Já o escrevi aqui, sou um frequentador e apreciador de esplanadas e de outros espaços ao ar livre, desde que, claro é, possa estar à sombra. Sempre que se propicia é para esses lugares que vou, maior parte das vezes sozinho. Este gosto, este prazer solitário, permite-me a contemplação (vagarosa e silenciosa) e, depois, a leitura e a escrita. Actividades existenciais nas últimas décadas. Ao mesmo tempo e enquanto estou absorto nessa circunstância, à minha volta reina a conversa entre pessoas que se sentam a uma mesma mesa. Isso, concedo, impressiona-me. Como pode haver tanta conversa, tanto assunto, para alimentar largos minutos, horas de conversação?! Eu, solitário voluntário que sou, também gosto de conversar e de estar com pessoas, mas cansa-me esta polifonia que me rodeia e se instala nestes lugares.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
Mostrar mensagens com a etiqueta instante urbano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta instante urbano. Mostrar todas as mensagens
31 agosto 2026
15 abril 2026
viver e pertencer ao lugar
Viver num subúrbio de uma grande cidade, em localidades que apesar de serem freguesias ou vilas, a sua conurbação transforma a paisagem num contínuo urbano entre a cidade e estas localidades da periferia, não permitindo, muitas vezes e para quem não conhece o território, a distinção e consciência de onde se está, será, para a maioria dos indivíduos indiferente, mas para mim que vivo há cerca de quatro décadas na mesma localidade ou arredores e, por isso, guardo a memória de toda a evolução, de todas as transformações que ocorreram ao longo de todo este tempo. Maior parte da população que hoje reside nesta freguesia não é de cá, veio atraída pela tremenda construção habitacional que ocorreu na última década do século XX e na primeira deste século. Uma outra dimensão dessa memória é a comunidade local, ou seja, os naturais e que se identificam e pertencem geracionalmente a este lugar. Eu, apesar de também não ser de cá e estar longe das minhas pertenças e referentes, consigo identificar e localizar muita gente desta terra e, apesar de não frequentar espaços e de não me relacionar com muitas pessoas de cá, por feitio e relativa misantropia, gosto muito de observar e registar determinados momentos e comportamentos.
Dito isto, esta manhã, bem cedo, testemunhei um desses momentos de reconhecimento de pertença a este lugar. Foi mais ou menos esta a interação entre dois velhos conhecidos, um homem e uma mulher, que se encontraram, num pequeno bar de um mercado de bairro, sentados em mesas contíguas:
Ela: - Bom dia.
Ele: - Bom dia, como está?
Ela: - Está tudo bem, graças a Deus. Já soube quem morreu?
Ele: - Não, quem foi?
Ela: - Vi agora ali na esquina o papel. Foi o Paulinho...
Ele: - Paulinho?! Quem é o Paulinho?
Ela: - O filho do .... [não entendi o nome]. Não se lembra dele?
Ele: - Não...
Ela: - Ele tocava na fanfarra dos bombeiros, não se lembra de o ver?
Ele: - Não. Não faço ideia.
Ela: - Pronto, deixe lá. Pensei que o conhecia...
Ele: - Não estou a ver.
Ela: - Tenha um bom dia.
12 dezembro 2025
um chá de...
Num café que a espaços frequento, pedi um chá de Cidreira, que é o único chá que peço e tomo. Não havia. - Como não tem Cidreira? - pensei eu, para logo depois, num raciocínio rápido, enquanto a menina me apresentava as alternativas habituais: Camomila, Verde, Preto, Tília, blá, blá, blá, ainda pûs a hipótese de dizer: - Então quero uma SuperBock!, mas não o fiz. Lembrei-me de Limão, apesar de não ter sido apresentado como alternativo. Muito bem, veio um Chá de Limão, só que não sabia nada a Limão. Aliás, nem sei ao que sabia, pois não me soube a nada em concreto. Só quando já estava a bebê-lo é que me ocorreu o carioca de Limão, que esse sim, sabe mesmo a Limão e eu nunca peço.
