29 maio 2009

elementos distractivos

Dias de sol e de calor despudorado, são dias de boa disposição visual. Por onde quer que andemos os elementos distractivos parecem cogumelos, depois de uns dias de chuva primaveril, a despontar da terra fresca. Nas ruas, nos transportes públicos, nos locais de trabalho, nas universidades e, muito, nos centros comerciais, onde aqui ou ali, à esquerda ou à direita, daqui e dali surgem, para regalo da nossa vista. Nestes dias é a liberdade total para a boa e para a má carne. Depois de meses enfiadas em elásticos, meias, espartilhos e ligas, finalmente um pouco de ar fresco. Como são engraçados estes dias. Ao contrário do comum dos mortais, apesar de gostar e muito das carnes e dos elementos que distraem, eu não gosto de dias assim. A minha tiróide também não.

27 maio 2009

Feira do Livro do Porto

Aproveitando a desculpa esfarrapada de não conseguir arranjar estacionamento, escapei-me do escritório durante toda a tarde. Encostei o carro perto de uma estação do metro e, através deste, fui até aos Aliados conhecer a "nova" Feira do Livro - 79ª edição. Estava um calor infernal e a primeira crítica vai para a falta de sombra e de espaços sombra. Talvez ao final do dia e à noite seja agradável, mas durante a tarde, impossivel. Depois, os stands de cada editora e livraria para além de exíguos, não têm muito espaço para expôr os livros, o que me leva à segunda crítica, pois este formato dos stands faz com que os livros não estejam acessíveis, quer à vista, quer ao manuseamento, o que é mau para mim e para o próprio conceito do evento.
Mas no meio disto ainda consegui encontrar e comprar, com agradável desconto de 20%, alguns livros que faziam parte da minha lista de pretenções. Assim, poderei dizer que gostei de ver a Feira do Livro de regresso ao coração da cidade e que, apesar do imenso calor e da imensa falta de dinheiro, passei uma excelente tarde de veraneio.
Compras de hoje:
- Bourdieu, Pierre, 1998, O que Falar quer Dizer, Lisboa, Difel;
- Taylor, Charles, 1994, Multiculturalismo, Lisboa, Instituto Piaget;
- Pina Cabral, João e Matos Viegas, Susana de, 2007, Nomes - Género, Etnicidade e Familia, Coimbra, Almedina;
- Vasconcelos, José Leite de, 2007, Etnografia Portuguesa (volume IV), Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda;
Compras de tempos anteriores:
- Steiner, George, 2002, Depois de Babel, Lisboa, Relógio D'Água;
- Costa, Alfredo Bruto da, 2007, Exclusões Sociais, Lisboa, Gradiva;
- Cadernos de Literatura Comparada - nº 16, 2007, Paisagens do Eu: Identidades em Devir, Porto, Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa;
- Fernandes, Sónia, 2009, Sobreviver em Missão, Porto, Pista Mágica;
- Page, Martin, 2008, A Primeira Aldeia Global, Lisboa, Casa das Letras;

viver a leitura

Entre 27 de Maio e 14 de Junho, o convite é para VIVER A LEITURA nos Aliados! O coração do Porto recebe a nova Feira do Livro do Porto, adaptada aos novos ritmos de trabalho e lazer dos visitantes. Aberta a partir das 12h30, a Feira permite a visita à hora de almoço, assim como a participação de grupos escolares. Muito em breve (já) lá iremos tentar não gastar muito dinheiro (que não temos...).

26 maio 2009

concurso cronistas - 3º desafio

Desafio:
Prezado Cronista,


São oito fatos que escolhemos e, de 2 a 3 participantes, terão a incumbência de falar de cada um deles. Se está achando que vamos comparar, acertou em cheio! Vamos sim! Por isso, no mínimo 2 falarão de cada notícia.
Escolhemos esses fatos por serem inusitados e curiosos, interessa-nos não o fato em si, mas a capacidade do cronista, do bom cronista de transcender o óbvio e ver, atrás da notícia, o humor que não vimos, o lirismo que escapou de nossa observação, a simbologia que não decodificamos, a filosofia que não adivinhamos, a comparação habilidosa com outros fatos que não soubemos ver.
Como é nosso interesse olhar para o resto do mundo, não há fatos de Portugal e Brasil.
Como sempre, feito o sorteio, aguardo suas palavras.
O Editor

