Quando se assinalam 20 anos sobre a morte de Michel Giacometti, o Jornal Público lança colecção dedicada à obra deste "apostolo do cancioneiro tradicional e popular português". São 12 livros-dvd com a reedição da sua grande obra "Povo que canta", mais extras. O primeiro livro-dvd saiu ontem, dia 22 de Novembro, e é, sem dúvida, uma grande iniciativa que não se pode perder. Com o Público à 2ª feira.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
23 novembro 2010
17 novembro 2010
ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos
Eram muitas e excelentes as referências à colecção de ensaios promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, presidida por António Barreto. Uma colecção que se propõe, através de textos simples e acessíveis - linguagem e preço, apresentar temas relevantes para a sociedade portuguesa. Tal como é dito pela Coordenação da colecção: "conhecer Portugal, pensar o país e contribuir para a identificação e a resolução dos grandes problemas nacionais, assim como promover o debate público. O principal desígnio desta colecção resume-se em poucas palavras: pensar livremente.". Neste momento estão editados sete títulos e eu já adquiri seis deles. Títulos para guardar e mais tarde consultar. Sem dúvida, uma iniciativa com valor e interesse.
novos registos
Como já desde o mês de Julho não actualizava a minha biblioteca, aqui ficam os últimos títulos carimbados:
- Costa Andrade, Francisco, 2010, Destinos Jogados em Vidas a Salto, Carção, edição do autor - oferta;
- Wood, James, 2010, a mecânica da ficção, Lisboa, Quetzal Editores;
- Vasconcelos, J. Leite de, 2005, Antroponímia Portuguesa (versão facsimilada), Lisboa, Arquimedes Livros;
- Ferreira, Luis e Canotilho, Luís, 2006, 100 anos da linha do Tua, Bragança, Edição Inatel;
- Vieira, Maria do Carmo, 2010, O Ensino do Português, nº 1 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Amaral, Luciano, 2010, Economia Portuguesa, nº 2 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Saldanha Sanches, José Luís, 2010, Justiça Fiscal (com nota biográfica), nº 4 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Justino, David, 2010, Dificil é Educá-los, nº 5 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Morgado, Miguel, 2010, Autoridade, nº 6 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Brito, Miguel Nogueira de, 2010, Propriedade Privada, nº 7 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Francisco Manuel dos Santos;;
- Gilbert, Elizabeth, 2010, Comer, Orar, Amar, Lisboa, Bertrand Editora;
03 novembro 2010
13 outubro 2010
"bem falado"
"Na guerra que estamos a viver o neo-liberalismo está a ganhar. E quando as pessoas começarem a reagir aos efeitos da razia os guiões disponíveis serão os do nacionalismo e das ideias extremistas." Miguel Vale de Almeida, in Os Tempos que Correm
12 outubro 2010
acabadinho de chegar
Depois de correr os livreiros e alfarrabistas da cidade do Porto e nada conseguir, tentei, através da internet, nos livreiros e alfarrabistas da capital, encontrar este clássico datado de 1928. Consegui esta versão facsimilada de 2005, na Arquimedes Livros Lda. Encomendei-a no dia 7 de Outubro e já chegou à minha caixa do correio (dia 12). Agradeço ao Sr. Júlio Carreira a rapidez e a simpatia. Assim, para além de alimentar o meu prazer de adquirir livros (os meus livros...), evito ter que me deslocar para a Biblioteca Pública Municipal do Porto.
11 outubro 2010
08 outubro 2010
sob rasura
As medidas de austeridade recentemente anunciadas pelo Primeiro Ministro e pelo seu Ministro das Finanças vieram definitivamente consolidar a ideia de incompetência e de alienação que a generalidade dos portugueses tinham em relação a este governo e aos seus membros. Tudo aquilo que nos tem sido dito, ao longo destes últimos anos, não existia, não acontecia e não era. Aquilo que não nos diziam, existia, acontecia e era. Portugal viveu (e vive) assim, distorcido de si mesmo. Neste momento, concerteza, não haverá um único português que não se questione e não receie tudo o quanto ainda poderá sofrer num futuro próximo – ainda nos últimos dias, confrontado com a previsão de uma recessão portuguesa em 2011, realizada pelo FMI, o Ministro Vieira da Silva assobiou para o lado, dizendo que esse organismo já anteriormente se enganou em relação às previsões para Portugal e, portanto, esta previsão será apenas mais um engano, claro. Face à violência de tudo aquilo que foi anunciado, curiosa (ou não) é a atitude dos órgãos de comunicação social que, num frenesim diário, vão difundindo em massa a inevitabilidade desse nosso “fado”.
