16 março 2011

doxósofos

Procurar estar actualizado obriga a um permanente acompanhamento da vertiginosa cadência informativa, o que acontece, fundamentalmente, através dos meios de comunicação social e, em especial, através dos canais de televisão. Ao percorrer os vários canais informativos não posso deixar de reparar que, nunca como nos dias de hoje, saturados estão de programação especializada, principalmente em política e em desporto. Não há um único dia da semana em que não haja uma panóplia de polifonias relativas a cada acontecimento da vida política e/ou desportiva nacional e/ou internacional. Não percebo como há espaço, como há audiências, como há financiamento e publicidade para tanta verborreia de spin doctors, opinion makers, politólogos e futeboleiros!?... ainda por cima quando grande parte desses pseudo-especialistas não vão além dos lugares-comuns e de aparentes manifestações de conhecimentos. Já Platão, há muitos séculos atrás, lhes tirou a pinta, designando-os doxósofos e definindo-os como técnicos de opinião que se julgam sábios e que para conseguirem notoriedade não hesitam em engalfinhar-se no espaço público. Assim é ainda hoje.

15 março 2011

preocupações

Primeira, para além da desgraça causada pelo sismo e consequente tsunami, a população japonesa e, depois, o mundo vêem-se agora confrontados com o eminente acidente nuclear em algumas das centrais nucleares espalhadas pelo território nipónico. Acredito que os responsáveis técnicos e políticos estarão em pânico perante os cenários horrendos e as consequências catastróficas possíveis decorrentes deste acidente. Para além de todos os riscos e problemas associados à implantação e existência destes complexos, parece-me razoável reflectir sobre a opção por este tipo de fonte de energia. Sempre que se debate acerca da existência ou não de energia nuclear em Portugal, deveriamos ponderar também estes cenários. Com outras fontes de tanto potencial energético, mais limpas e mais seguras, ainda bem que não existe energia nuclear em Portugal.
Segunda, é uma vergonha aquilo que temos assistido nas estradas nacionais, com os bloqueios dos camionistas. Podemos até estar de acordo com os seus problemas e com as suas reivindicações, mas não podemos tolerar que haja terrorismo nas nossas estradas. As notícias que nos chegam de piquetes de camionistas que intimidam e ofendem colegas de profissão que não têm a mesma opinião, não são possíveis num estado de direito. Esta intolerância e este radicalismo, para além de não serem dignos de uma democracia, revelam bem as bestas que são e confirmam a atitude estereotipada e ignorante que reina nos volantes dos pesados portugueses.

13 março 2011

estado: ansioso

Num dia por defeito calmo e propício aos vagares da vida, estou ansioso. A verdade é que esta contagem decrescente, principalmente nestes últimos dias, tem sido um martírio. O tédio ocupacional potência a ansiedade. Querer que o tempo avance célere, mas ele, teimoso, resiste e prossegue o seu ritmo a vinte e quatro horas por dia. Mesmo sendo um Domingo, por mais que me tente abstrair de certos e determinados pensamentos, não consigo. São fortes e mantêm-se latentes o tempo todo.

12 março 2011

manifestação no porto

...afinal, são muitas as gerações à rasca...

verbo, indignar

"A minha longa vida deu-me uma série de motivos para me indignar."
Li pela primeira vez aqui acerca deste pequeno livro de Stéphane Hessel. Fiquei curioso e esta manhã (só podia ser esta manhã...), aproveitando um café no Fórum da Fnac, procurei-o e rapidamente, mesmo antes de o pagar, o li, sublinhei, rabisquei e reli. Dividido em três partes distintas - prefácio de Mário Soares, o manifesto do autor e, por fim, um posfácio do editor com nota biográfica do autor. Este homem, para mim completamente desconhecido, é um verdadeiro compêndio da história do século XX. Por favor não deixem de ler o apelo "a uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massas que só apresentam como horizonte à nossa juventude uma sociedade de consumo, o desprezo pelos mais fracos e pela cultura, a amnésia generalizada e a competição renhida de todos contra todos".

11 março 2011

a propósito da geração à rasca...

Interessante texto de opinião, hoje no Jornal Público. Desculpem-me os rabiscos egoístas... (vícios).

solilóquio

Não sei explicar muito bem porquê, mas hoje sinto-me estranho. Não sei explicar muito bem o quê, mas hoje sinto-me metrossexual...

precariedade

Sente-se um enorme burburinho na sociedade portuguesa em relação às manifestações que se irão realizar amanhã em várias cidades portuguesas. Esta é a primeira manifestação organizada, estruturada e convocada a partir das redes sociais em Portugal e, talvez também por isso, está o país expectante em relação à capacidade e ao sucesso dessa mesma convocatória. Para além da particularidade das redes sociais, esta manifestação tem por fundamento a degradante condição social e económica em que as gerações mais jovens vivem e a sua participação será um acto de participação cidadã, de indignação contra essa condição e de censura às políticas que os governos impuseram e que, consequentemente, nos trouxeram para esta realidade. É, concerteza, por isso que os costumeiros arautos do situacionismo, do alto do seu conforto social e da sua estabilidade económica, não se conformam com este "atrevimento" dos mais novos. Por outro lado, agrada-me a ideia de se tratar de uma manifestação política, mas apartidária, apesar de alguns partidos terem já manifestado a sua intensão de se fazerem representar. Esperemos que assim se mantenha e se concretize. É bom saber que os jovens de hoje não correspondem aos estereótipos e reagem aos pré-conceitos nomeados pelas gerações mais velhas e, essas sim, acomodadas.
Também eu estou com elevadas expectativas em relação ao dia de amanhã. Lí o manifesto e concordo com as posições assumidas pela organização. Não estou à rasca, mas muito provavelmente por considerar que a minha condição nunca foi além dessa mesma precariedade, vou participar na manifestação de amanhã na cidade do Porto.

10 março 2011

moção de censura

Eu gostava mesmo que a moção de censura que o Bloco de Esquerda apresentou e que hoje será discutida e votada na Assembleia da República fosse aprovada. Apesar das conhecidas e pré-anunciadas posições do PSD e do CDS, a conjuntura degradante e humilhante da economia e das finanças nacionais e o próprio discurso do Presidente da República, de ontem, na sua tomada de posse, permitiriam aos partidos da direita votarem favoravelmente esta iniciativa do BE e assim, não só clarificar definitivamente a situação política, como arredar do poder, por muitos e longos anos, este PS. É sabido, está visto e percebe-se a cada sopro de vida que este governo agonia e definha. Acabemos com o seu sofrimento.

08 março 2011

do pior que me podem pedir

"Estimado Luís Vale,
Espero que esteja tudo bem contigo. Era para te pedir que reduzas o texto da FAAEE para 32.000 caracteres com espaços, de acordo com as normas do congresso. Actualmente tens 50.000.
Um abraço, "

carnavais

Como se diz: "É Carnaval, ninguém leva a mal", eu aproveito para dizer que não percebo como se gasta tanto tempo e dinheiro com esta festa. Será, apesar da sua diversidade, praticamente um dado universal. Considero legitimo e até importante que os indivíduos e as comunidades queiram manter aquilo que julgam ser as suas tradições e os seus rituais, agregadores e potenciadores de sentimentos de pertença à respectiva comunidade. Aquilo que me custa ver e ouvir são as ridículas manifestações que por todo o país acontecem e que não são mais do que tentativas falhadas de imitar o carnaval brasileiro. É isso mesmo, e bem, o carnaval brasileiro acontece no Brasil. Em Portugal temos tradições antigas relativas ao dia que assinala o final do ciclo de Inverno e a passagem para um outro tempo, o da eterna renovação da natureza. Essa diversidade ritual é constituida por inúmeros, bonitos e ricos, momentos. Imagens de Carnaval como aquelas que enchem as TVs (Ovar, Torres Vedras, entre outras localidades) são ridículas, não fazem qualquer sentido.

07 março 2011

Talvez há 4 ou 5 anos joguei pela 1ª vez o Mafia I. Foi o irmão mais novo que me apresentou o ambiente ganster de Nova Iorque e desde logo fiquei fã do jogo. Naquele tempo joguei-o no velhinho pc que havia cá em casa. Agora, já com uma PlayStation 3 em casa, terminei a aventura de Vito Scaletta, enquanto membro de uma família mafiosa de Nova Iorque em meados do século XX, no Mafia II. Ao longo de quinze episódios e na pele do protagonista somos confrontados com os meandros e intrigas próprias das rivalidades entre famílias mafiosas que lutavam pelo controle do submundo daquela cidade. Acabei a aventura com a sensação que ainda poderia ter mais alguns episódios e aventuras. Concerteza, haverá mais Mafia, aguardemos as cenas de outros capítulos. Entretanto, procurarei outro jogo que me distraia, de preferência algo que me permita dar muitos tiros e matar muitos "inimigos" e "adversários". Tudo isto, claro, no conforto do meu sofá.

