30 maio 2011

cidadãos soberanos

Uma noite destas, enquanto preparava aulas, tendo a TV ligada na SICN, pude assistir ao programa 60 minutos da CBS. Uma das reportagens era sobre os "Cidadãos Soberanos" Americanos e eu, não tendo qualquer referência sobre o assunto, fiquei curioso. Afinal o que são esses cidadãos soberanos? Pelo que pude compreender, são indivíduos que se consideram tão ou mais soberanos do que o Estado e seus representantes, ou seja, consideram-se no direito e no dever de andar armados e não respeitar as instituições do Estado, não pagam impostos, nem respeitam os políticos eleitos democraticamente. Aliás, um dos seus objectivos é abater a classe política. Sem qualquer tipo de organização militante, têm lideranças carismáticas por todo o país. Têm programas de rádio, páginas e blogues na internet por onde divulgam e difundem o seu ideário. Fiquei impressionadíssimo com a frieza e a gravidade com que alguns dos líderes entrevistados defendem suas ideias. Fiquei assustado só com a ideia da sua existência. Mesmo sabendo que os EUA são uma sociedade heterogénea e cheia de contrastes e contradições, não posso deixar de manifestar o meu desassossego e inquietação pelo perigo que representam para a nossa civilização estes radicalismos ou anarquismos. Eu que até tolero alguma agitação social, alguma resistência social perante o Estado e seus representantes, como forma de manifestação e, de alguma forma, equilibrio de poder sobre o Estado e suas instituições, não posso deixar de repudiar tais comportamentos e de manifestar o desprezo por tal ignomínia.

27 maio 2011

da feira do livro do porto e de dias anteriores...

- Pinto, Fernão Mendes (2001), Peregrinação (1º volume), Lisboa, Relógio D'Água;
- Pinto, Fernão Mendes (2001), Peregrinação (2º volume), Lisboa, Relógio D'Água;
- Magalhães, Pedro (2011), Sondagens, Eleições e Opinião Pública, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Rensch, Bernhard (1965), Homo Sapiens de animal a semideus, Lisboa, Editorial Presença;
- Trabant, Jürgen (1976), Elementos de Semiótica, Lisboa, Editorial Presença;
- Groethuysen, Bernard (1988), Antropologia Filosófica, Lisboa, Editorial Presença;
- Pitta e Cunha, Tiago (2011), Portugal e o Mar, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Sousa, Luís de (2011), Corrupção, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Marques, Sibila (2011), Discriminação da Terceira Idade, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Bento, Vítor (2011), Economia, Moral e Política, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fiolhais, Carlos (2011), A Ciência em Portugal, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;  

