30 setembro 2011

aquilo que iria dizer hoje na assembleia municipal de bragança, mas censuraram-me, motivando o abandono da reunião como forma de protesto

Privatização das Águas de Portugal

Quando Pedro Passos Coelho se apresentou em campanha eleitoral, trouxe consigo a ideia de que seria necessário alienar a participação do Estado nas empresas públicas. Como sabem o BE defende que o Estado deve defender a sua posição maioritária nos sectores estratégicos da sociedade portuguesa, tais como a energia, as comunicações e os transportes, a banca, entre outros. Desses sectores e empresas há uma que em particular nos preocupa e, a mim, me inquieta. A privatização das águas de Portugal. Bem sabemos que esta privatização não estará na primeira linha do património público a alienar, mas também não temos dúvida que em breve, por exemplo, com o próximo orçamento de estado, essa intenção seja concretizada.
Alertados que estamos para essa intenção, e porque consideramos que a água e a sua distribuição não devem ser oferecidas à exploração e à especulação do mercado, e porque essa intenção vai além do que foi acordado com a troika, tudo faremos para impedir essa privatização, pois para além de a encarecer para os consumidores, haverá desinvestimento na sua qualidade, conservação e transporte. Ou seja, em nome da racionalização de custos e da lógica empresarial da obtenção de lucros e mais-valias, põe-se em risco a saúde dos cidadãos, que passam a pagar mais por um serviço pior.
Olhando para o panorama partidário nacional, facilmente percebemos as diferentes sensibilidades e perspectivas: o PSD e com ele, amarrado e a bater palmas, o CDS decretarão com a brevidade possível essa privatização; no PS percebe-se alguma indefinição e alguma dificuldade em tomar uma posição que seja consensual; registamos também a oposição do PCP, logo dos verdes também, ao referendo acerca da privatização da empresa das Águas de Portugal, a pretexto de que tal votação aceita que se possa escolher sobre tal assunto. Ora, só com a confiança ou fé numa salvífica mudança de opinião da maioria PSD e CDS se pode esperar que o parlamento impeça tal privatização, já anunciada, possibilitando que se prescindisse do instrumento referendário.
O Bloco de Esquerda está certo de que a direita não mudará de opinião, mas deverá ser confrontada com um debate em toda a sociedade, exigindo que a palavra seja dada a todos os eleitores, com a convicção de que esse referendo é a única via possível de oposição, que será o último instrumento legal para combater e impedir essa privatização.
Num ambiente europeu de austeridade, sempre aliada a uma forte autoridade, temos assistido e não por acaso, a uma re-nacionalização da água por toda a Europa – veja-se o caso italiano ainda neste Verão. Não se percebe, portanto, este impulso liberal em Portugal. Mais, olhemos para a realidade local e regional, o que ganharam os vários municípios e seus munícipes com a privatização da distribuição da água!? Pouco ou nada, dizem eles e sabemos nós. O que ganhou Bragança com a adesão aos serviços multi-municipais!? Nada ou muito pouco, dizem eles e sabemos nós. A nossa população continua a ter problemas no acesso a esse bem vital e recurso natural limitado e a Câmara Municipal e a própria ATMAD não conseguem responder às necessidades das nossas populações. Imaginem agora o que nos espera se toda a água nacional for privatizada.
O Bloco de Esquerda não tem dúvidas da importância desta questão, nem da dimensão do negócio fabuloso que se apresenta para os privados, e por isso iremos combater essa privatização por decreto. Defendemos que devem ser os portugueses e as portuguesas a manifestarem-se e, aí, também acreditamos que teremos uma grande maioria da população contra essa privatização. O referendo será uma mobilização social contra a austeridade e contra a autoridade.

Documento Protesto entregue ao Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Bragança

...e então depois abandonei a sala.

vem sempre primeiro...

29 setembro 2011

the day i succumbed to the apple charm


...my original sin...

