A leitura de um pequeno texto de Humberto Martins, numa colectânea de textos intitulada "Exercícios de antropologia narrativa" (2022), remeteu-me para o universo rural ao qual eu me sinto pertencer. De facto, a sua "Lucinda" é uma personagem que eu reconheço em tantas e tantas mulheres que eu trago na memória e com as quais vivi, convivi ou apenas conheci. Por outro lado, este texto, aliás, todo o livro, reforça a minha percepção da importância da escrita etnográfica "livre" sobre os terrenos e indivíduos que vamos encontrando. Sempre gostei dessa escrita e considero-a muito rica e até seminal para as leituras antropológicas. O texto "Lucinda" é um bonito texto que me inspirou.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
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15 novembro 2023
25 janeiro 2023
no terreno
Em Deilão, terras da Lombada do concelho de Bragança, em casa da família Morais. Pela manhã do dia 21 de Janeiro de 2023.
11 dezembro 2022
regresso ao terreno
Hoje foi um dia bom. Depois de largos meses sem ir para o terreno, realizar trabalho de campo, hoje regressei e logo indo a lugar bonito da raia transmontana. Varge, pequena e bonita aldeia, perto de Rio de Onor, ao encontro de um antigo guarda-fiscal que privou, na década de 50, com o Padre Alípio de Freitas, cuja vida, espero, será objecto de investigação nos próximos meses/anos.
Como gosto desta vida de terrenos, diversificados e heterogéneos. É sempre um prazer regressar.
05 maio 2022
Congresso Internacional Festas, Culturas e Comunidades: Património e Sustentabilidade
A decorrer na Universidade do Minho, entre 4 e 6 de Maio, participo com uma comunicação intitulada: "A Senhora entre perros e cabrões", na qual apresento a santa e padroeira de Carção como mediadora social e cultural entre as duas comunidades existentes na aldeia. Tema não tratado no trabalho que então realizei e publiquei, mas que acabou por ser a característica mais marcante do meu trabalho de campo e à qual tenciono regressar com maior cuidado e melhor atenção. Umlocuspeculiar e riquíssimo.
Etiquetas:
antropologia,
etnografia,
trabalho de campo
13 agosto 2011
o regresso
Inicialmente previsto para o dia 8, 2ª feira, o regresso ao Porto foi antecipado para o dia anterior pois, tendo em conta aquilo que conseguimos fazer e visitar, para além do cansaço, os objectivos deste empreendimento estavam plenamente alcançados. Depois de um farto e "americanizado" breakfeast que incluiu alheira de Vinhais, presunto, chamuças do hipermercado e pão de trigo, saímos de Vila Boa. O percurso estava traçado: Pedra Bolideira, Castelo de Monforte, e cidade de Chaves, almoço em Vila Real com director da faculdade de história e Política e, depois de almoço, Lamego, Tarouca, Ponte de Ucanha, e casa de José Leite Vasconcelos (grande, grande...), mosteiro de Salzelas e, depois, regresso ao Porto através da Régua, Mesão Frio e Amarante. Conseguimos visitar todos os lugares que pretendíamos. Chegamos ao Porto já bem perto das vinte horas. Depois de uma semana a empanturrarmo-nos com a excelência das carnes e fumeiros transmontanos, foi com elevado prazer que nos sentámos à beira-mar a saborear uma sopa de peixe e um arroz de marisco. Fim de trabalho de campo. Agora, reunir documentação e bibliografia para começar a escrever. Projecto em construção... Afinal, prevê-se um projecto de longa duração que poderá mesmo alcançar as duas décadas de investigação. Veremos. Por fim, dizer que foi um prazer conhecer (melhor) e trabalhar com o grande, enorme antropólogo Shawn Parkhust.
