24 julho 2026

territórios e a voragem extractivista

Debate Revista Ecossocialismo

22 de Julho de 2026 - 21 horas

Livraria Gato Vadio - Porto

Oradores: Xerardo Pereiro e Luís Vale


Intervenção


Agradecimentos:

+ público presente e a quem está a assistir a transmissão online;

+ ao Gato Vadio, pela disponibilidade e pelo acolhimento;

+ à revista Ecossocialismo pelo convite para conversar sobre este tema que, para além da sua actualidade, é algo que me é muito caro e que, assumo, me está a converter num verdadeiro activista;

+ e ao Professor Xerardo Pereiro, por ter aceitado o nosso desafio para este debate e se ter deslocado propositadamente da Galiza/Vila Real, mas também pela conversa-entrevista que me concedeu e que foi publicada, na sua versão curta ou resumida, no último número (13º) da revista Ecossocialismo;

Estamos aqui para ouvir o Professor Xerardo Pereiro falar sobre o mega projecto GAMA, da Altri, em Palas de Rei, município da província do Lugo, na Galiza e sobre a contestação, a resistência e a luta que a sociedade galega fez e que levou à derrota desse desastre em potência que era essa indústria pesada. Ainda assim, antes de viajarmos até à Galiza, gostaria de partilhar convosco algumas ideias, considerações e percepções sobre o subtítulo desta conversa “Territórios e Voragem Extractivista”...
A primeira ideia ou questão, que contextualiza tudo quanto aqui iremos conversar hoje, é a mais do que gasta designação Transição Energética, enquanto mudança estrutural do modelo global de produção e consumo, passando de combustíveis fosseis para fontes de energia renováveis (solar, eólica, hídrica)...
Carla Prino e Luís Fazendeiro escreveram artigo sobre a crise energética, no Le Monde Diplomatique, edição portuguesa de Junho de 2026, onde afirmam:

“Neste contexto, prosseguir uma política de menor dependência energética é algo que faz sentido não só de um ponto de vista climático, como económico e geoestratégico. [...] O actual modelo de mercado, desenhado no âmbito da transição energética em curso, acautela a previsibilidade dos lucros dos investidores e do grande capital, mas nada garante quanto à previsibilidade da factura da classe trabalhadora. A lógica de acumulação mantém-se...”

Como princípio, estou certo que todos nós defendemos, apoiamos e participamos nessa transição. Contudo, considero ser fundamental reflectir sobre as diferentes dimensões dessa alteração de paradigma, desde os seus custos económico-financeiros, até às suas consequências directas ou mais próximas, mas também até às suas consequências indirectas ou mais longínquas, para os territórios e suas comunidades.
Sem grande esforço, investimento ou dedicação, bastando estar atento ao que nos rodeia e às notícias da espuma dos dias, empiricamente, podemos identificar vários momentos e diferentes atitudes que nos permitirão perceber, testemunhar e comprovar a voragem extractivista que muitos territórios, principalmente os rurais, estão a sofrer.
É que estávamos habituados a associar essa voragem capitalista a outros territórios... mais urbanos, à especulação imobiliária, à especulação financeira, à indústria do turismo urbano, do entretenimento e/ou do lazer... e agora, nos últimos anos, é minha percepção que, talvez, pela saturação desses mercados ou actividades económicas, ou à crescente escassez desses bens ou recursos, temos vindo a assistir a uma deslocação do interesse de investidores e capitais para territórios afastados dos centros urbanos, dos centros de poder e de decisão, territórios maioritariamente rurais e demograficamente deprimidos, territórios desestruturados e até aqui sem grande interesse ou capacidade de atractividade de capitais e investimentos.
Por outro lado, considero importante fazer notar que durante décadas o Estado português, para além de ter desinvestido nesses mesmos territórios, através do afastamento e centralismo das suas políticas e instituições, do encerramento de serviços públicos, motivando a sua desestruturação, sempre perspectivou os territórios rurais e de interior como “Mercados Abastecedores”, nos quais vai buscar tudo quanto necessita... alimentos, matérias-primas, mão-de-obra e demais recursos: ambientais, geológicos, energéticos, etc.
Esta realidade só vem reforçar a velha certeza de que é o centro, o urbano, que determina a ruralidade, que define o rural, ou seja, o mundo rural é uma ideia, uma construção historicamente produzida a partir do urbano, consoante as suas necessidades, ambições ou imaginários.
Reparem, durante as últimas décadas, e aqui poderemos referir, desde o 25 de Abril de 1974, se não até antes dessa data, o Estado promoveu um conjunto de instrumentos legais, desde legislação, até organismos e recursos humanos e materiais, para a protecção e conservação dos territórios rurais, da floresta, das actividades agro-pecuárias, dos baldios, entre outras. Mais tarde, com a adesão à então C.E.E. e a possibilidade de obtenção de financiamentos sectoriais, incentivos e programas de apoio, o Estado português reforçou essa atitude para com esses vastos territórios...
São vários os exemplos que poderei aqui referir...
+ Criação de parques naturais (ex: Montesinho e Douro Internacional) e seus planos de Ordenamento (muitas vezes percepcionados pelas comunidades locais como coercivos e impeditivos de várias actividades humanas);
+ A Rede Natura 2000, instituída pela U.E., abrangendo cerca de 21% do território nacional, rede composta por mais de 170 áreas, e que tem por objectivo proteger habitats e espécies ameaçadas. É gerida pelo ICNF;
+ As Reservas Ecológicas Nacionais (as REN), uma restrição de utilidade pública, que protege áreas com sensibilidade ecológica, ou sujeitas a riscos naturais, como cheias ou erosões. São reguladas pelo Decreto-Lei nº 166/2008, que impõe condicionamentos severos ao uso e transformação do solo, para garantir o equilíbrio ambiental;
+ As Reservas Agrícolas Nacionais (as RAN), que restringe e protege os solos com maior aptidão agrícola, da sua utilização por actividades não agrícolas, como construções e urbanizações;
+ Sítios e paisagens Património Mundial da UNESCO, enquanto selo que distingue e impõe a sua conservação ou preservação. Em Portugal existem 17 sítios inscritos... como por exemplo: a Região Vinhateira do Alto Douro, o centro Histórico do Porto e o de Guimarães, ou os Sítios de Arte Rupestre do Vale do Côa;
+ Os GeoSítios, enquanto locais com formações geológicas com relevância histórica e que podem constar do Inventário Nacional e/ou serem património UNESCO;
Todas estas designações, instrumentos instituídos ou consentidos pelo Estado, contribuíram e muito para a construção e manutenção das paisagens naturais e culturais que hoje encontramos nos territórios.
Contribuíram igualmente para que os indivíduos, as famílias, as empresas e as organizações aí presentes ou sediadas, se especializassem em actividades económicas e modos de vida adaptados a todas essas condicionantes ou restrições impostas. E estou a falar de actividades como o turismo, a agro-pecuária, a gastronomia, a produção tradicional certificada, a agricultura, etc., etc.
Portanto, não se entende ou percebe que esse mesmo Estado permita agora, incentive, apoie e até recompense actividades económicas que ameaçam ou periguem os territórios, suas paisagens e populações, que tanto tempo demorou a construir e a manter.
Olhando para todo este cenário e para os inúmeros casos ou situações que têm sido conhecidos através dos media e das redes sociais, a primeira constatação que verifico é a crescente frequência dessas iniciativas, depois a dimensão de cada uma delas, algumas com dimensões dantescas e claramente sobredimensionadas para as realidades locais ou regionais. Mas mais, a pressão exercida por esses projectos é constante e diversificada... são várias as frentes de ataque:
· Mineração
· Parques eólicos
· Instalações fotovoltaicas
· Instalações de produção de Biometano
· Instalações Hídricas
· Assédio aos baldios e florestas

