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19 fevereiro 2023

irritação da amígdala

"A democracia está a ser tão esvaziada de conteúdo que pode ser defendida instrumentalmente pelos que servem dela para a destruir, enquanto os que servem a democracia para a fortalecer contra o fascismo são considerados esquerdistas radicais." (Boaventura de Sousa Santos, in Jornal de Letras nº 1366, Fevereiro de 2023)

As palavras de Boaventura de Sousa Santos (BSS), num excelente artigo do referido jornal, avivam em mim uma profunda irritação, que não é de agora, mas que teima em durar e que poderei traduzir em palavras no raciocínio que se segue:
Eu, que pago os meus impostos, como a maioria dos cidadãos portugueses, acredito e defendo que o Estado, fiel depositário ou, se preferirem, cobrador desses impostos, deve ser responsável pela providência e prestação dos serviços básicos, em qualidade, equidade e gratuitidade, à totalidade da população do país. Falo da educação, da saúde, da justiça e dos sectores estratégicos da economia, como a energia, os transportes e as comunicações. Acredito no acesso universal e gratuito à saúde (SNS), acredito na escola pública, acessível e com qualidade para todas as crianças e jovens do país, acredito numa justiça independente, justa e de proximidade às populações e desejo uma maior e melhor distribuição das mais-valias ou riqueza que o país consegue produzir. Por que raio esta minha perspectiva do que defendo para o meu país é considerada radical e extremista? Sim, convivo bem e até me orgulho de perspectivar a sociedade e o meu país deste lugar "de esquerda", mas não aceito e combaterei sempre a ideia de que aquilo em que acredito não é sensato, ponderado ou desejável para todos e não só para mim ou para alguns, naquilo que podemos e devemos designar de democracia plena.
A minha amígdala sofre horrores com esta teimosia em designar os democratas de radicais de esquerda. Não o são, e quem assim os adjectiva, tal como escreve BSS, serão os primeiros a destruí-la e a impor os fascismos da "gente de bem".

15 março 2017

hoje, na Holanda...

No próprio dia em que decorrem as eleições na Holanda e quando um dos possíveis vencedores poderá ser um extremista de direita, partilho aqui a minha preocupação perante tal possibilidade. Bem sei que será só mais um país onde o projecto europeu caducou, mas assusta verificar que os nacionalismos, ainda por cima populistas, estão de regresso um pouco por toda a Europa. Para além dessa preocupação, um outro sentimento me assaltou um destes dias, quando espreitei o "tempo contado" de J. Rentes de Carvalho e li:

Digo então, para surpresa de quase todos, que vou dar o meu voto a Wilders. E pacientemente explico que partilho a sua ideia de deportar os marroquinos que, na Holanda, encabeçam as estatísticas da criminalidade; que a Holanda teria vantagem em se separar da EU (o que não acontecerá); que se deveriam ter fechado as fronteiras (o que está provado ser impossível ); que os idosos, os pobres e os deficientes não recebem os cuidados a que têm direito; que mesmo um país rico e bem organizado não tem capacidade para absorver a vaga de refugiados – problemática que os sucessivos governos empurram com a barriga no aguardo de milagres.
Discordo de Wilders pela irrealidade das suas intenções, pelo seu autoritarismo, pela nada democrática prática de ter um partido em que se pode votar, mas não aceita filiados.
Mas dando-lhe o meu voto - o meu protesto - espero contribuir para que, alcançando um bom resultado eleitoral, ele tenha em mãos a possibilidade de fazer uma oposição construtiva, que seja um contrapeso a vinte e tal anos de governos tão politicamente correctos que a grande maioria dos cidadãos se pergunta de que maus sonhos é prenúncio a realidade que estão a viver.

Cada um de nós tem o direito à sua opinião e a todas elas é devido o respeito e a tolerância democrática. Em relação a esta declaração de voto de Rentes de Carvalho, eu não posso deixar de a respeitar, mas desapontado direi que eu até poderia subscrever grande parte das suas preocupações e protestos, mas discordo totalmente quando esse voto é justificado como um instrumento para uma oposição construtiva, pois havendo a possibilidade de Wilders vencer, aquilo que teremos não será uma oposição nacionalista e defensora dos cidadãos holandeses, será a execução de um programa xenófobo e racista, que conduzirá a Holanda e, depois, a Europa, para um percurso perigoso e desconhecido.
Espero e quero que Wilders perca e bem estas eleições.