Ao analisarmos toda a estranheza da linguagem utilizada e da própria acção dos nossos governantes, chegamos à conclusão que temos sido governados sob rasura. E o exercício é simples, José Sócrates e os seus pares, estrategicamente, escolhem um assunto ou uma expressão que pretendem analisar, colocando um X sobre ela, como que colocando-a entre parênteses. Esse assunto ou expressão não deverá ser mencionada, mas será preciso mencioná-la se quiserem transmitir a mensagem em questão. Sem essa expressão, a ideia a ser transmitida fica incompleta ou perde o sentido. No entanto, essa mesma expressão é suficientemente problemática para ser evitada. Portanto, evita-se. Esta situação agrava-se quando se trata de questões estranhas ou não familiares ao Eng. José Sócrates, pois a sua (in)cultura política, o seu desdém social e a sua ignorância sectorial de todo um país, levam-no à abstracção: É como se determinados assuntos não estivessem cá e não existissem, mas a verdade é que estão, sempre estiveram e como marcas da ausência de uma presença.
Enquanto pacifista que sou e não querendo abusar de um tom excessivamente confessional, é nestes dias e horas, estrampalhadas, que recordo e invejo o “pêlo na benta” do povo grego. Tal como eles têm feito amiúde, nós também nos deveríamos insurgir contra aquilo que nos impingem. Também nós deveríamos sair para a rua e parar o país. Também nós deveríamos inverter o ónus da dívida e da crise – vejam como Faria de Oliveira, Presidente da Caixa Geral de Depósitos, depois do anúncio de novo imposto sobre as entidades financeiras, vem a público e despudoradamente afirma que “evidentemente” esses custos recairão sobre os clientes. Também nós deveríamos reclamar aquilo que é nosso por direito. Estranha e incompreensivelmente optamos por ficar em casa, passivamente, enquanto uma dúzia de facínoras vai ditando as suas leis e, com isso, a inevitabilidade de subtrair aos demais cidadãos a sua existência. Evitável.
(enviado para o Jornal Nordeste - editável em 12 de Outubro de 2010)
Ao analisarmos toda a estranheza da linguagem utilizada e da própria acção dos nossos governantes, chegamos à conclusão que temos sido governados sob rasura. E o exercício é simples, José Sócrates e os seus pares, estrategicamente, escolhem um assunto ou uma expressão que pretendem analisar, colocando um X sobre ela, como que colocando-a entre parênteses. Esse assunto ou expressão não deverá ser mencionada, mas será preciso mencioná-la se quiserem transmitir a mensagem em questão. Sem essa expressão, a ideia a ser transmitida fica incompleta ou perde o sentido. No entanto, essa mesma expressão é suficientemente problemática para ser evitada. Portanto, evita-se. Esta situação agrava-se quando se trata de questões estranhas ou não familiares ao Eng. José Sócrates, pois a sua (in)cultura política, o seu desdém social e a sua ignorância sectorial de todo um país, levam-no à abstracção: É como se determinados assuntos não estivessem cá e não existissem, mas a verdade é que estão, sempre estiveram e como marcas da ausência de uma presença.
Enquanto pacifista que sou e não querendo abusar de um tom excessivamente confessional, é nestes dias e horas, estrampalhadas, que recordo e invejo o “pêlo na benta” do povo grego. Tal como eles têm feito amiúde, nós também nos deveríamos insurgir contra aquilo que nos impingem. Também nós deveríamos sair para a rua e parar o país. Também nós deveríamos inverter o ónus da dívida e da crise – vejam como Faria de Oliveira, Presidente da Caixa Geral de Depósitos, depois do anúncio de novo imposto sobre as entidades financeiras, vem a público e despudoradamente afirma que “evidentemente” esses custos recairão sobre os clientes. Também nós deveríamos reclamar aquilo que é nosso por direito. Estranha e incompreensivelmente optamos por ficar em casa, passivamente, enquanto uma dúzia de facínoras vai ditando as suas leis e, com isso, a inevitabilidade de subtrair aos demais cidadãos a sua existência. Evitável.
