É quase sempre de manhã que estas notícias nos chegam, despertadoras em sobressalto, e, também por isso, demoramos a processar a sua dimensão. Morreu o Jorge Palma, aquele que me cantou letras e poemas ao longo de toda a vida. Ritualmente, depois das logísticas quotidianas e antes de me sentar aqui a escrever estas palavras, o som que estou a ouvir e que me acompanha é o da sua voz. Não consigo identificar um só momento, uma só canção, uma só melodia, pois a sua voz, inconfundível, era íntima e passeava-se desde sempre pelos lugares que habito. Bem sei que essa voz permanecerá e que sua relevância na música portuguesa se cristalizará, mas é perceptível e inegável desde este primeiro momento, o da notícia do seu desaparecimento, a percepção de vazio e de perda que a sua morte significa. Sentado ao piano, desalinhado ou desarranjado e numa aparente indiferença ou alheamento, eis a figura que dele guardarei e, numa analogia talvez exagerada, Jorge Palma sempre se me assemelhou a Serge Gainsbourg, na aparência, nos modos, na voz, nas melodias e até nos desempenhos.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
22 setembro 2026
21 setembro 2026
a história que se repete
Passadas mais de três décadas, é a vez do meu filho mais novo ingressar na Escola Secundária de Valadares. Parece que ainda foi ontem, mas na verdade, até a Escola já é outra, quero dizer, ainda que possa reconhecer um ou outro elemento que se mantém, toda a estrutura e composição da Escola se alteraram, tornando quase irreconhecível para quem a tenha conhecido na década de noventa do século XX. Não se trata de uma nostalgia, mas o certo é que guardo mais e melhores recordações do tempo em que frequentei essa escola, do que do tempo, bem maior, em que andei no ensino superior. Espaços, momentos e rostos que guardei e ainda consigo identificar quando lá vou. Será sempre uma boa recordação e será sempre um prazer lá regressar.
05 setembro 2026
bizarria
Servindo-me da visão periférica, apercebi-me de um vulto que se aproximava de mim. Sentado numa esplanada e concentrado na leitura que fazia, só quando esse vulto estava já muito próximo é que levantei o olhar e percebi, no rosto do senhor que me abordava, alguma hesitação. Pediu-me desculpa por estar a incomodar, apresentou-se e disse-me que não poderia ter deixado de me abordar, pois já me tinha visto ali mais vezes, sempre sozinho e muito alheado do que me rodeava, em leituras e escrita. Que hoje em dia é muito raro, algo bizarro até, ver uma pessoa a ler e escrever em cafés e esplanadas, que toda a gente prefere estar agarrado ao telemóvel. Queria saber quem eu era e o que fazia na vida... e logo aproveitou para se apresentar como bancário aposentado e que desde então tem escrito muito e sobre diversos temas, tendo alguns livros publicados. Aqui conseguiu cativar a minha atenção e curiosidade, tendo-lhe logo questionado sobre essa obra publicada, ao que ele, pronto, me foi dizendo que os seus livros são impressos em pequenas quantidades e só para "amigos", mas estão à venda nas livrarias e papelarias da cidade. Entretanto, já me tinha pedido licença para se sentar e ficámos ali a conversar um bom naco de tempo, sobre variados temas e interesses de cada um de nós. Só arretamos a conversa porque a hora de almoço se aproximou num ápice e ambos tínhamos compromissos. Ainda assim, pediu-me os meus contactos e convidou-me para almoçar. Agradeci, trocámos os contactos e despedimo-nos. Tenho certo que nos encontraremos por ali um dia destes.
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