29 outubro 2026

metodologia etnográfica e inteligência artificial

Enviei recentemente um texto à consideração para ser publicado numa revista nacional. Trata-se de uma pequena reflexão crítica sobre os processos de activação patrimonial em Trás-os-Montes, que foi aceite pela revista e da qual recebi, passados não muitos dias, talvez uma semana, um email agradecendo o texto e, em anexo ao email, o meu texto já formatado, paginado e devidamente ilustrado com duas imagens produzidas pela Inteligência Artificial (IA). Claro que me perguntaram se aceitava as imagens no meu texto, ou se queria escolher eu duas imagens ou fotografias para substituir aquelas. Justificaram a escolha pela necessidade de manter a linha gráfica da publicação e que a maioria dos textos iriam ser complementados com a criatividade da IA. Eu compreendo a necessidade de uma coerência gráfica e até a contenção de custos e, também por isso, aceitei as duas ilustrações. Contudo, algo ficou cá a remoer... enquanto antropólogo que se dedica a diferentes terrenos e um dos seus métodos de investigação mais relevantes é a recolha de etnografias, socorrendo-se de diferentes suportes - oralidade, fotografia, desenho, vídeo, entre outros, não posso deixar de me sentir algo incomodado com esta intromissão e substituição do papel e da arte do etnógrafo. Ainda que especulando, posso questionar: irá a IA substituir-me naquilo que são os meus terrenos, a minha sensibilidade, a minha capacidade cognitiva, a minha (in)abilidade no uso das ferramentas ao meu dispor e até à escolha dos métodos de investigação adequados? Fiquei melindrado.

28 outubro 2026

como um rato de esgoto

Não passaram 48 horas desde o momento das eleições presidenciais no Brasil e sabe-se já que Flávio Bolsonaro fugiu do Brasil. Pelos vistos, perante o pedido de entregar o seu passaporte e acossado pelos vários processos e investigações em curso sobre o seu comportamento nos últimos anos, enquanto deputado e senador, e consequente possibilidade de ser detido, resolveu fugir para os EUA, onde já estão foragidos outros companheiros e familiares, como o seu irmão Eduardo. Esta fuga demonstra bem o caracter do fulano que, não percebo muito bem como, conseguiu ser candidato à Presidência do Brasil, dizem que, como tábua de salvação para conseguir prolongar a sua imunidade. Tendo perdido a eleição, a sua imunidade terminaria em breve. Aquilo que mais me surpreende é haver milhões e milhões de brasileiros que tenham confiado o seu voto a um indivíduo cujo percurso e comportamento é mais digno de um gangster, de um mafioso e de um criminoso. A mim nunca me enganou, fulano baixo, sem caracter e associado a todo o tipo de crimes. Saiu pela fossa do seu país, como um rato de esgoto, e só lamento que os EUA se prestem a proteger estes foragidos. Pode ser que um dia pague pelo tanto de mal que fez ao Brasil e aos brasileiros.

26 outubro 2026

L de Lula


Acompanhei de longe e sem grande expectativa a campanha eleitoral para estas eleições presidenciais no Brasil. Consciente estava da sua importância para o país e para o mundo, mas numa sociedade polarizada como é, ou está, a do Brasil, já nada me surpreende e, assim, preferi manter-me ausente dessa realidade. Quando fui à cama ontem (hoje) à noite, já sabia que Lula tinha vencido as eleições presidenciais do Brasil, contra Flávio Bolsonaro. Em todo o caso, achei por bem, dormir e esperar pela manhã para confirmar essa boa nova vinda do lado de lá do Atlântico. Uma vitória expressiva da democracia de Lula contra o autoritarismo proposto e já anteriormente deposto pelo clã Bolsonaro. Olhando para a distopia em que o planeta vive, a vitória de Lula da Silva é mais do que uma esperança num futuro melhor, é a certeza de que a racionalidade democrática e os seus valores ainda conseguem derrotar os projectos e ambições plutocráticas, oligárquicas e autocráticas que se vão manifestando um pouco por todo o mundo. Parabéns Lula, parabéns Brasil.