CONTESTAÇÕES / RESISTÊNCIAS / LUTAS

Cada uma destas iniciativas, que têm surgido como cogumelos pelos territórios e que, de forma variada, ameaçam os territórios, têm suscitado reacções. Reacções diversas na intensidade, na abrangência ou alcance, mas acima de tudo, na eficácia.
E isso é algo que me despertou a atenção e tem merecido o meu olhar mais atento, porque é algo que me intriga e sobre o qual gostaria de alcançar algum entendimento. Sabemos que são diferentes e difusas as lutas travadas e que a adesão a esses movimentos de contestação têm motivações heterogéneas... movimentos inorgânicos ou orgânicos, movimentos expontâneos ou estruturados, movimentos populares ou institucionais, movimentos de denúncia ou de reivindicação, etc., etc.
Mas daquilo que são as diversas reacções a estes projectos, umas com maior dimensão do que outras, umas mais discretas, outras mais sonantes ou ruidosas, interessou-me particularmente olhar para o outro lado da barricada e tentar perceber a razão, ou as razões, que levam alguns indivíduos e, em especial, os autarcas e decisores políticos, a manifestarem o seu apoio pessoal e institucional aos referidos projectos.
Ora bem, para além dos casos de polícia, como subornos ou contrapartidas pessoais que capturam autarcas e demais detentores de poder e gestão sobre os territórios, que não cabem neste exercício, o esforço reflexivo foi, e é, tentar perceber as razões que levam autarcas (Câmaras Municipais, Presidentes de Juntas de Freguesia), a aceitarem, a defenderem e a justificarem a implementação desses projectos nos territórios sob sua jurisdição, esgrimindo argumentos sobre a sua mais-valia económica e social, quando se sabe, quando é mais do que evidente, que assim não é...Eu encontro três ordens de razão para esse posicionamento:

a) AMBIÇÃO
Sendo normalmente territórios de baixa densidade, de elevada sangria populacional, com fraquíssimos índices económicos e de investimento, percebe-se um desejo, uma avidez incontrolada, mas legítima, por atrair investimentos, mão-de-obra, famílias, de forma a revitalizar e dinamizar as suas comunidades.

b) MEMÓRIA
Aquilo que terá sobrevivido na memória colectiva de muitas comunidades destes territórios e que apenas os quase centenários alcançarão por experiência própria ou próxima, foi a realidade da actividade mineira na primeira metade do século XX, que se disseminou um pouco por todo o território nacional. Nesse contexto, a realidade social e económica das comunidades do mundo rural em Portugal era, ainda assim bem distinta da actual. Penso que poderei afirmar... era uma realidade bem miserável e o aparecimento das explorações mineiras foi um balão de oxigénio para muita gente, foi a garantia de sustento e de considerável melhoria das condições de vida para muitas famílias, que até então viviam exclusivamente da agricultura de miséria em que existiam.
Ao mesmo tempo não havia ainda a sensibilidade, a consciência e até o conhecimento dos perigos e prejuízos que essa actividade acarretava, quer ao nível da saúde dos indivíduos, que em termos ambientais.
Portanto, a realidade é que esses projectos extractivos, à época, trouxeram desenvolvimento e melhoria de vida para as comunidades e essa reminiscência terá perdurado até à actualidade e pensa-se que agora o movimento ou dinâmica poderá ser o mesmo ou parecido.