azeiteiro do futebol

É ele, todo ele transpira azeiteirice.
Esperei pelo final da época futebolística para escrever estas palavras. Bem sabem que não costumo, aqui, dedicar qualquer atenção às coisas da bola. Aliás, não me recordo sequer de o ter feito... Mas faço-o agora também porque não considero que aquilo a que me proponho, se trate propriamente de bola. Quero sim falar desse expoente máximo do futebolês da nossa praça.
Jorge Jesus foi campeão nacional com o Benfica na época anterior (2009/10) e desde então não deixou, a cada oportunidade que teve, de passear e demonstrar a sua condição e o seu carácter, que para já me abstenho de qualificar. Sempre que o vejo e ouço, não me consigo afastar da memória de uma famosa entrevista que deu a um canal de televisão, antes do início desta época, onde afirmava que não duvidava que seria novamente campeão nacional, que iria lutar pela vitória na Liga dos Campeões e que não acreditava na juventude de um tal de André Villasboas. Pois bem.
Sempre considerei que o mundo do futebol era constituído por gente pouco qualificada, ou dito de outra forma, sempre achei que o futebol era um mundo centrífogo para a iliteracia, para a ignorância e para o analfabetismo e, salvo raras excepções, o estereótipo do futeboleiro nacional é mesmo esse. Por outro lado, nunca gostei do futebol enquanto objecto de grande cientificidade, nem dos doutos oportunistas que, percebendo os défices reflexivos, verborreiam toda a pseudo-parafernália acerca disto e daquilo. O futebol é, assim, paixão, irracionalidade, abstracção e desqualificação e, nesta ordem de ideias, consigo enquadrar, consigo perceber o lugar de Jorge Jesus nesse universo.
Quando o vejo, em plena acção - nos treinos e nos jogos, nas conferências de impensa e nas entrevistas rápidas a mascar pastilha-elástica de boca aberta, como se não houvesse amanhã; ou quando o vejo com despeito acenar aos adversários com os dedos no ar, indicando o número de golos marcados por sua equipa, consigo entender de que massa é feita esse "grande estratega da bola"; consigo perceber o nível e a elevação do seu carácter. Sempre que o ouço, pergunto-me: não haverá ninguém da sua confiança ou relação que o aconselhe a falar menos e a utilizar apenas o vocabulário rudimentar que conhece e a não se aventurar por étimos, expressões e construções frásicas por ele jamais experimentadas!? É que chega a dar pena...
Por favor, há instituições próprias e especializadas em qualificar adultos, por exemplo as Novas Oportunidades, onde aliás, ele já está inserido, numa iniciativa de Luís Filipe Vieira para a próxima época... veremos. Na verdade, o que penso é que este futeboleiro nunca imaginou que um dia poderia ser um treinador campeão nacional. No dia em que, por artes mágicas, isso aconteceu, pensou-se no topo do mundo. Desde aí, esse mesmo mundo encarregou-se de lhe fugir e ele, incrédulo, nem sequer percebeu o que lhe sucedia.
Desconfio, e digo-o com apreensão, que ele ainda será treinador do Futebol Clube do Porto e, portanto, talvez seja melhor não abusar nas adjectivações. Mas que é o tipo azeiteiro da bola, lá isso é.

26 maio 2011

a importância do fogo

Inserido no programa de Antropossociologia, hoje foi dia de falar na evolução da espécie humana e das suas grandes fases. Nesse contexto levei para a aula este filme de 1981, que retrata o encontro civilizacional entre algumas das espécies que fazem parte da nossa árvore genealógica, nomeadamente o Australopitecus, o Homo Habilis e o Homo Erectus. Experimentando um ambiente muito competitivo carregado de brutalidade pela sobrevivência, o filme procura demonstrar a importância do fogo e do seu domínio para a sobrevivência dos indivíduos e dos grupos. Apesar das reservas, os alunos reagiram bem e quiseram ficar até ao fim...

alegria

já aí está...

Desde hoje até 12 de Junho, diariamente na Avenida dos Aliados, no Porto. Eu vou lá.

solilóquio

E agora, quem sou eu!?
E depois, o que me espera!?
...alguém se importa!?

21 maio 2011

mamíferos ou turbo-administradores

Referindo-se a um relatório produzido e divulgado pela CMVM, Francisco Louçã alerta para aquilo que é a realidade das administrações das maiores empresas portuguesas. Então não é que há vinte indivíduos - mamíferos para Eduardo Pitta e turbo-administradores para Francisco Louçã, que estão colocados nas administrações de 1000 empresas, o que dá, em média, a cada um deles cerca de 50 cargos. Um deles tem 62 nomeações e aquele que mais rendimentos tem, recebe anualmente cerca de dois milhões e meio de euros (2.500.000,00€). Tal como refere o lider bloquista, assim é fácil perceber para onde vai o nosso dinheiro, porque temos dívina, porque não cresce a nossa economia, porque há tanto desemprego... Eles são gente conhecida na praça, da televisão e da imprensa, onde regularmente botam faladura, ainda por cima douta faladura, acerca de economia. Que bem.

revolução espanhola

Impressionantes as imagens chegadas da vizinha Espanha. Inspirados pela manifestação portuguesa de 12 de Março de 2011, os espanhóis saíram para as ruas, ocupando as principais praças de muitas cidades do país, protestando pacificamente contra quem os governa e contra a imposição de uma realidade social e económica para a qual em nada contribuiram e pela qual não devem nem querem ser responsabilizados. Mesmo em periodo eleitoral e sabendo das restrições legais, milhares e milhares de cidadãos ocuparam o espaço público e garantem ficar...
Ao alto, fotografia da Praça Porta do Sol em Madrid, roubada daqui.

