A famosa metáfora que há muito se transformou num dito que circula de boca em boca e por todo o lado, poderá ser muito mais do que um recurso estilístico. Quando ouvimos a expressão, sabemos que ela significa algum engano, isto é, alguém está a enganar e alguém está a ser enganado, ou que uma ou mais pessoas foram enganadas. Contudo, e sempre com a certeza de que a origem da expressão não é possível localizar, nem no tempo, nem no espaço, não tenho dúvida que nesse momento primeiro alguém comeu mesmo gato, pensando que seria lebre. E isso continuou a acontecer até aos dias de agora. Ainda hoje e quotidianamente haverá quem literalmente coma gato a pensar que está a comer uma deliciosa lebre.
Depois, para lá da metáfora e do engano, há quem coma mesmo gato sabendo que é gato e aprecia gato. Na aldeia, conheci algumas pessoas que durante toda a vida caçaram os gatos vadios, os esfolaram e cozinharam com todo o esmero. Diziam ser um pitéu! Às vezes, reuniam-se em casa, na adega ou anexos, de um ou de outro, grupos de homens (e, às vezes, também de mulheres) para se lambuzarem com o gato guisado com batatas cozidas, ou mesmo apenas com um cibo de pão, que um deles tinha preparado ao lume. A verdade é que na aldeia sempre houve muitos gatos e todos vadios. Os gatos não eram, sequer, um animal de estimação, mas sim uma fonte de alimento para satisfazer as carências alimentares e calóricas de algumas casas. Mas nem todos os gatos serviam e, por isso, eram deixados em paz. Só os que conseguiam ganhar algum peso e não manifestavam qualquer sinal de maleita ou doença, eram caçados e levados para casa. Eu não sei se algum dia comi gato, mas se isso me aconteceu terei sido um dos que o comeu pensando que era lebre, sempre deliciosa.
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