09 junho 2009

concurso cronistas - 5º desafio

Desafio:
Prezado Cronista,
Nem só de grandes fatos se faz a crônica do nosso tempo, aliás, os pequenos acontecimentos têm o condão de simbolizarem melhor o homem e seus impasses nestes nossos conturbados dias que as grandes manchetes dos jornais,
Gosto de dizer que a crônica expressa o que foi manchete na alma do cronista naquele dia,
Pois bem... Abaixo relacionei 32 acontecimentos dos nossos tempos. Qual deles daria uma boa manchete em sua alma?
Escolha um dos temas e envie como de costume para esta redação!
Aguardo ansioso!
O Editor

Escolhi:
Idosos acusados de feitiçaria estão a ser "enterrados vivos" na província angolana da Lunda-Norte, denunciou esta terça-feira o bispo D. José Imbamba .
Em declarações à Lusa, o bispo da Lunda-Norte disse que o número de casos envolvendo estas práticas não é ainda "alarmante", mas é "muito preocupante", adiantando que "em alguns casos", estas pessoas são enterradas "com os cadáveres daqueles a quem acusam de ter morto por feitiço". "O último caso ocorreu há 15 dias, mas graças à intervenção de um grupo de catequistas, o velho, que já se encontrava preso e a caminho do cemitério, foi salvo", informou o prelado.

Crónica:
áxis mundi
A sociedade ocidental, fortemente influenciada pelo positivismo, ainda hoje vive agarrada à ciência convencional, que na sua pressa pelas descobertas e na sua voracidade pelo conhecimento, objectivo santo e sacro da “boa” ciência, esquece com facilidade tudo ou parte daquilo que a precedeu, fundou ou fundamentou e permitiu evoluir até ao estado presente.
Quando somos confrontados com notícias como esta vinda do coração de África, normalmente apresentadas em notas de rodapé jornalístico e consideradas, pelos órgãos de comunicação social, bizarrias de um outro e imaginário mundo, o nosso primeiro impulso emotivo, mas acima de tudo racional (porque somos formatados positivamente) é rejeitar liminarmente tais ritos. Logo somos obrigados a adjectivá-los e a remetê-los para tempos depositados nos negros anais da nossa história e/ou a enquadrá-los com outras e estranhas civilizações que habitam geografias distantes e as quais remetemos para um estado como que pré-moderno – naquilo que é entendido por estádios de desenvolvimento civilizacional experimentamos já três paradigmas diferentes: a pré-modernidade que contempla todo o tempo anterior à revolução industrial, ao iluminismo e ao positivismo; a modernidade, que surgiu nessa época e nos acompanhou até meados do século XX; e a pós-modernidade, que supostamente experimentamos desde então e até aos dias de hoje.
Nessas civilizações ou culturas tradicionais pré-modernas, resistentes e sobreviventes, que coabitam connosco o mesmo espaço (mundo) e o mesmo tempo (contemporaneidade), o passado é respeitado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. É a tradição que lhes permite, reflexivamente, compreender a sua própria organização e comunidade, como é o meio ideal para lidar com o tempo e o espaço, onde se insere cada actividade ou experiência na continuidade de passado, presente e futuro. Nestas comunidades, mormente organizadas em tribos e chefados, o conhecimento e o domínio das suas técnicas estão concentradas e são monopólio de poucos, normalmente, oligarcas, chefes, xamãs ou feiticeiros, homens mais velhos e experimentados, que assim e com esses equipamentos exercem o seu poder e a sua magistratura, mantendo os demais vitaliciamente dependentes da sua influência e existência.
Aspecto importante e que convém ter em consideração quando ouvimos ou lemos histórias destas é o conceito de sagrado e de profano, dicotomia bem presente na organização dos espaços e dos lugares, como por exemplo o caos profano associado ao exterior da aldeia ou comunidade e à selva, e a sacralidade da própria aldeia, no centro da qual estará o áxis mundi, exprimido pela casa do chefe, ou pela presença de uma grande vara, que simbolicamente une o mundo dos deuses, o dos homens e o das trevas. Por outro lado, os detentores do poder imbuem-se da sacralidade necessária para manterem e protegerem o seu status e importância no seio da comunidade ou grupo.
Neste ambiente “naturalista” a Terra é sempre transparente, como se se oferecesse continuamente como mãe nutridora universal com os seus ritmos cósmicos geradores da ordem e da harmonia, que permitem a fertilidade e a permanência. Mas para estes indivíduos e comunidades também é verdade que a Natureza é sagrada e na sua convivência com esse sagrado existe, intrinsecamente, o elemento sobrenatural, que será o factor derradeiro de esperança e de garantia de tudo aquilo que os seus conhecimentos empíricos não conseguem explicar. Porque, a jeito de foice, uma Natureza dessacralizada é algo recente, típica de uma vivência moderna e, tendencialmente, ocidental, na qual os homens da ciência no referido e abismal percurso se perderam.
A morte é, por excelência, um dos momentos cuja compreensão será inatingível para todos os seres humanos. A cada experiência de morte está associada um ritual, uma moral e um preceito. Podemos encontrar por esse mundo fora mil e uma manifestações diferentes, mas a verdade é que não há uma única cultura ou civilização conhecida que não tenha o seu culto aos mortos. É algo de universal. Nestas comunidades tradicionais, mesmo os “carismáticos” e os “eleitos” não conseguem controlar e perceber a morte, portanto será sempre importante para a sua condição encontrar uma justificação, ainda que através de um bode expiatório ou tendo por base uma falsidade. A recorrência a práticas de magia negra e vodun são comuns nesta África Ocidental. Vividas como autênticas religiões, arrastam consigo a crença e a consciência social destas comunidades.
Da leitura que faço, este caso não será mais do que a procura de justificação para algo que ultrapassa em muito o entendimento desses indivíduos e, por isso nada melhor para empolgar e manter a fidelidade das multidões do que construir uma culpa, por mais absurda que pareça ou seja. E aí, quando essa culpa é formalizada e pronunciada, no seio da comunidade, não há lei civil nem religiosa, ainda que impostas pela diplomacia, pela força ou pela guerra da ocidental civilidade dos colonialismos, dos pós-colonialismos e dos neo-colonialismos, que consiga calar essa secular vivência e contrariar essa mundivisão.Sem querer de alguma forma desculpabilizar ou justificar tais práticas, que em nada dignificam o ser humano, considero importante e pedagógica uma leitura e uma atitude relativistas, no sentido de conhecer, perceber e traduzir correctamente as diferentes expressões culturais com as quais, inevitavelmente, continuaremos a partilhar este mundo. A estratégia para se erradicar de vez este tipo de ritos passará obrigatoriamente pela educação e formação, o que requer tempo e disponibilidade. Mais do que agir através da força e da imposição de normas e padrões estranhos aos indígenas, importa implicá-los num processo de reflexão e reavaliação sobre as suas próprias tradições. Talvez assim, possam manter as suas práticas e rituais fidedignos à sua herança cultural e, ao mesmo tempo, preservar os mais básicos e fundamentais valores da vida humana.

Avaliação e comentários: (até 10 valores por júri)
Betty Vidigal - Artigo acadêmico até o último parágrafo, quando adquire tom de sermão. Não é crônica.
Não diz a que fato ou notícia se refere. O leitor que não tiver lido a lista de “fatos” não tem como adivinhar o que motivou as considerações do autor. Nota: 6,0
Cida Sepúlveda - Mini ensaio. Nota: 6,0
Lorenza Costa - Duas menções a uma "história" e um "caso" que não são ventilados no texto. O cronista esquece que a crônica é dirigida aos que leram e aos que não leram o noticiário inteiro dos dias precedentes. Algumas passagens são exageradamente explicativas e, no final, temos a opinião de alguém pisando em ovos: um autor que não se decide entre o relativismo moral e a necessidade de defender valores "básicos e fundamentais" (usar outras palavras para "universais" já denuncia seu pouco à-vontade). Da minha parte pode ser excesso de rigor; mas rigor é o que o próprio cronista se impôs ao adotar o estilo didático. Nota: 8,5
Luci Afonso - Muito bem escrito. Nota: 8,5
Marco Antunes - Trata-se de um ensaio, um ensaio arrastado e pouco interessante em que o autor não sai de cima do muro, mas um ensaio. Nota: 6,0
Oswaldo P. Parente - “Desculpabilizar”? O parágrafo que contém esta preciosidade é antológico. Nota: 7,0
Total - 42

06 junho 2009

ler de Verão

Naquilo que aparenta ser uma revista catálogo para o tempo que se avizinha e que, normalmente, é (talvez por essa razão) uma das edições mais pobres, para minha surpresa pude encontrar bons apontamentos. Desde logo, um bom editorial, depois José Gil e o xico-espertismo português, ainda Rogério Casanova que nos tráz à memória a saudosa revista Kapa (lembram-se!?...) cuja efémera existência - entre 1990 e 1993, queimou combustível emocional suficiente para ter deixado órfãos e impulsionado alguns ricochetes menores, como a blogosfera; é difícil encontrar um blogger que não tenha uns exemplares guardados - no armário ou na cabeça. Também a diáspora de Onésimo Teotónio de Almeida e, por fim, o omnipresente Eduardo Lourenço com a dificil pergunta: O que é um europeu?

03 junho 2009

metodologia de investigação antropológica

(ainda que desfocado e com pouca qualidade)

instantes urbanos V

Pouco passava das nove horas da manhã quando entro no café para a dose matinal de cafeína obrigatória. Não mais de três ou quatro pessoas para além da funcionária atrás do balcão. Enquanto aguardo a minha dose, ouço animada conversa entre algumas das pessoas presentes, sobre o trágico acidente aéreo da passada segunda-feira no Brasil. Num tom bem português, macabro voyeurista, fazem-se comentários piedéticos em género de rescaldo final de acontecimento:
- Coitados. O que vale é que nem sentiram nada. Foi tudo tão rápido... até dizem que o avião se partiu em dois...
- Já viram, Deus me livre e guarde!.. assim no meio do mar, sem poderem ser ajudados. Deus queira que tenham morrido logo.
- Pois foi, no meio do mar a não sei quantos quilómetros. O avião caiu logo, nem deu tempo de avisar ninguém... as pessoas devem ter morrido na descida... mas também se não morreram disso, morreram logo afogadas!...
- Ai minha santinha!.. Já viram cair assim no meio do oceano Atlântico... ou foi no Pacífico!?...
- Óh senhora!... foi no Pacífico!

