26 dezembro 2010

sempre simpáticos e presentes

Chegados nos últimos dias, principalmente nas vésperas de hoje:
- Berger, Peter L., 2004, A Construção Social da Realidade, Lisboa, Dinalivro;
- Rosa, Maria João Valente e Chitas, Paulo, 2010, Portugal: os números, nº 3 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Eco, Umberto, 2005, Dizer quase a mesma coisa sobre a tradução, Miraflores, Difel;
- Santos, Boaventura de Sousa (org.), 2005, Globalização - fatalidade ou utopia?, Porto, Edições Afrontamento;
- Clifford, James e Marcus, George E., 1986, Writing Culture, Londres, University of California Press;

24 dezembro 2010

as mulheres na minha vida

Foram e são poucas e quase sempre as mesmas. Lugar primeiro e último da minha existência, preciso tanto delas que não me imagino a viver sem as ter por perto. É essa proximidade que sustenta os pilares da minha estabilidade física e, acima de tudo, emocional. Ainda que não se faça sentir ou seja facilmente perceptível, acontece que são minhas e eu preciso saber isso. Sempre as reclamei com propriedade, com desfrute e com egoísmo, ainda que me julgue consciente de que serão, obrigatoriamente, partilháveis. Essas mulheres de quem eu tanto gosto têm nome próprio, mas isso não importa, pois Mãe, Mulher, Filha e Amigas serão sempre insubstituíveis e partilharão o meu tempo e espaço de mundo. Com o pensamento nelas.

22 dezembro 2010

imaginação democrática e presente

O trabalho de tradução permite criar sentidos e direcções precários, mas concretos, de curto alcance, mas radicais nos seus objectivos, incertos, mas partilhados. O objectivo da tradução entre saberes é criar justiça cognitiva a partir da imaginação epistemológica. O obejctivo da tradução entre práticas e seus agentes é criar as condições para uma justiça social global a partir da imaginação democrática.
(...)
O Objectivo do trabalho de tradução é criar constelações de saberes e de práticas suficientemente forte para fornecer alternativas credíveis ao que hoje se designa por globalização neoliberal e que não é mais do que um novo passo do capitalismo global, no sentido de sujeitar a totalidade inesgotável do mundo à lógica mercantil. Sabemos que nunca cconseguirá atingir integralmente esse objectivo e essa é talvez a única certeza que retiramos do colapso do projecto da modernidade. Isso, no entanto, nada nos diz sobre se um mundo melhor é possivel e que perfil terá. Daí que a razão cosmopolita prefira imaginar o mundo melhor a partir do presente. Por isso propõe a dilatação do presente e a contracção do futuro. Aumentando o campo das experiências, é possível avaliar melhor as alternativas que são hoje possíveis e disponíveis.
(...)
O novo inconformismo é o que resulta da verificação de que hoje e não amanhã seria possível viver num mundo muito melhor.
(Boaventura de Sousa Santos, 2002, Revista Crítica de Ciências Sociais)

21 dezembro 2010

ideias e palavras

Em Janeiro, a escolha é muito clara. Começamos a mudança ou continuamos de braços cruzados à espera que o céu nos caia na cabeça? Contentamo-nos com a resignação tecnocrática ou votamos numa visão política, positiva, de transformação? Apoio Manuel Alegre porque está na hora de voltar a acreditar na política e na mudança. De voltar a viver a política como um lugar próximo de todos, um lugar de verdade e ideias apaixonadas. Não venceremos nenhuma crise com menos do que isto. Para pôr Portugal no futuro, temos de voltar às ideias que sonham e às palavras que transformam, e fazer da política aquilo que ela é: a viva possibilidade de um sempre-começo. (Jacinto Lucas Pires, in Jornal Público - 20/12/2010)

16 dezembro 2010

à boa e antiga maneira

Bem sei que o seu aspecto não é minimamente interessante, mas acreditem que o sabor é divinal. Falo-vos dos "velhinhos" rojões feitos ao jeito da minha avó e de todas as avós de Vila Boa. Aproveitando a carne da barriga e da barbada do porco, fazem-se no pote ao lume, apenas com a gordura da própria carne. Uma especialidade que, infelizmente, ao longo dos anos tem vindo a desaparecer da minha vista e do meu paladar.
Hoje, ao chegar a casa, fui surpreendido por esta amostra vinda directamente da aldeia, especialmente para mim e para o meu pai, ou melhor e para dizer a verdade, especialmente para o meu pai e, depois, um pouco para mim e demais família... Mas como são bons. Era capaz de acabar com eles de uma vez só. A sério. Que rica merenda, três rojões bem entremeados, um naco de pão de trigo e dois copitos de tinto. Está feito. Amanhã há mais, ou não...

09 dezembro 2010

não-ditos

Facilmente revejo os dias de agora como dias de não-ditos, esses processos de integração semântica não explícita que se encontram silenciosamente inscritos nas práticas comunicacionais quotidianas. Resmas de conhecimentos implícitos que não são falados, porque não é preciso, porque se receia, porque não se acredita. É todo um mundo de associações semânticas, narrativas e definições que, apesar de raramente serem explícitas, influenciam surdamente e dirigem silenciosamente as formas como os indivíduos fazem uso das suas vidas e dos seus mundos, num processo contínuo paradoxal de desestabilização e/ou de consolidação identitária.

04 dezembro 2010

lida e bem

Nesta manhã de Sábado e aproveitando o aconchego de um café na cidade gelada de Bragança, lí de fio a pavio a revista Ler. Muitos e bons momentos - pensamentos, reflexões e escrita, dos quais destaco e sublinho as seguintes passagens:
"Quando nos cansarmos de ser educados por uma profissão, talvez possamos finalmente almejar a formar pessoas, gente."André Gago (no Sofá)
"Trinta por cento dos alunos de Letras acham que ler é um sacrifício. E é um esforço inglório. Há coisas mais saudáveis. O mundo mudou todo. Não me apetece mexer um dedo por causa disso. Seremos ilhas. Estaremos trancados entre muros. Coleccionaremos excepções. Aqui e na blogosfera há leitores muito especiais, e se calhar são esses que interessam, leitores muito especiais. Tudo isto é por causa das estatísticas, mas cada vez mais gente a ler era bem capaz de ser um absurdo." Francisco José Viegas (no Diário de Ocasião)
"O que eu acho que um escritor sério deve fazer sempre é livros sérios. Não interessa o escritor, interessam os livros. Um livro sério é um livro que quer interferir com as pessoas. É um livro que não é para aquela semana. Há aqui um combate muito forte com o mundo em que nós estamos - que já não é semanal nem diário, que com a internet é ao segundo, uma coisa quase brutal. Um dos grandes combates actuais é o combate entre a actualidade e o importante. (...) Estamos num mundo em que a questão do actual e do importante se joga minuto a minuto. (...) O problema é que esta lógica da velocidade é uma lógica opressora. A grande velocidade é muito violenta."
"... o livro é uma coisa absolutamente extraordinária. É de outro mundo e de outro tempo. O livro é outro ritmo: não é para aquele minuto, não é para aquele dia, não é para aquela semana. Nesse aspecto, tem de se lutar para se mostrar que o livro é de outro tempo. (...) Os livros sérios dizem-nos: «Calma, mais devagar, há outros ritmos possíveis.» O livro é o objecto de culto da lentidão."Gonçalo M. Tavares (entrevistado por Carlos Vaz Marques)
"Os tempos não são exaltantes, a mediania domina, as expressões que definem cada dia não nos conduzem demasiado longe. Contudo, continua a escrever-se poesia. Porque, como sugeria Luíza Neto Jorge, a poesia ensina a cair." Eduardo Prado Coelho (in A Poesia ensina a cair)

29 novembro 2010

verbo, despir

"A redução do homem à vida nua é hoje a tal ponto um facto consumado, que é essa doravante a base da identidade que o Estado reconhece aos seus cidadãos. Como o deportado de Auschwitz já não tinha nome nem nacionalidade e doravante era somente o número que lhe fora tatuado no braço, assim também o cidadão contemporâneo, perdido na massa anónima e equiparado a um criminoso em potência, não é definido senão pelos seus dados biométricos e, em última instância, por uma espécie de antigo fado tornado ainda mais opaco e incompreensível: o seu ADN." (p.68)
Aproveitando os dias do aderente da FNAC (26 e 27 de Novembro) adquiri este livro de Giorgio Agamben, filósofo italiano que já aqui apresentei, referi e citei. Neste pequeno livro, o autor reúne um conjunto de ensaios relacionados com os temas que usualmente investiga. Uma escrita simples e cativante, recheada de etnografias e anotações de costumes contemporâneos, que não só facilitaram como motivaram à leitura intensiva, quase sem interrupções.
Deste mesmo autor já conhecia "Profanação" e "Homo Sacer", falta-me conhecer uma das suas principais obras - "Estado de Excepção" (2003), que desconheço se está sequer traduzida para português. Aguardo impaciente essa edição.