c) IMAGINÁRIOS
Decorrendo ou em consequência desta memória ou reminiscência que poderá ainda existir, teremos que ponderar a possibilidade de alguns desses autarcas acreditarem, imaginarem ou projectarem que a chegada desses novos e grandes projectos significarão novo folego de desenvolvimento e melhoria das condições de vida para as suas populações.Também, ainda que queira resistir a essa ideia, poderão alguns autarcas ter como projecto para os seus territórios essa política de destruição de patrimónios naturais e culturais, considerando que o mais importante será essa atitude produtivista, em que os fins justificam todos os meios... ou ainda pior, acreditarem piamente que a tecnologia presente e a futura resolverão todos os problemas, todas as externalidades que esses projectos trarão consigo.

Para terminar e, de alguma forma, ilustrar aquilo que aqui afirmei, questionei e duvidei, trago-vos alguns exemplos que, com certeza, serão já do vosso conhecimento e sobre os quais me referirei de forma breve, realçando apenas as suas ambiguidades e contradições...

1) EXPLORAÇÕES MINEIRAS NO BARROSO
Num território protegido nacionalmente por estar localizado numa REN, parcialmente numa RAN e ser uma zona tampão da rede Natura 2000, e para além disso ser reconhecido pela FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, como Património Mundial Agrícola, o único no país, o Estado tem insistido na concretização deste mega projecto de extractivismo, combatendo a contestação social local e a luta cidadã com sucessivas decisões políticas de incentivo e servidões administrativas à empresa promotora, Savannah Resources, para a implementação do projecto de mineração.

2) ISENÇÃO FISCAL NA COMPRA DE 6 BARRAGENS do DOURO INTERNACIONAL
Um caso que se arrasta nos tribunais há anos e que apesar das decisões judiciais serem favoráveis à reivindicação dos seis municípios que reclamam o pagamento desses impostos, o Estado português tem resistido a aceitar essa decisão judicial e respectiva obrigação das empresas envolvidas no negócio, pondo mesmo a hipótese de rever toda a legislação nacional relacionada, de forma a isentar essas mesmas empresas. A questão que se coloca aqui é: quem defende o Estado português?... as suas populações e instituições ou os interesses privados nacionais ou internacionais instalados? Não se percebe este comportamento...

3) PROGRAMA SECTORIAL das ZONAS de ACELERAÇÃO da IMPLANTAÇÃO de ENERGIAS RENOVÁVEIS (conhecidos PSZAER)
Pelos vistos, o Estado português ao querer dar resposta às indicações emanadas da União Europeia que visam uma aposta na autonomia energética da Europa, construiu este programa e está a tentar implementá-lo pelo país. Acontece que este PSZAER define onde se podem instalar novos parques eólicos e solares em Portugal, de forma acelerada e, segundo a APA – Agência Portuguesa do Ambiente, sem avaliação de impacte ambiental caso a caso nessas zonas. Também não impede a concentração excessiva de projectos, não avalia os efeitos cumulativos de várias centrais e das linhas de muito alta tensão e não protege ecossistemas, nem a biodiversidade. A aceleração é tal que o projecto não teve quase divulgação pública, o período de discussão pública passou quase despercebido e terminou a 15 de Julho, não fossem os alertas de algumas associações e instituições, nem se tinha ouvido falar do PSZAER...
O certo é que o mapa que foi construído com os territórios em que será possível instalar com prioridade esses parques eólicos e fotovoltaicos cobrem cerca de 7% do território nacional e a contestação não se fez demorar. São várias as Câmaras Municipais, as Assembleias Municipais, as Juntas de Freguesia, as Comunidades Intermunicipais e organizações públicas e privadas do sector da floresta, dos baldios, da agricultura e pecuária, da silvo-pastorícia, entre outras, de Norte a Sul do país, que se pronunciaram oficial e democraticamente contra este programa e contra a possibilidade de os seus territórios serem sujeitos à implementação e instalação de qualquer um destes projectos. Uma das críticas mais recorrentes foi a forma como todo este processo decorreu e a falta de comunicação e articulação com os municípios.

4) INSTALAÇÃO de UNIDADE INDUSTRIAL de PRODUÇÃO de GÁS BIOMETANO
Foi notícia recente e chamou-me a atenção por ser precisamente um bom exemplo, eu diria o paradigma da atitude dos autarcas que acima aludi. A notícia referia-se à rejeição da Câmara Municipal de Torres Novas de um projecto de instalação numa das suas freguesias, de uma unidade industrial para a produção de gás biometano, isto é, a transformação de urina e excrementos de porco em gás biometano. A notícia é muito detalhada sobre todo o processo, mas o que nos importa aqui é referir que o projecto já fora aprovado pelo anterior executivo, aguardando apenas revisão do PDM e outros pormenores para poder ser executado. O então presidente da autarquia tratou logo de legitimar o projecto, afirmando-o como bom para o concelho, para a região e para o país. Sublinhou que iria criar muitos postos de trabalho, alguns especializados, para dar mais oportunidades aos jovens com várias licenciaturas, várias especialidades, para que não saiam do concelho... só que na realidade, segundo a própria empresa, serão criados directamente apenas cinco postos de trabalho... o mesmo autarca garantiu que está salvaguardada a questão ambiental da fábrica, pois ela não vai prejudicar com situações de cheiros ou outro tipo de complicações, graças às novas tecnologias. Delicioso, não é!?... pena é ser dramático!

