01 março 2022

receosos e desajeitados

Depois de mais de dois anos sem nos darmos a qualquer manifestação social de afecto, de termos quase extinguido os cumprimentos que implicam o contacto físico, regressamos agora, tímidos e desajeitados, a esses rituais. As mãos vão-se abrindo e esticando para envolver outras mãos, os corpos vão-se envolvendo em abraços e, assim, regressamos àquilo que sempre gostámos e soubemos fazer. Ontem, ao despedir-me de um velho amigo, quando lhe estiquei a mão fechada, ele veio para mim de mão aberta, mas logo me puxou para ele e disse: - dá cá um abracinho. Eu dei e soube-me muito bem.

25 fevereiro 2022

enquanto esperava

Hoje, à hora de almoço, enquanto esperava pelo meu filho à porta da escola, ouvia a conversa de um pequeno grupo de miúdos, que não teriam mais de 12 ou 13 anos, sobre a guerra na Ucrânia. Ainda que num tom jocoso e brincalhão, demonstrativo da distância que os separa do palco da guerra e da mais que aparente sensação de segurança, o diálogo era animado e participado, percebendo-se a preocupação e a assertividade de alguns dos comentários e afirmações. Fiquei ali preso a ouvi-los, agradado por perceber a preocupação e consciência da gravidade da situação, até que eles substituíram o debate por uma qualquer brincadeira mais ou menos parva.

21 fevereiro 2022

coitados dos turistas

(na capa do Jornal de Notícias de 20/02/2022)

Foi notícia no Jornal de Notícias deste Domingo (20/02/2022), com chamada na capa da edição - Drama dos sem-abrigo choca turistas (pp. 18 e 19). De facto, a situação é muito preocupante, é dramática e é triste, mas não é uma situação nova, pois quem deambule pela baixa da cidade do Porto, já há muito tempo que convive com esses inquilinos do espaço público que, durante todo o ano, ocupam recantos dos edifícios públicos e privados e se fazem notar não só pela sua presença, como pela parafernália que arrastam consigo ou deixam como reserva do espaço que habitam. A crer na notícia agora publicada serão cerca de 500 pessoas nesta condição. 500 pessoas!
A notícia, para além do mais que necessário alarme para a dramática situação, está, no meu entendimento, toda ela escrita sob um prisma errado, enfatizando a perspectiva de todos os implicados - comerciantes, turistas, ONG's e autarquia - menos a daqueles que sofrem nas suas vidas essa condição de sem-abrigo, ainda que sejam referidos dois ou três destes casos.
Claro que o impacto desta situação prejudica não só a imagem da cidade, como algumas das actividades económicas que aí se desenvolvem, mas não é apresentada qualquer solução para este problema, que é muito mais do que uma situação de saúde pública, é uma questão de civilidade e dignidade da própria comunidade. Sinceramente, afirmá-lo como um problema para o turismo e para os turistas que nos visitam?! Que raio. Por outro lado, este texto também não consegue ultrapassar a visão de uma sociedade caritativa, que depende da boa vontade e voluntarismo de um conjunto de cidadãos e de algumas organizações não-governamentais, como sendo essa a solução para o problema. Não é. A responsabilidade para resolver, ou pelo menos, minorar este cenário é do Estado e das suas instituições, nomeadamente da Segurança Social e, depois, das autarquias que têm, pelo conhecimento do terreno e proximidade com estas populações, a obrigação de criar as condições mínimas e capazes de retirar esta gente da rua e da indigência.
Bem sei que não é fácil e é complexo, que cada um deste indivíduos tem as suas idiossincrasias (doenças, traumas, violências e dependências) naquilo que é a sua história de vida e, portanto, o esforço terá que ser assíduo, persistente e duradouro. Não é admissível que a autarquia do Porto, na pessoa da Vereadora da Acção Social, Cristina Pimentel, ao ser questionada pelo J.N., responda: ao contrário da percepção que existe em quem circula pelas ruas, a população sem-abrigo não aumentou. Senhora vereadora, essa afirmação soa a satisfação por o número não ter aumentado, como se cerca de 500 pessoas a dormir nas ruas da cidade não fosse já uma enormidade, uma tragédia. Mais, está equivocada, porque para quem gere ou administra a coisa pública e a polis, a percepção, ou melhor, as percepções daqueles que vivem e fazem ser a cidade são importantes e a razão da existência do seu lugar na administração pública local.
Mas é também, uma peça jornalística que reforça uma visão da cidade que se impôs nas últimas décadas, na qual o espaço e os lugares só existem, só fazem sentido, se estiverem ao serviço da especulação imobiliária (gentrificação), ao dispor dos fluxos e preferências/modas sazonais e consumos do turismo (turistificação) e a vida dos habitantes é preterida para a insignificância ou expulsa para a periferia (reificação). Era este o Porto de Rui Rio e é este o Porto de Rui Moreira. É tempo de alterar o paradigma, de dignificar a vida destes (e de todos os) cidadãos e de redireccionar a cidade para servir quem nela vive, trabalha, ou tenta sobreviver.
Enfim, não me interessa, não quero saber do incómodo dos turistas que nos visitam, quero é solução para cada uma destas quinhentas vidas que, voluntária ou involuntariamente, permanecem num estado de indignidade humana.

a quem interessar...


Eu gostava muito de lá estar. Não vai ser fácil, mas ainda vou tentar ir.

17 fevereiro 2022

práticas culturais


Tive conhecimento deste estudo através da comunicação social e logo tratei de o procurar. Encontrei-o no sítio da Fundação Gulbenkian e disponível para download gratuito (aqui). Muito interessante e pertinente, principalmente no contexto actual de pandemia ou pós-pandemia. Vou ler com atenção, pois parece-me que faz um retrato pormenorizado daquilo que temos sido e daquilo que temos feito com o nosso tempo disponível. Para uma leitura sucinta ou apressada bastará ler a "síntese dos resultados" (páginas 6 a 10).

Na apresentação do estudo, pode-se ler:

Este inquérito oferece um retrato inédito da diversidade das práticas culturais em Portugal.
Encomendado pela Fundação Gulbenkian ao Instituto de Ciências Sociais (ICS), o estudo fornece às instituições culturais uma grelha de leitura sobre os seus públicos, atuais e futuros, e quer contribuir para a produção de políticas públicas inovadoras. O estudo foi coordenado por José Machado Pais, Miguel Lobo Antunes e Pedro Magalhães.
O inquérito reúne informação socialmente relevante e estatisticamente representativa da população residente em Portugal, regiões autónomas incluídas, com 15 ou mais anos de idade. A amostra tem uma dimensão de 2000 inquiridos e o trabalho de campo foi realizado entre os dias 12 de setembro e 28 de dezembro de 2020. A informação foi recolhida através de entrevista direta e pessoal na residência dos inquiridos, em sistema CAPI (Computer Assisted Personal Interview).
Os domínios pesquisados abrangem consumos culturais através da Internet, da televisão e da rádio; práticas de leitura em formato impresso e digital; frequência de bibliotecas, museus, monumentos históricos, sítios arqueológicos e galerias de arte; idas ao cinema, concertos e espetáculos ao vivo, incluindo festivais e festas locais; participação artística e capitais culturais.
Disponibilizam-se também indicadores de participação cultural mais interventiva ou comprometida, como o exercício de práticas artísticas amadoras, a partilha de conteúdos culturais de autoria própria, a interação online em temas relacionados com a cultura, a participação em blogues, o voluntariado e a participação em associações culturais.
Propõe-se ainda uma importante bateria de indicadores sobre as motivações e os obstáculos que mobilizam ou não os portugueses para o exercício de práticas culturais nucleares, indicadores que permitirão ajustar estratégias de captação e fidelização dos públicos da cultura.

