29 novembro 2019

a cultura da arrogância

A cultura de trabalho de Joacine Katar Moreira é uma cultura de descanso, no sentido intelectual do termo...

A propósito de mais um lamentável episódio protagonizado pela deputada do Livre na Assembleia da República, foram estas as palavras do seu assessor para justificar o pedido de segurança para a proteger dos jornalistas dentro da própria Assembleia da República. Inacreditável o episódio e palerma o comentário do assessor, armado em intelectual - o que raio é uma cultura de descanso?... qual é o sentido intelectual do termo?... Pela santa amígdala!
Passaram poucas semanas desde que foi eleita, mas desde o primeiro momento se percebeu o seu perfil e a atitude, que coadjuvada pelo seu peculiar assessor, mais parecem duas avantesmas pelos passos perdidos da Assembleia. Joacine Katar Moreira é arrogante, vaidosa e racista. E não é no sentido intelectual dos termos, mas sim nos sentidos literais dos vocábulos. Digo-o de boca cheia e sem pudor.

[eu ensino aos meus alunos a diferença entre as atitudes etnocêntricas e relativistas em cultura (faz parte do programa de uma das cadeiras que lecciono) e costumo apresentar vários exemplos ou situações para que percebam as diferenças e consigam identificar no quotidiano essas atitudes. Quando explico que o relativismo levado a um extremo se pode transformar num certo etnocentrismo invertido, procuro exemplos actuais. Este ano já tenho um excelente exemplo para esta situação: a deputada Joacine Katar Moreira e o seu comportamento fundamentalista e racista]

Lamento que o Livre esteja nesta circunstância, refém de uma agenda pessoal da sua única deputada, sem sentido e sem enquadramento político no programa do seu partido. Não será por acaso que vários dos seus membros fundadores e militantes têm abandonado o projecto.
Enfim, esperemos pelas próximas pérolas de suas excelências.

27 novembro 2019

mediascape: o seguro morreu de velho?

Este é o título da notícia no Jornal de Notícias online que eu não pude ler porque o "nónio" não me deixa. E como eu me recuso a aderir a essa coisa, fico impossibilitado de conhecer a notícia em pormenor. Em todo o caso, esse facto não me impede de reflectir sobre o noticiado.
Num primeiro momento seremos tentados a estranhar tal situação, como é que são os cidadãos que menor capacidade financeira têm, quem contratualiza mais seguros de saúde privados? Pois bem, parte da resposta estará na insuficiência declarada e atestada do Serviço Nacional de Saúde e as pessoas, fartas desse sistema e da sua incapacidade crónica, fazem o esforço financeiro para garantirem algum conforto e segurança na sua saúde. De imediato surge nova questão: Então e os cidadãos das chamadas classes altas, como garantem a sua saúde? Pagam do seu bolso a totalidade da factura, ou têm acesso privilegiado (vá-se lá saber por que meios) aos cuidados do Serviço Nacional de Saúde?
Eu, que nesta topologia imposta de hierarquização social, só a custo me consigo auto-considerar de uma classe média (daquela baixa, baixinha), possuo seguro de saúde privado há muitos anos e só quando, por ter dado aulas na escola pública tive acesso à ADSE, interrompi esse seguro. Portanto, se por um lado, o meu caso confirma a notícia, por outro lado, fico preocupado pela falência do serviço público e fico muito curioso para saber como fazem esses, os tais privilegiados deste país...

vamos LER

23 novembro 2019

mediascape: isto, isto e isto

Sascha Baron Cohen faz o discurso da sua, da nossa, vida! Ouçam.


22 novembro 2019

beautiful day


Dia de compras.
Horas felizes se adivinham.

21 novembro 2019

o mito, o símbolo e o trabalho inútil


Os deuses condenaram Sísifo a rolar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. (Camus, in O Mito de Sísifo)

Através desta metáfora, Albert Camus desenvolve neste seu livro uma reflexão sobre o absurdo e a negação da morte. Através de Sísifo, que nega os Deuses e aceita o seu destino, vivendo até à exaustão, Camus escreve sobre o desejo de esgotamento da vida, de conhecimento profundo da existência humana, consciente de todos os riscos, liberdade suprema de encarar o absurdo (morte) sem nostalgia e sem reservas.
A leitura deste ensaio filosófico não é fácil e obriga a uma atenção suplementar. Depois de alguma resistência inicial, consegui terminar a sua leitura. A determinado momento a reflexão dedica-se ao símbolo, enquanto elemento existêncial. Sem qualquer conhecimento prévio, eu diria até com alguma surpresa, essa sua reflexão encaixa na perfeição naquilo que ando a maturar, há algum tempo, sobre estas questões simbólicas. Transcrevo duas passagens em particular, cuja leitura me vai obrigar a reflectir e a reescrever, ou seja, trabalho acrescido para os próximos dias...

Um símbolo pertence sempre ao domínio do gerado, por mais precisa que seja a sua tradução, nenhum artista é capaz de lhe restituir mais do que o movimento: nunca pode ser traduzido palavra por palavra. De resto, não é mais difícil de compreender do que uma obra simbólica.
(...)
Um símbolo, com efeito, supõe dois planos, dois mundos de ideais e de sensações, e um dicionário de correspondências entre um e outro. É o léxico mais difícil de estabelecer. Mas tomarmos consciência desses dois mundos postos em contacto é situarmos-nos no caminho das suas relações secretas.
(Albert Camus, 2016:119 e 121)

19 novembro 2019

José Mário Branco


Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p'ra'qui chegar
Eu vou p'ra longe
P'ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p'ra nos dar.