(Valadares, 7 de Agosto de 2011)
12 agosto 2011
o couto de ervedosa
Foi à hora de almoço, num restaurante em Vinhais, que se falou das minas da Ervedosa como um lugar muito interessante para visitar. A conversa tida com o nosso informador casual versava a guerra civil espanhola e como Vinhais foi um porto de abrigo para muitos "vermelhos" (comunistas) e ponto de passagem para muitos fascistas que fugiam para a América do Sul. Pelos vistos, ainda hoje são muitos os episódios e as histórias desse período que sobreviveram na memória das gentes deste concelho raiano. Durante o almoço foi com muita atenção e avidez que ouvimos contar como Vinhais e alguns dos seus habitantes foram protagonistas nesse enredo terrível da guerra civil em Espanha. Uma dessas histórias está directamente relacionada com as minas de Ervedosa e seus donos. Contaram-nos mais ou menos isto:
Naquele tempo os "vermelhos" fugiam para Portugal e escondiam-se das autoridades nos montes, nas fragas e nos buracos e minas que encontravam, tendo o apoio das populações locais para os alimentarem e avisarem dos perigos. É que a GNR tinha ordens superiores para perseguir e executar todos os indivíduos que fossem capturados. Pelos vistos no termo de Nuzedo de Baixo existe um lugar recôndito e de difícil acesso que lhe chamam as fragas amarelas, onde estariam escondidos alguns espanhóis. O Tenente do posto da GNR de Vinhais, tendo tido ouvido rumores dessa presença e porque sabia da extrema dificuldade de verificar o terreno, pediu ao sócio-gerente das minas que o levasse no seu pequeno avião para um patrulhamento aéreo e confirmar a presença de qualquer espanhol. Dizem que Carlos Lindly, sócio e então gerente da empresa, concordou. Tinha comprado um pequeno avião a um indivíduo a quem o avião saíra numa rifa do Jornal O Século e que não sabendo pilotar quis vender o avião. Carlos Lindly também não tinha licença para voar, não tinha muitas horas de voo e aprendera a pilotar sozinho, através de um manual de pilotagem. Dizem também que o Tenente da GNR era um homem grande e pesado e que quando tentaram levantar voo, a pista foi pequena e o avião não conseguiu evitar o choque com uma árvore, despenhando-se e provocando a morte aos dois ocupantes. O corpo de Carlos Lindly foi sepultado em frente à sua casa de então, bem sobranceira ao complexo das minas e à aldeia de Nuzedo de Baixo. Consta também que a morte deste sócio terá sido o início do fim das minas...
Esta e outras histórias foram o suficiente para nos fazer ir à Ervedosa e à descoberta do complexo mineiro, agora em ruínas e devorado pela vegetação. Lugar impressionante, sombrio e, ao mesmo tempo, belo. Um mundo passado, impregnado de vestígios de vidas difíceis e miseráveis. Soube que em tempos um arqueólogo com responsabilidade concelhia propôs e apresentou um projecto para a preservação e musealização deste complexo industrial, mas a Câmara Municipal de Vinhais não acolheu tal iniciativa. É pena.
http://www.youtube.com/watch?v=t2qbSUqEfkM
http://www.youtube.com/watch?v=YX4vb9m94Dg&NR=1
Naquele tempo os "vermelhos" fugiam para Portugal e escondiam-se das autoridades nos montes, nas fragas e nos buracos e minas que encontravam, tendo o apoio das populações locais para os alimentarem e avisarem dos perigos. É que a GNR tinha ordens superiores para perseguir e executar todos os indivíduos que fossem capturados. Pelos vistos no termo de Nuzedo de Baixo existe um lugar recôndito e de difícil acesso que lhe chamam as fragas amarelas, onde estariam escondidos alguns espanhóis. O Tenente do posto da GNR de Vinhais, tendo tido ouvido rumores dessa presença e porque sabia da extrema dificuldade de verificar o terreno, pediu ao sócio-gerente das minas que o levasse no seu pequeno avião para um patrulhamento aéreo e confirmar a presença de qualquer espanhol. Dizem que Carlos Lindly, sócio e então gerente da empresa, concordou. Tinha comprado um pequeno avião a um indivíduo a quem o avião saíra numa rifa do Jornal O Século e que não sabendo pilotar quis vender o avião. Carlos Lindly também não tinha licença para voar, não tinha muitas horas de voo e aprendera a pilotar sozinho, através de um manual de pilotagem. Dizem também que o Tenente da GNR era um homem grande e pesado e que quando tentaram levantar voo, a pista foi pequena e o avião não conseguiu evitar o choque com uma árvore, despenhando-se e provocando a morte aos dois ocupantes. O corpo de Carlos Lindly foi sepultado em frente à sua casa de então, bem sobranceira ao complexo das minas e à aldeia de Nuzedo de Baixo. Consta também que a morte deste sócio terá sido o início do fim das minas...
Esta e outras histórias foram o suficiente para nos fazer ir à Ervedosa e à descoberta do complexo mineiro, agora em ruínas e devorado pela vegetação. Lugar impressionante, sombrio e, ao mesmo tempo, belo. Um mundo passado, impregnado de vestígios de vidas difíceis e miseráveis. Soube que em tempos um arqueólogo com responsabilidade concelhia propôs e apresentou um projecto para a preservação e musealização deste complexo industrial, mas a Câmara Municipal de Vinhais não acolheu tal iniciativa. É pena.