10 fevereiro 2022

é cego

Oito e trinta da manhã, avenida da república em Vila Nova de Gaia, entro num estabelecimento comercial para registar o Euromilhões. Ao sair, dou passagem a uma funcionária que carregava um balde e respectiva esfregona. Sem se aperceber que eu vou atrás dela, larga a porta de vidro. Quando se apercebe:
- Ai desculpe, não reparei que estava atrás de mim.
- Não faz mal. Obrigado. Digo-lhe eu.
- Sabe, é que o de trás não vê!
Ok, pensei eu, enquanto fazia um esforço por afastar do pensamento o referido cego da senhora.

diz-se por aí


É este o resultado de andarmos a brincar às privatizações de sectores estruturais e estratégicos do nosso país. A gestão privada é que é boa, muito melhor do que a pública, diz-se por aí e sem pudor. Como pode a água, que é um bem essencial e um direito fundamental que cada cidadão tem, ser privatizada e a sua gestão ser objecto de especulação, cujo único propósito é a obtenção de lucro?! Como pode haver gente - e aqui falo de presidentes de Câmaras Municipais e demais organismos municipais, partidos políticos e agentes sociais - que decida que a água deve ser explorada por uma empresa privada, cuja finalidade é a obtenção de lucro? Esse executivo camarário que assinou, em 2004, o contrato de concessão deveria ser criminalmente responsabilizado. Foi um crime! É um crime! Não podemos aceitar esta lógica liberalizadora na nossa sociedade, pois se assim for, quando dermos conta estaremos a pagar o ar que respiramos.

08 fevereiro 2022

sem ilusão, apenas desilusão

Passam os dias e eu cada vez sinto mais a falta dos óculos, para ouvir e perceber o mundo que me rodeia. E não é ilusão, é desilusão de óptica.

06 fevereiro 2022

não fazia ideia

A versão fotogénica de Susan Sontag estaria sempre em desacordo com a Miss Bibliotecária. Nunca, talvez, uma grande beldade se esforçou tão pouco para ser bonita. Ao deparar-se com a mulher glamorosa nas fotografias, expressou frequentemente, o seu espanto. No final da vida, vendo um retrato de si mais jovem, suspirou: "Eu era tão bonita!" disse. "E não fazia ideia".
(Benjamim Moser, in revista LER nº 161 - Inverno 2021)

(imagem retirada de https://vogue.globo.com)

04 fevereiro 2022

maioria absoluta

Não foi preciso esperar muitos dias depois das eleições e delas ter resultado uma maioria absoluta, para o PS começar a governar o Estado a seu bel-prazer, sem se preocupar com o que seja, sem olhar para o lado e sem, reparem bem no preciosismo, se preocupar com aquilo que estava anteriormente negociado com o PC e o BE.


De acordo com o jornal Expresso as linhas gerais mantêm-se, mas com alguns retoques como a criação de dois novos escalões no IRS, com um pequeno desagravamento do imposto ou aumento mínimo de 10 euros nas pensões. Mas o que chama à atenção são sobretudo as ausências, exemplo disso é o englobamento das mais-valias mobiliárias no IRS. Aplicava-se aos portugueses que fazem parte do último escalão de IRS, ou seja, com um rendimento coletável acima dos 75 mil euros e que nos últimos 12 meses tenham obtido rendimentos com bens móveis, tais como ações ou obrigações. O partido socialista justifica-se e diz que a aplicação da proposta depois da aprovação do novo orçamento ia criar problemas legais, dado que seria obrigatório cobrar o imposto com retroativos a janeiro. A medida foi exigida pelos parceiros da antiga geringonça, especialmente o PCP, mas nunca reuniu consenso entre os socialistas.
(in https://expresso.pt/expresso)


Aqui está um caso paradigmático daquilo que será a governação do todo-poderoso António Costa, perante a total incapacidade dos demais partidos beliscarem a sua vontade. Sim senhor. Maiorias absolutas é para isto que servem e foram, são e serão sempre, mais prejudiciais às democracias do que aquilo o próprio Primeiro Ministro diz querer normalizar. Não me restam dúvidas de que este governo vai-se deslocar para a direita e, sem os partidos da sua esquerda a pressionar, obedecerá à agenda dos interesses corporativos e patronais, em detrimento da agenda de maior justiça social e laboral. Cá estaremos para ir registando e denunciando as clivagens à direita e ao neo-liberalismo que se vão operar nos próximos tempos.

31 janeiro 2022

idiotas úteis *

Na ressaca das eleições legislativas de ontem, nas quais o PS conseguiu uma clara e inequívoca maioria absoluta, importa-me reflectir sobre o resultado da minha família partidária. Apesar desta maioria do PS ter provocado uma tempestade de maus resultados em todo o espectro partidário, o maior derrotado foi, não tenho dúvidas, o Bloco de Esquerda.
E aquilo que mais me incomoda a amígdala é a sensação de que os seus dirigentes estão em negação e não percebem aquilo que, por culpa própria, lhes aconteceu. Na minha modesta e humilde opinião, o resultado desastroso de ontem, em que passámos de um grupo parlamentar de 19 para um grupo parlamentar de 5 deputados; mais, em que só elegemos em Lisboa (2), no Porto (2) e em Setúbal (1), teve origem na péssima decisão de terem votado contra o Orçamento de Estado e, em consequência, provocado estas eleições. Ainda hoje não consigo entender o leitmotiv dessa decisão... é que:
a) O Bloco tinha um grupo parlamentar de 19 deputados;
b) Na Assembleia da República existia uma confortável maioria de esquerda;
c) O PS, sem maioria, estava obrigado a negociar com os demais partidos, ou seja, o Bloco de Esquerda podia influenciar a governação do país;
Pelos vistos, para os dirigentes e inteligências do Bloco essa realidade não satisfazia, não era suficiente, e servindo-se de um argumento contra-producente - que o PS não estava interessado em negociar e queria ir para eleições - chumbou o orçamento, comportando-se precisamente como o PS e António Costa pretendiam. Se sabiam que essa era a vontade de António Costa, o BE só podia ter contrariado, abstendo-se na votação do orçamento, obrigando o PS a governar e a continuar a negociar cada política, cada lei, cada medida ou acção e, assim, o ónus da crise política não caía em cima do Bloco.
Só que não, convencidos não sei do quê, completos idiotas úteis, fizemos o trabalho sujo ao PS e arcámos com a responsabilidade da crise política (em parceria com o Partido Comunista), para então António Costa, com mestria, construir a narrativa que mais lhe interessava - a da vitimização às mãos dos partidos à sua esquerda. Parabéns, pois conseguiu todos os seus objectivos: derrotar o PSD, ter uma maioria absoluta e, sem dó e piedade, humilhar o Bloco e a CDU.
Aquilo que hoje gostaria de perguntar aos dirigentes do Bloco - cuja existência reside algures no etéreo universo do parlamento e desligado das suas estruturas e bases, assim como alheada cada vez mais da realidade da vida de rua, dos trabalhadores e dos portugueses - era: Se o anterior orçamento não servia aos portugueses e por isso foi chumbado, o próximo, construído e suportado por uma maioria parlamentar do PS, é que merecerá o apoio do Bloco? Brincaram com o fogo, queimaram-se e as cicatrizes demorarão pelo menos 4 anos a sarar.
Mais, o grupo parlamentar do BE precisa ser renovado, pois independentemente da qualidade daqueles que lá estiveram e dos poucos que se mantêm, já lá estão à tempo a mais. Quantas legislaturas já fez cada um dos eleitos pelo BE? José Soeiro, Catarina Martins, Pedro Filipe Soares, Mariana e Joana Mortágua? Não será já o tempo de termos caras novas, com ideias novas e que tragam um rejuvenescimento ao grupo parlamentar? Por último, a coordenação do Bloco também precisa de um rosto novo. A Catarina Martins, que tanto fez pelo partido, pela democracia e pelo país, também está na coordenação há muito tempo. O seu discurso já não entusiasma, não é capaz de seduzir gente de fora do movimento, o que se tem traduzido em sucessivas derrotas eleitorais.
Idiotas úteis e ainda por cima esquizofrénicos e em negação. Mau demais.

