Mais logo eu vou assistir a este concerto dos Tindersticks no Coliseu do Porto com os meus irmãos. Banda que acompanho desde o primeiro momento e que considero do melhor, eu diria mesmo sublime, som que se tem produzido nas últimas décadas. Gentileza do mano Daniel. Bonito.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
14 maio 2022
05 maio 2022
Congresso Internacional Festas, Culturas e Comunidades: Património e Sustentabilidade
A decorrer na Universidade do Minho, entre 4 e 6 de Maio, participo com uma comunicação intitulada: "A Senhora entre perros e cabrões", na qual apresento a santa e padroeira de Carção como mediadora social e cultural entre as duas comunidades existentes na aldeia. Tema não tratado no trabalho que então realizei e publiquei, mas que acabou por ser a característica mais marcante do meu trabalho de campo e à qual tenciono regressar com maior cuidado e melhor atenção. Umlocuspeculiar e riquíssimo.
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antropologia,
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trabalho de campo
02 maio 2022
à terceira foi de vez
No passado Sábado, dia 30 de Abril de 2022, fui com a minha criança ao estádio do Dragão assistir ao jogo do FCP com o Vizela. Esta foi a terceira vez que o levei ao Dragão e estava algo apreensivo porque as duas primeiras experiências não foram nada agradáveis. Na primeira vez, num jogo contra o Sporting, saí ao intervalo, pois ele desde o início perguntava se ainda faltava muito para terminar e esteve o tempo todo com as mãos nos ouvidos por causa do ruído das claques (o FCP ao intervalo já perdia por 0-2). Na segunda vez, talvez na época 2018/19, levei-o a ver o jogo contra o B SAD e, apesar de ter aguentado o jogo todo, ainda o senti muito intimidado e desconfortável. Desta vez sim, o Rodrigo participou activamente durante todo o jogo: cantou, gritou pelos nomes dos jogadores, obedeceu às coreografias e cânticos do speaker, festejou os golos, reclamou com o árbitro e quis estar até ao último momento nas bancadas, para assistir à roda dos jogadores do Porto e a volta de agradecimento.
Mais do que interessado no jogo, eu estive a apreciá-lo e fui-lhe tirando fotografias. Foi um final de tarde divertido para ele. Penso que neste momento já não haverá mais hesitações. Tenho um filho tripeiro e portista. Fico feliz por isso.
01 maio 2022
26 abril 2022
sabores até ao impossível
Desafiado pelos alunos que, numa conversa recente sobre a crescente hegemonia do consumismo no mundo das nossas sociedades, grandemente motivado pelo capitalismo e seu liberalismo e, acima de tudo, sua globalização, resistiram à percepção do exemplo que dei: a panóplia de sabores dos iogurtes que podemos encontrar nas grandes superfícies será paradigmática destas lógicas ad nauseam e exponencial até ao impossível, eu diria, até ao ridículo. Por degenerescência das minhas faculdades mnemónicas, não consegui então apresentar exemplos, mas hoje bem cedo, porque voltaria a estar com eles em aula, fui fazer trabalho de campo em três diferentes hipermercados. O resultado que levei para a sala de aulas:
(entretanto, e tal como partilhei com os alunos, fiquei com a sensação de que há algum tempo, talvez cerca de uma década, a oferta era ainda mais excêntrica...)
22 abril 2022
"seguro morreu de velho"
Hoje foi o dia da libertação! Deixa de ser obrigatório o uso de máscaras em espaços fechados, com a excepção de farmácias, transportes públicos, lares de idosos, hospitais e centros de saúde (?). Fico satisfeito com este facto, pois ele significa que os indicadores da pandemia são favoráveis e tendem a decrescer. Esta decisão é particularmente importante para as comunidades escolares e, em especial, para os alunos que têm vivido amordaçados e limitados no seu espaço de liberdade que é a Escola. Ainda assim, não sou um entusiasta e estou receoso deste momento de libertação, pois tal como em tantas outras situações, a adesão irreflectida e o entusiasmo generalizado poderão trazer dissabores e efeitos preversos, se não no imediato porque caminhamos para o Verão e bom tempo, mas quando o frio e a humidade regressarem no Outono.
Eu hoje saí à rua logo de manhã. Entrei em cafés e permaneci de máscara na cara. Depois, de tarde, fui para a Universidade e dei aulas de máscara na cara, apesar de ter recebido prévia indicação da Direcção da Escola da não obrigatoriedade do seu uso a partir de hoje. Entre os alunos, já informados e conhecedores desta decisão, a postura dividiu-se entre aqueles que mantiveram sempre a máscara na cara e aqueles que já entraram na sala sem ela.
