26 junho 2009

antes do botox, lifting a Rosita

(Vila Praia de Âncora, 25 de Junho de 2009)

epitáfio do tamanho do mundo

Serei concerteza o último a referir-me à morte de Michael Jackson. Não que nutrisse por ele grande simpatia, ou admirasse superlativamente a sua obra. Não. Muito pelo contrário, há muito o considerava desiquilibrado a vários níveis. A sua morte não é redentora. Também, não percebo a histeria colectiva que se instala, junto dos fãs e/ou admiradores e na comunicação social, sempre que alguma figura pública morre, é morta, suicida, ou desaparece. Mas tal como sempre aconteceu e Deus é misericordioso, depois da morte todos éramos boa gente. Enfim, aqui estão esparrachadas as consequências da globalização...
A razão que me leva a dedicar algum espaço a Michael Jackson e ao seu desaparecimento, é que a visualização de alguns dos seus grandes êxitos musicais remeteram-me para o início da década de oitenta (1982 ou 1983), quando ainda muito jovem fui a uma festa de aniversário de uma coleguinha da escola. Nessa festa estavam miúdos mais velhos (14, 15 e 16 anos, talvez mais até...) que dançavam agarradinhos como eu nunca vira... fiquei intrigado!... O som que se ouviu durante toda a tarde, ou grande parte dela, foi o disco Thriller que acabara de ser editado. Lembro-me bem do impacto do som e do ritmo da música que dá nome ao disco e, muito mais impressionado fiquei depois quando vi o teledisco. Muito bom (ainda hoje). Thriller, Billie Jean e Bad são algumas das músicas que recordo e que, realmente, (me) marcaram.

13 junho 2009

instantes urbanos VI

Um não-lugar. Alguns e, principalmente, algumas transformaram-no num lugar, e um lugar bem vivido e bem experimentado. Ponto de encontro para os habitantes do bairro da Estação, a sala de espera do terminal rodoviário de Bragança é uma autêntica sala-de-estar para esses moradores, que de Verão ou de Inverno, de manhã, à tarde ou à noite, aproveitam o conforto gratuíto do ar adequado a cada temperatura. Ainda se queixam da funcionalidade do espaço!?...

12 junho 2009

corpo de deus

A festa da aldeia que ano após ano vai sobrevivendo à modernidade, com tudo aquilo que sempre teve (apesar da nova parafernália técnica) - do litúrgico ao lúdico. Termina com grandioso arraial abrilhantado pela banda Sindikato, que inicia sua actuação com o mítico e desafinado "It's a Final Countdown" instrumental, dos Europe. Afinal de contas, há festa na aldeia e voltar cá ainda é igual.

09 junho 2009

concurso cronistas - fim

Pois é. Fui eliminado na 5ª semana. Restam agora apenas 20 concorrentes. Foi uma experiência interessante e nova para mim, nunca antes tinha sujeitado o meu escrever a qualquer avaliação. Este era um concurso para cronistas e face ao que pude perceber através, principalmente, dos comentários dos elementos do júri e mesmo relativizando as enormes diferenças que nos separam (Portugal e Brasil) eu não serei cronista. Poderei até ser outra coisa qualquer, mas definitivamente cronista não sou. Sobra a participação e o gosto pela escrita.

concurso cronistas - 5º desafio

Desafio:
Prezado Cronista,
Nem só de grandes fatos se faz a crônica do nosso tempo, aliás, os pequenos acontecimentos têm o condão de simbolizarem melhor o homem e seus impasses nestes nossos conturbados dias que as grandes manchetes dos jornais,
Gosto de dizer que a crônica expressa o que foi manchete na alma do cronista naquele dia,
Pois bem... Abaixo relacionei 32 acontecimentos dos nossos tempos. Qual deles daria uma boa manchete em sua alma?
Escolha um dos temas e envie como de costume para esta redação!
Aguardo ansioso!
O Editor

Escolhi:
Idosos acusados de feitiçaria estão a ser "enterrados vivos" na província angolana da Lunda-Norte, denunciou esta terça-feira o bispo D. José Imbamba .
Em declarações à Lusa, o bispo da Lunda-Norte disse que o número de casos envolvendo estas práticas não é ainda "alarmante", mas é "muito preocupante", adiantando que "em alguns casos", estas pessoas são enterradas "com os cadáveres daqueles a quem acusam de ter morto por feitiço". "O último caso ocorreu há 15 dias, mas graças à intervenção de um grupo de catequistas, o velho, que já se encontrava preso e a caminho do cemitério, foi salvo", informou o prelado.