Sorteado - fato 2 -
Balconista expulsa ladrão com gargalhadas
Origem: Wikinotícias, a fonte de notícias livre.
10 de Março de 2005
O empregado de uma loja na cidade de Cranberry nos Estados Unidos da América frustou um assalto a mão armada com gargalhadas.
Por volta das 21h45, um ladrão mascarado entrou no mini-mercado Gordon's, localizado na rodovia Rochester. A loja estava para fechar e dentro dela havia apenas um balconista.
O ladrão, que vestia uma máscara do cão do
Mickey, Pluto, sacou um revólver e exigiu que lhe fosse entregue dinheiro da caixa registradora. Foi nesse momento, que o balconista desatou a rir.
O ladrão não reclamou, desistiu do assalto e fugiu.
O oficial de polícia de Cranberry, sargento Dave Kovach disse:"Este é o nosso primeiro encontro com o bandido Pluto".O policial também advertiu que embora tenha funcionado, não se deve esperar que essa estratégia funcione sempre. Segundo ele, pode acontecer de o bandido ser uma pessoa perigosa, viciada em heroína, por exemplo.
Crónica:
Gargalhadas e Lambidelas
Assim, confortavelmente instalado, Fred Rowe ausenta-se, diariamente, em viagens fantásticas pelo mundo que não conhece, a não ser pelas imagens da TV e da internet. Herói principal dessas aventuras, tem direito a inúmeras vidas extras que lhe permitem experimentar momentos épicos e ultrapassar obstáculos inimagináveis, que acabam inevitavelmente com o estridente despertador, que lhe lembra que tem novo dia pela frente. O seu quotidiano é constituído por uma mão cheia de rotinas que o entediam cada vez mais: de casa para o trabalho, do trabalho para o bar e do bar para casa, às vezes, cada vez mais vezes, bêbado; outras vezes, do bar para um qualquer quarto de Motel de estrada, com alguém que nunca fixa o nome ou sequer o rosto.
Fred tinha sido um jovem e promissor consultor de uma companhia de seguros, sediada em Philadelphia. Aceitara o desafio de vir para esta pequena cidade – Cranberry, do interior do estado da Pennsylvania, como responsável comercial dessa seguradora. Já lá iam mais de dez anos e aquilo que começara como uma aventura, com perspectivas de evolução na promissora carreira, acabou por se revelar um desterro eterno. Com o passar dos anos foi desanimando, acomodando-se, a sua ambição foi cedendo às comodidades e ao conforto da pacatez característica das pequenas cidades do interior dos EUA. Ultimamente, sempre que a empresa o solicitava para uma viagem para fora da cidade, era um problema que enfrentava com bastante resistência e sofrimento.
Fred vivia sozinho num pequeno, mas confortável apartamento alugado. Com um emprego estável e com um ordenado acima da média que dava para os gastos, sentia que tinha tudo quanto poderia ambicionar com a excepção da companhia de uma mulher, de quem gostasse verdadeiramente e por quem se sentisse amado também. A sua instabilidade emocional resultava dessa falta e isso, por vezes, tornava-se demasiadamente perigoso para Fred que, confundindo a realidade com a ficção, embarcava em viagens rumo ao desconhecido. Não se importava, desde que pudesse experimentar sensações que o fizessem ausentar-se da sua amargurada vida, qualquer coisa servia.
Num dia igual a outros, no seu escritório, recebe um simpático convite para ir, num final de um dia próximo, a uma festa em casa de um colega de trabalho, igualmente solteiro, mas com fama de má companhia e de gostos alternativos. Sem aceitar imediatamente o convite, deixa em aberto essa possibilidade, pois o convite sugeria algo diferente e desconhecido. Foi para casa convencido que, tendo em conta o seu estado psicológico, seria melhor não ir, pois lá encontraria um ambiente alegre e ele sentia--se imensamente deprimido. Com esse pensamento, encharcado em xanax e vodca, adormeceu.
No dia seguinte novo reforço do mesmo convite. Aí, muito ao seu jeito, lá acabou por aceder e garantir a sua presença. Condição obrigatória para poder participar na festa: levar uma qualquer fantasia animal vestida que o encobrisse totalmente, tornando-o anónimo. Mesmo achando estranho tal predicado, concordou. À falta de melhor, encontrou numa loja da cidade uma fantasia de Pluto, famoso canino e fiel companheiro do Rato Mickey.
Depois de algumas hesitações de última hora, ao ver projectada a ridícula figura que o espelho lhe devolvia e depois de uns valentes goles na garrafa de Whisky, lá encarnou a personagem e saiu de casa.
À chegada e mesmo antes de tocar à campainha, nova e derradeira hesitação, mas escutando o som vindo do interior daquela habitação, depressa se abstraiu e carregou no botão. À porta, num ápice, surgiram três silhuetas animais que, dançando e emitindo uns sons imperceptíveis, para seu espanto, roçaram seus corpos contra o seu, puxando-o para dentro de casa. Aí, o ambiente que conseguia perceber através de sua fantasia, e porque a iluminação era algo psicadélica, era loucamente irreal. Inúmeros corpos, todos disfarçados de animais, mexiam-se e remexiam-se ao som de uma música envolvente, mas hipnotizante, numa massa uniforme de movimentos que indiciavam algo que não podia acreditar ser real. Deambulou pelo meio daquela multidão, sentindo-se permanentemente olhado, tocado e amassado, por patas e garras anónimas e desconhecidas. Conseguiu chegar a um canto onde uma gata, de contornos bem vincados, servia bebidas. Pediu um Gin Tónico e na resposta recebeu não só a dita bebida, como um monumental abraço de corpo inteiro e com direito a afectuosas lambidelas. A mescla de sons, cheiros e sabores impregnavam o ar, produzindo uma atmosfera extremamente afrodisíaca e a cadência dos movimentos corporais erotizavam por demais o ambiente. Era já impensável retroceder e à medida que o dia dava lugar à noite, Fred sentia-se cada vez mais confortável e desinibido. A par de uma enorme mistura de consumos, acedia e retribuia os avanços corporais. De tempos a tempos, como que para refrear os ânimos, vinha até à rua apanhar ar e aliviar-se do ambiente saturado dos espaços interiores. Sentia-se bem, um tanto ou quanto eufórico e consideravelmente ébrio, mas a excitação sensorial levava-o a querer mais. Contudo, pouco depois e num desses momentos de recuperação, apercebeu-se que uma pequena cadela se aproximava, cheirou-o insistentemente e, colocando-se de quatro, simulou urinar bem perto de si, levantou-se, arranhou-lhe o focinho e, de seguida, afastou-se em direcção à rua. Sem conseguir perceber de imediato o que aquilo significava, resolveu seguir aquela cadela com cio, cuja bonita silhueta ia aparecendo e desaparecendo nas sombras da noite, em direcção aos carros estacionados. Num pulo, inverteu o sentido e agarrou-se ao Pluto com tal vontade, que caíram redondos num pequeno relvado de jardim. A excitação já não cabia naquela confusão de pêlos, depois de se esfregarem num abraço desajeitado, resolveram sair dali. Enquanto ela conduzia, ele não parava de mexer nela. Pouco tempo e poucos quilómetros depois, ela encostou o carro e, obrigando-o a recompor-se no seu lugar, pediu-lhe para ir a uma loja comprar bebidas, pois queria continuar a beber. Ele, mal refeito daquilo que lhe ocupava os sentidos, disse-lhe que não tinha dinheiro e que, assim vestido, não saía do carro. Ela insistiu e, fazendo chantagem, lá conseguiu convencer Fred, na pele de Pluto, a ir lá, mas continuava sem dinheiro. Descontraidamente, a cadela abre o porta-luvas e saca de lá uma arma, dizendo-lhe para a usar na loja como forma de conseguir dinheiro para comprar as tais bebidas. Ele, inicialmente não acreditou nas palavras dela e pediu-lhe para guardar a arma. Depois, incomodado pelo ousado desafio, questionou-a se falava sério e a resposta veio em forma de carícia. Pluto agarra na arma, respira fundo e, desalmado, corre em direcção à loja, onde entra com aparato, empurrando a porta com força e, verificando que a loja está vazia, aponta a arma ao empregado e exige-lhe o dinheiro que está na caixa. O empregado surpreendente e inexplicavelmente desatou em desbragadas e incontroláveis gargalhadas, o que deixou o atónito Fred desarmado e incapaz de resolver tal situação. Perante a ameaça suprema de uma arma de fogo, aquele rapaz tinha-o desmascarado apenas com gargalhadas. Naqueles instantes como que caiu em si, viu-se reduzido à sua insignificância e da mesma forma que entrara, precipitado saiu da loja. Aquelas gargalhadas, aquela humilhação deixaram-no completamente de rastos. Entrou no carro e, sem dizer palavra, devolveu a arma, despiu-se da personagem e, sem mais, regressou apressado a casa.
Encharcado em whisky e noutras coisas mais, vou eu, também, dar por terminada esta crónica e embarcar numa viagem que me levará directamente para outro dia, o de amanhã.
Avaliação e comentários: (até 10 valores por júri)
Betty Vidigal - É um conto, né? Personagem simpático, bem construído, texto bem escrito, mas definitivamente não é uma crônica! Para um conto, o tamanho tá ok. Pra uma crônica, tá enorme. (como conto daria 9). Nota: 9,0
Cida Sepúlveda - Gostei muito Mas é conto. Nota: 9,0
Lorenza Costa - Conto inspirado no fato. Nota: 6,0
Luci Afonso - Neste conto bêbado, faltam parágrafos e sobram incoerências. Nota: 7,5
Marco Antunes - Conto! Nota: 6,0
Oswaldo P.Parente - Usou a idéia para construir o conto, em vez de usar o conto para comentar a idéia. Nota: 7,5