Bem, penso que já terei falado demais, é tempo de passar a palavra, não sem antes vos apresentar um pequeno filme que vamos agora assistir sobre a ALTRI e o seu projecto na Galiza...

Muito obrigado pela vossa atenção.




22 julho 2026

questão pertinente, agora e sempre

"Podem acantonar-me na terrível categoria de conservador, mas pergunto-me: é desejável promover uma ruptura com séculos de uma prática em que articular ideias assentou também numa relação física entre uma caneta e uma folha de papel? Que evidência nos garante que há ganhos com o abandono dos exames físicos?"
(Pedro Adão e Silva, in jornal Público, 22 de Julho de 2026)

15 julho 2026

o meu bloco acabou

[o meu cartão de aderente, com a quota de 2005, depois mudaram o sistema de pagamento]

Foi notícia ontem a desvinculação de sessenta militantes do Bloco de Esquerda, que assinaram uma carta pública onde explicam as razões que os levaram a sair do partido. Eu sou um desses sessenta assinantes e com esta atitude dou por finda uma militância partidária que durou vinte e dois anos. Aderi ao BE em 2004, na distrital de Bragança, tendo sido eleito, logo no ano seguinte, para a Assembleia Municipal de Bragança, onde permaneci durante dois mandatos, ou seja, até 2013. No entretanto, e no partido, pertenci a várias estruturas, fui membro da Mesa Nacional, membro da Comissão Nacional Autárquica, fui cabeça de lista, pelo círculo eleitoral de Bragança, às eleições legislativas de 2009 e fui mandatário de Bragança da candidatura presidencial de Manuel Alegre, em 2011. Depois de 2013, abandonei todas as responsabilidades que tinha e passei à condição de "militante de base", mantendo-me atento a tudo o que ia acontecendo. Em 2015 ou 2016, já não sei bem, mudei a minha militância para o concelho do Porto, onde me mantive até agora. Depois de terminada a aventura da geringonça, o BE, não sei se em negação, iniciou um período de desacerto crescente e afastamento dos valores e das causas que estiveram na sua génese. Aderi à moção E, tendência interna conhecida por Convergência, que se apresentou a várias convenções com listas e moções alternativas às da maioria, sem nunca conseguir fazer valer as suas posições, mas acima de tudo, sem nunca conseguir fazer valer os seus alertas daquilo que, na nossa opinião, estava a acontecer, por culpa própria, ao partido. Enquanto membro das listas da oposição interna, cheguei a ser eleito para a concelhia do Porto, mas também aí o esforço foi inglório. Aquilo que mais me incomodou nestes últimos anos, em que o BE derivou ao centro, foi perceber que não éramos, não somos, considerados e que seria um favor que lhes faríamos, se saíssemos. Pois bem, apesar de ser algo que já estava planeado acontecer, só agora se concretizou. Lamento, pois foi a única militância partidária que tive na vida. Conheci muita gente interessante, ganhei alguns amigos e a experiência autárquica foi muito enriquecedora. Sem hesitações, se surgisse a oportunidade, voltaria a desempenhar tais funções. Quem sabe?!... A verdade é que o BE está no seu estertor e, dá-me a sensação, que ainda não se aperceberam disso. O meu bloco de esquerda acabou, e não foi só agora.

14 julho 2026

programa volta

Nos últimos tempos apercebi-me da existência de um novo equipamento nos supermercados e hipermercados e de uma grande agitação à sua volta. Num primeiro momento nem quis saber do que se tratava, mas depois, foi impossível manter-me alheado deste novo esquema de subtrair dinheiro aos nossos bolsos.
Pelos vistos este novo esquema imposto aos consumidores foi a resposta encontrada pelo Estado português para satisfazer a exigência da União Europeia para que os Estados aumentem drasticamente a recolha de garrafas de plástico até 2029. O princípio que norteia esta exigência é o de "poluidor-pagador", e eu até concordo com ele, mas logo depois, afinal sabe-se que quem polui são as empresas que inundaram o mercado com as embalagens em plástico e não o consumidor final, pois este só as compra porque essas mesmas empresas preferem o plástico a outros materiais alternativos, como por exemplo o vidro, para elas mais caro.
Também não posso concordar, nem aceitar que sejam os consumidores a suportar o ónus deste "programa", pois o valor acrescido por unidade, dez cêntimos, não será benefício para o consumidor, nem tão pouco para qualquer ideal ecológico ou ambiental. E, aqui, importa perceber quem é a entidade que gere e, claro, beneficia, com este "programa". Não é o Estado, que mais uma vez demite-se das suas funções e entrega com celeridade a privados aquilo que deveria ser sua responsabilidade. Quem está a gerir este esquema gigantesco é uma entidade privada, se não estou em erro, uma associação, de nome SDR Portugal, constituída por grandes empresas do sector das bebidas e pelos maiores grupos de distribuição do país. Interessante!... As mesmas empresas que inundam há décadas o mercado com plástico, são as mesmas que passam a controlar este sistema e tudo em nome da tão querida e ambicionada SUSTENTABILIDADE... conversa fiada, na verdade é mais um esquema de "lavagem verde".
Não suporto a ideia de esbulho aos nossos bolsos permitida pelo próprio Estado, que deveria ter criado um sistema público e com obrigações para os produtores e não para os consumidores. Uma vez mais, somos nós a contribuir para o amealhar pornográfico de apenas alguns. Esta seria uma boa iniciativa para que o Estado agisse de forma a, não só controlar e gerir, o programa, mas como também fortalecer o fundo ambiental com estas verbas.
A minha reacção a mais este abuso foi: Primeiro, evitar comprar garrafas de plástico; segundo, rejeitar esta ideia e este esquema, assumindo o acréscimo do preço; e, terceiro, boicotar este novo esquema, que espero seja um tremendo fracasso, deixando de reciclar o lixo doméstico. Lamento, mas é a forma encontrada para manifestar a minha revolta e repulsa de mais um esquema do capitalismo luso.

