Interessante texto de opinião, hoje no Jornal Público. Desculpem-me os rabiscos egoístas... (vícios).
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
11 março 2011
solilóquio
Não sei explicar muito bem porquê, mas hoje sinto-me estranho. Não sei explicar muito bem o quê, mas hoje sinto-me metrossexual...
precariedade
Sente-se um enorme burburinho na sociedade portuguesa em relação às manifestações que se irão realizar amanhã em várias cidades portuguesas. Esta é a primeira manifestação organizada, estruturada e convocada a partir das redes sociais em Portugal e, talvez também por isso, está o país expectante em relação à capacidade e ao sucesso dessa mesma convocatória. Para além da particularidade das redes sociais, esta manifestação tem por fundamento a degradante condição social e económica em que as gerações mais jovens vivem e a sua participação será um acto de participação cidadã, de indignação contra essa condição e de censura às políticas que os governos impuseram e que, consequentemente, nos trouxeram para esta realidade. É, concerteza, por isso que os costumeiros arautos do situacionismo, do alto do seu conforto social e da sua estabilidade económica, não se conformam com este "atrevimento" dos mais novos. Por outro lado, agrada-me a ideia de se tratar de uma manifestação política, mas apartidária, apesar de alguns partidos terem já manifestado a sua intensão de se fazerem representar. Esperemos que assim se mantenha e se concretize. É bom saber que os jovens de hoje não correspondem aos estereótipos e reagem aos pré-conceitos nomeados pelas gerações mais velhas e, essas sim, acomodadas.
Também eu estou com elevadas expectativas em relação ao dia de amanhã. Lí o manifesto e concordo com as posições assumidas pela organização. Não estou à rasca, mas muito provavelmente por considerar que a minha condição nunca foi além dessa mesma precariedade, vou participar na manifestação de amanhã na cidade do Porto.
Também eu estou com elevadas expectativas em relação ao dia de amanhã. Lí o manifesto e concordo com as posições assumidas pela organização. Não estou à rasca, mas muito provavelmente por considerar que a minha condição nunca foi além dessa mesma precariedade, vou participar na manifestação de amanhã na cidade do Porto.
10 março 2011
moção de censura
Eu gostava mesmo que a moção de censura que o Bloco de Esquerda apresentou e que hoje será discutida e votada na Assembleia da República fosse aprovada. Apesar das conhecidas e pré-anunciadas posições do PSD e do CDS, a conjuntura degradante e humilhante da economia e das finanças nacionais e o próprio discurso do Presidente da República, de ontem, na sua tomada de posse, permitiriam aos partidos da direita votarem favoravelmente esta iniciativa do BE e assim, não só clarificar definitivamente a situação política, como arredar do poder, por muitos e longos anos, este PS. É sabido, está visto e percebe-se a cada sopro de vida que este governo agonia e definha. Acabemos com o seu sofrimento.
08 março 2011
do pior que me podem pedir
"Estimado Luís Vale,
Espero que esteja tudo bem contigo. Era para te pedir que reduzas o texto da FAAEE para 32.000 caracteres com espaços, de acordo com as normas do congresso. Actualmente tens 50.000.
Um abraço, "
Espero que esteja tudo bem contigo. Era para te pedir que reduzas o texto da FAAEE para 32.000 caracteres com espaços, de acordo com as normas do congresso. Actualmente tens 50.000.
Um abraço, "
carnavais
Como se diz: "É Carnaval, ninguém leva a mal", eu aproveito para dizer que não percebo como se gasta tanto tempo e dinheiro com esta festa. Será, apesar da sua diversidade, praticamente um dado universal. Considero legitimo e até importante que os indivíduos e as comunidades queiram manter aquilo que julgam ser as suas tradições e os seus rituais, agregadores e potenciadores de sentimentos de pertença à respectiva comunidade. Aquilo que me custa ver e ouvir são as ridículas manifestações que por todo o país acontecem e que não são mais do que tentativas falhadas de imitar o carnaval brasileiro. É isso mesmo, e bem, o carnaval brasileiro acontece no Brasil. Em Portugal temos tradições antigas relativas ao dia que assinala o final do ciclo de Inverno e a passagem para um outro tempo, o da eterna renovação da natureza. Essa diversidade ritual é constituida por inúmeros, bonitos e ricos, momentos. Imagens de Carnaval como aquelas que enchem as TVs (Ovar, Torres Vedras, entre outras localidades) são ridículas, não fazem qualquer sentido.