05 outubro 2010
centenário da república portuguesa
Nesta data particular em que assinalamos 100 anos sobre o 5 de Outubro de 1910, a República não se deve resumir à contemplação estática do passado, enumerando todas as suas virtudes e/ou todos os seus defeitos. Querendo aqui transpor o domínio da retórica fácil das evocações nostálgicas, poderemos iniciar por questionar:
- O que foi a República?
Já Antero de Quental respondeu, advertindo:
“A República não é somente o direito abstracto e filosófico proclamado com paixão aos ventos do vago céu da história; é o direito económico, fiscal, administrativo, prático e palpável, realizando-se palmo a palmo, visivelmente, experimentalmente, na sociedade de cada dia, na vida de cada hora, no indivíduo como na colectividade, encarnando nos factos e movendo-se como a realidade mais palpitante.”
Terá sido um período de desmando, uma vertigem anómica, uma “anarquia” que Portugal vivenciou durante dezasseis anos, ou pelo contrário, um regime cuja obra se apresenta plena de virtudes, com dirigentes veneráveis, misto de visionários e intelectuais cuja acção teria sido tolhida por ventos adversos… Estas têm sido as posições sustentadas, por um lado, pela historiografia estadonovista, e por outro, pelos hagiógrafos da República.
São ângulos de visão que têm hegemonizado a análise do tempo republicano, colocando, naturalmente, escolhos no caminho a percorrer para a compreensão deste riquíssimo período da história de Portugal.
Compreender até que ponto a actual democracia portuguesa é herdeira legítima de uma fibra republicana, é recuperar uma memória identitária forjada na combustão de um ideário que se foi afirmando até ser poder e quando poder se cumpriu e incumpriu, mas se manteve enquanto corpus ideológico, enquanto património político que atravessa todo o século XX português.
A análise da sociedade portuguesa contém marcas indeléveis desta persistência do pensamento republicano no tecido ideológico da democracia.
Da República recebemos o Estado laico, bandeira liberal contra a confessionalidade da Monarquia Constitucional, que outorgava à igreja católica uma omnipresença visível no quotidiano português. Omnipresente no desempenho de funções administrativas, na ascendência que a hierarquia católica, apostólica e romana tinha sobre o Estado, na autoridade eclesiástica que se fazia sentir com o peso e o treino de séculos.
A laicização da sociedade portuguesa era perspectivada como condição sine qua non para a vitória do progresso, da modernidade, meta alcançável apenas quando o país se conseguisse libertar da atávica influência do clero obscurantista, retrógrado, apegado ao atraso e por ele responsável.
Ao Estado laico assacava-se ainda a responsabilidade da completa transformação que a República perseguia, a metamorfose civilizacional do analfabeto, incapaz de protagonizar uma cidadania republicana, num outro sujeito histórico, capaz de ler o mundo, com novos direitos e deveres a traçarem novas formas de vida social. A concretização desta alquimia cultural e cívica ficaria a cargo da educação, uma educação que se queria massiva, generalizada, mensageira de uma nova sociedade, com um papel central no modus vivendi das diferentes comunidades que compunham o grande fresco da sociedade portuguesa do início do séc. XX.
Há já muito que a propaganda do Partido Republicano vinha preparando, e mais que isso, concretizando essa vocação educacional. O destaque ía para a “Educação Nova” que mais tarde, já regime, a República iria levar por diante, ainda que se tenha ficado muito aquém do que era proposto, não só quantitativamente, mas também sob ponto de vista da qualidade do ensino, dado o objectivo minimalista da alfabetização.
Por outro lado, a ética republicana de serviço público ocupará um lugar de destaque na ecologia política deste novo tempo. O primado do público sobre o privado, as regras de rigorosa democratização da vida interna do partido impondo a rotatividade dos cargos, bem como a realização anual de congressos decisórios, vão ser, entre outros, aspectos estruturantes desta ética procedimental de que a democracia portuguesa se reclama, não obstante a efectiva prática política com que hoje nos deparamos.
Haverá, seguramente, outras impressões digitais impressas na substância da democracia que hoje vivemos. É que um projecto global de mudança social e política, como a República pretendeu ser, não se dissipa com facilidade, mesmo com o sopro feroz de uma ditadura.
Que a República viva.
(intervenção Sessão Solene da República - Assembleia Municipal de Bragança - 5 de Outubro de 2010)
- O que foi a República?