de pedras fez terra

A construção da auto-estrada número quatro entre Matosinhos e Bragança finalmente entrou em velocidade de cruzeiro e no percurso do actual IP4 são já visíveis e sentidas as enormes intervenções na paisagem. Nalguns pontos a futura auto-estrada vai-se sobrepor ao actual traçado do IP4, o que tem prejudicado a normal circulação neste último, tornando-o um percurso particularmente perigoso. Nestas últimas semanas o trânsito tem mesmo sido desviado para a estrada nacional 15 em vários pontos, e adivinha-se que com o avançar da obra o mesmo venha a acontecer em mais locais.
Foi precisamente esse incomodo de ter que desviar para a nacional que me permitiu passar, ao ritmo do intenso tráfego, pela localidade Jerusálem do Romeu, situada entre Mirandela e Macedo de Cavaleiros. O curioso nome desta localidade tem origem na Ordem do Hospital de São João de Jerusálem, mais tarde transformada em Ordem de Malta, que tinha uma dependência no Romeu ainda na idade média.
Sei que um dia já lá tinha passado, mas não recordava nada desse lugar. Foi com alguma surpresa que admirei a qualidade do casario que ladeia a estrada nacional, foi com curiosidade que pude contemplar alguns edifícios históricos dessa localidade e descobrir o nome de Clemente Meneres, que logo percebi ter sido alguém com bastante importância local. A verdade é que "o Romeu", tal como é conhecida, com nó de acesso e visivel do IP4, é um local muito conhecido, principalmente pelo restaurante Maria Rita, que tem fama de servir um excelente bacalhau e que, segundo consta, terá sido onde o tal Clemente Meneres, comerciante das terras da Feira (Santa Maria da Feira) se hospedou quando visitou pela primeira vez o Romeu em 1874.
Segundo pude investigar, Clemente Meneres interessou-se por este local e aqui viu oportunidades de negócio, o que o levou a investir fortemente, transformando este pequeno lugar num grande e importante centro de produção agrícola. Ainda hoje são famosos, nacional e internacionalmente, o azeite e o vinho do Romeu. Para além da relação de negócios que este empresário estabeleceu por estas paragens, foi também o seu grande benemérito, tendo investido dinheiro seu na requalificação da aldeia - casas, arruamentos e canalização de água, construiu uma escola e uma casa do povo com posto médico e salão, entre outros melhoramentos. Foi também Clemente Meneres o grande responsável pela passagem e paragem (estação) da linha do Tua no Romeu. Concerteza, por interesse muito próprio, mas que sem dúvida acabou por também beneficiar a restante comunidade. Ainda hoje, a população do Romeu não esquece o seu trabalho e a sua dedicação. Ainda com forte presença local, a família mantém o negócio, é proprietária do restaurante Maria Rita e disponibiliza um espaço museológico dedicado a Clemente Meneres e às suas actividades. Será sempre um local de visita obrigatória e ao qual eu, muito em breve quero regressar, com calma e conhecer com pormenor a bonita localidade.
(Estas fotografias foram tiradas numa destas últimas viagens entre o Porto e Bragança, aproveitando os momentâneos alívios da circulação automóvel. Estes edíficios, pareceram-me abandonados)

19 maio 2011

novas rotinas

Desde hoje e durante os próximos meses é por estes corredores do Campus Universitário da Escola Superior de Saúde do Instituto Piaget em Gulpilhares que me vão poder encontrar. Quer dizer, nestes corredores não será fácil, mas tentem nos auditórios e salas xl, daquelas que suportam mais de cem alunos. É que à vez serão sempre cerca de cento e dez alunos, ainda por cima, recém-chegados ao ensino superior e, à vez, durante quatro horas seguidas.

