser, ainda que longe do convívio com a civilização, algo muito confortável e acessível. A leitura deste relato permitiu-me também reconhecer que, à medida que vou envelhecendo e as suas marcas se vão fazendo notar, vou preferindo o conforto ao desconforto, o previsível ao imprevisível e o certo ao incerto. Sinais do tempo, do meu tempo.

A natureza e a experiência das coisas ensinaram-me, depois de reflectir, que todas as coisas boas do mundo só o são para nós quando podemos tirar proveito delas; e que, por mais que acumulemos para dar aos outros, só gozamos aquilo que podemos utilizar e nada mais. (Robinson Crusoe)

Sérgio Conceição


Depois de um interregno de quatro anos sem poder festejar o campeonato nacional, é com natural euforia que todos celebramos esta vitória. Quero sempre que o meu, o nosso, Porto ganhe e seja campeão, mas já há muitos anos que não se sentia esta necessidade, esta vontade, esta força e este querer na equipa e, não menos significativo, no apoio e entusiasmo dos adeptos do Porto. É que foi mesmo importante ser campeão este ano e essa importância jamais será compreendida por quem não seja portista... e nem adianta tentar explicar.
Não tenho qualquer dúvida, também, para identificar o principal responsável deste sucesso desportivo. O seu nome é Sérgio Conceição e a sua atitude, a sua dedicação, a sua garra, cativou-me desde os seus primeiros momentos enquanto treinador do Porto. Aliás, sempre gostei dele enquanto jogador, tal como noutros jogadores seus contemporâneos, dos quais recordo em particular o Paulinho Santos, admirava a sua entrega ao jogo, o seu sofrimento em campo e a sua dedicação ao clube.
No Porto, no meu Porto, gosto de ter e de ver jogadores assim, com raça e com sentido de pertença ao clube, que se entregam e lutam em campo contra tudo e contra todos. No meu Porto gosto de ter e de ver treinadores assim, com raça e que lutam contra tudo e contra todos. O Sérgio Conceição é assim e, por isso, é ele o grande, eu diria mesmo, o único Campeão. Obrigado.

03 maio 2018

solilóquio

Não sei se já alguém o disse, ou, principalmente, o escreveu, mas a palavra que irei escrever a seguir, estará, para sempre, condicionada por aquela que acabei de escrever.

Afonso Dhlakama


Acabo de saber, através da RTP3, da morte de Afonso Dhlakama, líder histórico da Renamo - Resistência Nacional Moçambicana - aos 65 anos, alegadamente, vítima de complicações associadas aos diabetes. Pouco ou nada me atrai nesta personagem, mas isso não me impede de perceber a sua importância no período pós-independência, em concreto, no período da guerra civil, enquanto figura máxima do contra-poder, e depois, no processo de pacificação do país, enquanto representante maior do principal partido da oposição.
O problema que se apresenta com o seu desaparecimento, é o vazio imediato de poder, pelo menos simbólico, na Renamo e essa situação pode propiciar um conjunto de consequências, por hora, não alcançáveis ou impossíveis de adivinhar. Esperemos que o bom senso e a razoabilidade impere neste momento dramático para a frágil democracia moçambicana. Esperemos que o desaparecimento de Afonso Dhlakama não signifique, tal como em Angola, a hegemonia totalitária de um único partido.

Adenda: Em 1994, participei nas primeiras eleições livres e democráticas em Moçambique, enquanto membro da equipa (empresa) que deu apoio político - sondagens políticas, marketing, imagem e comunição, sob patrocínio da ONU.

01 maio 2018

nem de propósito

Dia feriado, almoço demorado, com conversa amena até para lá da hora da (desejada) sesta. Sem que nada o fizesse prever, o desafio para uma suecada que foi prontamente aceite. Problema inesperado: baralho de cartas que não se encontra. Solução: ir à loja dos Chineses comprar um. A caminho encontro uma papelaria (portuguesa) aberta e resolvo entrar. Surpresa total ao dar de caras com a funcionária a jogar calmamente às cartas com um idoso, cada um do seu lado do balcão, e que me recebeu de sorriso nos lábios. Eu, surpreendido, apenas atirei: - Nem de propósito! Também quero… dois baralhos de cartas.
Saí e depressa regressei a casa, onde me aguardava uma rica e soalheira tarde de sueca. Há tanto tempo que isto não me acontecia.

