31 maio 2024

vintage


Passo todos os dias e várias vezes ao dia por esta montra. É no centro de Valadares e tem este aspecto, sei lá, há cinquenta anos?! Olho sempre para ela e os seus elementos são sempre os mesmos. Já não existem lugares assim e, fazendo uma leitura semiótica daquilo que a constitui, na verdade, apenas se vendem "grilos cantadores" e as suas gaiolas, o resto parece decoração. Não sei quanto mais tempo esta montra irá existir, mas é um regalo para os meus olhos e um aditivo de nostalgia da minha infância, em que também eu quis comprar gaiolas de grilos, apanhava-os nos campos e alimentava-os com folhas de alface.

26 maio 2024

na UNICEPE, alguns momentos











novo livro, velho projecto


Foi ontem, Sábado, dia 25 de Maio, apresentado pela primeira vez o meu trabalho sobre as nomeadas colectivas. Sala da livraria UNICEPE, no Porto, cheia de amigos e conhecidos para partilharem comigo este momento. Obrigado a todos.

17 maio 2024

ao espelho


Painel do último debate da revista Ecossocialismo, dia 15 de Maio, no Gato Vádio: Luís Vale, Wladimir Brito, Marcel Borges e Lurdes Gomes.

13 maio 2024

07 maio 2024

leve, relaxado e rejuvenescido

É assim que me sinto há meia-dúzia de dias. Consultei um novo reumatologista e foi-me prescrito um medicamento diferente. Logo a partir da primeira toma senti a sua acção. Que maravilha, acordar de manhã, sair da cama e quase não sentir o corpo. Sair da cama sem ter dores e sem me sentir derrotado. Com capacidade de movimentos nas articulações, até sinto que rejuvenesci uns anitos e, apesar da dor crónica permanecer, estou mais leve e solto para movimentos que até aqui não me eram possíveis. Bendita droga.

a LER desta Primavera

Laurent Sakura


Em breve, dia 16 de Maio, estará disponível o segundo álbum de Laurent Sakura. Serenety traz-nos mais 8 temas [1.⁠ ⁠Hope, 2.⁠ ⁠Alright, 3.⁠ ⁠Anne Frank's Lullaby, 4.⁠ ⁠Someplace, 5.⁠ ⁠Home, 6.⁠ ⁠In your eyes, 7.⁠ ⁠Close to you, 8.⁠ ⁠Walk with me] deste novo interprete. Ainda desconhecido de muitos, tem-se vindo a afirmar na cena internacional dos ambientes do Neo Clássico. Já tive a oportunidade e o privilégio de ouvir Serenety e gostei muito, o seu piano Felt é excelente companhia para horas de trabalho, seja leitura ou escrita, e também para nos embalar quilómetros nas estradas. Sequência clara de Whispering Keys, o seu anterior trabalho, Serenety, tal como o próprio nome indica, traz-nos tranquilidade, paz e aconchego.
Na impossibilidade (desconhecimento técnico) de como partilhar aqui um ou outro tema, deixo-vos o atalho para o primeiro álbum.

casa do artista amador


Que agradável surpresa. Convidado (desafiado), no próprio dia, para assistir a um concerto de música dos Silly Boy Blue, em Louro, Vila Nova de Famalicão, foi com espanto que descobri a Casa do Artista Amador, instalada numa antiga escola primária, entretanto desactivada. Não conhecia, nem conheço, nada mais sobre este espaço, sua programação e actividades, não conheço ninguém de Louro ou responsáveis pelo espaço, mas adorei a ideia, a reconversão do espaço e a possibilidade de haver uma programação cultural variada e assídua ao serviço desta comunidade. Aqui está um belo exemplo daquilo que deveria existir por todo o território, principalmente nas comunidades mais afastadas dos grandes centros urbanos e dos grandes eventos. Tal como aqui, espaços onde "o palco possa ser de todos".

01 maio 2024

25 abril 2024

a nossa liberdade

[cartaz feito pela minha filha e que vai levar consigo, hoje à tarde, para as ruas de Lisboa]

Não há como não registar o dia de hoje. Cinquenta anos passaram desde esse primeiro dia do resto das nossas vidas. O 25 de Abril de 1974 é, sem qualquer hesitação ou contestação, o dia mais importante da nossa existência enquanto comunidade ou sociedade, só que, passados todos estes anos, e à medida que o tempo vai passando, importa não deixar esquecer e continuar a assinalar, a relembrar e a celebrar. Os perigos e as ameaças serão crescentes. Logo, ocupemos as ruas das cidades. Eu, nós, vamos caminhar e celebrar nas ruas do Porto.

