24 novembro 2022

ferramentas

Descobri recentemente esta caneta e estou admirado com a qualidade de escrita dela. Tal como eu gosto, não é escrita fina e o toque de tinta no papel é suave. Por apenas 6,80 euros, para além da caneta, ainda traz seis recargas de tinta. Foi difícil de encontrar à venda, vamos lá ver o tempo que se aguenta e se vai conseguir substituir a minha velhinha Sheaffer.

18 novembro 2022

optimismo

"O melhor modo desde o princípio da História está longe de ser o melhor dos mundos possíveis, e é por isso que Popper defende que o optimismo é um dever, pois é esse mesmo optimismo que pode fazer com que faça sentido continuar a caminhar, lutar por algo melhor, porque a realidade é insuficiente. O presente é claramente insatisfatório e este mundo não nos pode contentar."
(Afonso Cruz, in jornal de Letras nº 1360, Novembro 2022)

vergonha presidencial


Não sei quando, nem em que contexto, o Presidente da República portuguesa proferiu esta declaração. Que vergonha, o mais alto magistrado de uma nação republicana e democrática relativiza a morte de escravos em países ou estados cleptocratas, ditatoriais e onde não existe um mínimo de respeito pela dignidade da vida humana. Este senhor não perde uma oportunidade para demonstrar a sua senilidade e irresponsabilidade. Eu nunca votei nele e, cada dia que passa, fico mais tranquilo por nunca ter gostado dele. Sempre o considerei um lobo disfarçado de cordeiro, ou seja, um anacrónico e salazarento, disfarçado de democrata e desempoeirado. Não tem feito mais do que dar-me razão.
Eu considero inaceitável a FIFA ter concedido ao Qatar este mundial de futebol e mais inaceitável ainda o facto das selecções aceitarem jogar lá. Vai ser um mundial de hipocrisia e de indignidade. Eu não participarei nesse espectáculo. Não haverá visualização, ou sequer interesse, em nada relacionado com o evento. SHAME ON YOU!

11 novembro 2022

10 novembro 2022

solilóquio

Talvez um dia alguém leia as horas dos meus dias. Melhor, talvez um dia ela leia os meus dias em escrita.
(repescado de um pequeno caderno, escrito em 12 de Janeiro de 2018)

o futeboleiro

Há cerca de dois meses a minha criança começou a treinar futebol no Valadares Futebol Clube - Dragon Force, na turma dos onze anos. A turma ainda é pequena, talvez sete ou oito miúdos quando aparecem todos. A lógica é treinarem e os melhores, segundo parecer dos treinadores, serão convidados a integrarem a equipa de competição do respectivo escalão. Tem dois treinos por semana (4ª e 6ª feiras, às 18:30 horas) e está a adorar. Eu, pois claro, também tenho treino e sou coagido a estar sempre atento ao que se passa no relvado. Não sei se ele chegará a ser "convidado" para a equipa de competição, nem é objectivo que ele se transforme num futeboleiro. Aqui o primeiro e último objectivo é o treino e em equipa, pois ele está demasiado tempo sozinho. De qualquer forma, e sem qualquer pretensiosismo ou soberba, o miúdo até toca bem na bola, é inteligente a jogar... "toca e foge", e tem a "sorte" de ser canhoto, o que o diferencia de todos os outros da turma. O que lhe falta, tal como no resto da sua existência, é garra e força na disputa de bolas. Esguio e magro como é, tranquilo e sem precipitações, tem pinta de defesa central. A ver vamos no que isto irá dar. Entretanto, continuarei a ir aos treinos.
(escrito na bancada cinzenta e fria do estádio do Valadares, dia 8 de Novembro de 2022)

06 novembro 2022

abastardamento

"Dói-me o que está a acontecer em Portugal à língua portuguesa: um abastardamento acelerado. Sou alérgico ao 'grande beijinho', um contrassenso, porque um beijinho é um beijo pequeno, e portanto não pode ser grande. As pessoas já não pensam, palram como as pegas e os papagaios. Depois, desapareceram as profissões. Já não há médicos, enfermeiros, bombeiros, aviões ou helicópteros, etc. Há profissionais, operacionais, especialistas e meios aéreos! A individualidade desaparece e qualquer dia passamos a ser números. O pior é que ninguém repara na absurdidade desta situação. E embora seja grande fã da língua inglesa, abomino o abuso desta em Portugal. O episódio do ALLgarve foi o nadir de todas as tolices." 
(Jorge Calado, in revista LER - Outono 2022, pág. 35-36)

a terra irmã de Portugal

Levei-o comigo de férias neste último Verão, mas não consegui sequer olhar para ele. Ficou para agora a sua leitura. A noite de ontem foi passada a conhecer a história deste território a Norte, terra de encantos e de misticismos vários.


"O espaço da antiga Galécia romana, com capital em Braga, constituiu uma unidade até ao século XII e esteve na origem do reino e da língua de Portugal. Desde então, mantiveram-se a continuidade das paisagens, a proximidade linguística, a intermitência dos diálogos culturais e a importância das relações transfronteiriças." (in contra-capa)

08 outubro 2022

03 outubro 2022

actas XXIV Jornadas Culturais de Balsamão


Estão já disponíveis as actas das XXIV Jornadas Culturais de Balsamão, se que realizaram em Setembro e outubro de 2021. A minha contribuição diz respeito a Carção e ao diálogo entre as duas comunidades, a dos Marranos e a dos Cristãos-velhos, aí existentes e ao papel da festa (novena) da Senhora das Graças, padroeira da aldeia, enquanto mediadora social e cultural.

28 setembro 2022

estou a escrever!

Gosto muito da ideia de Roland Barthes de que "escrever" é um verbo intransitivo. Não precisa da pergunta: "o quê". (...) O verbo escrever, para mim, não exige esclarecimentos. Está todo e completo nele próprio. Estou a escrever!
(Gonçalo M. Tavares, in Jornal de Letras nº 1356, Setembro 2022)

para fim de conversa

Bem perto da Santa Maria Adelaide, esplanada de afamado café, pão-quente e restaurante, com grande freguesia e elevada rotação. Vim sem pressa, obedecendo ao horário da minha criança, com intenção de aproveitar esse tempo para revisão de textos. Não o fiz porque os meus ouvidos depressa se instalaram na mesa ao lado da minha, onde duas mulheres, mãe e filha, conversavam sobre o bricabraque das suas vidas, até que ouço:
- Porque não te casas?
- Mas vou casar porquê?... e para quê?
- Ó filha! Para quê?... então, não achas que ficavas melhor, mais segura, se casasses?
- Não Mãe, nada disso. O Xxxxx não quer saber disso e eu também não... ele faz a vida dele e eu faço a minha...
- Pois é, isso não tem jeito nenhum. Onde já se viu?... cada um a fazer a sua vida...
- Mãe! Tu quiseste casar. Eu não quero. Acabou a conversa.

22 setembro 2022

ecofeminismos no gato vadio






O primeiro debate mensal da revista Ecossocialismo na livraria do Gato Vadio - Porto.