25 novembro 2010

jornal de notícias

Aqui há uns tempos e quando preste a embarcar no compoio para Lisboa, o meu pai dá-me o Jornal de Notícias (JN) para as mãos, dizendo: "Leva-o que eu já o desfolhei". Nestas palavras entendi que nem sequer o chegou a ler e que eu também poderia assim fazer, desfolhá-lo nem que fosse para me entreter durante a viagem. Assim fiz e logo me veio à consciência que, apesar de muito tempo que já passara desde a última vez que o desfolhara, muito rapidamente me reconheci na sensação de familiaridade e no JN de sempre. Por outro lado, a verdade é que de cada vez que o olho, o desfolho e, em pequena percentagem, o leio, não deixo de me espantar com a quantidade de notícias locais, tais como: casos de polícia, tribunais e justiça popular, roubos e assaltos, parricídios e suicídios, violações e pedofilias, entre outras. Enfim, toda a parafernália que, sem dúvida, será o retrato do país e da sociedade em que vivemos, mas que reduz a realidade a essa tragédia humana e que a linha editorial tablóide do JN, pela quantidade e pela (fraca) qualidade da "notícia", transfigura e relativiza, tomando essa mesma realidade miserável e sofrível, suportável aos olhos e sentidos do leitor deste diário nacional.

presunção e água benta...

Não sei como adjectivar alguém que numa primeira entrevista de selecção afirma: "sou competente, sou rigoroso e sou multi-versátil naquilo que faço". Que lata do caraças, mas haverá alguém que, nessa circunstância, se apresente como incompetente e pouco rigoroso naquilo a que se propõe ou candidata!?...

24 novembro 2010

a pensar...

Agora, o mundo deveria era perguntar ao tempo, quanto tempo o mundo ainda tem.
Depois, a resposta que o tempo desse ao mundo, seria o tempo certo que ao mundo resta.

23 novembro 2010

do melhor que se pode fazer

Quando se assinalam 20 anos sobre a morte de Michel Giacometti, o Jornal Público lança colecção dedicada à obra deste "apostolo do cancioneiro tradicional e popular português". São 12 livros-dvd com a reedição da sua grande obra "Povo que canta", mais extras. O primeiro livro-dvd saiu ontem, dia 22 de Novembro, e é, sem dúvida, uma grande iniciativa que não se pode perder. Com o Público à 2ª feira.

17 novembro 2010

ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos


Eram muitas e excelentes as referências à colecção de ensaios promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, presidida por António Barreto. Uma colecção que se propõe, através de textos simples e acessíveis - linguagem e preço, apresentar temas relevantes para a sociedade portuguesa. Tal como é dito pela Coordenação da colecção: "conhecer Portugal, pensar o país e contribuir para a identificação e a resolução dos grandes problemas nacionais, assim como promover o debate público. O principal desígnio desta colecção resume-se em poucas palavras: pensar livremente.". Neste momento estão editados sete títulos e eu já adquiri seis deles. Títulos para guardar e mais tarde consultar. Sem dúvida, uma iniciativa com valor e interesse.

novos registos

Como já desde o mês de Julho não actualizava a minha biblioteca, aqui ficam os últimos títulos carimbados:
- Costa Andrade, Francisco, 2010, Destinos Jogados em Vidas a Salto, Carção, edição do autor - oferta;
- Wood, James, 2010, a mecânica da ficção, Lisboa, Quetzal Editores;
- Vasconcelos, J. Leite de, 2005, Antroponímia Portuguesa (versão facsimilada), Lisboa, Arquimedes Livros;
- Ferreira, Luis e Canotilho, Luís, 2006, 100 anos da linha do Tua, Bragança, Edição Inatel;
- Vieira, Maria do Carmo, 2010, O Ensino do Português, nº 1 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Amaral, Luciano, 2010, Economia Portuguesa, nº 2 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Saldanha Sanches, José Luís, 2010, Justiça Fiscal (com nota biográfica), nº 4 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Justino, David, 2010, Dificil é Educá-los, nº 5 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Morgado, Miguel, 2010, Autoridade, nº 6 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Brito, Miguel Nogueira de, 2010, Propriedade Privada, nº 7 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Francisco Manuel dos Santos;;
- Gilbert, Elizabeth, 2010, Comer, Orar, Amar, Lisboa, Bertrand Editora;

03 novembro 2010

Ler nº 96

vamos ler...

13 outubro 2010

"bem falado"

"Na guerra que estamos a viver o neo-liberalismo está a ganhar. E quando as pessoas começarem a reagir aos efeitos da razia os guiões disponíveis serão os do nacionalismo e das ideias extremistas." Miguel Vale de Almeida, in Os Tempos que Correm 

12 outubro 2010

acabadinho de chegar

Depois de correr os livreiros e alfarrabistas da cidade do Porto e nada conseguir, tentei, através da internet, nos livreiros e alfarrabistas da capital, encontrar este clássico datado de 1928. Consegui esta versão facsimilada de 2005, na Arquimedes Livros Lda. Encomendei-a no dia 7 de Outubro e já chegou à minha caixa do correio (dia 12). Agradeço ao Sr. Júlio Carreira a rapidez e a simpatia. Assim, para além de alimentar o meu prazer de adquirir livros (os meus livros...), evito ter que me deslocar para a Biblioteca Pública Municipal do Porto.

08 outubro 2010

sob rasura

As medidas de austeridade recentemente anunciadas pelo Primeiro Ministro e pelo seu Ministro das Finanças vieram definitivamente consolidar a ideia de incompetência e de alienação que a generalidade dos portugueses tinham em relação a este governo e aos seus membros. Tudo aquilo que nos tem sido dito, ao longo destes últimos anos, não existia, não acontecia e não era. Aquilo que não nos diziam, existia, acontecia e era. Portugal viveu (e vive) assim, distorcido de si mesmo. Neste momento, concerteza, não haverá um único português que não se questione e não receie tudo o quanto ainda poderá sofrer num futuro próximo – ainda nos últimos dias, confrontado com a previsão de uma recessão portuguesa em 2011, realizada pelo FMI, o Ministro Vieira da Silva assobiou para o lado, dizendo que esse organismo já anteriormente se enganou em relação às previsões para Portugal e, portanto, esta previsão será apenas mais um engano, claro. Face à violência de tudo aquilo que foi anunciado, curiosa (ou não) é a atitude dos órgãos de comunicação social que, num frenesim diário, vão difundindo em massa a inevitabilidade desse nosso “fado”.
Ao analisarmos toda a estranheza da linguagem utilizada e da própria acção dos nossos governantes, chegamos à conclusão que temos sido governados sob rasura. E o exercício é simples, José Sócrates e os seus pares, estrategicamente, escolhem um assunto ou uma expressão que pretendem analisar, colocando um X sobre ela, como que colocando-a entre parênteses. Esse assunto ou expressão não deverá ser mencionada, mas será preciso mencioná-la se quiserem transmitir a mensagem em questão. Sem essa expressão, a ideia a ser transmitida fica incompleta ou perde o sentido. No entanto, essa mesma expressão é suficientemente problemática para ser evitada. Portanto, evita-se. Esta situação agrava-se quando se trata de questões estranhas ou não familiares ao Eng. José Sócrates, pois a sua (in)cultura política, o seu desdém social e a sua ignorância sectorial de todo um país, levam-no à abstracção: É como se determinados assuntos não estivessem cá e não existissem, mas a verdade é que estão, sempre estiveram e como marcas da ausência de uma presença.
Enquanto pacifista que sou e não querendo abusar de um tom excessivamente confessional, é nestes dias e horas, estrampalhadas, que recordo e invejo o “pêlo na benta” do povo grego. Tal como eles têm feito amiúde, nós também nos deveríamos insurgir contra aquilo que nos impingem. Também nós deveríamos sair para a rua e parar o país. Também nós deveríamos inverter o ónus da dívida e da crise – vejam como Faria de Oliveira, Presidente da Caixa Geral de Depósitos, depois do anúncio de novo imposto sobre as entidades financeiras, vem a público e despudoradamente afirma que “evidentemente” esses custos recairão sobre os clientes. Também nós deveríamos reclamar aquilo que é nosso por direito. Estranha e incompreensivelmente optamos por ficar em casa, passivamente, enquanto uma dúzia de facínoras vai ditando as suas leis e, com isso, a inevitabilidade de subtrair aos demais cidadãos a sua existência. Evitável.
(enviado para o Jornal Nordeste - editável em 12 de Outubro de 2010)