total - 45

cemitério dos livros e da subliteratura

"O domínio da edição tornou-se permeável a esta lógica do espectáculo a partir do momento em que a indústria livreira passou a dirigir-se aos consumidores e já não aos leitores". (Excerto)
Via Twitter e João Lopes Marques, cujo perfil eu vou seguindo, li este artigo no Jornal de Notícias, assinado por Sérgio Almeida e cujo título é "Escritores por convite". Não que tenha uma opinião formada acerca deste assunto, mas este texto vem confirmar aquilo que, um dia e recentemente, um amigo me confidenciou acerca dos embustes associados ao fenómeno editorial cuja autoria são figuras mediáticas, nomeadamente, jornalistas e pivôs de televisão.

Santo Amaro


Numa depressão do terreno e afastado da aldeia foi construído um pequeno templo em honra de Santo Amaro, que em Janeiro reúne os poucos aldeões das aldeias vizinhas e de Alimonde. Ao lado desta pequena igreja, os benfeitores desta aldeia construíram uma casa de apoio ao templo. De boa construção em pedra e com todas as comodidades – um salão grande com lareira e copa, casa-de-banho e, nas imediações, à sombra de frondosas árvores um parque para merendes. Espaço aprazível, bonito e confortável, propício tanto para momentos de retiro como para momentos de alegres convívios.
Foi numa pressa, como já há muito tempo não acontecia, que viajei do Porto para este lugar, onde me aguardava um inédito e ansiado encontro de gente amiga, a propósito de uma festa de aniversário surpresa. À chegada a constatação de uma evidência: bonito lugar, uma pequena veiga, preenchida por lameiros, por grandes e frondosas árvores, por um riacho e por uma bela paisagem no horizonte. Logo me projectei a passar neste ambiente, tranquilamente, o resto dos muitos dias que espero viver.
Cheguei consideravelmente atrasado, faltando à missa e encontrando os convivas já sentados, abraçando uma enorme mesa. Num grande abraço fui recebido pelo aniversariante, que logo me apresentou aos demais e, sem demora, me fez sentar ao seu lado na mesa. Magnífico almoço de muito comida, bebida, conversa e alegria. Velhas recordações se manifestaram, ambientes e pessoas que, um dia, entre nós estiveram, mas que, em muitos casos, a minha memória não permite relembrar. Gente que, apesar de estranha, me pertence e eu a eles.
Assim estivemos o resto da tarde, entre conversas, cantigas, jogos de cartas e do fito, até ao anoitecer, hora do regresso à cidade. Fica o registo deste bonito momento que conseguiu reunir em alegria, gente que as idiossincrasias da vida foram afastando. Gente que, num outro e longínquo tempo, conviveu e percorreu os mesmos carreiros e caminhos. Resta esperar e fazer força para que outros momentos semelhantes possam vir a ter lugar.
Alimonde, 23 de Maio de 2009

20 maio 2009

concurso cronistas - 2º desafio

Desafio:
Prezado Cronista,
Diz o provérbio latino: "Ridendo castigat mores." Ou por outras palavras: "Rindo se corrigem os costumes." Peço-lhe hoje uma crônica que pretenda criticar os vícios , os erros, as atitudes, os comportamentos inconvenientes, enfim, de nossa sociedade contemporânea por meio do humor. Esteja livre para criar.
Aguardo ansioso
O Editor