18 abril 2018

a escrever


Nem imaginam o trabalho que me tem dado, e o prazer também. Depois de mais de trinta anos sem praticar, ter que entrar no ritmo, decorar acordes e não me enganar nas melodias, tem sido um desafio. As horas que passam e eu, absorvido, a (re)ganhar o gosto e o entusiasmo.

25 março 2018

cidade luz

Há cerca de dez anos que não visitava Paris. Estive agora lá, entre a Disney, o centro de Paris e subúrbios - Poissy, St. Germain e Versailles - durante a última semana. Entre 2008 e 2018 muito aconteceu na e à capital francesa. Aquilo que mais se nota é a preocupação com a segurança, que está bem visível nas ruas, instituições e recintos. De forma declarada e assumida, os militares e polícias passeiam-se pelas ruas e avenidas da cidade e há um controle apertado (eu diria, quase paranóico) em tudo o que é local turístico, monumento ou concentração de pessoas. O medo do terrorismo, real e perceptível, instalou-se definitivamente na vida quotidiana de Paris, dos parisienses e dos seus visitantes, sendo o acesso à Torre Eiffel o exemplo paradigmático desse receio. Aquilo que era um espaço amplo, enquadrado pelos grandes e bonitos jardins a Sul e o Trocadero a Norte, passou a ser um estaleiro de obras, cercado por alta cerca de chapa e com acessos diferenciados de entrada e saída, protegidos por sofisticados sistemas de vigilância e onde nada é negligenciado. Percebo e compreendo a necessidade de tal aparato, mas a verdade é que a experiência turística, ou a do visitante, ou ainda a do próprio habitante é fortemente transtornada por esta paranóica necessidade. É pena.

(na foto é visível a cerca metálica que circunda toda a torre)

19 março 2018

eu também...

Pela primeira vez escrito pela sua mão. Acredito que tenha sido sincero. Obrigado.




15 março 2018

terceiro mundismo

A notícia da execução da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, na noite passada, no centro da cidade, com quatro tiros na cabeça, é um assassinato político numa cidade policiada por militares e será mais um, apenas mais um, sintoma da grave doença que o Brasil sempre sofreu e que, nem com toda a cosmética de modernidade urbanizada, cosmopolita e global, se consegue disfarçar. O Brasil pertence ao terceiro mundo, pelo menos naquilo que é o seu ethos social, naquilo que são as suas instituições, organizações e estruturas. Como temos vendo a assistir o próprio poder de Estado e dos diferentes níveis de Administração Pública está refém dessas lógicas de poder - da normalização, e até banalização, da corrupção, do culto de personalidade, da lei do mais forte, da subjugação ao poder económico, da subtração dos direitos sociais e da transformação da democracia em algo que poderá ser tudo menos democracia. Lamento muito, mas assim é o Brasil que sempre me deram a conhecer.

desaparecimento de um génio maior

Por falta de tempo, ontem não pude assinalar, com a devida vénia, o desaparecimento de Stephen Hawking, matemático, físico e cosmologista, que faleceu com 76 anos. Nome grande da ciência, a sua vida foi uma inspiração para milhares e milhares de pessoas, não só pelo seu trabalho, pelo seu génio, mas também, e acima de tudo, pela sobrevivência durante mais de cinquenta anos a uma grave doença degenerativa, diagnosticada aos vinte e poucos anos e que lhe foi tolhendo o físico. Mente brilhante, a ele devemos grandes descobertas e teorias no campo da física e da cosmologia. Sem dúvida, uma referência maior que o universo.