15 setembro 2022

festividades, culturas e comunidades (ebook)

Acaba de ser publicado o livro (versão ebook) "festividades, culturas e comunidades - património e sustentabilidade". Livro de actas que resulta do congresso realizado em Maio na Universidade do Minho e no qual eu participei. É de acesso universal e gratuito, portanto, aqui fica o link para a publicação.

12 setembro 2022

movimento suspenso

Enquanto espero pelo resto da família, sento-me para um café, um copo de água e, talvez, uma leitura de ocasião. Estou num café bastante concorrido e, ao olhar à minha volta, encontro à minha frente, sozinho, um indivíduo de meia idade a tomar café. Aquilo que me reteve a atenção nele foi o facto de estar com a revista LER aberta à sua frente, enquanto adoçava e mexia a sua bebida. Com os olhos sempre na revista, pegou na chávena e aproximou-a da boca, mas a determinado momento suspendeu esse movimento e ficou com o braço no ar e a chávena suspensa na mão, a meio caminho entre a mesa e a boca. Continuou a ler e o café suspenso, ainda fez uns ligeiros movimentos de aproximação, mas a leitura continuava a mantê-lo refém e toda a sua atenção no que lia. Só passados alguns minutos, talvez quando terminou um texto ou artigo, ou chegou a uma parte do texto menos interessante, e quando o café já estaria de certeza frio, é que resolveu finalizar aquele movimento inicial e, depois, lentamente pousar a chávena no respectivo pires. Fechou a revista, levantou-se e foi embora.

08 setembro 2022

peaky fucking blinders

(roubada do google)

Há vários meses referenciada e em lista de espera, aproveitei os dias, ou melhor, as noites mal dormidas de Agosto para visualizar as seis temporadas (36 episódios) de Peaky Blinders. Fiquei logo preso no primeiro episódio da primeira temporada: o ambiente, a realização, o enredo, os diálogos e, acima de tudo, a banda sonora, obrigaram-me a ficar amarrado à saga desta família (gangue) inglesa. Com uma narrativa sobre as aventuras da família Shelby e, em particular, do seu líder - Thomas Shelby, a série conta com personagens muito peculiares, das quais eu destacaria o irmão Arthur Shelby (actor Paul Anderson) - de quem roubei a expressão que dá título deste texto, a personagem do judeu Alfie Solomons (actor Tom Hardy) e a personagem de Polly Gray, interpretada pela actriz Helen McCrory (que faleceu durante as filmagens).
A conjugação entre os cenários e ambientes, a realização e a banda sonora é de uma qualidade e bom gosto, que dificilmente poderemos encontrar melhor. Para além do grande tema da série "Red Right Hand" de Nick Cave, interpretado por Patti Smith, são escolhas musicais Anna Calvi, Joy Division, Idles, Count Basie ou The Smile, Puccini e Mozart.
Segundo consta a série não terá continuação, apesar de no último episódio da sexta temporada ficar no ar essa possibilidade. Dizem, entretanto, que a série dará origem a um filme. A ver vamos.

restos de Verão

O regresso a casa, depois de uns dias de descanso em Trás-os-Montes e uma escapadela a Madrid, permite ainda alguns dias de tranquilidade, aproveitados para organização e preparação do novo ano que agora iniciará, para rever informações recolhidas durante os breves e insuficientes momentos de trabalho de campo e para ficar junto ao mar, com a praia quase deserta, sossegado e sem a confusão habitual do tempo de veraneio. Se o clima permitir é para aqui que virei nos próximos dias, até que o Verão se esvaneça e dê lugar aos bonitos dias outonais.
(Francelos, 2 de Setembro de 2022)

06 setembro 2022

05 setembro 2022

tudo o que está errado

O modelo de capitalismo que hoje domina é cada vez mais incompatível com a democracia, mesmo com a democracia de baixa intensidade em que vivemos, uma democracia centrada em democratizar as relações políticas e deixando que continuem a imperar os despotismos nas relações económicas, sociais, raciais, etnoculturais e de género. Refiro-me à prioridade dos mercados sobre os Estados na regulação económica e social; à transformação em mercadoria de tudo o que puder geral lucro, incluindo o nosso corpo e a nossa mente, as nossas emoções e sentimentos, as nossas amizades e nossos gostos; relações internacionais dominadas pelo capital financeiro e pelos super-ricos. O crescimento global das forças de extrema direita é o mais visível sintoma da crise profunda da democracia.
(Boaventura de Sousa Santos, in Jornal de Letras nº 1352, Julho e Agosto de 2022)

museu nacional do Prado

(imagem retirada da wikipedia... pois no museu não é permitido tirar fotografias)

Mal nos instalamos no hotel, bem no centro da cidade, e a Emília logo nos levou a deambular pelas ruas e avenidas que ela considera principais de Madrid. Descemos a Gran Via em direcção ao Banco de Espanha e à Fuente de Cibeles. Descansamos um pouco à sombra das árvores do Passeo del Prado e, de seguida fomos visitar este museu. Confesso que era o único local que fazia questão de visitar nesta cidade e, também por isso, optei por pagar bilhete e não esperar pelo horário gratuito.
Impressionante, a colecção do Museu com cerca de 1800 obras de vários autores, diferentes escolas e épocas, que ocupa mais de cem salas e galerias de exposição permanente. O lugar de destaque é ocupado pela obra "as meninas" (1656) de Diego Velázquez, mas a minha epifania aconteceu quando dei de frente com a obra "Cristo crucificado" (1632), do mesmo pintor. Regressei à sua sala duas ou três vezes... De entre o muito e bom que lá pude ver, foi a imagem poderosa desse quadro que trouxe comigo.
(Madrid, 27 de Agosto de 2022)

Madrid

Num esforço familiar, opcional e deliberado, nos últimos anos temos viajado para Espanha e suas diferentes regiões e cidades. O objectivo será conhecer as principais cidades do país vizinho e, neste momento, as nossas incursões já nos permitiram conhecer grande parte do território, faltando apenas(!?) o Sul de Espanha e, em particular, Sevilha e Valência. Para além da proximidade e fácil acesso, gosto de Espanha, da sua gastronomia e do uso que os espanhóis dão às horas dos seus dias. Nestes últimos dias de Agosto viajámos até Madrid, capital do Reino e uma das principais capitais europeias. Madrid é uma metrópole que atrai e comporta uma população heterogénea e multicultural, de diferentes proveniências e origens, algo que se percebe nas deambulações pela urbe. Ficámos hospedados no centro histórico, nas imediações da praça Maior, e por isso, pudemos constatar a permanente bulício da vida diurna e nocturna da cidade e a dedicação quase exclusiva das actividades ao turismo e suas variantes. Sob a orientação da Emília, que já conhecia e adora a cidade, percorremos as principais artérias e visitámos os pontos turísticos e culturais mais reconhecidos. Gostei de visitar e "conhecer" Madrid, mas não será cidade que motive nova viagem. Outros e novos destinos espanhóis nos aguardam e merecerão a nossa atenção. E a Galiza, claro, que continuará a ser destino preferido, sempre que possível, para animar a alma e o palato.
(Bragança, 29 de Agosto de 2022)

