26 dezembro 2010

sempre simpáticos e presentes

Chegados nos últimos dias, principalmente nas vésperas de hoje:
- Berger, Peter L., 2004, A Construção Social da Realidade, Lisboa, Dinalivro;
- Rosa, Maria João Valente e Chitas, Paulo, 2010, Portugal: os números, nº 3 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Eco, Umberto, 2005, Dizer quase a mesma coisa sobre a tradução, Miraflores, Difel;
- Santos, Boaventura de Sousa (org.), 2005, Globalização - fatalidade ou utopia?, Porto, Edições Afrontamento;
- Clifford, James e Marcus, George E., 1986, Writing Culture, Londres, University of California Press;

24 dezembro 2010

as mulheres na minha vida

Foram e são poucas e quase sempre as mesmas. Lugar primeiro e último da minha existência, preciso tanto delas que não me imagino a viver sem as ter por perto. É essa proximidade que sustenta os pilares da minha estabilidade física e, acima de tudo, emocional. Ainda que não se faça sentir ou seja facilmente perceptível, acontece que são minhas e eu preciso saber isso. Sempre as reclamei com propriedade, com desfrute e com egoísmo, ainda que me julgue consciente de que serão, obrigatoriamente, partilháveis. Essas mulheres de quem eu tanto gosto têm nome próprio, mas isso não importa, pois Mãe, Mulher, Filha e Amigas serão sempre insubstituíveis e partilharão o meu tempo e espaço de mundo. Com o pensamento nelas.

22 dezembro 2010

imaginação democrática e presente

O trabalho de tradução permite criar sentidos e direcções precários, mas concretos, de curto alcance, mas radicais nos seus objectivos, incertos, mas partilhados. O objectivo da tradução entre saberes é criar justiça cognitiva a partir da imaginação epistemológica. O obejctivo da tradução entre práticas e seus agentes é criar as condições para uma justiça social global a partir da imaginação democrática.
(...)
O Objectivo do trabalho de tradução é criar constelações de saberes e de práticas suficientemente forte para fornecer alternativas credíveis ao que hoje se designa por globalização neoliberal e que não é mais do que um novo passo do capitalismo global, no sentido de sujeitar a totalidade inesgotável do mundo à lógica mercantil. Sabemos que nunca cconseguirá atingir integralmente esse objectivo e essa é talvez a única certeza que retiramos do colapso do projecto da modernidade. Isso, no entanto, nada nos diz sobre se um mundo melhor é possivel e que perfil terá. Daí que a razão cosmopolita prefira imaginar o mundo melhor a partir do presente. Por isso propõe a dilatação do presente e a contracção do futuro. Aumentando o campo das experiências, é possível avaliar melhor as alternativas que são hoje possíveis e disponíveis.
(...)
O novo inconformismo é o que resulta da verificação de que hoje e não amanhã seria possível viver num mundo muito melhor.
(Boaventura de Sousa Santos, 2002, Revista Crítica de Ciências Sociais)

21 dezembro 2010

ideias e palavras

Em Janeiro, a escolha é muito clara. Começamos a mudança ou continuamos de braços cruzados à espera que o céu nos caia na cabeça? Contentamo-nos com a resignação tecnocrática ou votamos numa visão política, positiva, de transformação? Apoio Manuel Alegre porque está na hora de voltar a acreditar na política e na mudança. De voltar a viver a política como um lugar próximo de todos, um lugar de verdade e ideias apaixonadas. Não venceremos nenhuma crise com menos do que isto. Para pôr Portugal no futuro, temos de voltar às ideias que sonham e às palavras que transformam, e fazer da política aquilo que ela é: a viva possibilidade de um sempre-começo. (Jacinto Lucas Pires, in Jornal Público - 20/12/2010)