Já Antero de Quental respondeu, advertindo:
“A República não é somente o direito abstracto e filosófico proclamado com paixão aos ventos do vago céu da história; é o direito económico, fiscal, administrativo, prático e palpável, realizando-se palmo a palmo, visivelmente, experimentalmente, na sociedade de cada dia, na vida de cada hora, no indivíduo como na colectividade, encarnando nos factos e movendo-se como a realidade mais palpitante.”
Terá sido um período de desmando, uma vertigem anómica, uma “anarquia” que Portugal vivenciou durante dezasseis anos, ou pelo contrário, um regime cuja obra se apresenta plena de virtudes, com dirigentes veneráveis, misto de visionários e intelectuais cuja acção teria sido tolhida por ventos adversos… Estas têm sido as posições sustentadas, por um lado, pela historiografia estadonovista, e por outro, pelos hagiógrafos da República.
São ângulos de visão que têm hegemonizado a análise do tempo republicano, colocando, naturalmente, escolhos no caminho a percorrer para a compreensão deste riquíssimo período da história de Portugal.
Compreender até que ponto a actual democracia portuguesa é herdeira legítima de uma fibra republicana, é recuperar uma memória identitária forjada na combustão de um ideário que se foi afirmando até ser poder e quando poder se cumpriu e incumpriu, mas se manteve enquanto corpus ideológico, enquanto património político que atravessa todo o século XX português.
A análise da sociedade portuguesa contém marcas indeléveis desta persistência do pensamento republicano no tecido ideológico da democracia.
Da República recebemos o Estado laico, bandeira liberal contra a confessionalidade da Monarquia Constitucional, que outorgava à igreja católica uma omnipresença visível no quotidiano português. Omnipresente no desempenho de funções administrativas, na ascendência que a hierarquia católica, apostólica e romana tinha sobre o Estado, na autoridade eclesiástica que se fazia sentir com o peso e o treino de séculos.
A laicização da sociedade portuguesa era perspectivada como condição sine qua non para a vitória do progresso, da modernidade, meta alcançável apenas quando o país se conseguisse libertar da atávica influência do clero obscurantista, retrógrado, apegado ao atraso e por ele responsável.
Ao Estado laico assacava-se ainda a responsabilidade da completa transformação que a República perseguia, a metamorfose civilizacional do analfabeto, incapaz de protagonizar uma cidadania republicana, num outro sujeito histórico, capaz de ler o mundo, com novos direitos e deveres a traçarem novas formas de vida social. A concretização desta alquimia cultural e cívica ficaria a cargo da educação, uma educação que se queria massiva, generalizada, mensageira de uma nova sociedade, com um papel central no modus vivendi das diferentes comunidades que compunham o grande fresco da sociedade portuguesa do início do séc. XX.
Há já muito que a propaganda do Partido Republicano vinha preparando, e mais que isso, concretizando essa vocação educacional. O destaque ía para a “Educação Nova” que mais tarde, já regime, a República iria levar por diante, ainda que se tenha ficado muito aquém do que era proposto, não só quantitativamente, mas também sob ponto de vista da qualidade do ensino, dado o objectivo minimalista da alfabetização.
Por outro lado, a ética republicana de serviço público ocupará um lugar de destaque na ecologia política deste novo tempo. O primado do público sobre o privado, as regras de rigorosa democratização da vida interna do partido impondo a rotatividade dos cargos, bem como a realização anual de congressos decisórios, vão ser, entre outros, aspectos estruturantes desta ética procedimental de que a democracia portuguesa se reclama, não obstante a efectiva prática política com que hoje nos deparamos.
Haverá, seguramente, outras impressões digitais impressas na substância da democracia que hoje vivemos. É que um projecto global de mudança social e política, como a República pretendeu ser, não se dissipa com facilidade, mesmo com o sopro feroz de uma ditadura.
Que a República viva.
(intervenção Sessão Solene da República - Assembleia Municipal de Bragança - 5 de Outubro de 2010)
02 outubro 2010
30 setembro 2010
25 setembro 2010
paisagens do eu em viagem
Gosto de viajar de comboio porque, ao contrário de outros meios de transporte disponíveis (acessíveis), o tempo de viagem não representa para mim um tempo morto ou desocupado, pois posso sempre aproveitar esses tempos-espaços para ler, escrever, reflectir, dormir, etc. Já nos restantes e alternativos transportes isso não me é possível, uma vez que no automóvel ou vou ocupado com a condução ou vou atento à condução de quem me conduz e no avião, o stress e o medo tolham-me qualquer faculdade mental e racional. O tempo de viagem num comboio também me permite usufruir das paisagens exteriores, tal como me permite observar o ambiente interior. Ocupação à qual, com prazer voyeurista, me dedico durante longas horas de viagem. Tudo isto apenas para poder partilhar uma dessas etnografias...
