06 junho 2023

menino das alianças

(fotografia retirada do meu álbum e de autoria desconhecida)

Esta será uma das memórias da minha meninice mais antigas. Não me recordo do momento acima retratado, mas guardo algumas imagens deste dia. Foi a primeira e única vez que me colocaram na pele de menino que transporta o símbolo de casamento. Não consigo datar este momento, mas segundo os meus pais terá sido no final do Verão de 1977, tinha eu então quatro anos e vivíamos ainda em Delães, Famalicão.
A noiva chamava-se Manuela e era irmã mais velha de uma rapariga chamada Ilda que, à época, tomava conta de mim e do meu irmão Daniel. Terá sido essa relação que motivou a minha convocatória para desempenhar tal papel. Do noivo nada sei, nem recordo sequer o seu aspecto.
Vem esta memória a propósito de, quase cinquenta anos passados, ter reencontrado a Manuela, agora uma senhora com cerca de setenta anos, já avó e com uma obesidade mórbida. Gostei de falar com ela, de saber como a vida lhe correu e de saber que a irmã Ilda está bem, emigrada na Suíça.
Este reencontro aconteceu em Delães, num café do prédio onde ela reside, em frente à Igreja e à casa que foi do meu avô Marcelino. Apesar do seu ar triste e sofrido, percebi nas suas palavras alegria por me voltar a ver, depois de todo este tempo.
Entretanto, nas várias idas a Delães, já a voltei a ver, sempre nesse mesmo café, muitas vezes, mas não mais falei com ela.

05 junho 2023

um liberal, portanto

"Nietzsche, nada tendo a ver com Marx, nem com as massas que tanto obcecaram o autor d' O Capital, tem uma visão para o homem que queira e se sinta capaz de se endeusar, isto é, de criar os seus próprios valores, a sua ética. Claro que Nietzsche não especifica qual seja a ética que decorre da sua "vontade de poder" porque, obviamente, ele não vai ditá-la a ninguém. Cada qual elaborará a sua; não haverá nenhuma ética de rebanho. A sua vontade de poder é mais uma atitude psicológica perante o mundo, perante a vida, que deixa completamente em aberto: a cada qual as decisões mais adequadas a serem tomadas individualmente."
Onésimo Teotónio Almeida, in Revista LER, Primavera 2023.

31 maio 2023

metamorfose

Sempre encontrei no rosto do meu pai os traços da minha avó, sua mãe: olhos pequenos e negros, num rosto quadrado de pele queimada e curtida. Agora, e à medida que envelhece, revejo nele o rosto do meu avô, seu pai. A progressiva perda de massa corporal metamorfoseou-lhe o rosto e vejo-o cada vez mais parecido com o pai.

28 maio 2023

cinquenta anos

Pois já cá cheguei. Meio século de, posso dizer, feliz e confortável existência. Despreocupado com o que há-de vir e resta viver, celebrei este dia com a família e amigos que fazem parte do meu círculo vital de existência. Ainda estou a juntar os vídeos e as fotografias que registaram esses momentos e, por isso, poderei ir acrescentando momentos.















(em actualização)

despenteado mental


"Ao sabor da pena e na primeira pessoa, registo as memórias da minha existência, percorrendo os trilhos e as encruzilhadas que foram escolhas, recordando também aqueles que a meu lado caminham.
Esta auto biografia, que se afirma parcial, de cinquenta anos de lugares, pessoas e momentos, significará que a expectativa é ainda haver espaço e tempo para outros registos, que possam complementar o que até aqui se viveu." (in contra-capa)

[ 26 de Maio de 2023, cidade do Porto, distribuição apenas pela família e amigos ]

18 maio 2023

ao espelho

Nesta última noite, no Gato Vadio, Porto...