07 março 2011
Talvez há 4 ou 5 anos joguei pela 1ª vez o Mafia I. Foi o irmão mais novo que me apresentou o ambiente ganster de Nova Iorque e desde logo fiquei fã do jogo. Naquele tempo joguei-o no velhinho pc que havia cá em casa. Agora, já com uma PlayStation 3 em casa, terminei a aventura de Vito Scaletta, enquanto membro de uma família mafiosa de Nova Iorque em meados do século XX, no Mafia II. Ao longo de quinze episódios e na pele do protagonista somos confrontados com os meandros e intrigas próprias das rivalidades entre famílias mafiosas que lutavam pelo controle do submundo daquela cidade. Acabei a aventura com a sensação que ainda poderia ter mais alguns episódios e aventuras. Concerteza, haverá mais Mafia, aguardemos as cenas de outros capítulos. Entretanto, procurarei outro jogo que me distraia, de preferência algo que me permita dar muitos tiros e matar muitos "inimigos" e "adversários". Tudo isto, claro, no conforto do meu sofá.
06 março 2011
é o povo contra a reacção
Não gosto do Festival da Canção. Acho que já há muito tempo perdeu qualidade e valor. Mas porque um amigo tem participado enquanto produtor, todos os anos vou espreitando para ouvir a sua música. Este ano calhou ouvir, para surpresa minha, a participação dos Homens da Luta. Brincadeira, pensei eu... O certo é que no final da noite foram eles os grandes vencedores e graças aos votos, via SMS, do público. Eu não votei em nenhuma música, mas se tivesse votado teria sido na música deles - pela irreverência, pela coragem e pela frontalidade. Este resultado foi mais um espinho para Pacheco Pereira, Isabel Stilwell, José Manuel Fernandes e outros que muito se têm importunado a favor da manutênção da precariedade em Portugal. Os Homens da Luta ganharam e desestabilizaram todo o mainstream vigente na produção deste evento. Não sei quem votou neles, mas desconfio que a insatisfação social do país valeu bem os 60 cêntimos + iva que custou cada voto. Muito provavelmente, este foi o último Festival da Canção em que o público votou. Até ao dia 12 de Março.
05 março 2011
dísticos e afins
Nenhuma objecção relativa à manifestação pública dos ideais civilizacionais, das crenças religiosas, das filiações partidárias ou desportivas ou outras por parte dos indivíduos. Mesmo não compreendendo o que leva alguém a fazê-lo, aceito pacificamente que outros sintam essa necessidade e o façam. Eu nunca senti qualquer necessidade de o fazer, nem nunca achei grande piada à decoração de automóveis com elementos estranhos ao seu fabrico e comercialização. Claro é que a culpa não é dos automóveis, mas sim dos seus proprietários que, por qualquer razão que a psicologia explicaria muito facilmente, projectam nos seus automóveis a sua imagem.
Houve um tempo em que era obrigatória a inclusão de determinada informação suplementar nos veículos, estou a lembrar-me dos limitadores de velocidade, das placas de localidade e raio de distância para os pesados e das placas de identificação de propriedade dos ligeiros - curiosas placas que para além do nome e morada do proprietário, incluiam uma imagem de S. Cristovão, o santo propector de qualquer viajante e, nalguns casos, havia ainda espaço para as fotografias dos respectivos proprietários -normalmente colocadas num suporte com íman nos tabliers para estarem visíveis do exterior.
