29 dezembro 2025

sem enfeites também é Natal

Até às vésperas do Natal mantive uma atitude passiva, sem qualquer pronunciamento ou referência ao assunto, não fosse eu e assim despertar qualquer vontade. Agora, que a época já vai a caminho do seu fim, posso partilhar aqui o orgulho e satisfação pelo sucedido. Pela primeira vez, desde que habitamos casa própria, não se montou o pinheiro de Natal e demais parafernália relativa à quadra agora vivida. Nunca me opus à sua presença e colaborei sempre naquilo que me foi solicitado. Finalmente somos adultos.
Há alguns anos que eu comentava com quem vive comigo, que não fazia sentido estar com esse trabalho e que ninguém ligava ou queria saber da árvore enfeitada, pois para além do entusiasmo do dia primeiro, o da montagem, ela permanecia num canto da sala, abandonada e com as luzes apagadas, até ao dia, sempre depois do dia de Reis, em que a desmontavam.
Eu gosto do Natal e dos convívios que ele proporciona, mas detesto o consumismo incontinente e irracional que todos nós alimentamos. Não faz sentido.
Enquanto houve crianças cá em casa, muito bem, havia motivos para esse encantamento, mas agora que já são adultos ou quase, deixou de haver propósito. Espero e quero que um dia possa haver razão para a presença do pinheiro de Natal e bem iluminado, mas acima de tudo desejo poder partilhar o nosso tempo e o nosso espaço com as crianças que hão-de vir.

25 dezembro 2025

eterno centralismo

Têm sido notícia as movimentações para as nomeações dos presidentes e vice-presidentes das cinco CCDR (Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional), assim como as alterações que têm sido promovidas para essa selecção e eleição dos cargos dirigentes dessas estruturas de caracter regional. Aquilo que deveriam ser os centros de decisão e promoção dos interesses e necessidades locais e regionais, verdadeiros polos de uma necessária descentralização política e de gestão/administração territoriais, afinal não são mais do que anfiteatros de disputas partidárias e de egos pessoais, caixas de ressonâncias do eterno centralismo promovido e mantido pelo Terreiro do Paço, onde os protagonistas são reféns e prestam vassalagem àquilo que ecoa de Lisboa, em vez de prestarem atenção ao que emana dos seus territórios e comunidades. Nunca houve, não há, nem se vislumbra qualquer vontade futura de promover uma efectiva descentralização de poder e administração pelos territórios. E há quem ainda teime em sonhar com a regionalização?! Esqueçam.

12 dezembro 2025

um chá de...

Num café que a espaços frequento, pedi um chá de Cidreira, que é o único chá que peço e tomo. Não havia. - Como não tem Cidreira? - pensei eu, para logo depois, num raciocínio rápido, enquanto a menina me apresentava as alternativas habituais: Camomila, Verde, Preto, Tília, blá, blá, blá, ainda pûs a hipótese de dizer: - Então quero uma SuperBock!, mas não o fiz. Lembrei-me de Limão, apesar de não ter sido apresentado como alternativo. Muito bem, veio um Chá de Limão, só que não sabia nada a Limão. Aliás, nem sei ao que sabia, pois não me soube a nada em concreto. Só quando já estava a bebê-lo é que me ocorreu o carioca de Limão, que esse sim, sabe mesmo a Limão e eu nunca peço.

(fotografia da embalagem do dito que não sabia a nada, muito menos a Limão)

10 dezembro 2025

música efémera

Ontem, dia 9 de Dezembro, dia chuvoso na Invicta, circulava eu na rua Damião de Góis, parei nos semáforos do cruzamento com a rua Antero de Quental, onde iria virar à direita. Estava portanto na fila da direita das três que aí existem. Seria o terceiro ou quarto carro na fila, quando, olhando para a zona da passadeira, vejo um jovem, alto e bem constituído, com uma máscara cirúrgica na cara, que pára mais ou menos a meio dessa passadeira, vira-se para os automóveis e começa a tocar violino. O meu primeiro instinto foi soltar uma gargalhada, que logo de imediato sustive, pois apesar da surpresa e do inusitado, só uma condição má o poderia motivar ou obrigar a tal desempenho. Certo é que esse rapaz começou a caminhar por entre os carros, sempre a tocar violino e sem pedir nada a ninguém, mas o que aconteceu é que vários automobilistas à minha frente lhe deram dinheiro. Estou habituado, eu diria diariamente, a encontrar gente a actuar nestes momentos fugazes do trânsito... malabaristas, limpadores de vidros, pedintes, palhaços, trapezistas, etc., mas nunca esperaria encontrar um violinista. Eu que por norma não contribuo nesses momentos, pela surpresa e espanto da circunstância, também lhe dei uma moeda.