23 outubro 2026

olha, apareceu, mais do que tarde, mas apareceu

emagrecer, tem de ser

Tenho de emagrecer!
Emagrecer vários, muitos quilogramas.
Como o vou fazer?
Não sei bem, mas
Dois caminhos simultâneos:
Fechar muito a boca, e
andar muito na rua.
Muito mais.
Assim, talvez consiga.

existência encriptada

Vivemos rodeados de passwords. Aliás, sem essas palavras-chave a nossa vida fica bloqueada. Ai de nós que nos esqueçamos de uma dessas "chave das portas do céu", pois toda a engrenagem quotidiana fica altamente prejudicada. E não estou a exagerar, tudo e todos nos requerem uma combinação de letras, números e símbolos para aceder a bens, serviços, telefones, computadores, softwares, toda a parafernália de gadgets, que hoje são autênticas extensões ou prolongamentos do nosso corpo, e até as portas de nossa casa, com codificações para intercomunicadores e suasclouds (nuvens) e o raio a quatro...
As passwords são obrigatórios no mundo de agora, e eu, que não as quero perder ou esquecer, há muitos anos, tenho dois hábitos: a) gravar nos próprios gadgets cada um desses desbloqueadores, e b) registar num pequeno caderno todas, mas mesmo todas, as palavras-chave, códigos, pin's ou chaves de acesso que vou criando e que me vão sendo solicitadas.
Dito isto e porque os momentos de perda, esquecimento ou erro são sempre dramáticos para mim, detesto e evito trocar de equipamentos, tais como computador ou telemóvel. É uma dor de cabeça, um stress e uma agitação mental e física para mim. Só o faço quando não há alternativa e prescindo facilmente de ter "coisa" nova só para escapar desses momentos e preservar o meu já débil sistema nervoso.

21 outubro 2026

orgulho e preconceito

O algoritmo de uma das redes sociais que vou frequentando presenteou-me com esta notícia do Expresso, cujo título dizia: <Passos defende regresso das taxas moderadoras para o aborto: "os números não nos dão razão para sentir orgulho">. Quando dei de caras com esta afirmação, e para a não perder de vista, a minha reacção imediata foi partilhá-la no meu feed (página), e acrescentar o seguinte comentário: "Vou, tenho, que escrever sobre esta ignomínia".
Pois bem, cá estou eu.
Desde a vitória do "sim" no segundo referendo sobre a despenalização do aborto, realizado em 2007, que todos os números conhecidos indicam que essa despenalização foi uma conquista civilizacional e que os números de mortes associadas a essas práticas de abortos clandestinos, realizados por talhantes em vãos de escada, se reduziu substancialmente para valores residuais e insignificantes. Sendo uma questão de saúde pública, e ao longo destes quase vinte anos, não haverá dúvidas do sucesso e eficácia dessa decisão política dos cidadãos portugueses, a não ser numa reduzida combinação de instituições partidárias, associativas e religiosas, que por mais evidências empíricas, técnicas, científicas e estatísticas, jamais aceitarão que as mulheres possam decidir sobre a sua vida, sobre o seu corpo e sobre a sua sexualidade.
A afirmação de Pedro Passos Coelho é a manifestação pública desse desconforto sectário, significativo do preconceito atávico que sobrevive entre nós, mas ainda assim não sei a que "orgulho" ele se refere, nem sei a que números se refere. Talvez preferisse e se orgulhasse mais da realidade existente antes desse referendo. Eu, cá, estou muito orgulhoso por viver e ser cidadão de um país, de uma comunidade, que percebeu a dimensão do drama que era essa questão e decidiu, com civilidade e propriedade, que toda e qualquer mulher possa decidir se quer ou não ter fazer vingar cada gravidez.
No fundo, ao olhar para esta criatura, aquilo que me vem à mente é como pode ser tão pessimista, tão derrotista, de humor cáustico e sempre com um azedume de quem carrega o mundo às costas e se quer livrar dele, mas não consegue. Há muito tempo, durante ou depois da sua passagem pelo Governo, escrevi e publiquei aqui que o seu exercício enquanto Primeiro Ministro, de má memória, marcou de tal forma os portugueses, que seriam necessárias décadas para haver uma reconciliação e uma recuperação da sua imagem. Pois bem, Pedro Passos Coelho, pelos vistos, não entendeu o que aconteceu e teima no mesmo registo, na mesma atitude e discurso. Personagem que conquistou o seu lugar na História nacional pelo seu ar carrancudo e perfil austero, não deixou saudades e, tendo saído pela porta das traseiras da vida política e pública, parece agora querer regressar com toda a sua toxidade. Espero, a bem de todos nós, que não o consiga e que tudo isto não seja mais do que o esvoaçar de uma ave ferida de morte.