interrogação existêncial

" Vale a pena ler este trecho de Umberto Eco, do livro A Memória Vegetal:
Mas o bibliófilo também sabe que o livro terá longa vida, e percebe isso justamente ao examinar com olhos amorosos as próprias estantes. Se toda aquela informação que acumulou tivesse sido gravada, desde os tempos de Guttenberg, em suporte magnético, teria conseguido sobreviver por duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos, quinhentos e cinquenta anos? E teriam sido transmitidas, com os conteúdos das obras, as marcas de quem as tocou, consultou, anotou, maltratou e repetidas vezes sujou com impressões digitais? E poderia alguém apaixonar-se por uma disquete como se apaixona por uma página branca e dura que faz craque-craque sob os seus dedos como se acabasse de sair da prensa?
Como é belo um livro, que foi pensado para ser tomado nas mãos, na cama, num barco, onde não existem tomadas eléctricas, onde e quando qualquer bateria descarregou, e suporta sublinhados e cantos dobrados, e pode ser deixado cair no chão ou abandonado aberto no peito ou sobre os joelhos quando se adormece, cabe no bolso, estraga-se, registando assim a intensidade, a assiduidade ou a regularidade das nossas leituras, e nos recorda (se parecer intocado ou estiver intonso) que ainda não o lemos... "
(Afonso Cruz, in Jornal de Letras nº 1352, Julho e Agosto de 2022)

XXV Jornadas Culturais de Balsamão




A celebrar os 25 anos de existência e de realização ininterrupta, o programa das próximas Jornadas Culturais, subordinadas ao tema "Memória e Futuro", já é conhecido e importa divulgá-lo. Eu vou lá estar e tenho como "missão" falar (especular) sobre o futuro das jornadas culturais. A quem possa interessar...

09 agosto 2022

prevenir, prevenir, prevenir

Posso estar a esquecer-me de outras frases, alertas ou avisos, que foram mote para a prevenção rodoviária em Portugal, mas não me recordo de uma frase tão adequada e eficaz para relembrar a quem vai na estrada para os perigos da velocidade, do álcool e dos telemóveis. Espalhada e repetida pelas auto-estradas de todo o país. Simples e pragmática. Muito bem.


(...e antes que duvidem, ou questionem, quem tirou esta fotografia com um telemóvel não ia a conduzir.)

04 agosto 2022

os livros que vão de férias comigo

Ainda faltam uma dezena de dias para rumar para a Terra Fria Transmontana, mas agora que me preparo para esses dias de férias fora de casa, momento importante é sempre a escolha dos livros que vão comigo. O primeiro critério para essa escolha é a vontade de os ler e o facto de, por alguma razão, ainda não o ter conseguido fazer. Depois, leituras atrasadas ou em falta, como este ano é caso do livro "ouvir o galo cantar duas vezes" de Paula Godinho. Claro que esta vontade inicial de ler todos os eleitos dificilmente será concretizada, até porque os elementos dissuasores serão muitos e há muitas outras formas interessantes de ocupar as horas desses dias... (quero também realizar algum trabalho de campo). Assim, viajarão comigo livros para ler e livros para ter por perto. Aqui está a pequena selecção de leitura para as próximas 3/4 semanas.

01 agosto 2022

05 julho 2022

escrever fotografias

A fotografia é muito mais do que um documento; ela é uma genuína inspiração para a mente, para as ideias e, depois, para o esforço da escrita; enquanto documento pode ser seminal, mas é enquanto inspiração que alcança a sua sublimação.

04 julho 2022

01 julho 2022

bússola

Reconstituímos o passado para não nos perdermos.
Rui Nunes, in Irradiante, o negro (2022:29)

29 junho 2022

lugar do fim do mundo

Nos últimos dias tive a oportunidade de conhecer o lugar que os antigos (antes da viagem de Colombo, em 1492) consideravam o fim do mundo. Pensavam eles ser o lugar mais a oeste do mundo até então conhecido. Falo do Cabo de Finisterra, ou em galego, Fisterra.
Para além de todo o misticismo anímico deste lugar, da fé e da perseverança dos peregrinos caminhantes que consideram que só aqui termina a sua peregrinação a Santiago de Compostela, Fisterra é um pequeno e sossegado lugar, plantado à beira mar, protegido a Norte por um monte e com uma bonita enseada. Tem um pequeno porto piscatório e vive essencialmente do cluster do turismo religioso. Tem uma praça junto ao porto com um anfiteatro de restaurantes e esplanadas que servem as dezenas, centenas ou milhares de turistas/peregrinos/caminheiros que por aí passam todos, ou quase todos os dias.
Gostei de lá estar, do sossego e do ritmo mais lento e tranquilo que pude perceber na vida dos locais. Gostava de viver e pertencer a uma comunidade assim. Vou regressar com mais tempo.



26 junho 2022

a aposta

A transição para o ecossocialismo requer um planeamento democrático, orientado por dois critérios: a satisfação das necessidades reais e o respeito ao equilíbrio ecológico do planeta. São as próprias pessoas - uma vez livres da propaganda e da obsessão consumista fabricadas pelo mercado capitalista - que decidirão, democraticamente, quais são as verdadeiras necessidades. O ecossocialismo é uma aposta na racionalidade democrática das classes populares.
Michael Lowy, in Revista Ecossocialismo nº 1 - Maio a Agosto 2022, página 49.

25 junho 2022

as horas do dia

Cada vez que viajo e que visito a Galiza mais convencido fico de que, deste lado da fronteira, fazem melhor uso das horas dos seus dias do que nós, portugueses. Estes finais de tarde, apesar do clima instável, ocupando demoradamente as esplanadas, os bancos de jardim, os bares e cafés, transmitem-me civilidade e tranquilidade. Claro que muitos serão turistas e veraneantes, mas há nisto muito de ethos, talvez até de identidade galega e eu gosto muito de aqui estar.

(na rua, ocupando o tempo até ser hora de jantar)

24 junho 2022

por terras da Galiza

Aproveitando o fim-de-semana maior do que o habitual, viajámos quase directamente da festa do S. João no Porto para Santiago de Compostela. Viagem tranquila, com paragem em Valença para visitar o forte e almoçar, seguimos para Norte até à cidade dos peregrinos caminheiros. Encontrámos uma cidade quase sem trânsito e com pouco movimento de pessoas nas ruas. Sem sabermos chegamos no dia de San Xoan, também aqui celebrado e também aqui feriado. É verdade que está a chover, quer dizer, a cair uma morrinha certinha que parece que nos atinge vinda de todas as direcções. Estamos instalados num pequeno hotel no centro histórico, o carro estacionado na garagem e a pé podemos percorrer todas as ruas e ruelas pedonais deste casco urbano. De facto, percebe-se a cada instante, a cidade dedica-se ao turismo religioso globalizado e esses peregrinos invadem todos os recantos destas ruas. Para o bem e para o mal, está a chover, o que liberta alguma densidade de pedestres e nós pudemos deambular mais à vontade. Esperemos que amanhã o dia esteja melhor para podermos passear, sem chuva e sem os seus guardas.

