A propósito da não actuação, quer dizer, da não reacção do Estado depois da catástrofe natural que nos infligiu no início de 2026, Diogo Duarte escreveu uma crónica no jornal Mapa (nº 49 - Abril/Junho 2026), acerca do capitalismo de desastre. Aconselhando vivamente a sua leitura, mas na impossibilidade de o reproduzir aqui na íntegra, transcreve um pequeno fragmento que demonstra na perfeição e com toda a clareza a estratégia que há décadas foi iniciada contra o sector público.
"Pelo menos no campo da resposta social, o Estado vai-se reduzindo a uma performance, a uma simulação que finge simultaneamente a sua necessidade e a sua insuficiência e onde se insurge a aparente inevitabilidade do mercado. [...] Há um paradigma subjacente, programado, em que se acelera a degradação do Estado e a afirmação do mercado como alternativa. Tem-se-lhe chamado "capitalismo de desastre".
O "capitalismo de desastre" não se verifica somente como reacção à oportunidade de retorno que surge numa catástrofe natural ou bélica. Ele revela-se também noutros desastres menos instantâneos e cataclísmicos - mas igualmente destrutivos. É especialmente evidente o caso da habitação e da saúde em Portugal, onde a demissão e degradação calculada do Estado são feitas em simultâneo com um esforço para abrir alas ao capital privado.
Como é evidente, o mercado não surge - senão retoricamente - como alternativa ou complemento ao Estado. Até porque a sua afirmação nesses sectores depende da degradação das capacidades que o Estado apresentava com relativa eficácia. E depende, obviamente, da possibilidade de retorno, quase sempre explorada através de práticas predatórias. Logo, essa afirmação do mercado no lugar do Estado não se dá de forma desinteressada, nem com o fim de suprir as necessidades das populações, e certamente não será de esperar que se revele capaz de responder de forma imediata em situações de colapso social e infra-estrutural, como acontece numa catástrofe, quando algumas das urgências mais prementes se colocam."
(Diogo Duarte, in jornal Mapa, p.6)
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