06 março 2011

é o povo contra a reacção



Não gosto do Festival da Canção. Acho que já há muito tempo perdeu qualidade e valor. Mas porque um amigo tem participado enquanto produtor, todos os anos vou espreitando para ouvir a sua música. Este ano calhou ouvir, para surpresa minha, a participação dos Homens da Luta. Brincadeira, pensei eu... O certo é que no final da noite foram eles os grandes vencedores e graças aos votos, via SMS, do público. Eu não votei em nenhuma música, mas se tivesse votado teria sido na música deles - pela irreverência, pela coragem e pela frontalidade. Este resultado foi mais um espinho para Pacheco Pereira, Isabel Stilwell, José Manuel Fernandes e outros que muito se têm importunado a favor da manutênção da precariedade em Portugal. Os Homens da Luta ganharam e desestabilizaram todo o mainstream vigente na produção deste evento. Não sei quem votou neles, mas desconfio que a insatisfação social do país valeu bem os 60 cêntimos + iva que custou cada voto. Muito provavelmente, este foi o último Festival da Canção em que o público votou. Até ao dia 12 de Março.

05 março 2011

dísticos e afins

Nenhuma objecção relativa à manifestação pública dos ideais civilizacionais, das crenças religiosas, das filiações partidárias ou desportivas ou outras por parte dos indivíduos. Mesmo não compreendendo o que leva alguém a fazê-lo, aceito pacificamente que outros sintam essa necessidade e o façam. Eu nunca senti qualquer necessidade de o fazer, nem nunca achei grande piada à decoração de automóveis com elementos estranhos ao seu fabrico e comercialização. Claro é que a culpa não é dos automóveis, mas sim dos seus proprietários que, por qualquer razão que a psicologia explicaria muito facilmente, projectam nos seus automóveis a sua imagem.
Houve um tempo em que era obrigatória a inclusão de determinada informação suplementar nos veículos, estou a lembrar-me dos limitadores de velocidade, das placas de localidade e raio de distância para os pesados e das placas de identificação de propriedade dos ligeiros - curiosas placas que para além do nome e morada do proprietário, incluiam uma imagem de S. Cristovão, o santo propector de qualquer viajante e, nalguns casos, havia ainda espaço para as fotografias dos respectivos proprietários -normalmente colocadas num suporte com íman nos tabliers para estarem visíveis do exterior.
No meio de toda a panóplia de acessórios, aplicações, autocolantes e placas que por aí circulam agarradas aos carros, há um tipo de autocolantes que me intriga especialmente. Falo daqueles que são, normalmente, oferecidos pelas marcas de produtos para bebés e crianças e que se destinam a colar no vidro traseiro. Através deles ficamos todos, os demais e estranhos, a saber que a bordo daquela viatura circula um bebé, nalguns exemplares ficamos a saber, inclusivé, o nome de tais bebés e, noutros ainda e complementando, é-nos comunicado para termos cuidado!.. porque ali vai um bebé. Para além de não perceber o que leva alguns progenitores a publicitarem assim o nome dos seus rebentos, importa questionar: Mas que raio de advertência é esta!? Até parece que o cuidado que devemos ter na estrada varia consoante o tipo de ocupante dos outros veículos. É pois uma informação palerma e estupidificante que, in loco, me incita a adjectivações várias aos seus promotores.
Desconfio que tudo isto não seja mais do que um possível caminho para aqueles que se querem dedicar ao transformismo automóvel. Para além de todas as questões de estética, relativas e subjectivas, sobre as quais não farei juízos de valor, talvez um dia também eu me converta definitivamente ao famoso tuning.

04 março 2011

100

PARABÉNS!

Também eu me sinto feliz, enquanto leitor, pelo facto a LER ter chegado ao número 100, de existir desde 1987 e de me permitir aceder a um universo muito interessante. Sou leitor assíduo desde o seu nº 43 de 1998. É com grande expectativa e alguma ansiedade que ainda hoje, mensalmente, vou ao quiosque à procura da LER. Espero que este seja apenas um momento especial e bonito de um percurso que se quer longo e cada vez melhor. Um outro objectivo pessoal será conseguir os números anteriores ao nº 43. Calculo que não seja tarefa fácil, até porque alguns números devem estar esgotados. Entranto, fica a certeza de algumas horas bem passadas apreciando esta edição especial, que nos oferece as imagens, as entrevistas, as citações, os textos, os momentos e os livros que marcaram as cem revistas.

03 março 2011

salas de espera

Serão sempre lugares interessantes para algum trabalho de campo, mais ou menos discreto, mais ou menos participante, que permitem exercitar as capacidades de observação e de registo. Numa madrugada destas noites frias, na sala de espera de acompanhantes do serviço de urgência do Hospital Santos Silva, em Vila Nova de Gaia:
A sala, tipo aquário, é uma transparência, sem privacidade e com excelente iluminação, por contraste com toda a envolvência exterior. Três filas de cadeiras disponíveis em cada lado da sala, viradas para o seu centro, obrigam os presentes a um permanente contacto visual, duas máquinas de vending vão servindo bebidas e comidas, e roubando nos trocos aqueles que não lhe dão a quantia certa. É a murros e alguns pontapés que os lesados compensam a sua perda. Por cima de todo o burburinho permanente de vozes, o som estridente de uma TV que, pendurada numa parede, transmite (presumo uma gravação) uma telenovela da TVI. Enquanto aguardo pela minha criança e sentado numa extremidade da sala, entretenho-me observando os deliciosos pormenores destes estranhos que me envolvem. Neste corrupio de gente que entra e sai e sai e entra, por enquanto, ainda ninguém se chegou sequer perto de mim. Estranharão o meu aspecto? Desconfiarão da minha aparente alienação? Ou não querem saber e apenas assim calhou? Não me interessa. Importa-me ver como, enquanto alguns dormitam e depois são abruptamente despertos pelo som ranhoso do altifalante que lhes pedem a presença na porta da urgência, e outros aproveitam a espera para fazerem a higiene pessoal, como um indivíduo ali no canto que descontraído vai limpando o nariz aos dedos, a generalidade destes estranhos - também entre si - muito facilmente se dão ao conhecimento, parecendo-me que passados alguns instantes estão já a trocar contactos e confidências. Há aqueles(as), mais impacientes, que mal se sentam logo se levantam, numa impaciência aflitiva que quero atribuir à preocupação para com os seus doentes. Depois há ainda aqueles que como eu gostam de observar, mas indiscretos e incisivos, violentam-nos as mais recônditas entranhas com os seus (feios) olhares. O que pensará toda esta gente? O que irá na alma de cada um deles? Que dores sentirão?.. E é no meio destas divagações que ouço, num som estranho, o meu nome. É a minha vez de sair.

02 março 2011

fidelidade

Não sei se é comum ou não, se o mesmo acontece com os outros, mas no que toca a escrever gosto de utilizar sempre a mesma caneta. É com especial irritação que me apercebo que perdi uma caneta. Sempre gostei de utilizar a cor preta e é com relutância que escrevo a outra cor. Nalguns suportes o preto é mesmo exclusivo. Sempre gostei e sempre usei a BIC Cristal, a tal da escrita normal, de cor preta cujo traço mais forte consegue ser muito suave. Entretanto, descobri a Uniball de tinta preta permanente, gostei e passei a usá-la. Pena ser tão cara. Trago sempre comigo duas ou três iguais e é delas que faço uso. Serei assim um fiel à caneta.

