15 julho 2026

o meu bloco acabou

[o meu cartão de aderente, com a quota de 2005, depois mudaram o sistema de pagamento]

Foi notícia ontem a desvinculação de sessenta militantes do Bloco de Esquerda, que assinaram uma carta pública onde explicam as razões que os levaram a sair do partido. Eu sou um desses sessenta assinantes e com esta atitude dou por finda uma militância partidária que durou vinte e dois anos. Aderi ao BE em 2004, na distrital de Bragança, tendo sido eleito, logo no ano seguinte, para a Assembleia Municipal de Bragança, onde permaneci durante dois mandatos, ou seja, até 2013. No entretanto, e no partido, pertenci a várias estruturas, fui membro da Mesa Nacional, membro da Comissão Nacional Autárquica, fui cabeça de lista, pelo círculo eleitoral de Bragança, às eleições legislativas de 2009 e fui mandatário de Bragança da candidatura presidencial de Manuel Alegre, em 2011. Depois de 2013, abandonei todas as responsabilidades que tinha e passei à condição de "militante de base", mantendo-me atento a tudo o que ia acontecendo. Em 2015 ou 2016, já não sei bem, mudei a minha militância para o concelho do Porto, onde me mantive até agora. Depois de terminada a aventura da geringonça, o BE, não sei se em negação, iniciou um período de desacerto crescente e afastamento dos valores e das causas que estiveram na sua génese. Aderi à moção E, tendência interna conhecida por Convergência, que se apresentou a várias convenções com listas e moções alternativas às da maioria, sem nunca conseguir fazer valer as suas posições, mas acima de tudo, sem nunca conseguir fazer valer os seus alertas daquilo que, na nossa opinião, estava a acontecer, por culpa própria, ao partido. Enquanto membro das listas da oposição interna, cheguei a ser eleito para a concelhia do Porto, mas também aí o esforço foi inglório. Aquilo que mais me incomodou nestes últimos anos, em que o BE derivou ao centro, foi perceber que não éramos, não somos, considerados e que seria um favor que lhes faríamos, se saíssemos. Pois bem, apesar de ser algo que já estava planeado acontecer, só agora se concretizou. Lamento, pois foi a única militância partidária que tive na vida. Conheci muita gente interessante, ganhei alguns amigos e a experiência autárquica foi muito enriquecedora. Sem hesitações, se surgisse a oportunidade, voltaria a desempenhar tais funções. Quem sabe?!... A verdade é que o BE está no seu estertor e, dá-me a sensação, que ainda não se aperceberam disso. O meu bloco de esquerda acabou, e não foi só agora.