05 outubro 2010

centenário da república portuguesa

Nesta data particular em que assinalamos 100 anos sobre o 5 de Outubro de 1910, a República não se deve resumir à contemplação estática do passado, enumerando todas as suas virtudes e/ou todos os seus defeitos. Querendo aqui transpor o domínio da retórica fácil das evocações nostálgicas, poderemos iniciar por questionar:
- O que foi a República?
Já Antero de Quental respondeu, advertindo:
“A República não é somente o direito abstracto e filosófico proclamado com paixão aos ventos do vago céu da história; é o direito económico, fiscal, administrativo, prático e palpável, realizando-se palmo a palmo, visivelmente, experimentalmente, na sociedade de cada dia, na vida de cada hora, no indivíduo como na colectividade, encarnando nos factos e movendo-se como a realidade mais palpitante.”
Terá sido um período de desmando, uma vertigem anómica, uma “anarquia” que Portugal vivenciou durante dezasseis anos, ou pelo contrário, um regime cuja obra se apresenta plena de virtudes, com dirigentes veneráveis, misto de visionários e intelectuais cuja acção teria sido tolhida por ventos adversos… Estas têm sido as posições sustentadas, por um lado, pela historiografia estadonovista, e por outro, pelos hagiógrafos da República.
São ângulos de visão que têm hegemonizado a análise do tempo republicano, colocando, naturalmente, escolhos no caminho a percorrer para a compreensão deste riquíssimo período da história de Portugal.
Compreender até que ponto a actual democracia portuguesa é herdeira legítima de uma fibra republicana, é recuperar uma memória identitária forjada na combustão de um ideário que se foi afirmando até ser poder e quando poder se cumpriu e incumpriu, mas se manteve enquanto corpus ideológico, enquanto património político que atravessa todo o século XX português.
A análise da sociedade portuguesa contém marcas indeléveis desta persistência do pensamento republicano no tecido ideológico da democracia.
Da República recebemos o Estado laico, bandeira liberal contra a confessionalidade da Monarquia Constitucional, que outorgava à igreja católica uma omnipresença visível no quotidiano português. Omnipresente no desempenho de funções administrativas, na ascendência que a hierarquia católica, apostólica e romana tinha sobre o Estado, na autoridade eclesiástica que se fazia sentir com o peso e o treino de séculos.
A laicização da sociedade portuguesa era perspectivada como condição sine qua non para a vitória do progresso, da modernidade, meta alcançável apenas quando o país se conseguisse libertar da atávica influência do clero obscurantista, retrógrado, apegado ao atraso e por ele responsável.
Ao Estado laico assacava-se ainda a responsabilidade da completa transformação que a República perseguia, a metamorfose civilizacional do analfabeto, incapaz de protagonizar uma cidadania republicana, num outro sujeito histórico, capaz de ler o mundo, com novos direitos e deveres a traçarem novas formas de vida social. A concretização desta alquimia cultural e cívica ficaria a cargo da educação, uma educação que se queria massiva, generalizada, mensageira de uma nova sociedade, com um papel central no modus vivendi das diferentes comunidades que compunham o grande fresco da sociedade portuguesa do início do séc. XX.
Há já muito que a propaganda do Partido Republicano vinha preparando, e mais que isso, concretizando essa vocação educacional. O destaque ía para a “Educação Nova” que mais tarde, já regime, a República iria levar por diante, ainda que se tenha ficado muito aquém do que era proposto, não só quantitativamente, mas também sob ponto de vista da qualidade do ensino, dado o objectivo minimalista da alfabetização.
Por outro lado, a ética republicana de serviço público ocupará um lugar de destaque na ecologia política deste novo tempo. O primado do público sobre o privado, as regras de rigorosa democratização da vida interna do partido impondo a rotatividade dos cargos, bem como a realização anual de congressos decisórios, vão ser, entre outros, aspectos estruturantes desta ética procedimental de que a democracia portuguesa se reclama, não obstante a efectiva prática política com que hoje nos deparamos.
Haverá, seguramente, outras impressões digitais impressas na substância da democracia que hoje vivemos. É que um projecto global de mudança social e política, como a República pretendeu ser, não se dissipa com facilidade, mesmo com o sopro feroz de uma ditadura.
Que a República viva.
(intervenção Sessão Solene da República - Assembleia Municipal de Bragança - 5 de Outubro de 2010)

02 outubro 2010

30 setembro 2010

provinciano

O ridículo e a cagança de um provinciano que pode também ser um valente azeiteiro.

25 setembro 2010

paisagens do eu em viagem

Gosto de viajar de comboio porque, ao contrário de outros meios de transporte disponíveis (acessíveis), o tempo de viagem não representa para mim um tempo morto ou desocupado, pois posso sempre aproveitar esses tempos-espaços para ler, escrever, reflectir, dormir, etc. Já nos restantes e alternativos transportes isso não me é possível, uma vez que no automóvel ou vou ocupado com a condução ou vou atento à condução de quem me conduz e no avião, o stress e o medo tolham-me qualquer faculdade mental e racional. O tempo de viagem num comboio também me permite usufruir das paisagens exteriores, tal como me permite observar o ambiente interior. Ocupação à qual, com prazer voyeurista, me dedico durante longas horas de viagem. Tudo isto apenas para poder partilhar uma dessas etnografias...
Numa viagem de ida e volta entre Vila Nova de Gaia e o Entroncamento, utilizando o serviço Inter-Cidades da CP, pude observar com miudência a viagem daqueles que bem perto se instalaram. Viagens repletas de jovens... e tantos que eles(as) eram por todo o comboio. Sozinhos(as) ou em grupos, sentia-se no ambiente a vida recheada de mochilas às costas e auriculares nos ouvidos. No meu sentado e curto horizonte visual, viajavam quatro rapazes, estupidamente adolescentes, que descontraidamente trocavam conversas: enquanto um lia atentamente o Memorial do Convento de José Saramago, outro jogava um jogo de carros no seu telemóvel, um outro lia, na revista Sábado, um, concerteza interessante e cativante, artigo sobre sexo e as suas cambiantes anal e oral... de vez enquando e de certo motivado pela leitura, lá ia comentando com os companheiros de viagem acerca das qualidades étnicas do sémen e as consequências do seu uso(!?). O último elemento deste quarteto, pura e semplesmente, dormia.
Imediatamente atrás destes quatro e ao meu lado esquerdo, sozinha, viajava uma jovem, morena, esguia, bonita, com não mais de 20 anos de idade que, entre trocas de sms no seu telemóvel e um nervoso mascar de chiclete, ia escutando atentamente a conversa daqueles petizes e, a espaços, denunciava-se com brilhantes sorrisos. Reparei na sua inquietude, não parando um momento: ora deitava-se, ora virava-se para um lado, ora virava-se para o outro, ora cruzava e descruzava a perna, ora levantava-se e espreitava para ambas as extremidades da carruagem, ora voltava a sentar-se...
Mais à frente, chegou e sentou-se ao lado da jovem morena um rapaz negro que trazia na cabeça um barrete e que, de imediato, começou a conversar com ela. Se já se conheciam ou não, não deu para perceber, mas a determinada altura escuto-a a perguntar-lhe o seu nome. Depois de mais umas dezenas de minutos e quilómetros, ao aproximarmo-nos de mais uma estação, ela deu-lhe um beijo nos lábios, levantou-se e foi-se embora. Saiu nessa estação. Mal o comboio retomou a sua marcha ele também se levantou daquele lugar e desapareceu para outra carruagem.
Eu, que me sentara sozinho e desde logo começara a ler, depressa me desconcentrei e os meus sentidos reféns ficaram dessas paisagens. Quis escrever aquilo que presenciava, mas a excessiva trepidação do movimento do comboio apenas permitiu escrevinhar e rabiscar. Servi-me da memória e assim se escreveu.

21 setembro 2010

improvisação

A dada altura, a mãe de Christie conta-lhe como Adão e Eva comeram o fruto da árvore. Evidentemente, diz ela, toda a história é absurda, pois Deus, sendo omnisciente, podia tê-los interrompido em qualquer momento: «Mas não: Deus tem andado cá a improvisar desde o início, como alguns romancistas...
James Wood

18 setembro 2010

constatação

Hoje, ao abrir e ler o jornal diário Público, pude verificar como a vida política nacional tem, por estes dias, andado fervilhante. Mesmo reconhecendo o anátema generalizado da opinião pública em relação à classe política, não posso deixar de salientar a actividade parlamentar destes últimos dias. Desde logo com a chegada ao parlamento da proposta de revisão constitucional do PSD que apesar de polémica e nada consensual, obrigou os restantes partidos a manifestarem as suas intenções de apresentarem, também eles, as suas propostas. Depois, foi com agrado que registei a proposta do CDS e do BE para a criação de uma rede autónoma de cuidados paliativos, que apesar de chumbada pelos votos contra da bancada do PS e das abstenções do PSD, PCP e PEV, teve o mérito de obrigar à reflexão acerca da realidade dos cuidados continuados existentes nas unidades hospitalares. Também importante é a iniciativa do BE que levará, pela primeira vez, à Assembleia da República um projecto de lei do testamento vital. Sem confundir com a questão da eutanásia, o BE quer regular os direitos dos cidadãos quanto à decisão sobre a prestação futura de cuidados de saúde, nos casos em que houver incapacidade de exprimir a sua vontade. Muito bem. Por fim, uma nota para a vergonhosa atitude das bancadas do PS, PSD e CDS que chumbaram um voto de condenação da expulsão dos ciganos em França, proposto pelo BE. Salvo um ou outro deputado destas bancadas, a disciplina de voto imposta pelas direcções dos grupos parlamentares demonstra bem a atitude subserviente para com a França e seu Presidente, como também e acima de tudo, manifesta uma concordância com a atitude racista e xenófoba desse estado que, enquanto membro da União Europeia não pode impor barreiras à livre circulação de pessoas. A intenção de etnicizar o crime e a violência não pode ser aceite pelos restantes países do espaço europeu – exceptuando a Itália, que já procedeu de igual forma… sob pena de regressarmos a um tempo de ensimesmamento e de esquizofrenia social. É por estes exemplos, e outros, que eu continuo a considerar o BE o meu espaço ideológico e, acima de tudo, o enquadramento ideal para a minha intervenção cívica desassombrada.

agendamento

15 setembro 2010

O Filme do Desassossego



O Filme do Desassossego estreia em Lisboa no próximo dia 29 de Setembro. Entre 7 e 9 de Outubro estará no São João no Porto e depois em digressão por todo o país, exceptuando claro, Bragança... A responsabilidade pela exibição é da própria produtora que, segundo parece, quer evitar o circuito comercial das grandes salas de cinema. Onde não sei, mas irei vê-lo.