01 março 2011

a reforma administrativa

Não sei quais foram as reais razões ou necessidades que trouxeram para a actualidade do debate político a questão da reforma administrativa portuguesa, mas a verdade é que este debate é necessário e viverá sempre sob o espectro de tardio e de urgente. Como podemos, em pleno Século XXI, viver ainda num esquema pensado e aplicado em meados do século XIX!? Mais, porque se demorou tanto tempo para apenas se pensar no assunto!? Já em meados do século XX, principalmente na sua segunda metade, a realidade do território e da população portuguesa deveriam ter motivado tal reflexão.
A dimensão das autarquias locais é fundamental na perspectiva da sua autonomia. Sem uma dimensão crítica da autarquia local não se pode verdadeiramente falar em autonomia do poder local, na medida em que as autarquias locais ficam desprovidas de meios suficientes para assegurarem a prossecução das suas atribuições e o exercício das suas competências.
Actualmente existem em Portugal 39 municípios com menos de 5000 eleitores, o que corresponde a 12,66 % do número total de municípios. Quando se fala em freguesias, a realidade é ainda mais avassaladora, tendo a esmagadora maioria das mais de 4000 freguesias, um número de eleitores inferior a 1000.
Este argumento serviu de base ao veto do Presidente Jorge Sampaio ao Decreto da Assembleia da República n.º 76/IX, que visava alterar a Lei Quadro de Criação de Municípios, aprovada pela Lei n.º 142/85, de 19 de Novembro, permitindo a criação de novos municípios, mesmo que não se verificassem os requisitos previstos na lei, caso existissem reconhecidas razões de interesse nacional, fundamentadas numa particular relevância de ordem histórico-cultural, ou desde que fosse recolhido o parecer favorável de todos os órgãos autárquicos envolvidos.
Conforme então afirmava o Presidente Jorge Sampaio, “Neste âmbito assumem especial relevância as questões relacionadas com a fixação ou alteração dos limites da circunscrição territorial dos municípios, não apenas porque dela depende, em larga medida, a adequação e eficiência da administração autárquica na prestação de serviços às populações,...”.
A Câmara Municipal de Lisboa tem em curso uma discussão pública sobre a reorganização do mapa administrativo da cidade, visando a redução de 54 para 24 freguesias, homogeneizando a sua dimensão territorial e demográfica, em nome de uma maior eficiência da acção das autarquias locais. Este facto e a actual crise financeira tem inspirado várias vozes, designadamente a do Secretário de Estado da Administração Local para a realização de uma Reforma Administrativa assente na redução do número de municípios e freguesias.
Aproveitando o facto de este ser o ano de novo Recenseamento Geral da População (Census 2011), poderemos aproveitar esse novo retrato da distribuição da população portuguesa para elaborar um novo esquema administrativo. O que não devemos é a) aceitar que sejam critérios meramente contabilísticos e financeiros a motivar e nortear esta nova “vontade” de mudar, e b) que esta súbita e drástica vontade de reduzir seja o caminho para um efectivo reforço da centralização do poder em Portugal.
Não sei se devemos ou não reduzir o número de freguesias. Contudo, parece-me que não se devem extinguir freguesias com relativa dimensão (3.000 ou mais eleitores), nem fazer fusões das grandes freguesias (mais de 40.000 eleitores). Se é verdade que não devemos aceitar a imposição da concentração de poderes em meia-dúzia de autarcas, também me parece que não devemos aceitar que existam em Portugal tantas freguesias que, tendo em conta o reduzido número de eleitores, são administradas por plenários. Não deveremos, por princípio, ter reservas e deveremos aceitar que se reduza ou aumente o número de freguesias e de concelhos, no sentido de alcançar o desejado equilíbrio entre a população e seu território.
Bem sei, sabemos, que o politicamente correcto é afirmar que as Juntas de Freguesia e, em concreto, os seus presidentes, são os pilares fundamentais da democracia portuguesa. Mas será verdade!? Será mesmo assim!?... Aceitar, concordar e defender esses pilares não é manter a actual situação, pois todos bem conhecemos a realidade de muitas autarquias e o desempenho de muitos presidentes de Junta de Freguesia: por um lado, estão presos pelo cimento e pelo tijolo ao respectivo presidente da Câmara Municipal, por outro lado, entendem o seu território como um feudo, onde gostam de se considerar donos e senhores. Temos que acabar com estas lógicas, com estes laivos medievais…
Não deveremos, sob o pretexto de defesa da democratização do poder local, defender o atavismo das lógicas enraizadas no poder local em Portugal, que aliás já existiam antes do 25 de Abril. Não será por acaso que, embora todos admitam a necessidade de reformar administrativamente o país, todos os discursos são extremamente cautelosos. É que uma coisa é teorizar e debater, outra coisa é implementar e explicar. Não tenho dúvidas que aí as resistências serão enormes. Não deveremos pois, também, menosprezar as questões imateriais: de identidades difusas e de sentimentos de pertença heterogéneos, que nalgumas localidades e regiões adquirem dimensões consideráveis e bem perceptíveis.
Um novo modelo administrativo, bem pensado, bem estruturado e bem reflectido poderá, para além do mais, acabar com os monopólios e os senhorios, e permitir novos espaços de influência e de novas e boas práticas de gestão autárquica.
(artigo enviado para o Jornal Nordeste)

27 fevereiro 2011

caros brinquedos

O Jornal Expesso revelou na sua edição de ontem um conjunto de documentos provenientes da WikiLeaks e relativos a Portugal. De todos eles, destacam-se os documentos relativos às nossas forças armadas e ao ministério da defesa. A correspondência entre o antigo embaixador dos EUA em Lisboa e o seu governo revela considerações pouco abonatórias e até mesmo insultuosas acerca dos nossos políticos e das nossas instituições militares. Contudo, importa salientar também o embaraçoso silêncio que tomou conta dos representantes dessas mesmas instituições. Não sei se significa a assunção da situação e o reconhecimento em tais palavras e adjectivações, ou se significa puro desprezo e perfeito alheamento dessas instituições pelo país civil. Em todo o caso, parece-me apropriado dizer que, para lá da actual celeuma, os nossos militares gostam de brincar com brinquedos caros, ainda por cima inúteis. Como bem afirma hoje em editorial o Jornal Público "...o silêncio significa que, mesmo sem ser integralmente rigoroso, o telegrama do embaixador Stephenson passará a ser integralmente verdadeiro".

23 fevereiro 2011

suburbana

Um destes dias, um amigo que pela primeira vez me visitava em casa, pediu-me para conhecer o local onde eu normalmente produzia o meu trabalho, o espaço que me permitia criar e a paisagem que me inspirava. Sem qualquer pudor e sem qualquer reflexão não hesitei em satisfazer-lhe a curiosidade. Depois, algum tempos depois, reflecti sobre esse estranho pedido. Num recurso a clichés quotidianos, seria bonito poder apresentar-lhe um espaço amplo, arejado e estupidamente limpo e arrumado, com abertura para um qualquer pedaço de céu relvado e com o mar ou a serra no horizonte. Mas não. Isso não está ao meu alcance. Apenas e só uma paisagem suburbana, recheada de elementos comuns e anónimos de grande urbe.
Em cima, a paisagem possível... que nunca me inspira, antes me desanima. Mas não me queixo.

22 fevereiro 2011

um dia hei-de lá ir...

Começa amanhã o 12º Encontro de Escritores de Expressão Ibérica na Póvoa de Varzim. Apesar da "crise", o município mantém a feliz iniciativa. Nunca estive presente, mas sei que um dia vou lá...

14 fevereiro 2011

ao espelho

03 fevereiro 2011

querer mas não poder ficar...

No inicio desta semana foi notícia o encerramento simultâneo de oito Serviços de Atendimento Permanente (SAP's) nocturnos na região de Trás-os-Montes. É lamentável. Portugal desistiu de substancial parte do seu território e, principalmente, desistiu dos portugueses que aí vivem - "a porta da rua é a serventia da casa" e as populações desta região, se não sabiam já, sabem que podem e devem procurar novos lugares para fazerem suas vidas. É triste que os critérios que justificam esta atitude do Ministério da Saúde sejam a lógica da racionalização dos recursos e meios e a lógica dos raciocínios económicos e financeiros, quando o que deveria acontecer era uma permanente e evidente preocupação com a qualidade e proximidade dos equipamentos e serviços de saúde junto de cada um e de todos os cidadãos de Portugal. Se o governo e o Estado querem rentabilidade que a procurem nos impostos que todos, repito, todos os cidadãos e também os transmontanos equitativamente pagam.
O cenário é desolador e cada vez mais deprimente. Mais deprimente fica quando se percebe a apatia, a indiferença e o silêncio da generalidade dos autarcas da região que de forma alguma se insurgiram perante esta atitude que ostensivamente prejudica as populações desta região. Muito mais deprimente fica quando se percebe que alguns desses mesmos autarcas, eleitos pelas populações, proferem declarações justificativas e desculpabilizadoras, tentanto argumentar acerca da sua (não)posição ou regateando com a tutela medidas compensatórias tais como ambulâncias, macas, lencóis, pensos e adesivos. Ridículo.

"que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar"

01 fevereiro 2011

já estou a Ler

solilóquio

[sms]
Pequenos nadas que me invadem o espírito e te trazem para bem perto e obrigam tua permanente presença. Sinto-te em cada nada e em todos os nadas. Isso faz-me bem.

29 janeiro 2011

é por isto que estamos como estamos...

A teoria do pós-imperialismo fala de uma emergente burguesia de executivos, uma nova classe social saída das relações entre o sector administrativo do Estado e as grandes empresas privadas ou privatizadas. Esta nova classe é composta por um ramo local e por um ramo internacional. O ramo local, a burguesia nacional, é uma categoria socialmente ampla que envolve a elite empresarial, os directores de empresas, os altos funcionários do Estado, lideres políticos e profissionais influentes. Apesar de toda a heterogeneidade, estes diferentes grupos constituem uma classe, "porque os seus membros, apesar da diversidade dos seus interesses sectoriais, partilham uma situação comum de privilégio socioeconómico e um interesse comum de classse nas relações do poder político e do controlo social que são intrínsecas ao modo de produção capitalista". O ramo internacional, a burguesia internacional, é composta pelos gestores das empresas multinacionais e pelos dirigentes das instituições financeiras internacionais. As novas desigualdades sociais produzidas por esta estrutura de classe têm vindo a ser amplamente reconhecidas mesmo pelas agências multilaterais que têm liderado este modelo de globalização, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. (Becket e Sklar, 1987, in Boaventura de Sousa Santos, 2005)
(negritos meus...)

