---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
23 outubro 2026
emagrecer, tem de ser
Tenho de emagrecer!
Emagrecer vários, muitos quilogramas.
Como o vou fazer?
Não sei bem, mas
Dois caminhos simultâneos:
Fechar muito a boca, e
andar muito na rua.
Muito mais.
Assim, talvez consiga.
existência encriptada
Vivemos rodeados de passwords. Aliás, sem essas palavras-chave a nossa vida fica bloqueada. Ai de nós que nos esqueçamos de uma dessas "chave das portas do céu", pois toda a engrenagem quotidiana fica altamente prejudicada. E não estou a exagerar, tudo e todos nos requerem uma combinação de letras, números e símbolos para aceder a bens, serviços, telefones, computadores, softwares, toda a parafernália de gadgets, que hoje são autênticas extensões ou prolongamentos do nosso corpo, e até as portas de nossa casa, com codificações para intercomunicadores e suasclouds (nuvens) e o raio a quatro...
As passwords são obrigatórios no mundo de agora, e eu, que não as quero perder ou esquecer, há muitos anos, tenho dois hábitos: a) gravar nos próprios gadgets cada um desses desbloqueadores, e b) registar num pequeno caderno todas, mas mesmo todas, as palavras-chave, códigos, pin's ou chaves de acesso que vou criando e que me vão sendo solicitadas.
Dito isto e porque os momentos de perda, esquecimento ou erro são sempre dramáticos para mim, detesto e evito trocar de equipamentos, tais como computador ou telemóvel. É uma dor de cabeça, um stress e uma agitação mental e física para mim. Só o faço quando não há alternativa e prescindo facilmente de ter "coisa" nova só para escapar desses momentos e preservar o meu já débil sistema nervoso.
21 outubro 2026
orgulho e preconceito
O algoritmo de uma das redes sociais que vou frequentando presenteou-me com esta notícia do Expresso, cujo título dizia: <Passos defende regresso das taxas moderadoras para o aborto: "os números não nos dão razão para sentir orgulho">. Quando dei de caras com esta afirmação, e para a não perder de vista, a minha reacção imediata foi partilhá-la no meu feed (página), e acrescentar o seguinte comentário: "Vou, tenho, que escrever sobre esta ignomínia".
Pois bem, cá estou eu.
Desde a vitória do "sim" no segundo referendo sobre a despenalização do aborto, realizado em 2007, que todos os números conhecidos indicam que essa despenalização foi uma conquista civilizacional e que os números de mortes associadas a essas práticas de abortos clandestinos, realizados por talhantes em vãos de escada, se reduziu substancialmente para valores residuais e insignificantes. Sendo uma questão de saúde pública, e ao longo destes quase vinte anos, não haverá dúvidas do sucesso e eficácia dessa decisão política dos cidadãos portugueses, a não ser numa reduzida combinação de instituições partidárias, associativas e religiosas, que por mais evidências empíricas, técnicas, científicas e estatísticas, jamais aceitarão que as mulheres possam decidir sobre a sua vida, sobre o seu corpo e sobre a sua sexualidade.
A afirmação de Pedro Passos Coelho é a manifestação pública desse desconforto sectário, significativo do preconceito atávico que sobrevive entre nós, mas ainda assim não sei a que "orgulho" ele se refere, nem sei a que números se refere. Talvez preferisse e se orgulhasse mais da realidade existente antes desse referendo. Eu, cá, estou muito orgulhoso por viver e ser cidadão de um país, de uma comunidade, que percebeu a dimensão do drama que era essa questão e decidiu, com civilidade e propriedade, que toda e qualquer mulher possa decidir se quer ou não ter fazer vingar cada gravidez.
No fundo, ao olhar para esta criatura, aquilo que me vem à mente é como pode ser tão pessimista, tão derrotista, de humor cáustico e sempre com um azedume de quem carrega o mundo às costas e se quer livrar dele, mas não consegue. Há muito tempo, durante ou depois da sua passagem pelo Governo, escrevi e publiquei aqui que o seu exercício enquanto Primeiro Ministro, de má memória, marcou de tal forma os portugueses, que seriam necessárias décadas para haver uma reconciliação e uma recuperação da sua imagem. Pois bem, Pedro Passos Coelho, pelos vistos, não entendeu o que aconteceu e teima no mesmo registo, na mesma atitude e discurso. Personagem que conquistou o seu lugar na História nacional pelo seu ar carrancudo e perfil austero, não deixou saudades e, tendo saído pela porta das traseiras da vida política e pública, parece agora querer regressar com toda a sua toxidade. Espero, a bem de todos nós, que não o consiga e que tudo isto não seja mais do que o esvoaçar de uma ave ferida de morte.