02 junho 2009

concurso cronistas - 4º desafio

Desafio:
Prezado cronista,
Os grandes acontecimentos também podem render belas crônicas, nesse caso, cronista, há que redobrar o cuidado para que no espaço que este periódico lhe reserva não apareça um artigo ou um pequeno ensaio, o que vai diferenciar um gênero do outro é que, para fazer uma crônica o acontecimento tem que focalizar mais de perto, até ser capaz de mostrar a pele humana, seu arrepio de emoção, sua contração de dor, seu tremer de riso ou felicidade, sua vida, enfim, explícita em cor, calor e cheiro.
Se puder filtrar os fatos por essa perspectiva, certamente valorizará seu espaço neste jornal com uma página que há de transpirar humanidade e verdade.
Posso aguardar sua tentativa?
O Editor

Sorteado:
Inquérito denuncia abuso sexual 'endêmico' de meninos na Irlanda
Mais de 2 mil crianças disseram ter sofrido abusos sexuais e violência física ao longo de 60 anos.
Da BBC


Um inquérito realizado na Irlanda revelou que mais de duas mil crianças sofreram agressões em abrigos infantis, reformatórios e orfanatos católicos do país ao longo de 60 anos e que, em instituições para meninos, o abuso sexual foi "endêmico" no período.
Segundo a Comissão de Inquérito sobre Abuso Infantil, os menores sofreram violência física e abuso sexual em locais que chegaram a abrigar cerca de 35 mil crianças até os anos 80, quando foram fechadas. O relatório, que aborda a situação de mais de cem instituições religiosas investigadas ao longo dos últimos nove anos, concluiu que os líderes da Igreja sabiam sobre os abusos sexuais de meninos. Além disso, segundo os depoimentos citados no documento, meninos e meninas das instituições apanhavam com tiras de couro por conversar durante as refeições ou por escreverem com a mão esquerda. "As escolas eram administradas de forma severa, impondo uma disciplina opressiva e não razoável às crianças e funcionários", diz o relatório. A comissão foi criada em 2000 pelo então primeiro-ministro irlandês Bertie Ahern, que pediu desculpas em nome do Estado às vítimas de abuso infantil. Um esquema de compensações do governo também foi estabelecido na época e, desde então, já pagou quase 1 bilhão de euros a 12,5 mil pessoas.
Abusos "chocantes"
Milhares de vítimas prestaram depoimento à comissão, que surgiu depois que uma série televisiva revelou a escala dos abusos. A jornalista Mary Raftery, que realizou os programas, disse que a extensão dos abusos era "profundamente chocante". Segundo a jornalista, as crianças eram levadas para "casas de terror" e ficavam confinadas até completarem 16 anos. "Elas saíam de lá completamente perturbadas e muitas deixaram o país em seguida", conta. "Elas sentiam que seu país as havia abandonado, assim como todo o resto, inclusive a religião." O relatório propõe 21 formas de o governo se redimir dos erros cometidos no passado, incluindo a construção de um memorial, um serviço de acompanhamento psicológico para as vítimas, muitas já aos 50 anos, e a melhoria dos serviços de proteção à criança na Irlanda. No mês que vem será divulgado um outro relatório sobre supostos abusos de padres católicos em paróquias perto de Dublin, capital da Irlanda.

Crónica:
Ignomínia Social
Vivemos, de facto, num mundo hiper-mediatizado, no qual tudo é informação. Com a massificação das novas tecnologias, a toda a hora, a todo o segundo, somos bombardeados com soundbytes provenientes de toda a parte e arredores, tornando a comunicação algo caótica e humanamente impossível de absorver na sua totalidade. Quem produz toda essa informação sabe que aquilo que faz se destina a um consumo self-service, ou seja, a uma auto-gestão do consumo dessa oferta informativa. A velocidade e a quantidade destes processos de comunicação é tal que somos obrigados a criar filtros para aquilo que nos importa e queremos saber, através de critérios de relativização. Uma outra consequência desta massificação dos processos de comunicação foi a redução simbólica do planeta Terra, pois com tal volume de informações disponíveis, provenientes de todos os confins do mundo, é-nos permitido conhecer, ainda que virtualmente, esses mesmos recantos, que de outra forma nunca conheceríamos. É-nos possível ver em nossa casa, confortavelmente instalados, os horrores e as desgraças das vidas alheias, que numa sequência abismal desfilam diante dos nossos olhos. Este fenómeno permite-nos afirmar, com alguma razoabilidade, que habitamos um lar do tamanho do mundo inteiro.
Foi nesse conforto do lar que, nos últimos dias, fomos assaltados pelas chocantes notícias que nos chegaram da Irlanda, a propósito dos sistemáticos abusos sexuais que as crianças e jovens, institucionalizados em organizações religiosas, foram vítimas ao longo das últimas seis décadas. Mais do que o próprio abuso, o que impressiona e nos deixa completamente desarmados é a descrença e a insegurança que sentimos nas instituições, que à partida, mereciam todo o nosso respeito, a nossa solidariedade e a nossa confiança. Afinal, em quem podemos confiar os nossos filhos, as nossas crianças!?... Esta será a questão ou a dúvida que assaltou a consciência de toda a gente, que de uma forma ou de outra, sente também seu este drama. Impressiona como foi possível, durante anos e anos, décadas e décadas, gerações e gerações de crianças indefesas e abandonadas, terem sido abusadas psicológica e fisicamente sem nunca ninguém as ter defendido, sem nunca ninguém ter denunciado tal situação.
Bem sabemos que nada de novo aconteceu e, tendo em conta o conhecimento de outras situações similares que vão acontecendo e são notícia, um pouco por todo o mundo, aprendemos já a relativizar e desprezar tudo aquilo que não nos diz directamente respeito. Bem sabemos que não foi a primeira vez, nem será a última que tal sucederá, mas importa enfatizar estes factos, pois nunca será demais nem o suficiente para os evitar. Também porque considero que esta traumática existência não diz só respeito àqueles que a sentiram na sua pele, mas sim a todos nós que nos preocupamos e pretendemos construir um mundo melhor e assim o legar às gerações futuras.
Diz-se que o melhor do mundo são as crianças. Algo que eu, particularmente, acredito piamente. Chamem-me inocente ou ingénuo, não me importo!.. Não poderei é ficar impávido e sereno perante tal horror. Lutarei o que puder para o combater. Como progenitor sei que tenho como responsabilidade cuidar, proteger e educar os meus filhos; como cidadão sei que tenho como responsabilidade contribuir para o cuido, a protecção e a educação daqueles e daquelas que, infelizmente, não tiveram, não têm ou terão acesso a um lar e a uma família. Perante tamanha agressão aos nossos valores civilizacionais teremos que rever, urgentemente, a nossa posição perante determinados comportamentos e perante determinadas instituições. Não importa aqui quem são os criminosos – se professores, se monitores, se guardas, se padres, ou mesmo bispos. Não importa se o palco desses horrores são instituições religiosas, associativas ou seculares. Não poderemos tolerar mais que aqueles que deveriam ser a guarda e o seguro dos mais desprotegidos, sejam os seus mais terríveis predadores e, assim, destruam de vez a vida de tanta gente, que acabem com os cândidos sonhos de criança, transformando-os em horrendos pesadelos.
E ninguém cuidou de todas estas vidas esfrangalhadas?!.
Muitos deles e delas só agora, que chegam ao fim das suas (possíveis) vidas, quebraram o silêncio, só agora conseguiram admitir e partilhar essas terríveis experiências. Tantas e tantas vidas destruídas, tantas vidas adiadas para nunca mais, tantos e tantos traumas que terão resultado em errâncias, em violência e em desgraça. Quem se responsabilizará agora por todos esses danos causados!?...
Não podemos aceitar que o carácter totalizante de tais instituições sirva pervertidamente as taras e desvios de alguns. Revolta-me as entranhas o atroz silêncio imposto por essas organizações religiosas que durante tanto tempo promoveu estas pérfidas parafilias. Basta. É o Estado através dos nossos impostos que tem a responsabilidade última de garantir uma existência digna a todos os carenciados e, por isso, está na hora de exigir a verdade e a moralização do sistema; é o tempo de uma justiça que puna exemplarmente a depravação e a ignomínia social. Quero que o Estado, tal como promove, e bem, a existência das instituições de acolhimento para crianças, jovens, doentes e idosos, promova também a existência de instituições que acolham compulsivamente todos os indivíduos que sejam condenados por tais actos. Sinceramente, mesmo sabendo que nenhum passado seria recuperado, nem que nenhuma experiência seria modificada, sem excepção ou atenuantes e sem dó nem piedade, gostava de ver sofrer dos mesmos horrores todos aqueles e aquelas (que gostaria de adjectivar, mas que a falta de vocabulário próprio me impede), que um dia assim se comportaram. Para meu bel-prazer, lenta, sádica e violentamente.

Avaliação e comentários: (até 10 valores por júri)
Betty Vidigal - Não é crônica: é um discurso para político em campanha, criticando os outros e exaltando as próprias qualidades morais (“Não poderei é ficar impávido e sereno perante tal horror. Lutarei o que puder para o combater”, etc.). Nota: 6,0
Cida Sepúlveda - Linguagem excessivamente formal. Nota: 8,0
Lorenza Costa - (falta comentário...). Nota: 9,0
Luci Afonso - Bem escrito, próximo do ensaio, mas ainda com características de crônica. Nota: 8,0
Marco Antunes - Diante do padrão português tenho alguma dúvidas para julgar, uma vez que não domino a expressão popular de Portugal, pois, as cinco vezes em que estive lá foi sempre na condição de Turista. Por isso não sei se formas como “é-nos” são de domínio popular ou erudito (como seria aqui no Brasil) pois, se não for popular, é estranho ao ambiente da crônica! O autor é piedoso e, em determinados momentos, é tanta piedade e bom-mocismo que acaba por soar para quem lê a mais legítima prática de um vício chamado cabotinismo, que, como costumo dizer, ninguém consegue, a um só tempo, dele fazer uso e ser discreto quanto a isso! Nota: 7,5
Oswaldo P.Parente - Texto pesado, de difícil leitura. Nota: 7,5
total - 46

01 junho 2009

31 maio 2009

29 maio 2009

elementos distractivos

Dias de sol e de calor despudorado, são dias de boa disposição visual. Por onde quer que andemos os elementos distractivos parecem cogumelos, depois de uns dias de chuva primaveril, a despontar da terra fresca. Nas ruas, nos transportes públicos, nos locais de trabalho, nas universidades e, muito, nos centros comerciais, onde aqui ou ali, à esquerda ou à direita, daqui e dali surgem, para regalo da nossa vista. Nestes dias é a liberdade total para a boa e para a má carne. Depois de meses enfiadas em elásticos, meias, espartilhos e ligas, finalmente um pouco de ar fresco. Como são engraçados estes dias. Ao contrário do comum dos mortais, apesar de gostar e muito das carnes e dos elementos que distraem, eu não gosto de dias assim. A minha tiróide também não.