Crónica:
áxis mundi
A sociedade ocidental, fortemente influenciada pelo positivismo, ainda hoje vive agarrada à ciência convencional, que na sua pressa pelas descobertas e na sua voracidade pelo conhecimento, objectivo santo e sacro da “boa” ciência, esquece com facilidade tudo ou parte daquilo que a precedeu, fundou ou fundamentou e permitiu evoluir até ao estado presente.
Quando somos confrontados com notícias como esta vinda do coração de África, normalmente apresentadas em notas de rodapé jornalístico e consideradas, pelos órgãos de comunicação social, bizarrias de um outro e imaginário mundo, o nosso primeiro impulso emotivo, mas acima de tudo racional (porque somos formatados positivamente) é rejeitar liminarmente tais ritos. Logo somos obrigados a adjectivá-los e a remetê-los para tempos depositados nos negros anais da nossa história e/ou a enquadrá-los com outras e estranhas civilizações que habitam geografias distantes e as quais remetemos para um estado como que pré-moderno – naquilo que é entendido por estádios de desenvolvimento civilizacional experimentamos já três paradigmas diferentes: a pré-modernidade que contempla todo o tempo anterior à revolução industrial, ao iluminismo e ao positivismo; a modernidade, que surgiu nessa época e nos acompanhou até meados do século XX; e a pós-modernidade, que supostamente experimentamos desde então e até aos dias de hoje.
Nessas civilizações ou culturas tradicionais pré-modernas, resistentes e sobreviventes, que coabitam connosco o mesmo espaço (mundo) e o mesmo tempo (contemporaneidade), o passado é respeitado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. É a tradição que lhes permite, reflexivamente, compreender a sua própria organização e comunidade, como é o meio ideal para lidar com o tempo e o espaço, onde se insere cada actividade ou experiência na continuidade de passado, presente e futuro. Nestas comunidades, mormente organizadas em tribos e chefados, o conhecimento e o domínio das suas técnicas estão concentradas e são monopólio de poucos, normalmente, oligarcas, chefes, xamãs ou feiticeiros, homens mais velhos e experimentados, que assim e com esses equipamentos exercem o seu poder e a sua magistratura, mantendo os demais vitaliciamente dependentes da sua influência e existência.
Aspecto importante e que convém ter em consideração quando ouvimos ou lemos histórias destas é o conceito de sagrado e de profano, dicotomia bem presente na organização dos espaços e dos lugares, como por exemplo o caos profano associado ao exterior da aldeia ou comunidade e à selva, e a sacralidade da própria aldeia, no centro da qual estará o áxis mundi, exprimido pela casa do chefe, ou pela presença de uma grande vara, que simbolicamente une o mundo dos deuses, o dos homens e o das trevas. Por outro lado, os detentores do poder imbuem-se da sacralidade necessária para manterem e protegerem o seu status e importância no seio da comunidade ou grupo.
Neste ambiente “naturalista” a Terra é sempre transparente, como se se oferecesse continuamente como mãe nutridora universal com os seus ritmos cósmicos geradores da ordem e da harmonia, que permitem a fertilidade e a permanência. Mas para estes indivíduos e comunidades também é verdade que a Natureza é sagrada e na sua convivência com esse sagrado existe, intrinsecamente, o elemento sobrenatural, que será o factor derradeiro de esperança e de garantia de tudo aquilo que os seus conhecimentos empíricos não conseguem explicar. Porque, a jeito de foice, uma Natureza dessacralizada é algo recente, típica de uma vivência moderna e, tendencialmente, ocidental, na qual os homens da ciência no referido e abismal percurso se perderam.
A morte é, por excelência, um dos momentos cuja compreensão será inatingível para todos os seres humanos. A cada experiência de morte está associada um ritual, uma moral e um preceito. Podemos encontrar por esse mundo fora mil e uma manifestações diferentes, mas a verdade é que não há uma única cultura ou civilização conhecida que não tenha o seu culto aos mortos. É algo de universal. Nestas comunidades tradicionais, mesmo os “carismáticos” e os “eleitos” não conseguem controlar e perceber a morte, portanto será sempre importante para a sua condição encontrar uma justificação, ainda que através de um bode expiatório ou tendo por base uma falsidade. A recorrência a práticas de magia negra e vodun são comuns nesta África Ocidental. Vividas como autênticas religiões, arrastam consigo a crença e a consciência social destas comunidades.
Da leitura que faço, este caso não será mais do que a procura de justificação para algo que ultrapassa em muito o entendimento desses indivíduos e, por isso nada melhor para empolgar e manter a fidelidade das multidões do que construir uma culpa, por mais absurda que pareça ou seja. E aí, quando essa culpa é formalizada e pronunciada, no seio da comunidade, não há lei civil nem religiosa, ainda que impostas pela diplomacia, pela força ou pela guerra da ocidental civilidade dos colonialismos, dos pós-colonialismos e dos neo-colonialismos, que consiga calar essa secular vivência e contrariar essa mundivisão.Sem querer de alguma forma desculpabilizar ou justificar tais práticas, que em nada dignificam o ser humano, considero importante e pedagógica uma leitura e uma atitude relativistas, no sentido de conhecer, perceber e traduzir correctamente as diferentes expressões culturais com as quais, inevitavelmente, continuaremos a partilhar este mundo. A estratégia para se erradicar de vez este tipo de ritos passará obrigatoriamente pela educação e formação, o que requer tempo e disponibilidade. Mais do que agir através da força e da imposição de normas e padrões estranhos aos indígenas, importa implicá-los num processo de reflexão e reavaliação sobre as suas próprias tradições. Talvez assim, possam manter as suas práticas e rituais fidedignos à sua herança cultural e, ao mesmo tempo, preservar os mais básicos e fundamentais valores da vida humana.