Crónica:
O Senhor Humor
Provocar o riso sempre foi uma necessidade. Ninguém duvidará que todo o ser humano necessita, gosta, procura, ainda que ocasionalmente, a boa disposição através do humor. Para além disso, é mais ou menos consensual que o riso se apresenta como excelente meio pedagógico utilizado para reproduzir determinada visão do mundo e assim construir memória e a história dos vários tempos. Como tal, tem que ser lido, tem que ser entendido como um elemento relativo e subjectivo que permitirá, se quisermos, traduzir culturalmente as diferentes comunidades e sociedades, naquilo que se designa de identidades. A este propósito, trago-vos uma narrativa de uma memória que fala de um tempo moderno, que posso adjectivar de anacrónico ou mesmo arcaico. A personagem que aqui encontrarão não será propriamente um senhor e, também, não se tratará de alguém com particular humor, mas a recorrência humorística a episódios seus sobreviveram ao seu desaparecimento.
De estatura média e de corpo robusto, o Mâncio era um solteirão que entrara já na sexta década do seu tempo. Habitava um lar de humilde condição e parca arrumação. Tivera uma meninice difícil, sem o carinho de mãe ou o amparo de pai. Cedo veio viver para aquela aldeia transmontana, trazido por familiares preocupados com a sua triste sorte. Assim cresceu, mais ou menos abandonado, no seio de uma família alargada e com o estatuto de parente pobre. Bem reparava sua tia, a quem ele carinhosamente tratava por Mãe, que algo de estranho se passava com aquele rapaz. Mas nada que conseguisse perceber ou entender. À escola nunca ligou e ao trabalho só quando obrigado; o Mâncio gostava de vaguear pela aldeia e seu termo, andar atrás das perdizes, armar ratoeiras aos pássaros ou ir apanhar peixes, à mão, no ribeiro que por ali perto passava.
Mais tarde chegou o tempo de mancebo e do serviço militar. Partiu e afastou-se, pela primeira vez, do seu pequeno mundo. Ganhou asas, aprendeu e gostou de voar. Enquanto fazia a tropa viveu em Lisboa, de onde trouxe as histórias e as venturas da eterna mocidade. Nos tempos vazios viajou indigente pelo país e, depois de terminar a tropa, sem hesitar rumou para Paris, apenas com o contacto de um parente que o acolheu e orientou para um qualquer ofício, daqueles que os nativos se recusavam desempenhar, mas que os lusos emigrantes publicitavam serem especialistas. Por terras gaulesas viveu durante cerca de duas décadas até ao dia em que cansado e sentindo o corpo a ceder, resolve regressar à sua terra de adopção, onde já não encontra o lar de outrora, nem os bem queridos que sempre trouxera no coração. Como nunca casou ou teve mulher, enfrentava agora o desafio de viver uma velhice em solidão. Foi também depois desse seu regresso que Mâncio construiu a sua sui generis personagem e ganhou o eterno lugar na memória colectiva da comunidade.
Apesar de uma certa rudeza de aspecto e de uma certa esquizofrenia nos modos, era um indivíduo bem educado que usava uma linguagem fina, principalmente quando na presença do sexo feminino, a quem, com parcimónia, cumprimentava com um retirar da boina. Mâncio era aquilo que poderemos designar de mulherengo e fazia questão de se gabar do seu bom aspecto: - Se todos tibessem a minha finura!, e de todas as suas conquistas, de todos os seus romances, de todas as suas aventuras, afirmando: - Essa!?... Essa aí, foi porque eu não a quis!.. Episódios de um passado mais ou menos recente, que nunca ninguém conseguiu testemunhar ou verificar, deixando assim perceber que todos esses momentos não povoavam mais do que a sua mente. Mas a firmeza e o vigor com que manifestava a sua virilidade eram tais que, quando em ambientes embriagados pelo vinho ou aguardente que a taberna servia aos homens da terra, chegava mesmo a fazer apostas com os demais de como o seu equipamento sexual era o maior de todos.
Numa época engraçou-se por uma moça, de nome Maria. Então sismou que iria conquistá-la e sabendo que ela costumava ir com as vacas para os lameiros, resolveu impressioná-la com os seus dotes de caçador. Preparou a espingarda, foi buscar um coelho de criação e arranjou um baraço. Lá foi o Mâncio ao encontro da Maria, só que antes de se mostrar, prendeu o coelho que trazia dentro da jaqueta com o baraço a uma Carvalheira. Assim o coelho poderia movimentar-se e o Mâncio não o perderia de vista. Com o seu peculiar ar lá foi então o caçador em direcção à moça, que guardava as vacas. Quando chegou perto, a moça cumprimenta-o e pergunta-lhe:
– Então Mâncio, à caça?..
– Sim, vou ver se apanho alguma coisa…
– Não trazes nada?..
– Não. Ainda venho agora do povo…

E, de repente, olha para o sítio onde sabia estar o coelho preso, aponta a arma e dispara dois tiros. Assustada pelo forte ruído e intrigada, a moça pergunta:
– O que viste?
– Era um coelho… eu já venho… acho que o apanhei…
Apressado vai à procura da peça de caça, só que quando lá chega não viu nenhum coelho. A sua pontaria foi tal, que em vez de acertar no coelho, acertou no baraço que o prendia, podendo assim o assustado coelho fugir pelo monte. Desiludido, o Mâncio regressa para junto da moça, a quem pretendia impressionar, de mãos vazias.
– Então e o coelho? – Pergunta a moça ao Mâncio.
– Não sei! Mas que estava lá, estava!..
De regresso à aldeia lá contou a sua aventura na taberna e no dia seguinte, um vizinho lá foi saber do coelho, que acabou por ser apanhado.
Como homem solitário que era, gostava de conviver com os amigos e vizinhos. Assim e principalmente nas noites de Inverno, Mâncio ia para casa do tio Xenxo, taberneiro e seu vizinho, que o recebia junto dos tições que ardiam ao lume. Assim se aquecia e conversava com os demais, que ali se juntavam. Normalmente era um dos primeiros a chegar e, por isso, tinha sempre lugar garantido em frente ao lume. À medida que outros iam chegando, pediam-lhe: – Chega-te um pouco para lá Mâncio!.. Depois chegava outro e repetia: – Chega-te um pouco para lá Mâncio!.. Depois de uns tantos terem entrado, diz o Mâncio, já aborrecido: – Ora! Ando eu a aquecer o cu para todos!?...
Assim viveu Mâncio na sua anónima e simples condição até ao dia em que foi encontrado morto de vários dias e debaixo de sua cama. Por engano ou não antecipou-se à morte e as circunstâncias dessa tragédia permanecem envoltas em mistério, num nevoeiro de rumores incriminatórios sem culpa formalizada.

