30 junho 2026

"capitalismo de desastre", claro como a água

A propósito da não actuação, quer dizer, da não reacção do Estado depois da catástrofe natural que nos infligiu no início de 2026, Diogo Duarte escreveu uma crónica no jornal Mapa (nº 49 - Abril/Junho 2026), acerca do capitalismo de desastre. Aconselhando vivamente a sua leitura, mas na impossibilidade de o reproduzir aqui na íntegra, transcreve um pequeno fragmento que demonstra na perfeição e com toda a clareza a estratégia que há décadas foi iniciada contra o sector público.

"Pelo menos no campo da resposta social, o Estado vai-se reduzindo a uma performance, a uma simulação que finge simultaneamente a sua necessidade e a sua insuficiência e onde se insurge a aparente inevitabilidade do mercado. [...] Há um paradigma subjacente, programado, em que se acelera a degradação do Estado e a afirmação do mercado como alternativa. Tem-se-lhe chamado "capitalismo de desastre".
O "capitalismo de desastre" não se verifica somente como reacção à oportunidade de retorno que surge numa catástrofe natural ou bélica. Ele revela-se também noutros desastres menos instantâneos e cataclísmicos - mas igualmente destrutivos. É especialmente evidente o caso da habitação e da saúde em Portugal, onde a demissão e degradação calculada do Estado são feitas em simultâneo com um esforço para abrir alas ao capital privado.
Como é evidente, o mercado não surge - senão retoricamente - como alternativa ou complemento ao Estado. Até porque a sua afirmação nesses sectores depende da degradação das capacidades que o Estado apresentava com relativa eficácia. E depende, obviamente, da possibilidade de retorno, quase sempre explorada através de práticas predatórias. Logo, essa afirmação do mercado no lugar do Estado não se dá de forma desinteressada, nem com o fim de suprir as necessidades das populações, e certamente não será de esperar que se revele capaz de responder de forma imediata em situações de colapso social e infra-estrutural, como acontece numa catástrofe, quando algumas das urgências mais prementes se colocam."
(Diogo Duarte, in jornal Mapa, p.6)

19 junho 2026

manguito digital

"Ler um livro em papel pode ser um pequeno acto de resistência. Optar pelo livro real ao invés do e-book pode ser bem mais do que um regresso ao passado e transformar-se num manguito digital às editoras que nos nos vendem os livros a nós e nos "vendem" às empresas de marketing - os nossos hábitos, escolhas, preferências. O livro em papel dá-nos sem pedir nada em troca; o livro digital dá-nos, levando tudo o que pode em troca."
António Rodrigues, in jornal Público, 19 Junho 2026.


Assim escreveu hoje o jornalista, numa das suas "4 esquinas". Eu nunca li um e-book (leio, consulto e cito artigos de trabalho em versão pdf no pc, mas ainda assim, normalmente, imprimo esses artigos e só depois leio, rabisco e me sirvo da sua informação), acho até que irei morrer sem nunca ler na íntegra um livro digital. Por resistência, sim, mas também pelo gosto verdadeiro do objecto físico, de o sentir nas mãos, de o ver e cheirar. Sim, irei insistir e permanecer no analógico.

15 junho 2026

mundial: pagar para ver

Olho o quadro de jogos dos diferentes grupos que estão a disputar o campeonato do mundo de futebol, a decorrer no México, EUA e Canadá, e constato com relativa indignação que quase todos esses jogos, com a excepção dos jogos de Portugal e mais um ou outro, serão transmitidos por canais fechados, que requerem uma assinatura e um pagamento. Não que eu queira assistir a qualquer jogo, para além dos de Portugal (e mesmo esses não será certo), mas sou assaltado por uma nostalgia do tempo em que os mundiais e os europeus de futebol preenchiam as nossas tardes e noites de Verão. E não foi assim há tanto tempo como isso... enfim, o desporto rei para a maioria da população mundial é, cada vez mais, um desporto para cada vez menos gente. Em tempos, aconteceu isso com a Fórmula 1, agora chegou a vez do futebol. Um dia destes, nada restará de gratuito, para além do lixo televisivo que inunda as grelhas dos canais generalistas em Portugal. A solução será, já é, manter a televisão desligada.

08 junho 2026

pobre contra pobre, mais uma vez

Já muito se disse e escreveu sobre a proposta do governo de Luís Montenegro (AD) para a criação de uma Prestação Social Única, aprovada em Conselho de Ministros e que deu já entrada na Assembleia da República. Esta proposta pretende condensar numa só treze prestações sociais, num aparente esforço de simplificação, só que não, esta proposta é muito mais do que isso e, vinda de onde vem, o pobre tem que desconfiar.
Daquilo que li e ouvi sobre a proposta e, também, do que percebi das explicações do governo, não restam dúvidas que se trata de mais um ataque aos mais pobres e desfavorecidos da nossa sociedade. Senão, vejamos:
Obriga à prestação de até 15 horas semanais de trabalho social...
Implicará cortes relativos às três prestações sociais que mais recursos consomem actualmente (97%): Subsídio de Desemprego, Pensão de Velhice e no Rendimento Social de Inserção...
Impõe limites à posse de patrimónios: móveis ou imóveis...
Para terminar, e o que mais me impressiona, é a vontade deste governo em criar um canal para denúncias de situações de fraude ou abuso, quer isto dizer, incentivar os indivíduos à delação, ou seja, a denunciarem os seus familiares, amigos, vizinhos, conhecidos ou até desconhecidos, numa prática bem conhecida de regimes de outra estirpe e que de democráticos nada têm. Bem explícito, aqui, o expoente máximo da hipocrisia social, promover a luta do pobre contra o pobre, do roto contra o descosido e do faminto contra o esganado, nas arenas sociais, deixando as elites em paz e tranquilidade nos seus Olimpos.
Para acompanhar nos próximos dias e semanas...