(fotografia da embalagem do dito que não sabia a nada, muito menos a Limão)
10 dezembro 2025
música efémera
Ontem, dia 9 de Dezembro, dia chuvoso na Invicta, circulava eu na rua Damião de Góis, parei nos semáforos do cruzamento com a rua Antero de Quental, onde iria virar à direita. Estava portanto na fila da direita das três que aí existem. Seria o terceiro ou quarto carro na fila, quando, olhando para a zona da passadeira, vejo um jovem, alto e bem constituído, com uma máscara cirúrgica na cara, que pára mais ou menos a meio dessa passadeira, vira-se para os automóveis e começa a tocar violino. O meu primeiro instinto foi soltar uma gargalhada, que logo de imediato sustive, pois apesar da surpresa e do inusitado, só uma condição má o poderia motivar ou obrigar a tal desempenho. Certo é que esse rapaz começou a caminhar por entre os carros, sempre a tocar violino e sem pedir nada a ninguém, mas o que aconteceu é que vários automobilistas à minha frente lhe deram dinheiro. Estou habituado, eu diria diariamente, a encontrar gente a actuar nestes momentos fugazes do trânsito... malabaristas, limpadores de vidros, pedintes, palhaços, trapezistas, etc., mas nunca esperaria encontrar um violinista. Eu que por norma não contribuo nesses momentos, pela surpresa e espanto da circunstância, também lhe dei uma moeda.
18 setembro 2025
presentes envenenados
Depois de largos meses ausente, numa manhã desta semana, regressei ao espaço Fórum de uma Fnac, onde há muito gostava de estar e ficar. Para esta manhã levava duas ou três tarefas na mente, sendo que terminar a leitura de um livro de crónicas sobre agricultura era a principal, pois o convite para participar no meu podcast já seguiu para o autor.
Estava eu entretido nessa leitura quando, não muito depois, se sentam três senhoras na mesa ao lado. Eu diria que todas septuagenárias, de boa e cuidada aparência e, pela conversa, adivinho que seriam professoras. Falaram muito e sobre muitas coisas diferentes, mas a minha atenção despertou quando o tema foi a oferta de vouchers de estadias, jantares e actividades várias, concordando as três que esses são péssimos presentes e que, dando exemplos, todas as situações que tiveram correram muito mal. Aí, o meu pensamento e reflexão acompanhou a conversa delas...
A mim, a nós, também já nos ofereceram desses presentes, mas até ao presente não usufruímos de qualquer um deles, nem de qualquer uma dessas experiências. Estarão algures, no fundo de uma gaveta, a perder validade... Aliás, tentei uma ou outra vez fazer reservas em hotéis, servindo-me desses vouchers e nunca consegui. Sei também, por experiência de amigos e familiares, que o tratamento a esses clientes, seja em hotéis ou restaurantes, é sempre negligenciado e, se possível, evitado. Portanto, esses produtos muito bem produzidos e embalados em escaparates, apetecíveis aos sentidos, são sempre presentes envenenados e, por isso, há muito deixei de sequer ponderar ofertá-los.
10 julho 2025
violação de privacidade
Depois de vários meses a adiar o momento, hoje foi dia de ir à procura de óculos e lentes novas. Depois de visitar uma outra óptica, entrei numa outra localizada no centro da cidade do Porto. Tirei senha e, depois de cerca de 10 minutos à espera, ouço chamarem pelo número da minha senha. Sou convidado a sentar-me, explico o que preciso, mostro a prescrição do oftalmologista e a menina, simpática, começa a trazer-me armações para experimentar e escolher. Terei experimentado dez a doze armações e, no fim, fiquei com quatro para escolher entre elas, mas logo referi que iria esperar pela chegada da minha mulher para saber da opinião dela.