Avaliação e comentários: (até 10 valores por júri)
Lorenza Costa - Esperava que o cronista encerrasse o texto com um comentário seu. A narrativa ficou voando entre o primeiro parágrafo e uma conclusão inexistente. Nota: 8,0
Luci Afonso - Estória muito bem contada, mais para triste que para engraçada. Nota: 8,0
Marco Antunes - O autor (ou autora?) escreve muito bem, é muito saborosa a expressão, mas definitivamente também não conhece o segredos dessa alquimia de fazer humor, nem aquele mais ostensivo e franco, nem o que esperei encontrar aqui à moda machadiana, fino e demolidor! Ficou mesmo um quase conto de remoto teor humorístico. Nota: 8,0
Oswaldo P.Parente - Não é uma crônica. Nota: 6,5
total - 30,5

18 maio 2009

dia internacional dos museus

Calhando este dia comemorativo numa 2ª feira, dia de trabalho e dia em que, normalmente, os museus estão encerrados, registo a iniciativa da Câmara Municipal de Famalicão que promove um programa de comemorações até ao final do mês de Maio. Dez espaços museológicos deste concelho uniram-se para assinalar esta data sob o lema Museus e Turismo. Fica o cartaz da iniciativa. Se quiserem saber mais carreguem na imagem.

17 maio 2009

memórias em viagem

Ano após ano continuam a juntar-se, em alegres e festivos encontros, os sobreviventes da guerra portuguesa no ultramar. Recentemente, viajei bem perto de um desses grupos e, ao longo de toda a viagem entre Lisboa e o Porto, consegui ouvir perfeitamente aquilo que foram dizendo. Contaram uns aos outros, talvez pela enésima vez, histórias com 50 anos dessa extraordinária vivência que, na sua juventude, foram obrigados a partilhar e à qual a sorte lhes permitiu sobreviver.
Regressavam de mais um desses encontros. Vêem satisfeitos e bem dispostos, em amena cavaqueira que não consegue libertar-se dos ambientes africanos, das picadas e das emboscadas. Recordações carregadas de sentimentos, de nostalgias e de traumas que teimam em acompanhá-los e que, concerteza, os acompanhará pelo resto dos seus dias (senti que estes homens, na verdade, viveram a guerra toda a sua vida).
Ainda agora regressavam de um encontro e já só falavam do próximo, que só acontecerá daqui a um ano. Algo de muito forte uniu para a vida estes homens. Aquilo que irá acontecer, obrigatoriamente, é que o seu tempo findará e estes testemunhos, estas memórias e estes encontros deixarão de acontecer. Infelizmente, dirão eles e digo eu.

14 maio 2009

instantes urbanos IV

De regresso a casa, no final de mais um dia longo e, gostaria de poder dizer, proveitoso, escolho mentalmente o percurso que julgo ser o mais rápido. Indeciso guio em direcção à VCI, para então aí optar por uma das pontes. Puro engano! VCI parada, os dois lados com uma densidade automobilistica impressionante. Já não estou habituado a estas andanças... as do engata, acelera, trava, desengata, pára... Engata, acelera, trava, desengata, pára... sem fim! A minha escolha é, quase sempre, atravessar o Douro a nascente pela ponte do Freixo e hoje não foi excepção. Ao ritmo a que circulam os dois sentidos da Via Circular Interna consigo sentir cada metro do alcatrão que me levará para a outra margem.
Entretanto, aproximo-me do viaduto da Av. Fernando Magalhães e, sempre no mesmo ritmo (sempre muito parado), enquanto vou pensando na morte da bezerra, ou seja, em nada, reparo num indivíduo que mais à frente, em cima de um outro viaduto que, da dita avenida, dá acesso a um conjunto de torres habitacionais. Àquela distância pude ver no rosto desse homem, que se debruçava ligeiramente sobre a VCI, uma mescla de intriga e prazer. E foi precisamente isso que terá despertado a minha curiosidade. Como bom miúpe, só à medida que me fui aproximando é que pude perceber o que de facto ali se passava.
Quando isso aconteceu, estupidamente ou não, mas desalmado comecei a buzinar e a bracejar com o braço esquerdo fora do carro, chamando a atenção, digámos assim, dos vizinhos que me acompanhavam naquele movimento. Como não tinham ainda visto aquele sujeito, esses vizinhos olharam-me desconfiados, uns de lado, outros pelos retrovisores, mas olharam. Eu para lhes comunicar aquilo que pretendia comecei a apontar no sentido do tal indivíduo. Logo de imediato o trânsito naquele sentido, o meu, susteve-se... e o coro de buzinas foi imediato. Então não é que o fulano estava, entretida e alegremente, a aliviar a bexiga para cima dos automóveis que passavam. Ele há cada um!?.. Impávido e sereno terminou o seu serviço e, recompondo-se, seguiu seu caminho, com aquele ar desiquilibrado, mas concerteza, ar de satisfação e realização. Eu e os outros prosseguimos viagem. A Sul, o destino.