28 setembro 2011

egocentrismos

O vazio transporta, quase sempre por inerência, tempo e espaço para a reflexão, para a introspecção. Nessa luta tenho andado nos últimos dias, poderia até dizer meses, mas fiquemos pelos dias... Um indivíduo não pode escapar à sua sorte paradoxal: ele é uma pequeníssima partícula de vida, um instante efémero e, ao mesmo tempo, revela em si a plenitude da realidade viva. Contém nele o todo da humanidade, sem deixar de ser a unidade elementar dessa mesma humanidade – já Montaigne disse: “cada um dos homens carrega a forma inteira da condição humana”. Essa forma inteira implica, desde logo, a definição do indivíduo enquanto sujeito biológico e será nesse âmbito que perceberemos a lógica de auto-afirmação do ser humano por ocupação do centro do seu mundo. Para conhecer e para agir cada ser humano ocupa o seu lugar egocêntrico. Este lugar que cada um de nós ocupa, pressupõe dois princípios: O princípio da exclusão, pois nenhum outro a não ser eu pode ocupá-lo e nenhum outro indivíduo pode dizer eu no meu lugar, para além do facto do EU não ser partilhável. Somos então e enfim todos uns grandes egoístas; e o princípio da inclusão (coisa bonita), que nos permite incluirmo-nos num NÓS e, depois, incluir esse NÓS no nosso centro do mundo. E então seremos todos parcialmente altruístas.
Por onde ando eu!?

27 setembro 2011

"Obrigado" que estou a ouvir rádio e apenas rádio sempre que entro no meu carro, hoje, no permanente zapping, calhou apanhar o Alta Tensão de António Freitas, na Antena 3, a passar este som. Nunca tinha ouvido tal som e banda. Depois de setecentos quilómetros ao volante, liguei-me ao youtube e achei...

17 setembro 2011

a minha couvade

Fará por estes dias seis meses que o delfim da casa nasceu. Parece que ainda foi ontem, mas ao mesmo tempo, senti e muito o tempo a passar. Há seis meses que experimento uma espécie de couvade – prática quase universal entre os povos antigos e que, ainda no início do século XX foi identificada e muito noticiada no País Basco e no Brasil. Tratava-se de um costume em que o marido da mulher prestes a dar à luz recolhia ao leito e simulava o trabalho de parto. Por vezes, no próprio dia do parto, a parturiente regressava às suas lides habituais, enquanto o marido permanecia na cama. O termo couvade aplicava-se também quando ambos os progenitores se mantinham em confinamento depois de nascido o filho. No aspecto social, a prática teria por objectivo realçar o papel masculino na reprodução, conquanto também se avente a hipótese de, ao partilhar assim as dores do parto, o marido aliviaria parcialmente o sofrimento da mulher. Como poderão adivinhar não foi necessário simular ou partilhar qualquer dor, embora me agrade o realce do papel masculino no processo. Atroz tem sido o confinamento. Espero terminá-lo em breve. Preciso de…

16 setembro 2011

"a casa das formigas"

A casa de Al-Adhamiya já não está habitável. Já não se pode dormir lá nem esquadrinhar os seus recantos. O caminho mais curto que conduz até ela é o da minha infância. Sem ela, já não vejo ali nada. Um cão errante e tinhoso uiva à cara dos seus antigos proprietários, que se ausentaram e depois morreram, que foram expulsos, que fugiram, que envelheceram e desapareceram. Por todo o lado, as casas souberam sempre dar lições aos seus habitantes. A cada momento, extraio dos seus azulejos a minha fome e a minha nudez, as minhas metamorfoses e o meu abandono. Escrevo, faço livros, mas regresso sempre ali e deixo esta casa imiscuir-se nos meus assuntos. Em cada romance, ela é a essência da minha agonia. Seja, digo a mim própria, voltarei a levantar-me e restaurarei as minhas fortificações para voltar a ela. (Alia Mamdouh in Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Setembro 2011)

09 setembro 2011

do mês de agosto, de espanha e de outros lugares...

- Sarmento, Clara - coord., (2011), Diálogos Interculturais - os novos rumos da viagem, Porto, Vida Económica Editorial;
- Fernandes, Celina Busto, (2010), As Minas de Ervedosa, Lisboa, Âncora Editora;
- Borges, Américo Augusto, (2006), Gentes de Vinhais, Guimarães, Editora Cidade Berço;
- Stewart, George R., (2008), Names on the Land - a historical account of place-naming in the united states, New York, New York Review of Books;
- Rodrigues, Daniel José, (1981), O Riodonorense Lendas Folclore, Bragança, Edição da Assembleia Distrital de Bragança;
- Fiske, John, (2011), O destino do Homem, Lisboa, Alfabeto Editora;
- Lévi-Strauss, Claude, (2010), O Olhar Distanciado, Lisboa, Edições 70;
- Malinowski, Bronislaw, (2009), Uma teoria científica de cultura, Lisboa, Edições 70;
- Viana, Luis Díaz e Álvarez, Óscar Fernández e Martín, Pedro Tomé, (2011), Lugares, Tiempos, Memorias - la Antropología Ibérica en el siglo XXI, León, Universidad de León;
- Halbwachs, Maurice, (2004), Los marcos sociales de la memoria, Barcelona, Anthropos Editorial;
- Echevarría, Aurora González (2009), La dicotomía emic/etc - historia de una confusión, Barcelona, Anthropos Editorial;
- Hernáez, Ángel Martínez, (2011), Antropología Médica, Barcelona, Anthropos Editorial;

08 setembro 2011

05 setembro 2011

a partir de amanhã na cidade de Leão...