Pois bem, quando chegou, comecei a colocar no rosto cada uma dessas quatro armações e, para meu espanto e até espanto da minha mulher, logo uma mulher que estava a ser atendida num outro balcão, se aproximou e começou a opinar sobre cada uma das armações que eu ia colocando. Mas num tom e com uma acertividade que mais parecia ser ela a minha mulher. Opinou, opinou, opinou e deu o seu veredicto final, para logo depois desaparecer, não sem antes comentar... "enfim, mas você é que sabe!", como quem diz, eu, que tenho extremo bom gosto, já decidi o que deve comprar, agora você faça o que entender, mas depois não se queixe.
A sério?!... Na troca de olhares com a minha mulher, pude manifestar a minha estupefacção por aquela inusitada intromissão.
27 maio 2025
irritação
Se há coisa que me irrita é a indiferença a que sou, a espaços, votado por quem tem por "obrigação" atender-me em cafés, bares ou esplanadas. Sentar-me e perceber que poucas mesas estão ocupadas, mas que os empregados estão muito atarefados a fazer não sei o quê; entretanto, perceber que à minha volta as mesas vão sendo ocupadas e logo depois, diligentemente, atendidas pelos mesmos empregados, enquanto eu continuo sem merecer essa diligência... é como se não estivesse ali. E o pior é que neste mesmo estabelecimento já não é a primeira, nem sequer a décima vez. Quando assim acontece, como hoje, tenho saído sem dizer nada. Não sei se será hoje, mas um dia destes, hei-de reclamar junto de alguém da gerência. Não é por nada, apenas irritação.
04 fevereiro 2025
magnífico locus etnográfico
Não é novidade, nem surpresa. É algo sabido, previsível e até expectável, mas resulta sempre em algo novo, singular e peculiar.Vir a uma repartição pública, em especial à Segurança Social, logo pela manhã é uma experiência pela qual todo o cidadão deveria ser obrigado a passar. Eu, nestes meses entre Dezembro e Fevereiro, conto já cinco visitas e em todas elas fui obrigado a esperar mais de duas horas para ser atendido (hoje já estou à espera há cerca de uma hora e meia e ainda tenho 22 pessoas à minha frente), mas eu sou paciente e consigo, de alguma forma, transformar em útil e rentável este tempo "morto". Entre leituras, sublinhados e comentários, pequenas notas e apontamentos, o que mais gosto é estar atento à polifonia, nalguns momentos caótica, que existe sempre, como que uma música de fundo que não nos deixa dormir ou abstrair deste lugar, protagonizada muitas vezes por personagens caricaturais.
Hoje fui arrancado da leitura do jornal diário por uma voz grossa e estranha que, exaltada e proveniente das mesas de atendimento, se fez ouvir em todo o piso. Só pude ver o segurança a dirigir-se ao local e, a partir desse momento, uma discussão de tolos, entre alguém a falar numa língua estranha entremeada com algumas palavras em português e alguém a tentar acalmar a situação. Passados não mais de 10 minutos aparecem na sala de espera dois polícias acompanhados por um indivíduo que, pela aparência, terá proveniência, como agora se diz, no Indostão. Os polícias interrogavam-no, pediam identificação, documentos e ele, evasivo, não apresentava nada, apenas mexia no telemóvel querendo mostrar algo, pelos vistos sem qualquer interesse para a autoridade, que insistia em pedir-lhe identificação do país de origem (depois acabou por dizer que era indiano), e o papel da residência temporária. Não mostrou nada, nem houve sequer uma comunicação mínima entre eles. Os polícias, já fartos, pediram-lhe para os acompanhar para a rua e levaram-no não sei para onde.
Conto este episódio, porque este incidente foi motivo, de imediato, para uma intensa e animada discussão, em voz alta, entre alguns dos mais de quarenta utentes que, tal como eu, aguardavam na sala de espera a sua vez. Infelizmente, não registei a conversa e apenas me esforcei por reter aquilo que mais gostei.