16 dezembro 2010

à boa e antiga maneira

Bem sei que o seu aspecto não é minimamente interessante, mas acreditem que o sabor é divinal. Falo-vos dos "velhinhos" rojões feitos ao jeito da minha avó e de todas as avós de Vila Boa. Aproveitando a carne da barriga e da barbada do porco, fazem-se no pote ao lume, apenas com a gordura da própria carne. Uma especialidade que, infelizmente, ao longo dos anos tem vindo a desaparecer da minha vista e do meu paladar.
Hoje, ao chegar a casa, fui surpreendido por esta amostra vinda directamente da aldeia, especialmente para mim e para o meu pai, ou melhor e para dizer a verdade, especialmente para o meu pai e, depois, um pouco para mim e demais família... Mas como são bons. Era capaz de acabar com eles de uma vez só. A sério. Que rica merenda, três rojões bem entremeados, um naco de pão de trigo e dois copitos de tinto. Está feito. Amanhã há mais, ou não...

09 dezembro 2010

não-ditos

Facilmente revejo os dias de agora como dias de não-ditos, esses processos de integração semântica não explícita que se encontram silenciosamente inscritos nas práticas comunicacionais quotidianas. Resmas de conhecimentos implícitos que não são falados, porque não é preciso, porque se receia, porque não se acredita. É todo um mundo de associações semânticas, narrativas e definições que, apesar de raramente serem explícitas, influenciam surdamente e dirigem silenciosamente as formas como os indivíduos fazem uso das suas vidas e dos seus mundos, num processo contínuo paradoxal de desestabilização e/ou de consolidação identitária.

04 dezembro 2010

lida e bem

Nesta manhã de Sábado e aproveitando o aconchego de um café na cidade gelada de Bragança, lí de fio a pavio a revista Ler. Muitos e bons momentos - pensamentos, reflexões e escrita, dos quais destaco e sublinho as seguintes passagens:
"Quando nos cansarmos de ser educados por uma profissão, talvez possamos finalmente almejar a formar pessoas, gente."André Gago (no Sofá)
"Trinta por cento dos alunos de Letras acham que ler é um sacrifício. E é um esforço inglório. Há coisas mais saudáveis. O mundo mudou todo. Não me apetece mexer um dedo por causa disso. Seremos ilhas. Estaremos trancados entre muros. Coleccionaremos excepções. Aqui e na blogosfera há leitores muito especiais, e se calhar são esses que interessam, leitores muito especiais. Tudo isto é por causa das estatísticas, mas cada vez mais gente a ler era bem capaz de ser um absurdo." Francisco José Viegas (no Diário de Ocasião)
"O que eu acho que um escritor sério deve fazer sempre é livros sérios. Não interessa o escritor, interessam os livros. Um livro sério é um livro que quer interferir com as pessoas. É um livro que não é para aquela semana. Há aqui um combate muito forte com o mundo em que nós estamos - que já não é semanal nem diário, que com a internet é ao segundo, uma coisa quase brutal. Um dos grandes combates actuais é o combate entre a actualidade e o importante. (...) Estamos num mundo em que a questão do actual e do importante se joga minuto a minuto. (...) O problema é que esta lógica da velocidade é uma lógica opressora. A grande velocidade é muito violenta."
"... o livro é uma coisa absolutamente extraordinária. É de outro mundo e de outro tempo. O livro é outro ritmo: não é para aquele minuto, não é para aquele dia, não é para aquela semana. Nesse aspecto, tem de se lutar para se mostrar que o livro é de outro tempo. (...) Os livros sérios dizem-nos: «Calma, mais devagar, há outros ritmos possíveis.» O livro é o objecto de culto da lentidão."Gonçalo M. Tavares (entrevistado por Carlos Vaz Marques)
"Os tempos não são exaltantes, a mediania domina, as expressões que definem cada dia não nos conduzem demasiado longe. Contudo, continua a escrever-se poesia. Porque, como sugeria Luíza Neto Jorge, a poesia ensina a cair." Eduardo Prado Coelho (in A Poesia ensina a cair)