Numa viagem de ida e volta entre Vila Nova de Gaia e o Entroncamento, utilizando o serviço Inter-Cidades da CP, pude observar com miudência a viagem daqueles que bem perto se instalaram. Viagens repletas de jovens... e tantos que eles(as) eram por todo o comboio. Sozinhos(as) ou em grupos, sentia-se no ambiente a vida recheada de mochilas às costas e auriculares nos ouvidos. No meu sentado e curto horizonte visual, viajavam quatro rapazes, estupidamente adolescentes, que descontraidamente trocavam conversas: enquanto um lia atentamente o Memorial do Convento de José Saramago, outro jogava um jogo de carros no seu telemóvel, um outro lia, na revista Sábado, um, concerteza interessante e cativante, artigo sobre sexo e as suas cambiantes anal e oral... de vez enquando e de certo motivado pela leitura, lá ia comentando com os companheiros de viagem acerca das qualidades étnicas do sémen e as consequências do seu uso(!?). O último elemento deste quarteto, pura e semplesmente, dormia.
Imediatamente atrás destes quatro e ao meu lado esquerdo, sozinha, viajava uma jovem, morena, esguia, bonita, com não mais de 20 anos de idade que, entre trocas de sms no seu telemóvel e um nervoso mascar de chiclete, ia escutando atentamente a conversa daqueles petizes e, a espaços, denunciava-se com brilhantes sorrisos. Reparei na sua inquietude, não parando um momento: ora deitava-se, ora virava-se para um lado, ora virava-se para o outro, ora cruzava e descruzava a perna, ora levantava-se e espreitava para ambas as extremidades da carruagem, ora voltava a sentar-se...
Mais à frente, chegou e sentou-se ao lado da jovem morena um rapaz negro que trazia na cabeça um barrete e que, de imediato, começou a conversar com ela. Se já se conheciam ou não, não deu para perceber, mas a determinada altura escuto-a a perguntar-lhe o seu nome. Depois de mais umas dezenas de minutos e quilómetros, ao aproximarmo-nos de mais uma estação, ela deu-lhe um beijo nos lábios, levantou-se e foi-se embora. Saiu nessa estação. Mal o comboio retomou a sua marcha ele também se levantou daquele lugar e desapareceu para outra carruagem.
Eu, que me sentara sozinho e desde logo começara a ler, depressa me desconcentrei e os meus sentidos reféns ficaram dessas paisagens. Quis escrever aquilo que presenciava, mas a excessiva trepidação do movimento do comboio apenas permitiu escrevinhar e rabiscar. Servi-me da memória e assim se escreveu.
Numa viagem de ida e volta entre Vila Nova de Gaia e o Entroncamento, utilizando o serviço Inter-Cidades da CP, pude observar com miudência a viagem daqueles que bem perto se instalaram. Viagens repletas de jovens... e tantos que eles(as) eram por todo o comboio. Sozinhos(as) ou em grupos, sentia-se no ambiente a vida recheada de mochilas às costas e auriculares nos ouvidos. No meu sentado e curto horizonte visual, viajavam quatro rapazes, estupidamente adolescentes, que descontraidamente trocavam conversas: enquanto um lia atentamente o Memorial do Convento de José Saramago, outro jogava um jogo de carros no seu telemóvel, um outro lia, na revista Sábado, um, concerteza interessante e cativante, artigo sobre sexo e as suas cambiantes anal e oral... de vez enquando e de certo motivado pela leitura, lá ia comentando com os companheiros de viagem acerca das qualidades étnicas do sémen e as consequências do seu uso(!?). O último elemento deste quarteto, pura e semplesmente, dormia.
Imediatamente atrás destes quatro e ao meu lado esquerdo, sozinha, viajava uma jovem, morena, esguia, bonita, com não mais de 20 anos de idade que, entre trocas de sms no seu telemóvel e um nervoso mascar de chiclete, ia escutando atentamente a conversa daqueles petizes e, a espaços, denunciava-se com brilhantes sorrisos. Reparei na sua inquietude, não parando um momento: ora deitava-se, ora virava-se para um lado, ora virava-se para o outro, ora cruzava e descruzava a perna, ora levantava-se e espreitava para ambas as extremidades da carruagem, ora voltava a sentar-se...