23 junho 2022

dia de S. João, outra vez

O dia amanheceu com o céu a verter-se completamente sobre a Invicta e arredores, mas à medida que as horas foram passando o céu foi secando e clareando, deixando apenas o nublado necessário para deixar em suspenso aqueles que se preparam para festejar o santo tão popular.
Deambulei pela baixa da cidade, nomeadamente, pelas ruas entre os Aliados e as Fontaínhas e pude constatar a agitação e o burburinho que a cada passo se percebe para montar os espaços do arraial: restaurantes, cafés, esplanadas, bairros, ruelas, ilhas, casas, prédios. A azáfama generalizada por estas bandas e, com certeza, pelo resto da cidade, percebe-se no rosto das pessoas com quem me cruzo. Depois, reparo nos turistas que, por contraste, calmamente observam e absorvem toda esta parafernália e agitação, talvez, sem perceberem muito bem o que se passa ou vai passar.
Depois deste grande hiato de tempo sem poderem festejar o seu santo, a festa de hoje será memorável, ainda que o céu resolva voltar a despejar-se sobre a cidade. Viva o S. João!

21 junho 2022

meio enchido

(aos olhos do meu filho, com um português muito mal tratado e pejado de inverdades)


(excerto do teste de Português, dia 26 de Maio de 2022)

a quem possa interessar...

Mais logo, pelas 18 horas, no salão nobre da Junta de Freguesia do Bonfim, amigos e colegas vão apresentar estes dois livros. Lá estarei.

16 junho 2022

epitáfio por antecipação

O meu filho teria 7 ou 8 anos quando proferiu uma declaração, clara, acertiva e pragmática, que lhe poderá servir um dia, espero, muito mais tarde e bem depois da minha existência. Em modo sugestivo e para memória futura, registo duas variações possíveis desse momento maior e de afirmação da sua ontogenia.

Aqui jaz quem
desde tenra idade
teve por ambição
ser reformado
...como os avós!

Aqui jaz em paz
quem, desde menino,
teve por vontade
ser jubilado
...tal qual os avós!

01 junho 2022

trinta anos


Recordo bem o dia, os momentos e a conquista que significou para mim. Foi nos primeiros dias de Maio de 1992 que consegui, sim consegui, tirar a carta. Bem sei que por estes dias e neste mundo de vésperas de cataclismos que nos ameaçam extinguir, esta ambição, esta vontade, é um absoluto crime anacrónico, mas à época era mais do que um rito de passagem. Eu já conduzia desde, talvez os meus 15 ou 16 anos. A minha mãe deixava-me conduzir a velhinha R12 rua acima, rua abaixo e, por vezes, sem o conhecimento deles, dava a volta ao bairro e arredores. Um certo dia, uma colega professora do meu pai, na escola, perguntou-lhe se eu já tinha a carta, pois cruzara-se comigo algures em Valadares. Escusado será referir o espanto do meu pai...
Enfim, habilitado a conduzir há trinta anos e continua a ser um prazer entrar num automóvel e conduzi-lo. Se há prazer na vida é conduzir e aquilo que espero são mais, muitos mais, quilómetros de estrada e de caminho na vida. Como gosto de encruzilhadas que me levam a um lugar, a uma paisagem, a um recanto, desconhecidos e deslumbrantes.
A imagem de mim na carta de condução, que aqui reproduzo, tem bem mais de trinta anos. Imberbe e sonhador, o mundo seria meu. Erro e ignorância pura. Não foi. Aquilo que entretanto já vivi e, porque estou a falar de condução, já conduzi... os milhares de quilómetros percorridos. Conheci o país e um pouco mais além. E quase sempre que viajei de avião para longe, não deixei de conduzir. Aliás, onde puder ir de carro, resisto às alternativas.
Por aqui estar a registar isto, a vontade é sair e ir dar uma volta, mas o combustível está muito caro e devo refrear estes instintos prejudiciais ao bem comum.
Adeus.

17 maio 2022

no melhor pano cai a imbecilidade

Maria Luísa Ribeiro Ferreira, filósofa, escreveu um texto muito interessante no actual número (1346) do Jornal de Letras acerca da diferença entre homens e mulheres na filosofia. Para tal socorre-se dos conceitos de estupidez e de imbecilidade, que recentemente encontrou na leitura de dois livros de dois filósofos italianos contemporâneos. Na impossibilidade de o transcrever na íntegra, deixo algumas passagens que, de uma ou outra forma, representam a ideia do texto.

Onde quer que haja um estúpido há que renunciar a uma comunicação tipo clássico. E a burocracia reinante agrava e amplia o fenómeno da estupidez.
(...)
Os estúpidos fazem parte do nosso sistema e tendem a multiplicar-se, sendo a internet e as redes sociais grandemente responsáveis por esta difusão maciça. (...) A nossa inclinação para inércia bem como o incremento cada vez maior da estupidez humana.
(...)
A estupidez é cegueira, indiferença e hostilidade aos valores cognitivos, (...) todas as épocas têm os seus imbecis e estes encontram-se mesmo entre os filósofos.
(...)
A técnica não nos tornou mais estúpidos mas, pelo contrário, as potencialidades que actualmente nos oferece revelam melhor a imbecilidade humana bem como a possibilidade de transformar o mundo.
(...)
Distingue-se a imbecilidade simples e a pretensiosa, considerando que esta é perigosíssima pois os estúpidos sentem-se mais espertos do que todos os outros.
(...)
A imbecilidade é o fardo da civilização, pondo-nos directamente em contacto com o mal, pois, mais do que a ignorância, é a imbecilidade que está na sua origem.
(...)
No seu livro El Hombre y la Gente, Ortega Y Gasset fala da mulher e da sua feminilidade que se manifesta em três aspectos essenciais:
1º é mais confusa do que o homem e entende-o como uma graça, em contraste com a rigidez masculina onde clareza é rigidez. A mulher vive num perpétuo crepúsculo, nunca sabendo se quer ou se não quer...;
2º apresenta o corpo feminino como "uma forma de humanidade inferior ao varonil" e (...) há que ter coragem de falar da mulher como pertencendo ao sexo débil;
3º a diferente relação que a mulher tem com o seu corpo: em contraste com o homem, cujo eu é puramente psíquico, ela é constantemente solicitada pelas suas sensações intracorporais, sentindo o seu corpo a todas as horas.
(...)
E o livro termina com a consideração da atracção erótica que a mulher exerce sobre os homens, considerando que "desejamos a mulher porque o corpo de Ela é uma alma".
(...)
Confesso que foi para mim uma desagradável surpresa [encontrar esta ideia] num grande pensador do nosso tempo, pensador esse que foi determinante para a minha conversão à filosofia. Mas, como diz o aforismo, há que aceitar que "no melhor pano cai a nódoa".

14 maio 2022


Mais logo eu vou assistir a este concerto dos Tindersticks no Coliseu do Porto com os meus irmãos. Banda que acompanho desde o primeiro momento e que considero do melhor, eu diria mesmo sublime, som que se tem produzido nas últimas décadas. Gentileza do mano Daniel. Bonito.