* Esta expressão ouvia ontem, no decorrer da noite eleitoral, da boca de um dos comentadores que assim adjectivou os partidos à esquerda do PS (Bloco e PC).

29 janeiro 2022

procrastinar

Neste nacional dia de reflexão, a principal ideia que me ocorre e me interessa registar, até porque não é algo que seja entendido como uma virtude, mas que nada me custa a reconhecer, é que sou um excelente procrastinador. Se não me impõem um prazo, uma data limite, o que melhor faço é proletariado a tarefa para uma hora e um dia que hão-de vir.

28 janeiro 2022

ainda assim espero estar enganado

Termina hoje a campanha eleitoral para as eleições legislativas que irão acontecer no Domingo, dia 30 de Janeiro de 2022. Durante este longo período desde o chumbo do orçamento e o "derrube" do governo, procurei estar atento, ainda que à distância, mas sempre preocupado e receoso do resultado da eleição. É que apesar de não gostar do governo PS e até aceitar que foi António Costa quem não quis negociar e chegar a acordo com os partidos à sua esquerda e, assim, preferir ir para eleições, não aceito que digam que os governos do PS são iguais ou parecidos aos governos da direita. A ideia vastamente difundida, em jeito de justificação para as opções escolhidas, nos partidos de esquerda de que o PS não é de esquerda, não é verdadeira. Caramba, é preciso não ter memória e não ter qualquer sensibilidade pelo sofrimento de tantos e tantos portugueses para se afirmar que PS é igual a PSD.
Continuo a não perceber porque é que o BE votou contra o orçamento e, assim, derrubou o governo. Tanto mais que se é verdade que foi o primeiro-ministro quem não quis governar naquelas condições, mais uma razão para o contrariar e ter aprovado (por abstenção) o referido orçamento.
Não participei em nenhuma actividade ou acção do meu partido. Não gosto do que ouço, do que leio e da atitude dos dirigentes do BE, cujas ideias e mensagens, transmitidas ao longo destes dias, têm sido contraditórias, difusas e confusas para o comum dos mortais... não gosto da atitude de agressão aos demais partidos da esquerda e centro esquerda, em detrimento do ataque os partidos da direita, esses sim, verdadeiros adversários políticos.
O meu voto está mais do que garantido e não tenho dúvidas, mas continuo a considerar que à esquerda do PS vive-se uma tremenda esquizofrenia. Sei o que quero: quero uma maioria de esquerda no parlamento que aí vem, com representação de todos os partidos que se candidatam e sei o que não quero: não quero um governo de direita. A realidade é que não tenho a certeza que o PS vença e forme governo e isso deixa-me triste e muito preocupado com os dias que hão-de vir. Ainda assim, espero estar enganado.

24 janeiro 2022

15 anos

Assinalam-se hoje 15 anos desde a criação desta minha tábua de escrever. Bem sei que neste último ano tenho estado ausente e pouco participativo, mas sempre foi assim: umas vezes mais presente e assíduo, outras menos. Depende da disponibilidade e, acima de tudo, da vontade. Apesar de tudo, não estou cansado ou saturado deste espaço e continua a fascinar-me a total liberdade que ele representa. Também sei que mais dia, menos dia, voltarei com outra intensidade. Sigamos caminho.

15 janeiro 2022

ao espelho

10 janeiro 2022

09 janeiro 2022

primeira vez

Até me fica mal, depois de todos estes anos, afirmar, e com moderado entusiasmo, que finalmente e pela primeira vez publiquei um artigo na revista Brigantia - revista de cultura. Depois de duas ou três tentativas goradas, lá consegui fazer sair um texto meu no volume XXXVIII - XXXIX, correspondente aos anos de 2020 e 2021. Trata-se de um pequeno texto sobre as nomeadas colectivas em Trás-os-Montes e, em concreto, sobre os espaços, lugares e tempos de nomeação, assim como sobre os tipos sociais que promoviam e promovem a ligação e a tradução cultural na região (páginas 219 a 228). Irei procurar manter esta colaboração nos próximos números da revista (livro). Esta capa irá ficar exposta no separador Enxertias deste blogue.

05 janeiro 2022

recomeço

Depois de dois dias acabrunhado, com o corpo dorido e com as vias respiratórias obstruídas, enrolado em mantas, chás e comprimidos, sem qualquer vontade a não ser dormir, cá estou eu para (re)começar. Hoje vou sair de casa e enfrentar o ano novo.

02 janeiro 2022

trabalho de campo

Durante quase dois anos de pandemia e dos seus confinamentos, cuidados e afastamentos, as minhas viagens para Trás-os-Montes ficaram reduzidas às visitas inevitáveis à família. Para estas quase três semanas que vim passar na região, tinha planeado aproveitar para realizar algum trabalho de campo, relacionado com alguns dos textos (artigos) que estou a escrever e com investigações em curso, e por isso vim carregado com toda a parafernália tecnológica (som, vídeo e fotografia) e analógica (bibliografia, papel e canetas). Contudo, uma vez mais o bicho, agora chamado Omicron, impede-me de sair para o(s) terreno(s), visitar lugares e contactar pessoas. Aqui estou eu, abrigado e em segurança, mas chateado porque sei tão cedo não regressarei a Trás-os-Montes. Vamos ver se durante os próximos dias conseguirei pôr os pés na rua e deambular pelas bonitas estradas que me levarão às aldeias que quero visitar.

01 janeiro 2022

dia introspectivo, sempre

Podemos ser mais ou menos propensos a balanços sobre a nossa vida, ou a programar ou projectar vontades e desejos para cada novo ano, mas creio que a maioria das pessoas não consegue afastar-se ou abstrair-se deste determinismo temporal que é a passagem de ano e o eterno retorno de uma nova contagem anual, com tudo aquilo que foi vivido até então e aquilo que queremos ou gostaríamos de experimentar ou realizar no novo ano que começa.
Para mim, este primeiro dia é sempre um não-dia, ou seja, um dia em que não há nada a fazer, em que o cérebro está apenas em modo de vigia e não lhe é exigido nenhum esforço. Não é preguiça, é mesmo um estado de letargia, um torpor que me invade (às tantas a quase toda a gente...) em cada primeiro dia de ano e já vão quase cinquenta primeiros dias e não me recordo de outra condição. Contudo, neste dia primeiro a introspecção ocupa-me o cérebro e os sentidos. É dia de pensamentos holísticos - do todo da minha existência pretérita, presente e futura, e de julgamentos ad hoc sobre essa mesma existência.
Sem grandes planos ou desejos para 2022, eu quero é viver (tal como cantava o Variações); depois, o que vier, virá e cá estarei para o experimentar.
Siga.

pellets

Não sendo propriamente uma tecnologia nova, ou sequer uma novidade, estou admirado com a eficiência das caldeiras/salamandras que são alimentadas por pellets - um granulado prensado composto por resto de folhas, serradura e lascas de madeira, ou seja, um biocombustível renovável.
Sem certeza, mas a percepção que tenho é que esta é uma fonte de energia muito interessante na relação entre o preço (saco de 15 kg = 4 euros) e o calor produzido. O único pormenor menos agradável é o ruído que a máquina faz ao trabalhar.
A casa onde estamos a passar estes dias de Natal e Ano Novo foi recentemente equipada com um destes aparelhos e, pela primeira vez em mais de 30 anos que aqui vimos, o frio transmontano não se faz sentir dentro de casa. É verdade que não tem estado o frio que habitualmente se faz sentir, mas aqui dentro podemos andar de calções e T-Shirt.