15 outubro 2026

mediascape: em nome das mulheres

Na edição de Setembro do jornal Le Monde Diplomatique (versão portuguesa), Sílvia Roque, Rita Santos e Júlia Garraio publicaram um artigo extenso, muito interessante e relevante sobre o antifeminismo, enquanto estratégia central da ideologia e da política da extrema-direita em Portugal. Para além de apresentarem uma história recente da evolução dessa extrema-direita no nosso país e dos movimentos antifeministas, alertam para como o antifeminismo tem sido inteligentemente utilizado como pilar central da estratégia desse partido, a par do populismo, do autoritarismo e do racismo/xenofobia. Essa estratégia de culpar o feminismo por todos os males que existem, desde a crise da "família", a baixa natalidade, até à fragilização dos homens e à presença de pessoas transgénero no espaço público. E a eficácia desta mensagem é tão mais poderosa quando é enunciada por mulheres e é isso que tem acontecido. Nada como ter mulheres a protestar contra o feminismo, contra a ideologia de género, contra as quotas, entre outras razões do feminismo, para relativizar a desigualdade estrutural entre os géneros na nossa sociedade. "A violência contra as mulheres deixa de ser entendida como problema estrutural de género e passa a ser lida como importação cultural"... isto é, a culpa é sempre do estrangeiro, do outro, do estranho, do invasor, etc.
Eu não só subscrevo integralmente a visão das autores deste artigo, como considero mais que urgente conseguir encontrar o antídoto contra este determinismo de género. Mas ao ler o texto, num ou noutro momento, ficou-me um amargo de boca, pois considero que existem pormenores e/ou nuances que escaparam às autoras e que são, precisamente, a mais-valia ou força do discurso dessa extrema-direita. Vou exemplificar... Já na parte final do texto, em concreto no último parágrafo, as autoras apresentam um conjunto de tarefas para a esquerda feminista desmontar ou desmascarar esse antifeminismo.
Quando "a extrema-direita fala de medo, a esquerda deve falar de condições materiais. A extrema-direita fala de protecção, a esquerda deve falar de direitos. A extrema-direita fala de família, a esquerda deve falar de cuidado socialmente partilhado. A extrema-direita fala de mulheres para excluir outras mulheres, a esquerda deve insistir que nenhum feminismo digno desse nome se constrói contra migrantes, pessoas transgénero, pobres ou radicalizadas." Muito bem, eu percebo, compreendo e concordo, mas reparemos na dicotomia sublinhada: "...fala de família / fala de cuidado socialmente partilhado." Qual será mais eficaz junto da maioria da população portuguesa, a extrema-direita a defender a família, ou a esquerda a defender o cuidado socialmente partilhado?... Sem qualquer paternalismo, qual a percentagem de portugueses que sabem ou compreendem o que esta última expressão significa?... Pois é, aqui está um exemplo paradigmático da quase impossibilidade de combater esse populismo. Que designação, que nome pode a esquerda apresentar para polarizar contra a ideia de família?... e aqui radica o sucesso e a eficácia da mensagem que a extrema-direita quer passar, por oposição ao desnorte, desencontro e confusão que a racionalidade da esquerda quis e quer impor à sociedade. Por muito que me esforce não consigo encontrar a fórmula para derrotar essa estratégia e, pelos vistos, ninguém à esquerda o consegue.

às voltas entre cá e lá



Eu já sabia que estava para sair um novo livro de José Rentes de Carvalho, mas não sabia que já estava à venda. Esta manhã, ao passar na FNAC para ir buscar outros livros, encontrei-o já em exposição. Boa nova. O decano da literatura nacional, brinda-nos com mais uma publicação, desta feita em formato diarístico e até confessional. Para mim é o autor contemporâneo que melhor escreve, que melhor descreve ambientes e paisagens e com quem eu mais me identifico. É sempre um prazer regressar a Rentes de Carvalho.