... para falar sobre as novas paisagens rurais no interior de Portugal. Mais pormenores aqui (ver ego na página 12 deste pdf)...

04 setembro 2011

inexplicável separação

Durante estes últimos dias de Agosto, sempre que entrava no blogue, reparava que separador "etnografias nascentes" não estava a funcionar. Estranhei o facto, mas sempre pensei que algum código html tivesse sido adulterado e aguardei pelo regresso a casa para tentar resolver o problema. Agora que regressei e tive tempo para resolver esse assunto, já consegui descobrir a fonte do problema técnico, mas não serei capaz de dar resposta, pois trata-se de uma questão de permissão por parte dos fornecedores do serviço, ou seja, o twitter impediu que contas privadas partilhem os seus conteúdos com outros programas ou suportes. Porreiro pá... Foi por curiosidade que eu aderi ao Twitter - se não estou em erro no início de 2009, mas depois de descobrir essa aplicação que permitia partilhar com outros programas aquilo que lá escrevia, é verdade que intensifiquei a minha participação, na medida em que me permitia escrever pequenos textos ou comentários acerca daquilo que não me merecia a atenção de uma entrada própria no Apurriar. Assim, o Twitter acabava por funcionar, maioritariamente, como um editor de textos para o meu blogue. Rúbrica essa que intitulei de "etnografias nascentes", por dizer respeito a tudo quanto eu poderia observar no meu dia-a-dia e que me chamasse a atenção, merecesse uma nota, uma referência ou um comentário. Tenho pena que me impeçam de continuar a partilhar essas etnografias. Fica o Apurriar mais pobre e eu também.

a cruzada, ainda que atrasada por falta de meios...

02 setembro 2011

LER nº 105

No mês em que a revista adopta as regras do Acordo Ortográfico, realce para o texto de Fernando Venâncio que desconstrói todos os argumentos a favor desse mesmo acordo, explica as verdadeiras razões para a sua imposição e apresenta os incríveis defeitos e erros do mesmo.
"Estas bizantinices portuguesas podem explicar uma atitude brasileira parecida com falta de solidariedade. E é pena. Porque estamos aqui no absoluto cerne destes problemas: o nosso magnífico idioma tem duas ortografias porque tem sistemas vocálicos divergentes. O fosso entre os dois vai-se, mesmo, alargando. Mil acordos ortográficos não conseguiriam uma reaproximação dos dois sistemas. Importa aceitá-lo com naturalidade e não interiorizá-lo como um drama. Hoje os brasileiros já precisam de legendar filmes portugueses, mas daqui a 200 anos os romancistas brasileiros ainda serão, como hoje, os que melhor lemos no original." 
Uma referência também para a entrevista a Mário Cláudio a propósito do seu último livro... "no fundo acho que toda a escrita é uma transcrição. A escrita é a revelação de um texto que a antecede."
E por último, nota de satisfação por seis dos habituais colaboradores da Revista optarem por manterem as normas e regras ortográficas pré-acordo. Ainda bem.

30 agosto 2011

o poder simbólico

Recentemente, um amigo dizia-me, em jeito de desabafo, que não vê televisão, pois não acredita naquilo que ela transmite. Diz com considerável satisfação que em casa tem um televisor velhinho desligado há muito tempo. Afirma com convicção que prefere ocupar o seu tempo a ler livros, uma vez que considera que estes, apesar da toda a diversidade e de toda a multiplicidade, são os veículos por excelência do conhecimento humano. Se ambicionamos realmente o saber, será nos livros que o encontraremos.
Tendo a concordar, e cada vez mais, com esta opinião, e mais consciente estou do muito que tenho que ler para saber. Pierre Bourdieu, a propósito do poder dos símbolos (edições 70, 2011), afirma:
“A classe dominante é o lugar de uma luta pela hierarquia dos princípios de hierarquização: as fracções dominantes, cujo poder assenta no capital económico, têm em vista impor a legitimidade da sua dominação quer por meio da própria produção simbólica, quer por intermédio dos ideólogos conservadores os quais só verdadeiramente servem os interesses dos dominantes por acréscimo, ameaçando sempre desviar em seu proveito o poder de definição do mundo social que detêm por delegação; a fracção dominada (letrados ou intelectuais e artistas, segundo a época) tende sempre a colocar o capital específico a que ela deve a sua posição, no topo da hierarquia dos princípios de hierarquização.” (Bourdieu, 2011:8)
Com justiça e razoabilidade poderei associar esta ideia ao tempo e espaço que agora experimentamos e à necessidade de manter em off as televisões. Ainda é um poder simbólico que nos assiste. E não é difícil.