Mais à frente, chegou e sentou-se ao lado da jovem morena um rapaz negro que trazia na cabeça um barrete e que, de imediato, começou a conversar com ela. Se já se conheciam ou não, não deu para perceber, mas a determinada altura escuto-a a perguntar-lhe o seu nome. Depois de mais umas dezenas de minutos e quilómetros, ao aproximarmo-nos de mais uma estação, ela deu-lhe um beijo nos lábios, levantou-se e foi-se embora. Saiu nessa estação. Mal o comboio retomou a sua marcha ele também se levantou daquele lugar e desapareceu para outra carruagem.
Eu, que me sentara sozinho e desde logo começara a ler, depressa me desconcentrei e os meus sentidos reféns ficaram dessas paisagens. Quis escrever aquilo que presenciava, mas a excessiva trepidação do movimento do comboio apenas permitiu escrevinhar e rabiscar. Servi-me da memória e assim se escreveu.
21 setembro 2010
improvisação
A dada altura, a mãe de Christie conta-lhe como Adão e Eva comeram o fruto da árvore. Evidentemente, diz ela, toda a história é absurda, pois Deus, sendo omnisciente, podia tê-los interrompido em qualquer momento: «Mas não: Deus tem andado cá a improvisar desde o início, como alguns romancistas...
James Wood
18 setembro 2010
constatação
Hoje, ao abrir e ler o jornal diário Público, pude verificar como a vida política nacional tem, por estes dias, andado fervilhante. Mesmo reconhecendo o anátema generalizado da opinião pública em relação à classe política, não posso deixar de salientar a actividade parlamentar destes últimos dias. Desde logo com a chegada ao parlamento da proposta de revisão constitucional do PSD que apesar de polémica e nada consensual, obrigou os restantes partidos a manifestarem as suas intenções de apresentarem, também eles, as suas propostas. Depois, foi com agrado que registei a proposta do CDS e do BE para a criação de uma rede autónoma de cuidados paliativos, que apesar de chumbada pelos votos contra da bancada do PS e das abstenções do PSD, PCP e PEV, teve o mérito de obrigar à reflexão acerca da realidade dos cuidados continuados existentes nas unidades hospitalares. Também importante é a iniciativa do BE que levará, pela primeira vez, à Assembleia da República um projecto de lei do testamento vital. Sem confundir com a questão da eutanásia, o BE quer regular os direitos dos cidadãos quanto à decisão sobre a prestação futura de cuidados de saúde, nos casos em que houver incapacidade de exprimir a sua vontade. Muito bem. Por fim, uma nota para a vergonhosa atitude das bancadas do PS, PSD e CDS que chumbaram um voto de condenação da expulsão dos ciganos em França, proposto pelo BE. Salvo um ou outro deputado destas bancadas, a disciplina de voto imposta pelas direcções dos grupos parlamentares demonstra bem a atitude subserviente para com a França e seu Presidente, como também e acima de tudo, manifesta uma concordância com a atitude racista e xenófoba desse estado que, enquanto membro da União Europeia não pode impor barreiras à livre circulação de pessoas. A intenção de etnicizar o crime e a violência não pode ser aceite pelos restantes países do espaço europeu – exceptuando a Itália, que já procedeu de igual forma… sob pena de regressarmos a um tempo de ensimesmamento e de esquizofrenia social. É por estes exemplos, e outros, que eu continuo a considerar o BE o meu espaço ideológico e, acima de tudo, o enquadramento ideal para a minha intervenção cívica desassombrada.
15 setembro 2010
O Filme do Desassossego
O Filme do Desassossego estreia em Lisboa no próximo dia 29 de Setembro. Entre 7 e 9 de Outubro estará no São João no Porto e depois em digressão por todo o país, exceptuando claro, Bragança... A responsabilidade pela exibição é da própria produtora que, segundo parece, quer evitar o circuito comercial das grandes salas de cinema. Onde não sei, mas irei vê-lo.
10 setembro 2010
uma ideia original
Em 1969 o escritor inglês BS Johnson publicou "The Unfortunates", um livro cujas folhas eram colocadas soltas dentro de uma caixa, obrigando os leitores a organizá-las livremente e segundo os seus critérios. Original, de facto. Imagino a confusão e a quantidade de histórias diferentes que essa liberdade permitiu.
07 setembro 2010
04 setembro 2010
01 setembro 2010
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