No meio de toda a panóplia de acessórios, aplicações, autocolantes e placas que por aí circulam agarradas aos carros, há um tipo de autocolantes que me intriga especialmente. Falo daqueles que são, normalmente, oferecidos pelas marcas de produtos para bebés e crianças e que se destinam a colar no vidro traseiro. Através deles ficamos todos, os demais e estranhos, a saber que a bordo daquela viatura circula um bebé, nalguns exemplares ficamos a saber, inclusivé, o nome de tais bebés e, noutros ainda e complementando, é-nos comunicado para termos cuidado!.. porque ali vai um bebé. Para além de não perceber o que leva alguns progenitores a publicitarem assim o nome dos seus rebentos, importa questionar: Mas que raio de advertência é esta!? Até parece que o cuidado que devemos ter na estrada varia consoante o tipo de ocupante dos outros veículos. É pois uma informação palerma e estupidificante que, in loco, me incita a adjectivações várias aos seus promotores.
Desconfio que tudo isto não seja mais do que um possível caminho para aqueles que se querem dedicar ao transformismo automóvel. Para além de todas as questões de estética, relativas e subjectivas, sobre as quais não farei juízos de valor, talvez um dia também eu me converta definitivamente ao famoso tuning.
Houve um tempo em que era obrigatória a inclusão de determinada informação suplementar nos veículos, estou a lembrar-me dos limitadores de velocidade, das placas de localidade e raio de distância para os pesados e das placas de identificação de propriedade dos ligeiros - curiosas placas que para além do nome e morada do proprietário, incluiam uma imagem de S. Cristovão, o santo propector de qualquer viajante e, nalguns casos, havia ainda espaço para as fotografias dos respectivos proprietários -normalmente colocadas num suporte com íman nos tabliers para estarem visíveis do exterior.
No meio de toda a panóplia de acessórios, aplicações, autocolantes e placas que por aí circulam agarradas aos carros, há um tipo de autocolantes que me intriga especialmente. Falo daqueles que são, normalmente, oferecidos pelas marcas de produtos para bebés e crianças e que se destinam a colar no vidro traseiro. Através deles ficamos todos, os demais e estranhos, a saber que a bordo daquela viatura circula um bebé, nalguns exemplares ficamos a saber, inclusivé, o nome de tais bebés e, noutros ainda e complementando, é-nos comunicado para termos cuidado!.. porque ali vai um bebé. Para além de não perceber o que leva alguns progenitores a publicitarem assim o nome dos seus rebentos, importa questionar: Mas que raio de advertência é esta!? Até parece que o cuidado que devemos ter na estrada varia consoante o tipo de ocupante dos outros veículos. É pois uma informação palerma e estupidificante que, in loco, me incita a adjectivações várias aos seus promotores.
Desconfio que tudo isto não seja mais do que um possível caminho para aqueles que se querem dedicar ao transformismo automóvel. Para além de todas as questões de estética, relativas e subjectivas, sobre as quais não farei juízos de valor, talvez um dia também eu me converta definitivamente ao famoso tuning.
04 março 2011
100
PARABÉNS!
Também eu me sinto feliz, enquanto leitor, pelo facto a LER ter chegado ao número 100, de existir desde 1987 e de me permitir aceder a um universo muito interessante. Sou leitor assíduo desde o seu nº 43 de 1998. É com grande expectativa e alguma ansiedade que ainda hoje, mensalmente, vou ao quiosque à procura da LER. Espero que este seja apenas um momento especial e bonito de um percurso que se quer longo e cada vez melhor. Um outro objectivo pessoal será conseguir os números anteriores ao nº 43. Calculo que não seja tarefa fácil, até porque alguns números devem estar esgotados. Entranto, fica a certeza de algumas horas bem passadas apreciando esta edição especial, que nos oferece as imagens, as entrevistas, as citações, os textos, os momentos e os livros que marcaram as cem revistas.