(Rui Cortes, Sofia Costa e eu)

11 maio 2023

01 maio 2023

participação ecossocialista


Pela primeira vez e no ano em que completo cinquenta anos de vida, participei na concentração e manifestação do 1.º de Maio na cidade do Porto. Consciência de classe tardia? Não, apenas a percepção de que o futuro próximo será muito difícil, pois tudo se vai alinhando e preparando para derrubar este governo PS. Com uma forte clivagem à direita, importa reclamar e assegurar dignidade para quem trabalha. O plano inclinado irá acentuar-se, portanto a luta por uma sociedade ecossocialista, mais justa e digna, será tremenda.


30 abril 2023

querer e não poder

Num momento em que precisaria de me retirar para um ermo qualquer, de forma a ter condições para terminar texto que já deveria estar pronto e entregue, não consigo libertar-me das rotinas quotidianas. Eu até nem pedia muito, dois ou três dias sozinho e isolado, seriam mais do que suficientes. Não conseguirei e, assim sendo, vai ter que acontecer aqui mesmo. Solução: duas ou três noites sem dormir.

17 abril 2023

a chegar

Até que enfim!

verbo, salivar

Passear à beira mar, que é como quem diz à beira da praia, por estes dias, é constatar o regresso em massa das pessoas libertas dos espartilhos e com as carnes à solta, mas é também o momento do eterno retorno dos mirones, que estrategicamente se posicionam para a melhor perspectiva sobre esses nacos de carne desnudados. Não há como não reparar na pinta deles, quase sempre de óculos escuros e sempre a salivar, sobranceiros ao areal. É que nem disfarçam.

sem objecto e método

"A fé é a ciência rápida. Ciência sem método, sem começo nem caminho. Começa-se pela chegada. A partir daí só se pode recuar. Ou ficar no mesmo sítio, em silêncio ou oração."
Gonçalo M. Tavares, in Jornal de Letras nº 1370, Abril 2023.

10 abril 2023

estar e ficar

Continuo a gostar de vir para Trás-os-Montes nesta altura do ano. Aliás, é a época melhor do ano para aqui estar. Pena é que não possa ficar. O regresso à Invicta tem data e hora para breve.

tradição

"A tradição é sempre uma matéria dinâmica, até porque já se sabe que as tradições que não evoluem acabam por desaparecer. É absurdo exigir à tradição que se mantenha cristalizada, pois isso vai contra a sua natureza, que não é pura e simplesmente mimética, mas evolutiva: adaptam-se os conhecimentos ancestrais às realidades contemporâneas."
Manuel Halpern, in Jornal de Letras nº 1369, Março 2023.

conhecimento

Mantenho a certeza de que importante é o conhecimento e não, como agora se espalha ao vento, as competências. Isto porque é do conhecimento que advêm as competências e não o contrário. Ou dito de outra forma, não há competências sem conhecimento, mas há conhecimento sem competências. Um mundo sem conhecimento é um vazio ignorante, triste e incompetente.

LER

Vamos ler!

31 março 2023

24 rosas

A metáfora são as rosas e cada uma delas significa uma unidade de tempo de amor e dedicação à pessoa que a meu lado está. A celebração de um quantitativo que vai medrando e dando frutos. Aqui chegados, lúcidos e conscientes do tanto que já foi realizado e, ao mesmo tempo, não olvidando que há muito por alcançar. Agora e aqui, olhando em redor, só posso, só podemos, celebrar. Celebremos então.

20 março 2023

cosmogonia de uma nomeada

"O meu bisavô era tanoeiro. 
Andava de casa em casa, a fazer ou a consertar pipas. Terminado o trabalho, os clientes, por cortesia, perguntavam-lhe se tomava alguma coisa. Ao que ele respondia: um pirulito.
Um pirulito é um copo pequeno de vinho.
Assim: de pirulito em pirulito, o verdadeiro nome da família Silva caiu.
E o meu bisavô ficou Emídio Pirulito."
Sandro William Junqueira, in Jornal de Letras nº 1368, Março 2023.

demónios

"O que mata a Europa são os seus demónios interiores, a sua mesquinha desconfiança mútua, o seu horror à grandeza necessária para estar à altura da história, e a iliterata das suas elites políticas."
Viriato Soromenho -Marques, in Jornal de Letras nº 1368, Março 2023.