25 dezembro 2021

trago-vos de longe

(mensagem de Natal para amigos e amigas)

Bem sei que tudo isto é relativo e muito subjectivo, mas imbuído pelo espírito natalício e porque, ainda aqui há dias fui indagado pela minha filha sobre os meus amigos e as minhas amigas: como os conheci e como se mantiveram? e eu só lhe consegui responder que, apesar de poucos e de caberem nas palmas das minhas mãos, são todos velhos amigos e gosto muito deles, e que apesar de estar disponível, não sinto necessidade de encontrar ou descobrir novas amizades, que quero mesmo é alimentar e manter as que tenho. A amizade é mesmo sentida, de abraço e amor recíproco, trago-vos de longe, muitas delas desde que me conheço e gosto tanto dessa circunstância. Obrigado por isso.
Valadares, 24 Dezembro 2021

23 dezembro 2021

quinze anos depois

(campo do Império de Vila Chã, em Valadares - 16 Dezembro 2021, pelas 23 horas.)

A última vez que pisara um relvado, ainda que sintético, foi algures em 2006, nas vésperas de me ter sido diagnosticado o problema estrutural que me vai acompanhar para o resto dos meus dias e que se manifesta com maior intensidade nos joelhos, ombros, pescoço e dedos das mãos. Desde então, desporto nada, apenas caminhadas e bicicleta. Regressei agora e foi uma festa, pois todos aqueles que participaram neste jogo de velhas guardas - a fotografia assim o comprova - são amigos e conhecidos de longa data, que por diferentes razões também deixaram de jogar há mais ou menos tempo que eu.
Apesar de ter deixado a família apreensiva, senti-me bem e até superei as minhas expectativas, pois pensei que rapidamente me iria cansar. Aquilo que percebi ao voltar a correr atrás da e com a bola, foi o tremendo hiato entre aquilo que o meu cérebro processava com relativa velocidade e, depois, a mais que lenta reacção dos meus músculos cuja inércia, preguiça e amnésia, me levaram ao chão por duas ou três vezes. Adorei e vou regressar. Vamos retomar este encontro semanal já a partir de Janeiro.

(mais gordos e mais grisalhos, eu e dois velhos amigos, um dos quais, sem qualquer razão plausível, pôs-se em bicos de pé para a fotografia)

22 dezembro 2021

de variante em variante

Ao parar para reflectir sobre aquilo que estamos, à cerca de dois anos, a viver, enquanto seres humanos, mas também enquanto comunidades, é cada vez mais nítido que estamos metidos numa grande embrulhada e que não sabemos como resolver, nem como sair desta pandemia.
Como se costuma dizer, eu ainda sou do tempo em que as variantes eram vias que nos serviam nas deambulações quotidianas, pelas quais passávamos sem sequer darmos conta, num trajecto para chegarmos a algures. Agora as variantes são outras e, em vez de nos facilitarem a vida, condicionam severamente a nossa existência. Desde o início desta pandemia já foram nomeadas pelo menos cinco variantes, de origem variada e até aleatória, cujos nomes são escolhidos do alfabeto grego: Alfa (B.1.1.7 do Reino Unido); Beta (B.1.351 da África do Sul); Gama (P.1 do Brasil); Delta (B.1.617.2 da Índia) e, agora, a Omicron (B.1.1.529 da África do Sul).
Cada vez estou mais convencido que esta não é a última das variantes e que ainda estamos longe do fim desta trágica aventura. Sejamos resilientes e responsáveis.

02 dezembro 2021

reunião de antropólogos

Para os interessados e para mais informações clicar aqui.

30 novembro 2021

esquecer

Sou adepto de um Museu da Escravatura, e fazê-lo em Portugal seria uma boa opção. Podia ser feito em conjunto com os países do mundo lusófono e com o olhar de cada um. Seria uma boa forma de superar o passado pela positiva. E muito mais produtivo do que conferências sobre a própria língua e a lusofonia. Mas quando falo disto em Portugal há sempre o receio de trazer à tona o passado, como se fosse melhor esquecer. Mas esquecer nunca resolve.
(Mia Couto, in jornal de Letras nº 1334, Novembro 2021)

27 novembro 2021

nostalgias

A tecnologia matou a caligrafia. Os nossos textos são emendados até à exaustão e perdem a espontaneidade. Já ninguém escreve com letra bonita; perdemos a mão; a literatura é cada vez mais fragmentária e, com tantas alterações que se fazem, muitas vezes torna-se confusa. (...) As prosas eram escritas à mão, um saber que se vai perdendo. Escrevemos em teclados cada vez mais pequenos e a modernidade vai engolindo devagar aquela antiga sabedoria que os professores "de primeiras letras" nos transmitiam, com letras muito direitinhas e bonitas, redondinhas e ligadas, que de forma mágica o giz ia escrevendo no quadro negro.
(Luís Naves, in revista LER nº 160, pág. 37)

16 novembro 2021

ao espelho

Fui encontrar esta fotografia no fundo do baú do sitio online da Traga Mundos, livraria em Vila Real do amigo António. Este momento é da feira do livro do Porto, em Setembro de 2018 e, aqui, estou acompanhado pelo Artur Cristovão, professor catedrático da UTAD. Lembro-me deste momento em que o António nos pediu para tirar a fotografia junto da sua banca, mas nunca mais me lembrei disso. Para memória futura.

banha da cobra

Eu nem sou muito dado a olhar com atenção para publicidades, campanhas de marketing ou outras promoções que nos invadem os sentidos a toda a hora e em todo o lugar. Por exemplo, frequentador regular que sou do YouTube, posso dizer que não registo qualquer uma das inúmeras publicidades que se intrometem entre visualizações. Nem uma fica para mais tarde recordar... o mesmo acontece na televisão, na rádio, nas ruas, na caixa do correio, nos emails, na internet, etc. É todo um universo que me passa completamente ao lado. Aconteceu hoje, ao visitar um sítio de informação regional online, encontrar esta imagem publicitária e reparar nela.


Reparem bem no jovem: acham que é a mesma pessoa? os olhos, o formato da cabeça, o sorriso, tudo é diferente entre as duas fotografias... depois, mesmo a vender banha da cobra querem ser credíveis. Grande tanga. Eu, por enquanto, tenho muito cabelo e mesmo que não o tivesse, desconfio que nunca iria querer ter, mas ainda que assim fosse, jamais faria como o "Tiago" e simularia sequer o preço nesta empresa. Enfim.

08 novembro 2021

hoje, via CTT

06 novembro 2021

vamos LER

01 novembro 2021

leitura das últimas horas


Aproveitando as horas soalheiras que pude usufruir em Bragança, ainda mesmo antes de regressar à Invicta, li este pequeno livro de Houellebecq. Gosto da escrita deste Senhor e, também por isso, outros livros dele estão à espera para serem lidos. Hei-de lhes chegar.

28 outubro 2021

one day like this

(monte da virgem - Vila Nova de Gaia, perspectivando de sudeste a cidade Invicta)

Na tarde em que se votava o Orçamento de Estado para o ano de 2022, eu, angustiado e mais do que preocupado com tudo aquilo que nos espera, enquanto comunidade, estado e nação, preferi retirar-me para local ermo e distante, abstraindo-me até ao impossível desse momento que a todos nós importa. Passei as horas desta tarde e até ao anoitecer, com vista para a Invicta, dentro do carro, ouvindo música, rabiscando estas e outras linhas e a ler este pequeno livro, não por acaso bem apropriado ao momento e ao meu estado de espírito. "Andar a pé" reflecte a perspectiva de vida de Henry David Thoreau (1817-1862) e a sua paixão pela vida selvagem, pela solidão e pela natureza... o mais vivo é o mais selvagem (pág. 47).