03 março 2011
salas de espera
Serão sempre lugares interessantes para algum trabalho de campo, mais ou menos discreto, mais ou menos participante, que permitem exercitar as capacidades de observação e de registo. Numa madrugada destas noites frias, na sala de espera de acompanhantes do serviço de urgência do Hospital Santos Silva, em Vila Nova de Gaia:
A sala, tipo aquário, é uma transparência, sem privacidade e com excelente iluminação, por contraste com toda a envolvência exterior. Três filas de cadeiras disponíveis em cada lado da sala, viradas para o seu centro, obrigam os presentes a um permanente contacto visual, duas máquinas de vending vão servindo bebidas e comidas, e roubando nos trocos aqueles que não lhe dão a quantia certa. É a murros e alguns pontapés que os lesados compensam a sua perda. Por cima de todo o burburinho permanente de vozes, o som estridente de uma TV que, pendurada numa parede, transmite (presumo uma gravação) uma telenovela da TVI. Enquanto aguardo pela minha criança e sentado numa extremidade da sala, entretenho-me observando os deliciosos pormenores destes estranhos que me envolvem. Neste corrupio de gente que entra e sai e sai e entra, por enquanto, ainda ninguém se chegou sequer perto de mim. Estranharão o meu aspecto? Desconfiarão da minha aparente alienação? Ou não querem saber e apenas assim calhou? Não me interessa. Importa-me ver como, enquanto alguns dormitam e depois são abruptamente despertos pelo som ranhoso do altifalante que lhes pedem a presença na porta da urgência, e outros aproveitam a espera para fazerem a higiene pessoal, como um indivíduo ali no canto que descontraído vai limpando o nariz aos dedos, a generalidade destes estranhos - também entre si - muito facilmente se dão ao conhecimento, parecendo-me que passados alguns instantes estão já a trocar contactos e confidências. Há aqueles(as), mais impacientes, que mal se sentam logo se levantam, numa impaciência aflitiva que quero atribuir à preocupação para com os seus doentes. Depois há ainda aqueles que como eu gostam de observar, mas indiscretos e incisivos, violentam-nos as mais recônditas entranhas com os seus (feios) olhares. O que pensará toda esta gente? O que irá na alma de cada um deles? Que dores sentirão?.. E é no meio destas divagações que ouço, num som estranho, o meu nome. É a minha vez de sair.
02 março 2011
fidelidade
Não sei se é comum ou não, se o mesmo acontece com os outros, mas no que toca a escrever gosto de utilizar sempre a mesma caneta. É com especial irritação que me apercebo que perdi uma caneta. Sempre gostei de utilizar a cor preta e é com relutância que escrevo a outra cor. Nalguns suportes o preto é mesmo exclusivo. Sempre gostei e sempre usei a BIC Cristal, a tal da escrita normal, de cor preta cujo traço mais forte consegue ser muito suave. Entretanto, descobri a Uniball de tinta preta permanente, gostei e passei a usá-la. Pena ser tão cara. Trago sempre comigo duas ou três iguais e é delas que faço uso. Serei assim um fiel à caneta.
01 março 2011
a reforma administrativa
Não sei quais foram as reais razões ou necessidades que trouxeram para a actualidade do debate político a questão da reforma administrativa portuguesa, mas a verdade é que este debate é necessário e viverá sempre sob o espectro de tardio e de urgente. Como podemos, em pleno Século XXI, viver ainda num esquema pensado e aplicado em meados do século XIX!? Mais, porque se demorou tanto tempo para apenas se pensar no assunto!? Já em meados do século XX, principalmente na sua segunda metade, a realidade do território e da população portuguesa deveriam ter motivado tal reflexão.
A dimensão das autarquias locais é fundamental na perspectiva da sua autonomia. Sem uma dimensão crítica da autarquia local não se pode verdadeiramente falar em autonomia do poder local, na medida em que as autarquias locais ficam desprovidas de meios suficientes para assegurarem a prossecução das suas atribuições e o exercício das suas competências.
Actualmente existem em Portugal 39 municípios com menos de 5000 eleitores, o que corresponde a 12,66 % do número total de municípios. Quando se fala em freguesias, a realidade é ainda mais avassaladora, tendo a esmagadora maioria das mais de 4000 freguesias, um número de eleitores inferior a 1000.
Este argumento serviu de base ao veto do Presidente Jorge Sampaio ao Decreto da Assembleia da República n.º 76/IX, que visava alterar a Lei Quadro de Criação de Municípios, aprovada pela Lei n.º 142/85, de 19 de Novembro, permitindo a criação de novos municípios, mesmo que não se verificassem os requisitos previstos na lei, caso existissem reconhecidas razões de interesse nacional, fundamentadas numa particular relevância de ordem histórico-cultural, ou desde que fosse recolhido o parecer favorável de todos os órgãos autárquicos envolvidos.