03 julho 2026

ao espelho


Artigo publicado na edição de 2 de Julho de 2026, no jornal Mensageiro de Bragança, em resultado da leitura de um texto de Jorge Novo, na sua coluna habitual do mesmo jornal, na edição da semana anterior (25/06/26).

01 julho 2026

troca de cromos e anti-capitalismo

Um destes dias, o meu irmão contava, à mesa do jantar, a experiência que tivera com o seu filho num evento de troca de cromos, se não estou em erro, na praça D. João I, no Porto. Há muito tempo que as colecções de cromos dos campeonatos do mundo de futebol motivam uma febre junto dos mais novos, mas também nalguns menos novos e, um pouco por todo o lado, a corrida às saquetas e aos cromos é uma autêntica loucura. Eu também já fui "obrigado" a andar em andanças parecidas, mas aquilo que está a acontecer neste momento, com o Mundial de Futebol 2026 e a colecção da Panini, é algo que nunca terá acontecido. Dizia o meu irmão que bastava ter cromos na mão para as pessoas iniciarem diálogo, trocando cromos, e eram dezenas, talvez centenas, de miúdos com os pais, a interagirem sucessivamente entre eles. Mas aquilo que mais me chamou a atenção, foi o facto dessa interacção e a respectiva troca de cromos ser realizada de forma limpa e mais do que justa, isto é, mesmo quando não havia cromos que interessassem (faltassem) a alguém, a troca directa acontecia pela escolha do mesmo número de cromos, ainda que repetidos, que poderiam ser úteis para próximas transacções. Ou seja, uma troca directa, limpa, desinteressada, não comercial e não especulativa. Claro que a Panini já vendeu e continua a vender de forma estrondosa e estes eventos paralelos não lhe criam mossa no negócio, mas não deixam de ser indícios da possibilidade de existirmos num outro contexto que não o capitalista e neo-liberal. Ao ouvir o meu irmão contar esta experiência, o meu cérebro remeteu-me para a reflexão: apesar da hegemonia e do poder do capital, sobrevivem entre nós muitas reminiscências da cultura pré-capitalista e até anti-capitalista. Pequenos nadas que preservam uma cosmovisão alternativa de organização social, em que a partilha, a troca, a igualdade e a justiça eram, e são, relevantes e estruturais nas comunidades. Que a sua simples aplicabilidade faz tremer e questiona o determinismo capitalista que nos foi imposto. Por isso, não tenho dúvida que um dia, mais cedo do que tarde, será possível vivermos sob esses princípios da autonomia e da harmonização dos recursos.

30 junho 2026

"capitalismo de desastre", claro como a água

A propósito da não actuação, quer dizer, da não reacção do Estado depois da catástrofe natural que nos infligiu no início de 2026, Diogo Duarte escreveu uma crónica no jornal Mapa (nº 49 - Abril/Junho 2026), acerca do capitalismo de desastre. Aconselhando vivamente a sua leitura, mas na impossibilidade de o reproduzir aqui na íntegra, transcreve um pequeno fragmento que demonstra na perfeição e com toda a clareza a estratégia que há décadas foi iniciada contra o sector público.

"Pelo menos no campo da resposta social, o Estado vai-se reduzindo a uma performance, a uma simulação que finge simultaneamente a sua necessidade e a sua insuficiência e onde se insurge a aparente inevitabilidade do mercado. [...] Há um paradigma subjacente, programado, em que se acelera a degradação do Estado e a afirmação do mercado como alternativa. Tem-se-lhe chamado "capitalismo de desastre".
O "capitalismo de desastre" não se verifica somente como reacção à oportunidade de retorno que surge numa catástrofe natural ou bélica. Ele revela-se também noutros desastres menos instantâneos e cataclísmicos - mas igualmente destrutivos. É especialmente evidente o caso da habitação e da saúde em Portugal, onde a demissão e degradação calculada do Estado são feitas em simultâneo com um esforço para abrir alas ao capital privado.
Como é evidente, o mercado não surge - senão retoricamente - como alternativa ou complemento ao Estado. Até porque a sua afirmação nesses sectores depende da degradação das capacidades que o Estado apresentava com relativa eficácia. E depende, obviamente, da possibilidade de retorno, quase sempre explorada através de práticas predatórias. Logo, essa afirmação do mercado no lugar do Estado não se dá de forma desinteressada, nem com o fim de suprir as necessidades das populações, e certamente não será de esperar que se revele capaz de responder de forma imediata em situações de colapso social e infra-estrutural, como acontece numa catástrofe, quando algumas das urgências mais prementes se colocam."
(Diogo Duarte, in jornal Mapa, p.6)

19 junho 2026

manguito digital

"Ler um livro em papel pode ser um pequeno acto de resistência. Optar pelo livro real ao invés do e-book pode ser bem mais do que um regresso ao passado e transformar-se num manguito digital às editoras que nos nos vendem os livros a nós e nos "vendem" às empresas de marketing - os nossos hábitos, escolhas, preferências. O livro em papel dá-nos sem pedir nada em troca; o livro digital dá-nos, levando tudo o que pode em troca."
António Rodrigues, in jornal Público, 19 Junho 2026.