Mais do que uma simples elogia ao acto de caminhar, o autor expõe uma verdadeira filosofia de vida, em que o afastamento da urbe, da civilização e da sociabilidade humana, é entendido como a melhor forma de viver em verdadeira liberdade, de forma mais intensa e com os sentidos e alma despertas. Entende que o futuro reside nos pântanos impermeáveis e instáveis e nos bosques escuros, mais densos e intermináveis.

Creio que não consigo preservar a minha saúde física e espiritual se não passar quatro horas por dia, pelo menos - e frequentemente passo mais do que isso - a deambular pelos bosques, montes e vales, absolutamente alheado de todas as obrigações mundanas. (pág. 17)

Em relação à minha angústia, prefiro deixá-la para outro dia, outros escritos e outras reflexões. Ainda assim, jamais conseguirei entender, perceber, compreender, a esquizofrenia da esquerda partidária nacional. Enfim, resta dizer que o título destas linhas é de autoria dos Elbow.

25 outubro 2021

uma colmeia sem saída


Demorei muito tempo a ler este livro. Andei com ele quase quatro meses, carregando-o para todo lado: da mesinha de cabeceira para as férias, da secretária para saídas precárias de casa ao café ou buscar a criança, das aulas para reuniões, seminários e encontros. A razão que encontro para ter demorado tanto tempo a ler as suas quase 600 páginas, é o facto de não ser um tema que me fascine, ou sequer me agrade. Não tivessem sido as repetidas e convincentes sugestões para a sua leitura e, com toda a certeza, não o tinha adquirido e lido. Em todo o caso, ainda bem que o fiz, pois resulta de uma aturada investigação da autora sobre a realidade que experimentamos na nossa contemporaneidade, leia-se, últimas duas a três décadas, que me permitiu conhecer e comprovar, com maior rigor e pormenor, muito daquilo que era apenas senso-comum.
Parafraseando Hannah Arendt, muito citada nesta obra, quando as condições são contrárias à dignidade do homem, a reacção humana natural é a ira e a indignação. Pois bem, ao ler sobre a tremenda disputa de poder que hoje se trava pela vigilância e pela informação excedentária, a minha natural ou instintiva reacção seria desligar-me de toda e qualquer conectividade digital ou cibernética, mas a razão diz-me para mitigar essa vontade e, por enquanto, manter-me vigilante, consciente dos perigos eminentes e latentes que a "rede" hegemónica implicam.
A leitura que fiz foi crítica, anotada, sublinhada, rabiscada e comentada. Seriam muitos os momentos que poderia aqui trazer para ilustrar a perspectiva da autora, mas decidi partilhar algumas passagens dos últimos capítulos, nos quais se identificam perigos e soluções para o tempo próximo que aí vem:

Os nossos filhos vão a caminho da maioridade numa colmeia que é propriedade e dirigida pelos utopistas aplicados da vigilância, ao mesmo tempo que é constantemente monitorizada e moldada por um poder instrumentarista cada vez mais forte. É essa vida que queremos para os membros mais abertos, moldáveis, entusiásticos, maleáveis, compelidos e prometedores da nossa sociedade? (Pág. 494)

A melhor maneira de descrever o monstruoso capitalismo da vigilância antidemocrático e anti-igualitário é caracterizá-lo como um golpe dirigido a partir do topo do mercado. (...) Trata-se de um coup de gens - um derrubamento das pessoas dissimulado sob a forma desse cavalo de Troia tecnológico que é o Grande Outro. (...) Este golpe torna eficazes concentrações exclusivas de saber e de poder que sustentam a sua influência privilegiada sobre a divisão da aprendizagem social, ao mesmo tempo que supõe a privatização do princípio central do ordenamento social do século XXI. (Pág. 572)

O capitalismo da vigilância opera sob uma forma declarativa e impõe as relações sociais próprias de uma autoridade absolutista pré-moderna. É uma forma de tirania que se alimenta das pessoas, mas não é das pessoas. (...) Celebrado como uma "personalização", embora profane, ignore, anule e desagregue tudo o que há de pessoal no leitor ou em mim. (Pág. 572)

A tirania do capitalismo da vigilância não requer o chicote do déspota, do mesmo modo que não requer os campos e gulags do totalitarismo. (...) O Grande Outro age na base de um conjunto sem precedentes de operações comerciais que devem modificar o comportamento humano para obter o seu sucesso comercial.(Pág. 573)

O capitalismo da vigilância é uma forma sem fronteiras que ignora as distinções anteriores entre o mercado e a sociedade, entre o mercado e o mundo, ou entre o mercado e as pessoas. É uma forma movida pelo lucro cuja produção se subordina à extracção, enquanto os capitalistas da vigilância reivindicam unilateralmente para si o controlo sobre territórios humanos, sociais e políticos que se estendem muito para lá das áreas convencionais da empresa privada ou do mercado. (Pág. 573)

O triunfo do poder instrumentarista pretende-se, evidentemente, um golpe sem derramamento de sangue. Em vez da violência contra os nossos corpos, a terceira modernidade instrumentarista recorre antes à domesticação. (...) Espera-se de nós que cedamos a nossa autoridade, que afrouxemos as nossas preocupações, calemos as nossas vozes, nos deixemos ir na corrente e nos submetamos aos visionários da tecnologia cujos poder e riqueza se afirmam como garantia da superioridade do seu juízo. Acederemos assim a um futuro com menos controlo pessoal e mais privação de poder, em que novas fontes de desigualdade nos dividirão e submeterão. (Pág. 574 e 575)

Apesar da promessa democrática da sua retórica e das suas capacidades, o capitalismo da vigilância contribuiu para uma nova Idade Dourada da desigualdade extrema, (...) entre os múltiplos ataques à democracia e às instituições democráticas montados pelo seu coup de gens, incluo:
- a expropriação não autorizada da experiência humana;
- o sequestro da divisão da aprendizagem na sociedade;
- a independência estrutural em relação às pessoas;
- a imposição dissimulada da colmeia colectiva;
- a ascensão do poder instrumentarista e a indiferença radical que sustenta a sua lógica extractiva;
- a construção, a propriedade e a manipulação dos meios de modificação do comportamento do Grande Outro;
- a degradação do indivíduo que se autodetermina como fulcro da vida democrática;
- a insistência no atordoamento psíquico como resposta aos seus quiproquós ilegítimos. (Pág. 578)

Tal como refere a autora, cabe-nos reavivar o sentimento de indignação e perda, pois uma colmeia sem saída nunca poderá ser uma casa.