always a great sound

A viagem de mais de oito horas entre Bragança e Porto e, novamente, Bragança, deu para tudo e mais alguma coisa, ou se preferirem, para coisa nenhuma. Para ajudar os segundos a correrem e como aconchego para as deambulações mentais que fui fazendo, trazia nos ouvidos Sia, Eddie Vedder e Radiohead, o que me permitia também ausentar do som que o DJ de serviço obrigava a todos ouvirem, se não me engano sintonizado na RFM… A determinada altura e como viajei, em ambos os sentidos, na segunda linha de lugares e, mais precisamente no lugar número 7, o que para além de me permitir a contemplação da estrada, possibilitou-me um prisma muito interessante de observação da condução do jovem condutor. Mas a determinada altura, dizia eu, ainda absorvido pelo som que trazia nos ouvidos, ao olhar para o condutor, vi-o animado, a bater com as mãos, ritmadamente, no volante e a abanar ligeiramente o esqueleto. Estranhei e retirei os auriculares para tentar perceber que som o embalava. Nem queria acreditar. Todo o autocarro ouvia isto:



... para além do mais, sempre um excelente mote para o combate social que se impõe...

23 agosto 2011

o coleccionador

"Pessoas assim, como este Sr. José, em toda a parte as encontramos, ocupam o seu tempo ou o tempo que crêem sobejar-lhes da vida a juntar selos, moedas, medalhas, jarrões, bilhetes-postais, caixas de fósforos, livros, relógios, camisolas desportivas, autógrafos, pedras, bonecos de barro, latas vazias de refrescos, anjinhos, cactos, programas de óperas, isqueiros, canetas, mochos, caixinhas-de-música, garrafas, bonsais, pinturas, canecas, cachimbos, obeliscos de cristal, patos de porcelana, brinquedos antigos, máscaras de carnaval, provavelmente fazem-no por algo a que poderíamos chamar angústia metafísica, talvez por não conseguirem suportar a ideia do caos como regedor único do universo, por isso, com as suas fracas forças e sem ajuda divina, vão tentando pôr alguma ordem no mundo, por um pouco de tempo ainda o conseguem, mas só enquanto puderem defender a sua colecção, porque quando chega o dia de ela se dispersar, e sempre chega esse dia, ou seja por morte ou seja por fadiga do coleccionador, tudo volta ao princípio, tudo torna a confundir-se."
(José Saramago in Todos os Nomes)