13 maio 2009

concurso cronistas - 1º desafio

Desafio:
Prezado Cronista,
Por certo poderia solicitar o que vou pedir abaixo ao nosso correspondente aí em Jerusalém, mas é provável que o resultado fosse apenas uma reportagem fria e impessoal que não contemplaria o que agora precisamos aqui na redação.
Ocorreu-me que a sensibilidade, ou o lirismo, ou o humor, ou a ironia, ou a visão filosófica de um bom cronista (categoria em que o incluo) seriam mais esclarecedores desse surpreendente fato.
Chegam-nos desencontradas notícias dos incidentes dessa manhã aí na capital da Palestina. Dizem os poucos informantes esclarecidos que um certo nazareno teria feito uma notável entrada na cidade, aclamado pelo povo. Dizem que se trata de mais um desses profetas que às margens dessas estradas hebraicas crescem como a relva... Dizem, ainda, que um tal fato teria graves repercussões junto ao Sinédrio e, principalmente, entre os homens de Roma aí sediados.
Esses parecem fatos; outros, pelo exotismo e bizarrice, mais parecem exageros e boatos de quem ouviu o galo cantar e não sabe onde: dizem que ele teria entrado na cidade triunfalmente montado em um elefante à moda dos Marajás. Dizem que a multidão gritava eufórica o nome de uma certa Rosana da qual não temos nenhuma informação. Dizem, por fim, que as pessoas tiraram as próprias roupas para forrar-lhe o caminho com esse inusitado tapete.
Bem, como notícia é de pouco interesse para o público, mas como crônica pode render uma notável página para este periódico.
Mesmo considerando que, sob a pressão dos fatos e pela urgência da expressão, cronistas são impiedosamente desmentidos pela História, em se tratando de crônica, esse é o nome do jogo, e, mesmo assim, seu testemunho todo pessoal termina por ser mais uma feição do fato; porque o contraponto disso é que, quando acerta, trasveste-se o cronista de profeta e de inventor da História.
Escolha o viés que melhor lhe aprouver e envie-nos até dia 5 pelo e-mail que já conhece a crônica sobre os eventos que há de ter presenciado aí nessa cidade que ora o abriga.
Aguardo ansioso
O Editor

Crónica:
Jerusalém – refundação de uma teogonia
As notícias que iam chegando à grande cidade, através de viajantes, de comerciantes, de militares e de mensageiros enviados pelos governantes, não só iam alimentando a curiosidade e a agitação popular, como eram recebidas e percebidas pelo poder vigente como potenciais focos de desestabilização social e de ameaça real às instituições estabelecidas. Era com crescente agitação e ansiedade que Jerusalém recebia as novas vindas do lado de fora das suas muralhas e de geografias distantes. Nas adegas, nas tabernas e nos prostíbulos por onde eu deambulava não se falava de outra coisa, num misto de curiosidade e de assombramento, mas com o devido cuidado e desconfiança. Com facilidade percebi esse ambiente intimidatório e de censura, imposto por uma legião de detractores pagos a soldo. A custo de algumas canecas de vinho, fui conseguindo sussurrar com alguns viajantes que diariamente chegavam à cidade. Foi através deles que ouvi falar pela primeira vez de um messias, filho de Deus. Foi também assim que pude perceber que o seu caminho viria a cruzar-se, em breve, com a cidade que eu também visitava.
Os testemunhos desses nómadas, viajantes e negociantes, de carácter duvidoso e com discursos mais ou menos fantasiosos, com os quais fui falando ao longo das últimas semanas relatavam-me experiências formidáveis, nunca antes vistas: da cura de enfermos à promessa de um reino no céu, da ressurreição de mortos ao despojamento de bens terrenos, da simplicidade dos modos e do verbo ao convívio e defesa dos proscritos. Práticas e discursos que facilmente atraíam indigentes, foragidos, bandidos, miseráveis e todas as hordas de marginalizados pelas sociedades, que em tumulto e anarquia o recebiam, ouviam e seguiam. Tudo isto me parecia estranho, muito estranho e, por isso, a minha curiosidade inicial deu lugar a um entusiástico interesse. Praticamente abandonei aquilo que me trouxera a esta magnífica cidade e resolvi aguardar mais uns tempos na expectativa de poder conhecer tal personagem. Assim fui ficando, adiando sine die o meu regresso ao Norte e à rotina de meu ofício.
Neste tempo de espera pude conhecer uma cidade fervilhante, agitada e confusa. Ruas inundadas de rotinas seculares e impregnadas de panóplias de odores. O dia-a-dia de Jerusalém desenrolava-se assim e, condicionado pelo meu saber, em cada olhar, em cada gesto ou palavra descobria um entendimento que se assemelhava a uma grande conspiração na qual eu interessado participava. Mas se a rua assim vivia, quem governava a cidade não se reprimia ao manifestar o seu desconforto com a eminente chegada do profeta. Os rumores que chegavam à rua e a mim, vindos do Sinédrio, esse Olimpo dos senhores de Israel, onde se sentam os juízes a conversar, a discutir e a decidir sabiamente as leis para a cidade, eram de um ambiente radicalmente tenso e de afrontamento de opiniões e perspectivas. O consenso estava dali arredado e, sendo o coração do poder simbólico da cidade, naturalmente os seus guardiões tentavam reagir e proteger o seu poder, preparando-se para a chegada do auto-denominado filho de Deus. Foi com enorme repressão que a ordem foi mantida, tentando distrair o povo com festas e oferendas.
Enfim o grande dia. Ao contrário do que é meu hábito e sem sentir qualquer maleita, tivera uma noite agitada. Acordei ainda antes da aurora. Sem nenhum afazer resolvi sair das muralhas e passear sem destino pelos campos e pomares que rodeiam ao longe a grande muralha urbana. Estava uma manhã fresca, razão pela qual estendi por mais tempo o meu passeio matinal, afastando por completo da mente a turbulência que vivenciara nesses últimos dias. Num recanto do caminho, perto de um pequeno ribeiro, decidi parar para descansar um pouco e refrescar-me. Em tranquilo silêncio e debruçado sobre o fio de água fresca, sem me aperceber, ouço uma voz perto, muito perto, perto demais e que apesar de estranha logo reconheci. Num sobressalto levantei-me e dirigi o olhar na direcção dessa voz. Num calmo e claro tom aquele indivíduo, rodeado por uma dezena de homens e mulheres, perguntou-me se podiam beber daquela água e descansar um pouco perto de mim. Estremeci e a custo consegui reagir ao deslumbramento daquela visão. Não tive qualquer dúvida, logo percebi que estava perante o profeta, aquele de quem todos falavam e acerca de quem todos especulavam. Ali, à minha frente, e a pedir-me algo…
Estupefacto fiquei durante largos minutos a observá-los e a tentar refazer-me do espanto inicial. Instalaram-se confortavelmente na erva incerta, como quem se deita na melhor das camas e assim ficaram em silêncio. Depois, remexeram nas sacolas, retiraram delas pão que distribuíram, incluindo a mim e, mesmo antes de o ingerirem, puseram-se a olhar o céu e, num murmúrio, disseram várias palavras que não percebi. Enquanto comemos aquele saboroso pão, conversámos muito. Simpatizei com ele, com seus modos calmos e tranquilos, mas não tive coragem para o confrontar com as histórias que dele ouvira e que tanto me intrigavam.
Num movimento suave e calmo todos se levantaram e se prepararam para seguir viagem. Convidou-me para o acompanhar naquele pequeno percurso. Acedi e pusemo-nos a caminho. À medida que nos aproximávamos das portas da cidade consegui perceber que o grupo crescia. Eu seguia-o de perto, apenas à distância do perímetro dos seus fiéis acompanhantes. Mesmo antes de entrarmos na cidade, fui engolido pelo mar de gente que se abeirava nos caminhos e não mais consegui aproximar-me. Segui no mesmo sentido, atropelado, empurrado e comprimido pela força centrífuga daquele movimento, mas percebia que cada vez me afastava mais e regressava à minha condição inicial. Aquilo que se passou a seguir foi indescritível: a cidade em peso nas ruas, num completo caos e desordem. Por um lado, a vontade popular de chegar perto e tocar o profeta. Por outro, a repressão das forças militares que, sem pudor ou senso, maltratavam os seus concidadãos, numa desesperada tentativa de contrariar aquela genuína vontade e manter qualquer réstia de ordem.
Enquanto cronista que continuará a vaguear por este mundo, que a cada dia parece maior, tenho por desejo conseguir transmitir-vos aquilo que os meus sentidos, com veracidade, experimentaram. Espero eu, e que os deuses me auxiliem, que tudo aquilo que o meu olhar testemunhou, nestes dias, chegue até vós e que, através da minha humilde condição e arte, consigais ter uma pequena ideia da loucura que os dias de hoje viveram. Garanto-vos que, em vários momentos, cheguei a desconfiar da minha sanidade mental, pois estas experiências foram por demais intensas, eu diria mesmo, de pura excitação individual e exaltação colectiva. Os dias de amanhã não me pertencem, não os poderei inventar, mas gostava muito de os conseguir antever e de saber o que acontecerá a este “louco”, que em nome de um Deus único, tem revolvido os paradigmas instituídos e, acima de tudo, tem posto em causa os fundamentos éticos, morais e religiosos das comunidades por onde tem passado. Tal como esse filho de Deus tem ensinado a quem o segue e escuta: a partir de agora o futuro a Deus pertence, apenas e só.