17 maio 2011

cambalhota epistemológica pessoal

A noite de ontem foi, passando a redundância, particularmente singular. Depois de uma viagem de ida e volta tardia entre o Porto e Bragança, para compromissos políticos e autárquicos, o sobressalto das insónias do mais que pequeno que temos em casa, obrigou-me a vigília pela madrugada dentro, praticamente até ser novo dia e começar a ouvir as aves que habitam nas redondezas nos seus afazeres madrugadores. Escusado será dizer que a manhã do dia de hoje não iria existir e dela nada recordaria, pois pretendia acumular mais algumas horas de sono. Às tantas e quando já estava bem adormecido, o telemóvel toca e desperta-me. Tento perceber quem me liga, mas o número não é reconhecivel. Faço um esforço por estar desperto, recomponho a voz e atendo. Do outro lado, uma voz feminina, objectiva e simpática, pergunta-me se estarei interessado e disponível para leccionar, em substituição, uma unidade curricular de vários cursos da Escola Superior de Saúde Jean Piaget em Gulpilhares. Muito surpreendido, mas tentando não deixar transparecer essa surpresa, disponho-me a reunir "urgentemente" com a direcção da escola, na tarde de hoje, logo depois do almoço. Ok. Combinado, avancei eu. Por já não ser propriamente um iniciado destas andanças, não criei demasiadas expectativas, e fui à reunião, imaginando que seria um de entre vários candidatos ao lugar. Reuni com a directora da escola e outra colega, que logo me apresentaram a unidade curricular em questão e a urgência desta substituição. Quiseram saber da minha disponibilidade para começar, sei lá, hoje... ok, combinado, disse eu. Pronto. Começo no próximo dia 19, depois de amanhã, com uma turma de 60 alunos e durante 4, repito, 4 horas de aula. Ok, combinado, tremi eu. Entretanto, trouxe dois sacos cheios de bibliografia da biblioteca da escola, um dossier do anterior professor e um programa para reconstruir até 5ª feira, ok, combinado, angustiado eu. Agora adeus, vou rezar, quer dizer, vou trabalhar. Sou assim e durante algum tempo, professor de Antropossociologia e de Trabalho de Campo Antropológico.

programa novas oportunidades

Regressando ao PSD e ao seu projecto de governo e de programa, foi com um sentimento ambivalente que ouvi Pedro Passos Coelho bradar contra o Programa Nacional Novas Oportunidades, afirmando que "foi uma mega produção que mais não fez do que estar a atribuir um crédito e uma credenciação à ignorância e isso não serve a ninguém". A contundência destas palavras, independentemente da sua veracidade, não são razoáveis e manifestam desde logo um enorme desrespeito por todos os homens e todas as mulheres que encontraram neste programa a única e derradeira forma de atestar as suas competências para a vida, ou seja, conseguiram assim certificar a sua experiência de vida. Além disso, o próprio nome indica a oportunidade que a escola deve sempre dar a todos e isso parece-me muito positivo, que deve ser mantido e promovido. Portanto, este ataque a este programa em concreto não será mais do que um passo numa estratégia de esvaziamento total do ensino público e, acima de tudo, todo ele transpira a um determinante e persistente “racismo intelectual” (Bourdieu), no qual se defende a escola como espaço de exclusão, ou também uma escola e um ensino para alguns e outra escola, assistencialista, para os mais necessitados.
Por outro lado, e por muito que me custe a reconhecê-lo, não posso deixar de encontrar algum sentido nessas mesmas palavras, pois sabemos bem o investimento brutal do Estado, dispendido em recursos financeiros e humanos, se comparado com o vazio programático e o fraco grau de exigência e de esforço solicitado aos alunos. Ainda por cima, e apesar disso, permitindo a equiparação aos níveis escolares do ensino básico e secundário os seus alunos, colocando-os assim às portas das universidades. Tal como alguém, com responsabilidades na avaliação externa desse programa, a propósito me confidenciava, o problema é que as directivas centrais sempre foram no sentido de alcançar determinados objectivos quantitativos em detrimento da exigência qualitativa dos seus conteúdos, e por isso, reduziram-se a números aqueles que participaram e participam nesse programa.
Enfim, a crítica que pode ser feita ao programa será a da ligeireza e da simplicidade com que os seus alunos conseguem alcançar os objectivos e as competências solicitadas. Essa mesma crítica parece-me fazer algum sentido também em relação às políticas que têm vindo a ser implementadas pelas sucessivas equipas governativas. Mais do que um espaço de socialização, a escola deveria continuar a se o espaço, por excelência, da aprendizagem e do ensino.

também tu BES!?...