28 janeiro 2011

de feiras e afins

- Edfeldt, Chatarina e Couto, Anabela Galhardo (org.), 2008, Mulheres que escrevem, mulheres que lêem, Lisboa, 101 noites;
- Silva, Rui Pedro, 2003, Contigo torno-me real, Porto, Edições Afrontamento;
- Menget, Patrick, 2001, Em Nome dos Outros, Lisboa, Museu Nacional de Etnologia e Assírio & Alvim;
- Revista da FCSH, 2006, Ciências Sociais (nº 18), Lisboa, Universidade Nova de Lisboa e Edições Colibri;
- Martins, Maria de Fátima da Silva Vieira, 2007, Mitos e Crenças na Gravidez, Lisboa, Edições Colibri;

25 janeiro 2011

especialidade da casa

Conhecido por estar aberto 24 horas por dia e durante praticamente todo o ano, tem fama de ser um templo para os invertebrados do jogo e para os rastejantes do álcool. O Dom Mário, localizado bem no centro de Macedo de Cavaleiros, é também famoso pelo seu ambiente acolhedor e pela qualidade e eficiência no atendimento a clientes e fregueses. Desconhecendo esta realidade, numa recente deslocação a Macedo, precisamente num dia em que toda a cidade descansava, entrei neste café para reconfortar o estômago. Mal encostado ao balcão fui de imediato atendido pelo, presumivelmente, "Dom" Mário. Tive apenas tempo de olhar para a pequena vitrine onde estavam expostos meia-dúzia de rissóis com aspecto razoavelmente apetitoso. Pedi então um rissol e uma cerveja. Solícito e comigo a apreciar saca de uma Superbock da arca, pegou num prato onde colocou um guardanapo e aproximou-o da vitrine. Acto contínuo, puxou do palito que trazia entre os dentes e com a extremidade humedecida por suas cáries dentárias, espetou com afinco um dos rissóis e colocou-o no prato, fazendo regressar ao aconchego da boca o dito palito, enquanto comenta:
- Ora aqui está! Estão muito bons...
- Ora pois. Quanto é?
- perguntei eu, sabendo que jamais iria comer tal petisco.

24 janeiro 2011

quatro anos de viagem

No dia do quarto aniversário deste blogue, resolvi inventar e tentar alterar a sua imagem. Não pretendia nada radicalmente diferentes. Maldita hora em que tive estapafurdia ideia, pois ao actualizar o layout perdi todas as formatações anteriores. Fiquei apurriado!.. De qualquer forma, consegui manter o essencial e todos os amigos e todas amigas que por aqui continuarem a passar não vão, com certeza, estranhar. Aproveitei para fazer uma limpeza geral, pois é sempre muito o pó inutil que se vai juntando com o passar do tempo. Assim, espero que possam continuar a partilhar comigo o meu e o vosso tempo. Obrigado. 

20 janeiro 2011

"Às vezes interrogo-me se não estarei a escrever romances só para me dar ao luxo destas referências apenas compreensíveis para mim mesmo, mas sinto-me como um pintor que retrate um pano adamascado e no meio das volutas, flores e corimbos, ponha - quase invisíveis - as iniciais da sua amada. Não importa se nem ela própria as note, os actos de amor são gratuitos." (Umberto Eco, 2003)

17 janeiro 2011

protagonismos

“A mudança pode começar aqui”
É lugar-comum dizer-se que vivemos um tempo de enormes dificuldades sociais e económicas, verdade indesmentível e dramaticamente sentida por milhares e milhares de portugueses, mas permitam-me que reajuste esse lugar-comum, dizendo que em Bragança vivemos um espaço de enormes dificuldades sociais e económicas, verdade indesmentível pelo abandono e desprezo geracional e crónico de Lisboa para com esta região, pelas estatísticas do desemprego regional e local, pela falta de investimento no sector agrícola, pecuário e florestal, pela falta de equipamentos e infra-estruturas e, principalmente, pela indiferença face ao drama humano e nacional que são os novos movimentos de emigração, que nos levam as novas gerações, criadas e formadas com o esforço colectivo, mas que agora não perspectivam qualquer hipótese de futuro em Portugal, tão-pouco em Bragança.
Deste lugar, distanciado do Terreiro do Paço, é por demais evidente e sentido este drama. É a tristeza de um presente precário. Sabermos que um dia teremos que partir porque pouco mais que nada deixaremos para trás. É triste. Mas estarmos aqui reunidos é sinónimo da nossa perseverança; nós não desistimos, continuamos a acreditar na nossa gente, na nossa cidade, no nosso concelho, na nossa região e no nosso país. Acreditamos num futuro…
Dr. Manuel Alegre,
Estamos aqui reunidos consigo porque se comprometeu com o Estado Social e nós defendemos o Estado Social e não aceitamos, nem sequer toleramos o ataque que alguns lhe pretendem infligir. Lutaremos sem fim pela sua manutenção ou existência;
Estamos aqui reunidos consigo porque partilhamos da visão de um país regionalizado e da necessidade de uma reforma administrativa;
Estamos aqui reunidos consigo porque queremos um Serviço Nacional de Saúde que garanta a universalidade e a qualidade dos serviços a prestar aos portugueses e às portuguesas;
Estamos aqui reunidos consigo porque acreditamos na Escola Pública com diversidade e propriedade, na qual o ensino é entendido e praticado com exigência e como garantia de justiça social e de igualdade de oportunidades para as novas gerações de todo Portugal;
Estamos aqui reunidos consigo porque é o único candidato que tem declarado com clareza e sem qualquer subterfúgio e sem ambiguidades o seu entendimento do que é ser Presidente da República no Portugal actual; Estamos aqui reunidos consigo porque sabemos que é necessário unir as esquerdas para conseguirmos uma segunda volta nestas eleições e assim derrotarmos a direita e o seu programa para o País – é que temos a memória e a consciência de que o nosso adversário da direita é o político português que mais contribuiu para termos chegado ao estado actual. Cavaco Silva é responsável, é político e tem escrito nas suas mãos o declínio social e económico do país nas últimas três décadas;
Estamos aqui reunidos consigo, acima de tudo, porque é necessário inverter o actual estado de total falta de credibilidade institucional com que as instituições nacionais, em geral, e os órgãos de soberania, em particular, são vistos e sentidos pelas ruas e seus cidadãos.
Precisamos de uma urgente e profunda alteração de paradigma nas ideias, nas políticas e na gestão da coisa pública. É tempo de relativizar e afastar dos centros de poder e de decisão a tecnocracia, a especulação e seus mercados - uma soberania nacional não pode, não deve estar manietada por tais lógicas e interesses; É tempo de recolocar no seu lugar, por direito e pela democracia republicana, a política, a ética, a cidadania, enfim as pessoas.
Para nós, Manuel Alegre é o cidadão, mais do que indicado, talhado para personificar esse desafio, essa vontade. Tal como diz o nosso candidato: “A grande arma de um Presidente é a palavra. As palavras ajudam a mudar a vida, ajudam a criar confiança e esperança.” É nosso dever, já no próximo dia 23, dar a essa arma um verdadeiro Presidente, dar a essa palavra a devida importância, a sua verdadeira dimensão. Vamos então, todos, elegê-la para a Presidência da República Portuguesa.
(intervenção no almoço de campanha de Manuel Alegre - Bragança, 17 de Janeiro de 2011)

(alguns desses momentos - em actualização)

R.I.P. Gaspar

As palavras ficam para depois.

solilóquio

O cachimbo é o símbolo da solidariedade social. Bem dizem que devemos ser solidários, portanto há que fazer uso do cachimbo. Eu uso-o, sou solidário.

16 janeiro 2011

instante urbano XIII

Pára-Arranca-Pára
Num qualquer parque de estacionamento presenciei o seguinte: dois automóveis estacionados frente um do outro prestam-se para sair dos seus lugares. Arrancam com toda a vontade, mas de imediato, apercebem-se do outro veículo e param repentinamente. Educadamente ambos dão prioridade, passe a redondância, um ao outro e voltam a arrancar os dois ao mesmo tempo, ficando, desta feita, praticamente encostados. Com um outro semblante voltam a dar-se prioridade um ao outro através de veementes sinaléticas. Ambos recuam uns centímetros e, a julgar pelo peso em cima dos aceleradores, já irritados e pela última vez, arrancam violentamente um contra o outro. Os danos não terão sido significativos, mas digno de registo foram as palavras que ouvi da boca das magníficas condutoras:
- Ó meu Deus!
- Meu Deus!? Não! Ó minha Senhora!...