Avaliação e comentários: (até 10 valores por júri)
Betty Vidigal - Nota 6,5;
Marco Antunes - Bem escrito e interessante, pude perceber o homem de imprensa em cada palavra do cronista, construir um tal retrato e prcorrer com segurança as armadilhas do enredo proposto é tarefa para raros. Nota: 10
Lorenza Costa – É um texto correto, mas falha na transmissão daquilo que, segundo o cronista no último parágrafo, teria sido seu desejo transmitir. O encontro casual com Jesus num ambiente campestre, fora das muralhas, depois de uma noite anormal, lembra demais os clichês da literatura romântica. Nota: 8
Luci Afonso – Texto irretocável, narrativa envolvente. Nota: 9,5
Oswaldo Pullen Parente - Bem escrito e bem desenvolvido, talvez com uma erudição desnecessária para o gênero. Nota:9

total - 43

3º concurso de cronistas organizado pela Câmara dos Deputados de Brasília

Tendo tido conhecimento, através da revista LER, da abertura deste concurso para cronistas, resolvi dar uma espreitadela e inscrever-me. Nunca participei em qualquer concurso literário, ou melhor, nunca tinha colocado a minha escrita à consideração de qualquer avaliação. Fi-lo agora e estou, neste momento, a participar neste concurso. É um concurso constituido por dez etapas semanais e eliminatórias, sendo que em cada etapa é lançado um tema e um desafio aos cronistas. Neste momento estamos na segunda etapa e o resultado da primeira semana já foi conhecido. Enquanto estiver em competição, irei colocando aqui, aquilo que for produzindo e sua avaliação.

06 maio 2009

máscaras de mim

Toda a nossa vida vestimos uma máscara, ou mais. Podemos até ir mudando de máscara ao longo do nosso tempo, uma vez, duas vezes, ou ainda mais vezes. As vezes que quisermos ou pudermos. Vezes levadas por imperativos circunstânciais ou por imposições conjunturais. Parece-me quase com toda a minha certeza que, acima de tudo, vamos substituindo as nossas máscaras por razões bem mais comezinhas: os humores e amores da alma ou as dores e os vigores do coração. Enfim, as alegrias e as paciências de cada idade. Todos e em cada um dos nossos dias saímos à rua mascarados, com elas nos apresentamos e somos apresentados ao mundo. Através delas nos escondemos desse mesmo mundo e protegemos aquilo que pensamos e acreditamos ser.
A(s) minha(s) conheço-a(s) bem, muito bem. Também já as troquei algumas vezes. Aquilo que faço, digo ou escrevo, poderá não ser mais do que máscaras que me servem na perfeição para guardar para mim aquilo que sou, ou acredito ser.