13 março 2018

finalmente

Ontem fui ao quiosque para comprar o Le Monde e, para surpresa minha, encontrei a LER. O seu número de Inverno acaba por chegar até nós no seu fim. Portanto, poderemos aguardar pela de Primavera lá para meados de Junho. Paciência. 

10 março 2018

leitura interminável

Acabei por estes dias a leitura dos Diários - diários de viagem, de Franz Kafka, numa edição da Relógio d'Água. Face àquilo que já conhecia deste autor e face à qualidade da sua escrita, confesso que a leitura destes Diários foi uma tarefa penosa e demorada. Apesar de se perceber o génio da sua escrita, a descrição dos seus dias e diferentes momentos pareceram-me entediantes, depressivos e sem grandes motivos de interesse. Kafka, às páginas tantas, afirma: uma vantagem de escrever um diário consiste em ganharmos consciência, com uma clareza apaziguadora, das mudanças a que estamos constantemente submetidos...
Acredito nas suas palavras, mas a leitura do seu diário nem sequer me deixou perceber essas mudanças da sua vida e apenas e só por teimosia mantive a sua leitura.

terapias, energias e fantasias

A Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou mais três reportagens da série retratos da fundação. Com eles a colecção chega às trinta unidades. Destes três últimos volumes, quero destacar o trabalho de João Villalobos acerca do poder da energia, quando aplicada sob a designação de terapia alternativa e através das mais variadas promessas de sucesso, de fortuna, de amor e, principalmente, de saúde. Mal o comprei li-o de uma só vez e num ápice, pois veio mesmo a calhar com o início de mais um semestre de Epistemologia. Vou levá-lo para a sala de aulas.
Curioso como nos últimos tempos - e falo de meses ou até anos - assistimos a uma necessidade de salvaguardar a ciência, naquilo que são a sua prática e o seu discurso, do assédio, do engano e da pseudo-ciência que, hegemónica, invadiu o espaço social e mediático. Há muitas décadas que vivemos rodeados, no quotidiano das nossas vidas, de ciência, vertida em tecnologia, gadgets, medicamentos e utilitários, mas nesses últimos tempos, passámos a viver atolados em discursos - marketing e publicidade, e em práticas - diversidade de terapias/métodos/ferramentas, tais como o Reiki e outras que tais...
Mas voltemos a João Villalobos que nos apresenta este seu pequeno texto assim:
As terapias alternativas têm milhões de seguidores, mas de onde veio esta onda avassaladora da energia que promete curar sem tocar? Saber quem são os defensores, os críticos e que argumentos têm é talvez a melhor forma de começar a responder à pergunta. Da Bíblia ao anúncio do cabeleireiro holístico, passando pelo Reiki, e sem deixar de fora o cardápio de anjos e guias espirituais, este é o retrato do fenómeno de que muitos falam mas sobre o qual ainda há muito para contar.

27 fevereiro 2018

mediascape: sistema eléctrico

Jorge Costa, deputado do BE na Assembleia da República, escreve no Jornal Le Monde Diplomatique - edição portuguesa deste mês de Fevereiro, um grande e excelente, porque claro, factual e fundamentado, artigo sobre a privatização do sistema eléctrico, sobre o rentismo garantido associado a essa privatização e sobre os consequentes prejuízos para o estado português e, principalmente, sobre o abuso permanente sobre os consumidores nacionais. A minha vontade seria transcrever todo o artigo, mas é mesmo extenso e tornaria a sua leitura mais difícil, por isso, opto por transcrever apenas as passagens que me parecem mais importantes e pertinentes.