12 outubro 2026

taveirada

Um destes dias fui com a Andreia a uma consulta de Otorrino numa instituição privada de saúde. Enquanto estávamos na sala de espera, ainda hesitei se deveria entrar ou não, mas ela convenceu-me a acompanhá-la. Assim foi e, mal entrados no gabinete médico, começou uma experiência que não sei muito bem como adjectivar, mas que consigo definir como um déjà vu, isto é, uma intensa e subjectiva sensação de algo que já tinha experimentado.
O médico, indivíduo de estatura mediana, magro, tês morena, calvo e com o cabelo lambido para trás ("cabelo à foda-se"), de bigode, algures nos sessenta anos, com uma pronuncia típica do Porto e atitude muito pragmática, que se traduzia em gestos rápidos e perguntas directas, quase retóricas, que logo depois de nos cumprimentar e convidar-nos a sentar à sua frente, disparou uma série de perguntas, às quais a Andreia foi respondendo como podia e sabia, motivando sempre um comentário breve e na maioria das vezes, procurando desvalorizar os sintomas e as queixas da paciente.
Depois, quis examinar e convidou a Andreia a sentar-se numa cadeira rodeada de apetrechos e tecnologia. Colocando-se em frente a ela e de costas para mim, começou por examinar os ouvidos, depois o nariz e por fim a garganta. Deu algumas indicações para posição da face, do pescoço e da boca, às quais a Andreia ia obedecendo e reagindo ao incómodo ou dor que estaria a sentir. No meio destes procedimentos, o médico ia largando algumas interjeições dirigidas à sua paciente, tais como: "Não custa nada...", "Pronto...", "Não faça caretas!...", "Já acabou", "Vamos lá", entre outras expressões, que me remeteram de imediato para o universo das taveiradas dos anos 80. Uma coisa é certa, daqui a um mês nova consulta e eu não vou hesitar, de certeza vou entrar e segui-la durante toda a sessão.

08 outubro 2026

um monumento vivo

Soube por uma publicação no Facebook que faleceu o padre Telmo Ferraz. Um desconhecido para muita gente, mas para outra tanta ou mais gente, um Homem enorme, muito maior do que a sua própria vida. Viveu, conviveu, partilhou e deu de si a gerações e gerações de pessoas. Esteve sempre ao lado dos mais pobres, desabrigados, deserdados e daqueles que procuravam ajuda ou simplesmente uma palavra de conforto e amiga. Oriundo da aldeia de Bruços, Mogadouro, onde nasceu a 25 de Novembro de 1925, foi na região de Trás-os-Montes que iniciou o seu sacerdócio, segundo consta na paróquia de Genísio, concelho de Miranda do Douro. Foi também em Trás-os-Montes que se destacou na denúncia das condições de vida em que os trabalhadores das barragens do rio Douro viviam. Em 1960 publica o seu primeiro livro "O lodo e as estrelas" que resulta dessa experiência de vida com os trabalhadores da barragem do Picote. Esse livro foi objecto de censura e proibido pelo Estado Novo, o que lhe granjeou maior visibilidade e reconhecimento. Entretanto, em 1959, já estava em Angola e a viver com os trabalhadores da barragem de Cambambe. Depois, em 1963, inicia a grande aventura de sua vida, vai para a Casa do Gaiato em Malanje, onde acolhem e formam jovens rapazes, órfãos e/ou pobres e onde, durante a guerra de independência e, mais tarde, a guerra civil, são várias vezes assaltados e destruídas as instalações, mas sempre reconstruídas e mantendo a missão e os objectivos da Casa do Gaiato. Esteve em Angola e nessa casa durante décadas, tendo regressado a Portugal já idoso, recolhendo-se no Calvário de Beire (Obra de Rua, do padre Américo), em Paredes, onde continuou a sua obra e a escrever. Nas últimas décadas da sua vida, a sua obra literária é significativa, eu diria mesmo, inacreditável, com uma produção assídua e marcante, pela lucidez, pela memória e pela qualidade literária. Ainda em finais de 2025, no âmbito do seu centenário, publicou o livro "Fui Pároco de Aldeia". Fez uma apresentação em Genísio no dia 28 de Dezembro de 2025 e eu estive lá. Foi a última vez que o cumprimentei e troquei umas palavras com ele.
Conheci o Padre Telmo Ferraz, algures entre 2013 e 2014, por intermédio do amigo comum Henrique Manuel Pereira e no âmbito da minha investigação para a história de vida de D. Manuel António Pires, que tivera sido seu professor em Bragança. Fui visitá-lo a Beire, Paredes, numa tarde solarenga e estive à conversa com ele durante um par de horas. Não guardava muitas memórias do seu professor Manuel António Pires, mas recordava-o como um professor vanguardista para a época e com quem fumava cigarros fora das salas de aula, oferecidos, claro, pelo professor. Depois disso, estive mais quatro vezes na sua presença, a primeira das quais num lançamento de um livro do Henrique Manuel Pereira, na Universidade Católica do Porto, a segunda vez na aldeia de Picote, enquanto orador das Jornadas Culturais de Balsamão, depois uma terceira vez em Genísio, em Dezembro de 2024, no lançamento de um livro de Basileu Pires (MIC), e a última vez, no já referido lançamento de um livro seu, novamente em Genísio, em Dezembro de 2025. Nessa altura, tendo já celebrado o seu centésimo aniversário, referiu que esperava ainda mais anos de vida. Assim não foi, mas ao recordá-lo a ideia que me assalta é a de perenidade. A sua permanência transformou-o num autêntico monumento vivo (adjectivação de Henrique Manuel Pereira), exemplo de dignidade, bondade e cidadania. Servindo-me das palavras de Carlos Pedro, eu diria que o desaparecimento do Padre Telmo Ferraz lega-nos uma dívida de gratidão para com ele, gratidão essa que não será mais do que a memória do coração.