Senhora A (meia-idade, diria eu com sessenta e poucos anos, que passou o tempo para trás e para a frente, a fazer e a receber chamadas, muito ocupada, com certeza):
"- isto é uma pouca-vergonha! Vem esta gente de fora e chegam cá e têm tudo. Trabalho, casa, dinheiro, subsídios... e depois ninguém os consegue tirar de cá!"
[ fez-se silêncio na sala, algumas pessoas acenaram positivamente com a cabeça, outras assobiaram para o lado e eu, eu hesitei em pegar ou no telemóvel, ou no caderno, mas este dava muito nas vistas e com o telemóvel, seria só mais um... comecei a escrever estas linhas ]
Senhora A:
"- e digo-lhe mais (já a dirigir-se para uma outra senhora que lhe tinha dado atenção com a expressão corporal), dão tudo a essa gente que vem de fora, muitos deles nem querem trabalhar, e nós, e os nossos, não temos direito a nada."
[ mais silêncio e mais concordância ]
Senhora A:
"- Mas eu não tenho nada contra pessoas que venham para cá, coitados, para viver melhor, mas olhe... eu, se depender de mim, voto no Chega e no André Ventura que, vocês vão ver, manda logo esta escumalha para a sua terra. Acaba logo com esta pouca-vergonha."
[ aqui o silêncio incómodo transformou-se numa indignada e caótica altercação entre diferentes perspectivas sobre o assunto, com algumas vozes femininas e de travo exótico a insurgirem-se perante tais afirmações ]
Senhora B (jovem, negra, pelo timbre de origem africana, atrás de mim):
"- que conversa é essa?! Mas quem é que me manda embora?! Isto é seu? Isto é tanto seu como meu. Deixa de conversa!"
Senhora C (quase idosa, pelas vestes, cigana, que foi anuindo ao que a senhora A foi dizendo):
"- andam sempre atrás de nós, temos de andar sempre a correr para aqui e para ali, para conseguirmos aquilo que temos direito. Depois, chegam estes e não respeitam ninguém..."
Senhora D (jovem, negra, também de origem africana, que se levanta porque foi chamada, e ao passar pela senhora A, atira):
"- tu és muito inteligente caramba. Nunca vi ninguém como tu. Parabéns! Tem vergonha!..."
Senhor E (meia-idade, ou melhor, idade de reforma ou pré-reforma, baixa estatura, bigodaço russo, talvez pelo excesso do cigarro, e cara carcomida pelos consumos e pela vida, casaco de cabedal, brinco na orelha, cabelo raro escovado e molhado para trás - "cabelo à foda-se", portanto - que levantando-se e aproximando-se da senhora A, comenta):
"- não vale a pena... não são os portugueses, ou os chineses, ou os indianos, são alguns indianos, ou alguns chineses, ou alguns portugueses. A senhora não pode falar assim. Deixe lá essa merda."
[ enquanto estas falas aconteciam, várias outras pessoas entabularam conversas paralelas, o que fez vir o segurança espreitar e, sorrindo, pedir calma. Mas ninguém lhe ligou patavina e continuaram alegremente a desdizer-se, até que uma voz feminina, tranquila e com sabor do Brasil, sentada ao meu lado, disse: ]
"- Calma minha gente. Até Jesus emigrou!"
[ olhei de lado para ela e registei logo a frase, pois percebi de imediato o seu potencial para terminar este instante urbano ]
Post-Scriptum: são 11:15 horas, estou à espera há mais de duas horas para ser atendido e ainda tenho 10 pessoas à minha frente. Paciente e satisfeito pelo proveito da manhã, aguardarei a minha vez.
15 janeiro 2025
quiosques
Sempre gostei de quiosques, sejam de rua ou em formato loja. Sei que neles há sempre alguma (muita) coisa com interesse e onde é um prazer gastar dinheiro. Aliás, seria um dos poucos negócios em que me imagino, quero dizer, logo depois de uma livraria (de fundos bibliográficos), seria num quiosque que eu arriscaria investir e onde eu, penso, não me importaria de estar e ficar.