05 maio 2009

sanitário do mundo

Assaltado fui, recentemente, com a notícia em forma de boato que a Cerâmica de Valadares se encontra com várias e sérias dificuldades que, a curto prazo, poderão mesmo pôr em risco a sua viabilidade futura. Foi igualmente com enorme surpresa e tristeza que ouvi dizer que, face a essas dificuldades, a administração da Cerâmica tenciona vender as actuais instalações e deslocalizar a empresa para outro local (!?).
Como valadarense que sou (assim me considero), também me vejo parte interessada no bem-estar e na qualidade da vida da comunidade. Esta situação da Cerâmica de Valadares e o seu putativo encerramento, pelo menos em Valadares, é algo que prejudicaria por demais a comunidade, não só para no que diz respeito à economia local - pelos postos de trabalho, pelas dinâmicas inerentes, pelos consumos anexos e práticas adjacentes, como também para o nome de Valadares, pelo conhecimento e, principalmente, pelo reconhecimento que a marca proporciona à Vila de Valadares.
Se podemos considerar natural quando deambulamos pelo país, e de lés a lés, dar de caras (e com outras partes do corpo) com a etiqueta de Valadares, o que, aliás, nos permite com propriedade sentir em casa… já não será tão natural depois de meia volta ao mundo continuar a encontrar, aqui, ali e acolá, essa mesma etiqueta. Não sendo um individuo muito viajado, tenho tido a oportunidade de conhecer outras geografias, umas mais, outras menos longínquas e o que me tem acontecido, frequentemente, nessas ocasiões e sempre que necessito de experimentar uma casa-de-banho é sentir-me projectado, ainda que temporária e momentaneamente, de regresso ao aconchego e conforto do lar. Não estarei a exagerar se vos disser que não me lembro de uma única viagem pelo mundo – da Jordânia a Londres, de Marrocos a Atenas ou de Paris a Moçambique, que não tivesse contacto visual ou sensorial com um qualquer utilitário oriundo, tal como eu, de Valadares.
Desconheço por completo os canais de escoamento e os mercados actuais, passados ou futuros da marca Cerâmica de Valadares. Contudo, é nesses momentos de afastamento que mais me apercebo do valor e potencial da marca e da real dimensão da globalização, naquilo que compreende a projecção de algo local para uma dimensão ou nível mundial e as implicações e repercussões que essa dinâmica globalizante provocam nas lógicas locais.
Poderão alguns até ficar ofendidos e desagradados com esta associação do nome de Valadares a essa parafernália de utensílios ou utilitários privados e públicos, normalmente entendidos como os fiéis depositários daquilo que são os excessos repugnantes que o próprio organismo humano rejeita. Mas, no que a mim me diz respeito, nada nisso me incomoda e, dignamente e com orgulho, aceito que Valadares possa ser o sanitário do mundo.
O terrível cenário de encerramento da Cerâmica traz-me também à consciência outros factos, que por (de)formação técnica me assaltam e me deixam preocupado. Sendo esta uma instituição com várias dezenas de anos de existência e com uma capacidade empregadora significativa, foram muitas as gerações de trabalhadores que por lá passaram e lá fizeram a sua vida. Foi, concerteza, lá o momento primeiro de muitas vidas a dois; muitas terão sido as famílias que de lá tiraram o seu ganha-pão, muitas vezes, a única fonte de rendimentos para famílias inteiras. Foi um espaço testemunha de muitos e diferentes tempos, foi e é, um espaço-tempo. Por lá e lá viveram-se muitas vidas e essas histórias de vida associadas a essa manufactura mereceriam um outro fim. Por outro lado, como é que a comunidade de Valadares conviveu com esta grande indústria? Qual a relação e o envolvimento da instituição na comunidade? Qual foi o papel da Cerâmica para o desenvolvimento económico, social, cultural e demográfico da comunidade? Estas seriam algumas das questões que importava colocar na busca de respostas que contribuíssem para um melhor e maior conhecimento da história da empresa e da história da própria comunidade.
Como podem imaginar haveria tanto e tanto para fazer, para dizer, para escrever acerca destes longos anos da Cerâmica. E tantas seriam as possibilidades de trabalho que tamanha empresa implicaria muito tempo e disponibilidade. Deixo-vos um só exemplo daquilo que poderia ser feito: Na década de oitenta um antropólogo estrangeiro chega a Portugal. Anonimamente radica-se numa determinada comunidade e emprega-se como operário numa grande unidade industrial. O seu objectivo é estudar essa indústria, não como elemento estranho ou exógeno, mas como parte integrante e activa de todo o processo produtivo. Ninguém da estrutura dessa empresa soube das suas reais intenções e durante o período de tempo que necessitou para fazer o seu trabalho de campo, viveu e trabalhou como qualquer outro funcionário da dita empresa. No fim, despediu-se e regressou ao seu país para aí apresentar à academia o seu trabalho.
A dúvida que me assalta neste momento, e isto porque não conheço nem tenho qualquer contacto ou acesso à administração é saber se alguém, algum dia, estudou esta grande unidade de produção!? Terá alguém recolhido e registado os inúmeros testemunhos de tantas e tantas histórias de vida daqueles que contribuíram definitivamente para o sucesso da marca e da organização!?...Não sei, mas gostava de saber. Aliás, gostava de conhecer tais trabalhos. Mais, pretendi com este texto alertar publicamente para o risco da perda de um incomensurável património material e, acima de tudo, imaterial.
(texto enviado para o Jornal Valadares & a Cidade em Foco)

04 maio 2009

o triunfo dos porcos

A seriedade do problema impõe um tom grave e preocupado, no entanto, esta pandemia provocada pela febre suína com origem no México traz consigo algo que nos remete para um sarcástico imaginário: Será que os suínos - essa espécie maldita estigmatizada por uma nomeada injusta e não verdadeira atribuída, sem consulta prévia, pelos humanos - depois de humilhações de séculos, de imundos trabalhos e extermínios em massa, terão finalmente encontrado a fórmula certa para a sua vingança final!? Irão eles, por fim, triunfar!?...