05 maio 2022

Congresso Internacional Festas, Culturas e Comunidades: Património e Sustentabilidade


A decorrer na Universidade do Minho, entre 4 e 6 de Maio, participo com uma comunicação intitulada: "A Senhora entre perros e cabrões", na qual apresento a santa e padroeira de Carção como mediadora social e cultural entre as duas comunidades existentes na aldeia. Tema não tratado no trabalho que então realizei e publiquei, mas que acabou por ser a característica mais marcante do meu trabalho de campo e à qual tenciono regressar com maior cuidado e melhor atenção. Umlocuspeculiar e riquíssimo.

02 maio 2022

à terceira foi de vez

No passado Sábado, dia 30 de Abril de 2022, fui com a minha criança ao estádio do Dragão assistir ao jogo do FCP com o Vizela. Esta foi a terceira vez que o levei ao Dragão e estava algo apreensivo porque as duas primeiras experiências não foram nada agradáveis. Na primeira vez, num jogo contra o Sporting, saí ao intervalo, pois ele desde o início perguntava se ainda faltava muito para terminar e esteve o tempo todo com as mãos nos ouvidos por causa do ruído das claques (o FCP ao intervalo já perdia por 0-2). Na segunda vez, talvez na época 2018/19, levei-o a ver o jogo contra o B SAD e, apesar de ter aguentado o jogo todo, ainda o senti muito intimidado e desconfortável. Desta vez sim, o Rodrigo participou activamente durante todo o jogo: cantou, gritou pelos nomes dos jogadores, obedeceu às coreografias e cânticos do speaker, festejou os golos, reclamou com o árbitro e quis estar até ao último momento nas bancadas, para assistir à roda dos jogadores do Porto e a volta de agradecimento.
Mais do que interessado no jogo, eu estive a apreciá-lo e fui-lhe tirando fotografias. Foi um final de tarde divertido para ele. Penso que neste momento já não haverá mais hesitações. Tenho um filho tripeiro e portista. Fico feliz por isso.

01 maio 2022

vamos LER

26 abril 2022

sabores até ao impossível

Desafiado pelos alunos que, numa conversa recente sobre a crescente hegemonia do consumismo no mundo das nossas sociedades, grandemente motivado pelo capitalismo e seu liberalismo e, acima de tudo, sua globalização, resistiram à percepção do exemplo que dei: a panóplia de sabores dos iogurtes que podemos encontrar nas grandes superfícies será paradigmática destas lógicas ad nauseam e exponencial até ao impossível, eu diria, até ao ridículo. Por degenerescência das minhas faculdades mnemónicas, não consegui então apresentar exemplos, mas hoje bem cedo, porque voltaria a estar com eles em aula, fui fazer trabalho de campo em três diferentes hipermercados. O resultado que levei para a sala de aulas:





(entretanto, e tal como partilhei com os alunos, fiquei com a sensação de que há algum tempo, talvez cerca de uma década, a oferta era ainda mais excêntrica...)

22 abril 2022

"seguro morreu de velho"

Hoje foi o dia da libertação! Deixa de ser obrigatório o uso de máscaras em espaços fechados, com a excepção de farmácias, transportes públicos, lares de idosos, hospitais e centros de saúde (?). Fico satisfeito com este facto, pois ele significa que os indicadores da pandemia são favoráveis e tendem a decrescer. Esta decisão é particularmente importante para as comunidades escolares e, em especial, para os alunos que têm vivido amordaçados e limitados no seu espaço de liberdade que é a Escola. Ainda assim, não sou um entusiasta e estou receoso deste momento de libertação, pois tal como em tantas outras situações, a adesão irreflectida e o entusiasmo generalizado poderão trazer dissabores e efeitos preversos, se não no imediato porque caminhamos para o Verão e bom tempo, mas quando o frio e a humidade regressarem no Outono.
Eu hoje saí à rua logo de manhã. Entrei em cafés e permaneci de máscara na cara. Depois, de tarde, fui para a Universidade e dei aulas de máscara na cara, apesar de ter recebido prévia indicação da Direcção da Escola da não obrigatoriedade do seu uso a partir de hoje. Entre os alunos, já informados e conhecedores desta decisão, a postura dividiu-se entre aqueles que mantiveram sempre a máscara na cara e aqueles que já entraram na sala sem ela.
O facto de ter deixado de ser obrigatória, não significa que passou a ser proibida e, assim sendo, desconfio que vou continuar a utilizá-la em espaços públicos, sejam ao ar livre, sejam em espaços fechados. Até quando não sei, mas por enquanto sinto-me confortável com esta opção. De resto, convém relembrar que a pandemia não terminou, continuamos a ser infectados e a morrer de Covid-19.

06 abril 2022

a quem interessar...

22 março 2022

21 março 2022

o filho de um cão

Que impotência perante tão vil crueldade, tão insuportável prepotência, tão assassina coisa de um psicopata na frente de um regime de psicopatas.
Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1342 - Março 2022.

05 março 2022

um manifesto em palco

Depois de quase três anos regressei ontem ao teatro. Fui assistir ao "monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa", com texto e interpretação de Sara Barros Leitão. Gostei do texto - um autêntico manifesto político e sindical, diacrónico e de denuncia, e gostei da entrega da Sara ao incorporar e sentir as dores das "criadas", agora "empregadas domésticas". Fica o prospecto com o texto de apresentação:


01 março 2022

receosos e desajeitados

Depois de mais de dois anos sem nos darmos a qualquer manifestação social de afecto, de termos quase extinguido os cumprimentos que implicam o contacto físico, regressamos agora, tímidos e desajeitados, a esses rituais. As mãos vão-se abrindo e esticando para envolver outras mãos, os corpos vão-se envolvendo em abraços e, assim, regressamos àquilo que sempre gostámos e soubemos fazer. Ontem, ao despedir-me de um velho amigo, quando lhe estiquei a mão fechada, ele veio para mim de mão aberta, mas logo me puxou para ele e disse: - dá cá um abracinho. Eu dei e soube-me muito bem.

25 fevereiro 2022

enquanto esperava

Hoje, à hora de almoço, enquanto esperava pelo meu filho à porta da escola, ouvia a conversa de um pequeno grupo de miúdos, que não teriam mais de 12 ou 13 anos, sobre a guerra na Ucrânia. Ainda que num tom jocoso e brincalhão, demonstrativo da distância que os separa do palco da guerra e da mais que aparente sensação de segurança, o diálogo era animado e participado, percebendo-se a preocupação e a assertividade de alguns dos comentários e afirmações. Fiquei ali preso a ouvi-los, agradado por perceber a preocupação e consciência da gravidade da situação, até que eles substituíram o debate por uma qualquer brincadeira mais ou menos parva.