15 outubro 2026
mediascape: em nome das mulheres
Na edição de Setembro do jornal Le Monde Diplomatique (versão portuguesa), Sílvia Roque, Rita Santos e Júlia Garraio publicaram um artigo extenso, muito interessante e relevante sobre o antifeminismo, enquanto estratégia central da ideologia e da política da extrema-direita em Portugal. Para além de apresentarem uma história recente da evolução dessa extrema-direita no nosso país e dos movimentos antifeministas, alertam para como o antifeminismo tem sido inteligentemente utilizado como pilar central da estratégia desse partido, a par do populismo, do autoritarismo e do racismo/xenofobia. Essa estratégia de culpar o feminismo por todos os males que existem, desde a crise da "família", a baixa natalidade, até à fragilização dos homens e à presença de pessoas transgénero no espaço público. E a eficácia desta mensagem é tão mais poderosa quando é enunciada por mulheres e é isso que tem acontecido. Nada como ter mulheres a protestar contra o feminismo, contra a ideologia de género, contra as quotas, entre outras razões do feminismo, para relativizar a desigualdade estrutural entre os géneros na nossa sociedade. "A violência contra as mulheres deixa de ser entendida como problema estrutural de género e passa a ser lida como importação cultural"... isto é, a culpa é sempre do estrangeiro, do outro, do estranho, do invasor, etc.
Eu não só subscrevo integralmente a visão das autores deste artigo, como considero mais que urgente conseguir encontrar o antídoto contra este determinismo de género. Mas ao ler o texto, num ou noutro momento, ficou-me um amargo de boca, pois considero que existem pormenores e/ou nuances que escaparam às autoras e que são, precisamente, a mais-valia ou força do discurso dessa extrema-direita. Vou exemplificar... Já na parte final do texto, em concreto no último parágrafo, as autoras apresentam um conjunto de tarefas para a esquerda feminista desmontar ou desmascarar esse antifeminismo.
Quando "a extrema-direita fala de medo, a esquerda deve falar de condições materiais. A extrema-direita fala de protecção, a esquerda deve falar de direitos. A extrema-direita fala de família, a esquerda deve falar de cuidado socialmente partilhado. A extrema-direita fala de mulheres para excluir outras mulheres, a esquerda deve insistir que nenhum feminismo digno desse nome se constrói contra migrantes, pessoas transgénero, pobres ou radicalizadas." Muito bem, eu percebo, compreendo e concordo, mas reparemos na dicotomia sublinhada: "...fala de família / fala de cuidado socialmente partilhado." Qual será mais eficaz junto da maioria da população portuguesa, a extrema-direita a defender a família, ou a esquerda a defender o cuidado socialmente partilhado?... Sem qualquer paternalismo, qual a percentagem de portugueses que sabem ou compreendem o que esta última expressão significa?... Pois é, aqui está um exemplo paradigmático da quase impossibilidade de combater esse populismo. Que designação, que nome pode a esquerda apresentar para polarizar contra a ideia de família?... e aqui radica o sucesso e a eficácia da mensagem que a extrema-direita quer passar, por oposição ao desnorte, desencontro e confusão que a racionalidade da esquerda quis e quer impor à sociedade. Por muito que me esforce não consigo encontrar a fórmula para derrotar essa estratégia e, pelos vistos, ninguém à esquerda o consegue.
às voltas entre cá e lá
Eu já sabia que estava para sair um novo livro de José Rentes de Carvalho, mas não sabia que já estava à venda. Esta manhã, ao passar na FNAC para ir buscar outros livros, encontrei-o já em exposição. Boa nova. O decano da literatura nacional, brinda-nos com mais uma publicação, desta feita em formato diarístico e até confessional. Para mim é o autor contemporâneo que melhor escreve, que melhor descreve ambientes e paisagens e com quem eu mais me identifico. É sempre um prazer regressar a Rentes de Carvalho.
12 outubro 2026
taveirada
Um destes dias fui com a Andreia a uma consulta de Otorrino numa instituição privada de saúde. Enquanto estávamos na sala de espera, ainda hesitei se deveria entrar ou não, mas ela convenceu-me a acompanhá-la. Assim foi e, mal entrados no gabinete médico, começou uma experiência que não sei muito bem como adjectivar, mas que consigo definir como um déjà vu, isto é, uma intensa e subjectiva sensação de algo que já tinha experimentado.