27 maio 2009

Feira do Livro do Porto

Aproveitando a desculpa esfarrapada de não conseguir arranjar estacionamento, escapei-me do escritório durante toda a tarde. Encostei o carro perto de uma estação do metro e, através deste, fui até aos Aliados conhecer a "nova" Feira do Livro - 79ª edição. Estava um calor infernal e a primeira crítica vai para a falta de sombra e de espaços sombra. Talvez ao final do dia e à noite seja agradável, mas durante a tarde, impossivel. Depois, os stands de cada editora e livraria para além de exíguos, não têm muito espaço para expôr os livros, o que me leva à segunda crítica, pois este formato dos stands faz com que os livros não estejam acessíveis, quer à vista, quer ao manuseamento, o que é mau para mim e para o próprio conceito do evento.
Mas no meio disto ainda consegui encontrar e comprar, com agradável desconto de 20%, alguns livros que faziam parte da minha lista de pretenções. Assim, poderei dizer que gostei de ver a Feira do Livro de regresso ao coração da cidade e que, apesar do imenso calor e da imensa falta de dinheiro, passei uma excelente tarde de veraneio.
Compras de hoje:
- Bourdieu, Pierre, 1998, O que Falar quer Dizer, Lisboa, Difel;
- Taylor, Charles, 1994, Multiculturalismo, Lisboa, Instituto Piaget;
- Pina Cabral, João e Matos Viegas, Susana de, 2007, Nomes - Género, Etnicidade e Familia, Coimbra, Almedina;
- Vasconcelos, José Leite de, 2007, Etnografia Portuguesa (volume IV), Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda;
Compras de tempos anteriores:
- Steiner, George, 2002, Depois de Babel, Lisboa, Relógio D'Água;
- Costa, Alfredo Bruto da, 2007, Exclusões Sociais, Lisboa, Gradiva;
- Cadernos de Literatura Comparada - nº 16, 2007, Paisagens do Eu: Identidades em Devir, Porto, Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa;
- Fernandes, Sónia, 2009, Sobreviver em Missão, Porto, Pista Mágica;
- Page, Martin, 2008, A Primeira Aldeia Global, Lisboa, Casa das Letras;

viver a leitura

Entre 27 de Maio e 14 de Junho, o convite é para VIVER A LEITURA nos Aliados! O coração do Porto recebe a nova Feira do Livro do Porto, adaptada aos novos ritmos de trabalho e lazer dos visitantes. Aberta a partir das 12h30, a Feira permite a visita à hora de almoço, assim como a participação de grupos escolares. Muito em breve (já) lá iremos tentar não gastar muito dinheiro (que não temos...).

26 maio 2009

concurso cronistas - 3º desafio

Desafio:
Prezado Cronista,


São oito fatos que escolhemos e, de 2 a 3 participantes, terão a incumbência de falar de cada um deles. Se está achando que vamos comparar, acertou em cheio! Vamos sim! Por isso, no mínimo 2 falarão de cada notícia.
Escolhemos esses fatos por serem inusitados e curiosos, interessa-nos não o fato em si, mas a capacidade do cronista, do bom cronista de transcender o óbvio e ver, atrás da notícia, o humor que não vimos, o lirismo que escapou de nossa observação, a simbologia que não decodificamos, a filosofia que não adivinhamos, a comparação habilidosa com outros fatos que não soubemos ver.
Como é nosso interesse olhar para o resto do mundo, não há fatos de Portugal e Brasil.
Como sempre, feito o sorteio, aguardo suas palavras.
O Editor

Sorteado - fato 2 -
Balconista expulsa ladrão com gargalhadas
Origem: Wikinotícias, a fonte de notícias livre.
10 de Março de 2005
O empregado de uma loja na cidade de Cranberry nos Estados Unidos da América frustou um assalto a mão armada com gargalhadas.
Por volta das 21h45, um ladrão mascarado entrou no mini-mercado Gordon's, localizado na rodovia Rochester. A loja estava para fechar e dentro dela havia apenas um balconista.
O ladrão, que vestia uma máscara do cão do
Mickey, Pluto, sacou um revólver e exigiu que lhe fosse entregue dinheiro da caixa registradora. Foi nesse momento, que o balconista desatou a rir.
O ladrão não reclamou, desistiu do assalto e fugiu.
O oficial de polícia de Cranberry, sargento Dave Kovach disse:"Este é o nosso primeiro encontro com o bandido Pluto".O policial também advertiu que embora tenha funcionado, não se deve esperar que essa estratégia funcione sempre. Segundo ele, pode acontecer de o bandido ser uma pessoa perigosa, viciada em heroína, por exemplo.
Crónica:
Gargalhadas e Lambidelas
Assim, confortavelmente instalado, Fred Rowe ausenta-se, diariamente, em viagens fantásticas pelo mundo que não conhece, a não ser pelas imagens da TV e da internet. Herói principal dessas aventuras, tem direito a inúmeras vidas extras que lhe permitem experimentar momentos épicos e ultrapassar obstáculos inimagináveis, que acabam inevitavelmente com o estridente despertador, que lhe lembra que tem novo dia pela frente. O seu quotidiano é constituído por uma mão cheia de rotinas que o entediam cada vez mais: de casa para o trabalho, do trabalho para o bar e do bar para casa, às vezes, cada vez mais vezes, bêbado; outras vezes, do bar para um qualquer quarto de Motel de estrada, com alguém que nunca fixa o nome ou sequer o rosto.
Fred tinha sido um jovem e promissor consultor de uma companhia de seguros, sediada em Philadelphia. Aceitara o desafio de vir para esta pequena cidade – Cranberry, do interior do estado da Pennsylvania, como responsável comercial dessa seguradora. Já lá iam mais de dez anos e aquilo que começara como uma aventura, com perspectivas de evolução na promissora carreira, acabou por se revelar um desterro eterno. Com o passar dos anos foi desanimando, acomodando-se, a sua ambição foi cedendo às comodidades e ao conforto da pacatez característica das pequenas cidades do interior dos EUA. Ultimamente, sempre que a empresa o solicitava para uma viagem para fora da cidade, era um problema que enfrentava com bastante resistência e sofrimento.
Fred vivia sozinho num pequeno, mas confortável apartamento alugado. Com um emprego estável e com um ordenado acima da média que dava para os gastos, sentia que tinha tudo quanto poderia ambicionar com a excepção da companhia de uma mulher, de quem gostasse verdadeiramente e por quem se sentisse amado também. A sua instabilidade emocional resultava dessa falta e isso, por vezes, tornava-se demasiadamente perigoso para Fred que, confundindo a realidade com a ficção, embarcava em viagens rumo ao desconhecido. Não se importava, desde que pudesse experimentar sensações que o fizessem ausentar-se da sua amargurada vida, qualquer coisa servia.
Num dia igual a outros, no seu escritório, recebe um simpático convite para ir, num final de um dia próximo, a uma festa em casa de um colega de trabalho, igualmente solteiro, mas com fama de má companhia e de gostos alternativos. Sem aceitar imediatamente o convite, deixa em aberto essa possibilidade, pois o convite sugeria algo diferente e desconhecido. Foi para casa convencido que, tendo em conta o seu estado psicológico, seria melhor não ir, pois lá encontraria um ambiente alegre e ele sentia--se imensamente deprimido. Com esse pensamento, encharcado em xanax e vodca, adormeceu.
No dia seguinte novo reforço do mesmo convite. Aí, muito ao seu jeito, lá acabou por aceder e garantir a sua presença. Condição obrigatória para poder participar na festa: levar uma qualquer fantasia animal vestida que o encobrisse totalmente, tornando-o anónimo. Mesmo achando estranho tal predicado, concordou. À falta de melhor, encontrou numa loja da cidade uma fantasia de Pluto, famoso canino e fiel companheiro do Rato Mickey.
Depois de algumas hesitações de última hora, ao ver projectada a ridícula figura que o espelho lhe devolvia e depois de uns valentes goles na garrafa de Whisky, lá encarnou a personagem e saiu de casa.
À chegada e mesmo antes de tocar à campainha, nova e derradeira hesitação, mas escutando o som vindo do interior daquela habitação, depressa se abstraiu e carregou no botão. À porta, num ápice, surgiram três silhuetas animais que, dançando e emitindo uns sons imperceptíveis, para seu espanto, roçaram seus corpos contra o seu, puxando-o para dentro de casa. Aí, o ambiente que conseguia perceber através de sua fantasia, e porque a iluminação era algo psicadélica, era loucamente irreal. Inúmeros corpos, todos disfarçados de animais, mexiam-se e remexiam-se ao som de uma música envolvente, mas hipnotizante, numa massa uniforme de movimentos que indiciavam algo que não podia acreditar ser real. Deambulou pelo meio daquela multidão, sentindo-se permanentemente olhado, tocado e amassado, por patas e garras anónimas e desconhecidas. Conseguiu chegar a um canto onde uma gata, de contornos bem vincados, servia bebidas. Pediu um Gin Tónico e na resposta recebeu não só a dita bebida, como um monumental abraço de corpo inteiro e com direito a afectuosas lambidelas. A mescla de sons, cheiros e sabores impregnavam o ar, produzindo uma atmosfera extremamente afrodisíaca e a cadência dos movimentos corporais erotizavam por demais o ambiente. Era já impensável retroceder e à medida que o dia dava lugar à noite, Fred sentia-se cada vez mais confortável e desinibido. A par de uma enorme mistura de consumos, acedia e retribuia os avanços corporais. De tempos a tempos, como que para refrear os ânimos, vinha até à rua apanhar ar e aliviar-se do ambiente saturado dos espaços interiores. Sentia-se bem, um tanto ou quanto eufórico e consideravelmente ébrio, mas a excitação sensorial levava-o a querer mais. Contudo, pouco depois e num desses momentos de recuperação, apercebeu-se que uma pequena cadela se aproximava, cheirou-o insistentemente e, colocando-se de quatro, simulou urinar bem perto de si, levantou-se, arranhou-lhe o focinho e, de seguida, afastou-se em direcção à rua. Sem conseguir perceber de imediato o que aquilo significava, resolveu seguir aquela cadela com cio, cuja bonita silhueta ia aparecendo e desaparecendo nas sombras da noite, em direcção aos carros estacionados. Num pulo, inverteu o sentido e agarrou-se ao Pluto com tal vontade, que caíram redondos num pequeno relvado de jardim. A excitação já não cabia naquela confusão de pêlos, depois de se esfregarem num abraço desajeitado, resolveram sair dali. Enquanto ela conduzia, ele não parava de mexer nela. Pouco tempo e poucos quilómetros depois, ela encostou o carro e, obrigando-o a recompor-se no seu lugar, pediu-lhe para ir a uma loja comprar bebidas, pois queria continuar a beber. Ele, mal refeito daquilo que lhe ocupava os sentidos, disse-lhe que não tinha dinheiro e que, assim vestido, não saía do carro. Ela insistiu e, fazendo chantagem, lá conseguiu convencer Fred, na pele de Pluto, a ir lá, mas continuava sem dinheiro. Descontraidamente, a cadela abre o porta-luvas e saca de lá uma arma, dizendo-lhe para a usar na loja como forma de conseguir dinheiro para comprar as tais bebidas. Ele, inicialmente não acreditou nas palavras dela e pediu-lhe para guardar a arma. Depois, incomodado pelo ousado desafio, questionou-a se falava sério e a resposta veio em forma de carícia. Pluto agarra na arma, respira fundo e, desalmado, corre em direcção à loja, onde entra com aparato, empurrando a porta com força e, verificando que a loja está vazia, aponta a arma ao empregado e exige-lhe o dinheiro que está na caixa. O empregado surpreendente e inexplicavelmente desatou em desbragadas e incontroláveis gargalhadas, o que deixou o atónito Fred desarmado e incapaz de resolver tal situação. Perante a ameaça suprema de uma arma de fogo, aquele rapaz tinha-o desmascarado apenas com gargalhadas. Naqueles instantes como que caiu em si, viu-se reduzido à sua insignificância e da mesma forma que entrara, precipitado saiu da loja. Aquelas gargalhadas, aquela humilhação deixaram-no completamente de rastos. Entrou no carro e, sem dizer palavra, devolveu a arma, despiu-se da personagem e, sem mais, regressou apressado a casa.
Encharcado em whisky e noutras coisas mais, vou eu, também, dar por terminada esta crónica e embarcar numa viagem que me levará directamente para outro dia, o de amanhã.
Avaliação e comentários: (até 10 valores por júri)
Betty Vidigal - É um conto, né? Personagem simpático, bem construído, texto bem escrito, mas definitivamente não é uma crônica! Para um conto, o tamanho tá ok. Pra uma crônica, tá enorme. (como conto daria 9). Nota: 9,0
Cida Sepúlveda - Gostei muito Mas é conto. Nota: 9,0
Lorenza Costa - Conto inspirado no fato. Nota: 6,0
Luci Afonso - Neste conto bêbado, faltam parágrafos e sobram incoerências. Nota: 7,5
Marco Antunes - Conto! Nota: 6,0
Oswaldo P.Parente - Usou a idéia para construir o conto, em vez de usar o conto para comentar a idéia. Nota: 7,5

total - 45

cemitério dos livros e da subliteratura

"O domínio da edição tornou-se permeável a esta lógica do espectáculo a partir do momento em que a indústria livreira passou a dirigir-se aos consumidores e já não aos leitores". (Excerto)
Via Twitter e João Lopes Marques, cujo perfil eu vou seguindo, li este artigo no Jornal de Notícias, assinado por Sérgio Almeida e cujo título é "Escritores por convite". Não que tenha uma opinião formada acerca deste assunto, mas este texto vem confirmar aquilo que, um dia e recentemente, um amigo me confidenciou acerca dos embustes associados ao fenómeno editorial cuja autoria são figuras mediáticas, nomeadamente, jornalistas e pivôs de televisão.

