19 junho 2026

manguito digital

"Ler um livro em papel pode ser um pequeno acto de resistência. Optar pelo livro real ao invés do e-book pode ser bem mais do que um regresso ao passado e transformar-se num manguito digital às editoras que nos nos vendem os livros a nós e nos "vendem" às empresas de marketing - os nossos hábitos, escolhas, preferências. O livro em papel dá-nos sem pedir nada em troca; o livro digital dá-nos, levando tudo o que pode em troca."
António Rodrigues, in jornal Público, 19 Junho 2026.


Assim escreveu hoje o jornalista, numa das suas "4 esquinas". Eu nunca li um e-book (leio, consulto e cito artigos de trabalho em versão pdf no pc, mas ainda assim, normalmente, imprimo esses artigos e só depois leio, rabisco e me sirvo da sua informação), acho até que irei morrer sem nunca ler na íntegra um livro digital. Por resistência, sim, mas também pelo gosto verdadeiro do objecto físico, de o sentir nas mãos, de o ver e cheirar. Sim, irei insistir e permanecer no analógico.

15 junho 2026

mundial: pagar para ver

Olho o quadro de jogos dos diferentes grupos que estão a disputar o campeonato do mundo de futebol, a decorrer no México, EUA e Canadá, e constato com relativa indignação que quase todos esses jogos, com a excepção dos jogos de Portugal e mais um ou outro, serão transmitidos por canais fechados, que requerem uma assinatura e um pagamento. Não que eu queira assistir a qualquer jogo, para além dos de Portugal (e mesmo esses não será certo), mas sou assaltado por uma nostalgia do tempo em que os mundiais e os europeus de futebol preenchiam as nossas tardes e noites de Verão. E não foi assim há tanto tempo como isso... enfim, o desporto rei para a maioria da população mundial é, cada vez mais, um desporto para cada vez menos gente. Em tempos, aconteceu isso com a Fórmula 1, agora chegou a vez do futebol. Um dia destes, nada restará de gratuito, para além do lixo televisivo que inunda as grelhas dos canais generalistas em Portugal. A solução será, já é, manter a televisão desligada.

08 junho 2026

pobre contra pobre, mais uma vez

Já muito se disse e escreveu sobre a proposta do governo de Luís Montenegro (AD) para a criação de uma Prestação Social Única, aprovada em Conselho de Ministros e que deu já entrada na Assembleia da República. Esta proposta pretende condensar numa só treze prestações sociais, num aparente esforço de simplificação, só que não, esta proposta é muito mais do que isso e, vinda de onde vem, o pobre tem que desconfiar.
Daquilo que li e ouvi sobre a proposta e, também, do que percebi das explicações do governo, não restam dúvidas que se trata de mais um ataque aos mais pobres e desfavorecidos da nossa sociedade. Senão, vejamos:
Obriga à prestação de até 15 horas semanais de trabalho social...
Implicará cortes relativos às três prestações sociais que mais recursos consomem actualmente (97%): Subsídio de Desemprego, Pensão de Velhice e no Rendimento Social de Inserção...
Impõe limites à posse de patrimónios: móveis ou imóveis...
Para terminar, e o que mais me impressiona, é a vontade deste governo em criar um canal para denúncias de situações de fraude ou abuso, quer isto dizer, incentivar os indivíduos à delação, ou seja, a denunciarem os seus familiares, amigos, vizinhos, conhecidos ou até desconhecidos, numa prática bem conhecida de regimes de outra estirpe e que de democráticos nada têm. Bem explícito, aqui, o expoente máximo da hipocrisia social, promover a luta do pobre contra o pobre, do roto contra o descosido e do faminto contra o esganado, nas arenas sociais, deixando as elites em paz e tranquilidade nos seus Olimpos.
Para acompanhar nos próximos dias e semanas...

05 junho 2026

ao espelho, em publicação colectiva


Depois de cerca de dez anos sem participar nesta iniciativa anual da Academia de Letras de Trás-os-Montes (ALTM), regressei este ano à publicação colectiva com um texto memória sobre um peculiar artesão do concelho de Vinhais. O meu texto tem por título: "Artesão Anímico: natureza, abstracção, criação" e dediquei-o à memória do artesão David Afonso.