Avaliação e comentários: (até 10 valores por júri)
Betty Vidigal - Artigo acadêmico até o último parágrafo, quando adquire tom de sermão. Não é crônica.
Não diz a que fato ou notícia se refere. O leitor que não tiver lido a lista de “fatos” não tem como adivinhar o que motivou as considerações do autor. Nota: 6,0
Cida Sepúlveda - Mini ensaio. Nota: 6,0
Lorenza Costa - Duas menções a uma "história" e um "caso" que não são ventilados no texto. O cronista esquece que a crônica é dirigida aos que leram e aos que não leram o noticiário inteiro dos dias precedentes. Algumas passagens são exageradamente explicativas e, no final, temos a opinião de alguém pisando em ovos: um autor que não se decide entre o relativismo moral e a necessidade de defender valores "básicos e fundamentais" (usar outras palavras para "universais" já denuncia seu pouco à-vontade). Da minha parte pode ser excesso de rigor; mas rigor é o que o próprio cronista se impôs ao adotar o estilo didático. Nota: 8,5
Luci Afonso - Muito bem escrito. Nota: 8,5
Marco Antunes - Trata-se de um ensaio, um ensaio arrastado e pouco interessante em que o autor não sai de cima do muro, mas um ensaio. Nota: 6,0
Oswaldo P. Parente - “Desculpabilizar”? O parágrafo que contém esta preciosidade é antológico. Nota: 7,0
Total - 42

06 junho 2009

ler de Verão

Naquilo que aparenta ser uma revista catálogo para o tempo que se avizinha e que, normalmente, é (talvez por essa razão) uma das edições mais pobres, para minha surpresa pude encontrar bons apontamentos. Desde logo, um bom editorial, depois José Gil e o xico-espertismo português, ainda Rogério Casanova que nos tráz à memória a saudosa revista Kapa (lembram-se!?...) cuja efémera existência - entre 1990 e 1993, queimou combustível emocional suficiente para ter deixado órfãos e impulsionado alguns ricochetes menores, como a blogosfera; é difícil encontrar um blogger que não tenha uns exemplares guardados - no armário ou na cabeça. Também a diáspora de Onésimo Teotónio de Almeida e, por fim, o omnipresente Eduardo Lourenço com a dificil pergunta: O que é um europeu?