Assim escreveu hoje o jornalista, numa das suas "4 esquinas". Eu nunca li um e-book (leio, consulto e cito artigos de trabalho em versão pdf no pc, mas ainda assim, normalmente, imprimo esses artigos e só depois leio, rabisco e me sirvo da sua informação), acho até que irei morrer sem nunca ler na íntegra um livro digital. Por resistência, sim, mas também pelo gosto verdadeiro do objecto físico, de o sentir nas mãos, de o ver e cheirar. Sim, irei insistir e permanecer no analógico.

15 junho 2026

mundial: pagar para ver

Olho o quadro de jogos dos diferentes grupos que estão a disputar o campeonato do mundo de futebol, a decorrer no México, EUA e Canadá, e constato com relativa indignação que quase todos esses jogos, com a excepção dos jogos de Portugal e mais um ou outro, serão transmitidos por canais fechados, que requerem uma assinatura e um pagamento. Não que eu queira assistir a qualquer jogo, para além dos de Portugal (e mesmo esses não será certo), mas sou assaltado por uma nostalgia do tempo em que os mundiais e os europeus de futebol preenchiam as nossas tardes e noites de Verão. E não foi assim há tanto tempo como isso... enfim, o desporto rei para a maioria da população mundial é, cada vez mais, um desporto para cada vez menos gente. Em tempos, aconteceu isso com a Fórmula 1, agora chegou a vez do futebol. Um dia destes, nada restará de gratuito, para além do lixo televisivo que inunda as grelhas dos canais generalistas em Portugal. A solução será, já é, manter a televisão desligada.

08 junho 2026

pobre contra pobre, mais uma vez

Já muito se disse e escreveu sobre a proposta do governo de Luís Montenegro (AD) para a criação de uma Prestação Social Única, aprovada em Conselho de Ministros e que deu já entrada na Assembleia da República. Esta proposta pretende condensar numa só treze prestações sociais, num aparente esforço de simplificação, só que não, esta proposta é muito mais do que isso e, vinda de onde vem, o pobre tem que desconfiar.
Daquilo que li e ouvi sobre a proposta e, também, do que percebi das explicações do governo, não restam dúvidas que se trata de mais um ataque aos mais pobres e desfavorecidos da nossa sociedade. Senão, vejamos:
Obriga à prestação de até 15 horas semanais de trabalho social...
Implicará cortes relativos às três prestações sociais que mais recursos consomem actualmente (97%): Subsídio de Desemprego, Pensão de Velhice e no Rendimento Social de Inserção...
Impõe limites à posse de patrimónios: móveis ou imóveis...
Para terminar, e o que mais me impressiona, é a vontade deste governo em criar um canal para denúncias de situações de fraude ou abuso, quer isto dizer, incentivar os indivíduos à delação, ou seja, a denunciarem os seus familiares, amigos, vizinhos, conhecidos ou até desconhecidos, numa prática bem conhecida de regimes de outra estirpe e que de democráticos nada têm. Bem explícito, aqui, o expoente máximo da hipocrisia social, promover a luta do pobre contra o pobre, do roto contra o descosido e do faminto contra o esganado, nas arenas sociais, deixando as elites em paz e tranquilidade nos seus Olimpos.
Para acompanhar nos próximos dias e semanas...

05 junho 2026

ao espelho, em publicação colectiva


Depois de cerca de dez anos sem participar nesta iniciativa anual da Academia de Letras de Trás-os-Montes (ALTM), regressei este ano à publicação colectiva com um texto memória sobre um peculiar artesão do concelho de Vinhais. O meu texto tem por título: "Artesão Anímico: natureza, abstracção, criação" e dediquei-o à memória do artesão David Afonso.

03 junho 2026

a ideia estapafúrdia de Agualusa

José Eduardo Agualusa, escritor angolano, afirmou recentemente que a designação "língua portuguesa" deveria ser substituída por "língua geral". Declaração proferida no Rio de Janeiro, fundamentada pelo facto de já não existir uma adequação à realidade plural e descolonizada do idioma e que a nova designação seria "expressão de um território de encontros e de afectos".
Pois bem, estamos aqui perante mais uma provocação simbólica e até reaccionária relativa à suposta propriedade da língua. De facto, a língua portuguesa nasceu em Portugal e evoluiu até hoje com os contributos da variedade cultural dos países que se expressam na mesma língua. Isto não é ser etnocêntrico, ou defensor de uma propriedade exclusiva da língua, numa atitude colonialista, pois a língua é de todos quantos a utilizam.
Depois, a proposta de Agualusa parece-me mais uma tentativa de revisionismo histórico, bem característico das narrativas pós-colonialistas que, de alguma forma, procuram a deslegitimação cultural. Mas atentemos à nova designação proposta: "geral", ou seja, "realidade plural" de uso em vários países e comunidades. Certo, mas isso não acontece com outras línguas como o Castelhano, o Inglês e o Francês?!... Todas estas outras línguas são veículos de comunicação de diferentes comunidades e países, em diferentes latitudes, e nem por isso, sentem a necessidade de alteração as suas designações. Todas elas, assim como o português, são planetárias e são já "territórios de encontros e de afectos". Não faz qualquer sentido esta ideia de José Eduardo Agualusa.