16 abril 2024

catraio maravilhado

"A senhora Gordon [Kim Gordon] está com 70 anos de idade, este mês de Abril, a 28, fará 71. Quando, com 16 anos, comecei a ouvir a sua música e me convenci de descobrir a melhor banda do mundo, pensei que uma avó nunca suportaria aquilo. O cansaço da vida, o desgosto de já se ter perdido gente, a dificuldade maior do corpo, tudo me parecia contribuir para não se resistir à intensidade de um som assim. Hoje, tanto tempo depois, a maravilha está em entender que a própria avó não só suporta um som assim como subiu o volume. O que me traz a impressão de que, afinal, a ordem está mantida, posso seguir sentindo que sou um catraio a curtir a maravilha que fazem aqueles que já são adultos. Isso conforta-me. Dá-me a esperança de ainda estarmos a seguir alguém."
Valter Hugo Mãe, in jornal de Letras nº 1396, Abril 2024.

05 abril 2024

descomplicar

"A única coisa que sei fazer é pôr as coisas por escrito para as compreender. Se não puser uma coisa por escrito, não a compreendo. Não a compreendo. Não a vivo. E não consigo. Não posso. É demasiado complicado."
Karina Sainz Borgo, in revista LER Inverno 2023 (nº 169)

03 abril 2024

há a vida

"O mais célebre talvez seja o de Octavio Paz: 'Os grandes poetas não têm biografia, têm destino'. É bonito, mas é uma treta. O destino, se é que há destino, está dentro da biografia. E dentro desta a escrita. Por causa desta frase de Octavio Paz, disse uma vez, numa entrevista, que era 'um poeta com biografia a mais'. Outra treta. Não há biografia a mais nem a menos. Há a vida. Que por vezes ultrapassa a ficção. Assim são todos os livros. Linguagem de linguagem. Ficção de ficção. Além da vida. E quase sempre aquém. Palavras de puro nada a puxarem umas pelas outras, sem factos, sem memórias, apenas elas, palavras, puro nada.Talvez só assim fosse possível contar a vida."
Manuel Alegre, in jornal de Letras nº 1395, Março 2024.

02 abril 2024

outra vez, sempre, Atenas


Passados dezoito anos regresso ao berço da nossa civilização. A primeira vez que aqui estive, sem nunca ter previsto cá vir, vim sozinho e foi uma surpreendente e agradável surpresa. Sempre disse que gostaria de voltar. Assim foi, ainda que desta vez seja uma visita muito breve. Terei o dia de amanhã para tentar ir lá cima e visitar a Acrópole. Gosto verdadeiramente de Atenas, pelo menos desta Atenas - arqueológica, gastronómica e da Plaka. Espero e quero cá voltar mais vezes.

31 março 2024

o chapéu: a catarse

Por ter uma cabeça descomunalmente grande e para grande tristeza minha, nunca pude ser um usador de chapéus, boinas e outros acessórios para a cabeça. Sim, há sempre a possibilidade de usar gorros, mas curiosamente nunca lhes achei piada, nem gosto de os usar, apesar de muitas vezes o fazer por verdadeira necessidade física.
Pois bem, eu tenho um chapéu, quero dizer, eu tinha um chapéu, um único chapéu e acabei de ficar sem ele. Não sei quantos anos o tive e usei, mas sei que já o tinha há mais de vinte e cinco anos. E sei porque tenho fotografias com ele na cabeça e ainda não era casado. Faz precisamente hoje vinte e cinco anos que casei e foi hoje também o dia em que o perdi. Irreparável dano.

from the army

[ Dialogue in English with the restaurant owner, in the middle of the meal, yesterday, March, 30th, in Fira ]

"- Sir, is everything all right here?
- Yes, everything is fine, thank you.
- Sorry, can I ask you where you come from?
- We come from Portugal.
- From Portugal?! Ok, very well. And may I ask you what you do for a living?
- I'm an anthropologist.
- Anthropologist?! Ok, I thought it was something else...
- Yes? What did you think?
- Well, You are very serious. In a good way, of course. I thought it was something in the army, but I was wrong. Sorry.
- Yes, completely. I never belonged and have always been very far from this universe.
- Sorry for the abuse.
- No problem."