(Vila Boa, 6 de Agosto de 2011)
Deixo aqui dois links para imagens desta mina, que aconselho verem sem som...http://www.youtube.com/watch?v=t2qbSUqEfkM
http://www.youtube.com/watch?v=YX4vb9m94Dg&NR=1
11 agosto 2011
lorga de dine
Lacuna grave no meu conhecimento regional, a visita à Lorga e aos Fornos de Cal em Dine. Sabia que havia uma senhora responsável e zeladora desses locais e, curiosamente, fui directamente ao encontro dela. Estranhamente nada desconfiada pela minha abordagem, falou, falou e falou. Abriu e guiou a visita ao núcleo interpretativo da Lorga. Referiu-se aos achados arqueológicos e às suas datações com tal desembaraço, falando do Paleolítico e do Neolítico, do período Calcolítico e da Idade do Ferro e do Bronze, como eu não falo aos meus alunos. Quis saber quem éramos e de onde vínhamos. Disse-lhe que era de Vila Boa e ela logo exclamou: "- Da terra do Lexinho!"
Depois, procurando logo encontrar pontos de contacto e de proximidade, disse que a minha cara não lhe era estranha, ao que o Shawn respondeu mostrando-lhe um dos meus livros que ela tinha lá em escaparate e à venda. Surpreendida, quis saber mais sobre mim e eu, aproveitando esse interesse e a sua disponibilidade, depressa comecei a fazer trabalho de campo em relação à questão das nomeadas. Uma vez mais, surpreendida pelo assunto, disse-me que nunca tinha pensado no assunto, mas lá foi debitando algumas das nomeadas da sua aldeia e das aldeias vizinhas. Aproveitei para a questionar sobre a toponímia de Dine e ela, afirmativa, disse conhecer todo o termo da aldeia pelo nome. Combinei com ela regressar depois do dia 15 de Agosto para conversarmos acerca disso.
Depois disto, lá fomos visitar a Lorga, agora fechada por causa do vandalismo e dos possíveis furtos e os Fornos de Cal, em bom estado de conservação. A indústria artesanal tradicional em revelação. Muito interessante.
Depois, procurando logo encontrar pontos de contacto e de proximidade, disse que a minha cara não lhe era estranha, ao que o Shawn respondeu mostrando-lhe um dos meus livros que ela tinha lá em escaparate e à venda. Surpreendida, quis saber mais sobre mim e eu, aproveitando esse interesse e a sua disponibilidade, depressa comecei a fazer trabalho de campo em relação à questão das nomeadas. Uma vez mais, surpreendida pelo assunto, disse-me que nunca tinha pensado no assunto, mas lá foi debitando algumas das nomeadas da sua aldeia e das aldeias vizinhas. Aproveitei para a questionar sobre a toponímia de Dine e ela, afirmativa, disse conhecer todo o termo da aldeia pelo nome. Combinei com ela regressar depois do dia 15 de Agosto para conversarmos acerca disso.
Depois disto, lá fomos visitar a Lorga, agora fechada por causa do vandalismo e dos possíveis furtos e os Fornos de Cal, em bom estado de conservação. A indústria artesanal tradicional em revelação. Muito interessante.
(Vila Boa, 5 de Agosto de 2011)
10 agosto 2011
09 agosto 2011
estrada nacional 206
Um impulso do Shawn perante o topónimo levou-nos de Rebordelo até à Bouça e daí até à Torre de Dona Chama. Mal nos afastámos do cruzamento da Bouça, determinadas memórias de há vinte, trinta ou até mais anos invadiram-me o cérebro e, assim, não pude deixar de viajar no tempo e recordar aquela recta, a outra curva, a velha e estreita ponte de pedra e a sombra fresca onde tantas vezes parei para demonstrar e minha indisposição momentânea.
Relembro as dezenas, provavelmente centenas de viagens entre Gaia e Vila Boa e Vila Boa e Gaia, utilizando sempre e sempre a nacional 206, estrada que liga a Póvoa de Varzim às imediações da cidade de Bragança, mais concretamente à Mosca, onde entronca na nacional 15. Dessas mesmas viagens recordo com especial nostalgia aquelas que fazia na época de Natal - e agora ao escrever os olhos humedecem... - apenas com o meu pai, deixando em Gaia ou Delães a restante familia, sendo que o meu irmão Daniel ficava sempre num pranto por não o deixarem viajar também. Épicas essas viagens, em que eu viajava no banco da frente e tudo, o que para um miúdo de dez ou doze anos era uma promoção à condição adulta. Mas aquilo que mais gostava dessas longas viagens de cerca de cinco horas, era poder questionar o meu pai acerca dos locais por onde iríamos passar - e a seguir que terra é?