19 outubro 2021

há cem anos, a Seara Nova

Não tendo assistido em directo, nos dias em que passou na RTP, ao documentário que assinalou o centenário da revista Seara Nova, aproveitei as maravilhas digitais e assisti na RTP Play aos 2 episódios desta magnífica série, realizada por Diana Andringa. Aqui fica o link para esse documento histórico: Há 100 anos, a Seara Nova

osso buco

De tempos em tempos, em grupo de casais amigos, viajamos para confraternizar à hora e mesa do jantar. O objectivo, para além do convívio, é descobrir locais diferentes e iguarias novas que possamos apreciar. Estamos sempre dispostos para fazer os quilómetros necessários e suficientes para encontrar esses prazeres.
Desta vez a viagem foi até terras de Amarante e a um lugar de nome "castanheiro redondo". Lugar a que chegámos depois de algumas hesitações e inversões de marcha. A Casa Ventura não se dá a conhecer para quem lá vai pela primeira vez. É mais uma casa no meio de tantas outras e só a detectámos pelo número de viaturas estacionadas nas redondezas. Trata-se de uma autêntica taberna de aldeia que, pelos vistos, é afamado restaurante...
Íamos preparados e dispostos para experimentar aquilo que fossem as especialidades da casa: cabrito, bacalhau, cabidela e um tal de osso buco (ou ossobuco), mas para desilusão quase geral, fomos logo informados que dessas especialidades só poderíamos saborear a cabidela e o osso buco. Uma vez que este era desconhecido de todos os presentes e uma só dose daria para todos os comensais, decidimo-nos pelo osso buco.
Bem, a espera foi longa e entretida pela animada conversa que se estabeleceu entre nós e com as mesas mais próximas. As entradas, variadas e saborosas, assim como o mais que razoável verde tinto, também ajudaram os minutos a passar. Enfim, o osso buco entra na sala com grande aparato e parafernália... trata-se, afinal, do osso do joelho dos bovinos e carne involvente - menisco(?) - muito bem cozinhada numa panela, que vem para a mesa inteiro e, à nossa frente, é fatiada (ao jeito de rodízio) para um tacho cheio de molho, depois essas fatias de carne são envolvidas nesse molho e assim é servido. Acompanha com um arroz parolo.
Enfim, foi mais uma experiência gastronómica e só por isso foi interessante, mas a verdade é que a Casa Ventura consegue transformar uma carne de 2ª ou 3ª categoria em especialidade reconhecida e apreciada. Parabéns, mas a mim não me voltam a servir.

(osso buco a ser fatiado - fotografia tirada depois de devidamente autorizada pelo fotografado)

até que enfim!


Com dezenas de anos de atraso, finalmente, hoje, serão concedidas a Aristides de Sousa Mendes honras de panteão nacional. Sem qualquer dúvida, um acto da mais elementar justiça e de reconhecimento pelo seu esforço, enquanto cônsul português, na salvação de inúmeros judeus das câmaras de gás nazis.

08 outubro 2021

05 outubro 2021

intervenção de apresentação das actas das XXIII Jornadas Culturais de Balsamão

Boa tarde,
Por muito interessante e enriquecedor que seja, e é, ano após ano, reunirmo-nos aqui em Balsamão, para partilhar saberes, conhecimento, e experiências, assim como para nos conhecermos e convivermos, a verdade é que, no fim, aquilo que nos vai sobreviver será o registo das actas que resultam de cada edição das Jornadas.
Estamos a viver a 24ª edição destas Jornadas e, se perspectivarmos este longo percurso, a memória que alcançamos está vertida nestas actas, que feliz e sabiamente, o Centro Cultural fez questão de ir publicando.
Meus amigos, bem sei que vivemos tempos em que o paradigma é a desmaterialização, a digitalização, as clouds ou nuvens e outras fantásticas tecnologias que nos prometem uma existência mais eficiente, mais produtiva, enfim, mais feliz!... mas as actas destas Jornadas, impressas, editadas e publicadas no papel de sempre, são já uma instituição, um património construído e solidificado.
Não recusando outras formas de registo, outros suportes para inscrevermos tudo e o muito que aqui acontece, sou adepto e defensor de que as Jornadas Culturais de Balsamão deverão continuar a publicar as suas actas em papel.
Isto dito, olhemos então para estas actas, acabadas de nos chegar às mãos:
- Tal como tem acontecido em Jornadas anteriores, estas actas procuram registar, de alguma forma cristalizar, tudo aquilo que aconteceu nessas jornadas;
- Durante este último ano, resultado também da alteração da equipa coordenadora destas Jornadas, o processo para a produção deste registo foi turbulento e adiado até ao impossível. Ainda assim, aqui estão;
- Reconhecendo que possa ser ilusório, tenho a impressão de que esta edição cresceu relativamente às anteriores;
- Em termos de estrutura obedecem, como convém, ao programa que construímos e realizámos. Com alguma dificuldade conseguimos reunir a totalidade dos textos das comunicações efectuadas e, de uma forma geral, ao verificar o índice, parece-me termos conseguido construir um registo fidedigno daquilo que aqui aconteceu;
- Uma nota para as normas de edição e para a estrutura dos próprios textos que pretendemos implementar daqui para a frente... nestas actas já poderão encontrar algumas dessas normas;
- Mudámos de gráfica e, genericamente, sem desfazer das edições anteriores, as melhorias são notórias;
- Para além das comunicações poderão ainda encontrar a exposição fotográfica de Paulo Patoleia e a reportagem fotográfica de José António Silva;
- Importa agora divulgar e vender para, pelo menos, tentarmos conseguir pagar a despesa da sua produção.

Muito obrigado.

(Balsamão, 1 de Outubro de 2021, pelas 19 horas)

01 outubro 2021

ao espelho


Acabou de me chegar às mãos este livro, com as actas das XXIII Jornadas Culturais de Balsamão, nas quais também participei com uma comunicação sobre o "Convento da Mofreita" e enquanto co-coordenador da edição. Com o título A Casa de Recolhimento das Oblatas do Menino Jesus da Mofreita, apresento esse convento que está abandonado desde as primeiras décadas do século XX e em ruínas, não havendo dúvida que todo este património desaparecerá em breve.

29 setembro 2021

é já nos próximos dias...

fórum ecossocialismo

Nos últimos anos assistimos a profundas mudanças a nível tecnológico e comunicacional, mudanças que não foram, nem económica nem politicamente neutras, e que se fizeram acompanhar por uma intensa circulação do capital financeiro. 
Enquanto nova fase do desenvolvimento do capitalismo, a economia neoliberal e ditadura dos mercados resultou numa exploração desenfreada da natureza e um saldo negativo para a democracia. 
Dia 9 de Outubro vamos debater o ecossocialismo enquanto proposta radical que aponta a transformação das relações de produção, do aparelho produtivo e do padrão de consumo dominante. Participa!
O Ecossocialismo 2021 pretende ser um fórum de debate e ideias, de partilha de perspectivas e reflexão sobre intervenção política e acção colectiva, tão necessárias quanto urgentes hoje.

02 setembro 2021

o regresso à luta


Hoje, no jornal Público, Nuno Pacheco regressa à sua (nossa) cruzada em defesa da Língua Portuguesa. Não esqueceremos. 

01 setembro 2021

fim de Verão


Dia primeiro do mês de Setembro, estou em Bragança e percebe-se que o Verão, este peculiar Verão, chegou ao fim. Claro que ainda poderão vir dias de Sol e com temperaturas elevadas, mas a diferença que se percebe no ambiente é indesmentível: as aldeias esvaziam-se de gente, as colheitas estarão em breve feitas, a lenha para o longo Inverno está cortada e recolhida, a passarada está e stress para abalar ao Sul e até o cheiro a Outono já se faz sentir, tímido, pelos caminhos que percorro.
Sem pressa, ou manifesta ansiedade, aguardo os tons magníficos do Outono - das cores quentes e intensas, dos cheiros a terra húmida e da decomposição da vegetação, da frescura do vento que ao soprar nos traz os odores da lenha crepitante nas lareiras. Gosto desse ambiente outonal, tranquilo e aconchegante, para mim sedutor, e ainda mais gosto de o sentir em Trás-os-Montes, em aldeias e pequenos lugares por onde tenho a sorte e o prazer de regressar.

A propósito e ainda que já o tenha aqui partilhado: o mês de Setembro é o melhor mês para se viver a cidade de Bragança, pois já não temos o boliço dos emigrantes e ainda não temos o dos estudantes. Como se está bem, agora, aqui.


(nas fotografias os céus de hoje em Trás-os-Montes)

14 agosto 2021

programa do fórum


Acontecerá no próximo dia 9 de Outubro, no Porto, e terá estes quatro painéis temáticos. Eu coordenarei o painel: "Do direito à cidade ao planeamento participado e à democracia ecossocialista". Em breve abrirá o período de calls for papers. Quem estiver interessado em participar, com ou sem comunicação, faça o favor, será muito bem vindo.