03 junho 2009

metodologia de investigação antropológica

(ainda que desfocado e com pouca qualidade)

instantes urbanos V

Pouco passava das nove horas da manhã quando entro no café para a dose matinal de cafeína obrigatória. Não mais de três ou quatro pessoas para além da funcionária atrás do balcão. Enquanto aguardo a minha dose, ouço animada conversa entre algumas das pessoas presentes, sobre o trágico acidente aéreo da passada segunda-feira no Brasil. Num tom bem português, macabro voyeurista, fazem-se comentários piedéticos em género de rescaldo final de acontecimento:
- Coitados. O que vale é que nem sentiram nada. Foi tudo tão rápido... até dizem que o avião se partiu em dois...
- Já viram, Deus me livre e guarde!.. assim no meio do mar, sem poderem ser ajudados. Deus queira que tenham morrido logo.
- Pois foi, no meio do mar a não sei quantos quilómetros. O avião caiu logo, nem deu tempo de avisar ninguém... as pessoas devem ter morrido na descida... mas também se não morreram disso, morreram logo afogadas!...
- Ai minha santinha!.. Já viram cair assim no meio do oceano Atlântico... ou foi no Pacífico!?...
- Óh senhora!... foi no Pacífico!

02 junho 2009

concurso cronistas - 4º desafio

Desafio:
Prezado cronista,
Os grandes acontecimentos também podem render belas crônicas, nesse caso, cronista, há que redobrar o cuidado para que no espaço que este periódico lhe reserva não apareça um artigo ou um pequeno ensaio, o que vai diferenciar um gênero do outro é que, para fazer uma crônica o acontecimento tem que focalizar mais de perto, até ser capaz de mostrar a pele humana, seu arrepio de emoção, sua contração de dor, seu tremer de riso ou felicidade, sua vida, enfim, explícita em cor, calor e cheiro.
Se puder filtrar os fatos por essa perspectiva, certamente valorizará seu espaço neste jornal com uma página que há de transpirar humanidade e verdade.
Posso aguardar sua tentativa?
O Editor

Sorteado:
Inquérito denuncia abuso sexual 'endêmico' de meninos na Irlanda
Mais de 2 mil crianças disseram ter sofrido abusos sexuais e violência física ao longo de 60 anos.
Da BBC


Um inquérito realizado na Irlanda revelou que mais de duas mil crianças sofreram agressões em abrigos infantis, reformatórios e orfanatos católicos do país ao longo de 60 anos e que, em instituições para meninos, o abuso sexual foi "endêmico" no período.
Segundo a Comissão de Inquérito sobre Abuso Infantil, os menores sofreram violência física e abuso sexual em locais que chegaram a abrigar cerca de 35 mil crianças até os anos 80, quando foram fechadas. O relatório, que aborda a situação de mais de cem instituições religiosas investigadas ao longo dos últimos nove anos, concluiu que os líderes da Igreja sabiam sobre os abusos sexuais de meninos. Além disso, segundo os depoimentos citados no documento, meninos e meninas das instituições apanhavam com tiras de couro por conversar durante as refeições ou por escreverem com a mão esquerda. "As escolas eram administradas de forma severa, impondo uma disciplina opressiva e não razoável às crianças e funcionários", diz o relatório. A comissão foi criada em 2000 pelo então primeiro-ministro irlandês Bertie Ahern, que pediu desculpas em nome do Estado às vítimas de abuso infantil. Um esquema de compensações do governo também foi estabelecido na época e, desde então, já pagou quase 1 bilhão de euros a 12,5 mil pessoas.
Abusos "chocantes"
Milhares de vítimas prestaram depoimento à comissão, que surgiu depois que uma série televisiva revelou a escala dos abusos. A jornalista Mary Raftery, que realizou os programas, disse que a extensão dos abusos era "profundamente chocante". Segundo a jornalista, as crianças eram levadas para "casas de terror" e ficavam confinadas até completarem 16 anos. "Elas saíam de lá completamente perturbadas e muitas deixaram o país em seguida", conta. "Elas sentiam que seu país as havia abandonado, assim como todo o resto, inclusive a religião." O relatório propõe 21 formas de o governo se redimir dos erros cometidos no passado, incluindo a construção de um memorial, um serviço de acompanhamento psicológico para as vítimas, muitas já aos 50 anos, e a melhoria dos serviços de proteção à criança na Irlanda. No mês que vem será divulgado um outro relatório sobre supostos abusos de padres católicos em paróquias perto de Dublin, capital da Irlanda.

