30 junho 2020

à descoberta

Aproveitando a ausência das crianças, depois de um dia de fechados em casa a trabalhar, resolvemos sair de casa para jantar. Sem vontade de ir aos lugares do costume e também porque estava a dever Sardinhas à minha mais-que-tudo, decidimos ir até à beira-rio, a São Pedro da Afurada, à descoberta das ditas Sardinhas para ela e outra coisa qualquer para mim. Depois de alguma deambulação pelas ruas e ruelas da localidade piscatória, decidimos entrar na Taberna de São Pedro. Asseada e com um simpático atendimento pedimos Sardinhas e Lulas na brasa, com salada mista, pimentos e batata a murro, regadas com verde branco da casa. Uma delicia. Ainda estávamos a meio da refeição quando começamos a sentir um delicioso, perturbante e persistente cheiro de Leite Creme Queimado que estava a ser servido com uma frequência crescente e a montra, que inicialmente estava cheia, rapidamente ficou quase vazia. Foi quando interrompi a refeição, chamei a funcionária e lhe expliquei o que estava a acontecer, ou sejam o receio que a sobremesa esgotasse antes de eu ter a oportunidade de experimentar. A jovem sorriu e sossegou-me, pedindo em voz alta ao colega, que estava no balcão, para reservar uma dose.
Foi a primeira vez que fui comer à Afurada. Vou regressar, sem qualquer dúvida, à Taberna de São Pedro em breve, mas não volto a pedir o vinho verde da casa.



o conforto


Mário Vargas Llosa no seu escritório caseiro.

28 junho 2020

matrículas e tunning


Em vigor desde Fevereiro, só agora com o desconfinamento se começaram a fazer notar as novas matrículas dos automóveis. Num esforço de aproximação ao formato dos restantes países europeus, foram várias as mudanças verificadas, sendo a mais significativa a troca dos dois conjuntos de algarismos por dois de letras. Deixou de constar o ano e mês de matrícula e desapareceram os hífens separadores entre os conjuntos alfa-numéricos.
O que é curioso e não posso deixar de referir é a pronta adesão da comunidade tunning que depressa investiu e adaptou o novo formato aos seus velhos e transformados veículos. Aliás, vêem-se mais carros velhos com estas matrículas, do que veículos novos. Enfim.

24 junho 2020

o serviço nacional de saúde

Bem sabendo não ser representativa de nada, ou quase nada, experimentei nos últimos dias mais uma situação que reforçou a percepção que já tinha do nosso SNS. Por ter a meu cargo uma pessoa idosa e com um enorme grau de dependência, frequentemente recorro aos serviços hospitalares por sua causa. Desta vez um problema inesperado e súbito levou-me ao hospital Santos Silva em Vila Nova de Gaia e ao seu pavilhão ambulatório. Já lá tinha ido para consultas externas e de acompanhamento marcadas pelos médicos das respectivas especialidades. Desta vez não tinha marcação e dirigi-me à recepção com o propósito de chegar ao contacto com as médicas que o assistiram das últimas vezes. Consegui que o vissem e, mesmo perante uma enorme afluência, face ao problema apresentado, admitiram-no, internaram-no e aplicaram-lhe a terapêutica apropriada. Ao fim de cerca de duas horas, telefonaram-me para o ir buscar, pois já tivera alta médica. Com o reforço de uma prescrição médica para os três dias seguintes, o problema foi debelado.
Desculpem-me aqueles(as) que são vítimas de maus serviços do SNS, mas eu não tenho uma única experiência negativa sempre que recorro aos seus serviços. Pode ser sorte? Pode, mas também é muita qualidade, muita dedicação e é o ideal de serviço público que eu quero continuar a pagar com os meus impostos.