10 setembro 2010

uma ideia original

Em 1969 o escritor inglês BS Johnson publicou "The Unfortunates", um livro cujas folhas eram colocadas soltas dentro de uma caixa, obrigando os leitores a organizá-las livremente e segundo os seus critérios. Original, de facto. Imagino a confusão e a quantidade de histórias diferentes que essa liberdade permitiu.

01 setembro 2010

lançamento em Carção

(fotografias da Associação Almocreve) - ver mais fotografias

24 agosto 2010

aprender a contar

Una
Duna
Tena
Candena
Bugalha
Cigarra
Carraspís
Carraspés
Conta bem
Que são dez.

20 agosto 2010

working on a dream

Out here the nights are long, the days are lonely
I think of you and I'm working on a dream
I'm working on a dream

Now the cards I've drawn's a rough hand, darlin'
I straighten my back and I'm working on a dream
I'm working on a dream

I'm working on a dream
Though sometimes it feels so far away
I'm working on a dream
And how it will be mine someday

Rain pourin' down, I swing my hammer
My hands are rough from working on a dream
From working on a dream

I'm working on a dream
Though trouble can feel like it's here to stay
I'm working on a dream
Our love will chase the trouble away

[whistling interlude]

I'm working on a dream
Though it can feel so far away
I'm working on a dream
And our love will make it real someday

Sunrise come, I climb the ladder
The new day breaks and I'm working on a dream
I'm working on a dream
I'm working on a dream
I'm working on a dream

I'm working on a dream
Though it can feel so far away
I'm working on a dream
And our love will make it real someday
I'm working on a dream
Though it can feel so far away
I'm working on a dream
And our love will make it real someday
(Bruce Springsteen)

17 agosto 2010

S. Roque

Estando em Bragança a passar uns dias de férias, aproveito para ler alguns dos livros e artigos que estavam em lista de espera (tão longa que ela é...). Também aproveito estes dias para ir, de vez enquando, até à aldeia revisitar lugares e reagrupar com aqueles com quem só a espaços me encontro. Ontem, 2ª feira, foi um dia de leitura. Já depois do jantar, as mulheres cá de casa (a filha, a mulher e a sogra) mostraram-se muito interessadas em ir à aldeia, à festa de S. Roque que, teimosamente, vai sendo organizada, muito à custa da vontade dos emigrantes. Lá fomos e, de facto, a aldeia encheu-se de gente que, vinda daqui e dali, emprestaram um ambiente diferente e colorido à povoação. Eu (hoje) pouco dado a bailaricos, aproveitei para ficar pelo café do Lexinho a confratenizar com uns e com outros. E tantos que eles são. Sensação estranha me envadiu, pois estava em Vila Boa, portanto em casa, e eram imensos os rostos daqueles(as) que eu não reconhecia, mas que me diziam ser também dali. Um estranho e forasteiro na própria aldeia, foi como me senti nessa noite. Síntomas do tempo que passa e que com ele nos leva.

09 agosto 2010

eu não o diria de melhor forma...

"18h30m – Apresentação do livro “Senhora das Graças, a Santa e Padroeira de Carção”, da autoria de Luís Vale, publicação também de grande rigor científico, fruto dum estudo exaustivo e extraordinário trabalho de campo. Nesta obra encontramos muitos testemunhos que descrevem o culto, costumes e vivências que peculiarizam os caracteres mais importantes que de alguma forma identificam e unem os carçonenses à Senhora das Graças."

04 agosto 2010

informação em jeito de convite e vice-versa

Acontecerá em Carção (Vimioso) no próximo dia 27 deste Agosto, por volta das 17 horas. A quem possa interessar, importa manifestar o enorme prazer que terei em partilhar esse momento. Até lá.

26 julho 2010

redes sociais

Já poderia (deveria) ter escrito este texto há algum tempo atrás, pois aquilo que tenho para dizer já está reflectido e pensado faz tempo, mas como a fama de teimosia e de casmurrice me tem acompanhado, resolvi dar-me mais algum tempo para poder ponderar essa minha opinião. Mas de nada valeu, na medida em que nada se alterou, nada veio contrariar aquilo que, quase imediatamente depois da minha adesão, foram as minhas impressões acerca desta moda das redes sociais.
O meu primeiro contacto, ou a minha primeira experiência, já bastante tardia, foi no HI5, onde me inscrevi, adicionei alguns "amigos" e fui adicionado por outros tantos. Por lá fui passando, mas a verdade é que nada acontecia, nem aquilo servia para alguma coisa minimamente interessante. Mandar gifts e beijos, colocar fotografias nossas e ver as dos nossos amigos, muitas vezes em situações, perfeita e inconscientemente, confrangedoras e inimagináveis, entre outras inutilidades e futilidades, só me motivaram a deixar de lá ir e esquecer esse sitio de teenagers inconscientes e, ao mesmo tempo, sítio de coirões carentes de afectividade e, principalmente, de sexo. Mas isso sou eu a dizer...
Depois foi a vez do Facebook, consensualmente agraciado pela crítica publicada. Lá me inscrevi e fui juntando "amigos", até ao presente em que tenho reunidos na minha rede mais de cem "amigos". Por lá estão pessoas, empresas, movimentos, causas e negócios que, numa frequência abismal, nos bombardeiam com informação e com desinformação, com textos, com imagens, com isto e com aquilo. Mas uma vez mais, nada ou quase nada daquilo que por lá se encontra vale o tempo que se perde (para alguns, se ganha...) a percorrer essas páginas. Desculpem-me os meus reais amigos que por lá sejam, também, virtuais contactos, mas não consigo entender o sentido dessa exposição. Não consigo entender como pode tanta gente jogar o FarmVille(!?..) E depois, ainda há aquela coisa estúpida dos questionários que, por incrivel que eu ache, muita gente responde, participa e, às tantas, acredita!?... Enfim, tenho conta no Facebook e vou mantê-la mais uns tempos, mas confesso que nenhum interesse encontro nele.
Tenho conhecimento que outros sítios semelhantes existem, mas não há paciência para experimentar mais. Prefiro investir o meu tempo no Twitter. Apesar de o considerarem rede social, não o enquadro na mesma tipologia das demais plataformas. Aqui o destaque é o texto e a capacidade de síntese. Isso agrada-me e por lá vou continuando a escrever pequenas (in)confidências, pensamentos e desabafos do dia-a-dia.
Vivemos um tempo em que temos (dizem-nos) que ser informados e estar conectados. Mas contacto com quem e para quê!?.. Tanto contacto para nada! Para que raio as pessoas precisam de tanto contacto no seu quotidiano!?.. Para nada, concerteza. Apenas porque alguém vendeu essa ideia à sociedade, vamos todos estar em contacto permanente, não importa com quem, mas o importante é dizer que se está em contacto. Parvoíce.
Posso dizer que sou um blogger. Gosto de o ser. Continuarei a sê-lo.

tour de france

Terminou mais uma edição da volta à França em Bicicleta. Para mim este é, sem qualquer hesitação, o grande evento desportivo anual. Eu gosto muito de futebol e este é o "meu desporto", mas enquanto evento desportivo, nem mundiais ou europeus de futebol, nem jogos olímpicos, nada se compara ao Tour. São três semanas de espectáculo televisivo, que me agarram à televisão como nada mais o consegue. Vibrar com a estratégia de cada equipa, com a força e resistência dos ciclistas, com o desespero das montanhas, Pirineus e Alpes, que parece tocarem o céu, com o abismo dos sprints finais. Enfim, com o espectáculo que leva para a berma das estradas milhares, milhões de espectadores, simpatizantes e adeptos da modalidade. Também é verdade que não consigo perder cinco minutos que sejam a ver qualquer outra volta, a não ser, um pouco da volta a Portugal, a Itália e a Espanha, mas nada que me prenda como o Tour. Mesmo consciente das trapalhadas e das deslealdades relacionadas com o dopping que, desde sempre, assombram as provas ciclopédicas, espero já pelo próximo mês de Julho para nova aventura e novos protagonistas.