(brochura alusiva ao seu centenário)

(capa do seu livro apresentado em Genísio a 28 de Dezembro de 2025)

(último contacto com o Pe. Telmo Ferraz, a 28 de Dezembro de 2025)

06 outubro 2026

gato por lebre

A famosa metáfora que há muito se transformou num dito que circula de boca em boca e por todo o lado, poderá ser muito mais do que um recurso estilístico. Quando ouvimos a expressão, sabemos que ela significa algum engano, isto é, alguém está a enganar e alguém está a ser enganado, ou que uma ou mais pessoas foram enganadas. Contudo, e sempre com a certeza de que a origem da expressão não é possível localizar, nem no tempo, nem no espaço, não tenho dúvida que nesse momento primeiro alguém comeu mesmo gato, pensando que seria lebre. E isso continuou a acontecer até aos dias de agora. Ainda hoje e quotidianamente haverá quem literalmente coma gato a pensar que está a comer uma deliciosa lebre.
Depois, para lá da metáfora e do engano, há quem coma mesmo gato sabendo que é gato e aprecia gato. Na aldeia, conheci algumas pessoas que durante toda a vida caçaram os gatos vadios, os esfolaram e cozinharam com todo o esmero. Diziam ser um pitéu! Às vezes, reuniam-se em casa, na adega ou anexos, de um ou de outro, grupos de homens (e, às vezes, também de mulheres) para se lambuzarem com o gato guisado com batatas cozidas, ou mesmo apenas com um cibo de pão, que um deles tinha preparado ao lume. A verdade é que na aldeia sempre houve muitos gatos e todos vadios. Os gatos não eram, sequer, um animal de estimação, mas sim uma fonte de alimento para satisfazer as carências alimentares e calóricas de algumas casas. Mas nem todos os gatos serviam e, por isso, eram deixados em paz. Só os que conseguiam ganhar algum peso e não manifestavam qualquer sinal de maleita ou doença, eram caçados e levados para casa. Eu não sei se algum dia comi gato, mas se isso me aconteceu terei sido um dos que o comeu pensando que era lebre, sempre deliciosa.