Metade dos agregados com carência económica não consegue ter a casa adequadamente aquecida no Inverno. A principal explicação são os elevados preços da electricidade e do gás, os mais altos da Europa em paridade de poder de compra. Em 2013, no pico da crise, Portugal foi o país europeu com maior número de cortes de electricidade por falta de pagamento, acima da Grécia.
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O que distingue a factura portuguesa é o peso dos encargos administrativos - que o Eurostat também contabiliza nas taxas e impostos. Esses encargos somam um terço da factura doméstica - são os chamados Custos de Interesse Económico Geral (CIEG) - e incluem os subsídios excessivos pagos pelos consumidores às grandes eléctricas.
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Ao longo dos últimos dez anos, os Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC) representaram 2500 milhões de euros a cargo dos consumidores de electricidade (300 milhões em 2017). Segundo a Autoridade da Concorrência, os CMEC garantiram um terço dos lucros da EDP antes dos impostos, entre 2009 e 2012. E nada de substancial mudou depois disso.
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O corte dos CMEC esteve previsto pela Troika no Memorando de Entendimento assinado em 2011. O então secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, chegou a encomendar um estudo sobre as rendas excessivas no sector eléctrico. Elaborado pela Cambridge Economic Policy Associates, esse estudo situou o valor total da renda excessiva em 2133 milhões de euros, cobrados aos consumidores só entre 2007 e 2020.
Ante a oposição do ministro das Finanças, Vítor Gaspar - que preparava a privatização da EDP a favor da China Three Gorges e não queria desvalorizar a empresa eliminando estas receitas garantidas - Henrique Gomes não resistiu muito tempo no governo. O seu ministro da Economia e do Emprego, Álvaro Santos Pereira, fez saber mais tarde que a demissão foi festejada com champanhe nas sedes das produtoras eléctricas.
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O peso das rendas pagas à produção renovável aumentou muito com decisões do governo PSD/CDS. Nos anos da austeridade, a tutela continuava a outorgar licenças altamente subsidiadas em processos obscuros, alguns dos quais estão hoje nas mãos do Ministério Público. Mas o escândalo maior ocorreu em 2013, quando o ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Jorge Moreira da Silva, adiou o fim da subsidiação das eólicas de 2020 para 2027, fixando novas tarifas garantidas para este período adicional. O negócio consistiu numa ruinosa antecipação de receitas.
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O próprio ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, admitiu que este regime transformou a renda das renováveis em "renda e meia".
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Só o controlo público e corte das rendas excessivas pagas às grandes eléctricas será possível obter os meios para impulsionar novos avanços tecnológicos ou o desenvolvimento da produção solar descentralizada e da eficiência energética.
A estratégia privatizadora resultou sempre em custos crescentes para os consumidores. Desde 2006, os aumentos acumulados da factura eléctrica perfazem quase 50%.
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Quanto aos novos donos, em apenas cinco anos de dividendos já recuperaram um terço do que aplicaram na EDP. Nas palavras de Cao Guanjing, presidente da estatal China Three Gorges, "a EDP foi barata".
Do início da privatização até ao domínio chinês, a porta giratória com a política não parou de rodar. Um ex-ministro das Finanças, Joaquim Pina Moura, presidiu à Iberdrola Portugal, a Endesa tem sido representada por um secretário de Estado da Energia dos tempos de Anibal Cavaco Silva e mesmo António Mexia, presidente executivo da EDP, não dispensou uma passagem pelo governo de Santana Lopes, apesar das suas já vastas ligações políticas. Tem hoje ao seu lado, como presidente não executivo, o ex-ministro das Finanças, Eduardo Catroga, ligado ao grupo Mello e representante do PSD nas negociações do Memorando com a Troika, onde ficou decidida a privatização final da EDP. (...) Além destes casos, outros 24 membros de governos passaram por órgãos sociais da EDP. Conhecer esta promiscuidade ajuda a compreender a força que permite manter no sector eléctrico uma pilhagem tão sistemática e permanente contra a maioria da população.
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A dependência do acesso à energia torna-nos vulneráveis à concentração de riqueza através do sector eléctrico. Nenhuma regulação tem sido capaz de travar esse processo. O poder oligopólio da energia torna-o central no regime liberal, nas orientações da União Europeia, na composição da elite política, nas crónicas mediáticas da "livre concorrência". Ora, a energia não é uma mercadoria como as outras. Para não geral novas formas de injustiça e pobreza, como hoje sucede em Portugal, o sistema eléctrico deve ser tratado como bem comum, recurso estratégico e serviço público.


Fonte: SELECTRA