21 julho 2010

Há um vocabulário, uma gramática e, possivelmente, uma semântica das cores, dos sons, dos cheiros, das texturas e dos gestos, cuja riqueza não é menor que a das línguas. George Steiner

20 julho 2010

novos registos

Sempre que vou visitar o meu amigo Joaquim Garrido, editor das Edições Cosmos, regresso a casa com alguns magníficos presentes. Desta vez e porque já há algum tempo que não nos encontrávamos, pude trazer alguns títulos há algum tempo desejados. Entretanto, outros títulos que foram chegando:
- Maalouf, Amin, 2004, Origens, Algés, Difel;
- Carvalho, Mário de, 2010, A arte de morrer longe, Alfregide, Caminho;
- Lopes, Aurélio, 2009, Videntes e Confidentes, Chamusca, Edições Cosmos;
- Pina, Miguel de Roque, 2010, O Rigor do Pensamento, Chamusca, Zaina Editores;
- Oliveira, Cipriano de, 2010, Maçonaria: passado, presente e futuro, Chamusca, Edições Cosmos;
- Freire, Isabel, 2007, Na Alma do Ribatejo, Edição do Casario Ribatejano e da Associação do Turismo no Espaço Rural;

escritor fantasma

Acabei de sair do cinema onde assisti ao novo filme de Roman Polanski "Ghost Writer". Desde que comecei a ouvir falar deste filme, se não estou em erro a propósito da sua atribulada estreia em Cannes ou Veneza(??? - isso fica para os entendidos...) e da prisão do realizador, e tal e coisa, que logo me pareceu interessante. Quando soube que estava a estrear cá em Portugal quis ir vê-lo, mas algo em mim me dizia para não o fazer. Tentei resistir, cheguei mesmo a comentar com algumas pessoas a minha inquietude em resistir. Por princípio não deveria ir assistir a este filme e assim contribuir para o lato sucesso deste pedófilo. Bem sei que é um génio do cinema, mas isso não o iliba dos crimes que outrora cometeu. Mas enfim, cobarde, não resisti e fui mesmo assistir ao referido filme. E gostei. Muito. Apesar de ter outras expectativas relativas a um filme com este nome... Esperava algo mais crú, mais realista, mais urbano. Mas não. A narrativa refugia-se na alta esfera da intriga e do poder à escala mundial e, por isso, obrigatoriamente, veste-se de sofisticados gadgets e reveste-se de personagens que não existem, quero eu dizer, que não têm vida própria. Nem sequer o próprio escritor fantasma que, apesar do esforço de o equiparem com todos os clichés do estereótipo, tais como o ar desarranjado, a forte apetência para a bebida (forte), a incapacidade de estabelecer relações duradouras, etc., não consegue nunca ser esse bom-selvagem do ideário hollywoodesco.

15 julho 2010

gazela


Hoje, depois de vários meses de insistentes convites, finalmente conheci a famosa "Gazela" e os seus retumbantes "cachorrinhos"... tal é a nomeada na casa. Casa de repasto bem à moda do Porto, situada perto da Praça da Batalha, na Travessa do Cimo de Vila ou na Travessa do Cativo (são contíguas...). Ainda mal entramos e já estamos a ser questionados acerca do que vamos comer e beber: - Ora então meus amigos o que vai ser?... Depois, a espera para sentar num dos catorze lugares sentados ao balcão. A gestão destes lugares é feita pelos profissionais da casa, o Sr. Fernando e o Sr. Costa (na fotografia), verdadeiros mestres de bem servir, de bem falar e de bem vender os seus serviços, que num tom optimista vão sossegando a clientela: - Quantos são, 3, 4?.. está quase... é só mais um bocadinho... e beber, o que vai ser? Finalmente lugares vagos. Sentámo-nos e começou o espectáculo. A cerveja é qualquer coisa de espectacular, mas acima de tudo, é verdadeira, com gosto e força. Os cachorrinhos são autênticas maravilhas para a química dos sentidos. O seu sabor é orgásmico para as papilas gustativas, que só depois do segundo e a caminho do terceiro começam a ficar indiferentes à excitação do paladar. Vamos comendo e vamos pedindo mais e eu fico com a sensação que poderia estar ali toda a tarde a petiscar... pura ilusão. Tal como a fotografia testemunha, os estragos feitos por cada um de nós vão ficando depositados à nossa frente até ao momento em que se pede a conta. Aí, a contabilidade é feita através desses destroços, que rapidamente são removidos de forma a receber novos "amigos". No final e por despedida, tal como à entrada, somos cumprimentados por ambos os profissionais, que nunca deixam de cumprimentar pessoalmente cada pessoa que ali entra. É, concerteza, para repetir, mas atenção, não é para meninos.

09 julho 2010

Saramago

"Que fazemos, em geral, nós, os que escrevemos?"

25 junho 2010

encantos das cidades pequenas

Viver numa cidade grande é confortável, talvez até mais fácil. Habituamo-nos muito rapidamente a ter tudo numa relação de proximidade e de fácil e rápido acesso, sem a obrigação de nos relacionarmos com alguém, ou sequer cumprimentar-mos alguém. Isso, confesso, agrada-me.
Definitivamente, fascinam-me as cidades pequenas. A vida dos lugares pequenos, da rua e do bairro. As rotinas quotidianas e o reconhecimento de quem passa na rua, de quem é freguês dos mesmos lugares ou cliente dos mesmos espaços. Nas cidades pequenas, ou pelo menos mais pequenas, o andamento é outro. A vida, parece-me, corre num ritmo mais lento, respira-se outro ar e o tempo transfigura-se, dando-nos como que, mais tempo.
Eu gosto de lugares como este, pequeno e calmo, onde há espaço e tempo para viver ao ar livre. Faz-me falta essa liberdade. Eu gostava de viver num lugar assim, talvez mais a Norte, preferencialmente com menos calor e, se possivel, com menos turistas.

15 junho 2010

ponte Vecchio

Numa recentíssima visita à Itália, visitei várias cidades da Toscana, das quais destaco Florença (Firenze) que foi, aliás, a motivação principal desta viagem. Terra onde a língua italiana se formalizou e onde nasceu o poeta Dante, Florença é o berço do Renascimento e, quem lá vai, percebe logo porquê. Mas aquilo que mais me chamou a atenção foi a ponte Vecchio sobre o rio Arno. Esta velha ponte dizem ter sido construída em madeira ainda no tempo da Roma Antiga, é famosa porque tem, de ambos os lados, lojas suspensas, principalmente, de ourives e lavrantes de prata. Foi destruida por uma cheia em 1345 e reconstruida em 1354. Diz-se que, durante a 2ª guerra mundial os Nazis, que destruiam todas as pontes para travar o avanço dos Aliados, preservaram esta, optando por obstruir os extremos com os destroços dos edifícios dessas extremidades.
Mas aquilo que me prendeu a atenção e aguçou a curiosidade foi este molho de cadeados que estão agarrados do lado de fora do muro poente da ponte. A determinado momento, e enquanto descansava à sombra das velhas lojas, espreitei para o rio no lado poente da ponte e vejo este monte de cadeados, num novelo enorme e confuso. Não percebi a razão da sua existência, mas logo desconfiei que algum significado tivesse. Pois bem, bastou uma pesquisa simples na internet para encontrar isto:

Desde sempre alberga lojas e mercadores, que mostravam as mercadorias sobre bancas, sempre com a autorização do Bargello, a autoridade municipal de então. Diz-se que a palavra bancarrota teve ali origem. Quando um mercador não conseguia pagar as dívidas, a mesa (banco) era quebrada (rotto) pelos soldados. Essa prática era chamada bancorotto. (...) Ao longo da ponte, há vários cadeados, especialmente no gradeamento em torno da estátua de Benvenuto Cellini. O facto é ligado à antiga ideia do amor e dos amantes: ao trancar o cadeado e lançar a chave ao rio, os amantes tornavam-se eternamente ligados. Graças a essa tradição e ao turismo desenfreado, milhares de cadeados tinham de ser removidos com frequência, estragando a estrutura da ponte. Devido a isso, o município estipulou uma multa de 50 euros para quem for apanhado, em flagrante, a colocar cadeados na ponte.

09 junho 2010

momentos

Gosto muito de estar aqui. Bem aqui. Neste lugar acompanhado, sempre bem acompanhado. Mas acima de tudo, sozinho comigo, nos encontros e desencontros diários, preenchidos de diferentes ruídos e de profundos e longos silêncios. Meus. Daqueles que só eu escolho e, assim, os vou alternando em cada momento, hora e dia.
Outros momentos há, normalmente, angustiantes, em que a vontade é estar em qualquer outro lugar, menos aqui. Esse lugar, que não aqui, poderá ser onde for, desde que aí possa continuar os tais momentos. Sim, meus e egoistas. Fazem-me falta.