Conforme então afirmava o Presidente Jorge Sampaio, “Neste âmbito assumem especial relevância as questões relacionadas com a fixação ou alteração dos limites da circunscrição territorial dos municípios, não apenas porque dela depende, em larga medida, a adequação e eficiência da administração autárquica na prestação de serviços às populações,...”.
A Câmara Municipal de Lisboa tem em curso uma discussão pública sobre a reorganização do mapa administrativo da cidade, visando a redução de 54 para 24 freguesias, homogeneizando a sua dimensão territorial e demográfica, em nome de uma maior eficiência da acção das autarquias locais. Este facto e a actual crise financeira tem inspirado várias vozes, designadamente a do Secretário de Estado da Administração Local para a realização de uma Reforma Administrativa assente na redução do número de municípios e freguesias.
Aproveitando o facto de este ser o ano de novo Recenseamento Geral da População (Census 2011), poderemos aproveitar esse novo retrato da distribuição da população portuguesa para elaborar um novo esquema administrativo. O que não devemos é a) aceitar que sejam critérios meramente contabilísticos e financeiros a motivar e nortear esta nova “vontade” de mudar, e b) que esta súbita e drástica vontade de reduzir seja o caminho para um efectivo reforço da centralização do poder em Portugal.
Não sei se devemos ou não reduzir o número de freguesias. Contudo, parece-me que não se devem extinguir freguesias com relativa dimensão (3.000 ou mais eleitores), nem fazer fusões das grandes freguesias (mais de 40.000 eleitores). Se é verdade que não devemos aceitar a imposição da concentração de poderes em meia-dúzia de autarcas, também me parece que não devemos aceitar que existam em Portugal tantas freguesias que, tendo em conta o reduzido número de eleitores, são administradas por plenários. Não deveremos, por princípio, ter reservas e deveremos aceitar que se reduza ou aumente o número de freguesias e de concelhos, no sentido de alcançar o desejado equilíbrio entre a população e seu território.
Bem sei, sabemos, que o politicamente correcto é afirmar que as Juntas de Freguesia e, em concreto, os seus presidentes, são os pilares fundamentais da democracia portuguesa. Mas será verdade!? Será mesmo assim!?... Aceitar, concordar e defender esses pilares não é manter a actual situação, pois todos bem conhecemos a realidade de muitas autarquias e o desempenho de muitos presidentes de Junta de Freguesia: por um lado, estão presos pelo cimento e pelo tijolo ao respectivo presidente da Câmara Municipal, por outro lado, entendem o seu território como um feudo, onde gostam de se considerar donos e senhores. Temos que acabar com estas lógicas, com estes laivos medievais…
Não deveremos, sob o pretexto de defesa da democratização do poder local, defender o atavismo das lógicas enraizadas no poder local em Portugal, que aliás já existiam antes do 25 de Abril. Não será por acaso que, embora todos admitam a necessidade de reformar administrativamente o país, todos os discursos são extremamente cautelosos. É que uma coisa é teorizar e debater, outra coisa é implementar e explicar. Não tenho dúvidas que aí as resistências serão enormes. Não deveremos pois, também, menosprezar as questões imateriais: de identidades difusas e de sentimentos de pertença heterogéneos, que nalgumas localidades e regiões adquirem dimensões consideráveis e bem perceptíveis.
Um novo modelo administrativo, bem pensado, bem estruturado e bem reflectido poderá, para além do mais, acabar com os monopólios e os senhorios, e permitir novos espaços de influência e de novas e boas práticas de gestão autárquica.