O médico, indivíduo de estatura mediana, magro, tês morena, calvo e com o cabelo lambido para trás ("cabelo à foda-se"), de bigode, algures nos sessenta anos, com uma pronuncia típica do Porto e atitude muito pragmática, que se traduzia em gestos rápidos e perguntas directas, quase retóricas, que logo depois de nos cumprimentar e convidar-nos a sentar à sua frente, disparou uma série de perguntas, às quais a Andreia foi respondendo como podia e sabia, motivando sempre um comentário breve e na maioria das vezes, procurando desvalorizar os sintomas e as queixas da paciente.
Depois, quis examinar e convidou a Andreia a sentar-se numa cadeira rodeada de apetrechos e tecnologia. Colocando-se em frente a ela e de costas para mim, começou por examinar os ouvidos, depois o nariz e por fim a garganta. Deu algumas indicações para posição da face, do pescoço e da boca, às quais a Andreia ia obedecendo e reagindo ao incómodo ou dor que estaria a sentir. No meio destes procedimentos, o médico ia largando algumas interjeições dirigidas à sua paciente, tais como: "Não custa nada...", "Pronto...", "Não faça caretas!...", "Já acabou", "Vamos lá", entre outras expressões, que me remeteram de imediato para o universo das taveiradas dos anos 80. Uma coisa é certa, daqui a um mês nova consulta e eu não vou hesitar, de certeza vou entrar e segui-la durante toda a sessão.
08 outubro 2026
um monumento vivo
Soube por uma publicação no Facebook que faleceu o padre Telmo Ferraz. Um desconhecido para muita gente, mas para outra tanta ou mais gente, um Homem enorme, muito maior do que a sua própria vida. Viveu, conviveu, partilhou e deu de si a gerações e gerações de pessoas. Esteve sempre ao lado dos mais pobres, desabrigados, deserdados e daqueles que procuravam ajuda ou simplesmente uma palavra de conforto e amiga. Oriundo da aldeia de Bruços, Mogadouro, onde nasceu a 25 de Novembro de 1925, foi na região de Trás-os-Montes que iniciou o seu sacerdócio, segundo consta na paróquia de Genísio, concelho de Miranda do Douro. Foi também em Trás-os-Montes que se destacou na denúncia das condições de vida em que os trabalhadores das barragens do rio Douro viviam. Em 1960 publica o seu primeiro livro "O lodo e as estrelas" que resulta dessa experiência de vida com os trabalhadores da barragem do Picote. Esse livro foi objecto de censura e proibido pelo Estado Novo, o que lhe granjeou maior visibilidade e reconhecimento. Entretanto, em 1959, já estava em Angola e a viver com os trabalhadores da barragem de Cambambe. Depois, em 1963, inicia a grande aventura de sua vida, vai para a Casa do Gaiato em Malanje, onde acolhem e formam jovens rapazes, órfãos e/ou pobres e onde, durante a guerra de independência e, mais tarde, a guerra civil, são várias vezes assaltados e destruídas as instalações, mas sempre reconstruídas e mantendo a missão e os objectivos da Casa do Gaiato. Esteve em Angola e nessa casa durante décadas, tendo regressado a Portugal já idoso, recolhendo-se no Calvário de Beire (Obra de Rua, do padre Américo), em Paredes, onde continuou a sua obra e a escrever. Nas últimas décadas da sua vida, a sua obra literária é significativa, eu diria mesmo, inacreditável, com uma produção assídua e marcante, pela lucidez, pela memória e pela qualidade literária. Ainda em finais de 2025, no âmbito do seu centenário, publicou o livro "Fui Pároco de Aldeia". Fez uma apresentação em Genísio no dia 28 de Dezembro de 2025 e eu estive lá. Foi a última vez que o cumprimentei e troquei umas palavras com ele.
