08 outubro 2026

um monumento vivo

Soube por uma publicação no Facebook que faleceu o padre Telmo Ferraz. Um desconhecido para muita gente, mas para outra tanta ou mais gente, um Homem enorme, muito maior do que a sua própria vida. Viveu, conviveu, partilhou e deu de si a gerações e gerações de pessoas. Esteve sempre ao lado dos mais pobres, desabrigados, deserdados e daqueles que procuravam ajuda ou simplesmente uma palavra de conforto e amiga. Oriundo da aldeia de Bruços, Mogadouro, onde nasceu a 25 de Novembro de 1925, foi na região de Trás-os-Montes que iniciou o seu sacerdócio, segundo consta na paróquia de Genísio, concelho de Miranda do Douro. Foi também em Trás-os-Montes que se destacou na denúncia das condições de vida em que os trabalhadores das barragens do rio Douro viviam. Em 1960 publica o seu primeiro livro "O lodo e as estrelas" que resulta dessa experiência de vida com os trabalhadores da barragem do Picote. Esse livro foi objecto de censura e proibido pelo Estado Novo, o que lhe granjeou maior visibilidade e reconhecimento. Entretanto, em 1959, já estava em Angola e a viver com os trabalhadores da barragem de Cambambe. Depois, em 1963, inicia a grande aventura de sua vida, vai para a Casa do Gaiato em Malanje, onde acolhem e formam jovens rapazes, órfãos e/ou pobres e onde, durante a guerra de independência e, mais tarde, a guerra civil, são várias vezes assaltados e destruídas as instalações, mas sempre reconstruídas e mantendo a missão e os objectivos da Casa do Gaiato. Esteve em Angola e nessa casa durante décadas, tendo regressado a Portugal já idoso, recolhendo-se no Calvário de Beire (Obra de Rua, do padre Américo), em Paredes, onde continuou a sua obra e a escrever. Nas últimas décadas da sua vida, a sua obra literária é significativa, eu diria mesmo, inacreditável, com uma produção assídua e marcante, pela lucidez, pela memória e pela qualidade literária. Ainda em finais de 2025, no âmbito do seu centenário, publicou o livro "Fui Pároco de Aldeia". Fez uma apresentação em Genísio no dia 28 de Dezembro de 2025 e eu estive lá. Foi a última vez que o cumprimentei e troquei umas palavras com ele.
Conheci o Padre Telmo Ferraz, algures entre 2013 e 2014, por intermédio do amigo comum Henrique Manuel Pereira e no âmbito da minha investigação para a história de vida de D. Manuel António Pires, que tivera sido seu professor em Bragança. Fui visitá-lo a Beire, Paredes, numa tarde solarenga e estive à conversa com ele durante um par de horas. Não guardava muitas memórias do seu professor Manuel António Pires, mas recordava-o como um professor vanguardista para a época e com quem fumava cigarros fora das salas de aula, oferecidos, claro, pelo professor. Depois disso, estive mais quatro vezes na sua presença, a primeira das quais num lançamento de um livro do Henrique Manuel Pereira, na Universidade Católica do Porto, a segunda vez na aldeia de Picote, enquanto orador das Jornadas Culturais de Balsamão, depois uma terceira vez em Genísio, em Dezembro de 2024, no lançamento de um livro de Basileu Pires (MIC), e a última vez, no já referido lançamento de um livro seu, novamente em Genísio, em Dezembro de 2025. Nessa altura, tendo já celebrado o seu centésimo aniversário, referiu que esperava ainda mais anos de vida. Assim não foi, mas ao recordá-lo a ideia que me assalta é a de perenidade. A sua permanência transformou-o num autêntico monumento vivo (adjectivação de Henrique Manuel Pereira), exemplo de dignidade, bondade e cidadania. Servindo-me das palavras de Carlos Pedro, eu diria que o desaparecimento do Padre Telmo Ferraz lega-nos uma dívida de gratidão para com ele, gratidão essa que não será mais do que a memória do coração.

(brochura alusiva ao seu centenário)

(capa do seu livro apresentado em Genísio a 28 de Dezembro de 2025)

(último contacto com o Pe. Telmo Ferraz, a 28 de Dezembro de 2025)

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