Acontece que, para lamento meu, nos últimos tempos, temos vindo a assistir ao seu desaparecimento das paisagens urbanas e, principalmente, seus arrabaldes. Serão várias as razões para tal fenómeno, desde logo, a mais do que reconhecida quebra de vendas de jornais em formato papel, mas eu continuo a precisar deles na minha existência quotidiana e tem sido crescente a dificuldade de encontrar aquilo que procuro. Mais uma "arte" urbana em vias de extinção.
10 junho 2024
perigos avulsos
Aqui há dias, estando eu a acompanhar alunos em trabalho de campo, desloquei-me a Vilar de Andorinho, onde uma equipa de catorze alunos se encontrava. Ao atravessar uma passadeira, bem no centro da localidade, e depois de ter verificado que não se aproximava nenhum veículo, sou surpreendido por uma longa buzinadela, de alguém que se aproximava do meu lado direito a grande velocidade. Quando levanto o olhar é uma trotinete eléctrica que passa por mim a grande velocidade, sem sequer esboçar qualquer travagem. Há medida que se afastava, eu gritei e repeti que estava na passadeira. O indivíduo (jovem adulto) não terá gostado do meu reparo e, afastado cerca de 100 a 200 metros, trava a fundo, atira a trotinete para o meio da rua e vem na minha direcção, vociferando ameaças e impropérios. Eu acabei de atravessar a rua e fiquei imóvel à espera dele, repetindo sempre que estava numa passadeira. Ele quando chega a quatro ou cinco metros de distância detém o passo e fica como que a medir-me. Eu mantive-me quieto e sem tirar os olhos do palerma, repeti o meu argumento. Ele, depois de me ameaçar com umas lambadas ou algo do género, vira-me as costas e vai à vida dele.
Moral da história: será sempre melhor ignorar estes e outros inaptos sociais, pois as consequências serão sempre imprevisíveis. Há muito que eu sei isto e normalmente até sou tranquilo e nada conflituoso no trânsito e fora dele. Aconteceu e serviu de alerta.
(escrito a 1 de Junho de 2024)
31 março 2024
from the army
[ Dialogue in English with the restaurant owner, in the middle of the meal, yesterday, March, 30th, in Fira ]
"- Sir, is everything all right here?
- Yes, everything is fine, thank you.
- Sorry, can I ask you where you come from?
- We come from Portugal.
- From Portugal?! Ok, very well. And may I ask you what you do for a living?
- I'm an anthropologist.
- Anthropologist?! Ok, I thought it was something else...
- Yes? What did you think?
- Well, You are very serious. In a good way, of course. I thought it was something in the army, but I was wrong. Sorry.
- Yes, completely. I never belonged and have always been very far from this universe.
- Sorry for the abuse.
- No problem."
---- tradução ----
"- Senhor, está tudo bem aqui?
- Sim, obrigado.
- Desculpe, posso perguntar-lhe de onde vêem?
- De Portugal.
- Ok. muito bem. E posso perguntar-lhe o que faz na vida?
- Sou antropólogo.
- Antropólogo!? Ok. Pensei que fosse outra coisa...
- Sim? O que pensou?
- Bem, o senhor é muito sério. No bom sentido, claro. Pensei que fosse algo nas forças armadas, mas enganei-me.
- Sim, completamente. Nunca pertenci e sempre estive muito longe desse universo.
- Desculpe o abuso.
- Não tem problema."
28 fevereiro 2024
pobreza energética. um exemplo
Um dia destes tive que me deslocar a um balcão de atendimento de uma grande empresa que, não por acaso, detém o monopólio da distribuição de energia em Portugal. Ao retirar a senha de atendimento, verifiquei que tinha à minha frente cerca de vinte pessoas e a espera seria considerável. Num espaço incrivelmente exíguo para tamanho movimento, aguardei encostado a uma nesga de parede livre e fui observando a performance das três meninas que iam atendendo os clientes, muitos deles, diga-se, pessoas idosas que traziam consigo muitas dúvidas, questões e reclamações. Num exercício de voyeurismo forçado, não pude deixar de ouvir e acompanhar muitas dessas conversas.