O facto de ter deixado de ser obrigatória, não significa que passou a ser proibida e, assim sendo, desconfio que vou continuar a utilizá-la em espaços públicos, sejam ao ar livre, sejam em espaços fechados. Até quando não sei, mas por enquanto sinto-me confortável com esta opção. De resto, convém relembrar que a pandemia não terminou, continuamos a ser infectados e a morrer de Covid-19.
06 abril 2022
22 março 2022
21 março 2022
o filho de um cão
Que impotência perante tão vil crueldade, tão insuportável prepotência, tão assassina coisa de um psicopata na frente de um regime de psicopatas.
Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1342 - Março 2022.
05 março 2022
um manifesto em palco
Depois de quase três anos regressei ontem ao teatro. Fui assistir ao "monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa", com texto e interpretação de Sara Barros Leitão. Gostei do texto - um autêntico manifesto político e sindical, diacrónico e de denuncia, e gostei da entrega da Sara ao incorporar e sentir as dores das "criadas", agora "empregadas domésticas". Fica o prospecto com o texto de apresentação:
01 março 2022
receosos e desajeitados
Depois de mais de dois anos sem nos darmos a qualquer manifestação social de afecto, de termos quase extinguido os cumprimentos que implicam o contacto físico, regressamos agora, tímidos e desajeitados, a esses rituais. As mãos vão-se abrindo e esticando para envolver outras mãos, os corpos vão-se envolvendo em abraços e, assim, regressamos àquilo que sempre gostámos e soubemos fazer. Ontem, ao despedir-me de um velho amigo, quando lhe estiquei a mão fechada, ele veio para mim de mão aberta, mas logo me puxou para ele e disse: - dá cá um abracinho. Eu dei e soube-me muito bem.
25 fevereiro 2022
enquanto esperava
Hoje, à hora de almoço, enquanto esperava pelo meu filho à porta da escola, ouvia a conversa de um pequeno grupo de miúdos, que não teriam mais de 12 ou 13 anos, sobre a guerra na Ucrânia. Ainda que num tom jocoso e brincalhão, demonstrativo da distância que os separa do palco da guerra e da mais que aparente sensação de segurança, o diálogo era animado e participado, percebendo-se a preocupação e a assertividade de alguns dos comentários e afirmações. Fiquei ali preso a ouvi-los, agradado por perceber a preocupação e consciência da gravidade da situação, até que eles substituíram o debate por uma qualquer brincadeira mais ou menos parva.
21 fevereiro 2022
coitados dos turistas
(na capa do Jornal de Notícias de 20/02/2022)
Foi notícia no Jornal de Notícias deste Domingo (20/02/2022), com chamada na capa da edição - Drama dos sem-abrigo choca turistas (pp. 18 e 19). De facto, a situação é muito preocupante, é dramática e é triste, mas não é uma situação nova, pois quem deambule pela baixa da cidade do Porto, já há muito tempo que convive com esses inquilinos do espaço público que, durante todo o ano, ocupam recantos dos edifícios públicos e privados e se fazem notar não só pela sua presença, como pela parafernália que arrastam consigo ou deixam como reserva do espaço que habitam. A crer na notícia agora publicada serão cerca de 500 pessoas nesta condição. 500 pessoas!
A notícia, para além do mais que necessário alarme para a dramática situação, está, no meu entendimento, toda ela escrita sob um prisma errado, enfatizando a perspectiva de todos os implicados - comerciantes, turistas, ONG's e autarquia - menos a daqueles que sofrem nas suas vidas essa condição de sem-abrigo, ainda que sejam referidos dois ou três destes casos.
Claro que o impacto desta situação prejudica não só a imagem da cidade, como algumas das actividades económicas que aí se desenvolvem, mas não é apresentada qualquer solução para este problema, que é muito mais do que uma situação de saúde pública, é uma questão de civilidade e dignidade da própria comunidade. Sinceramente, afirmá-lo como um problema para o turismo e para os turistas que nos visitam?! Que raio. Por outro lado, este texto também não consegue ultrapassar a visão de uma sociedade caritativa, que depende da boa vontade e voluntarismo de um conjunto de cidadãos e de algumas organizações não-governamentais, como sendo essa a solução para o problema. Não é. A responsabilidade para resolver, ou pelo menos, minorar este cenário é do Estado e das suas instituições, nomeadamente da Segurança Social e, depois, das autarquias que têm, pelo conhecimento do terreno e proximidade com estas populações, a obrigação de criar as condições mínimas e capazes de retirar esta gente da rua e da indigência.
