12 outubro 2026

taveirada

Um destes dias fui com a Andreia a uma consulta de Otorrino numa instituição privada de saúde. Enquanto estávamos na sala de espera, ainda hesitei se deveria entrar ou não, mas ela convenceu-me a acompanhá-la. Assim foi e, mal entrados no gabinete médico, começou uma experiência que não sei muito bem como adjectivar, mas que consigo definir como um déjà vu, isto é, uma intensa e subjectiva sensação de algo que já tinha experimentado.
O médico, indivíduo de estatura mediana, magro, tês morena, calvo e com o cabelo lambido para trás ("cabelo à foda-se"), de bigode, algures nos sessenta anos, com uma pronuncia típica do Porto e atitude muito pragmática, que se traduzia em gestos rápidos e perguntas directas, quase retóricas, que logo depois de nos cumprimentar e convidar-nos a sentar à sua frente, disparou uma série de perguntas, às quais a Andreia foi respondendo como podia e sabia, motivando sempre um comentário breve e na maioria das vezes, procurando desvalorizar os sintomas e as queixas da paciente.
Depois, quis examinar e convidou a Andreia a sentar-se numa cadeira rodeada de apetrechos e tecnologia. Colocando-se em frente a ela e de costas para mim, começou por examinar os ouvidos, depois o nariz e por fim a garganta. Deu algumas indicações para posição da face, do pescoço e da boca, às quais a Andreia ia obedecendo e reagindo ao incómodo ou dor que estaria a sentir. No meio destes procedimentos, o médico ia largando algumas interjeições dirigidas à sua paciente, tais como: "Não custa nada...", "Pronto...", "Não faça caretas!...", "Já acabou", "Vamos lá", entre outras expressões, que me remeteram de imediato para o universo das taveiradas dos anos 80. Uma coisa é certa, daqui a um mês nova consulta e eu não vou hesitar, de certeza vou entrar e segui-la durante toda a sessão.

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