28 fevereiro 2023

a vida do escritor maldito

Terminei por estes dias a leitura da biografia de Luiz Pacheco, escrita por António Cândido Franco, e não posso deixar de reafirmar o fascínio, pelas piores e pelas melhores razões, que este indivíduo provoca em mim. Sou um fiel leitor e consumidor de tudo quanto possa existir de e sobre Luiz Pacheco. Tenho uma profunda admiração pessoal e literária pela sua coragem, pela sua alteridade, pela sua originalidade e genialidade. Um dos maiores e mais ricos personagens da literatura portuguesa do século XX.


O autor termina assim o texto:
"Deu de barato as ambições sociais do tempo, o respeito das convenções, a obediência às regras, o acatamento dos limites. Lutou por ser livre como ninguém da sua geração e a sua vida teve um lado escabroso, o da experiência funda da abjecção, que foi o alto preço que pagou pelo seu combate. Só aquele que como ele vai ao fundo do fundo da noite está pronto para saudar a luz heróica mas falsa do dia. Não batalhou por bens materiais - foi 'um cafre da Europa', um 'cão sem coleira' como de si disse -, mas para afirmar a sua vida. Quis e conseguiu viver livre numa sociedade de escravos e por isso a sua existência teve um sentido épico. Foi dos raros escritores portugueses do seu século que se bateu por ter biografia, que construiu uma vida, que não se satisfez com a vidinha programada que lhe deram - a mesquinha existência dos liceus, das proibições familiares, do funcionalismo, do ordenado mensal, das férias pagas. Transgrediu e arriscou. Fez da vida uma obra, embora a sua arte mais viva, a sua obra-prima, não fosse a vida que viveu mas a vida que escreveu - uma literatura vital, em que a escrita lateja, está viva, e as palavras têm carmim e o sabor a sangue. Escreveu verdades que ninguém sabia escrever."
(Franco, 2023: 456)

19 fevereiro 2023

irritação da amígdala

"A democracia está a ser tão esvaziada de conteúdo que pode ser defendida instrumentalmente pelos que servem dela para a destruir, enquanto os que servem a democracia para a fortalecer contra o fascismo são considerados esquerdistas radicais." (Boaventura de Sousa Santos, in Jornal de Letras nº 1366, Fevereiro de 2023)

As palavras de Boaventura de Sousa Santos (BSS), num excelente artigo do referido jornal, avivam em mim uma profunda irritação, que não é de agora, mas que teima em durar e que poderei traduzir em palavras no raciocínio que se segue:
Eu, que pago os meus impostos, como a maioria dos cidadãos portugueses, acredito e defendo que o Estado, fiel depositário ou, se preferirem, cobrador desses impostos, deve ser responsável pela providência e prestação dos serviços básicos, em qualidade, equidade e gratuitidade, à totalidade da população do país. Falo da educação, da saúde, da justiça e dos sectores estratégicos da economia, como a energia, os transportes e as comunicações. Acredito no acesso universal e gratuito à saúde (SNS), acredito na escola pública, acessível e com qualidade para todas as crianças e jovens do país, acredito numa justiça independente, justa e de proximidade às populações e desejo uma maior e melhor distribuição das mais-valias ou riqueza que o país consegue produzir. Por que raio esta minha perspectiva do que defendo para o meu país é considerada radical e extremista? Sim, convivo bem e até me orgulho de perspectivar a sociedade e o meu país deste lugar "de esquerda", mas não aceito e combaterei sempre a ideia de que aquilo em que acredito não é sensato, ponderado ou desejável para todos e não só para mim ou para alguns, naquilo que podemos e devemos designar de democracia plena.
A minha amígdala sofre horrores com esta teimosia em designar os democratas de radicais de esquerda. Não o são, e quem assim os adjectiva, tal como escreve BSS, serão os primeiros a destruí-la e a impor os fascismos da "gente de bem".