06 dezembro 2025

a sangria persiste e um mundo desaparece

A notícia é da passada quinta-feira e diz que a VASP, empresa que detém o monopólio da distribuição da imprensa nacional pelo território do país, está a avaliar ajustamentos na distribuição diária de imprensa em oito distritos do interior: Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança. Dito de outra forma, a empresa vai deixar de distribuir a imprensa diariamente nestes distritos já a partir do dia 2 de Janeiro de 2026.
Para além daquilo que já sabemos sobre a situação de maior parte dos títulos nacionais e regionais impressos em papel, esta notícia é, não reveladora porque há muito sabemos, mas a confirmação da profunda desigualdade entre os territórios litorais e os interiores do país, da desestruturação do território nacional e do abandono de qualquer política pública de coesão territorial. São jornais, bem sei, não são ambulâncias, helicópteros, escolas ou tribunais, mas o acesso à informação escrita em suporte papel, por mais banal que possa parecer, é um sintoma da "saúde" de um Estado democrático e de uma cidadania plena e esclarecida.
Para além da possibilidade desta notícia não ser mais do que uma chantagem da empresa para com o Estado, no sentido de uma renegociação de financiamentos (compensações) pelo serviço público prestado, existe aqui uma dramática representação do país real e de como ele é perspectivado a partir do Terreiro do Paço. Ainda que as vendas sejam diminutas ou residuais e não gerem receitas suficientes para pagar a sua distribuição, importa que o Estado garanta a cada cidadão português, esteja onde estiver, o acesso a essa informação em formato jornal e/ou revista impressos. Não tenho a certeza qual será a melhor solução para este problema, mas sei que, por exemplo, os CTT se não tivessem sido privatizados, seriam uma boa solução para a distribuição diária de jornais e revistas pelos pontos de venda em todo o país, nomeadamente por esses territórios interiores e esvaziados.

a grande tensão

A propósito do seu novo livro "O Fim dos Estados Unidos da América", Gonçalo M. Tavares dá uma entrevista à jornalista Isabel Lucas, que foi publicada no suplemento Ípsilon, do jornal Público de ontem, dia 5 de Dezembro de 2025. Sobre este livro com mais de novecentas páginas que o próprio autor define como "tragédia greco-americana", discorre sobre várias ideias e conceitos, paradoxos e distopias da nossa contemporaneidade e sobre futuros possíveis para a nossa espécie. A determinada altura e quando questionado sobre a mediação de mitos, responde assim:

"A questão de ir à Lua era um mito moderno, esta coisa agora de repente de ir a Marte. São mitos com motor e gasolina. O facto de os EUA não terem também uma história mítica por trás, que fundamenta as suas ideias, os seus projectos, faz com que os mitos sejam muito mitos para a frente. A tragédia greco-americana é um pouco isso. Quando falamos em mitos, normalmente, olhamos para trás, nos mitos americanos o olhar é para a frente. Daí nasce um conflito. Mas a grande tensão é entre riqueza e pobreza. Interessava-me pensar sobre até quando pobres e ricos continuarão a ser uma espécie única. Ou seja, biologicamente, a partir de quando a união de uns e outros conseguirá gerar descendência? Aí temos uma nova espécie. Há aqui também uma distopia.
Esta é uma das distopias essenciais do livro, a questão de quando é que vamos achar que está aqui uma separação exagerada. Pensa-se em guerra civil entre dois extremos políticos ou entre duas concepções de mundo, mas pode ser entre duas espécies humanas que se vão formando.
Por outro lado, há pessoas a viver como na Idade Média e outros no cume da tecnologia. Não estamos todos a viver em 2025. Quem não tem Internet ainda não chegou a a 1980. E estas pessoas cruzam-se na rua. O conflito de classe traz o conflito de épocas. É como se os pobres viessem reclamar o direito de entrar no século XXI. Esta é a grande distopia. Quis puxar por isto: ainda não está claro que há aqui um conflito gigante, uma grande guerra civil entre pobres e ricos. É uma guerra civil desproporcionada. É o século XVIII a combater com o século XXI."

(negritos meus)

04 dezembro 2025

aqui e connosco *

Foi no final da década de 70, princípio de oitenta que certos encantos deste nosso recanto o deram a conhecer e depressa o fizeram filho desta terra. 
O Fernando, menino-homem da cidade, lá de longe, da capital, era para aqui que fugia sempre que podia. Adorava a tranquilidade e a paz que aqui encontrava e, na sua simplicidade, deixava-se ficar no fundo do povo, na Campaça de sempre, entre o escano e o pátio.
Escrevo estas linhas em cima do joelho, minutos antes desta cerimónia, porque sei, sabemos, o Fernando é nosso amigo. Eu conheci-o algures no início dos anos 90, com toda a certeza aqui em Vila Boa e quando o Bruno era ainda uma criança. Ao longo de todo este tempo assistimos e partilhámos a vida que o Fernando e a Fátima construíram e o resultado desse primeiro amor, nas lindas Natacha, Matilde e Maria. O Fernando, de trato simples, educado e atencioso, demonstrou ser de cá, ser um de nós, pois muito rapidamente aprendeu a jogar à Belota, se não me engano, com o tio Elias e/ou com os seus cunhados. Por cá não haverá maior prova de pertença à comunidade do que saber-se jogar a esse peculiar jogo.
Neste dia triste, queremos homenagear o Fernando e a sua vida. O nosso Fernando permanecerá aqui e connosco.

* Lido no final da cerimónia religiosa, na igreja paroquial de Vila Boa, dia 3 de Dezembro, do funeral de Fernando Sousa, amigo e também familiar.