Santo Amaro


Numa depressão do terreno e afastado da aldeia foi construído um pequeno templo em honra de Santo Amaro, que em Janeiro reúne os poucos aldeões das aldeias vizinhas e de Alimonde. Ao lado desta pequena igreja, os benfeitores desta aldeia construíram uma casa de apoio ao templo. De boa construção em pedra e com todas as comodidades – um salão grande com lareira e copa, casa-de-banho e, nas imediações, à sombra de frondosas árvores um parque para merendes. Espaço aprazível, bonito e confortável, propício tanto para momentos de retiro como para momentos de alegres convívios.
Foi numa pressa, como já há muito tempo não acontecia, que viajei do Porto para este lugar, onde me aguardava um inédito e ansiado encontro de gente amiga, a propósito de uma festa de aniversário surpresa. À chegada a constatação de uma evidência: bonito lugar, uma pequena veiga, preenchida por lameiros, por grandes e frondosas árvores, por um riacho e por uma bela paisagem no horizonte. Logo me projectei a passar neste ambiente, tranquilamente, o resto dos muitos dias que espero viver.
Cheguei consideravelmente atrasado, faltando à missa e encontrando os convivas já sentados, abraçando uma enorme mesa. Num grande abraço fui recebido pelo aniversariante, que logo me apresentou aos demais e, sem demora, me fez sentar ao seu lado na mesa. Magnífico almoço de muito comida, bebida, conversa e alegria. Velhas recordações se manifestaram, ambientes e pessoas que, um dia, entre nós estiveram, mas que, em muitos casos, a minha memória não permite relembrar. Gente que, apesar de estranha, me pertence e eu a eles.
Assim estivemos o resto da tarde, entre conversas, cantigas, jogos de cartas e do fito, até ao anoitecer, hora do regresso à cidade. Fica o registo deste bonito momento que conseguiu reunir em alegria, gente que as idiossincrasias da vida foram afastando. Gente que, num outro e longínquo tempo, conviveu e percorreu os mesmos carreiros e caminhos. Resta esperar e fazer força para que outros momentos semelhantes possam vir a ter lugar.
Alimonde, 23 de Maio de 2009

20 maio 2009

concurso cronistas - 2º desafio

Desafio:
Prezado Cronista,
Diz o provérbio latino: "Ridendo castigat mores." Ou por outras palavras: "Rindo se corrigem os costumes." Peço-lhe hoje uma crônica que pretenda criticar os vícios , os erros, as atitudes, os comportamentos inconvenientes, enfim, de nossa sociedade contemporânea por meio do humor. Esteja livre para criar.
Aguardo ansioso
O Editor

Crónica:
O Senhor Humor
Provocar o riso sempre foi uma necessidade. Ninguém duvidará que todo o ser humano necessita, gosta, procura, ainda que ocasionalmente, a boa disposição através do humor. Para além disso, é mais ou menos consensual que o riso se apresenta como excelente meio pedagógico utilizado para reproduzir determinada visão do mundo e assim construir memória e a história dos vários tempos. Como tal, tem que ser lido, tem que ser entendido como um elemento relativo e subjectivo que permitirá, se quisermos, traduzir culturalmente as diferentes comunidades e sociedades, naquilo que se designa de identidades. A este propósito, trago-vos uma narrativa de uma memória que fala de um tempo moderno, que posso adjectivar de anacrónico ou mesmo arcaico. A personagem que aqui encontrarão não será propriamente um senhor e, também, não se tratará de alguém com particular humor, mas a recorrência humorística a episódios seus sobreviveram ao seu desaparecimento.
De estatura média e de corpo robusto, o Mâncio era um solteirão que entrara já na sexta década do seu tempo. Habitava um lar de humilde condição e parca arrumação. Tivera uma meninice difícil, sem o carinho de mãe ou o amparo de pai. Cedo veio viver para aquela aldeia transmontana, trazido por familiares preocupados com a sua triste sorte. Assim cresceu, mais ou menos abandonado, no seio de uma família alargada e com o estatuto de parente pobre. Bem reparava sua tia, a quem ele carinhosamente tratava por Mãe, que algo de estranho se passava com aquele rapaz. Mas nada que conseguisse perceber ou entender. À escola nunca ligou e ao trabalho só quando obrigado; o Mâncio gostava de vaguear pela aldeia e seu termo, andar atrás das perdizes, armar ratoeiras aos pássaros ou ir apanhar peixes, à mão, no ribeiro que por ali perto passava.
Mais tarde chegou o tempo de mancebo e do serviço militar. Partiu e afastou-se, pela primeira vez, do seu pequeno mundo. Ganhou asas, aprendeu e gostou de voar. Enquanto fazia a tropa viveu em Lisboa, de onde trouxe as histórias e as venturas da eterna mocidade. Nos tempos vazios viajou indigente pelo país e, depois de terminar a tropa, sem hesitar rumou para Paris, apenas com o contacto de um parente que o acolheu e orientou para um qualquer ofício, daqueles que os nativos se recusavam desempenhar, mas que os lusos emigrantes publicitavam serem especialistas. Por terras gaulesas viveu durante cerca de duas décadas até ao dia em que cansado e sentindo o corpo a ceder, resolve regressar à sua terra de adopção, onde já não encontra o lar de outrora, nem os bem queridos que sempre trouxera no coração. Como nunca casou ou teve mulher, enfrentava agora o desafio de viver uma velhice em solidão. Foi também depois desse seu regresso que Mâncio construiu a sua sui generis personagem e ganhou o eterno lugar na memória colectiva da comunidade.
Apesar de uma certa rudeza de aspecto e de uma certa esquizofrenia nos modos, era um indivíduo bem educado que usava uma linguagem fina, principalmente quando na presença do sexo feminino, a quem, com parcimónia, cumprimentava com um retirar da boina. Mâncio era aquilo que poderemos designar de mulherengo e fazia questão de se gabar do seu bom aspecto: - Se todos tibessem a minha finura!, e de todas as suas conquistas, de todos os seus romances, de todas as suas aventuras, afirmando: - Essa!?... Essa aí, foi porque eu não a quis!.. Episódios de um passado mais ou menos recente, que nunca ninguém conseguiu testemunhar ou verificar, deixando assim perceber que todos esses momentos não povoavam mais do que a sua mente. Mas a firmeza e o vigor com que manifestava a sua virilidade eram tais que, quando em ambientes embriagados pelo vinho ou aguardente que a taberna servia aos homens da terra, chegava mesmo a fazer apostas com os demais de como o seu equipamento sexual era o maior de todos.
Numa época engraçou-se por uma moça, de nome Maria. Então sismou que iria conquistá-la e sabendo que ela costumava ir com as vacas para os lameiros, resolveu impressioná-la com os seus dotes de caçador. Preparou a espingarda, foi buscar um coelho de criação e arranjou um baraço. Lá foi o Mâncio ao encontro da Maria, só que antes de se mostrar, prendeu o coelho que trazia dentro da jaqueta com o baraço a uma Carvalheira. Assim o coelho poderia movimentar-se e o Mâncio não o perderia de vista. Com o seu peculiar ar lá foi então o caçador em direcção à moça, que guardava as vacas. Quando chegou perto, a moça cumprimenta-o e pergunta-lhe:
– Então Mâncio, à caça?..
– Sim, vou ver se apanho alguma coisa…
– Não trazes nada?..
– Não. Ainda venho agora do povo…

E, de repente, olha para o sítio onde sabia estar o coelho preso, aponta a arma e dispara dois tiros. Assustada pelo forte ruído e intrigada, a moça pergunta:
– O que viste?
– Era um coelho… eu já venho… acho que o apanhei…
Apressado vai à procura da peça de caça, só que quando lá chega não viu nenhum coelho. A sua pontaria foi tal, que em vez de acertar no coelho, acertou no baraço que o prendia, podendo assim o assustado coelho fugir pelo monte. Desiludido, o Mâncio regressa para junto da moça, a quem pretendia impressionar, de mãos vazias.
– Então e o coelho? – Pergunta a moça ao Mâncio.
– Não sei! Mas que estava lá, estava!..
De regresso à aldeia lá contou a sua aventura na taberna e no dia seguinte, um vizinho lá foi saber do coelho, que acabou por ser apanhado.
Como homem solitário que era, gostava de conviver com os amigos e vizinhos. Assim e principalmente nas noites de Inverno, Mâncio ia para casa do tio Xenxo, taberneiro e seu vizinho, que o recebia junto dos tições que ardiam ao lume. Assim se aquecia e conversava com os demais, que ali se juntavam. Normalmente era um dos primeiros a chegar e, por isso, tinha sempre lugar garantido em frente ao lume. À medida que outros iam chegando, pediam-lhe: – Chega-te um pouco para lá Mâncio!.. Depois chegava outro e repetia: – Chega-te um pouco para lá Mâncio!.. Depois de uns tantos terem entrado, diz o Mâncio, já aborrecido: – Ora! Ando eu a aquecer o cu para todos!?...
Assim viveu Mâncio na sua anónima e simples condição até ao dia em que foi encontrado morto de vários dias e debaixo de sua cama. Por engano ou não antecipou-se à morte e as circunstâncias dessa tragédia permanecem envoltas em mistério, num nevoeiro de rumores incriminatórios sem culpa formalizada.

Avaliação e comentários: (até 10 valores por júri)
Lorenza Costa - Esperava que o cronista encerrasse o texto com um comentário seu. A narrativa ficou voando entre o primeiro parágrafo e uma conclusão inexistente. Nota: 8,0
Luci Afonso - Estória muito bem contada, mais para triste que para engraçada. Nota: 8,0
Marco Antunes - O autor (ou autora?) escreve muito bem, é muito saborosa a expressão, mas definitivamente também não conhece o segredos dessa alquimia de fazer humor, nem aquele mais ostensivo e franco, nem o que esperei encontrar aqui à moda machadiana, fino e demolidor! Ficou mesmo um quase conto de remoto teor humorístico. Nota: 8,0
Oswaldo P.Parente - Não é uma crônica. Nota: 6,5
total - 30,5

18 maio 2009

dia internacional dos museus

Calhando este dia comemorativo numa 2ª feira, dia de trabalho e dia em que, normalmente, os museus estão encerrados, registo a iniciativa da Câmara Municipal de Famalicão que promove um programa de comemorações até ao final do mês de Maio. Dez espaços museológicos deste concelho uniram-se para assinalar esta data sob o lema Museus e Turismo. Fica o cartaz da iniciativa. Se quiserem saber mais carreguem na imagem.