fartos disto, hora de agir


Participei hoje na vigília “estamos fartos disto, é hora de agir”, em frente à Câmara Municipal do Porto, que começou pelas 19 horas. Participei enquanto organizador do evento, enquanto subscritor do manifesto que motivou a vigília, mas acima de tudo, participei porque estou farto da condição em que grande parte da população portuguesa existe. É, de facto, hora dessa população agir e exigir aquilo a que tem direito, mas que persistente e abusadamente lhe tem sido sonegado.
Apesar de termos conseguido uma divulgação interessante, através das redes sociais, dos media e, principalmente, no contacto directo com a população, através da distribuição em mão do manifesto nos locais de maior afluência e circulação na Invicta, não conseguimos reunir mais do que três dezenas de pessoas em frente à Câmara Municipal neste final de tarde de Sexta-feira.
Quando abandonei a vigília, por volta das 20:30 horas e porque era hora de dar de comer à minha criança, caminhámos por algumas das artérias da baixa da cidade até ao local onde o carro estava estacionado. Saindo da Praça General Humberto Delgado, entrámos na rua de Rodrigues Sampaio em direcção à Praça de D. João I, descemos o primeiro, ou último, troço pedonal da rua do Bonjardim, espreitámos para a Sampaio Bruno, continuámos a descer a Sá da Bandeira e subimos a 31 de Janeiro. Durante todo este percurso não pude deixar de constatar a elevada frequência nos cafés, bares, restaurantes e hotéis, suas esplanadas e seus foyeurs, contrastando de forma clara e até ofensiva com aquilo que me levou ao centro cívico da cidade. Nada me opõe a essa movida urbana e noturna e sei-a importante e até necessária para a cidade, mas aquilo que não consigo evitar, ao passar e observar esta realidade, de aparentes sociabilidades e consumos abundantes e despreocupados, sempre sob a batuta da sagrada Francesinha e do globalizado Vinho do Porto, é a percepção de que este brilho cosmopolita ofusca completamente a realidade de milhares de famílias e indivíduos que estão remetidos à sua parca condição de vida, silenciados pelas obrigações e compromissos financeiros assumidos e esmagados pela carestia generalizada dos bens e produtos básicos e essenciais para sua sobrevivência.
É para essa grande massa (ainda) silenciosa que promovemos esta iniciativa. É com a esperança de os motivar e implicar que temos e devemos dar voz às dificuldades e carências que muitos sentem. É, e será sempre, na rua, no espaço público e de todos nós, que deveremos persistir e insistir naquilo que são as nossas reivindicações, as nossas lutas e as nossas ambições.

(escrito a 17 de Fevereiro de 2023 e publicado no blogue https://convergencia-porto.blogspot.com/)

14 fevereiro 2023

hipocrisia e mediatismo

Foi ontem conhecido o relatório final da Comissão Independente que, ao longo do último ano, investigou e registou as denúncias de abusos a crianças por parte de membros da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) e foi grande, enorme, o estrondo mediático com que foram recebidas as transcrições pormenorizadas de alguns dos testemunhos. É de facto uma monstruosidade, uma ignomínia sem perdão possível, a quantidade e a intensidade dessa violência, mas eu não fiquei surpreendido com o número de vítimas e de abusos apresentados, pois tenho como certo, até pelo conhecimento de algumas situações, que o número real é bem maior. Como se costuma dizer, apenas se conheceu a ponta do icebergue.
Mas aquilo que mais me incomodou, e incomoda, é a hipocrisia que os membros da ICAR nacional, mesmo num momento como este, teimam em manifestar. Mas alguém acreditará que a hierarquia da Igreja não sabia desta situação, que não tinha conhecimento daquilo que acontecia nas paróquias e dos comportamentos criminosos dos seus párocos, acólitos e afins? Claro que sempre souberam, mas escolheram ocultar, chantageando, ameaçando ou subornando as suas vitimas, todo e qualquer episódio, e só quando as situações chegaram ao conhecimento público, através de denúncia ou da comunicação social, é que tiveram iniciativa, mas sempre tímida, conservadora e corporativista. Mas todos, ou quase todos, os Bispos, Cardeais e outros responsáveis hierárquicos da ICAR tiveram acesso e conhecimento de situações insuportáveis e criminosas.
Esta situação e esta iniciativa da ICAR, ainda que louvável, não oculta ou desculpabiliza o horror e a hipocrisia com que se apresentam perante a sociedade, os católicos e, principalmente, as suas vítimas.