05 junho 2026

ao espelho, em publicação colectiva


Depois de cerca de dez anos sem participar nesta iniciativa anual da Academia de Letras de Trás-os-Montes (ALTM), regressei este ano à publicação colectiva com um texto memória sobre um peculiar artesão do concelho de Vinhais. O meu texto tem por título: "Artesão Anímico: natureza, abstracção, criação" e dediquei-o à memória do artesão David Afonso.

03 junho 2026

a ideia estapafúrdia de Agualusa

José Eduardo Agualusa, escritor angolano, afirmou recentemente que a designação "língua portuguesa" deveria ser substituída por "língua geral". Declaração proferida no Rio de Janeiro, fundamentada pelo facto de já não existir uma adequação à realidade plural e descolonizada do idioma e que a nova designação seria "expressão de um território de encontros e de afectos".
Pois bem, estamos aqui perante mais uma provocação simbólica e até reaccionária relativa à suposta propriedade da língua. De facto, a língua portuguesa nasceu em Portugal e evoluiu até hoje com os contributos da variedade cultural dos países que se expressam na mesma língua. Isto não é ser etnocêntrico, ou defensor de uma propriedade exclusiva da língua, numa atitude colonialista, pois a língua é de todos quantos a utilizam.
Depois, a proposta de Agualusa parece-me mais uma tentativa de revisionismo histórico, bem característico das narrativas pós-colonialistas que, de alguma forma, procuram a deslegitimação cultural. Mas atentemos à nova designação proposta: "geral", ou seja, "realidade plural" de uso em vários países e comunidades. Certo, mas isso não acontece com outras línguas como o Castelhano, o Inglês e o Francês?!... Todas estas outras línguas são veículos de comunicação de diferentes comunidades e países, em diferentes latitudes, e nem por isso, sentem a necessidade de alteração as suas designações. Todas elas, assim como o português, são planetárias e são já "territórios de encontros e de afectos". Não faz qualquer sentido esta ideia de José Eduardo Agualusa.

privatização das praias portuguesas

Não é novidade a tentativa de tornar privado aquilo que é um bem colectivo. A lei portuguesa é bem explícita ao afirmar as praias como um bem de domínio público marítimo, de livre e gratuita utilização (Decreto-Lei nº 97/2018) e, por isso, não se compreende como é possível que algumas corporações privadas consigam transformar parcelas de costa portuguesa em espaços de exclusão e de acesso limitado à população. Foi notícia ontem que os proprietários da Herdade da Comenda, em Setúbal, reclamam em tribunal a titularidade de cinco praias. Já eram conhecidos outros casos, como no concelho de Grândola, onde acessos a determinadas praias são condicionados e até impedidos por diferentes tipos de barreiras. Eu, que até não gosto de praia e não as frequento, considero inadmissível que o Estado português permita qualquer excepção à Lei e à liberdade de circulação de pessoas pelo vastíssimo areal da nossa costa. Inadmissível.

02 junho 2026

freguês

Não poderei negar a satisfação que sinto ao assinalar anualmente o meu aniversário, pois isso significa desde logo que ainda por cá ando, mas ao mesmo tempo, admito que nesses dias a disposição não é a melhor, nem alegria ou optimismo. Não será uma condição depressiva momentânea e cíclica, mas também não conseguirei traduzir para palavras o que sinto por estes dias. Para além da consideração daqueles que orbitam perto e que constituem o meu universo existencial, que fazem questão de me felicitar, nada de extraordinário acontece fora das rotinas quotidianas. Saber que existimos numa constelação de pessoas e que não estamos sozinhos é muito reconfortante, apesar de apreciar superlativamente estar sozinho, numa espécie de solidão voluntária, em especial a cada dia 26 de Maio.
Curiosidade, hoje, e porque inesperado e sem precedentes, recebi uma mensagem de texto no meu telemóvel, da Junta de Freguesia do sítio onde resido. Finalmente, e depois de mais de cinco décadas, sou considerado freguês e com deferência. Não sei como julgar esta nova atitude, mas espero que assim acontece com os demais fregueses desta localidade.

[ escrito a 26 de Maio de 2026 ]

01 junho 2026

de mansinho, até um dia...


A notícia é do jornal Público, edição deste primeiro dia de Junho. O Governo decidiu que o imposto sobre as bebidas adicionadas de açúcar (refrigerantes), conhecido como o imposto "Coca-cola", no orçamento de 2026, sem ter havido qualquer debate, deixará de ser consignado à saúde, ou ao SNS. Ainda segundo a mesmo notícia, este imposto, só em 2025, rendeu 60,6 milhões de euros, e desde 2017, quando foi criado com o objectivo de contribuir para a sustentabilidade do SNS, já rendeu 533,2 milhões de euros.
Um outro imposto, o do tabaco, que também era consignado ao SNS, sofreu uma alteração na fórmula de cálculo, o que significou uma redução de 153 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde.
Pois é assim, de mansinho, mas com acertividade, que este Governo tem promovido a descapitalização do SNS. Passo a passo vai-se minando e esvaziando, até o dia em que vai ser plenamente justificado promover a sua privatização. A ambição destes senhores, não tenho dúvidas, é, e será, essa.