privatização das praias portuguesas

Não é novidade a tentativa de tornar privado aquilo que é um bem colectivo. A lei portuguesa é bem explícita ao afirmar as praias como um bem de domínio público marítimo, de livre e gratuita utilização (Decreto-Lei nº 97/2018) e, por isso, não se compreende como é possível que algumas corporações privadas consigam transformar parcelas de costa portuguesa em espaços de exclusão e de acesso limitado à população. Foi notícia ontem que os proprietários da Herdade da Comenda, em Setúbal, reclamam em tribunal a titularidade de cinco praias. Já eram conhecidos outros casos, como no concelho de Grândola, onde acessos a determinadas praias são condicionados e até impedidos por diferentes tipos de barreiras. Eu, que até não gosto de praia e não as frequento, considero inadmissível que o Estado português permita qualquer excepção à Lei e à liberdade de circulação de pessoas pelo vastíssimo areal da nossa costa. Inadmissível.

02 junho 2026

freguês

Não poderei negar a satisfação que sinto ao assinalar anualmente o meu aniversário, pois isso significa desde logo que ainda por cá ando, mas ao mesmo tempo, admito que nesses dias a disposição não é a melhor, nem alegria ou optimismo. Não será uma condição depressiva momentânea e cíclica, mas também não conseguirei traduzir para palavras o que sinto por estes dias. Para além da consideração daqueles que orbitam perto e que constituem o meu universo existencial, que fazem questão de me felicitar, nada de extraordinário acontece fora das rotinas quotidianas. Saber que existimos numa constelação de pessoas e que não estamos sozinhos é muito reconfortante, apesar de apreciar superlativamente estar sozinho, numa espécie de solidão voluntária, em especial a cada dia 26 de Maio.
Curiosidade, hoje, e porque inesperado e sem precedentes, recebi uma mensagem de texto no meu telemóvel, da Junta de Freguesia do sítio onde resido. Finalmente, e depois de mais de cinco décadas, sou considerado freguês e com deferência. Não sei como julgar esta nova atitude, mas espero que assim acontece com os demais fregueses desta localidade.

[ escrito a 26 de Maio de 2026 ]

01 junho 2026

de mansinho, até um dia...


A notícia é do jornal Público, edição deste primeiro dia de Junho. O Governo decidiu que o imposto sobre as bebidas adicionadas de açúcar (refrigerantes), conhecido como o imposto "Coca-cola", no orçamento de 2026, sem ter havido qualquer debate, deixará de ser consignado à saúde, ou ao SNS. Ainda segundo a mesmo notícia, este imposto, só em 2025, rendeu 60,6 milhões de euros, e desde 2017, quando foi criado com o objectivo de contribuir para a sustentabilidade do SNS, já rendeu 533,2 milhões de euros.
Um outro imposto, o do tabaco, que também era consignado ao SNS, sofreu uma alteração na fórmula de cálculo, o que significou uma redução de 153 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde.
Pois é assim, de mansinho, mas com acertividade, que este Governo tem promovido a descapitalização do SNS. Passo a passo vai-se minando e esvaziando, até o dia em que vai ser plenamente justificado promover a sua privatização. A ambição destes senhores, não tenho dúvidas, é, e será, essa.

29 maio 2026

desígnio existencial

"os tempos não vão bons para quem tem fé na racionalidade"

Na sua última crónica no suplemento Ípsilon do jornal Público (22 Maio), Ana Cristina Leonardo começa o seu texto com a citação acima transcrita e logo enfiei a carapuça, pois olhando-me ao espelho, neste caso retrovisor, isto é, relembrando-me jovem de vinte a trinta anos, acho que o meu comportamento, a minha atitude e as decisões que assumia sempre se basearam mais pela emoção do que pela razão, e ainda que possa hoje dizer que não me arrependo de algo que me tenha acontecido, com o passar dos anos e décadas, à medida que fui crescendo e amadurecendo, a razão foi ganhando espaço, relevância e influência, em mim e na minha vida. Hoje, depois de mais de cinco décadas de emoções, posso afirmar que tenho uma profunda fé na razão humana e que essa racionalidade foi, e é, indiscutivelmente, a marca de água que permitiu a cada ser humano ser o que é, mas também possibilitou vivermos com o conforto, a saúde e o bem estar que actualmente podemos (quase) todos usufruir. Percebi logo o alcance do raciocínio da autora e também estou ciente do novo mundo que me rodeia e dos perigos que ele representa para pessoas como eu. Resta-me persistir naquilo que considero ser um desígnio existencial: ambicionar, contribuindo, um mundo mais justo.