I'm your man

Livro de cabeceira nestas últimas semanas, todas as noites antes de adormecer li um pouco da vida de Leonard Cohen. Sylvie Simmons escreveu várias biografias de gente famosa e neste caso, tal como ela própria admite tratou-se de escrever sobre alguém ainda vivo (edição de 2012), o que implica sempre mergulharmos na vida dessa pessoa numa escala que, provavelmente, em qualquer sociedade saudável, nos valeria sermos encarcerados numa prisão. Sem a tolerância, a confiança, a sinceridade, a generosidade e o bom humor de Leonard Cohen, este livro não seria o que é (página 567). A crer naquilo que é escrito sobre a sua vida, se é possível reduzir uma vida a cerca de 600 páginas de livro, apesar de uma existência superlativa, Leonard foi um artista que viveu fora dos círculos e hábitos do mainstream mediático e artístico. Conheço a sua obra desde a minha juventude, foi (e é) para mim uma referência poética, literária e musical. Agora conheço também um pouco melhor a sua singular e peculiar vida.


Em Julho desse ano (2016), Leonard recebeu notícia de que Marianne Ihlen estava internada num hospital, em Oslo, às portas da morte. Também ela sofria de cancro e, tal como Leonard, mantivera a sua doença em segredo. Leonard escreveu-lhe de imediato uma mensagem cheia de ternura. "Pois bem, Marianne, chegámos àquele momento em que nos sentimos muito velhos, com o corpo a cair aos bocados, e acho que muito em breve te irei seguir. Fica sabendo que caminho mesmo atrás de ti, tão perto que, se estenderes a tua mão, me parece que conseguirás pegar na minha. E tu sabes que eu sempre te amei pela tua beleza e pela tua sabedoria, mas não preciso dizer mais nada acerca disso, porque tu sabes tudo o que há para saber a esse respeito. Agora quero apenas desejar-te uma óptima viagem. Adeus velha amiga. Amor infinito, vemo-nos lá adiante, ao fundo da estrada." (página 580)

21 junho 2020

a quem interessar...

Porque continua a interessar-me e a motivar-me, eu vou assistir. É necessária inscrição, mas é gratuita.

18 junho 2020

mediascape: champions and ridiculous


Foi ontem anunciado pelo Presidente da República, no Palácio de Belém, e enquadrado pelos mais altos signatários do país - 1º Ministro, Presidente da Assembleia da República, Ministro da Educação e Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, que a fase final da Liga dos Campeões Europeus irá decorrer em Lisboa durante o mês de Agosto. Ora aí está um belo exemplo de como somos pequenos e ridículos. Eu nem sei se consigo adjectivar de populismo esta encenação toda, como se fosse uma grande notícia para Lisboa, para o país e para os portugueses, quando ainda enfrentamos uma situação preocupante de contágio, principalmente na região de Lisboa, e quando os portugueses estão ainda impedidos de regressar em pleno às suas rotinas quotidianas. Cá para mim, este evento vai ocorrer em Lisboa porque outras cidades prescindiram ou recusaram recebe-lo. Só pode.

16 junho 2020

a ironia

O coronavírus é o primeiro invasor da história dos EUA, um invasor cuja força não pode ser neutralizada pelo poderio militar dos EUA. Por ser tão novo, até lhes custa a crer que seja de facto um invasor. De tão habituados a invadir países, os EUA tiveram uma real dificuldade em se porem na pele do invadido. Perante tal invasor, revelaram a mesma debilidade que sempre imaginaram ser a dos países que invadiram, tantas vezes impunemente.
Boaventura Sousa Santos, in jornal de Letras nº 1296, Junho 2020.