21 fevereiro 2022

coitados dos turistas

(na capa do Jornal de Notícias de 20/02/2022)

Foi notícia no Jornal de Notícias deste Domingo (20/02/2022), com chamada na capa da edição - Drama dos sem-abrigo choca turistas (pp. 18 e 19). De facto, a situação é muito preocupante, é dramática e é triste, mas não é uma situação nova, pois quem deambule pela baixa da cidade do Porto, já há muito tempo que convive com esses inquilinos do espaço público que, durante todo o ano, ocupam recantos dos edifícios públicos e privados e se fazem notar não só pela sua presença, como pela parafernália que arrastam consigo ou deixam como reserva do espaço que habitam. A crer na notícia agora publicada serão cerca de 500 pessoas nesta condição. 500 pessoas!
A notícia, para além do mais que necessário alarme para a dramática situação, está, no meu entendimento, toda ela escrita sob um prisma errado, enfatizando a perspectiva de todos os implicados - comerciantes, turistas, ONG's e autarquia - menos a daqueles que sofrem nas suas vidas essa condição de sem-abrigo, ainda que sejam referidos dois ou três destes casos.
Claro que o impacto desta situação prejudica não só a imagem da cidade, como algumas das actividades económicas que aí se desenvolvem, mas não é apresentada qualquer solução para este problema, que é muito mais do que uma situação de saúde pública, é uma questão de civilidade e dignidade da própria comunidade. Sinceramente, afirmá-lo como um problema para o turismo e para os turistas que nos visitam?! Que raio. Por outro lado, este texto também não consegue ultrapassar a visão de uma sociedade caritativa, que depende da boa vontade e voluntarismo de um conjunto de cidadãos e de algumas organizações não-governamentais, como sendo essa a solução para o problema. Não é. A responsabilidade para resolver, ou pelo menos, minorar este cenário é do Estado e das suas instituições, nomeadamente da Segurança Social e, depois, das autarquias que têm, pelo conhecimento do terreno e proximidade com estas populações, a obrigação de criar as condições mínimas e capazes de retirar esta gente da rua e da indigência.
Bem sei que não é fácil e é complexo, que cada um deste indivíduos tem as suas idiossincrasias (doenças, traumas, violências e dependências) naquilo que é a sua história de vida e, portanto, o esforço terá que ser assíduo, persistente e duradouro. Não é admissível que a autarquia do Porto, na pessoa da Vereadora da Acção Social, Cristina Pimentel, ao ser questionada pelo J.N., responda: ao contrário da percepção que existe em quem circula pelas ruas, a população sem-abrigo não aumentou. Senhora vereadora, essa afirmação soa a satisfação por o número não ter aumentado, como se cerca de 500 pessoas a dormir nas ruas da cidade não fosse já uma enormidade, uma tragédia. Mais, está equivocada, porque para quem gere ou administra a coisa pública e a polis, a percepção, ou melhor, as percepções daqueles que vivem e fazem ser a cidade são importantes e a razão da existência do seu lugar na administração pública local.
Mas é também, uma peça jornalística que reforça uma visão da cidade que se impôs nas últimas décadas, na qual o espaço e os lugares só existem, só fazem sentido, se estiverem ao serviço da especulação imobiliária (gentrificação), ao dispor dos fluxos e preferências/modas sazonais e consumos do turismo (turistificação) e a vida dos habitantes é preterida para a insignificância ou expulsa para a periferia (reificação). Era este o Porto de Rui Rio e é este o Porto de Rui Moreira. É tempo de alterar o paradigma, de dignificar a vida destes (e de todos os) cidadãos e de redireccionar a cidade para servir quem nela vive, trabalha, ou tenta sobreviver.
Enfim, não me interessa, não quero saber do incómodo dos turistas que nos visitam, quero é solução para cada uma destas quinhentas vidas que, voluntária ou involuntariamente, permanecem num estado de indignidade humana.

a quem interessar...


Eu gostava muito de lá estar. Não vai ser fácil, mas ainda vou tentar ir.

17 fevereiro 2022

práticas culturais


Tive conhecimento deste estudo através da comunicação social e logo tratei de o procurar. Encontrei-o no sítio da Fundação Gulbenkian e disponível para download gratuito (aqui). Muito interessante e pertinente, principalmente no contexto actual de pandemia ou pós-pandemia. Vou ler com atenção, pois parece-me que faz um retrato pormenorizado daquilo que temos sido e daquilo que temos feito com o nosso tempo disponível. Para uma leitura sucinta ou apressada bastará ler a "síntese dos resultados" (páginas 6 a 10).

Na apresentação do estudo, pode-se ler:

Este inquérito oferece um retrato inédito da diversidade das práticas culturais em Portugal.
Encomendado pela Fundação Gulbenkian ao Instituto de Ciências Sociais (ICS), o estudo fornece às instituições culturais uma grelha de leitura sobre os seus públicos, atuais e futuros, e quer contribuir para a produção de políticas públicas inovadoras. O estudo foi coordenado por José Machado Pais, Miguel Lobo Antunes e Pedro Magalhães.
O inquérito reúne informação socialmente relevante e estatisticamente representativa da população residente em Portugal, regiões autónomas incluídas, com 15 ou mais anos de idade. A amostra tem uma dimensão de 2000 inquiridos e o trabalho de campo foi realizado entre os dias 12 de setembro e 28 de dezembro de 2020. A informação foi recolhida através de entrevista direta e pessoal na residência dos inquiridos, em sistema CAPI (Computer Assisted Personal Interview).
Os domínios pesquisados abrangem consumos culturais através da Internet, da televisão e da rádio; práticas de leitura em formato impresso e digital; frequência de bibliotecas, museus, monumentos históricos, sítios arqueológicos e galerias de arte; idas ao cinema, concertos e espetáculos ao vivo, incluindo festivais e festas locais; participação artística e capitais culturais.
Disponibilizam-se também indicadores de participação cultural mais interventiva ou comprometida, como o exercício de práticas artísticas amadoras, a partilha de conteúdos culturais de autoria própria, a interação online em temas relacionados com a cultura, a participação em blogues, o voluntariado e a participação em associações culturais.
Propõe-se ainda uma importante bateria de indicadores sobre as motivações e os obstáculos que mobilizam ou não os portugueses para o exercício de práticas culturais nucleares, indicadores que permitirão ajustar estratégias de captação e fidelização dos públicos da cultura.

10 fevereiro 2022

é cego

Oito e trinta da manhã, avenida da república em Vila Nova de Gaia, entro num estabelecimento comercial para registar o Euromilhões. Ao sair, dou passagem a uma funcionária que carregava um balde e respectiva esfregona. Sem se aperceber que eu vou atrás dela, larga a porta de vidro. Quando se apercebe:
- Ai desculpe, não reparei que estava atrás de mim.
- Não faz mal. Obrigado. Digo-lhe eu.
- Sabe, é que o de trás não vê!
Ok, pensei eu, enquanto fazia um esforço por afastar do pensamento o referido cego da senhora.

diz-se por aí


É este o resultado de andarmos a brincar às privatizações de sectores estruturais e estratégicos do nosso país. A gestão privada é que é boa, muito melhor do que a pública, diz-se por aí e sem pudor. Como pode a água, que é um bem essencial e um direito fundamental que cada cidadão tem, ser privatizada e a sua gestão ser objecto de especulação, cujo único propósito é a obtenção de lucro?! Como pode haver gente - e aqui falo de presidentes de Câmaras Municipais e demais organismos municipais, partidos políticos e agentes sociais - que decida que a água deve ser explorada por uma empresa privada, cuja finalidade é a obtenção de lucro? Esse executivo camarário que assinou, em 2004, o contrato de concessão deveria ser criminalmente responsabilizado. Foi um crime! É um crime! Não podemos aceitar esta lógica liberalizadora na nossa sociedade, pois se assim for, quando dermos conta estaremos a pagar o ar que respiramos.