13 fevereiro 2023

cristos

(auto-retrato de Miguel de Unamuno, 2012:7)

"O Cristo espanhol - dizia-me uma vez Guerra Junqueiro - nasceu em Tânger; é um Cristo africano e nunca se afasta da cruz, onde está cheio de sangue; o Cristo português brinca nos campos com os camponeses e merenda com eles e só a certas horas, quando tem de cumprir com os deveres do seu cargo, é que vai dependurar-se na cruz". (Unamuno, [1908] 2012:38)

o sol

Aproveitando o remanso da tarde de Domingo, li este livrinho com uma selecção de textos de Miguel de Unamuno, que se referem a Portugal e à produção literária portuguesa. Interessante nalguns aspectos, previsível e parcial noutros, Unamuno escreve muito bem e consegue captar, digo eu, parte do nosso ethos. Textos escritos entre 1900 e a década de 30, deveremos contextualizá-los temporal e culturalmente. Unamuno é uma personagem interessante do primeiro quartel do século XX espanhol que nutria por Portugal uma peculiar curiosidade.


"Portugal surge-me como uma formosa e gentil rapariga do campo que, de costas para a Europa e sentada à beira-mar, junto à própria orla onde a espuma das ondas gemebundas lhe banha os pés descalços, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cara entre as mãos, olha o sol a pôr-se nas águas infinitas. Porque para Portugal o sol não nasce nunca: morre sempre no mar, que foi teatro das suas proezas e berço e sepulcro das suas glórias". (Unamuno, [1907] 2012:24)

10 fevereiro 2023

idiota

Há dias, comentando entusiasmado com um velho amigo acerca de um novo projecto que tenciono iniciar, ele reage, dizendo: - De facto, se há coisa em que tu és bom, é em cenas que não dão dinheiro.

09 fevereiro 2023

memória rural

Depois de vários meses à espera, chegaram-me às mãos as cinco edições da revista Memória Rural, publicação anual do Museu da Memória Rural, em Carrazeda de Ansiães. Agradeço ao amigo Rui Leonardo que me fez o favor de as trazer até mim. Apesar de todos os números desta revista estarem disponíveis gratuitamente na internet (aqui), e eu já conhecer a maioria dos seus textos e artigos, nada como tê-la entre mãos, até porque se trata de uma edição cuidada e com muita qualidade. Prazer para os próximos dias.

06 fevereiro 2023

03 fevereiro 2023

ao espelho

01 fevereiro 2023

capa dura

A colecção "ensaios da fundação" da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) tinha até Dezembro de 2022 cento e vinte e cinco livros publicados, todos eles com duas opções de edição: uma edição de capa mole com o preço de venda ao público de três euros e meio, e outra edição em capa dura com o preço de cinco euros. Pois bem, já em Janeiro deste ano foram publicados mais três números e apenas em capa mole. Eu que tenho toda a colecção da edição em capa dura, esperei até hoje para ver se aparecia a outra edição em escaparate. Não apareceu, nem vai aparecer. Desconhecendo e farto de aguardar, resolvi contactar directamente e por email a livraria da FFMS, que rápido me responderam, afirmando laconicamente: "Informamos que deixámos de produzir capas duras."
Pois bem, quem lamenta sou eu e, agora, hesitante estou se vou ou não continuar a colecção. Muito obrigado.