Crónica:
Ignomínia Social
Vivemos, de facto, num mundo hiper-mediatizado, no qual tudo é informação. Com a massificação das novas tecnologias, a toda a hora, a todo o segundo, somos bombardeados com soundbytes provenientes de toda a parte e arredores, tornando a comunicação algo caótica e humanamente impossível de absorver na sua totalidade. Quem produz toda essa informação sabe que aquilo que faz se destina a um consumo self-service, ou seja, a uma auto-gestão do consumo dessa oferta informativa. A velocidade e a quantidade destes processos de comunicação é tal que somos obrigados a criar filtros para aquilo que nos importa e queremos saber, através de critérios de relativização. Uma outra consequência desta massificação dos processos de comunicação foi a redução simbólica do planeta Terra, pois com tal volume de informações disponíveis, provenientes de todos os confins do mundo, é-nos permitido conhecer, ainda que virtualmente, esses mesmos recantos, que de outra forma nunca conheceríamos. É-nos possível ver em nossa casa, confortavelmente instalados, os horrores e as desgraças das vidas alheias, que numa sequência abismal desfilam diante dos nossos olhos. Este fenómeno permite-nos afirmar, com alguma razoabilidade, que habitamos um lar do tamanho do mundo inteiro.
Foi nesse conforto do lar que, nos últimos dias, fomos assaltados pelas chocantes notícias que nos chegaram da Irlanda, a propósito dos sistemáticos abusos sexuais que as crianças e jovens, institucionalizados em organizações religiosas, foram vítimas ao longo das últimas seis décadas. Mais do que o próprio abuso, o que impressiona e nos deixa completamente desarmados é a descrença e a insegurança que sentimos nas instituições, que à partida, mereciam todo o nosso respeito, a nossa solidariedade e a nossa confiança. Afinal, em quem podemos confiar os nossos filhos, as nossas crianças!?... Esta será a questão ou a dúvida que assaltou a consciência de toda a gente, que de uma forma ou de outra, sente também seu este drama. Impressiona como foi possível, durante anos e anos, décadas e décadas, gerações e gerações de crianças indefesas e abandonadas, terem sido abusadas psicológica e fisicamente sem nunca ninguém as ter defendido, sem nunca ninguém ter denunciado tal situação.
Bem sabemos que nada de novo aconteceu e, tendo em conta o conhecimento de outras situações similares que vão acontecendo e são notícia, um pouco por todo o mundo, aprendemos já a relativizar e desprezar tudo aquilo que não nos diz directamente respeito. Bem sabemos que não foi a primeira vez, nem será a última que tal sucederá, mas importa enfatizar estes factos, pois nunca será demais nem o suficiente para os evitar. Também porque considero que esta traumática existência não diz só respeito àqueles que a sentiram na sua pele, mas sim a todos nós que nos preocupamos e pretendemos construir um mundo melhor e assim o legar às gerações futuras.
Diz-se que o melhor do mundo são as crianças. Algo que eu, particularmente, acredito piamente. Chamem-me inocente ou ingénuo, não me importo!.. Não poderei é ficar impávido e sereno perante tal horror. Lutarei o que puder para o combater. Como progenitor sei que tenho como responsabilidade cuidar, proteger e educar os meus filhos; como cidadão sei que tenho como responsabilidade contribuir para o cuido, a protecção e a educação daqueles e daquelas que, infelizmente, não tiveram, não têm ou terão acesso a um lar e a uma família. Perante tamanha agressão aos nossos valores civilizacionais teremos que rever, urgentemente, a nossa posição perante determinados comportamentos e perante determinadas instituições. Não importa aqui quem são os criminosos – se professores, se monitores, se guardas, se padres, ou mesmo bispos. Não importa se o palco desses horrores são instituições religiosas, associativas ou seculares. Não poderemos tolerar mais que aqueles que deveriam ser a guarda e o seguro dos mais desprotegidos, sejam os seus mais terríveis predadores e, assim, destruam de vez a vida de tanta gente, que acabem com os cândidos sonhos de criança, transformando-os em horrendos pesadelos.
E ninguém cuidou de todas estas vidas esfrangalhadas?!.
Muitos deles e delas só agora, que chegam ao fim das suas (possíveis) vidas, quebraram o silêncio, só agora conseguiram admitir e partilhar essas terríveis experiências. Tantas e tantas vidas destruídas, tantas vidas adiadas para nunca mais, tantos e tantos traumas que terão resultado em errâncias, em violência e em desgraça. Quem se responsabilizará agora por todos esses danos causados!?...
Não podemos aceitar que o carácter totalizante de tais instituições sirva pervertidamente as taras e desvios de alguns. Revolta-me as entranhas o atroz silêncio imposto por essas organizações religiosas que durante tanto tempo promoveu estas pérfidas parafilias. Basta. É o Estado através dos nossos impostos que tem a responsabilidade última de garantir uma existência digna a todos os carenciados e, por isso, está na hora de exigir a verdade e a moralização do sistema; é o tempo de uma justiça que puna exemplarmente a depravação e a ignomínia social. Quero que o Estado, tal como promove, e bem, a existência das instituições de acolhimento para crianças, jovens, doentes e idosos, promova também a existência de instituições que acolham compulsivamente todos os indivíduos que sejam condenados por tais actos. Sinceramente, mesmo sabendo que nenhum passado seria recuperado, nem que nenhuma experiência seria modificada, sem excepção ou atenuantes e sem dó nem piedade, gostava de ver sofrer dos mesmos horrores todos aqueles e aquelas (que gostaria de adjectivar, mas que a falta de vocabulário próprio me impede), que um dia assim se comportaram. Para meu bel-prazer, lenta, sádica e violentamente.