Uma das situações era a de um idoso que, com a última factura na mão, se queixava do valor cobrado. Normalmente pagava vinte, vinte e poucos euros, mas esta última apresentava um valor a pagar superior a cinquenta euros. O senhor estava indignado e suspeitava que o contador deveria ter algum problema ou avaria. A menina, depois de verificar no sistema, lá lhe disse que não havia qualquer problema com o contador e que esse valor correspondia à energia consumida nesse período de facturação. Ele teimava que não podia ser. E ela, num volume que inundava toda a sala, lá começou a fazer-lhe perguntas para tentar justificar o tal valor...
- Então o senhor, se calhar deixa as luzes acesas...
- Não deixo nada. Só sou eu e a minha mulher e as luzes sempre foram as mesmas...
- Mas tem ligado o aquecedor?
- Claro, está frio e eu ligo um aquecedor pequenino que lá temos...
- Pois, então é isso. Tem que desligar o aquecedor e embrulhar-se num cobertor...
Eu, assim como outros clientes que aguardavam vez, não queria acreditar no que estava a ouvir. Não consegui outra reacção que não sorrir, pois a vontade era partir para a ignorância e insultar aquela funcionária. Então, quando se sabe que muita gente em Portugal vive em pobreza energética e não consegue aquecer a casa em que habita, o conselho desta senhora é que um casal de octogenários prescindam da única fonte de calor que têm e se remedeiem com mantas e cobertores. Está certo.
Ao se despedir do senhor e enquanto este agradecia e se levantava para sair, reforçou a ideia, dizendo: - E já sabe, não se esqueça de desligar o aquecedor...
Miserável. Triste, muito triste.
31 dezembro 2023
haverá sempre disto
Tal como nos dias anteriores, hoje de manhã saí de casa apenas para a dose mínima de cafeína, sem a qual não sei viver. Na pastelaria onde tenho ido, e na mesa ao lado, dois sexagenários trocavam votos de bom ano e comentavam com quem e onde iriam passar a passagem de ano. Um deles, enquanto dava mais uma passa no seu cigarro e bebericava o seu café, dizia que era um triste e que não tinha um tostão no bolso para gastar mais logo. Não sei se procurava apenas a solidariedade do amigo e cravar-lhe a despesa naquele momento, ou se era mesmo sincero o seu desabafo. Na dúvida, não deixei de comentar com quem comigo estava, que haverá sempre vícios mais fortes do que qualquer razoabilidade ou bom senso.
Enfim.
Bom ano.
16 dezembro 2023
ali vão os noivos
Hoje, manhã de Sábado soalheira, com as janelas abertas para a casa respirar, chegam-me aos ouvidos sons sequenciados de carros a buzinar. A associação não é imediata, mas lá acabo por perceber do que se trata. Há quanto tempo não ouvia este som ritual. Não consigo recordar essa última vez. Talvez o moderno ar dos tempos tenha também acabado com estes cortejos rituais de anúncio público de que ali vão os noivos. Não faz mal, mas hoje aconteceu.
17 abril 2023
verbo, salivar
Passear à beira mar, que é como quem diz à beira da praia, por estes dias, é constatar o regresso em massa das pessoas libertas dos espartilhos e com as carnes à solta, mas é também o momento do eterno retorno dos mirones, que estrategicamente se posicionam para a melhor perspectiva sobre esses nacos de carne desnudados. Não há como não reparar na pinta deles, quase sempre de óculos escuros e sempre a salivar, sobranceiros ao areal. É que nem disfarçam.