Bem sei que não é fácil e é complexo, que cada um deste indivíduos tem as suas idiossincrasias (doenças, traumas, violências e dependências) naquilo que é a sua história de vida e, portanto, o esforço terá que ser assíduo, persistente e duradouro. Não é admissível que a autarquia do Porto, na pessoa da Vereadora da Acção Social, Cristina Pimentel, ao ser questionada pelo J.N., responda: ao contrário da percepção que existe em quem circula pelas ruas, a população sem-abrigo não aumentou. Senhora vereadora, essa afirmação soa a satisfação por o número não ter aumentado, como se cerca de 500 pessoas a dormir nas ruas da cidade não fosse já uma enormidade, uma tragédia. Mais, está equivocada, porque para quem gere ou administra a coisa pública e a polis, a percepção, ou melhor, as percepções daqueles que vivem e fazem ser a cidade são importantes e a razão da existência do seu lugar na administração pública local.
Mas é também, uma peça jornalística que reforça uma visão da cidade que se impôs nas últimas décadas, na qual o espaço e os lugares só existem, só fazem sentido, se estiverem ao serviço da especulação imobiliária (gentrificação), ao dispor dos fluxos e preferências/modas sazonais e consumos do turismo (turistificação) e a vida dos habitantes é preterida para a insignificância ou expulsa para a periferia (reificação). Era este o Porto de Rui Rio e é este o Porto de Rui Moreira. É tempo de alterar o paradigma, de dignificar a vida destes (e de todos os) cidadãos e de redireccionar a cidade para servir quem nela vive, trabalha, ou tenta sobreviver.
Enfim, não me interessa, não quero saber do incómodo dos turistas que nos visitam, quero é solução para cada uma destas quinhentas vidas que, voluntária ou involuntariamente, permanecem num estado de indignidade humana.
17 fevereiro 2022
práticas culturais
Tive conhecimento deste estudo através da comunicação social e logo tratei de o procurar. Encontrei-o no sítio da Fundação Gulbenkian e disponível para download gratuito (aqui). Muito interessante e pertinente, principalmente no contexto actual de pandemia ou pós-pandemia. Vou ler com atenção, pois parece-me que faz um retrato pormenorizado daquilo que temos sido e daquilo que temos feito com o nosso tempo disponível. Para uma leitura sucinta ou apressada bastará ler a "síntese dos resultados" (páginas 6 a 10).
Na apresentação do estudo, pode-se ler:
Este inquérito oferece um retrato inédito da diversidade das práticas culturais em Portugal.
Encomendado pela Fundação Gulbenkian ao Instituto de Ciências Sociais (ICS), o estudo fornece às instituições culturais uma grelha de leitura sobre os seus públicos, atuais e futuros, e quer contribuir para a produção de políticas públicas inovadoras. O estudo foi coordenado por José Machado Pais, Miguel Lobo Antunes e Pedro Magalhães.
O inquérito reúne informação socialmente relevante e estatisticamente representativa da população residente em Portugal, regiões autónomas incluídas, com 15 ou mais anos de idade. A amostra tem uma dimensão de 2000 inquiridos e o trabalho de campo foi realizado entre os dias 12 de setembro e 28 de dezembro de 2020. A informação foi recolhida através de entrevista direta e pessoal na residência dos inquiridos, em sistema CAPI (Computer Assisted Personal Interview).
Os domínios pesquisados abrangem consumos culturais através da Internet, da televisão e da rádio; práticas de leitura em formato impresso e digital; frequência de bibliotecas, museus, monumentos históricos, sítios arqueológicos e galerias de arte; idas ao cinema, concertos e espetáculos ao vivo, incluindo festivais e festas locais; participação artística e capitais culturais.
Disponibilizam-se também indicadores de participação cultural mais interventiva ou comprometida, como o exercício de práticas artísticas amadoras, a partilha de conteúdos culturais de autoria própria, a interação online em temas relacionados com a cultura, a participação em blogues, o voluntariado e a participação em associações culturais.
Propõe-se ainda uma importante bateria de indicadores sobre as motivações e os obstáculos que mobilizam ou não os portugueses para o exercício de práticas culturais nucleares, indicadores que permitirão ajustar estratégias de captação e fidelização dos públicos da cultura.