05 outubro 2026

pressa de envelhecer

Fico incomodado ao ouvir quem me rodeia dizer que gostava era de estar reformado, que se pudesse reformava-se já. Eu bem sei que o trabalho é uma obrigação desagradável para a grande maioria das pessoas, mas não percebo a pressa que têm de serem/estarem velhos. Isso significará que também estarão mais perto do seu fim. Eu cá prefiro estar onde e como estou. Não tenho qualquer intenção de me reformar daquilo que faço, ou vou fazendo, e não tenho grande vontade ou motivação para acelerar o tempo. Calma, sem pressas, havemos de lá chegar.

À Mesa Transmontana


Este foi o título das XXVIII Jornadas Culturais de Balsamão, realizadas entre 16 e 19 de Outubro de 2025.  Tendo sido o responsável pela proposta desta tema, e apesar de sermos uma equipa responsável pela organização das Jornadas, foi uma edição que recaiu grandemente em mim. Não me estou a queixar, mas acabou por me dar mais trabalho do que o habitual. Agora que se realizaram as XXIX Jornadas Culturais, foi o momento de publicarmos as actas dessa edição anterior. Aí está a capa desse livro. Nele, para além da "Apresentação", inclui ainda dois artigos meus: "A Cozinha, a Adega, a Taberna e o Campo - Espaços de exclusão, lugares vividos, de consumos, usos e abusos" e "O Fumeiro de Vinhais: produção, tematização, reificação, reflexividade". Na apresentação escrevemos:

Desde a sua concepção, procurámos perspectivar as múltiplas dimensões do que foi, e continua a ser, estar à mesa em Trás-os-Montes. A mesa enquanto altar da vida e da sua celebração; lugar universal de ritual, partilha, socialização, acolhimento, dádiva, negociação e intimidade. Ao longo de quatro dias, esta vigésima oitava edição das Jornadas Culturais de Balsamão, para além dos momentos de experimentação e degustação e das visitas etnográficas e culturais, proporcionou diversos espaços de reflexão e debate, dedicados ao estudo, à partilha de conhecimentos, saberes e artes associados ao estar à mesa em Trás-os-Montes [...] A expectativa, que julgamos legítima, é que este volume não apenas preserve a memória do muito que aconteceu nesses dias em Balsamão, mas que constitua igualmente um contributo de natureza histórica, etnográfica e polifónica para futuros trabalhos de estudo, investigação e reflexão sobre este tema e sobre este território. (in contra-capa)

27 setembro 2026

we have the numbers

Eu esforço-me por alcançar, garanto que sim. Há décadas que procuro algum vislumbre de racionalidade para o facto de a esmagadora maioria dos cidadãos aceitarem, alegre e pacificamente, que as suas vidas sejam controladas, manipuladas e subjugadas, por uma ínfima percentagem de indivíduos, que detêm o verdadeiro poder sobre o mundo. Do que estamos à espera para acabar, de uma vez por todas, com essa situação? Inconformado permaneço.

22 setembro 2026

Jorge Palma

É quase sempre de manhã que estas notícias nos chegam, despertadoras em sobressalto, e, também por isso, demoramos a processar a sua dimensão. Morreu o Jorge Palma, aquele que me cantou letras e poemas ao longo de toda a vida. Ritualmente, depois das logísticas quotidianas e antes de me sentar aqui a escrever estas palavras, o som que estou a ouvir e que me acompanha é o da sua voz. Não consigo identificar um só momento, uma só canção, uma só melodia, pois a sua voz, inconfundível, era íntima e passeava-se desde sempre pelos lugares que habito. Bem sei que essa voz permanecerá e que sua relevância na música portuguesa se cristalizará, mas é perceptível e inegável desde este primeiro momento, o da notícia do seu desaparecimento, a percepção de vazio e de perda que a sua morte significa. Sentado ao piano, desalinhado ou desarranjado e numa aparente indiferença ou alheamento, eis a figura que dele guardarei e, numa analogia talvez exagerada, Jorge Palma sempre se me assemelhou a Serge Gainsbourg, na aparência, nos modos, na voz, nas melodias e até nos desempenhos.