08 fevereiro 2022

sem ilusão, apenas desilusão

Passam os dias e eu cada vez sinto mais a falta dos óculos, para ouvir e perceber o mundo que me rodeia. E não é ilusão, é desilusão de óptica.

06 fevereiro 2022

não fazia ideia

A versão fotogénica de Susan Sontag estaria sempre em desacordo com a Miss Bibliotecária. Nunca, talvez, uma grande beldade se esforçou tão pouco para ser bonita. Ao deparar-se com a mulher glamorosa nas fotografias, expressou frequentemente, o seu espanto. No final da vida, vendo um retrato de si mais jovem, suspirou: "Eu era tão bonita!" disse. "E não fazia ideia".
(Benjamim Moser, in revista LER nº 161 - Inverno 2021)

(imagem retirada de https://vogue.globo.com)

04 fevereiro 2022

maioria absoluta

Não foi preciso esperar muitos dias depois das eleições e delas ter resultado uma maioria absoluta, para o PS começar a governar o Estado a seu bel-prazer, sem se preocupar com o que seja, sem olhar para o lado e sem, reparem bem no preciosismo, se preocupar com aquilo que estava anteriormente negociado com o PC e o BE.


De acordo com o jornal Expresso as linhas gerais mantêm-se, mas com alguns retoques como a criação de dois novos escalões no IRS, com um pequeno desagravamento do imposto ou aumento mínimo de 10 euros nas pensões. Mas o que chama à atenção são sobretudo as ausências, exemplo disso é o englobamento das mais-valias mobiliárias no IRS. Aplicava-se aos portugueses que fazem parte do último escalão de IRS, ou seja, com um rendimento coletável acima dos 75 mil euros e que nos últimos 12 meses tenham obtido rendimentos com bens móveis, tais como ações ou obrigações. O partido socialista justifica-se e diz que a aplicação da proposta depois da aprovação do novo orçamento ia criar problemas legais, dado que seria obrigatório cobrar o imposto com retroativos a janeiro. A medida foi exigida pelos parceiros da antiga geringonça, especialmente o PCP, mas nunca reuniu consenso entre os socialistas.
(in https://expresso.pt/expresso)


Aqui está um caso paradigmático daquilo que será a governação do todo-poderoso António Costa, perante a total incapacidade dos demais partidos beliscarem a sua vontade. Sim senhor. Maiorias absolutas é para isto que servem e foram, são e serão sempre, mais prejudiciais às democracias do que aquilo o próprio Primeiro Ministro diz querer normalizar. Não me restam dúvidas de que este governo vai-se deslocar para a direita e, sem os partidos da sua esquerda a pressionar, obedecerá à agenda dos interesses corporativos e patronais, em detrimento da agenda de maior justiça social e laboral. Cá estaremos para ir registando e denunciando as clivagens à direita e ao neo-liberalismo que se vão operar nos próximos tempos.

31 janeiro 2022

idiotas úteis *

Na ressaca das eleições legislativas de ontem, nas quais o PS conseguiu uma clara e inequívoca maioria absoluta, importa-me reflectir sobre o resultado da minha família partidária. Apesar desta maioria do PS ter provocado uma tempestade de maus resultados em todo o espectro partidário, o maior derrotado foi, não tenho dúvidas, o Bloco de Esquerda.
E aquilo que mais me incomoda a amígdala é a sensação de que os seus dirigentes estão em negação e não percebem aquilo que, por culpa própria, lhes aconteceu. Na minha modesta e humilde opinião, o resultado desastroso de ontem, em que passámos de um grupo parlamentar de 19 para um grupo parlamentar de 5 deputados; mais, em que só elegemos em Lisboa (2), no Porto (2) e em Setúbal (1), teve origem na péssima decisão de terem votado contra o Orçamento de Estado e, em consequência, provocado estas eleições. Ainda hoje não consigo entender o leitmotiv dessa decisão... é que:
a) O Bloco tinha um grupo parlamentar de 19 deputados;
b) Na Assembleia da República existia uma confortável maioria de esquerda;
c) O PS, sem maioria, estava obrigado a negociar com os demais partidos, ou seja, o Bloco de Esquerda podia influenciar a governação do país;
Pelos vistos, para os dirigentes e inteligências do Bloco essa realidade não satisfazia, não era suficiente, e servindo-se de um argumento contra-producente - que o PS não estava interessado em negociar e queria ir para eleições - chumbou o orçamento, comportando-se precisamente como o PS e António Costa pretendiam. Se sabiam que essa era a vontade de António Costa, o BE só podia ter contrariado, abstendo-se na votação do orçamento, obrigando o PS a governar e a continuar a negociar cada política, cada lei, cada medida ou acção e, assim, o ónus da crise política não caía em cima do Bloco.
Só que não, convencidos não sei do quê, completos idiotas úteis, fizemos o trabalho sujo ao PS e arcámos com a responsabilidade da crise política (em parceria com o Partido Comunista), para então António Costa, com mestria, construir a narrativa que mais lhe interessava - a da vitimização às mãos dos partidos à sua esquerda. Parabéns, pois conseguiu todos os seus objectivos: derrotar o PSD, ter uma maioria absoluta e, sem dó e piedade, humilhar o Bloco e a CDU.
Aquilo que hoje gostaria de perguntar aos dirigentes do Bloco - cuja existência reside algures no etéreo universo do parlamento e desligado das suas estruturas e bases, assim como alheada cada vez mais da realidade da vida de rua, dos trabalhadores e dos portugueses - era: Se o anterior orçamento não servia aos portugueses e por isso foi chumbado, o próximo, construído e suportado por uma maioria parlamentar do PS, é que merecerá o apoio do Bloco? Brincaram com o fogo, queimaram-se e as cicatrizes demorarão pelo menos 4 anos a sarar.
Mais, o grupo parlamentar do BE precisa ser renovado, pois independentemente da qualidade daqueles que lá estiveram e dos poucos que se mantêm, já lá estão à tempo a mais. Quantas legislaturas já fez cada um dos eleitos pelo BE? José Soeiro, Catarina Martins, Pedro Filipe Soares, Mariana e Joana Mortágua? Não será já o tempo de termos caras novas, com ideias novas e que tragam um rejuvenescimento ao grupo parlamentar? Por último, a coordenação do Bloco também precisa de um rosto novo. A Catarina Martins, que tanto fez pelo partido, pela democracia e pelo país, também está na coordenação há muito tempo. O seu discurso já não entusiasma, não é capaz de seduzir gente de fora do movimento, o que se tem traduzido em sucessivas derrotas eleitorais.
Idiotas úteis e ainda por cima esquizofrénicos e em negação. Mau demais.

* Esta expressão ouvia ontem, no decorrer da noite eleitoral, da boca de um dos comentadores que assim adjectivou os partidos à esquerda do PS (Bloco e PC).

29 janeiro 2022

procrastinar

Neste nacional dia de reflexão, a principal ideia que me ocorre e me interessa registar, até porque não é algo que seja entendido como uma virtude, mas que nada me custa a reconhecer, é que sou um excelente procrastinador. Se não me impõem um prazo, uma data limite, o que melhor faço é proletariado a tarefa para uma hora e um dia que hão-de vir.