08 junho 2010

na cabeceira IV

Tinha oferecido este livro ao meu pai pelo Natal. Sei que ele logo o leu, assim como a minha mãe. Agora foi a minha vez de o ler. Falando-nos exclusivamente das suas memórias infanto-juvenis José Rentes de Carvalho descreve pormenorizadamente as paisagens rurais das terras transmontanas e as paisagens urbanas de Gaia e Porto da sua meninice. Demonstra-me (aquilo que eu já suspeitava) que é um grande escritor. Depois das pequenas narrativas do seu blogue e agora com este "Ernestina", fico obrigado a conhecer o resto da sua obra.

03 junho 2010

em Junho, futebol

Não gostei! Venha a próxima...

01 junho 2010

dos manos



Acabou de me chegar às mãos, ofertada pelos meus queridos irmãos, esta caixa de 6 cds dos The Doors, gravados ao vivo em Nova Iorque no Felt Forum em 17 e 18 de Janeiro de 1970. Presumo que tenha sido importado, pois não me lembro de ver esta capa por aí, em lado algum. Grande presente. Estou a ouvir, vou ficar a ouvir, até acabar...

28 maio 2010

na cabeceira III

Num encontro para comemorar o centenário da República portuguesa foi-me apresentado o arquitecto Luís Mateus, que estava presente na qualidade de orador. Nunca ouvira falar dele nem da sua Asssociação Repúblicana, no entanto, foi desde o primeiro momento cordial e afável, o que motivou desde logo, penso eu, uma empatia recíproca. Ficámos na conversa acerca das identidades, dos sentimentos de pertença e da construção de narrativas locais, regionais, nacionais, transnacionais. A certa altura, para ilustrar uma ideia, ele refere um autor Libanês, que um dia no preâmbulo deste livro terá escrito:
Outros que não eu teriam falado de "raízes"... Não emprego esse vocabulário. Não gosto da palavra "raízes" e da imagem ainda menos. As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas; mantêm a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem: "Se te libertas, morres!"
As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. Respiramos a luz, cobiçamos o céu e quando nos metemos na terra é para apodrecer. A seiva do solo natal não nos sobe pelos pés em direcção à cabeça, os pés só nos servem para andar. Para nós só as estradas contam. São elas que nos guiam - da pobreza à riqueza ou a outra pobreza, da servidão à liberdade ou à morte violenta. Elas fazem-nos promessas, levam-nos, empurram-nos e depois abandonam-nos. E então morremos, tal como nascemos, à beira de uma estrada que não escolhemos.
A citação que não terá sido, compreensivelmente, fielmente verbalizada, ficou-me na memória, mas como é normal em mim, não consegui sequer fixar o nome desse autor, apenas que era Libanês. Fiquei a pensar nesse momento e nessa citação. Regressado ao Porto, depressa procurei encontrar o rasto a tal obra. Fui a uma Fnac e logo descobri o nome e a certeza que existia um exemplar desse livro numa outra loja em Lisboa. Fiz o pedido e passadas 2 semanas pude ir buscá-lo à loja. Vinte euros por cerca de 420 páginas de texto. Ávido procurei o preâmbulo em busca de tal citação. Hoje, passados três dias, acabei a leitura desta história auto-biográfica, talentosa e virtuosamente bem escrita.

imaginário

O imaginário é como um museu de imagens, sejam elas passadas, possíveis, já realizadas ou a realizar e pode manifestar-se em todas as ocasiões, seja nos sonhos, nos delírios, nas visões ou mesmo nas alucinações. O homem não pode viver sem imaginário, sem o prazer do imaginário porque ele é, antes de tudo, um antídoto do medo, principalmente do medo da morte porque, felizmente ou infelizmente, o homem é o único animal a ter consciência dela.
Alfredo Saramago

24 maio 2010

memória

Na minha aldeia, nunca houve cemitério. As sepulturas estão espalhadas pelo meio das casas, por vezes nos promontórios, por vezes num olival - como no caso do meu pai -, no vinhedo dos eirados, ou sob uma árvore centenária. Há também campas muito antigas escavadas em rochas e pelas quais se interessaram os arqueólogos...
No que diz respeito ao meu avô, garantiram-me que ele tinha sido enterrado não longe de sua casa, num campo de amoreiras - sem mais precisão; fui então à sua procura com dois anciãos da aldeia, que o tinham conhecido na infância, que tinham assistido outrora às suas exéquias, e que me indicaram uma fila de velhas campas dizendo que seria "provavelmente" uma daquelas. A ideia que eu quisesse saber exactamente qual era parecia-lhes meritória, mas absurda - e para falar verdade, um capricho de emigrante.
Amin Maalouf

18 maio 2010

evidência

A proximidade traz-nos o pormenor. Permite-nos aceder à região quase íntima, onde conseguimos com todo o cuidado contemplar os sucessos da criação e os insucessos da manutenção. Essa quase intimidade, quase sempre, revela-nos a imperfeição dos detalhes que, consequentemente, nos repelem os sentidos e afastam as ideias. Detalhes, que é como quem diz defeitos, que existem e estão lá para serem descobertos. E tem havido sempre uma descoberta, um qualquer detalhe que logo repele os sentidos. Sempre ou quase sempre, menos em ti.

16 maio 2010

deste fim-de-semana

Coimbra

Figueira da Foz

Viana do Castelo

13 maio 2010

sinais de fumo

A conversa, assim saboreada e sentida, franca, desinibida e descontraída, consciente, reflectida e acutilante traz-nos sempre, ou quase, o melhor que há para ser falado, dito ou discutido. Partindo de posicionamentos diferenciados e perspectivas várias, os assuntos lançados para cima da mesa ganham outra dimensão, outra vida, outro interesse e/ou motivação. Assim se passam, e bem, momentos, horas das nossas vidas. A pretexto de uma qualquer refeição, sabemos que aquilo que nos lá leva é sempre a possivel conversa, muita conversa... e claro, quando não, alguma desconversa.
A propósito das perceptiveis actualidades, muito facilmente nos apercebemos e nos encontrámos no abismo civilizacional que temos experimentado, pelo menos naquilo que a nossa memória nos permite alcançar. Aquilo que fomos e somos, aquilo que tivemos e temos, aquilo que pudemos e podemos. As crianças que fomos, as crianças que agora são. Como nós fazíamos e como elas agora fazem.
Tudo isto para chegarmos à conclusão que, afinal, há sempre um passado; que, afinal, também nós vivemos uma antiguidade; que, afinal, também nós fizemos os nossos sinais de fumo.

09 maio 2010

tertúlia pós-laboral repúblicana e revolucionária


Este foi o grupo de amigos que sobejou até de madrugada da iniciativa da Assembleia Municipal e Câmara Municipal de Bragança - Debate sobre a República e o 25 de Abril, 1º de um ciclo de 4 debates a promover no âmbito do programa das comemorações do Centenário da República no municipio de Bragança. Aconteceu ontem, dia 7 de Maio, no Auditório Paulo Quintela e os oradores convidados para este 1º encontro foram o Coronel Vasco Lourenço (ao meu lado direito e 5º a contar da esquerda da fotografia) e o Arquitecto Luís Mateus (ao meu lado esquerdo e 3º a contar da direita da fotografia). Agradeço o envio da fotografia ao "taberneiro" amigo, José Lourenço (o da boina...), deste momento intimista de partilha de experiências e vivências únicas daqueles que nos propíciaram o país e a sociedade que hoje somos. Aquilo que ouvi(mos) e pude(mos) dizer, não irei esquecer. Foi um momento grande e bonito para mim. Senti-me constituinte vivo de uma dada história, pois pude partilhar ideias e, principalmente, reflexões com um dos heróis de Abril.

06 maio 2010

apanhado pelo grande irmão

de feiras e dias soltos

- Giddens, Anthony, 2009, Sociologia (7ª edição), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian;
- Domingues, Álvaro, 2009, A Rua da Estrada, Porto, Dafne Editora;
- Lechner, Elsa (org.), 2009, Histórias de Vida: Olhares Interdisciplinares, Porto, Edições Afrontamento;
- Alegre, Manuel, 2010, O Miúdo que pregava pregos numa tábua, Alfragide, D. Quixote;
- Gonçalves, Joaquim, 2003, Santuário da Senhora da Graça no Monte Farinha, Mondim de Bastos, Casa das Estampas do Santuário;
- Pelayo, Primo Casal, 1988, A Ermida do Monte Farinha, Mondim de Bastos, Edição de autor;
- Steiner, George, 1992, No Castelo do Barba Azul, Lisboa, Relógio D'Água;
- Elias, Norbert, 2006, O Processo Civilizacional, Lisboa, D. Quixote;
- Ramos, Francisco e Silva, Carlos, 2003, Tratado das Alcunhas Alentejanas, Lisboa, Edições Colibri;

05 maio 2010

happy hour

Pela primeira vez visitei a Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII. Para além dos livros que comprei a bom preço e das inúmeras editoras presentes, gostei principalmente da presença de alguns alfarrabistas, se não me enganei, contei três expositores destes especialistas do livro "velho" e "gasto". Outro aspecto que muito apreciei foi a existência de uma "happy hour", todos os dias de 2ª a 5ª feira, entre as 22:30 e as 23:30, período em que muitas editoras vendem os seus livros a 50% do valor de capa. Muito interessante este conceito que, para além de permitir adquirir livros a preços espectaculares, leva a que haja uma afluência maior de visitantes a essa hora tardia. Poderiam bem exportar este conceito para a Feira do Livro do Porto. Aguardemos com expectativa.