O percurso entre a Torre de Dona Chama e Vila Boa era sempre muito ansiado, pois utilizando o relógio, em prata, de bolso que o meu pai usava sempre no bolso direito das calças, para controlar, eu questionava-o acerca do tempo que demoraríamos até à próxima aldeia, e depois até à seguinte e assim sucessivamente até chegarmos ao destino. Curioso, e grandioso para uma criança como eu era, como o meu pai acertava sempre, ao minuto, essas distâncias o que me deixava extremamente satisfeito e orgulhoso da velocidade a que o meu pai percorria, na sua R12, aquelas distâncias.
Depois de tantos anos sem ter circulado por essa estrada nacional, cheguei à conclusão ou ao entendimento que um dia, talvez num futuro próximo, irei revisitar todos esses lugares da minha memória, levando agora comigo as minhas crianças que experimentarão assim a verdadeira dimensão de uma viagem nacional, sem recorrer a esses túneis da velocidade que nos fazem chegar a todo o lado mais depressa e nos impedem de conhecer o país. Assim farei.
(Vila Boa, 4 de Agosto de 2011)
08 agosto 2011
o inferno ou ladrão
Ao passar pela aldeia de Agrochão fomos visitar o Museu Etnográfico. Instalado na antiga casa paroquial, reúne um conjunto de alfaias associadas ao ciclo do pão, ao ciclo da lã, assim como outras relacionadas com a tracção animal. A guia do museu, jovem simpática e prestável, foi-nos mostrar o lagar de azeite, localizado num outro edifício na espectacular rua do vale. Aqui explicou-nos o processo tradicional do ciclo do azeite. Ficamos a saber que uma das últimas etapas desse ciclo implicava a utilização do "Inferno" ou "Ladrão", recipiente em pedra para onde escorria o azeite depois da separação da água. Acontece que o lagareiro (dono do lagar) quando fazia o transvaze do azeite desse recipiente para os vazilhames dos produtores, ficava sempre com uma determinada quantidade de azeite no fundo desse recipiente. Daí ser conhecido por "Inferno ou Ladrão", pois todos sabiam que seria aí que poderiam ser roubados e/ou a sua produção prejudicada. Era uma percentagem de maquia extra, desonesta e não negociada. Metáforas populares.
(Vila Boa, 3 de Agosto de 2011)
05 agosto 2011
a porta do parque
Pareceu-me aconselhável, num primeiro dia dedicado ao território do Parque Natural de Montesinho (PNM), iniciar o percurso visitando a sede do PNM em Vinhais para, de alguma forma, contextualizar a ida para o seu território. Foi a primeira vez que visitei tais instalações e, apesar de ter conhecido o espaço anteriormente, ainda em reínas, e de reconhecer a necessidade e importância da requalificação do imóvel, aquilo que foi projectado e construído em termos programáticos (temas e conteúdos) é muito fraco. Não sei de quem é a responsabilidade, se da Câmara Municipal de Vinhais ou do Instituto da Conservação da Natureza (ICN), mas fiquei preocupado com o mais que aparente subaproveitamento daquele espaço e com a miserável qualidade dos conteúdos apresentados. Felizmente a visita in loco realizada imediatamente a seguir ao PNM e as surpreendentes descobertas a cada curva topográfica do seu relevo, retirou-me do espírito a desqualificação da meta-línguagem utilizada pelos serviços.
(Vila Boa, 2 de Agosto de 2011)
a viagem
Com destino último Vila Boa, o dia passou-se pendurado num Toyota, pelos desvios do ainda IP4. Para atenuar as dores da alma e alegrar o estômago, uma prolongada paragem em Sabrosa para, numa "quinta" amiga, saborear uma alegre churrascada. Daí nasceu o compromisso de trabalho para os próximos dois anos, incluindo participações no Congresso de Sociologia Rural, em Lisboa no Verão de 2012 e publicação conjunta para finais de 2013. Finalmente, já tarde, chegamos ao pretendido destino.
(Vila Boa, dia 1 de Agosto de 2011)
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