É quase sempre de manhã que estas notícias nos chegam, despertadoras em sobressalto, e, também por isso, demoramos a processar a sua dimensão. Morreu o Jorge Palma, aquele que me cantou letras e poemas ao longo de toda a vida. Ritualmente, depois das logísticas quotidianas e antes de me sentar aqui a escrever estas palavras, o som que estou a ouvir e que me acompanha é o da sua voz. Não consigo identificar um só momento, uma só canção, uma só melodia, pois a sua voz, inconfundível, era íntima e passeava-se desde sempre pelos lugares que habito. Bem sei que essa voz permanecerá e que sua relevância na música portuguesa se cristalizará, mas é perceptível e inegável desde este primeiro momento, o da notícia do seu desaparecimento, a percepção de vazio e de perda que a sua morte significa. Sentado ao piano, desalinhado ou desarranjado e numa aparente indiferença ou alheamento, eis a figura que dele guardarei e, numa analogia talvez exagerada, Jorge Palma sempre se me assemelhou a Serge Gainsbourg, na aparência, nos modos, na voz, nas melodias e até nos desempenhos.
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