Avaliação e comentários: (até 10 valores por júri)
Betty Vidigal - Não é crônica: é um discurso para político em campanha, criticando os outros e exaltando as próprias qualidades morais (“Não poderei é ficar impávido e sereno perante tal horror. Lutarei o que puder para o combater”, etc.). Nota: 6,0
Cida Sepúlveda - Linguagem excessivamente formal. Nota: 8,0
Lorenza Costa - (falta comentário...). Nota: 9,0
Luci Afonso - Bem escrito, próximo do ensaio, mas ainda com características de crônica. Nota: 8,0
Marco Antunes - Diante do padrão português tenho alguma dúvidas para julgar, uma vez que não domino a expressão popular de Portugal, pois, as cinco vezes em que estive lá foi sempre na condição de Turista. Por isso não sei se formas como “é-nos” são de domínio popular ou erudito (como seria aqui no Brasil) pois, se não for popular, é estranho ao ambiente da crônica! O autor é piedoso e, em determinados momentos, é tanta piedade e bom-mocismo que acaba por soar para quem lê a mais legítima prática de um vício chamado cabotinismo, que, como costumo dizer, ninguém consegue, a um só tempo, dele fazer uso e ser discreto quanto a isso! Nota: 7,5
Oswaldo P.Parente - Texto pesado, de difícil leitura. Nota: 7,5
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