---- tradução ----

[ diálogo em inglês com o dono de restaurante, a meio da refeição, ontem, 30 de Março, em Fira ]

"- Senhor, está tudo bem aqui?
- Sim, obrigado.
- Desculpe, posso perguntar-lhe de onde vêem?
- De Portugal.
- Ok. muito bem. E posso perguntar-lhe o que faz na vida?
- Sou antropólogo.
- Antropólogo!? Ok. Pensei que fosse outra coisa...
- Sim? O que pensou?
- Bem, o senhor é muito sério. No bom sentido, claro. Pensei que fosse algo nas forças armadas, mas enganei-me.
- Sim, completamente. Nunca pertenci e sempre estive muito longe desse universo.
- Desculpe o abuso.
- Não tem problema."

29 março 2024

voar

A ansiedade em que tenho vivido nestes últimos dias é devida, tenho a certeza, ao facto de saber que hoje irei viajar de avião. Há catorze anos que não o faço e permanece para mim como uma aventura desnecessária. Tremendo receio e desconforto em tirar os pés do chão. Mas vou.

20 março 2024

a casa do fogo e a fidalga


Ganhou contornos de lenda, ou pelo menos de estória fantasiada, mas que faz parte da memória familiar e até da comunidade local e que tenderá a desaparecer com o tempo e com a renovação das gerações, o que me leva a querer registar. É a história de Maria Ricardina Fernandes, minha tia-bisavó, natural de Vilarinho do Monte - Macedo de Cavaleiros, que casou em Vila Boa, no dia 7 de Julho de 1890, com João Manuel Fernandes do Vale, filho primeiro de José Marcelino Fernandes do Vale e de Maria Joaquina Pires Pousa. O casal, João Manuel e Maria Ricardina, ficou a viver em Vila Boa e tiveram três filhos. Consta que a Maria Ricardina, ainda com os filhos pequenos, ficou doente e muito tempo entrevada, confinada num quarto da casa e necessitando de muita assistência e cuidados, o que lhe valeu a nomeada de "fidalga". Pois bem, um dia deu-se um incêndio nessa casa que provocou a explosão de várias vasilhas de azeite, o que assustou de tal forma a "fidalga" que, sem qualquer ajuda, conseguiu fugir das labaredas e pôr-se a salvo na rua. Essa parte da casa ficou até hoje conhecida como a casa do fogo e a "fidalga" morreu não muito tempo depois (ainda no século XIX). O viúvo, João Manuel, com o desgosto da morte da mulher, ficou muito deprimido e recusava-se a aceitar o seu destino, não queria saber da vida, passava o tempo na cama e nem queria comer. Valeu-lhe o conforto e consolo de uma criada que tinha a seu serviço e para cuidar das crianças. O consolo foi tanto que um dia a criada apareceu grávida. A este propósito, muito mais tarde, um neto do João Manuel comentou: "a criada tanto insistiu... coma Sr. João, coma Sr. João... que ele comeu-a mesmo...". A verdade é que, por pressão familiar, principalmente do seu irmão António que era padre, o João Manuel casou em segundas núpcias com essa criada, de seu nome Benigma Ramos, natural de Alimonde, mas o ambiente ter-lhe-á sido tão hostil em Vila Boa que foi com a família, primeiro para Vilarinho do Monte, terra da primeira mulher e onde não terá sido bem recebido e, depois, para Nuzedo de Baixo. Certo é que nunca mais terá regressado a Vila Boa. Deste seu segundo casamento o João Manuel teve mais sete filhos. A casa do fogo manteve-se sempre na família e actualmente, desde há cerca de uma década, é propriedade do meu irmão Daniel, que comprou as sortes dos vários herdeiros.

(adaptação de um pequeno texto escrito e dactilografado pelo meu pai sobre a vida do seu tio-avô João Manuel Fernandes do Vale. Texto que me entregou em Janeiro de 2024)

19 março 2024

que eu fosse

"E agora, chegado quase ao fim da vida, o futuro que eu fosse já está quase todo consumido no passado".
Helder Macedo, in Jornal de Letras nº 1394, Março 2024.