17 maio 2009

memórias em viagem

Ano após ano continuam a juntar-se, em alegres e festivos encontros, os sobreviventes da guerra portuguesa no ultramar. Recentemente, viajei bem perto de um desses grupos e, ao longo de toda a viagem entre Lisboa e o Porto, consegui ouvir perfeitamente aquilo que foram dizendo. Contaram uns aos outros, talvez pela enésima vez, histórias com 50 anos dessa extraordinária vivência que, na sua juventude, foram obrigados a partilhar e à qual a sorte lhes permitiu sobreviver.
Regressavam de mais um desses encontros. Vêem satisfeitos e bem dispostos, em amena cavaqueira que não consegue libertar-se dos ambientes africanos, das picadas e das emboscadas. Recordações carregadas de sentimentos, de nostalgias e de traumas que teimam em acompanhá-los e que, concerteza, os acompanhará pelo resto dos seus dias (senti que estes homens, na verdade, viveram a guerra toda a sua vida).
Ainda agora regressavam de um encontro e já só falavam do próximo, que só acontecerá daqui a um ano. Algo de muito forte uniu para a vida estes homens. Aquilo que irá acontecer, obrigatoriamente, é que o seu tempo findará e estes testemunhos, estas memórias e estes encontros deixarão de acontecer. Infelizmente, dirão eles e digo eu.

14 maio 2009

instantes urbanos IV

De regresso a casa, no final de mais um dia longo e, gostaria de poder dizer, proveitoso, escolho mentalmente o percurso que julgo ser o mais rápido. Indeciso guio em direcção à VCI, para então aí optar por uma das pontes. Puro engano! VCI parada, os dois lados com uma densidade automobilistica impressionante. Já não estou habituado a estas andanças... as do engata, acelera, trava, desengata, pára... Engata, acelera, trava, desengata, pára... sem fim! A minha escolha é, quase sempre, atravessar o Douro a nascente pela ponte do Freixo e hoje não foi excepção. Ao ritmo a que circulam os dois sentidos da Via Circular Interna consigo sentir cada metro do alcatrão que me levará para a outra margem.
Entretanto, aproximo-me do viaduto da Av. Fernando Magalhães e, sempre no mesmo ritmo (sempre muito parado), enquanto vou pensando na morte da bezerra, ou seja, em nada, reparo num indivíduo que mais à frente, em cima de um outro viaduto que, da dita avenida, dá acesso a um conjunto de torres habitacionais. Àquela distância pude ver no rosto desse homem, que se debruçava ligeiramente sobre a VCI, uma mescla de intriga e prazer. E foi precisamente isso que terá despertado a minha curiosidade. Como bom miúpe, só à medida que me fui aproximando é que pude perceber o que de facto ali se passava.
Quando isso aconteceu, estupidamente ou não, mas desalmado comecei a buzinar e a bracejar com o braço esquerdo fora do carro, chamando a atenção, digámos assim, dos vizinhos que me acompanhavam naquele movimento. Como não tinham ainda visto aquele sujeito, esses vizinhos olharam-me desconfiados, uns de lado, outros pelos retrovisores, mas olharam. Eu para lhes comunicar aquilo que pretendia comecei a apontar no sentido do tal indivíduo. Logo de imediato o trânsito naquele sentido, o meu, susteve-se... e o coro de buzinas foi imediato. Então não é que o fulano estava, entretida e alegremente, a aliviar a bexiga para cima dos automóveis que passavam. Ele há cada um!?.. Impávido e sereno terminou o seu serviço e, recompondo-se, seguiu seu caminho, com aquele ar desiquilibrado, mas concerteza, ar de satisfação e realização. Eu e os outros prosseguimos viagem. A Sul, o destino.

13 maio 2009

concurso cronistas - 1º desafio

Desafio:
Prezado Cronista,
Por certo poderia solicitar o que vou pedir abaixo ao nosso correspondente aí em Jerusalém, mas é provável que o resultado fosse apenas uma reportagem fria e impessoal que não contemplaria o que agora precisamos aqui na redação.
Ocorreu-me que a sensibilidade, ou o lirismo, ou o humor, ou a ironia, ou a visão filosófica de um bom cronista (categoria em que o incluo) seriam mais esclarecedores desse surpreendente fato.
Chegam-nos desencontradas notícias dos incidentes dessa manhã aí na capital da Palestina. Dizem os poucos informantes esclarecidos que um certo nazareno teria feito uma notável entrada na cidade, aclamado pelo povo. Dizem que se trata de mais um desses profetas que às margens dessas estradas hebraicas crescem como a relva... Dizem, ainda, que um tal fato teria graves repercussões junto ao Sinédrio e, principalmente, entre os homens de Roma aí sediados.
Esses parecem fatos; outros, pelo exotismo e bizarrice, mais parecem exageros e boatos de quem ouviu o galo cantar e não sabe onde: dizem que ele teria entrado na cidade triunfalmente montado em um elefante à moda dos Marajás. Dizem que a multidão gritava eufórica o nome de uma certa Rosana da qual não temos nenhuma informação. Dizem, por fim, que as pessoas tiraram as próprias roupas para forrar-lhe o caminho com esse inusitado tapete.
Bem, como notícia é de pouco interesse para o público, mas como crônica pode render uma notável página para este periódico.
Mesmo considerando que, sob a pressão dos fatos e pela urgência da expressão, cronistas são impiedosamente desmentidos pela História, em se tratando de crônica, esse é o nome do jogo, e, mesmo assim, seu testemunho todo pessoal termina por ser mais uma feição do fato; porque o contraponto disso é que, quando acerta, trasveste-se o cronista de profeta e de inventor da História.
Escolha o viés que melhor lhe aprouver e envie-nos até dia 5 pelo e-mail que já conhece a crônica sobre os eventos que há de ter presenciado aí nessa cidade que ora o abriga.
Aguardo ansioso
O Editor

Crónica:
Jerusalém – refundação de uma teogonia
As notícias que iam chegando à grande cidade, através de viajantes, de comerciantes, de militares e de mensageiros enviados pelos governantes, não só iam alimentando a curiosidade e a agitação popular, como eram recebidas e percebidas pelo poder vigente como potenciais focos de desestabilização social e de ameaça real às instituições estabelecidas. Era com crescente agitação e ansiedade que Jerusalém recebia as novas vindas do lado de fora das suas muralhas e de geografias distantes. Nas adegas, nas tabernas e nos prostíbulos por onde eu deambulava não se falava de outra coisa, num misto de curiosidade e de assombramento, mas com o devido cuidado e desconfiança. Com facilidade percebi esse ambiente intimidatório e de censura, imposto por uma legião de detractores pagos a soldo. A custo de algumas canecas de vinho, fui conseguindo sussurrar com alguns viajantes que diariamente chegavam à cidade. Foi através deles que ouvi falar pela primeira vez de um messias, filho de Deus. Foi também assim que pude perceber que o seu caminho viria a cruzar-se, em breve, com a cidade que eu também visitava.
Os testemunhos desses nómadas, viajantes e negociantes, de carácter duvidoso e com discursos mais ou menos fantasiosos, com os quais fui falando ao longo das últimas semanas relatavam-me experiências formidáveis, nunca antes vistas: da cura de enfermos à promessa de um reino no céu, da ressurreição de mortos ao despojamento de bens terrenos, da simplicidade dos modos e do verbo ao convívio e defesa dos proscritos. Práticas e discursos que facilmente atraíam indigentes, foragidos, bandidos, miseráveis e todas as hordas de marginalizados pelas sociedades, que em tumulto e anarquia o recebiam, ouviam e seguiam. Tudo isto me parecia estranho, muito estranho e, por isso, a minha curiosidade inicial deu lugar a um entusiástico interesse. Praticamente abandonei aquilo que me trouxera a esta magnífica cidade e resolvi aguardar mais uns tempos na expectativa de poder conhecer tal personagem. Assim fui ficando, adiando sine die o meu regresso ao Norte e à rotina de meu ofício.
Neste tempo de espera pude conhecer uma cidade fervilhante, agitada e confusa. Ruas inundadas de rotinas seculares e impregnadas de panóplias de odores. O dia-a-dia de Jerusalém desenrolava-se assim e, condicionado pelo meu saber, em cada olhar, em cada gesto ou palavra descobria um entendimento que se assemelhava a uma grande conspiração na qual eu interessado participava. Mas se a rua assim vivia, quem governava a cidade não se reprimia ao manifestar o seu desconforto com a eminente chegada do profeta. Os rumores que chegavam à rua e a mim, vindos do Sinédrio, esse Olimpo dos senhores de Israel, onde se sentam os juízes a conversar, a discutir e a decidir sabiamente as leis para a cidade, eram de um ambiente radicalmente tenso e de afrontamento de opiniões e perspectivas. O consenso estava dali arredado e, sendo o coração do poder simbólico da cidade, naturalmente os seus guardiões tentavam reagir e proteger o seu poder, preparando-se para a chegada do auto-denominado filho de Deus. Foi com enorme repressão que a ordem foi mantida, tentando distrair o povo com festas e oferendas.
Enfim o grande dia. Ao contrário do que é meu hábito e sem sentir qualquer maleita, tivera uma noite agitada. Acordei ainda antes da aurora. Sem nenhum afazer resolvi sair das muralhas e passear sem destino pelos campos e pomares que rodeiam ao longe a grande muralha urbana. Estava uma manhã fresca, razão pela qual estendi por mais tempo o meu passeio matinal, afastando por completo da mente a turbulência que vivenciara nesses últimos dias. Num recanto do caminho, perto de um pequeno ribeiro, decidi parar para descansar um pouco e refrescar-me. Em tranquilo silêncio e debruçado sobre o fio de água fresca, sem me aperceber, ouço uma voz perto, muito perto, perto demais e que apesar de estranha logo reconheci. Num sobressalto levantei-me e dirigi o olhar na direcção dessa voz. Num calmo e claro tom aquele indivíduo, rodeado por uma dezena de homens e mulheres, perguntou-me se podiam beber daquela água e descansar um pouco perto de mim. Estremeci e a custo consegui reagir ao deslumbramento daquela visão. Não tive qualquer dúvida, logo percebi que estava perante o profeta, aquele de quem todos falavam e acerca de quem todos especulavam. Ali, à minha frente, e a pedir-me algo…
Estupefacto fiquei durante largos minutos a observá-los e a tentar refazer-me do espanto inicial. Instalaram-se confortavelmente na erva incerta, como quem se deita na melhor das camas e assim ficaram em silêncio. Depois, remexeram nas sacolas, retiraram delas pão que distribuíram, incluindo a mim e, mesmo antes de o ingerirem, puseram-se a olhar o céu e, num murmúrio, disseram várias palavras que não percebi. Enquanto comemos aquele saboroso pão, conversámos muito. Simpatizei com ele, com seus modos calmos e tranquilos, mas não tive coragem para o confrontar com as histórias que dele ouvira e que tanto me intrigavam.
Num movimento suave e calmo todos se levantaram e se prepararam para seguir viagem. Convidou-me para o acompanhar naquele pequeno percurso. Acedi e pusemo-nos a caminho. À medida que nos aproximávamos das portas da cidade consegui perceber que o grupo crescia. Eu seguia-o de perto, apenas à distância do perímetro dos seus fiéis acompanhantes. Mesmo antes de entrarmos na cidade, fui engolido pelo mar de gente que se abeirava nos caminhos e não mais consegui aproximar-me. Segui no mesmo sentido, atropelado, empurrado e comprimido pela força centrífuga daquele movimento, mas percebia que cada vez me afastava mais e regressava à minha condição inicial. Aquilo que se passou a seguir foi indescritível: a cidade em peso nas ruas, num completo caos e desordem. Por um lado, a vontade popular de chegar perto e tocar o profeta. Por outro, a repressão das forças militares que, sem pudor ou senso, maltratavam os seus concidadãos, numa desesperada tentativa de contrariar aquela genuína vontade e manter qualquer réstia de ordem.
Enquanto cronista que continuará a vaguear por este mundo, que a cada dia parece maior, tenho por desejo conseguir transmitir-vos aquilo que os meus sentidos, com veracidade, experimentaram. Espero eu, e que os deuses me auxiliem, que tudo aquilo que o meu olhar testemunhou, nestes dias, chegue até vós e que, através da minha humilde condição e arte, consigais ter uma pequena ideia da loucura que os dias de hoje viveram. Garanto-vos que, em vários momentos, cheguei a desconfiar da minha sanidade mental, pois estas experiências foram por demais intensas, eu diria mesmo, de pura excitação individual e exaltação colectiva. Os dias de amanhã não me pertencem, não os poderei inventar, mas gostava muito de os conseguir antever e de saber o que acontecerá a este “louco”, que em nome de um Deus único, tem revolvido os paradigmas instituídos e, acima de tudo, tem posto em causa os fundamentos éticos, morais e religiosos das comunidades por onde tem passado. Tal como esse filho de Deus tem ensinado a quem o segue e escuta: a partir de agora o futuro a Deus pertence, apenas e só.