02 agosto 2021

save the date


Informação para quem possa estar interessado. Em breve partilharei o programa que está a ser elaborado. Para partilhar e, depois, aparecer. Obrigado.

01 agosto 2021

consciência de si

De todas as características da água, objectivas ou simbólicas, uma das que mais me fascina é ter sido o primeiro espelho, a primeira forma física da consciência de si. Imagino a primeira vez que um ser humano se viu a si mesmo reflectido, tendo, tal como observamos em alguns animais, desconfiado daquela imagem, não se reconhecendo, tentando tocar o rosto até perceber que era o seu e descobrindo-se no outro que é ele próprio.
Afonso Cruz, in Jornal de Letras nº 1326 - Agosto 2021.

Comentário: Ideia fascinante e que remete para os ambientes cosmogónicos da nossa capacidade cognitiva para nos objectivarmos (consciência de si).

29 julho 2021

Porto: património mundial da UNESCO


Chegou-me hoje às mãos, leia-se ao email, o programa eleitoral da candidatura do BE à União de freguesias de Cedofeita, Sto. Ildefonso, Sé, Miragaia, S. Nicolau e Vitória, conhecida como a freguesia do Centro Histórico da cidade do Porto. Da sua leitura, chamou-me à atenção a seguinte proposta:

Exigir que a Câmara Municipal trave o risco de perda da classificação do Centro Histórico da Cidade do Porto enquanto Património da UNESCO.

Já depois, reunido em salutar, convergente e descontraído encontro à beira Douro, entre outras questões debatemos esta ameaça que, qual espada de Dâmocles, se abateu sobre a cidade. O Porto está em risco de perder a sua classificação enquanto Património da UNESCO e, de repente, toda a gente, acriticamente, está preocupada e aqui del Rei que nos estão a violentar e a roubar!
Camaradas, seria sensato reflectir sobre a questão, em vez de se propor, sem mais, uma "exigência" à Câmara Municipal. O meu contributo para essa reflexão será um conjunto de dúvidas que me assaltam sobre a mais-valia desse "rótulo" globalizante e globalizador da UNESCO, que nas últimas décadas foi conquistando e reclamando para si cada vez mais locais e territórios, até se estabelecer como paradigma dominante e inquestionável, reclamado e cobiçado. O Património está na moda, transformou-se num bem consumível que, beneficiando das lógicas do capitalismo global, é promovido, é vendido e é comprado como jamais acontecera, por uma indústria do turismo que, pelo menos, até à actual pandemia cresceu exponencialmente. 
Por outro lado, e decorrente destas dúvidas essencialistas, há uma série de questões que considero importantes, pertinentes e que deveriam merecer maior atenção:
a) A que lógicas (interesses) obedece a atribuição desse selo qualitativo?
b) Houve ou há relação entre esse reconhecimento da UNESCO e as brutais alterações verificadas no centro histórico do Porto?
c) Quem é que mais beneficiou com toda a dinâmica e utilização do nosso património?
d) Se o BE critica (leiam-se os programas das nossas diferentes candidaturas) a gentrificação, defende o direito à habitação, ao espaço público e a "história" e "cultura" das populações locais, como poderemos querer, em simultâneo, defender e manter uma das causas principais dos problemas que identificamos na cidade?
e) Qual foi/é a mais-valia para as populações locais desse reconhecimento?
f) Quais foram as consequências na vida quotidiana das nossas populações provocadas directa ou indirectamente por esse reconhecimento da UNESCO e pelas apostas autárquicas para a cidade que daí advieram?
Camaradas, à falta de explicação ou justificação programática, não faz qualquer sentido o BE "exigir" a manutenção da qualificação de património mundial, é aliás, e na minha modesta opinião, um contracenso face a muitas das nossas propostas para a cidade. 
Termino com uma infeliz constatação. O facto de hoje ser uma União de Freguesias, que reune aquilo que anteriormente eram seis freguesias distintas, é também consequência da patrimonialização desse território da cidade e dos seus efeitos mais do que deterministas de especulação imobiliária, gentrificação, substituição de actividades económicas (artesanais, comerciais, hoteleiras e da restauração) e esvaziamento através da expulsão de populações locais. Esta União de freguesias é o resultado dessa escolha política na conversão do centro histórico num objecto de consumo para os diferentes turismos. Será que ainda queremos, será que interessa, ser "património da UNESCO"?

(também publicado em convergencia porto)

28 julho 2021

a quem possa interessar...

Vão-se realizar as XXIV Jornadas Culturais de Balsamão, entre 30 de Setembro e 3 de Outubro. O tema destas jornadas é: "Diálogo intercultural e religioso" e o programa está fechado e importa divulgar. Aproveito para vos convidar a participarem e a visitar o convento de Balsamão nesses dias de final de Verão. Eu vou lá estar. Partilho aqui o programa e os materiais promocionais já disponíveis...



27 julho 2021

apelidos


Chegou ontem às minhas mãos, directamente da feira do livro de Braga, este exercício sobre apelidos, que muito me interessa, pois diz também respeito às identidades, quer na sua dimensão individual, quer na colectiva. Também, e por consequência, será um exercício que remeterá para as questões da memória. Vamos ler e conhecer.

23 julho 2021

o incrédulo entre nós

Ainda a propósito das trágicas inundações na Alemanha e Bélgica da última semana, encontrei no Twitter um testemunho de uma vítima deste cataclismo natural, que incrédula afirmava:

-Não esperávamos que morressem na Alemanha pessoas vitimas de inundações. Isso acontece nos países pobres.

Esta declaração é todo um tratado sobre a perspectiva, eu diria mesmo, a crença que a esmagadora maioria dos cidadãos europeus têm sobre o seu privilégio, conforto e qualidade de vida comparativamente a outras latitudes e longitudes. Esta visão euro-cêntrica acompanha-nos há séculos e é também reveladora do alheamento face aos problemas do mundo e, em particular, dos gravíssimos problemas ambientais que também são culpa dos Estados europeus, das suas empresas e do seu modo de vida. Esta vítima, que viu o absurdo e o impensável cair-lhe do céu, considerava o seu conforto e bem-estar um direito quase divino e que o desenvolvimento económico e civilizacional seria um escudo protector e indulgente para toda e qualquer agressão ambiental. Acabou o tempo da tolerância e aqueles que mandam no mundo têm mesmo que repensar e alterar o comportamento dentro desta nossa casa que é o mundo. Os avisos têm sido frequentes e impactantes. Não há espaço, nem tempo, para hesitações, se não depois poderá ser já tarde demais.

o livro e a sede de leitura


Este foi um dos livros que adquiri durante esta pandemia, num daqueles movimentos quase instintivo e de antecipação a um cataclismo, de abastecimento do essencial - livros e café, mas que acabou por me acompanhar durante mais tempo do que seria suposto. Só por estes dias o acabei de ler e não se deveu a qualquer complexidade ou dificuldade de leitura, até porque está muito bem escrito e com uma linguagem bem acessível, mas sim porque outras leituras se foram intrometendo e relegando-o na cabeceira para noites futuras.
Irene Vallejo, ao longo das cerca de 400 páginas, fala-nos do LIVRO, desde as suas origens até às suas formas actuais, fala-nos dos diferentes momentos da sua evolução e seus intervenientes, com destaque para as civilizações grega e romana, numa espécie de angústia pela passagem do tempo (pág. 26). Leitura aconselhada para quem se interessa por estas "coisas" - bibliógrafos, curiosos ou simples leitores.