13 junho 2020

11 junho 2020

a História e a sua leitura

Tenho assistido nos últimos dias, talvez semanas, a um surto de esquizofrenia mediática que se dedicou a atacar ferozmente o passado, seja nas suas dimensões espacial, temporal, personagens ou produção literária e artística. Que estupidez! Que falta de conhecimento e de senso, querer olhar para o passado com a soberba e o privilégio do século XXI!
Que se faça toda a justiça para com as minorias, para com os prejudicados ou ofendidos, sem com isso destruir o património material e imaterial que geracionalmente herdamos. Concordemos ou não, repudiemos ou não, a História não pode ser reescrita. Pode e deve ser subjectiva e relativamente interpretada. Adjectivem-no como entenderem, mas isso não elimina o passado... Fomos assassinos, fomos genocidas, fomos discriminatórios, fomos racistas, fomos cobardes e ignóbeis?! Muito bem, aceitemos e reconheçamos essa condição, mas a obra produzida, os acontecimentos, efemérides e seus intérpretes jamais serão apagados. A História é mesmo isso, com tudo o que de positivo e de negativo comporta e transporta. Aceitemo-la tal qual ela é. E isso nada tem haver com o querermos uma sociedade mais justa, livre e democrática no presente e para o futuro.

10 junho 2020

"quem não sente, não é filho de boa gente"

O meu pai, também incomodado, deu-me a ler esta página. Até eu que não sou nativo fiquei admirado com tais adjectivações. Esta prosa é de Frei Bento Domingues, num qualquer dos seus livros. Bem sei que aos olhos de um estranho qualquer lugar pode parecer ou ser pouco (nada) convidativo, mas para quem está familiarizado com a sua fruição, com os seus espaços e lugares, é difícil percepcionar tal paisagem. Deus pode até nunca ter estado em Valadares, nem ser terra de teofanias mais ou menos iminentes, mas é o lugar ao qual estou habituado há mais de três décadas e onde me sinto confortável. Ainda bem que não gostamos todos do mesmo.

04 junho 2020

03 junho 2020

mediascape:racismo

Quando alguns teimam em afirmar que existe um problema na sociedade portuguesa com os ciganos e quando outros reafirmam esse drama e a urgência em resolver definitivamente esse problema, convém reter as palavras deste presidente de câmara municipal do PS que, perante um foco de contaminação do Coronavírus num bairro social, pretende estabelecer um cordão sanitário ao prédio onde essas pessoas moram. Diz Luís de Sousa, presidente da autarquia da Azambuja, que nesse bairro social e nesse prédio moram “famílias de etnia cigana” e outras “famílias normais como nós".
Nós não temos um problema com a etnia cigana, nós temos é um racismo endémico e ontológico para com essa etnia. É uma vergonha para as instituições da República portuguesa haver responsáveis políticos, eleitos e gestores da "coisa" pública, com este tipo de discurso.
Afinal não é só o coiso a pensar e a manifestar o seu racismo, este é muito mais profundo e transversal na sociedade portuguesa do que, algumas almas ingénuas, possam pensar. Continuem a assobiar para o lado e depois admirem-se e espantem-se.

acabadinhos de chegar

01 junho 2020

resistências, inércias e receios

Bem nos dizem para sairmos de casa, retomarmos a nossa vida e reactivarmos as nossas actividades. Porém, quando saímos à rua, percebemos em todo o lado, a cada passo que damos e em cada rosto com quem nos cruzamos, que o confinamento mantém-se, pelo menos o mental. Eu percebo-o e aceito-o, pois eu também o pratico, mas retomar aquilo que suspendi em Março, assim, vai ser muito difícil.
Grande parte do trabalho que vou realizando obriga-me a visitar e frequentar bibliotecas, acervos e arquivos. Eles estão abertos, mas com fortes restrições e condicionalismos de acesso e consulta, o que dificulta o planeamento e organização das tarefas a realizar. Ainda hoje, logo pela manhã, fui a um Arquivo distrital e não consegui passar do espaço da entrada, onde conversei com a sua directora e esta me explicou que neste momento só é possível consultar presencialmente depois de agendamento na plataforma da internet do Arquivo, indicando os documentos que queremos consultar e sujeitos à confirmação e agendamento dos serviços, ou seja, são eles que determinam em que dia e hora é que nós lá poderemos ir. Assim, torna-se impossível. Vamos ver o que acontece nos próximos dias.