01 maio 2010

29 abril 2010

instantes urbanos XI

Tendo que ir à Biblioteca Municipal do Porto, ali junto ao Jardim de Marques de Oliveira, mais (re)conhecido por S. Lázaro, consegui estacionar o carro mesmo junto ao edifício da biblioteca na Avenida de Rodrigues de Freitas, peguei na carteira e fui à máquina retirar ticket de estacionamento. Reparei que mesmo antes de sair do carro, uma fulana passa no passeio e fica declaradamente a olhar para mim. Segue mais um pouco no passeio e senta-se numa escadaria do edifício da biblioteca, continuando a olhar para mim. Como não a conhecia, ignorei-a, passei por ela e fui buscar o ticket. Quando regresso ao carro, está ela no meio do passeio com um provocatório sorriso, a olhar para mim. Pensei mesmo que iria meter conversa comigo, mas enganei-me, passei ao seu lado, pûs o papelzito no carro e lá fui à minha vida. Passadas duas boas horas de leituras e consultas bibliográficas, saí do edifício e regresso ao carro. Ao contornar a esquina da Rua de D. João IV com a Avenida de Rodrigues de Freitas, uma outra senhora que eu diria na casa dos 50 anos, ao ver-me passar, acompanha-me com o olhar e, a uma certa distância, diz:
- O senhor quer ir dar uma volta comigo até ali à pensão?
Sem suspender o meu andamento, olhei para ela e respondi-lhe: - Não, muito obrigado. Desviei o olhar e segui o meu trajecto. Para trás a deixei, mas ainda pude ouvir o comentário: - É pena... paciência.
Já no carro e a caminho do meu próximo destino (magnífica Ribeira do Porto), não pude deixar de pensar naqueles instantes... Sei há muito tempo que aqueles quarteirões entre o Jardim de S. Lázaro, o Largo do Padrão e a Rua Coelho Neto são pontos de venda de sexo, já muito por ali passei de um lado para o outro, mas nunca fui de tal forma abordado, o que me levou a conclusão de que tal atitude, invertida e agressiva, não será mais do que o reflexo da crise que se faz sentir, inclusivé no ramo do sexo.

23 abril 2010

via sms

eu quero te tanto, tanto mais do que eu sei dizer. mil vezes mais do que eu sei dizer.

dia 23 de Abril e o pretexto para ir buscar e ler este livro com uma capa horrível

Eu já sabia que mais tarde ou mais cedo ia comprar este livro. Seria apenas uma questão de tempo. Ainda antes de o ter pago já lera mais de metade e mal cheguei aqui, acabei de o ler. Estou aqui a escrever e a pensar como gosto da escrita de Manuel Alegre, clara e simples, quase sempre autobiográfica. Cento e qualquer coisa páginas de bom português que, em vários momentos, me fizeram arrepiar os sentidos, pois fala-nos da "vida de tantas vidas na tão curta vida". E andam para aí alguns armados em "escritores", cujas medidas são os quilos de papel vendido, ou cujos critérios de qualidade são as centenas, quando não milhares, de páginas impressas.
Desculpem a confusão, até porque, normalmente, não gosto de misturar águas, mas é também por isto que gostava de ver em Belem alguém que não seja tecnocrata, economista ou gestor, mas sim um humanista, desformatado e com memória, cujo discurso e prática se reveja na vida pequena das pessoas. Assim é este Miúdo que pregava pregos numa tábua.

"Ou como a própria Sophia num café em Porto Covo, os dedos da mão direita dedilhando enquanto a esquerda segurava o cigarro, nessa tarde em que ela queria seguir para Lisboa por uma estrada junto ao mar, ainda hoje sinto remorso de lhe dizer que não havia estrada nenhuma, ela insistia que sim, havia uma estrada no poema que ela estava a dedilhar e não devíamos ter hesitado, devíamos ter ido com ela por essa estrada fora." (2010:69)

22 abril 2010

segurança

Reparo, como nunca antes o fizera, e observo atenta e demoradamente o segurança deste espaço comercial. É verdade que, de tão habituados que estamos a vê-los por todo o lado, já nem reparamos na sua presença. É algo que faz já parte do moderno "mobiliário" citadino. Este que aqui está à minha frente, presumo, terá por missão ou responsabilidade controlar a entrada e saída de clientes e seus objectos. Por isso, está posicionado entre a porta exterior e os sensores do alarme, por onde tudo e todos são obrigados a passar. A cada acender da luz e soar do alarme, lá está ele em acção, solicitando a revista aos sacos, carteiras ou objectos passíveis de terem sido os provocadores de tal alarido.
Vestido a rigor, quer isto dizer, com a farda da empresa de segurança privada que lhe paga o vencimento, devidamente identificado com um crachá ao peito e equipado com um rádio comunicador, que tráz preso por um clip, no fundo das costas, ao cinto e um auricular, por onde de vez enquando comunica com alguém. Durante longos períodos de tempo mantém-se imóvel, libertando apenas o olhar para acompanhar todos quantos passam pela sua área de "influência".
Se atento, nesta sua posição estática, percebo-lhe alguns tiques nervosos, depois vai alternando a postura das mãos que, ora estão cruzadas atrás do corpo, ora viajam para a frente e vão-se encontrar num entrelaçar de dedos. Muito de vez enquando dá uns passos, como que para acordar o corpo e seus músculos. Percebo, igualmente, a sua calma mas atenta atitude perante qualquer movimento. Enquanto o observo ele vai olhando para mim, jamais imaginando que sobre ele escrevo.
Ser segurança é isto. Estar assim ali, praticamente quieto o tempo todo, todo o tempo do seu turno diário, garantindo assim a segurança e bem estar de todos que aqui se encontram. Tarefa ingrata e sem reconhecimento, digo eu... Sem querer ser injusto ou depreciativo, pergunto-me como conseguem estar assim durante tantos minutos, tantas horas, tantos turnos, tantos dias? Tantos dias, tantas semanas e meses, depois anos até à sua reforma ou pré? Só pode ser terrivelmente entediante e cansativo. Por outro lado, propício para a introspecção e divagação... às tantas, só aqui estão em corpo presente... a sua mente estará algures... Para seu próprio bem e saúde, espero que, com todo este tempo disponível, consigam exercitar-se mentalmente, viajando e divagando. O que lhe passará pela cabeça? O que pensará ele daqueles que por ele passam e ele olha? O que pensará ele quando olha para mim?
Ser segurança é isto. Retórico termino, perguntando: Quem quer ser segurança? Quem tem que.

12 abril 2010

na cabeceira II

Já tinha lido uma referência (posítiva) a este trabalho do geográfo Álvaro Domingues no último número da revista LER. No passado Sábado, tive o prazer e o privilégio de o ouvir apresentar esse mesmo trabalho e, no final dessa apresentação, pude conversar um pouco com ele. Ontem, enquanto aguardava a hora do comboio chegar, aproveitei para procurar "A Rua da Estrada" nas livrarias da capital. Muito interessante a viagem que este professor nos convida a fazer pelas "ruas" das "estradas" do nosso país urbano, mostrando-nos a dimensão da desorganização, desordenação e da desestruturação do país, que todos os dias percorremos e no qual vivemos... "é como um híbrido com a sua identidade cruzada e manipulada, ou ainda pior, como um transgénico que incomoda pelo simples facto de transgredir aquilo que o originou, no limite, a obra do próprio Criador." (o autor)
Muito bem escrito, perspicaz e humorístico, com uma excelente e oportuna fotografia. Bem construído. Aconselho vivamente a leitura, pois irão reconhecer-se. Resta para esta última linha um desabafo: como nunca ninguém fez isto antes? Exercício que eu, tu ou ele poderíamos ter conseguido...