14 janeiro 2011

"O desfecho histórico de qualquer choque entre deuses foi determinado por aqueles que empunhavam as melhores armas e não por aqueles que possuíam os melhores argumentos." (Peter L. Berger e Thomas Luckmann)

13 janeiro 2011

solilóquio

(algures na cidade de Barcelona e neste preciso momento)

- já chega. Tenho que ir embora...
- espera. Só mais um pouquinho...
- vou-me embora...
- ok, mas antes passemos numa loja qualquer que tenha um espelho...
- porquê e para quê?..
- para poderes ver como ficamos bem um ao lado do outro...
E foram.

11 janeiro 2011

solilóquio

chega-te para cá, dizes tu.
por que lado falta eu chegar-me a ti?
diz-me que eu vou, eu chego já...
a um  milimetro de ti, estarei perto?
qual a distância para podermos dizer aos outros?

09 janeiro 2011

solilóquio

- até já a minha mãe pergunta por ti...
- manda-lhe um beijinho meu e diz-lhe que eu adoro o filho dela...

07 janeiro 2011

solilóquio

o telefone que não toca... és tu (sou eu)
a mensagem que não chega... és tu (sou eu)
tu és

06 janeiro 2011

depressões

De tempos a tempos e por vezes regularmente sou informado ou dão-me ao conhecimento que fulano está com depressão ou que cicrana está num estado de profunda depressão, e eu não compreendo. O que é isso de estar com ou em depressão!? Será frustração, será trauma, será pessísmismo exacerbado, será falta de amor próprio, ou o seu excesso!? Será desiquilíbrio hormonal, mental ou libidinal!? Será esquizofrenia relacional, serão egos retorcidos, ou serão desestruturações!? Ou será um pouco de tudo isto!? Ou não será nada disto!?
É que segundo percebo daquilo que acontece com esses e essas que por perto vão caindo nesses estados existênciais, eu e a minha condição seríamos perfís ideais para essas experiências, que o pessoal tanto vai experimentando alternadamente com a sua mais-que-pouca lucidez. Feliz ou infelizmente nunca tal experimentei. O que me terá faltado, ou o que me faltará para o vir a experimentar, desconheço.
Aquilo que sou não é facilmente acessível, até para mim próprio. Para tal é preciso que eu pare, detenha a contínua espontaneidade da minha experiência e, de modo deliberado, faça incidir a minha atenção sobre mim próprio - nem sempre fácil. Sei, porque sinto, que há dias bons e outros menos bons e que assim será para o meu sempre, mas daí até poder dizer que estou em depressão...
Cá para mim (desculpem-me os demais...), grande parte desses casos não passam de estratégias para reclamar determinadas atenções. São meros subterfúgios, uns mais outros menos públicos, de egoísmos que à solta, por aí andam. Disse.

05 janeiro 2011

instantes urbanos XII

Verborreia Masculina
Neste final de tarde, agora princípio de noite, aguardo pacientemente o resto da família num cafézito bem perto do antigo campo do Vilanovense, em Gaia. Quando entrei no café este estava vazio, mas logo depois de mim entrou um outro indivíduo que, ainda na rua, em alta voz e num tom jucoso, começa a falar para cá para dentro. A conversa com o dono do café prossegue sem sequer se preocuparem com a minha presença. Eu, na minha insignificância, vou lendo, ou pelo menos tentando... Distraído daquilo a que me propus inicialmente, logo percebo que o indivíduo que entrou é médico, pois queixa-se da crise que também já afecta as consultas de pediatria. Os dois interlocutores demonstram significativa intimidade e cumplicidade. A conversa, à boca cheia, quase à desgarrada, era acerca das aventuras sexuais de cada um deles (não estranharia nada que nalgumas situações em simultâneo...) com mulheres brasileiras. O médico, pelo discurso, era daqueles cuja líbido não cabe nos poucos centímetros de pénis que possui, pois para além da cagança no timbre de voz, dizia-se até preocupado com o seu enorme charme e sucesso junto do sexo oposto e com o permanente assédio que sente da parte, principalmente, das mães dos seus pequenos pacientes. É que lhe têm causado enormes trantornos e situações desagradáveis. Inclusivé, diz-se farto de avisar a sua própria mulher que se sente uma vítima da enorme exposição pública e que não pode impedir as mães de se apaixonarem por ele. Será portanto natural ter tantas mensagens amorosas no seu telemóvel... O outro vai-se rindo, e ainda por cima de boca aberta, néscio, concordando com tudo aquilo que ouve. Ficámos todos a saber os seus (do médico) gostos e desejos: tipo de mulher, estatura, étnia e geografia de proveniência, pois tudo isto será fundamental para este doutor que garante que o desempenho das fêmeas é diferenciado. E nada como ir ao Brasil e experimentar in loco uma verdadeira picanha, uma maminha e respectiva caipirinha... Confesso que toda esta verborreia, encharcada de líbido, me incomodou e por momentos hesitei se deveria ou não levantar-me e sair, mas acabei por ficar a escrevinhar estas linhas e, em definitivo, esquecer o texto que trouxera para ler. A conversa só se dignificou no momento em que uma senhora assomou à porta, ameaçando entrar. Aí, um deles adevertiu: "Cuidado!"

''Habitación en Roma''

Vi este filme ontem à noite e fiquei arrebatado. Duas mulheres e um quarto de hotel. Bonito. Pela história, pelas mulheres, pela realização e principalmente pela banda sonora, do qual se destaca este "Loving Strangers". Procurem-no e vejam. Atenção mentes mais sensíveis...

04 janeiro 2011

refúgio de mim

Cada vez mais e com maior intensidade. Só ela me permite alhear de toda a circunstância existêncial. Envolvente, implica-me e leva-me para um outro estado mental e essa ausência de mim faz-me sentir muito bem num qualquer nirvana. Simultaneamente, esse abraço que me dá, obriga-me a um esforço e um desgaste suplementar que, nalguns momentos é pura dor e, quase sempre, sofrimento. Como custa chegar até ela!.. Apesar de tudo é terapêutica e serve-me ao segundo para não desencantar definitivamente o meu tempo. Por isso digo, preciso e quero sempre mais. Ela é o meu refúgio, ela é a escrita.

contra-natura

Consegui ver a imagem no noticiário das 20 horas e aí percebe-se nitidamente e melhor que aqui a estranheza deste momento, em que Cavaco Silva sobe ao tejadilho de um automóvel. Foi estranho, muito estranho...

deriva europeia

No início de mais um ano que se prevê longo e difícil, perscrutando à minha volta, que é como quem diz, olhando para esta imensa europa, não posso deixar de referir aquilo que se percebe estar a acontecer: a deriva à direita que todos, ou quase todos, os estados europeus estão a realizar e que, nalguns casos, poderá levá-los até às reminiscências de fascismos e de totalitarismos. Para além dos já conhecidos e patéticos casos da Itália e da França, outros se preparam para trilhar o mesmo caminho - Holanda, Dinamarca, Inglaterra, Suécia e Hungria, apenas para referir alguns exemplos. Mesmo em Portugal já todos adivinham o que poderá ainda este ano ser um novo governo do PSD, mas também e se olharmos para a Comunicação Social, a tal "Português Suave", não poderemos deixar de reparar que toda ela é tendêncialmente de direita. Mais, tal como nos diz Eduardo Pitta no seu blogue, "A opinião publicada tornou-se um feudo da direita".
Ainda que a custo, assuma-se que a esquerda europeia, enquanto governo e poder, não assumiu as suas responsabilidades e nunca foi além do discurso fácil da integração e do multiculturalismo. Fazer crescer a Europa para limites inatangíveis e inimagináveis até há bem pouco tempo, terá sido uma ambição desmedida e ter acreditado que nesse espaço caberiam todos e mais alguns, terá sido uma quimera, que agora e só agora começamos a perspectivar e em sobressalto a desconstruir.
Ao contrário do que disseram e, pior, dizem muitas dessas esquerdas, as pessoas precisam, desejam e querem segurança para as suas vidas e relativizam, desdramatizando, a origem ou a fonte dessa segurança. Em verdade, preferem perder liberdades, a sua liberdade, assim como grande parte da sua cidadania, mas sentirem-se confortáveis e tranquilas, afastadas das sensações de eminente crime vádio e de latente violência social.
Atenção às tendências europeias, não são casualísticas nem são conjunturais e as esquerdas do que resta desta Europa serão sempre e grandemente responsabilizadas pela história. Veremos.

