15 maio 2026

pensar significa sofrer

Numa conversa informal nos corredores da Universidade de Coimbra, uma colega jovem investigadora comentou, como quem pensa alto ou em jeito de desabafo, que se sente mentalmente muito cansada e que às vezes, ao frequentar determinados estabelecimentos comerciais, olha para as funcionárias e sente inveja da sua aparente despreocupação e da sua monótona ou repetitiva tarefa manual. Eu ouvi-a e logo rebati essa ideia ou percepção, primeiro porque não fazemos a mais pequena ideia do que vai na "alma" de cada um dos indivíduos, neste caso trabalhadores e, depois, não é pelo facto de as tarefas ou funções serem exclusiva ou parcialmente manuais, que impede o cérebro de estar congestionado com mil e uma preocupações ou inquietações.
Mas este desabafo da colega, numa expressiva e ilustrada manifestação do seu cansaço mental, remeteu-me igualmente para a afirmação de Ludwig Wittgenstein (1889-1951), filósofo austríaco que dizia, mais ou menos, isto: não é possível pensar sem infligirmos a nós próprios algum sofrimento...
Estaria então a minha colega em sofrimento por tanto pensar?!... Se assim for, eu também vivo em permanente sofrimento, muitas vezes imperceptível ou inconsciente, mas nalguns dias bem vivo e ciente, na medida em que a idiotice não cessa e acordo quase diariamente já cansado.

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