No próprio dia em que a União Europeia e o EuroGrupo aprovaram os montantes e as condições do empréstimo de resgate a Portugal, assim como se ficou a saber que a primeira tranche desse empréstimo, no valor de cerca de 18 mil milhões de euros, chegará no final de Maio, o Banco Espírito Santo (BES) anuncia que solicitou ao Banco de Portugal a concessão de uma garantia do Estado Português para um financiamento através da emissão de obrigações não subordinadas de até 1,25 mil milhões de euros. Mais informou que irá realizar, no próximo dia 9 de Junho, uma Assembleia-Geral extraordinária de accionista para alterar os seus estatutos de forma a poder accionar a garantia estatal. Assim, também o BES poderá nacionalizar os seus prejuízos, transformando-se rapidamente num novo BPP ou BNP, sem que ninguém se manifeste, exigindo ao Estado, que é como quem diz, a todos nós, o pagamento desse mesmo prejuízo. Espectacular a forma como alguns encartados ganham dinheiro…

sem cultura...

Com a apresentação pública do programa eleitoral do PSD ficámos a saber algumas das ideias e projectos que este líder e sua equipa pretendem implementar em Portugal. Uma das medidas propostas foi a de um governo reduzido a 10 ministérios, o que em teoria me parece bem. O problema é quando Pedro Passos Coelho começa por dizer, tentando exemplicar essa redução drástica de Ministros e Secretários de Estado, que o Ministério da Cultura perderia o seu estatuto e passaria a Secretaria de Estado. Só podia. A cultura é sempre o “elo mais fraco” numa cadeia de interesses e de lógicas nacionais. De resto, e apesar de nem sempre ter merecido uma pasta e um ministro, a verdade é que foi sempre considerada o território das excentricidades, das futilidades e dos devaneios de uma elite cosmopolita e letrada. Igualmente entendida como um instrumento de domesticação ou de controlo daqueles que no discurso, na produção artística e na comunicação, se apresentassem desalinhados ou indiferentes ao mainstream vigente ou pretendido. A visão provinciana de todos os actores políticos com responsabilidade de governação impediu que algum dia houvesse uma verdadeira política para a cultura e para as artes em Portugal. A intervenção do Estado nunca foi pedagógica nem sensível à educação das sucessivas gerações de indivíduos enquanto receptores e consumidores de cultura, sustendo o seu âmbito na distribuição de apoios a instituições e autores que, à míngua de verbas e de sustento, viveram párias do parco apoio estatal. Assim, nunca poderá haver emancipação nem verdadeira produção cultural em Portugal. Mais, a particularidade desta proposta do PSD em fazer depender do próprio primeiro-ministro a secretaria de estado da cultura, espelha bem a tacanhez e o provincianismo de quem se julga preparado para nos governar.

14 maio 2011

senso comum

Em larga medida entendido como mera verdade das coisas que se aprende naturalmente e casualmente durante a vida, o senso comum é uma construção cultural, impragnada de valores, crenças e juízos, díspares e difusos, com conexões vagas numa rede que liga todos os membros de um determinado grupo que vive em comunidade. Apesar de se relacionar mais com a forma como se lida com um mundo onde determinados factos acontecem, do que com o mero reconhecimento de que eles acontecem, o senso comum é informado e formado pela pertença à comunidade. O senso comum não é uma faculdade extraordinária ou ditosa, mas sim uma disposição mental ou espiritual que difere de lugar para lugar, adoptando, no entanto, uma forma local bem característica. Quando nos pronunciamos com senso significa que o fizemos com critério, inteligência, discernimento e reflexão prévia, algo que, muito sincera e definitivamente, não se tem verificado naqueles que, diariamente, nos entopem e nos estragam os sentidos com as suas inolvidáveis opiniões.