19 agosto 2011

meu querido mês de agosto

Mês de todos ou quase todos regressarem aos locais de origem e onde cada um representa a sua condição de pessoa em permanente movimento, entre a ruralidade de um pequeno país e a urbanidade de uma qualquer capital europeia. Sendo impossível verificar cada uma das situações e aceitando, desde logo, que cada situação apresentará particularismos, poderemos encontrar algumas configurações recorrentes das diferentes experiências colectivas de diáspora. Desde logo, a manutenção de um território de memória, mais ou menos mitificada, da terra natal, depois, a negação do país e cidade hospedeiros como locais de acolhimento definitivo, logo e consequentemente, a concepção do local de origem como local de futuro retorno. Por tudo isto, se percebe o investimento material, simbólico e imaginário e a consciência de pertencer a uma comunidade, normalmente, a terra de origem.
A relação que cada indivíduo estabelece com a sua terra natal resulta sempre de um processo negocial e os discursos produzidos acerca da terra natal têm que ser abordados a partir da identificação dos seus diferentes produtores. Aqui talvez seja oportuno fazer referência à noção de saudade para ilustrar as possíveis interacções. Durante as décadas de 60 e 70 do século vinte, sabendo dos enormes movimentos migratórios que deslocou milhares de portugueses, o Estado português contribuiu, considerando os emigrantes como parte da nação, para a manutenção de um estilo de vida que se centrava na relação com o lugar de origem. Esse discurso ideológico integrava a palavra saudade, que centralizava simbolicamente os sentimentos que ligavam os emigrantes à pátria. Todos os emigrantes portugueses, enquanto residentes no estrangeiro, dão forma, através de diferentes práticas e representações, ao lugar mítico do seu desejo que é a terra natal, onde periódica e ciclicamente retornam e vivem. Assim, a terra de origem apresenta-se numa comunidade imaginada, onde se vive mesmo quando ausente a viver num outro local.
O momento do regresso para as férias de Verão serão, como podem todos adivinhar, o grande momento, por todos ansiosamente aguardado. As férias são marcadas, na grande maioria dos casos, para o mês de Agosto e segundo o calendário de festividades agendadas, sejam familiares (casamentos, baptizados, comunhões), ou da comunidade (festividades religiosas e/ou civis). Cada período de férias na aldeia contempla uma actividade social intensa e, talvez também por isso, haja sempre a sensação de que o tempo, esse tempo passa depressa demais. A viagem é também um espaço/tempo de relevância para todos. Normalmente, obedecendo a um esquema pré-definido, rigoroso e repetitivo, todos sabem de antemão as horas de partir e de chegar, os locais de paragem para as necessidades fisiológicas, para abastecimentos e alimentação. Ano após ano, viagem após viagem, cristalizam-se percursos e lugares de paragem. A performance da viagem é tema de conversa para os membros da comunidade de emigrantes, tanto à chegada a Portugal, como depois, quando regressam às suas comunidades de acolhimento. Saber quantas horas cada um levou a chegar, que percurso fez, o trânsito e os imprevistos são disputas para horas e horas de confraternização e de copos. A viagem é o tempo da transformação identitária e que os viajantes passam da sua condição de imigrantes – residentes numa terra com a qual mantêm relações de identificação e pertença fracas – para a condição de emigrantes – residentes provisórios numa terra com a qual estabelecem elos de identificação e de pertença.
Esta pequena reflexão acerca das vidas repartidas por diferentes e distantes lugares, não é mais do que um registo empírico daquilo que podemos encontrar em tantos e tantos lugares da região transmontana. Meu querido mês de Agosto, a vontade e o querer de cada um desses indivíduos e famílias que transformam as suas vidas num eterno ir e vir e ir e vir… sempre com a esperança de um dia, num qualquer futuro, poderem vir e não terem que ir.
(adaptado de artigo enviado para a Revista Almocreve - Carção, 2011)