21 setembro 2026

a história que se repete

Passadas mais de três décadas, é a vez do meu filho mais novo ingressar na Escola Secundária de Valadares. Parece que ainda foi ontem, mas na verdade, até a Escola já é outra, quero dizer, ainda que possa reconhecer um ou outro elemento que se mantém, toda a estrutura e composição da Escola se alteraram, tornando quase irreconhecível para quem a tenha conhecido na década de noventa do século XX. Não se trata de uma nostalgia, mas o certo é que guardo mais e melhores recordações do tempo em que frequentei essa escola, do que do tempo, bem maior, em que andei no ensino superior. Espaços, momentos e rostos que guardei e ainda consigo identificar quando lá vou. Será sempre uma boa recordação e será sempre um prazer lá regressar.

05 setembro 2026

bizarria

Servindo-me da visão periférica, apercebi-me de um vulto que se aproximava de mim. Sentado numa esplanada e concentrado na leitura que fazia, só quando esse vulto estava já muito próximo é que levantei o olhar e percebi, no rosto do senhor que me abordava, alguma hesitação. Pediu-me desculpa por estar a incomodar, apresentou-se e disse-me que não poderia ter deixado de me abordar, pois já me tinha visto ali mais vezes, sempre sozinho e muito alheado do que me rodeava, em leituras e escrita. Que hoje em dia é muito raro, algo bizarro até, ver uma pessoa a ler e escrever em cafés e esplanadas, que toda a gente prefere estar agarrado ao telemóvel. Queria saber quem eu era e o que fazia na vida... e logo aproveitou para se apresentar como bancário aposentado e que desde então tem escrito muito e sobre diversos temas, tendo alguns livros publicados. Aqui conseguiu cativar a minha atenção e curiosidade, tendo-lhe logo questionado sobre essa obra publicada, ao que ele, pronto, me foi dizendo que os seus livros são impressos em pequenas quantidades e só para "amigos", mas estão à venda nas livrarias e papelarias da cidade. Entretanto, já me tinha pedido licença para se sentar e ficámos ali a conversar um bom naco de tempo, sobre variados temas e interesses de cada um de nós. Só arretamos a conversa porque a hora de almoço se aproximou num ápice e ambos tínhamos compromissos. Ainda assim, pediu-me os meus contactos e convidou-me para almoçar. Agradeci, trocámos os contactos e despedimo-nos. Tenho certo que nos encontraremos por ali um dia destes.

31 agosto 2026

conversar

Já o escrevi aqui, sou um frequentador e apreciador de esplanadas e de outros espaços ao ar livre, desde que, claro é, possa estar à sombra. Sempre que se propicia é para esses lugares que vou, maior parte das vezes sozinho. Este gosto, este prazer solitário, permite-me a contemplação (vagarosa e silenciosa) e, depois, a leitura e a escrita. Actividades existenciais nas últimas décadas. Ao mesmo tempo e enquanto estou absorto nessa circunstância, à minha volta reina a conversa entre pessoas que se sentam a uma mesma mesa. Isso, concedo, impressiona-me. Como pode haver tanta conversa, tanto assunto, para alimentar largos minutos, horas de conversação?! Eu, solitário voluntário que sou, também gosto de conversar e de estar com pessoas, mas cansa-me esta polifonia que me rodeia e se instala nestes lugares.

14 agosto 2026

remanso

É o que eu mais desejo para a minha vida. Deixem-me a um canto, no meu canto sempre à sombra, e eu prometo que não incomodo, não chateio ninguém. Vamos ver se nas próximas semanas consigo esse desiderato, longe das rotinas e das deambulações do resto do ano. Vou viajar muito de carro e vou de Norte ao Sul do país, com uma escapada, já em Setembro, até ao reino de Castela e Leão, bem lá ao Norte do planalto central, para participar num congresso e, acima de tudo, para passear, comer e beber bem, como sempre acontece do lado de lá da fronteira. Regressarei a casa a 5 ou 6 de Setembro.