10 abril 2010

pesquisas, leituras, descobertas, surpresas, raridades e constatações

É neste mágnifico edifício, com traça e perfil à Estado Novo, que está instalada a Biblioteca Nacional. Foi aqui que passei todo o dia de ontem, 6ª feira, dia 9 de Abril. Nunca antes sentira a necessidade de descer à Capital para fazer pesquisa bibliográfica e/ou documental, mas desta vez, dada a escassez de informação disponível, lá teve que ser. E bem, pois foi um dia muito bem passado e proveitoso. Inicialmente, custou-me a perceber os procedimentos de funcionamento (entrada, pesquisa, inscrição, requisição, etc.) mas logo depois, percebendo a lógica, tornou-se simples. Assim, dei entrada cerca das 9:30 e por lá fiquei até às 19 horas, com intervalos apenas para ir à casa-de-banho e para ir ao bar da instituição enganar o estômago com uma sande.
O primeiro momento de pesquisa é muito interessante pois basta colocar as palavras-chave ou assunto e logo nos surge um resultado de pesquisa com todos os documentos relacionados, o que nalguns casos é uma lista impressionante, em quantidade mas também em qualidade. Desde logo, depois de pesquisar os assuntos que ali me levaram, soube que o dia de ontem seria pouco para tamanha leitura e consulta. Depois da pesquisa e da requisição, mesmo antes de me dirigir para a sala de leitura (que impressiona pelas dimensões), lembrei-me de pesquisar pelo meu nome, o que logo resultou em dois registos e uma referência ao meu nome como: "Vale, Luís (1973- )"... Bem, pelo menos não sabem em que ano irei falecer. Já não é mau.
Foram muitas horas de leitura, de obras e textos que iam sendo trazidas até mim, à medida que ia requisitando, em carrinhos conduzidos por simpáticas colaboradoras. Mesmo ao lado da sala de leitura, uma sala de fotocópias, disponível para qualquer tipo de reprodução que, apesar de um preço pouco convidativo, é preciosa para ganhar tempo para a leitura. Como aspectos menos positivos apenas referir que não paravam de passar aviões a uma altura impressionantemente baixa e cujo ruído, a cada 3 minutos, me desconcentravam da leitura, como que a cada momento estivesse à espera do embate final... Também, muito mau, foi o facto de não conseguir aceder à internet durante todo o dia, pois não havia rede suficiente.
Certo é que só da pesquisa que ontem fiz e não tive tempo de consultar, terei que lá voltar mais vezes, provavelmente, muitas vezes. Não faz mal.

03 abril 2010

páscoa

Olhando à minha volta, por este dias, tenho-me apercebido de algo diferente no comportamento das pessoas. Tenho a sensação estranha de que algo maior, poderoso ou forte está a trabalhar arduamente num novo conceito de Páscoa. Não me lembro de haver - ver, ouvir e sentir, determinados referentes a esta época, para alguns, festiva em anos passados. Não será um fenómeno iniciado este ano, nem tão pouco original, mas nota-se que tem havido investimento sério no sentido pedagógico, ou mesmo ideológico visando mercantilizar a celebração desta festa primordial e exclusivamente religiosa. Temo que estaremos a viver a génese de um qualquer fenómeno que nos levará a uma "natalização" ou a uma "painatalização" da Páscoa, onde o consumo, a dádiva e o aparato da parafernália das marcas, dos sacos e dos laçarotes, nos serão impostos, sem que haja um minimo de reflexividade individual ou colectiva. É que onde quer que tenha ido nestes últimos dias, tenho sido presenteado com os votos de uma "boa" e/ou "santa" Páscoa... as páginas das redes sociais têm sido invadidas com votos e desejos do mesmo quilate... os telemóveis já vibram e tocam com motivos/temas alusivos e carinhosas mensagem que nos obrigam à respectiva retribuição... as crianças recebem aparatosos embrulhos com sortidas guloseimas e, para cúmulo, já se vêem por aí alguns petizes questionando, quando não obrigando, seus progenitores pelos presentes da Páscoa...
Poderíamos até estar perante um qualquer processo evolutivo de patrimonialização ou até mesmo de destradicionalização da ritualização da Páscoa. Mas não. O último e único propósito destas novas narrativas construidas por essas forças obscuras é, será o seu próprio e monstruoso lucro. Estou consciente disso e, por isso, em nada pretendo contribuir para essa "paróquia" esquizofrénica. Guardo recordações bonitas destes dias passados, em reunião familiar e afins que, mesmo sabendo não os poder voltar a experimentar, relembro quando me deparo com o actual aparato adocicado. Atenção aos próximos desenvolvimentos.

02 abril 2010

número noventa


Um bom número da revista Ler, que me ocupou um bom par de horas de leitura em final de noite. Logo a abrir, no editorial de Francisco José Viegas, fiquei a saber que a revista "Os Meus Livros" acabou, o que não deixa de ser uma triste notícia. Depois, destaco o excelente artigo de Pedro Mexia acerca de Pedro Passos Coelho e o seu livro "Mudar", no qual Pedro Mexia desconstrói a figura e o discurso do agora presidente do PSD... "De facto, o jovem político de 46 anos faz um longo relatório sobre a pátria, do feudalismo à EFTA, mas com que propósito? «Não é a erudição que me interessa neste texto», avisa, como dizendo que a tem mas não nos quer maçar. Em vez de uma mescla de Mattoso com José Gil, temos por isso um artigo de Wikipedia sobre Portugal. Não aquenta nem arrefenta. Talvez seja isso o 'passismo'. Passa-se bem sem ele."
Outro bom texto é o da responsabilidade de Paulo Ferreira (Booktailoring) acerca da polémica destruição de livros não comerciáveis que a LeYa promoveu, relembrando que essa destruição de livros é uma prática recorrente nas editoras que não podem armazenar eternamente todos os títulos que editam, tanto mais que hoje os livros têm aquilo que se chama "prazo de validade de iogurte".
Depois, o desabafo de José Mario Silva acerca da dificuldade que sente, enquanto moderador de mesas-redondas ou apresentações de livros, sempre que chega o momento do público intervir, pois a heterogeneidade de "perguntadores" assusta-o, principalmente, "aqueles que se apropriam do microfone sem intenções de o largar, pelo menos até começar o "Fórum TSF" onde devem ter lugar cativo, seja qual for o assunto em discussão."
Ainda o excelente texto de Filipe Nunes Vicente que partindo das visões de Pascal e de Freud acerca da relação do Homem com o divertimento, nos leva de diversão em diversão até à miséria... "as grandes diversões, paulatinamente, assumem o papel anteriormente exercido pelos narcóticos: tornam-nos indiferentes às limitações da vida".
Rogério Casanova traz-nos um Manual de Escrita Criativa que começa com a questão: "Poderá qualquer pessoa escrever criativamente?". Divertidamente diz: "Felizmente para vocês, com o aconselhamento adequado e com alguma disciplina, é possivel transformar a mediocridade em competência".
Por fim, a entrevista de Carlos Vaz Marques a Manuel Alegre, de quem gosto, também, por ser um lírico.

25 março 2010

desassossego

Diziam dela que era a mais bonita, a mais esplendorosa de toda a região. Detentora de uma considerável legião de fiéis e devotos, tinha as suas graças e, por isso, fazia inveja, inclusivé, às demais entidades divinas. O seu povo era zeloso e preocupado com o seu bem-estar. A devoção obrigava-os a redrobada dedicação e a cuidada festividade em sua honra. Um dia terá sido convidada para ir festejar com uma irmã que habitava bem perto da raia espanhola. Devidamente engalanada e ricamente decorada levou consigo parte da sua gente. Mal chegou, no alto do seu andor, sua beleza atraiu todas as atenções e não demorou muito até terem começado a namorá-la, de tal forma que foi a custo que os seus fiéis conseguiram evitar que a levassem para Espanha. Dizem uns que a queriam roubar, dizem outros que a queriam raptar. A verdade é que foi tamanho o alvoroço e a confusão que só sossegaram quando regressaram à sua aldeia. Foi então tempo de lhe prometer que nunca mais a levariam dali.

lenço

Habituara-me a vê-la assim, quieta nos modos e simpática no atendimento, atrás do balcão. Sempre com um lenço na cabeça que apenas lhe deixava a descoberto um rosto redondo, que trazia consigo o estigma sofredor de uma qualquer doença. Sempre que lá fui, as muitas vezes, enquanto aguardava a minha vez, olhava-a tentando perceber qualquer sinal de sofrimento, tentanto alcançar tamanhas dores de horas, dias, meses ou anos. Num destes dias regressei lá e foi com surpresa primeiro e depois com satisfação que a reconheci no mesmo lugar de sempre, sem lenço e apresentando ao mundo um curto mas vigoroso cabelo preto. Assim se desvaneceu a condenação e, às tantas, quando lhe descobri um ligeiro sorriso, percebi a vida nova que ali estava. Que bom.

23 março 2010

destes e de outros tantinhos dias

  • Lipovetsky, Gilles e Serroy, Jean, 2010, A Cultura-Mundo: resposta a uma sociedade desorientada, Lisboa, Edições 70;
  • Fernandes, Armando (texto) e Ferreira, Maria José (desenhos), 2010, O meu nome é Bragança, Bragança, Edição da Câmara Municipal de Bragança - oferta;
  • Vasconcelos, José Leite de, 2007, Etnografia Portuguesa - volume X, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda;
  • Fortuna, Carlos e Santos Silva, Augusto (orgs.), 2002, Projecto e Circunstância - culturas urbanas em Portugal, Porto, Edições Afrontamento;