(artigo enviado para o Jornal Nordeste)
27 fevereiro 2011
caros brinquedos
O Jornal Expesso revelou na sua edição de ontem um conjunto de documentos provenientes da WikiLeaks e relativos a Portugal. De todos eles, destacam-se os documentos relativos às nossas forças armadas e ao ministério da defesa. A correspondência entre o antigo embaixador dos EUA em Lisboa e o seu governo revela considerações pouco abonatórias e até mesmo insultuosas acerca dos nossos políticos e das nossas instituições militares. Contudo, importa salientar também o embaraçoso silêncio que tomou conta dos representantes dessas mesmas instituições. Não sei se significa a assunção da situação e o reconhecimento em tais palavras e adjectivações, ou se significa puro desprezo e perfeito alheamento dessas instituições pelo país civil. Em todo o caso, parece-me apropriado dizer que, para lá da actual celeuma, os nossos militares gostam de brincar com brinquedos caros, ainda por cima inúteis. Como bem afirma hoje em editorial o Jornal Público "...o silêncio significa que, mesmo sem ser integralmente rigoroso, o telegrama do embaixador Stephenson passará a ser integralmente verdadeiro".
23 fevereiro 2011
suburbana
Um destes dias, um amigo que pela primeira vez me visitava em casa, pediu-me para conhecer o local onde eu normalmente produzia o meu trabalho, o espaço que me permitia criar e a paisagem que me inspirava. Sem qualquer pudor e sem qualquer reflexão não hesitei em satisfazer-lhe a curiosidade. Depois, algum tempos depois, reflecti sobre esse estranho pedido. Num recurso a clichés quotidianos, seria bonito poder apresentar-lhe um espaço amplo, arejado e estupidamente limpo e arrumado, com abertura para um qualquer pedaço de céu relvado e com o mar ou a serra no horizonte. Mas não. Isso não está ao meu alcance. Apenas e só uma paisagem suburbana, recheada de elementos comuns e anónimos de grande urbe.
Em cima, a paisagem possível... que nunca me inspira, antes me desanima. Mas não me queixo.
Em cima, a paisagem possível... que nunca me inspira, antes me desanima. Mas não me queixo.
22 fevereiro 2011
um dia hei-de lá ir...
Começa amanhã o 12º Encontro de Escritores de Expressão Ibérica na Póvoa de Varzim. Apesar da "crise", o município mantém a feliz iniciativa. Nunca estive presente, mas sei que um dia vou lá...
14 fevereiro 2011
03 fevereiro 2011
querer mas não poder ficar...
No inicio desta semana foi notícia o encerramento simultâneo de oito Serviços de Atendimento Permanente (SAP's) nocturnos na região de Trás-os-Montes. É lamentável. Portugal desistiu de substancial parte do seu território e, principalmente, desistiu dos portugueses que aí vivem - "a porta da rua é a serventia da casa" e as populações desta região, se não sabiam já, sabem que podem e devem procurar novos lugares para fazerem suas vidas. É triste que os critérios que justificam esta atitude do Ministério da Saúde sejam a lógica da racionalização dos recursos e meios e a lógica dos raciocínios económicos e financeiros, quando o que deveria acontecer era uma permanente e evidente preocupação com a qualidade e proximidade dos equipamentos e serviços de saúde junto de cada um e de todos os cidadãos de Portugal. Se o governo e o Estado querem rentabilidade que a procurem nos impostos que todos, repito, todos os cidadãos e também os transmontanos equitativamente pagam.
O cenário é desolador e cada vez mais deprimente. Mais deprimente fica quando se percebe a apatia, a indiferença e o silêncio da generalidade dos autarcas da região que de forma alguma se insurgiram perante esta atitude que ostensivamente prejudica as populações desta região. Muito mais deprimente fica quando se percebe que alguns desses mesmos autarcas, eleitos pelas populações, proferem declarações justificativas e desculpabilizadoras, tentanto argumentar acerca da sua (não)posição ou regateando com a tutela medidas compensatórias tais como ambulâncias, macas, lencóis, pensos e adesivos. Ridículo.
O cenário é desolador e cada vez mais deprimente. Mais deprimente fica quando se percebe a apatia, a indiferença e o silêncio da generalidade dos autarcas da região que de forma alguma se insurgiram perante esta atitude que ostensivamente prejudica as populações desta região. Muito mais deprimente fica quando se percebe que alguns desses mesmos autarcas, eleitos pelas populações, proferem declarações justificativas e desculpabilizadoras, tentanto argumentar acerca da sua (não)posição ou regateando com a tutela medidas compensatórias tais como ambulâncias, macas, lencóis, pensos e adesivos. Ridículo.
01 fevereiro 2011
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