14 julho 2026

programa volta

Nos últimos tempos apercebi-me da existência de um novo equipamento nos supermercados e hipermercados e de uma grande agitação à sua volta. Num primeiro momento nem quis saber do que se tratava, mas depois, foi impossível manter-me alheado deste novo esquema de subtrair dinheiro aos nossos bolsos.
Pelos vistos este novo esquema imposto aos consumidores foi a resposta encontrada pelo Estado português para satisfazer a exigência da União Europeia para que os Estados aumentem drasticamente a recolha de garrafas de plástico até 2029. O princípio que norteia esta exigência é o de "poluidor-pagador", e eu até concordo com ele, mas logo depois, afinal sabe-se que quem polui são as empresas que inundaram o mercado com as embalagens em plástico e não o consumidor final, pois este só as compra porque essas mesmas empresas preferem o plástico a outros materiais alternativos, como por exemplo o vidro, para elas mais caro.
Também não posso concordar, nem aceitar que sejam os consumidores a suportar o ónus deste "programa", pois o valor acrescido por unidade, dez cêntimos, não será benefício para o consumidor, nem tão pouco para qualquer ideal ecológico ou ambiental. E, aqui, importa perceber quem é a entidade que gere e, claro, beneficia, com este "programa". Não é o Estado, que mais uma vez demite-se das suas funções e entrega com celeridade a privados aquilo que deveria ser sua responsabilidade. Quem está a gerir este esquema gigantesco é uma entidade privada, se não estou em erro, uma associação, de nome SDR Portugal, constituída por grandes empresas do sector das bebidas e pelos maiores grupos de distribuição do país. Interessante!... As mesmas empresas que inundam há décadas o mercado com plástico, são as mesmas que passam a controlar este sistema e tudo em nome da tão querida e ambicionada SUSTENTABILIDADE... conversa fiada, na verdade é mais um esquema de "lavagem verde".
Não suporto a ideia de esbulho aos nossos bolsos permitida pelo próprio Estado, que deveria ter criado um sistema público e com obrigações para os produtores e não para os consumidores. Uma vez mais, somos nós a contribuir para o amealhar pornográfico de apenas alguns. Esta seria uma boa iniciativa para que o Estado agisse de forma a, não só controlar e gerir, o programa, mas como também fortalecer o fundo ambiental com estas verbas.
A minha reacção a mais este abuso foi: Primeiro, evitar comprar garrafas de plástico; segundo, rejeitar esta ideia e este esquema, assumindo o acréscimo do preço; e, terceiro, boicotar este novo esquema, que espero seja um tremendo fracasso, deixando de reciclar o lixo doméstico. Lamento, mas é a forma encontrada para manifestar a minha revolta e repulsa de mais um esquema do capitalismo luso.

03 julho 2026

ao espelho


Artigo publicado na edição de 2 de Julho de 2026, no jornal Mensageiro de Bragança, em resultado da leitura de um texto de Jorge Novo, na sua coluna habitual do mesmo jornal, na edição da semana anterior (25/06/26).

01 julho 2026

troca de cromos e anti-capitalismo

Um destes dias, o meu irmão contava, à mesa do jantar, a experiência que tivera com o seu filho num evento de troca de cromos, se não estou em erro, na praça D. João I, no Porto. Há muito tempo que as colecções de cromos dos campeonatos do mundo de futebol motivam uma febre junto dos mais novos, mas também nalguns menos novos e, um pouco por todo o lado, a corrida às saquetas e aos cromos é uma autêntica loucura. Eu também já fui "obrigado" a andar em andanças parecidas, mas aquilo que está a acontecer neste momento, com o Mundial de Futebol 2026 e a colecção da Panini, é algo que nunca terá acontecido. Dizia o meu irmão que bastava ter cromos na mão para as pessoas iniciarem diálogo, trocando cromos, e eram dezenas, talvez centenas, de miúdos com os pais, a interagirem sucessivamente entre eles. Mas aquilo que mais me chamou a atenção, foi o facto dessa interacção e a respectiva troca de cromos ser realizada de forma limpa e mais do que justa, isto é, mesmo quando não havia cromos que interessassem (faltassem) a alguém, a troca directa acontecia pela escolha do mesmo número de cromos, ainda que repetidos, que poderiam ser úteis para próximas transacções. Ou seja, uma troca directa, limpa, desinteressada, não comercial e não especulativa. Claro que a Panini já vendeu e continua a vender de forma estrondosa e estes eventos paralelos não lhe criam mossa no negócio, mas não deixam de ser indícios da possibilidade de existirmos num outro contexto que não o capitalista e neo-liberal. Ao ouvir o meu irmão contar esta experiência, o meu cérebro remeteu-me para a reflexão: apesar da hegemonia e do poder do capital, sobrevivem entre nós muitas reminiscências da cultura pré-capitalista e até anti-capitalista. Pequenos nadas que preservam uma cosmovisão alternativa de organização social, em que a partilha, a troca, a igualdade e a justiça eram, e são, relevantes e estruturais nas comunidades. Que a sua simples aplicabilidade faz tremer e questiona o determinismo capitalista que nos foi imposto. Por isso, não tenho dúvida que um dia, mais cedo do que tarde, será possível vivermos sob esses princípios da autonomia e da harmonização dos recursos.