Avaliação e comentários: (até 10 valores por júri)
Betty Vidigal - Nota 6,5;
Marco Antunes - Bem escrito e interessante, pude perceber o homem de imprensa em cada palavra do cronista, construir um tal retrato e prcorrer com segurança as armadilhas do enredo proposto é tarefa para raros. Nota: 10
Lorenza Costa – É um texto correto, mas falha na transmissão daquilo que, segundo o cronista no último parágrafo, teria sido seu desejo transmitir. O encontro casual com Jesus num ambiente campestre, fora das muralhas, depois de uma noite anormal, lembra demais os clichês da literatura romântica. Nota: 8
Luci Afonso – Texto irretocável, narrativa envolvente. Nota: 9,5
Oswaldo Pullen Parente - Bem escrito e bem desenvolvido, talvez com uma erudição desnecessária para o gênero. Nota:9

total - 43

3º concurso de cronistas organizado pela Câmara dos Deputados de Brasília

Tendo tido conhecimento, através da revista LER, da abertura deste concurso para cronistas, resolvi dar uma espreitadela e inscrever-me. Nunca participei em qualquer concurso literário, ou melhor, nunca tinha colocado a minha escrita à consideração de qualquer avaliação. Fi-lo agora e estou, neste momento, a participar neste concurso. É um concurso constituido por dez etapas semanais e eliminatórias, sendo que em cada etapa é lançado um tema e um desafio aos cronistas. Neste momento estamos na segunda etapa e o resultado da primeira semana já foi conhecido. Enquanto estiver em competição, irei colocando aqui, aquilo que for produzindo e sua avaliação.

09 maio 2009

07 maio 2009

em Maio a LER

06 maio 2009

máscaras de mim

Toda a nossa vida vestimos uma máscara, ou mais. Podemos até ir mudando de máscara ao longo do nosso tempo, uma vez, duas vezes, ou ainda mais vezes. As vezes que quisermos ou pudermos. Vezes levadas por imperativos circunstânciais ou por imposições conjunturais. Parece-me quase com toda a minha certeza que, acima de tudo, vamos substituindo as nossas máscaras por razões bem mais comezinhas: os humores e amores da alma ou as dores e os vigores do coração. Enfim, as alegrias e as paciências de cada idade. Todos e em cada um dos nossos dias saímos à rua mascarados, com elas nos apresentamos e somos apresentados ao mundo. Através delas nos escondemos desse mesmo mundo e protegemos aquilo que pensamos e acreditamos ser.
A(s) minha(s) conheço-a(s) bem, muito bem. Também já as troquei algumas vezes. Aquilo que faço, digo ou escrevo, poderá não ser mais do que máscaras que me servem na perfeição para guardar para mim aquilo que sou, ou acredito ser.

05 maio 2009

sanitário do mundo

Assaltado fui, recentemente, com a notícia em forma de boato que a Cerâmica de Valadares se encontra com várias e sérias dificuldades que, a curto prazo, poderão mesmo pôr em risco a sua viabilidade futura. Foi igualmente com enorme surpresa e tristeza que ouvi dizer que, face a essas dificuldades, a administração da Cerâmica tenciona vender as actuais instalações e deslocalizar a empresa para outro local (!?).
Como valadarense que sou (assim me considero), também me vejo parte interessada no bem-estar e na qualidade da vida da comunidade. Esta situação da Cerâmica de Valadares e o seu putativo encerramento, pelo menos em Valadares, é algo que prejudicaria por demais a comunidade, não só para no que diz respeito à economia local - pelos postos de trabalho, pelas dinâmicas inerentes, pelos consumos anexos e práticas adjacentes, como também para o nome de Valadares, pelo conhecimento e, principalmente, pelo reconhecimento que a marca proporciona à Vila de Valadares.
Se podemos considerar natural quando deambulamos pelo país, e de lés a lés, dar de caras (e com outras partes do corpo) com a etiqueta de Valadares, o que, aliás, nos permite com propriedade sentir em casa… já não será tão natural depois de meia volta ao mundo continuar a encontrar, aqui, ali e acolá, essa mesma etiqueta. Não sendo um individuo muito viajado, tenho tido a oportunidade de conhecer outras geografias, umas mais, outras menos longínquas e o que me tem acontecido, frequentemente, nessas ocasiões e sempre que necessito de experimentar uma casa-de-banho é sentir-me projectado, ainda que temporária e momentaneamente, de regresso ao aconchego e conforto do lar. Não estarei a exagerar se vos disser que não me lembro de uma única viagem pelo mundo – da Jordânia a Londres, de Marrocos a Atenas ou de Paris a Moçambique, que não tivesse contacto visual ou sensorial com um qualquer utilitário oriundo, tal como eu, de Valadares.
Desconheço por completo os canais de escoamento e os mercados actuais, passados ou futuros da marca Cerâmica de Valadares. Contudo, é nesses momentos de afastamento que mais me apercebo do valor e potencial da marca e da real dimensão da globalização, naquilo que compreende a projecção de algo local para uma dimensão ou nível mundial e as implicações e repercussões que essa dinâmica globalizante provocam nas lógicas locais.
Poderão alguns até ficar ofendidos e desagradados com esta associação do nome de Valadares a essa parafernália de utensílios ou utilitários privados e públicos, normalmente entendidos como os fiéis depositários daquilo que são os excessos repugnantes que o próprio organismo humano rejeita. Mas, no que a mim me diz respeito, nada nisso me incomoda e, dignamente e com orgulho, aceito que Valadares possa ser o sanitário do mundo.
O terrível cenário de encerramento da Cerâmica traz-me também à consciência outros factos, que por (de)formação técnica me assaltam e me deixam preocupado. Sendo esta uma instituição com várias dezenas de anos de existência e com uma capacidade empregadora significativa, foram muitas as gerações de trabalhadores que por lá passaram e lá fizeram a sua vida. Foi, concerteza, lá o momento primeiro de muitas vidas a dois; muitas terão sido as famílias que de lá tiraram o seu ganha-pão, muitas vezes, a única fonte de rendimentos para famílias inteiras. Foi um espaço testemunha de muitos e diferentes tempos, foi e é, um espaço-tempo. Por lá e lá viveram-se muitas vidas e essas histórias de vida associadas a essa manufactura mereceriam um outro fim. Por outro lado, como é que a comunidade de Valadares conviveu com esta grande indústria? Qual a relação e o envolvimento da instituição na comunidade? Qual foi o papel da Cerâmica para o desenvolvimento económico, social, cultural e demográfico da comunidade? Estas seriam algumas das questões que importava colocar na busca de respostas que contribuíssem para um melhor e maior conhecimento da história da empresa e da história da própria comunidade.
Como podem imaginar haveria tanto e tanto para fazer, para dizer, para escrever acerca destes longos anos da Cerâmica. E tantas seriam as possibilidades de trabalho que tamanha empresa implicaria muito tempo e disponibilidade. Deixo-vos um só exemplo daquilo que poderia ser feito: Na década de oitenta um antropólogo estrangeiro chega a Portugal. Anonimamente radica-se numa determinada comunidade e emprega-se como operário numa grande unidade industrial. O seu objectivo é estudar essa indústria, não como elemento estranho ou exógeno, mas como parte integrante e activa de todo o processo produtivo. Ninguém da estrutura dessa empresa soube das suas reais intenções e durante o período de tempo que necessitou para fazer o seu trabalho de campo, viveu e trabalhou como qualquer outro funcionário da dita empresa. No fim, despediu-se e regressou ao seu país para aí apresentar à academia o seu trabalho.
A dúvida que me assalta neste momento, e isto porque não conheço nem tenho qualquer contacto ou acesso à administração é saber se alguém, algum dia, estudou esta grande unidade de produção!? Terá alguém recolhido e registado os inúmeros testemunhos de tantas e tantas histórias de vida daqueles que contribuíram definitivamente para o sucesso da marca e da organização!?...Não sei, mas gostava de saber. Aliás, gostava de conhecer tais trabalhos. Mais, pretendi com este texto alertar publicamente para o risco da perda de um incomensurável património material e, acima de tudo, imaterial.
(texto enviado para o Jornal Valadares & a Cidade em Foco)

04 maio 2009

o triunfo dos porcos

A seriedade do problema impõe um tom grave e preocupado, no entanto, esta pandemia provocada pela febre suína com origem no México traz consigo algo que nos remete para um sarcástico imaginário: Será que os suínos - essa espécie maldita estigmatizada por uma nomeada injusta e não verdadeira atribuída, sem consulta prévia, pelos humanos - depois de humilhações de séculos, de imundos trabalhos e extermínios em massa, terão finalmente encontrado a fórmula certa para a sua vingança final!? Irão eles, por fim, triunfar!?...

29 abril 2009

terá que ser sempre assim!?...