02 janeiro 2011

LER de Janeiro

Aproveitando o não-dia que foi ontem, li com todo o vagar a revista LER de Janeiro que se dedica quase exclusivamente à tão badalada "crise". Está bem preenchida, apesar do tema central e numa primeira abordagem me afastar os sentidos. Gostei deste número, especialmente da Diacrónica, do Diário de Ocasião, do Folhetim de Polémicas Literárias assinado por Fernando Venâncio, do texto de José Mário Silva e da excelente entrevista de Carlos Vaz Marques a Manuel Villaverde Cabral.
Notáveis passagens e alguns excertos:
“Crise é o momento da decisão, momento de a tomar ou de ser ela tomada: em que se promete a solução, e enfim o sofrimento duma maneira ou de outra acaba. Eis por que motivo a crise é afinal um estado de ânimo propenso à acção e consequentemente à… felicidade. As pessoas, como se sabe, ficam mais felizes quando se mexem.” (Abel Barros Baptista)
“Tenho dúvidas. Gosto de ter livros ao pé de mim; não sei se isto se passa consigo, mas eu conservo esse pecado, o egoísmo dos livros. Frequento bibliotecas, mas, mesmo nessas circunstâncias, torno-me «proprietário» ficcional dessas bibliotecas e desses livros. Não estou a ver-me proprietário de uma «nuvem» (a propósito do serviço GoogleBooks, lançado em Dezembro nos EUA) que, ainda por cima, não existe fisicamente. Onde é que vou deixar bilhetes e rasuras? Um mistério, outro mistério. A nossa vida está a mudar muito rapidamente e sinto-me um reaccionário tremendo.” (Francisco José Viegas)
Excertos da excelente entrevista de Carlos Vaz Marques a Manuel Villaverde Cabral:
“A crise que estamos a atravessar tem uma dimensão para além da económica e política – quer dizer, vê-a também já numa dimensão cultural, em sentido lato?
Mesmo fora de Portugal vejo pouco discurso alternativo credível. Os discursos alternativos que eu vejo não são credíveis. O meu colega Boaventura Sousa Santos é, aliás, a nível internacional, uma voz que propõe uma globalização alternativa.
A chamada «altermundialização».
Uma globalização contra-hegemónica e outro tipo de terminologia do género. É algo que admito que tenha ressonâncias na América Latina – onde ele realmente pratica essa influência – mas muito sinceramente não creio que aquele discurso se aplique à Europa.
Não há portanto, do seu ponto de vista, um modelo cultural que possa suceder àquele em que vivemos.
Eu não o vejo. O que emergiu imediatamente foi – até ao nível daquilo a que se chama agora a «nova economia política», portanto dos economistas que se pretendem alternativos – um discurso que tem tanto menos êxito quanto menos prospectivo é. Manifesta-se sobretudo pela defensiva, pela preservação dos adquiridos. Houve uma ideia – aliás, o nosso primeiro-ministro, que é esperto, chegou a falar nisso – que era a de um regresso ao keynesianismo.
Com a intervenção do Estado para segurar a economia.
Exactamente. Uma intervenção legitimada a nível ideológico – e o aspecto ideológico tem sempre uma âncora, uma referência ou quanto mais não seja um auditório sociocultural. Em Portugal, a audiência mais interessante, mais dinâmica, mais prospectiva desse discurso, que durante um certo momento pareceu poder funcionar como alternativo, será o povo do Bloco de Esquerda. É sem dúvida, sociologicamente, o partido com o mais alto grau de instrução; e se calhar também de rendimento. Ou seja, se há elites alternativas, no melhor sentido da palavra, não só em termos políticos mas também culturais, estão aí.
(…)
…podemos regressar a um discurso artístico mais interveniente em termos sociais?
Nunca mais vamos regressar nem ao surrealismo quanto mais ao neo-realismo. Não voltaremos a ter grandes movimentos. A nossa época não consente isso. A nossa sociedade é demasiado complexa. Danilo Zolo diz: «a nossa sociedade é demasiado complexa para ser gerida por um sistema tão tosco como o voto.» Não quer dizer que seja mau, é grosseiro. Nem os governantes, quanto mais os eleitores, têm consciência de toda a complexidade dos problemas.
(…)
a cultura baseada no livro parece-lhe ameaçada.
A leitura de livros acrescenta. (…) As pessoas que lêem vão sempre distinguir-se das outras e terão sempre o seu nicho de mercado. Uma coisa lhe digo: nada activa mais o neurónio do que a leitura.
(…)
O que parece de facto é que é consagrado muito pouco tempo ao esforço da leitura. Temos um grande problema: repare, o nosso atraso em relação aos países escandinavos é de mais de cem anos.
Um atraso em termos culturais?
Em termos educativos. Nós ainda estamos a ensinar a ler a crianças cujos pais não sabem ler. A pretensão da escola de fazer tudo – o que as famílias faziam, o que a sociedade deveria fazer – é que está a matar a escola."
“Na verdade, espero que o romance do século XXI não seja escrito só no século XXII. Porque gostava mesmo de o ler – seja em papel, a partir da «nuvem» ou noutro sistema qualquer que ainda esteja por inventar.” (José Mário Silva)

“Recuso-me a balanços. Dão-me enjoos. São ridículos. Papel que podia ser gasto para se pensar em alguma coisa.” (Inês Pedrosa)
Sugestão para adquirir e ler: o mais recente título de Onésimo Teotónio Almeida “O Peso do Hífen – ensaios sobre a experiência Luso-Americana”, editado pela Imprensa de Ciências Sociais.

Báu da Memória IV

encontrada no fundo de uma gaveta amiga

espelho

01 janeiro 2011

26 dezembro 2010

sempre simpáticos e presentes

Chegados nos últimos dias, principalmente nas vésperas de hoje:
- Berger, Peter L., 2004, A Construção Social da Realidade, Lisboa, Dinalivro;
- Rosa, Maria João Valente e Chitas, Paulo, 2010, Portugal: os números, nº 3 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Eco, Umberto, 2005, Dizer quase a mesma coisa sobre a tradução, Miraflores, Difel;
- Santos, Boaventura de Sousa (org.), 2005, Globalização - fatalidade ou utopia?, Porto, Edições Afrontamento;
- Clifford, James e Marcus, George E., 1986, Writing Culture, Londres, University of California Press;

24 dezembro 2010

as mulheres na minha vida

Foram e são poucas e quase sempre as mesmas. Lugar primeiro e último da minha existência, preciso tanto delas que não me imagino a viver sem as ter por perto. É essa proximidade que sustenta os pilares da minha estabilidade física e, acima de tudo, emocional. Ainda que não se faça sentir ou seja facilmente perceptível, acontece que são minhas e eu preciso saber isso. Sempre as reclamei com propriedade, com desfrute e com egoísmo, ainda que me julgue consciente de que serão, obrigatoriamente, partilháveis. Essas mulheres de quem eu tanto gosto têm nome próprio, mas isso não importa, pois Mãe, Mulher, Filha e Amigas serão sempre insubstituíveis e partilharão o meu tempo e espaço de mundo. Com o pensamento nelas.

23 dezembro 2010

22 dezembro 2010

imaginação democrática e presente

O trabalho de tradução permite criar sentidos e direcções precários, mas concretos, de curto alcance, mas radicais nos seus objectivos, incertos, mas partilhados. O objectivo da tradução entre saberes é criar justiça cognitiva a partir da imaginação epistemológica. O obejctivo da tradução entre práticas e seus agentes é criar as condições para uma justiça social global a partir da imaginação democrática.
(...)
O Objectivo do trabalho de tradução é criar constelações de saberes e de práticas suficientemente forte para fornecer alternativas credíveis ao que hoje se designa por globalização neoliberal e que não é mais do que um novo passo do capitalismo global, no sentido de sujeitar a totalidade inesgotável do mundo à lógica mercantil. Sabemos que nunca cconseguirá atingir integralmente esse objectivo e essa é talvez a única certeza que retiramos do colapso do projecto da modernidade. Isso, no entanto, nada nos diz sobre se um mundo melhor é possivel e que perfil terá. Daí que a razão cosmopolita prefira imaginar o mundo melhor a partir do presente. Por isso propõe a dilatação do presente e a contracção do futuro. Aumentando o campo das experiências, é possível avaliar melhor as alternativas que são hoje possíveis e disponíveis.
(...)
O novo inconformismo é o que resulta da verificação de que hoje e não amanhã seria possível viver num mundo muito melhor.
(Boaventura de Sousa Santos, 2002, Revista Crítica de Ciências Sociais)

21 dezembro 2010

ideias e palavras

Em Janeiro, a escolha é muito clara. Começamos a mudança ou continuamos de braços cruzados à espera que o céu nos caia na cabeça? Contentamo-nos com a resignação tecnocrática ou votamos numa visão política, positiva, de transformação? Apoio Manuel Alegre porque está na hora de voltar a acreditar na política e na mudança. De voltar a viver a política como um lugar próximo de todos, um lugar de verdade e ideias apaixonadas. Não venceremos nenhuma crise com menos do que isto. Para pôr Portugal no futuro, temos de voltar às ideias que sonham e às palavras que transformam, e fazer da política aquilo que ela é: a viva possibilidade de um sempre-começo. (Jacinto Lucas Pires, in Jornal Público - 20/12/2010)

16 dezembro 2010

à boa e antiga maneira

Bem sei que o seu aspecto não é minimamente interessante, mas acreditem que o sabor é divinal. Falo-vos dos "velhinhos" rojões feitos ao jeito da minha avó e de todas as avós de Vila Boa. Aproveitando a carne da barriga e da barbada do porco, fazem-se no pote ao lume, apenas com a gordura da própria carne. Uma especialidade que, infelizmente, ao longo dos anos tem vindo a desaparecer da minha vista e do meu paladar.
Hoje, ao chegar a casa, fui surpreendido por esta amostra vinda directamente da aldeia, especialmente para mim e para o meu pai, ou melhor e para dizer a verdade, especialmente para o meu pai e, depois, um pouco para mim e demais família... Mas como são bons. Era capaz de acabar com eles de uma vez só. A sério. Que rica merenda, três rojões bem entremeados, um naco de pão de trigo e dois copitos de tinto. Está feito. Amanhã há mais, ou não...