18 agosto 2011

a coluna do paladino

Escreveu a história que Paiva Couceiro foi um dos mais combativos monárquicos durante os primeiros anos da república portuguesa. Ao ler a sua biografia escrita por Vasco Pulido Valente conheci com detalhe as suas fantasiosas tentativas de restabelecer a monarquia em Portugal. Foi a partir da Galiza que Paiva Couceiro planeou e organizou as suas incursões no país, sempre acreditando que, mais importante do que a força, seria a sua presença quem iria chamar para o movimento as populações e os poderes entretanto estabelecidos e, assim, derrubar a república. Para além disso, Couceiro acreditava no mito da sua invencibilidade e daí surge a ideia de paladino. Foi na noite de 3 de Outubro de 1911 que o seu exército, com pouco mais de mil homens, quase desarmados, famintos, mal vestidos e mal calçados, partiu à conquista de Portugal. Depois de alguma deriva, perdidos e enganados, marcharam durante vinte horas. Couceiro hesitou entre seguir para Bragança ou para Vinhais, mas ao receber informações falsas de que Bragança teria sido reforçada, decidiu investir sobre Vinhais. Apesar de se temer um confronto em Vinhais, tal não sucedeu porque o capitão das forças republicanas estacionadas – 68 homens de infantaria e 10 de cavalaria - previamente avisado da eminente chegada da coluna de Couceiro retirou para uma aldeia próxima. A entrada da coluna monárquica foi triunfal e eufórica, recebida com entusiasmo pela população, rapidamente Couceiro proclamou a monarquia em Vinhais, hasteando a bandeira monárquica no edifício da Câmara Municipal. A Vinhais acorreram muitas pessoas das aldeias vizinhas, chamadas pelo sucesso da “reconquista” monárquica. Paiva Couceiro consciente da delicada situação reuniu os seus oficiais, anunciando que sem verdadeiros soldados, sem armas e sem munições não se poderia resistir a uma investida republicana, manifestou a opinião que a coluna deveria retroceder para perto da fronteira. Assim se fez na madrugada de 6 de Outubro, deixando Vinhais entregue aos populares entusiastas da causa monárquica que, desorganizados e desarmados, tiveram por missão defender a bandeira monárquica hasteada na Câmara Municipal. Como não podia deixar de ser, os republicanos rapidamente, no mesmo dia, reconquistaram a vila de Vinhais.
Estes são os factos históricos de há cem anos que pude conhecer na leitura da referida biografia e que me permitiram contextualizar algumas das histórias documentadas pelos populares e que ainda hoje se contam na região. Um desses momentos diz respeito a antepassados meus. Reza a história que quando as forças de Paiva Couceiro chegaram e tomaram Vinhais para a monarquia, muitos populares de toda a região confluíram para essa vila. Alguns por iniciativa própria, mas grande parte deles instrumentalizados e influenciados pelos representantes locais da igreja católica. Também de Vila Boa partiram vários indivíduos armados de roçadouras e varapaus. Dois desses homens foram os meus bisavôs, o “tio” Graciano, meu bisavô materno (avô paterno de minha mãe) e o “tio” José António Pires, meu bisavô paterno (avô materno do meu pai) e conhecido por Tio Capador. Quando Paiva Couceiro decidiu retirar de Vinhais, deixou a vila entregue a esse conjunto de homens voluntariosos da monarquia. No mesmo dia, 6 de Outubro de 1911, o capitão republicano Rodolfo de São Ventura Andrade e as suas tropas regressaram a Vinhais e quando se depararam com os populares, estes manifestaram vontade de resistir. A chefiar um conjunto desses populares estava o meu bisavô Capador que quando ouviu o capitão republicano dar a ordem: “- Armar baionetas!” Gritou para os seus homens: “- Desarmar cacetes!” E desataram a correr para todos os lados, tentando fugir ao fogo republicano. Escusado será dizer que facilmente o capitão restabeleceu a ordem republicana e os valentes e ingénuos monárquicos locais foram perseguidos e detidos. Esse meu bisavô também esteve detido uns dias em Vinhais e conta-se que quando o questionavam acerca dessa sua condição, ele confiante dizia: “- Não há problema para um homem, pois quer na prisão, quer na igreja, todos temos uma tábua. É o bastante”.

16 agosto 2011

Anna Karénina

Terminei recentemente a leitura deste clássico da literatura russa (e mundial) do século XIX. Esteve na mesa-de-cabeceira muito tempo à espera e foi leitura nocturna obrigatória durante cerca de quatro meses. Lev Tolstoi, o gigante Leão, como ficou conhecido, através do seu génio retrata-nos a Rússia da segunda metade do século XIX. A História inicia-se em Fevereiro de 1872 e termina em Julho de 1876. A narrativa que dura quatro anos, desenrola-se entre Moscovo e S. Petersburgo e conta-nos a vida de quatro casas de grandes famílias. São protagonistas: Dolli e Stepan Arkaditch, Kitti e Levin, Vronski e Anna, Aleksei Aleksándrovitch. Para além da escrita, aprecio o seu estilo habitual de narrativa lenta e muito descritiva e depois de Guerra e Paz, A morte de Ivan Ilitch e, agora, Anna Karénina, em breve regressarei ao gigante russo. Agora é tempo de conhecer outro clássico, A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.

15 agosto 2011

dr. schweppes

Filho de uma família de classe média baixa do Oregon, estado do Pacífico, o Shawn é professor de Antropologia na Universidade de Louisville, no estado de Kentucky e tem uma paixão do tamanho da sua vida por Portugal e, em particular, pelo norte do país. Conhece melhor o país e os portugueses, a sua história, os artistas e suas obras, melhor que a maioria de nós. Desde 1992 tem visitado todo o país e tem feito trabalho de campo, desde então, em Covas do Douro, no concelho de Sabrosa, onde é carinhosamente tratado por Jonas. Shawn reconhece que nunca imaginou vir a ser antropólogo nem ser reconhecido enquanto tal. A propósito das suas origens, diz que nada apontava para que viesse a ser um estudioso e intelectual e que até poderia ser muito rico, mas nasceu no lado pobre da família. É que os seus antepassados maternos são a família Schweppes, nome que ele ainda transporta e que terão chegado aos EUA na segunda metade do século XIX. Curiosidades…