Conheci o Padre Telmo Ferraz, algures entre 2013 e 2014, por intermédio do amigo comum Henrique Manuel Pereira e no âmbito da minha investigação para a história de vida de D. Manuel António Pires, que tivera sido seu professor em Bragança. Fui visitá-lo a Beire, Paredes, numa tarde solarenga e estive à conversa com ele durante um par de horas. Não guardava muitas memórias do seu professor Manuel António Pires, mas recordava-o como um professor vanguardista para a época e com quem fumava cigarros fora das salas de aula, oferecidos, claro, pelo professor. Depois disso, estive mais quatro vezes na sua presença, a primeira das quais num lançamento de um livro do Henrique Manuel Pereira, na Universidade Católica do Porto, a segunda vez na aldeia de Picote, enquanto orador das Jornadas Culturais de Balsamão, depois uma terceira vez em Genísio, em Dezembro de 2024, no lançamento de um livro de Basileu Pires (MIC), e a última vez, no já referido lançamento de um livro seu, novamente em Genísio, em Dezembro de 2025. Nessa altura, tendo já celebrado o seu centésimo aniversário, referiu que esperava ainda mais anos de vida. Assim não foi, mas ao recordá-lo a ideia que me assalta é a de perenidade. A sua permanência transformou-o num autêntico monumento vivo (adjectivação de Henrique Manuel Pereira), exemplo de dignidade, bondade e cidadania. Servindo-me das palavras de Carlos Pedro, eu diria que o desaparecimento do Padre Telmo Ferraz lega-nos uma dívida de gratidão para com ele, gratidão essa que não será mais do que a memória do coração.
(brochura alusiva ao seu centenário)
(capa do seu livro apresentado em Genísio a 28 de Dezembro de 2025)
(último contacto com o Pe. Telmo Ferraz, a 28 de Dezembro de 2025)
06 outubro 2026
gato por lebre
A famosa metáfora que há muito se transformou num dito que circula de boca em boca e por todo o lado, poderá ser muito mais do que um recurso estilístico. Quando ouvimos a expressão, sabemos que ela significa algum engano, isto é, alguém está a enganar e alguém está a ser enganado, ou que uma ou mais pessoas foram enganadas. Contudo, e sempre com a certeza de que a origem da expressão não é possível localizar, nem no tempo, nem no espaço, não tenho dúvida que nesse momento primeiro alguém comeu mesmo gato, pensando que seria lebre. E isso continuou a acontecer até aos dias de agora. Ainda hoje e quotidianamente haverá quem literalmente coma gato a pensar que está a comer uma deliciosa lebre.
Depois, para lá da metáfora e do engano, há quem coma mesmo gato sabendo que é gato e aprecia gato. Na aldeia, conheci algumas pessoas que durante toda a vida caçaram os gatos vadios, os esfolaram e cozinharam com todo o esmero. Diziam ser um pitéu! Às vezes, reuniam-se em casa, na adega ou anexos, de um ou de outro, grupos de homens (e, às vezes, também de mulheres) para se lambuzarem com o gato guisado com batatas cozidas, ou mesmo apenas com um cibo de pão, que um deles tinha preparado ao lume. A verdade é que na aldeia sempre houve muitos gatos e todos vadios. Os gatos não eram, sequer, um animal de estimação, mas sim uma fonte de alimento para satisfazer as carências alimentares e calóricas de algumas casas. Mas nem todos os gatos serviam e, por isso, eram deixados em paz. Só os que conseguiam ganhar algum peso e não manifestavam qualquer sinal de maleita ou doença, eram caçados e levados para casa. Eu não sei se algum dia comi gato, mas se isso me aconteceu terei sido um dos que o comeu pensando que era lebre, sempre deliciosa.
05 outubro 2026
pressa de envelhecer
Fico incomodado ao ouvir quem me rodeia dizer que gostava era de estar reformado, que se pudesse reformava-se já. Eu bem sei que o trabalho é uma obrigação desagradável para a grande maioria das pessoas, mas não percebo a pressa que têm de serem/estarem velhos. Isso significará que também estarão mais perto do seu fim. Eu cá prefiro estar onde e como estou. Não tenho qualquer intenção de me reformar daquilo que faço, ou vou fazendo, e não tenho grande vontade ou motivação para acelerar o tempo. Calma, sem pressas, havemos de lá chegar.
À Mesa Transmontana
Desde a sua concepção, procurámos perspectivar as múltiplas dimensões do que foi, e continua a ser, estar à mesa em Trás-os-Montes. A mesa enquanto altar da vida e da sua celebração; lugar universal de ritual, partilha, socialização, acolhimento, dádiva, negociação e intimidade. Ao longo de quatro dias, esta vigésima oitava edição das Jornadas Culturais de Balsamão, para além dos momentos de experimentação e degustação e das visitas etnográficas e culturais, proporcionou diversos espaços de reflexão e debate, dedicados ao estudo, à partilha de conhecimentos, saberes e artes associados ao estar à mesa em Trás-os-Montes [...] A expectativa, que julgamos legítima, é que este volume não apenas preserve a memória do muito que aconteceu nesses dias em Balsamão, mas que constitua igualmente um contributo de natureza histórica, etnográfica e polifónica para futuros trabalhos de estudo, investigação e reflexão sobre este tema e sobre este território. (in contra-capa)
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