10 fevereiro 2022
é cego
Oito e trinta da manhã, avenida da república em Vila Nova de Gaia, entro num estabelecimento comercial para registar o Euromilhões. Ao sair, dou passagem a uma funcionária que carregava um balde e respectiva esfregona. Sem se aperceber que eu vou atrás dela, larga a porta de vidro. Quando se apercebe:
- Ai desculpe, não reparei que estava atrás de mim.
- Não faz mal. Obrigado. Digo-lhe eu.
- Sabe, é que o de trás não vê!
Ok, pensei eu, enquanto fazia um esforço por afastar do pensamento o referido cego da senhora.
diz-se por aí
É este o resultado de andarmos a brincar às privatizações de sectores estruturais e estratégicos do nosso país. A gestão privada é que é boa, muito melhor do que a pública, diz-se por aí e sem pudor. Como pode a água, que é um bem essencial e um direito fundamental que cada cidadão tem, ser privatizada e a sua gestão ser objecto de especulação, cujo único propósito é a obtenção de lucro?! Como pode haver gente - e aqui falo de presidentes de Câmaras Municipais e demais organismos municipais, partidos políticos e agentes sociais - que decida que a água deve ser explorada por uma empresa privada, cuja finalidade é a obtenção de lucro? Esse executivo camarário que assinou, em 2004, o contrato de concessão deveria ser criminalmente responsabilizado. Foi um crime! É um crime! Não podemos aceitar esta lógica liberalizadora na nossa sociedade, pois se assim for, quando dermos conta estaremos a pagar o ar que respiramos.
08 fevereiro 2022
sem ilusão, apenas desilusão
Passam os dias e eu cada vez sinto mais a falta dos óculos, para ouvir e perceber o mundo que me rodeia. E não é ilusão, é desilusão de óptica.
06 fevereiro 2022
não fazia ideia
A versão fotogénica de Susan Sontag estaria sempre em desacordo com a Miss Bibliotecária. Nunca, talvez, uma grande beldade se esforçou tão pouco para ser bonita. Ao deparar-se com a mulher glamorosa nas fotografias, expressou frequentemente, o seu espanto. No final da vida, vendo um retrato de si mais jovem, suspirou: "Eu era tão bonita!" disse. "E não fazia ideia".
(Benjamim Moser, in revista LER nº 161 - Inverno 2021)
04 fevereiro 2022
maioria absoluta
Não foi preciso esperar muitos dias depois das eleições e delas ter resultado uma maioria absoluta, para o PS começar a governar o Estado a seu bel-prazer, sem se preocupar com o que seja, sem olhar para o lado e sem, reparem bem no preciosismo, se preocupar com aquilo que estava anteriormente negociado com o PC e o BE.
De acordo com o jornal Expresso as linhas gerais mantêm-se, mas com alguns retoques como a criação de dois novos escalões no IRS, com um pequeno desagravamento do imposto ou aumento mínimo de 10 euros nas pensões. Mas o que chama à atenção são sobretudo as ausências, exemplo disso é o englobamento das mais-valias mobiliárias no IRS. Aplicava-se aos portugueses que fazem parte do último escalão de IRS, ou seja, com um rendimento coletável acima dos 75 mil euros e que nos últimos 12 meses tenham obtido rendimentos com bens móveis, tais como ações ou obrigações. O partido socialista justifica-se e diz que a aplicação da proposta depois da aprovação do novo orçamento ia criar problemas legais, dado que seria obrigatório cobrar o imposto com retroativos a janeiro. A medida foi exigida pelos parceiros da antiga geringonça, especialmente o PCP, mas nunca reuniu consenso entre os socialistas.
(in https://expresso.pt/expresso)
Aqui está um caso paradigmático daquilo que será a governação do todo-poderoso António Costa, perante a total incapacidade dos demais partidos beliscarem a sua vontade. Sim senhor. Maiorias absolutas é para isto que servem e foram, são e serão sempre, mais prejudiciais às democracias do que aquilo o próprio Primeiro Ministro diz querer normalizar. Não me restam dúvidas de que este governo vai-se deslocar para a direita e, sem os partidos da sua esquerda a pressionar, obedecerá à agenda dos interesses corporativos e patronais, em detrimento da agenda de maior justiça social e laboral. Cá estaremos para ir registando e denunciando as clivagens à direita e ao neo-liberalismo que se vão operar nos próximos tempos.
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