Um homem fuma e bebe, não chora nem pede. PAga as contas e verifica o dinheiro. Fecha a porta da casa de banho. Sempre. Compra roupa uma vez por ano. Usa o mesmo tipo de sapatos. Arranja as coisas em casa. Ela procura não pensar em cenários alternativos. Nada de sonhos, nada de fantasias.
Ela sonha com as extensões de cabelo da apresentadora do concurso da televisão; ente as dores da outra que foi trocada pelo marido seis meses depois de um casamento majestoso numa quinta qualquer; comove-se com o nascimento da filha da top-model; tenta imitar a actriz da telenovela da noite; gostaria de vestir, uma vez que fosse, uma peça de lingerie de seda muito fina. Tudo isto acontece na sua cabeça antes de fazer o jantar, as revistas escondidas do olhar dele.
A mesa está posta e ele arrasta-se com o copo na mão até ao sofá gasto.
Excerto de "Fúria" de Patrícia Reis, in O Prazer da Leitura.

o mesmo recreio que eu um dia frequentei


Independentemente de tudo aquilo que poderá estar a correr mal, dos efeitos perversos e de todos os problemas que há para resolver.

23 abril 2009

dos livros e dos direitos de autor é o dia

Apesar de hoje ser notícia que Portugal é o segundo país da Europa onde se lê menos livros e que os dados do último Eurobarómetro indicarem que cerca de 63 por cento dos adultos afirmam que no último mês não pegaram num livro. E os livreiros lusos admitirem que os livros são caros, mas porque não há leitores, hoje é o dia mundial do livro e dos direitos de autor.
Dia este do tamanho do mundo.

Adenda:
Sob o pretexto de poder estar a contribuir para a AMI fui à Fnac buscar

E uma Bertrand estava repleta de crianças, numa qualquer actividade...

22 abril 2009

clara como a água...

É lugar comum falar-se no clientelismo, no compadrio e no caciquismo que enferma as instituições nacionais, nomeadamente as autarquias e demais organismos de dimensão local ou regional. Hoje, ao "desfolhar" os médias regionais transmontanos online, encontrei a prova desse mundo que existe e é bem real, só que nada nem ninguém o consegue destruir ou combater. Como poderão ler nesse texto, os personagens agem impunemente e, ainda por cima, têm a distinta lata de publicamente afirmar que tudo é "transparente", ou seja, o roubo e a trafulhice fazem-ze descontraidamente e sem reservas. Já para mim, trata-se de um caso que de tão caricato roça a pornografia e é, sem qualquer dúvida, um caso de polícia. Vou transcrever a notícia para aqui e sublinhar (a azul) as pérolas...

PSD de Vinhais contra Provedor da Santa Casa
O PSD de Vinhais não está satisfeito com a gestão da Santa Casa da Misericórdia da vila e ameaça mesmo recorrer aos tribunais.
São seis as alegadas irregularidades da Santa Casa da Misericórdia de Vinhais que a concelhia do PSD aponta, num comunicado divulgado ontem.
Carlos Costa, o líder da concelhia laranja em Vinhais, diz mesmo que irá ser apresentada uma “queixa ao ministério público de Vinhais”, que será também enviada ao “secretário de Estado da Segurança Social, que tutela a Misericórdia”.
Carlos Costa aponta “vários factos”, que o PSD “considera ilegalidades. “Há perto de duas décadas que o actual provedor é o mesmo. Eles não aceitam a entrada de novos irmãos. Eu próprio já tentei tornar-me irmão, pagando a tal jóia de 500 euros, aumentada já por eles próprios para evitar que outras pessoas entrassem e lhe retirassem a gestão da Misericórdia”, acusa o presidente da Concelhia do PSD. Mas as críticas de Carlos Costa não se ficam por aqui. “Outra das irregularidades – e no nosso entender uma grande ilegalidade – é o facto de serem os próprios elementos da direcção a fornecer a Santa Casa. Há muitos anos que é assim e nunca ninguém teve a coragem de o denunciar mas entendemos que isto não é correcto”, acrescenta o líder do PSD no concelho.
No mesmo comunicado, a Concelhia do PSD de Vinhais critica ainda aquilo que diz ser “o reduzido número de irmãos” da instituição, a “falta de transparência nos concursos e negócios da Santa Casa e a alegada “desmotivação por parte dos recursos humanos da instituição”. Críticas desvalorizadas e rebatidas por António Alberto, provedor da Santa Casa de Vinhais e, curiosamente, também ele do PSD.
“A Misericórdia só está aberta há 18 anos e eu só estou aqui há 14. Não é proibido, desde que os irmãos, em Assembleia Geral, votem em favor disso”, explica, confirmando que membros da Mesa da Assembleia fornecem a Santa Casa, mas “por coincidência”. “São os únicos armazéns de mercearia que há em Vinhais. Não vamos deixar que venham de Mirandela, Bragança ou Chaves fornecer a Misericórdia, se há aqui um armazém que pode fazer isso. As facturas são transparentes”, defende António Alberto.
Sobre a tentativa de se fazer membro da instituição, António Alberto revela uma conversa tida com o presidente da concelhia de Vinhais, na segunda-feira seguinte à Páscoa, onde lhe terá explicado o procedimento. “É inscrever-se, tem de pagar uma jóia e depois será ou não aprovado em direcção. Veio cá na terça-feira, falou com um funcionário que lhe explicou isso mas não se inscreveu”, garante o Provedor.
O presidente da Concelhia de Vinhais do PSD lança ainda um ataque a Américo Pereira, presidente da Câmara, a quem acusa de andar a “oferecer os empregos que serão criados com a Unidade de Cuidados Continuados”, a ser implantada brevemente no concelho.
Em resposta, Américo Pereira confirma parte dessa acusação. “De facto, a Câmara promete que vão ser criados na UCC em Vinhais uma série de empregos, mas nada mais do que isso. E temos muito orgulho em termos conseguido para a vila uma UCC que, para além de satisfazer as necessidades das pessoas, vai criar uma série de postos de trabalho”, explica Américo Pereira, que lamenta, considerando mesmo “um escândalo e uma vergonha”, que Carlos Costa se tenha dirigido “ao Provedor, e tentar negociar com ele determinado número de empregos, querendo uma cota para determinado partido político”.
Já António Alberto diz que estas acusações resultam de algumas dificuldades do PSD em conseguir preencher as listas nalgumas freguesias.

20 abril 2009

colecção formiguinha

Neste fim-de-semana a criança teve trabalhos-de-casa suplementares. Depois de muita insistência da mãe, ela lá acabou por admitir que de um castigo da professora se tratava. Passou o Domingo a fazer uma cópia de uma história completa e nós, como pais e responsáveis, não querendo desautorizar a professora, reforçamos a necessidade de cumprir o castigo. Assim, passámos o dito dia numa luta com a criança para que continuasse a escrever. Um (pai) e outra (mãe) íamos acompanhando a leitura e a cópia, mas acima de tudo estávamos ali para não a deixar desistir. Não que a história fosse longa, mas para uma 2ª classe... Foi penoso até às 23 horas. Hoje, confirmámos junto da Professora o castigo...
Mas o que motivou estas palavras foi a recuperação de algo que estava perdido no báu das minhas memórias, pois a história que a criança teve que copiar para um caderno pertencia à colecção formiguinha da Majora. Mini-Livros que eu quando era criança também tive, li e coleccionei. Naquele tempo adorava essas histórias e, apesar de não me recordar se algum dia as juntei todas, lembro-me de as coleccionar com avidez. Neste tempo e porque fui "obrigado" a ler, não lhe achei grande piada! Mais, utilizam uma linguagem completamente desactualizada, sendo a minha filha um óptimo filtro, pois a cada parágrafo me questionava sobre o significado de alguma palavra. Enfim, fica o registo de mais uma pedaço de tempo recuperado e para aqueles que podem não se recordar, mas que, concerteza, por lá passaram, aqui fica uma imagem e a colecção, entretanto, reeditada:
1 As Três Maçãzinhas de Oiro
2 As Caras Trocadas
3 O Rapaz do Cavalinho Branco
4 O Peixinho Encantado
5 As Três Irmãs e 0 Corvo
6 A Menina e 0 Coelhinho Branco
7 As Três Mentoras do Avozinha
8 O Príncipe com Orelhas de Burro
9 A Menina e 0 Figueira
10 A Noiva do Príncipe Sério
11 0 Príncipe do Mar
12 A Menina dos Cabelos de Oiro
13 Os Três Vestidos
14 Os Três Irmãos e os Três Pretos
15 João Adivinhão
16 O Tesouro do Ceguinho
17 A Riqueza e a Fortuna
18 O Menino Grão de Milho
19 O Porqueiro ladino
20 O Sapateiro e o Brilhante
21 A Menina Mudo
22 Canta, Surrão
23 O Rapaz do Anel
24 O Rei e os Sablch6es
25 Os Sete Encantados
26 O Velho Querecas
27 O Dez Anõezinhos
28 O Menino Abandonados
29 Os Dois Corcundinhas
30 Maria da Silva
31 O Gigante Egoísta
32 Os Sapatinho Vermelhos
33 Os Três Cães Encantados
34 Os Fósforos de Oiro
35 O Rouxinol e o Imperador
36 A Rainha de Coração de pedra
37 O Sonho do Jovem Rei
38 A Princesa da Ervilha
39 O Príncipe e a Andorinha
40 O Coraçãozinho de Chumbo
41 A Pata Real
42 O Pinheirinho
43 A Vara Seca
44 A Menina e o Dragão
45 Gulliver ou o Homem Montanha
46 Gulliver ou o Homem Migalha
47 João e a Gata Princesa
48 O Poço Encantado
49 Bonifácio e as suas Ambições
50 Bela-Feia e Feia-Bela
51 Os Três Anõezinhos da Floresta
52 O Papagaio do Capitão Corneta
53 O Príncipe Envergonhado
54 Aventuras de um Frango Pedrês
55 O Gigante Sôfrego e 0 Anão Comedido
56 A Menina Vestida de Estrelas
57 O Pescador e a Sereiazinha
58 O Traio Novo do Rei
59 O Lobo e a Escada
60 Um Valentão

17 abril 2009

antropologia, eu e o lobby

Hoje no suplemento de economia do jornal Público vem publicada uma peça sobre os Antropólogos como armas secretas dos negócios. Algo que eu já sabia ser a realidade de grandes empresas multi-nacionais e noutros países, mas que por cá ainda não fez escola - ensinamentos de uma sala de aulas de antropologia económica e de outra de antropologia do desenvolvimento. O que desconheço é(são) o(os) motivo(s) e estranho o destaque merecido. Pode ser que assim deixemos de ser olhados como estranhos e considerados anormais que gostam é de andar no meio da selva e das tribos a estudar como vivem e se comportam. De facto, a Antropologia é abrangente e emparelha com qualquer outra área do saber. Aquilo que vem hoje no Público será importante para que também cá, em Portugal, se abram novas perspectivas para aqueles que a praticam. Como sabem sou santo em causa própria e por isso tudo isto implicaria uma declaração de interesses, mas o importante seria mesmo que houvesse essa mudança. E já agora que eu possa participar.
Podem (excepcionalmente) ler os textos aqui e aqui.

16 abril 2009

dupla dose


15 abril 2009

principio de desacordo!?...