30 janeiro 2023
tique nervoso
Descobri, recentemente, um lugar onde se toma um delicioso café. Algo cada vez mais difícil de acontecer. Passei a lá ir todos os dias e tem alguns que lá vou de propósito mais do que uma vez. Espaço simples e pequeno, muito asseado e de preços baratos. As empregadas são uma simpatia, ao ponto de uma delas, para além de meter conversa ocasional comigo, sempre que me atende pisca o olho. Com certeza, um tique nervoso que repete com outros clientes, mas em todo o caso, passei a estar atento e a tentar perceber se o tique se repete com os demais. Ainda não consegui.
28 setembro 2022
para fim de conversa
Bem perto da Santa Maria Adelaide, esplanada de afamado café, pão-quente e restaurante, com grande freguesia e elevada rotação. Vim sem pressa, obedecendo ao horário da minha criança, com intenção de aproveitar esse tempo para revisão de textos. Não o fiz porque os meus ouvidos depressa se instalaram na mesa ao lado da minha, onde duas mulheres, mãe e filha, conversavam sobre o bricabraque das suas vidas, até que ouço:
- Porque não te casas?
- Mas vou casar porquê?... e para quê?
- Ó filha! Para quê?... então, não achas que ficavas melhor, mais segura, se casasses?
- Não Mãe, nada disso. O Xxxxx não quer saber disso e eu também não... ele faz a vida dele e eu faço a minha...
- Pois é, isso não tem jeito nenhum. Onde já se viu?... cada um a fazer a sua vida...
- Mãe! Tu quiseste casar. Eu não quero. Acabou a conversa.
12 setembro 2022
movimento suspenso
Enquanto espero pelo resto da família, sento-me para um café, um copo de água e, talvez, uma leitura de ocasião. Estou num café bastante concorrido e, ao olhar à minha volta, encontro à minha frente, sozinho, um indivíduo de meia idade a tomar café. Aquilo que me reteve a atenção nele foi o facto de estar com a revista LER aberta à sua frente, enquanto adoçava e mexia a sua bebida. Com os olhos sempre na revista, pegou na chávena e aproximou-a da boca, mas a determinado momento suspendeu esse movimento e ficou com o braço no ar e a chávena suspensa na mão, a meio caminho entre a mesa e a boca. Continuou a ler e o café suspenso, ainda fez uns ligeiros movimentos de aproximação, mas a leitura continuava a mantê-lo refém e toda a sua atenção no que lia. Só passados alguns minutos, talvez quando terminou um texto ou artigo, ou chegou a uma parte do texto menos interessante, e quando o café já estaria de certeza frio, é que resolveu finalizar aquele movimento inicial e, depois, lentamente pousar a chávena no respectivo pires. Fechou a revista, levantou-se e foi embora.
25 fevereiro 2022
enquanto esperava
Hoje, à hora de almoço, enquanto esperava pelo meu filho à porta da escola, ouvia a conversa de um pequeno grupo de miúdos, que não teriam mais de 12 ou 13 anos, sobre a guerra na Ucrânia. Ainda que num tom jocoso e brincalhão, demonstrativo da distância que os separa do palco da guerra e da mais que aparente sensação de segurança, o diálogo era animado e participado, percebendo-se a preocupação e a assertividade de alguns dos comentários e afirmações. Fiquei ali preso a ouvi-los, agradado por perceber a preocupação e consciência da gravidade da situação, até que eles substituíram o debate por uma qualquer brincadeira mais ou menos parva.
10 fevereiro 2022
é cego
Oito e trinta da manhã, avenida da república em Vila Nova de Gaia, entro num estabelecimento comercial para registar o Euromilhões. Ao sair, dou passagem a uma funcionária que carregava um balde e respectiva esfregona. Sem se aperceber que eu vou atrás dela, larga a porta de vidro. Quando se apercebe:
- Ai desculpe, não reparei que estava atrás de mim.
- Não faz mal. Obrigado. Digo-lhe eu.
- Sabe, é que o de trás não vê!
Ok, pensei eu, enquanto fazia um esforço por afastar do pensamento o referido cego da senhora.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