09 dezembro 2010

não-ditos

Facilmente revejo os dias de agora como dias de não-ditos, esses processos de integração semântica não explícita que se encontram silenciosamente inscritos nas práticas comunicacionais quotidianas. Resmas de conhecimentos implícitos que não são falados, porque não é preciso, porque se receia, porque não se acredita. É todo um mundo de associações semânticas, narrativas e definições que, apesar de raramente serem explícitas, influenciam surdamente e dirigem silenciosamente as formas como os indivíduos fazem uso das suas vidas e dos seus mundos, num processo contínuo paradoxal de desestabilização e/ou de consolidação identitária.

04 dezembro 2010

lida e bem

Nesta manhã de Sábado e aproveitando o aconchego de um café na cidade gelada de Bragança, lí de fio a pavio a revista Ler. Muitos e bons momentos - pensamentos, reflexões e escrita, dos quais destaco e sublinho as seguintes passagens:
"Quando nos cansarmos de ser educados por uma profissão, talvez possamos finalmente almejar a formar pessoas, gente."André Gago (no Sofá)
"Trinta por cento dos alunos de Letras acham que ler é um sacrifício. E é um esforço inglório. Há coisas mais saudáveis. O mundo mudou todo. Não me apetece mexer um dedo por causa disso. Seremos ilhas. Estaremos trancados entre muros. Coleccionaremos excepções. Aqui e na blogosfera há leitores muito especiais, e se calhar são esses que interessam, leitores muito especiais. Tudo isto é por causa das estatísticas, mas cada vez mais gente a ler era bem capaz de ser um absurdo." Francisco José Viegas (no Diário de Ocasião)
"O que eu acho que um escritor sério deve fazer sempre é livros sérios. Não interessa o escritor, interessam os livros. Um livro sério é um livro que quer interferir com as pessoas. É um livro que não é para aquela semana. Há aqui um combate muito forte com o mundo em que nós estamos - que já não é semanal nem diário, que com a internet é ao segundo, uma coisa quase brutal. Um dos grandes combates actuais é o combate entre a actualidade e o importante. (...) Estamos num mundo em que a questão do actual e do importante se joga minuto a minuto. (...) O problema é que esta lógica da velocidade é uma lógica opressora. A grande velocidade é muito violenta."
"... o livro é uma coisa absolutamente extraordinária. É de outro mundo e de outro tempo. O livro é outro ritmo: não é para aquele minuto, não é para aquele dia, não é para aquela semana. Nesse aspecto, tem de se lutar para se mostrar que o livro é de outro tempo. (...) Os livros sérios dizem-nos: «Calma, mais devagar, há outros ritmos possíveis.» O livro é o objecto de culto da lentidão."Gonçalo M. Tavares (entrevistado por Carlos Vaz Marques)
"Os tempos não são exaltantes, a mediania domina, as expressões que definem cada dia não nos conduzem demasiado longe. Contudo, continua a escrever-se poesia. Porque, como sugeria Luíza Neto Jorge, a poesia ensina a cair." Eduardo Prado Coelho (in A Poesia ensina a cair)

29 novembro 2010

verbo, despir

"A redução do homem à vida nua é hoje a tal ponto um facto consumado, que é essa doravante a base da identidade que o Estado reconhece aos seus cidadãos. Como o deportado de Auschwitz já não tinha nome nem nacionalidade e doravante era somente o número que lhe fora tatuado no braço, assim também o cidadão contemporâneo, perdido na massa anónima e equiparado a um criminoso em potência, não é definido senão pelos seus dados biométricos e, em última instância, por uma espécie de antigo fado tornado ainda mais opaco e incompreensível: o seu ADN." (p.68)
Aproveitando os dias do aderente da FNAC (26 e 27 de Novembro) adquiri este livro de Giorgio Agamben, filósofo italiano que já aqui apresentei, referi e citei. Neste pequeno livro, o autor reúne um conjunto de ensaios relacionados com os temas que usualmente investiga. Uma escrita simples e cativante, recheada de etnografias e anotações de costumes contemporâneos, que não só facilitaram como motivaram à leitura intensiva, quase sem interrupções.
Deste mesmo autor já conhecia "Profanação" e "Homo Sacer", falta-me conhecer uma das suas principais obras - "Estado de Excepção" (2003), que desconheço se está sequer traduzida para português. Aguardo impaciente essa edição.

25 novembro 2010

jornal de notícias

Aqui há uns tempos e quando preste a embarcar no compoio para Lisboa, o meu pai dá-me o Jornal de Notícias (JN) para as mãos, dizendo: "Leva-o que eu já o desfolhei". Nestas palavras entendi que nem sequer o chegou a ler e que eu também poderia assim fazer, desfolhá-lo nem que fosse para me entreter durante a viagem. Assim fiz e logo me veio à consciência que, apesar de muito tempo que já passara desde a última vez que o desfolhara, muito rapidamente me reconheci na sensação de familiaridade e no JN de sempre. Por outro lado, a verdade é que de cada vez que o olho, o desfolho e, em pequena percentagem, o leio, não deixo de me espantar com a quantidade de notícias locais, tais como: casos de polícia, tribunais e justiça popular, roubos e assaltos, parricídios e suicídios, violações e pedofilias, entre outras. Enfim, toda a parafernália que, sem dúvida, será o retrato do país e da sociedade em que vivemos, mas que reduz a realidade a essa tragédia humana e que a linha editorial tablóide do JN, pela quantidade e pela (fraca) qualidade da "notícia", transfigura e relativiza, tomando essa mesma realidade miserável e sofrível, suportável aos olhos e sentidos do leitor deste diário nacional.

presunção e água benta...

Não sei como adjectivar alguém que numa primeira entrevista de selecção afirma: "sou competente, sou rigoroso e sou multi-versátil naquilo que faço". Que lata do caraças, mas haverá alguém que, nessa circunstância, se apresente como incompetente e pouco rigoroso naquilo a que se propõe ou candidata!?...

24 novembro 2010

a pensar...

Agora, o mundo deveria era perguntar ao tempo, quanto tempo o mundo ainda tem.
Depois, a resposta que o tempo desse ao mundo, seria o tempo certo que ao mundo resta.

23 novembro 2010

do melhor que se pode fazer

Quando se assinalam 20 anos sobre a morte de Michel Giacometti, o Jornal Público lança colecção dedicada à obra deste "apostolo do cancioneiro tradicional e popular português". São 12 livros-dvd com a reedição da sua grande obra "Povo que canta", mais extras. O primeiro livro-dvd saiu ontem, dia 22 de Novembro, e é, sem dúvida, uma grande iniciativa que não se pode perder. Com o Público à 2ª feira.

17 novembro 2010

ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos


Eram muitas e excelentes as referências à colecção de ensaios promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, presidida por António Barreto. Uma colecção que se propõe, através de textos simples e acessíveis - linguagem e preço, apresentar temas relevantes para a sociedade portuguesa. Tal como é dito pela Coordenação da colecção: "conhecer Portugal, pensar o país e contribuir para a identificação e a resolução dos grandes problemas nacionais, assim como promover o debate público. O principal desígnio desta colecção resume-se em poucas palavras: pensar livremente.". Neste momento estão editados sete títulos e eu já adquiri seis deles. Títulos para guardar e mais tarde consultar. Sem dúvida, uma iniciativa com valor e interesse.

novos registos

Como já desde o mês de Julho não actualizava a minha biblioteca, aqui ficam os últimos títulos carimbados:
- Costa Andrade, Francisco, 2010, Destinos Jogados em Vidas a Salto, Carção, edição do autor - oferta;
- Wood, James, 2010, a mecânica da ficção, Lisboa, Quetzal Editores;
- Vasconcelos, J. Leite de, 2005, Antroponímia Portuguesa (versão facsimilada), Lisboa, Arquimedes Livros;
- Ferreira, Luis e Canotilho, Luís, 2006, 100 anos da linha do Tua, Bragança, Edição Inatel;
- Vieira, Maria do Carmo, 2010, O Ensino do Português, nº 1 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Amaral, Luciano, 2010, Economia Portuguesa, nº 2 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Saldanha Sanches, José Luís, 2010, Justiça Fiscal (com nota biográfica), nº 4 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Justino, David, 2010, Dificil é Educá-los, nº 5 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Morgado, Miguel, 2010, Autoridade, nº 6 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Brito, Miguel Nogueira de, 2010, Propriedade Privada, nº 7 Colecção Ensaios, Lisboa, Edição Francisco Manuel dos Santos;;
- Gilbert, Elizabeth, 2010, Comer, Orar, Amar, Lisboa, Bertrand Editora;

03 novembro 2010

Ler nº 96

vamos ler...