28 janeiro 2022

ainda assim espero estar enganado

Termina hoje a campanha eleitoral para as eleições legislativas que irão acontecer no Domingo, dia 30 de Janeiro de 2022. Durante este longo período desde o chumbo do orçamento e o "derrube" do governo, procurei estar atento, ainda que à distância, mas sempre preocupado e receoso do resultado da eleição. É que apesar de não gostar do governo PS e até aceitar que foi António Costa quem não quis negociar e chegar a acordo com os partidos à sua esquerda e, assim, preferir ir para eleições, não aceito que digam que os governos do PS são iguais ou parecidos aos governos da direita. A ideia vastamente difundida, em jeito de justificação para as opções escolhidas, nos partidos de esquerda de que o PS não é de esquerda, não é verdadeira. Caramba, é preciso não ter memória e não ter qualquer sensibilidade pelo sofrimento de tantos e tantos portugueses para se afirmar que PS é igual a PSD.
Continuo a não perceber porque é que o BE votou contra o orçamento e, assim, derrubou o governo. Tanto mais que se é verdade que foi o primeiro-ministro quem não quis governar naquelas condições, mais uma razão para o contrariar e ter aprovado (por abstenção) o referido orçamento.
Não participei em nenhuma actividade ou acção do meu partido. Não gosto do que ouço, do que leio e da atitude dos dirigentes do BE, cujas ideias e mensagens, transmitidas ao longo destes dias, têm sido contraditórias, difusas e confusas para o comum dos mortais... não gosto da atitude de agressão aos demais partidos da esquerda e centro esquerda, em detrimento do ataque os partidos da direita, esses sim, verdadeiros adversários políticos.
O meu voto está mais do que garantido e não tenho dúvidas, mas continuo a considerar que à esquerda do PS vive-se uma tremenda esquizofrenia. Sei o que quero: quero uma maioria de esquerda no parlamento que aí vem, com representação de todos os partidos que se candidatam e sei o que não quero: não quero um governo de direita. A realidade é que não tenho a certeza que o PS vença e forme governo e isso deixa-me triste e muito preocupado com os dias que hão-de vir. Ainda assim, espero estar enganado.

24 janeiro 2022

15 anos

Assinalam-se hoje 15 anos desde a criação desta minha tábua de escrever. Bem sei que neste último ano tenho estado ausente e pouco participativo, mas sempre foi assim: umas vezes mais presente e assíduo, outras menos. Depende da disponibilidade e, acima de tudo, da vontade. Apesar de tudo, não estou cansado ou saturado deste espaço e continua a fascinar-me a total liberdade que ele representa. Também sei que mais dia, menos dia, voltarei com outra intensidade. Sigamos caminho.

15 janeiro 2022

ao espelho

10 janeiro 2022

09 janeiro 2022

primeira vez

Até me fica mal, depois de todos estes anos, afirmar, e com moderado entusiasmo, que finalmente e pela primeira vez publiquei um artigo na revista Brigantia - revista de cultura. Depois de duas ou três tentativas goradas, lá consegui fazer sair um texto meu no volume XXXVIII - XXXIX, correspondente aos anos de 2020 e 2021. Trata-se de um pequeno texto sobre as nomeadas colectivas em Trás-os-Montes e, em concreto, sobre os espaços, lugares e tempos de nomeação, assim como sobre os tipos sociais que promoviam e promovem a ligação e a tradução cultural na região (páginas 219 a 228). Irei procurar manter esta colaboração nos próximos números da revista (livro). Esta capa irá ficar exposta no separador Enxertias deste blogue.

05 janeiro 2022

recomeço

Depois de dois dias acabrunhado, com o corpo dorido e com as vias respiratórias obstruídas, enrolado em mantas, chás e comprimidos, sem qualquer vontade a não ser dormir, cá estou eu para (re)começar. Hoje vou sair de casa e enfrentar o ano novo.

02 janeiro 2022

trabalho de campo

Durante quase dois anos de pandemia e dos seus confinamentos, cuidados e afastamentos, as minhas viagens para Trás-os-Montes ficaram reduzidas às visitas inevitáveis à família. Para estas quase três semanas que vim passar na região, tinha planeado aproveitar para realizar algum trabalho de campo, relacionado com alguns dos textos (artigos) que estou a escrever e com investigações em curso, e por isso vim carregado com toda a parafernália tecnológica (som, vídeo e fotografia) e analógica (bibliografia, papel e canetas). Contudo, uma vez mais o bicho, agora chamado Omicron, impede-me de sair para o(s) terreno(s), visitar lugares e contactar pessoas. Aqui estou eu, abrigado e em segurança, mas chateado porque sei tão cedo não regressarei a Trás-os-Montes. Vamos ver se durante os próximos dias conseguirei pôr os pés na rua e deambular pelas bonitas estradas que me levarão às aldeias que quero visitar.

01 janeiro 2022

dia introspectivo, sempre

Podemos ser mais ou menos propensos a balanços sobre a nossa vida, ou a programar ou projectar vontades e desejos para cada novo ano, mas creio que a maioria das pessoas não consegue afastar-se ou abstrair-se deste determinismo temporal que é a passagem de ano e o eterno retorno de uma nova contagem anual, com tudo aquilo que foi vivido até então e aquilo que queremos ou gostaríamos de experimentar ou realizar no novo ano que começa.
Para mim, este primeiro dia é sempre um não-dia, ou seja, um dia em que não há nada a fazer, em que o cérebro está apenas em modo de vigia e não lhe é exigido nenhum esforço. Não é preguiça, é mesmo um estado de letargia, um torpor que me invade (às tantas a quase toda a gente...) em cada primeiro dia de ano e já vão quase cinquenta primeiros dias e não me recordo de outra condição. Contudo, neste dia primeiro a introspecção ocupa-me o cérebro e os sentidos. É dia de pensamentos holísticos - do todo da minha existência pretérita, presente e futura, e de julgamentos ad hoc sobre essa mesma existência.
Sem grandes planos ou desejos para 2022, eu quero é viver (tal como cantava o Variações); depois, o que vier, virá e cá estarei para o experimentar.
Siga.

pellets

Não sendo propriamente uma tecnologia nova, ou sequer uma novidade, estou admirado com a eficiência das caldeiras/salamandras que são alimentadas por pellets - um granulado prensado composto por resto de folhas, serradura e lascas de madeira, ou seja, um biocombustível renovável.
Sem certeza, mas a percepção que tenho é que esta é uma fonte de energia muito interessante na relação entre o preço (saco de 15 kg = 4 euros) e o calor produzido. O único pormenor menos agradável é o ruído que a máquina faz ao trabalhar.
A casa onde estamos a passar estes dias de Natal e Ano Novo foi recentemente equipada com um destes aparelhos e, pela primeira vez em mais de 30 anos que aqui vimos, o frio transmontano não se faz sentir dentro de casa. É verdade que não tem estado o frio que habitualmente se faz sentir, mas aqui dentro podemos andar de calções e T-Shirt.