27 maio 2026

lugares de conhecimento

"Já reparaste que o centro da universidade eram o Livro e a Biblioteca? Ninguém parece querer aceitar até que ponto a revolução digital dinamitou a ideia de escola e de universidade. Não foi apenas "esta" escola e "esta" universidade que foram dinamitadas. Foi mesmo "a Escola" e "a Universidade" em geral como lugares de conhecimento. Para todo o sempre. O conhecimento passou a estar no ecrã. Foi um tiro no porta-aviões. Caros amigos, acabou. Virá outra coisa, certamente. Mas será outra coisa."
André Canhoto Costa, in revista LER nº 176: 2025/26: 96)

15 maio 2026

pensar significa sofrer

Numa conversa informal nos corredores da Universidade de Coimbra, uma colega jovem investigadora comentou, como quem pensa alto ou em jeito de desabafo, que se sente mentalmente muito cansada e que às vezes, ao frequentar determinados estabelecimentos comerciais, olha para as funcionárias e sente inveja da sua aparente despreocupação e da sua monótona ou repetitiva tarefa manual. Eu ouvi-a e logo rebati essa ideia ou percepção, primeiro porque não fazemos a mais pequena ideia do que vai na "alma" de cada um dos indivíduos, neste caso trabalhadores e, depois, não é pelo facto de as tarefas ou funções serem exclusiva ou parcialmente manuais, que impede o cérebro de estar congestionado com mil e uma preocupações ou inquietações.
Mas este desabafo da colega, numa expressiva e ilustrada manifestação do seu cansaço mental, remeteu-me igualmente para a afirmação de Ludwig Wittgenstein (1889-1951), filósofo austríaco que dizia, mais ou menos, isto: não é possível pensar sem infligirmos a nós próprios algum sofrimento...
Estaria então a minha colega em sofrimento por tanto pensar?!... Se assim for, eu também vivo em permanente sofrimento, muitas vezes imperceptível ou inconsciente, mas nalguns dias bem vivo e ciente, na medida em que a idiotice não cessa e acordo quase diariamente já cansado.

07 maio 2026

incompreensível especulação

Numa recente deslocação a Trás-os-Montes, viajei de Bragança para Miranda do Douro, via Alcanices (Zamora), aproveitando para espreitar o preço dos combustíveis. Ao regressar de Miranda do Douro para Bragança, com o depósito mais vazio e depois de na ida ter confirmado a enorme diferença de preços, não hesitei em parar e pedir para atestar o depósito. Nessa altura, cá em Portugal o combustível que consumo, a Gasolina 98, estava a ser vendida a dois euros e vinte e qualquer coisa cêntimos por litro. Em Espanha nesse dia, paguei pela mesma gasolina, um euro e setenta e um cêntimos por litro. Portanto, uma diferença de menos cerca de cinquenta cêntimos por litro.
Como é possível tamanha diferença?... Como se justifica entre países vizinhos e que se abastecem nos mesmos mercados petrolíferos, existir tal amplitude de preço para o consumidor final? Só pode ser entendido como um esbulho que o Estado Português pratica e permite que as gasolineiras assim se comportem. Num tempo em que estas apresentam lucros estratosféricos, eu diria, indignos, o Governo (Estado) limita-se a encolher os ombros e a demitir-se do seu papel de regulador, debitando titubeante medidas avulsas e sem verdadeira vontade de se imiscuir nestes assuntos. O exemplo claro desta atitude é o anúncio da ponderação de criação de um imposto extraordinário sobre os lucros extraordinários que alguns agentes económicos estão a alcançar neste contexto de acumulação de várias crises à escala global. Mas, se podemos aceitar a ideia dessa taxação extra, também é verdade que essa ponderação significa o reconhecimento de uma situação anormal, incorrecta, especulativa de aplicação de preços no mercado português, portanto, mais do que taxar lucros, o correcto seria actuar a montante, ou seja, controlar os preços dos produtos que estão, neste contexto, sujeitos a maior pressão. Bastaria vontade e determinação de quem tem o poder para tal.


[ fotografia que tirei no posto da Repsol de Alcanices, no dia 1 de Maio de 2026, ao abastecer de Gasolina 98 ]

21 abril 2026

ao espelho

Participei nas III Jornadas dos Rituais Ancestrais, em Bemposta, concelho de Mogadouro, no dia 18 de Abril. Um momento integrado na 6º Encontro Internacional de Rituais Ancestrais. Eis alguns momentos dessa participação...





( Fotografias de Carlos Pedro )

16 abril 2026

irritação na tiróide



Ontem de manhã, ao folhear o jornal Público fixei-me nesta notícia e logo senti um incómodo na tiróide que, foi-se acentuando até se transformar numa forte irritação. É sempre a mesma conversa, sempre um plano inclinado, quando se tem a pretensão de re-educar as massas. Ao abrigo da narrativa eco-sustentável e de combate à crise climática, o discurso repete-se até à náusea: o sistema alimentar global actual é uma das principais causas da crise climática e responsável por milhares de mortes em Portugal... temos que reduzir ou mesmo abandonar o consumo de carnes vermelhas... o seu consumo é claramente excessivo em Portugal, blá, blá, blá...
Mas pior é a sugestão que este especialista em sistemas alimentares, saúde e clima, apresenta para mitigar o referido problema: a adopção da dieta planetária - de base vegetal: fruta, legumes, cereais integrais e leguminosas - e retirar dos menus das cantinas das Escolas Públicas a carne de Vaca (e em que escolas é que ela é comida?!...), pois, segundo afirma, "a mudança não pode ser deixada apenas às escolhas individuais", mas sim, deve ser imposta pelo "saber científico" e pelas elites que tudo podem e a quem não é vedada a escolha das suas dietas. Enfim, mais uma vez, a estratégia proposta é restringir o consumo de carnes vermelhas às classes mais desfavorecidas, para que essa minoria privilegiada possa manter as suas quotas de consumo dessas boas, nutritivas e apetitosas carnes.
Toda esta conversa, relembrou-me a outra luminária que, em tempos, afirmou publicamente que "as pessoas" não podem comer bifes todos os dias...