Afinal já não vamos ter acordo ortográfico em Maio. E quem nos informa é o Ministro da Cultura, mas o de Cabo Verde, porque concerteza o de Portugal ainda deve andar por aí a dizer que nada se alterou e que as datas são para cumprir, e tal e coisa....
Segundo diz Manuel Veiga (ministro da cultura de Cabo Verde) teremos que aguardar pelo segundo semestre de 2009 para, talvez, ver esse acordo efectivado. Mas reparem bem nos subterfúgios linguísticos utilizados para justificar o absurdo e para esconder aquilo que será o principio do desacordo ortográfico:
. Alguns Estados membros acreditam que há necessidade de reunir "mais consensos e discussões" à volta do projecto.
. Ainda há necessidade de discutir mais e conseguir maior consenso, não só em Cabo Verde mas também noutros países, como Portugal, Angola e Moçambique.
. Possivelmente o acordo deverá entrar em vigor no segundo semestre deste ano.
. O acordo ortográfico também não vai entrar em vigor naquela data em Portugal, uma vez que as autoridades portuguesas entendem que precisam aprofundar o debate.

14 abril 2009

contra tudo e contra todos...

Toca o telefone, atendo, do outro lado e num tom soturno, voz amiga diz-me:
- Então não é que o Porto vai jogar amanhã contra o Manchester e a UEFA decide castigar o treinador do Porto com um jogo de suspensão!... Cabrões!...
- Pois foi. Li agora no Expresso Online... - respondo eu, um tanto ou quanto indiferente.
- Já pensaste no que isso significa!?... Vamos ter o José Gomes a comandar a equipa num jogo dos quartos de final da Liga dos Campeões...
- Eh pá!... ainda não tinha pensado nisso! Um José Gomes...
- Pois é! Esses gajos da UEFA... Isto é o Platini que ao ver que o Porto pode até passar para as meias-finais. Pega lá um castigo... para ver se destabiliza!...
- Achas que foi premeditado?
- Tens dúvidas!?... Isto são merdas à Ricardo Costa... Se não é na Liga é na Federação, se não é na Federação é na UEFA.
- Deixa lá pá... vais ver, agora mais do que nunca o Porto vai ganhar. Isto é o que dá força ao Dragão. Contra tudo e contra todos...

o tempo imaginário

O tempo imaginário não pode ser distinguido do espaço em termos de direcção. Se uma pessoa pode ir para norte, pode também dar meia volta e dirigir-se para sul. Da mesma forma, se uma pessoa pode avançar no tempo imaginário, pode também dar meia volta e voltar para trás. Isto significa que, no tempo imaginário, não existe diferença significativa entre avançar e recuar. Por outro lado, quando olhamos para o tempo "real", existe uma enorme diferença entre avançar e recuar, como todos sabemos. Donde vem esta diferença entre passado e futuro? Por que razão recordamos o passado, mas não o futuro?
(Stephen W. Hawking, A Brief History of Time, in Anthony Giddens - As Consequências da Modernidade)

10 abril 2009

Mr. Nail Cutter

A personagem central desta narrativa é alguém que me tem acompanhado nos últimos tempos. Posso até considerar que se trata já de um velho conhecido, de quem não sei o nome, nem sequer alguma vez lhe dirigi uma única palavra. Mas a sua presença é permanente e persistente, o que fará com que nos reconheçamos mutuamente. A qualquer hora do dia, seja manhã, tarde ou princípio da noite, durante a semana ou ao fim-de-semana, lá está ele, ou então está para aparecer. Carregando consigo os anos da idade, uma negligente aparência e uma solitária disponibilidade, característica de quem não tem com quem segredar o tempo, nem com quem partilhar o espaço. Ansioso e disponível para qualquer tipo de contacto, chega à fala com quem quer que seja, preferencialmente, com o sexo feminino, a quem dedica especial atenção no contacto visual. A quem, educadamente, dá preferência e prioridade nos esporádicos momentos de proximidade. Quem connosco partilha estes momentos sabe-o: este homem não perde uma oportunidade de meter conversa com uma senhora - mais ou menos jovem, tanto lhe dá… essa atitude chega a impressionar alguns de nós, que por si nutrem tamanha admiração e inveja. Interessante observação é vê-lo actuar, natural e descontraidamente, sob um qualquer pretexto, a interpelar pedindo um pedaço de jornal ou a pedir licença para se sentar na mesa de quem considera capaz de o aceitar. Por vezes, como não poderia deixar de acontecer, acaba por se expor ao ridículo, como quando tenta abordar algumas raparigas ou senhoras, que pura e simplesmente o desprezam ou o deixam a falar sozinho. Outras vezes podemos vê-lo em atitudes menos próprias, tais como deixar-se adormecer, a limpar olimpicamente os orifícios nasais ou cavidades auriculares, a fazer estranhos ruídos, em suculento palitar de dentes, entre outras. Mas ele lá está, sempre e regressando sempre. Com o mesmo sorriso, com o mesmo jeito e com a mesma vontade. Leitor compulsivo, desloca-se pelos espaços sempre acompanhado por uma qualquer fonte de leitura. E não é daqueles que passeia os livros, isso percebe-se. Ele lê. Reconheço a sua voz, o seu jeito andrajoso de bolsa à bandoleira, o seu olhar caído mas atento, o seu discreto mas bom carro, as suas sandálias devidamente forradas com meias precavendo correntes de ar, o som do seu corta-unhas, utensílio que o acompanha e que, orgulhosamente, exibe e utiliza sem pudor em qualquer circunstância, aproveitando a melhor luz possível. Este é o retrato de alguém que apesar de, por vezes, ser inconveniente faz parte do mobiliário do lugar e, concerteza, de outros. Estranharemos o dia em que não regressar.

clientelismos

A assídua frequência de determinados lugares traz consigo a habituação, o reconhecimento e a rotina. Muita gente não gosta de ser cliente, de frequentar sempre os mesmo lugares e espaços, mas cá para mim, não há melhor do que ser considerado e ter o estatuto de cliente. Claro é que de ocasionais e anónimos clientes passamos a frequentadores, cuja presença e/ou ausência se faz sentir. Uma ou outra situação, um ou outro estatuto carregam consigo circunstâncias díspares e apesar do conforto de um certo anonimato, ser reconhecido pode, esporadicamente, trazer algumas comodidades, tais como: não ter que ir para a infindável fila de pré-pagamento, pagar apenas no fim do consumo, ser servido à mesa, ter direito à melhor ou maior fatia do bolo, uma sopita mais quente ou uma tosta-mista mais bem recheada, entre outras pequenas minudências, quase imperceptíveis para os demais. O reverso da medalha, que é como quem diz, o lado negativo desta circunstância é a rotina dos sons, dos cheiros e dos olhares, pois como nós há mais quem goste de ser cliente e repetir trajectos. Os habituês, apesar de perfeitos desconhecidos e estranhos, reconhecem-se nestes lugares. Com o passar do tempo e da partilha dos espaços, acabamos por nos habituar a esses rostos, a essas outras formas de estar e de ser. Assim, reconhecemo-nos sem sequer nos termos conhecido. No meio deste espaço-tempo tanto aconteceu, tanto acontece e vai continuar a acontecer. Quando vamos a caminho sabemos já, ainda que inconscientemente, quem vamos encontrar e com quem nos vamos cruzar. Este exercício é recíproco e, concerteza, qualquer outro poderá saber que nos encontrará por lá… isto por si tem, para mim, alguma piada e se a esta lhe adicionarmos os rasgos de beleza que, de quando em vez e com prazer, nos olhos caem, só poderemos continuar... clientes.

instantes urbanos III

soltas da LER

o anjo não lhe mostra o que teria sido a sua vida se tivesse podido realizar os seus desejos e projectos, dá-lhe a ver o que seria a vida dos outros se ele não tivesse vivido como viveu.
. Abel Barros Baptista, Abril 2009

somos nós que procuramos a lógica entre um segmento e outro da vida.
. António Tabuchi, Abril 2009

Numa sóbria manifestação de carácter, a entrevista ao escritor José Rentes de Carvalho. Através dela conheci o seu blogue Tempo Contado. Tal como o próprio afirma, trata-se de um espaço de partilha com respeito, muito respeito pelas pessoas que vão lá ler-me. Sim é verdade, eu li e fui respeitado.

recorte para meu conforto e bem estar

04 abril 2009

quem das ervas nasce, pelas ervas pasce

Participarei esta tarde nas primeiras jornadas da cultura popular em Viana do Castelo, organizadas pela Ronda Típica da Meadela, a minha intervenção será acerca da Encomendação das Almas inserida num painel dedicado às tradições e aos rituais. Mas a grande expectativa diz respeito ao jantar temático que, pela apresentação do cardápio, me deixa curioso. Vamos lá experimentar.

03 abril 2009

chega mais logo...

02 abril 2009

atentado à democracia

Soube-se há dois ou três dias que Domingos Névoa, administrador da empresa Bragaparque, recentemente condenado em tribunal por tentar subornar o vereador da Câmara Municipal de Lisboa, José Sá Fernandes, foi nomeado para a presidência da Braval, empresa inter-municipal responsável pela recolha de lixos na região de Braga. De imediato se levantaram várias vozes de indignação - João Cravinho, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa e Manuel Alegre foram os rostos visíveis desse sentimento de revolta e de indignação. Entretanto, o Bloco de Esquerda de Braga lançou, no dia 31 de Março, uma petição online para contestar tamanha indignidade. Eu já subscrevi e incentivo todos os que me lêem a fazê-lo.
É verdade!... Estranhamente o partido socialista e seus dirigentes nacionais nada ainda disseram.

30 março 2009

ecos e egos

"PONTO 3 – PERÍODO DE ANTES DA ORDEM DO DIA.
Vamos receber inscrições para intervenções no Período de Antes da Ordem do Dia.
Senhor Membro da Assembleia, Júlio de Carvalho, tem a palavra, faz favor.
Júlio de Carvalho – Excelentíssimo Senhor Presidente da Assembleia Municipal e Senhores Secretários, Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara Municipal e Excelentíssimos Senhores Vereadores, Excelentíssimos membros da Comunicação Social, Senhores Presidentes dos Grupos Municipais e caros companheiros e Membros desta Assembleia.
O momento que nós vivemos actualmente, não nos pode obviamente deixar escondidos perante ele, não obstante saber que é um assunto bem complexo o momento que vivemos de crise reconhecida a nível nacional e internacional, não podia o PSD, embora sabendo da tarefa difícil que lhe cabe, aproveitar esta oportunidade para dele dar uma visão e leitura como é exigível de todos nós que queremos no futuro de Bragança, de Trás-os-Montes e de Portugal.
Embora conscientes de que a nossa voz … do cimo de Portugal, como dizia Miguel Torga, ou usando uma terminologia bem bonita, de um Membro desta Assembleia, Dr. Luís Vale, “bem perto do céu “ que foi titulo de uma das obras mais completas, uma das obras mais perfeitas, das obras mais curiosas que tenho visto publicadas em Bragança nos últimos anos e de interesse não só de Rebordãos, porque o tema é Nossa Senhora da Serra, como também para todos nós que veneramos e que sentimos a presença e a protecção de Nossa Senhora da Serra ou da Nossa Senhora das Neves. Parabéns ao Dr. Luís Vale.
E aproveitei e não queria deixar passar esta oportunidade, de facto, publicamente fazer em meu nome pessoal, obviamente, uma apreciação crítica, positiva e boa, desta grande obra que publicou para interesse de todos nós. E mesmo que chegasse, creio, que a nossa voz, a Lisboa, sempre haveria, como nós sabemos, algumas vozes, normalmente os costumeiros é que habitualmente, medíocres, as gostam de abafar."

(subtraído da acta da reunião ordinária da Assembleia Municipal de Bragança do dia 23 de Fevereiro de 2009)