09 maio 2011

o tempo da luta toda

Decorreu neste fim-de-semana, dias 7 e 8 de Maio, a 7ª Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, em Lisboa. Tal como tem acontecido desde a 4ª Convenção que aconteceu em 2005, também participei neste encontro nacional, momento maior do nosso movimento. A realização desta convenção, obrigatória estatutariamente, acontece de dois em dois anos e é nela que são eleitos os orgãos nacionais - Mesa Nacional e Comissão de Direitos - e a moção estratégica para o próximo período de dois anos. Tal como acontece desde a fundação do BE, foi a moção A intitulada "Juntar forças pelo emprego e contra a bancarrota", cujo primeiro subscritor é Francisco Louçã, quem venceu esmagadoramente e foi a lista encabeçada pelo Coordenador do Bloco quem venceu as leições para os órgãos nacionais.
A minha participação aconteceu enquanto delegado pelo distrito de Bragança, onde desempenho actividade política. Neste último biénio (2009-2011) fiz parte da Mesa Nacional para a qual fui eleito na 6ª Convenção e, também, da Comissão Nacional Autárquica. Foram duas experiências distintas, mas ambas muito interessantes e motivantes, onde pude aprender bastante: A Mesa Nacional, sendo o órgão dirigente e responsável máximo entre convenções, é onde se pode perceber o pulsar orgânico do dia-a-dia partidário e conhecer o pragmatismo da política real; A Comissão Nacional Autárquica, não sendo uma comissão eleita, mas sim nomeada, todos os activistas do BE podem participar e colaborar nesta comissão. Neste caso e tendo em conta os meus interesses pessoais e enquanto autarca eleito pelo Bloco de Esquerda, fiz questão de pertencer a esta comissão e colaborei activamente. Foi, aliás, onde me senti mais envolvido e mais necessário.
Entretanto, e regressando à 7ª Convenção, pude testemunhar, uma vez mais, a pluraridade e a diversidade que desde sempre senti e que bem caracteriza o movimento-partido que é o BE. Pude também testemunhar a vontade e a força do movimento em contrariar tudo aquilo que tem vindo a ser noticiado, tudo aquilo que tem vindo a ser agoirado e sondado em relação ao futuro do movimento. Também, no que diz respeito à democracia interna e, ao contrário daquilo que as outras moções dizem, o BE prima pela diferença e ninguém é impedido de manifestar a sua opinião. Mesmo aqueles que teimam nessa acusação, nem sequer percebem que só o podem fazer porque de facto há democracia, porque pertencem ao BE e não a qualquer outro partido. A própria democracia interna se tem responsabilizado por afirmar, por larga maioria, a força desta direcção política.
Eu, enquanto subscritor e apoiante da moção A, fiquei bastante satisfeito com os resultados desta convenção. Fiquei igualmente agradado por ter percebido, e uma vez mais, contrariando todo o mainstream mediático e opinativo nacional, que o Bloco se apresenta nestas eleições com um programa e com um elenco bem capazes de serem uma alternativa válida e credível para governar. Ao contrário de muitos e tal como alguns outros, sou daqueles que defendem que o BE não deve fugir, não deve recear a governação. Não deve recear, igualmente, experimentar entendimentos e coligações. Aqui, claro que apenas terá cabimento e eficácia quando for possivel tal acontecer, pelo menos, com o PS.
Se queremos ganhar base social para crescermos e para nos impormos na sociedade portuguesa, a governação, a boa governação é a ferramenta própria para alcançar tal objectivo. Claro que sei e estou consciente das dificuldades contextuais, mas as eleições acontecerão apenas no dia 5 de Junho e até lá "é sempre a subir".
Fui eleito, uma vez mais, para a Mesa Nacional.

(dois momentos captados pela Paulete Matos, roubados daqui)

vai uma aposta!?

Hoje são notícia as palavras do Presidente do Tribunal de Contas, nas quais Guilherme d'Oliveira Martins relembra aos portugueses que as verbas que virão para Portugal, no pacote de resgate financeiro serão geridas em Portugal e pelos portugueses e que estes deverão ser informados do destino que vier a ser dado a esse dinheiro. Disse também que “Não podemos gastar menos do que devemos nem mais do que temos” e que o grande objectivo da sua instituição é garantir a prestação dessas contas, na medida em que “o importante é que as contas públicas vão ser geridas em Portugal e o Tribunal de Contas tudo vai fazer nesse sentido”. Acredito na boa vontade, na seriedade e na competência do actual Presidente do Tribunal de Contas, mas desconfio que o provincialismo que tem governado a nação nestes últimos trinta e sete anos, uma vez mais vai fazer as "coisas", leia-se contas, à sua maneira. Aliás, se sempre nos governaram mal, porque é que agora haveríamos de confiar que algo iria ser diferente. A verdade é que são os mesmos de sempre quem se prepara para "botar" as mãos aos milhões de euros que aí vêem. Já esfregam as mãos de contentes e salivam de ansiedade. Querem uma aposta que no final disto tudo, nada do que realmente importa estará ou será melhor, o dinheiro vai-se gastar sem ninguém saber onde e que nesse tempo voltaremos a ter que pedir ajuda a alguém!?.. Eu aposto.

onde gosto sempre de regressar...