No fim de uma vida, a homenagem simples ao Homem, ao Cidadão e ao Músico que tanto nos deu.

13 novembro 2019

o frio

Dizem-me, com a voz tremente, que vem aí o frio. Muito nos próximos dias. Indiferente e sereno, comento: - Deixem-no chegar, depois então tenham frio.

09 novembro 2019

democratas, dizem-se eles...

Parece mentira, deveria ser mentira, mas não é. A propósito da distribuição dos tempos a atribuir a cada bancada parlamentar, a conferência de líderes parlamentares decidiu não dar tempo aos três novos partidos com representação parlamentar, com um único deputado e, portanto, sem grupo parlamentar, no próximo debate quinzenal com o Governo. Isto aconteceu porque essa decisão teria que ser tomada por concordância de todos, só que o PS, BE, PCP e PEV rejeitaram essa possibilidade, obrigando o Presidente da Assembleia da República a remeter essa decisão para uma Comissão. Acontece ainda o facto de em 2015 ter sido decidido, em regime excepcional, dar esse tempo ao então único deputado do PAN. Portanto, não se percebe esta decisão dos referidos partidos. Estamos a falar da casa da democracia nacional, onde habitam aqueles que os portugueses escolheram como seus representantes. Pelos vistos, alguns desses eleitos acham-se no direito de silenciar e coactar outros eleitos. Inadmissível, e não adianta refugiarem-se no regimento da Assembleia. Vergonha.

08 novembro 2019

se o ridículo matasse...


- Lisboa e Portugal tornaram-se na cidade e país chave da revolução tecnológica.
- Não temos medo do futuro. Somos imparáveis. Ninguém nos vai parar.

Marcelo Rebelo de Sousa, PRESIDENTE da REPÚBLICA, no encerramento da WebSummit.

ainda a luta

Sempre oportuno, acertivo e com razão, Nuno Pacheco - o grande defensor da língua portuguesa no jornal Público - regressou ontem (7/11) à luta contra o novo Acordo Ortográfico. Aqui fica na íntegra o seu texto, onde, com razoabilidade e bom senso, demonstra a cagada em três actos que foi este Acordo. Leiam, pela vossa saúde, senhoras e senhores!

06 novembro 2019

a quem interessar


Vai acontecer de 5 a 7 de Dezembro de 2019, em Ponte de Lima e Sistelo e eu vou lá estar para falar sobre as Nomeadas em Trás-os-Montes enquanto metáforas de identidade, alteridade e tradução cultural

03 novembro 2019

viver

Estamos o dia todo no Facebook, o dia todo no Twitter. Devíamos era estar o dia todo a viver paixões, paixões de verdade: viajar, amar, comer, tomar banho no mar. Desfrutar da vida. O Twitter não é vida. A vida é o mar, o vento, o Sol, a luz, as ruas, os caminhos, abraçar as pessoas - isso é a vida.
Manuel Vilas, in LER nº 154, Verão 2019.

02 novembro 2019

bucolidades

Ainda as nozes não estão bem secas e a azáfama colectiva se concentra na apanha da castanha. Os Soutos, sacudidos pelas chuvas e ventos deste Outono, libertam os Ouriços sem resistência e os Castanheiros são, assim, despojados das suas vestes. Os chãos, caminhos e carreiros revestem-se deste verde-castanho bonito e fofo, transformando a paisagem para quem passa como eu. Pelos Soutos, durante dias e dias, pessoas curvadas e de mãos calejadas, já insensíveis à dor dos picos dos Ouriços, buscam e rebuscam a castanha. Dizem-me que há muita e boa. Eu já as provei, mas só daqui a uns dias ou semanas é que vou poder verificar a sua qualidade.
A aldeia fica sempre bonita nesta altura. O ar bucólico do seu abandono, o fumo que se eleva dos chupões e lareiras e os cheiros que viajam com os ventos, agradam-me e atraem-me. Ir à aldeia, percorrendo as estradas nacionais e municipais, através dos tons quentes outonais é um prazer que, com alegria, repito ano após ano.
Gosto sempre de cá vir.


Distraído, só por acaso reparei nesta tabuleta pendurada à porta do cabanal do Tio Malguinhas. De boa memória, velho e rijo amigo que trabalhou toda a vida na lavoura e só a morte, traiçoeira quando regressava a casa montado no seu macho, o impediu de fazer mais quando já contava para cima de nove dezenas de anos.

01 novembro 2019

o dinheiro, sempre o dinheiro

Eu quero lá saber se vão construir o novo aeroporto de Lisboa na Ota, na Costa ou no Barreiro. É-me indiferente e se não o construírem também não me importuna. Hoje, no jornal Público, o Miguel Esteves Cardoso escreve sobre esse "aero-aborto", mas não é por isso que o trago para aqui. Copio-o apenas porque se refere ao dinheiro da forma com a qual concordo e me revejo.