Enviei recentemente um texto à consideração para ser publicado numa revista nacional. Trata-se de uma pequena reflexão crítica sobre os processos de activação patrimonial em Trás-os-Montes, que foi aceite pela revista e da qual recebi, passados não muitos dias, talvez uma semana, um email agradecendo o texto e, em anexo ao email, o meu texto já formatado, paginado e devidamente ilustrado com duas imagens produzidas pela Inteligência Artificial (IA). Claro que me perguntaram se aceitava as imagens no meu texto, ou se queria escolher eu duas imagens ou fotografias para substituir aquelas. Justificaram a escolha pela necessidade de manter a linha gráfica da publicação e que a maioria dos textos iriam ser complementados com a criatividade da IA. Eu compreendo a necessidade de uma coerência gráfica e até a contenção de custos e, também por isso, aceitei as duas ilustrações. Contudo, algo ficou cá a remoer... enquanto antropólogo que se dedica a diferentes terrenos e um dos seus métodos de investigação mais relevantes é a recolha de etnografias, socorrendo-se de diferentes suportes - oralidade, fotografia, desenho, vídeo, entre outros, não posso deixar de me sentir algo incomodado com esta intromissão e substituição do papel e da arte do etnógrafo. Ainda que especulando, posso questionar: irá a IA substituir-me naquilo que são os meus terrenos, a minha sensibilidade, a minha capacidade cognitiva, a minha (in)abilidade no uso das ferramentas ao meu dispor e até à escolha dos métodos de investigação adequados? Fiquei melindrado.
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