12 agosto 2026

eclipse, expectativa e incredulidade

Então foi isto?!...
Sim, já foi, já aconteceu. Podemos todos regressar ao tédio das nossas rotinas quotidianas.
Não é má vontade minha, garanto que não é, mas não compreendo como é possível esta excitação generalizada com a aproximação de um eclipse!... milhares e milhares de cidadãos se interessarem por epifenómenos episódicos como este. Pois é, um fenómeno da natureza efémera, em muitos lugares quase imperceptível, conseguiu movimentar, agitar, excitar, milhares de cidadãos. De facto, vivemos tempos peculiares e muito interessantes do ponto de vista do comportamento humano. Foram dias, semanas de intensa e repetitiva anunciação e publicidade ao fenómeno deste dia. À medida que a data se aproximava, foi crescente essa divulgação e a comunicação social foi caixa de ressonância irreflectida dessa atitude, com entrevistas a especialistas e a curiosos, com directos televisivos de diversos pontos do país, criando expectativas, alimentando negócios, deslocando milhares de pessoas, para um clímax ridiculamente breve, numa espécie de orgasmo colectivo precoce. Sei, claro, que sendo um fenómeno natural raro, tem interesse e relevância científica e académica, que desperta a curiosidade das populações, mas não entendo o frenesim que se gerou por quase nada. Pior, quase aposto que se ligar a TV durante esta noite, não vai haver mais nada a não ser eclipse.
Eu, na região do país em que me encontro, dentro de casa e ao olhar para a janela, sem olhar directamente para o Sol, não percebi qualquer alteração a não ser um ligeiro nublado à sua frente. Enfim, verdadeira elegia do efémero.

09 agosto 2026

estupidez em duas rodas

Coincidiu a nossa ida a Bragança neste fim-de-semana, 8 e 9 de Agosto, com a concentração motard na cidade. Eu bem sei que ela já acontece há muitos anos e que vai continuar a acontecer, mas como já há muitos anos que não coincidia com a minha presença, fiquei deveras incomodado com o ruído e poluição que um evento destes produz. Se eu mandasse na autarquia jamais permitiria a realização de um evento deste género. E não me venham dizer que é uma questão de gosto, ou má vontade minha. Não! Trata-se uma manifestação pública, que invade a cidade e incomoda os demais - moradores e transeuntes, que nada podem fazer contra a excepcionalidade no cumprimentos das regras de trânsito e exageros de comportamentos que, ano após ano, são testemunhados. Tal como referi, se eu mandasse, não autorizaria este evento, pelo menos, nestes moldes. Pois, também será por isso, e mais, que eu jamais serei eleito, ou sequer candidato, a presidente de uma câmara municipal ou mesmo junta de freguesia.

03 agosto 2026

eu, máscara

Depois de cinco décadas de existência e de convivência "intima" com os máscaras de Vila Boa, finalmente vesti-me e participei numa actuação do grupo em Coimbra. Foi no passado Sábado, dia 1 de Agosto, ao final da tarde e inserido no espectáculo da final da Super Taça Cândido Oliveira, promovido pela Federação Portuguesa de Futebol. Se eu já sabia que é difícil vestir estes fatos no Inverno, num dia de Agosto é insuportável. Ainda que hesitante quanto à minha capacidade para cumprir a performance delineada, voluntariei-me para compor o grupo, que se apresentou em Coimbra com número reduzido de elementos e, assim, sermos mais. Mascarei-me eu e a Andreia, ambos pela primeira vez, e não me doeu.






29 julho 2026

frio estranho

Chego agora do cemitério. Fui participar no enterro de um velho amigo aqui da paróquia. Um pouco mais velho do que eu, conhecia-o desde miúdo e fomo-nos sempre cruzando pelas ruas cá do sítio. Hoje revi gente que não via, sei lá, há vinte, trinta anos e que conheciam e eram amigos do Filipe. Foi uma doença súbita, daquelas sem aviso prévio, que o levou, deixando a mãe velhinha sozinha. Enfim. O Filipe, apesar do seu percurso de vida conturbado, era um rapaz simpático, educado e com um sentido de humor peculiar. Uma das últimas vezes que falei com ele, estava eu a sair aqui de casa, ao final de uma manhã, dou de caras com ele no passeio em frente a teclar no telemóvel. Cumprimentámo-nos e eu comentei o bafo de calor que estava. A resposta dele foi: "- Não. Não é calor. Está é um frio estranho!" Não contive a gargalhada e disse-lhe que sim, tinha razão, era isso mesmo. Um abraço.