No passado dia 5 de Maio e a convite da organização, participei na Feira do Livro da Escola EB Básica e Secundária D. Afonso III em Vinhais, onde conversei com vários grupos de jovens acerca das coisas da Antropologia, da Etnografia, da identidade e da minha experiência enquanto autor. Muito bem recebido. Estarei sempre disponível para esta simpática gente.

07 maio 2011

06 maio 2011

jarolda de jogos populares

apresentação
Num jornal eminentemente dedicado ao desporto pareceu-nos importante e enriquecedor incluir um espaço semanalmente dedicado à recolha das manifestações lúdicas populares. Procuraremos recolher informações junto das populações da região transmontana - distrito de Bragança, acerca daquilo que são e, principalmente, eram as suas práticas de jogo. Práticas recreativas, mais ou menos espontâneas, cuja finalidade era e é o prazer e o divertimento, estão quase exclusivamente associadas à jarolda, ou seja, ao tempo-livre e ao tempo de descanso dos indivíduos. Contudo, também poderemos encontrar e registar jogos associados ao tempo do trabalho, mormente agrícola e pecuário, assim como a actividades fortemente imbuídas de sacralidade, quando associadas a qualquer culto ou ritual religioso. Todas estas actividades lúdicas estavam, e em muitos dos casos, estão ainda, carregadas de simbologias e significados que importa conhecer. Muito daquilo que é o ethos local, pode ser percepcionado também através do acto de jogar…
Sem qualquer intenção de procurar ou encontrar o único ou o autêntico e sem qualquer ordem pré-estabelecida ou qualquer hierarquia geográfica ou simbólica, tentaremos associar os jogos à época do ano ou período em que originalmente se joga e assim serão aqui apresentados. Objectivo último deste espaço, para além do seu carácter informativo, será a recolha etnográfica que, consideramos, importa fazer.
Procurando uma maior interactividade entre o jornal e os seus leitores, gostaríamos de vos desafiar para contribuírem e nos enviarem informações acerca dos jogos que jogam ou jogavam nos seus tempos livres e de descanso. Teremos todo o gosto em conhecer práticas lúdicas singulares e/ou extintas. Poderão sempre entrar em contacto connosco através do email jaroldeiros@gmail.com ou do nº de telefone 273300500/273329600.
A Direcção.
(publicado no Jornal Informativo Desporto, dia 3 de Maio de 2011)

04 maio 2011

03 maio 2011

road to nowhere

A propósito de uma recta de estrada fotografada e bem pelo amigo Rui Batista, sentindo a sua imensidão e a sua liberdade, permitiu-me ausentar deste lugar onde estou. De imediato veio-me também à memória a letra desta música dos Talking Heads. Verdade é que, amiúde, me dá vontade de ir, simplesmente ir, sem tino ou destino. A propósito, gostava de copiar para aqui a tal fotografia, mas o copyright não me permite, portanto espreitem aqui.

ROAD TO NOWHERE

Well we know where we're goin'
But we don't know where we've been
And we know what we're knowin'
But we can't say what we've seen
And we're not little children
And we know what we want
And the future is certain
Give us time to work it out

We're on a road to nowhere
Come on inside
Takin' that ride to nowhere
We'll take that ride

I'm feelin' okay this mornin'
And you know,
We're on the road to paradise
Here we go, here we go

We're on a road to nowhere
Come on inside
Takin' that ride to nowhere
We'll take that ride

Maybe you wonder where you are
I don't care
Here is where time is on our side
Take you there...take you there

We're on a road to nowhere
We're on a road to nowhere
We're on a road to nowhere

There's a city in my mind
Come along and take that ride
and it's all right, baby, it's all right

And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right

They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right
We're on a road to nowhere