13 outubro 2010

"bem falado"

"Na guerra que estamos a viver o neo-liberalismo está a ganhar. E quando as pessoas começarem a reagir aos efeitos da razia os guiões disponíveis serão os do nacionalismo e das ideias extremistas." Miguel Vale de Almeida, in Os Tempos que Correm 

12 outubro 2010

acabadinho de chegar

Depois de correr os livreiros e alfarrabistas da cidade do Porto e nada conseguir, tentei, através da internet, nos livreiros e alfarrabistas da capital, encontrar este clássico datado de 1928. Consegui esta versão facsimilada de 2005, na Arquimedes Livros Lda. Encomendei-a no dia 7 de Outubro e já chegou à minha caixa do correio (dia 12). Agradeço ao Sr. Júlio Carreira a rapidez e a simpatia. Assim, para além de alimentar o meu prazer de adquirir livros (os meus livros...), evito ter que me deslocar para a Biblioteca Pública Municipal do Porto.

11 outubro 2010

08 outubro 2010

sob rasura

As medidas de austeridade recentemente anunciadas pelo Primeiro Ministro e pelo seu Ministro das Finanças vieram definitivamente consolidar a ideia de incompetência e de alienação que a generalidade dos portugueses tinham em relação a este governo e aos seus membros. Tudo aquilo que nos tem sido dito, ao longo destes últimos anos, não existia, não acontecia e não era. Aquilo que não nos diziam, existia, acontecia e era. Portugal viveu (e vive) assim, distorcido de si mesmo. Neste momento, concerteza, não haverá um único português que não se questione e não receie tudo o quanto ainda poderá sofrer num futuro próximo – ainda nos últimos dias, confrontado com a previsão de uma recessão portuguesa em 2011, realizada pelo FMI, o Ministro Vieira da Silva assobiou para o lado, dizendo que esse organismo já anteriormente se enganou em relação às previsões para Portugal e, portanto, esta previsão será apenas mais um engano, claro. Face à violência de tudo aquilo que foi anunciado, curiosa (ou não) é a atitude dos órgãos de comunicação social que, num frenesim diário, vão difundindo em massa a inevitabilidade desse nosso “fado”.
Ao analisarmos toda a estranheza da linguagem utilizada e da própria acção dos nossos governantes, chegamos à conclusão que temos sido governados sob rasura. E o exercício é simples, José Sócrates e os seus pares, estrategicamente, escolhem um assunto ou uma expressão que pretendem analisar, colocando um X sobre ela, como que colocando-a entre parênteses. Esse assunto ou expressão não deverá ser mencionada, mas será preciso mencioná-la se quiserem transmitir a mensagem em questão. Sem essa expressão, a ideia a ser transmitida fica incompleta ou perde o sentido. No entanto, essa mesma expressão é suficientemente problemática para ser evitada. Portanto, evita-se. Esta situação agrava-se quando se trata de questões estranhas ou não familiares ao Eng. José Sócrates, pois a sua (in)cultura política, o seu desdém social e a sua ignorância sectorial de todo um país, levam-no à abstracção: É como se determinados assuntos não estivessem cá e não existissem, mas a verdade é que estão, sempre estiveram e como marcas da ausência de uma presença.
Enquanto pacifista que sou e não querendo abusar de um tom excessivamente confessional, é nestes dias e horas, estrampalhadas, que recordo e invejo o “pêlo na benta” do povo grego. Tal como eles têm feito amiúde, nós também nos deveríamos insurgir contra aquilo que nos impingem. Também nós deveríamos sair para a rua e parar o país. Também nós deveríamos inverter o ónus da dívida e da crise – vejam como Faria de Oliveira, Presidente da Caixa Geral de Depósitos, depois do anúncio de novo imposto sobre as entidades financeiras, vem a público e despudoradamente afirma que “evidentemente” esses custos recairão sobre os clientes. Também nós deveríamos reclamar aquilo que é nosso por direito. Estranha e incompreensivelmente optamos por ficar em casa, passivamente, enquanto uma dúzia de facínoras vai ditando as suas leis e, com isso, a inevitabilidade de subtrair aos demais cidadãos a sua existência. Evitável.
(enviado para o Jornal Nordeste - editável em 12 de Outubro de 2010)

05 outubro 2010

centenário da república portuguesa

Nesta data particular em que assinalamos 100 anos sobre o 5 de Outubro de 1910, a República não se deve resumir à contemplação estática do passado, enumerando todas as suas virtudes e/ou todos os seus defeitos. Querendo aqui transpor o domínio da retórica fácil das evocações nostálgicas, poderemos iniciar por questionar:
- O que foi a República?
Já Antero de Quental respondeu, advertindo:
“A República não é somente o direito abstracto e filosófico proclamado com paixão aos ventos do vago céu da história; é o direito económico, fiscal, administrativo, prático e palpável, realizando-se palmo a palmo, visivelmente, experimentalmente, na sociedade de cada dia, na vida de cada hora, no indivíduo como na colectividade, encarnando nos factos e movendo-se como a realidade mais palpitante.”
Terá sido um período de desmando, uma vertigem anómica, uma “anarquia” que Portugal vivenciou durante dezasseis anos, ou pelo contrário, um regime cuja obra se apresenta plena de virtudes, com dirigentes veneráveis, misto de visionários e intelectuais cuja acção teria sido tolhida por ventos adversos… Estas têm sido as posições sustentadas, por um lado, pela historiografia estadonovista, e por outro, pelos hagiógrafos da República.
São ângulos de visão que têm hegemonizado a análise do tempo republicano, colocando, naturalmente, escolhos no caminho a percorrer para a compreensão deste riquíssimo período da história de Portugal.
Compreender até que ponto a actual democracia portuguesa é herdeira legítima de uma fibra republicana, é recuperar uma memória identitária forjada na combustão de um ideário que se foi afirmando até ser poder e quando poder se cumpriu e incumpriu, mas se manteve enquanto corpus ideológico, enquanto património político que atravessa todo o século XX português.
A análise da sociedade portuguesa contém marcas indeléveis desta persistência do pensamento republicano no tecido ideológico da democracia.
Da República recebemos o Estado laico, bandeira liberal contra a confessionalidade da Monarquia Constitucional, que outorgava à igreja católica uma omnipresença visível no quotidiano português. Omnipresente no desempenho de funções administrativas, na ascendência que a hierarquia católica, apostólica e romana tinha sobre o Estado, na autoridade eclesiástica que se fazia sentir com o peso e o treino de séculos.
A laicização da sociedade portuguesa era perspectivada como condição sine qua non para a vitória do progresso, da modernidade, meta alcançável apenas quando o país se conseguisse libertar da atávica influência do clero obscurantista, retrógrado, apegado ao atraso e por ele responsável.
Ao Estado laico assacava-se ainda a responsabilidade da completa transformação que a República perseguia, a metamorfose civilizacional do analfabeto, incapaz de protagonizar uma cidadania republicana, num outro sujeito histórico, capaz de ler o mundo, com novos direitos e deveres a traçarem novas formas de vida social. A concretização desta alquimia cultural e cívica ficaria a cargo da educação, uma educação que se queria massiva, generalizada, mensageira de uma nova sociedade, com um papel central no modus vivendi das diferentes comunidades que compunham o grande fresco da sociedade portuguesa do início do séc. XX.
Há já muito que a propaganda do Partido Republicano vinha preparando, e mais que isso, concretizando essa vocação educacional. O destaque ía para a “Educação Nova” que mais tarde, já regime, a República iria levar por diante, ainda que se tenha ficado muito aquém do que era proposto, não só quantitativamente, mas também sob ponto de vista da qualidade do ensino, dado o objectivo minimalista da alfabetização.
Por outro lado, a ética republicana de serviço público ocupará um lugar de destaque na ecologia política deste novo tempo. O primado do público sobre o privado, as regras de rigorosa democratização da vida interna do partido impondo a rotatividade dos cargos, bem como a realização anual de congressos decisórios, vão ser, entre outros, aspectos estruturantes desta ética procedimental de que a democracia portuguesa se reclama, não obstante a efectiva prática política com que hoje nos deparamos.
Haverá, seguramente, outras impressões digitais impressas na substância da democracia que hoje vivemos. É que um projecto global de mudança social e política, como a República pretendeu ser, não se dissipa com facilidade, mesmo com o sopro feroz de uma ditadura.
Que a República viva.
(intervenção Sessão Solene da República - Assembleia Municipal de Bragança - 5 de Outubro de 2010)

02 outubro 2010

95ª LER