Os primeiros leitores e os primeiros escritores eram pioneiros. O mundo da oralidade resistia a desaparecer - nem sequer hoje se extinguiu totalmente - e a palavra escrita sofreu inicialmente um certo estigma. Muitos gregos preferiam que as palavras cantassem. As inovações não lhes agradavam muito, resmungavam e grunhiam quando as tinham à frente. Ao contrário de nós, os habitantes do mundo antigo achavam que o novo tinha tendência para provocar mais degeneração do que progresso. Algo dessa hesitação perdurou no tempo; todos os grandes avanço - a escrita, a imprensa, a Internet... - tiveram de enfrentar detractores apocalípticos. De certeza que alguns resmungões acusaram a roda de ser um instrumento decadente e até à sua morte preferiram transportar menires às costas. (pág. 96)

21 julho 2021

mediascape: desordenamento e delapidação

Um dos mais agudos sinais dessa cegueira perante a necessidade de preparar o país para sobreviver num eventual cenário futuro marcado pelo declínio de instituições e soluções políticas multilaterais, consiste no modo como a política de ordenamento do território e conservação da natureza se tem degradado sem, aparentemente, existir nenhuma perspectiva de retorno.
(...)
A ultrapassagem da legislação em vigor tem ao seu serviço uma indústria de avaliação de impacto ambiental que funciona como um dócil instrumento dos donos de obra. Considerar o território (terrestre e marítimo) como mera mercadoria que pode ser delapidada - ignorando o facto de que esse território será a última barreira da sobrevivência nacional no quadro do inevitável agravamento da crise ambiental e climática - é um sinal do imenso declínio da ideia de Estado e de bem público na prática e na cultura políticas do Portugal contemporâneo.
(Viriato Soromenho-Marques, in Jornal de Letras nº 1325 - Julho 2021)

acionar o impossível

Levo papeis e música para o campo aberto. Estendo sempre uma enorme toalha no chão, fico à sombra, quero ver se a terra levanta. Toda a vida me convenci de que escrever é acionar o impossível ao mundo. E paulatinamente outra vez acontece. Quando nos julgamos sem mais milagre, a própria paisagem nos explica como livros novos começam. A natureza, afinal, vai indicar o caminho para as maiores grandezas humanas. Só haverá morte quando ela própria o decidir.
(Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1325, Julho 2021)

19 julho 2021

ilhíada, ou as ilhas do Porto em poesia


Leitura de cabeceira destas últimas noites, este novo livro de Alberto Pimenta fala-nos das ilhas da cidade do Porto, não de todas mas de 24 núcleos espalhados pela cidade e que ele, o autor, conheceu e/ou conhece. Tal como reconhece no "Átrio" deste livro, as ilhas são um tema bizarro... se para ele isto é poesia, o cordão do sapato serve perfeitamente para fita do cabelo (2021:5).

As ilhas em que se habita, como são as da cidade do Porto, não são um tema bizarro (...); percebo só que a destruição das ilhas em favor de asilos e guettos, e a construção de torres, onde os moradores dos vários andares se incomodam uns com os outros com ruídos e outra música, e sujam os de baixo com restos não só de cigarros (...); e o que as ilhas ansiavam, e por isso foram feitas, convivência fechada aos pares de botas que atacam; para isso eles mesmos com tábuas e pedra as ergueram, saber feito de experiência, sem luxo nem ornatos feitos para ficarem na história! (...) Sim, conheci muitas ilhas por dentro, até por dentro das casas; doutras, mesmo com a entrada sempre aberta, sei aquele pouco que se vê de fora; o que acontece é que não há talvez olhos que vejam igual, até os nascidos e criados lá não vêem igual, e ainda bem; (...) eu nalguns casos até fiquei a saber pedaços da vida de um ou dois moradores das ilhas, no total foram duas dúzias, vinte e quatro é a forma que se usa, que duma ou doutra maneira vi ou entrevi, e andei até por lá. (in Átrio, 5-10)

...só oito
em S. Brás a que havia, e logo ao começo,
ao fim de umas dez ou doze casas, era das
que não tinham portas para a rua, e dentro
as portas eram raras; mas não era ousadia,
que ousadia? à polícia assim nem apetecia
entrar, para quê? ali não entrava ninguém,
nem mesmo clientes do sapateiro; esses,
cá de fora assobiavam, ele à porta de casa
largava as solas que estava a compor, ia a
esfregar as mãos entre as nódoas de graxa
do seu eternamente usado pano de lustro:
ia falar na rua com os que o procuravam!
não era medo de nada, era o à-vontade da rua,
e apesar de estar lá o capacho, havia quem
com chuva não quisesse entrar com lama;
não era como o padeiro, que entrava e sujava,
até que o Peidolas, filho do sapateiro, lançou
com outros o refrão como nas ilhas se fazia:
"ó freguês, ó freguês, entras, esfrega aqui os pés!"

(Pimenta, 2021:57)

14 julho 2021

mediascape: praia e mar

Hoje, ao folhear o Jornal de Notícias, dei de caras com uma notícia, talvez seja melhor dizer reportagem, sobre um programa da autarquia do Porto chamado "Desporto no Bairro", promovido pela empresa municipal Ágora, que acontece há algum tempo e este ano abrange 14 bairros sociais e centenas de crianças e jovens. Mas aquilo que me chamou à atenção e me deixou surpreso, foram os testemunhos dos instrutores das diferentes modalidades que contemplam este programa. Dizem eles que muitas crianças destes bairros nunca foram à praia, nem viram o Mar. Admirado? Sim, espantado. É que se estivéssemos a falar de uma cidade do interior do país, ainda que estranhássemos, conseguiríamos relativizar, mas tratando-se da cidade do Porto, com costa marítima e ribeirinha, aquilo que podemos fazer é indignar-nos e questionar como é possível isto ser realidade em 2021. Recordo aquilo que amigos mais velhos (jovens na década de 60 e 70) diziam sobre as suas aventuras para irem da "cidade" para a praia na Foz, esse território afastado e praticamente inacessível para quem vivia na cidade, mas entretanto essa Foz foi incorporada na cidade, os transportes públicos passaram a incluí-la nas suas linhas regulares, e as acessibilidades melhoraram. Porque raio as nossas crianças, sejam elas provenientes de onde forem, não conhecem a sua praia, o seu mar?! Isto é triste.

[também publicado em convergência porto ]

12 julho 2021

sistema de alarme

Bem no coração da cidade antiga do Porto, naquilo que seria a judiaria, encontrei esta relíquia. Trata-se de um sistema de alarme para incêndios da cidade colocado numa parede lateral da Igreja de Nossa Senhora da Vitória. Desta caixa sai um cabo que liga ao sino da igreja. Em caso de incêndio, deveriam abrir esta caixa e tocar o sino o número de vezes consoante aqui indicado. Espectacular. Resta saber se este sistema estava instalado noutras igrejas da cidade.

04 julho 2021

solastalgia

Hoje, ao ler a edição actual do jornal de Letras (nº 1324), aprendi com Viriato Soromenho-Marques este conceito de solastalgia - dor psicológica, mais ou menos profunda, causada pela perda das características que davam valor a um território que considerávamos a nossa terra natal. (...) Na solastalgia o sofrimento resulta da perda do que dava valor a um chão onde ainda se permanece, mas que perdeu a sua alma, pois foi desfigurado pela avassaladora destruição ambiental e/ou climática. (...) Com o agravamento dos impactos ambientais e a escalada da emergência climática, cada vez mais lugares e populações, em todo o mundo, entram no imenso campo das vítimas desta ferida do espírito.
Caramba, eu não me considero fundamentalista ou radical em relação à defesa do ambiente e à preservação da natureza, mas estou atento e há muito apreensivo, mas com este novo conhecimento e ao olhar à minha volta, às tantas, eu serei um solastálgico e não um nostálgico, como sempre me julguei.