03 junho 2026

a ideia estapafúrdia de Agualusa

José Eduardo Agualusa, escritor angolano, afirmou recentemente que a designação "língua portuguesa" deveria ser substituída por "língua geral". Declaração proferida no Rio de Janeiro, fundamentada pelo facto de já não existir uma adequação à realidade plural e descolonizada do idioma e que a nova designação seria "expressão de um território de encontros e de afectos".
Pois bem, estamos aqui perante mais uma provocação simbólica e até reaccionária relativa à suposta propriedade da língua. De facto, a língua portuguesa nasceu em Portugal e evoluiu até hoje com os contributos da variedade cultural dos países que se expressam na mesma língua. Isto não é ser etnocêntrico, ou defensor de uma propriedade exclusiva da língua, numa atitude colonialista, pois a língua é de todos quantos a utilizam.
Depois, a proposta de Agualusa parece-me mais uma tentativa de revisionismo histórico, bem característico das narrativas pós-colonialistas que, de alguma forma, procuram a deslegitimação cultural. Mas atentemos à nova designação proposta: "geral", ou seja, "realidade plural" de uso em vários países e comunidades. Certo, mas isso não acontece com outras línguas como o Castelhano, o Inglês e o Francês?!... Todas estas outras línguas são veículos de comunicação de diferentes comunidades e países, em diferentes latitudes, e nem por isso, sentem a necessidade de alteração as suas designações. Todas elas, assim como o português, são planetárias e são já "territórios de encontros e de afectos". Não faz qualquer sentido esta ideia de José Eduardo Agualusa.

privatização das praias portuguesas

Não é novidade a tentativa de tornar privado aquilo que é um bem colectivo. A lei portuguesa é bem explícita ao afirmar as praias como um bem de domínio público marítimo, de livre e gratuita utilização (Decreto-Lei nº 97/2018) e, por isso, não se compreende como é possível que algumas corporações privadas consigam transformar parcelas de costa portuguesa em espaços de exclusão e de acesso limitado à população. Foi notícia ontem que os proprietários da Herdade da Comenda, em Setúbal, reclamam em tribunal a titularidade de cinco praias. Já eram conhecidos outros casos, como no concelho de Grândola, onde acessos a determinadas praias são condicionados e até impedidos por diferentes tipos de barreiras. Eu, que até não gosto de praia e não as frequento, considero inadmissível que o Estado português permita qualquer excepção à Lei e à liberdade de circulação de pessoas pelo vastíssimo areal da nossa costa. Inadmissível.

02 junho 2026

freguês

Não poderei negar a satisfação que sinto ao assinalar anualmente o meu aniversário, pois isso significa desde logo que ainda por cá ando, mas ao mesmo tempo, admito que nesses dias a disposição não é a melhor, nem alegria ou optimismo. Não será uma condição depressiva momentânea e cíclica, mas também não conseguirei traduzir para palavras o que sinto por estes dias. Para além da consideração daqueles que orbitam perto e que constituem o meu universo existencial, que fazem questão de me felicitar, nada de extraordinário acontece fora das rotinas quotidianas. Saber que existimos numa constelação de pessoas e que não estamos sozinhos é muito reconfortante, apesar de apreciar superlativamente estar sozinho, numa espécie de solidão voluntária, em especial a cada dia 26 de Maio.
Curiosidade, hoje, e porque inesperado e sem precedentes, recebi uma mensagem de texto no meu telemóvel, da Junta de Freguesia do sítio onde resido. Finalmente, e depois de mais de cinco décadas, sou considerado freguês e com deferência. Não sei como julgar esta nova atitude, mas espero que assim acontece com os demais fregueses desta localidade.

[ escrito a 26 de Maio de 2026 ]

01 junho 2026

de mansinho, até um dia...


A notícia é do jornal Público, edição deste primeiro dia de Junho. O Governo decidiu que o imposto sobre as bebidas adicionadas de açúcar (refrigerantes), conhecido como o imposto "Coca-cola", no orçamento de 2026, sem ter havido qualquer debate, deixará de ser consignado à saúde, ou ao SNS. Ainda segundo a mesmo notícia, este imposto, só em 2025, rendeu 60,6 milhões de euros, e desde 2017, quando foi criado com o objectivo de contribuir para a sustentabilidade do SNS, já rendeu 533,2 milhões de euros.
Um outro imposto, o do tabaco, que também era consignado ao SNS, sofreu uma alteração na fórmula de cálculo, o que significou uma redução de 153 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde.
Pois é assim, de mansinho, mas com acertividade, que este Governo tem promovido a descapitalização do SNS. Passo a passo vai-se minando e esvaziando, até o dia em que vai ser plenamente justificado promover a sua privatização. A ambição destes senhores, não tenho dúvidas, é, e será, essa.