31 janeiro 2023

inolvidável


Chegou hoje na volta do carteiro a nova carta de condução. No ano em que completo cinco décadas de existência sou, como todos os demais condutores, obrigado a renovar a licença para poder conduzir. Fí-lo pela internet e através de um processo simples e rápido. Já cá está e, por isso, é tempo de arquivar, para memória futura, a velhinha carta cor-de-rosa que me mantinha jovem desde Maio de 1992, com cara de imberbe mas já com muitos milhares de quilómetros conduzidos.

abismo civilizacional

Não há como não estar preocupado com a realidade política e partidária em Portugal. Perspectivada deste lugar, o da Esquerda, considero que o futuro próximo será um tempo muito difícil para nós e para todas as esquerdas. Acabo de escrever isto e já fico arreliado pela designação no plural - as esquerdas. Os sintomas e diagnósticos, as estratégias e as tácticas, as punchlines das narrativas estão já todas alinhadas entre os diversos actores e agentes políticos e mediáticos. O poder tem que ser entregue à Direita o mais depressa possível. Tudo está concertado e preparado para essa clivagem política e, depois, social. Espero estar errado, mas já não haverá retorno sem um novo governo de Direita e extrema-Direita. Lamento, e lamento ainda mais porque tenho a percepção que a culpa foi, e é, maioritariamente, do PS (esta ida de Ana Catarina Mendes à convenção dos fascistas…) e das esquerdas (não consigo esquecer votações de 2021...). É verdade que este governo de maioria PS não presta, está derrotado e degenerativo, mas a oposição de esquerda não irá reverter a seu favor, mas sim beneficiar aqueles que são os nossos verdadeiros adversários e que eu não desejaria, jamais, ver no governo. Com um novo governo do PSD, virá agregado o pior da nossa sociedade - reaccionários, anacrónicos, misóginos, xenófobos, saudosistas, nacionalistas e fascistas, e o retrocesso civilizacional será mais do que certo. Bem sei que muitos consideram que entre o PS e o PSD e arredores não há diferenças, mas ainda assim eu prefiro, e preferirei sempre, um governo do PS do que qualquer governo de Direita. Temos andado a brincar com o fogo, gostava que não nos queimássemos, mas caminhamos conscientes para esse abismo.

(Adaptação. Escrito a 30 de Janeiro e publicado originalmente no blogue da Convergência Porto)

30 janeiro 2023

epifanias

"De súbito, o que passou a haver na minha pasta, em todo o lado para onde vá, foi um caderno para colher epifanias escritas e desenhadas que certamente só terão verdadeiramente leitura para mim e no modo como as imagino úteis."
Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1365, Janeiro e Fevereiro 2023.

tique nervoso

Descobri, recentemente, um lugar onde se toma um delicioso café. Algo cada vez mais difícil de acontecer. Passei a lá ir todos os dias e tem alguns que lá vou de propósito mais do que uma vez. Espaço simples e pequeno, muito asseado e de preços baratos. As empregadas são uma simpatia, ao ponto de uma delas, para além de meter conversa ocasional comigo, sempre que me atende pisca o olho. Com certeza, um tique nervoso que repete com outros clientes, mas em todo o caso, passei a estar atento e a tentar perceber se o tique se repete com os demais. Ainda não consegui.

27 janeiro 2023

sumptuosidade, soberba e descaramento

Nada me opõe à realização das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) em Portugal e em Lisboa. Dito isto, quero manifestar o meu indisfarçável incómodo em relação ao comportamento e atitudes daqueles que foram e são responsáveis pela organização das JMJ. Aquilo que está a acontecer é bem característico da atitude das nossas elites institucionais e dos nossos decisores políticos na gestão e uso do erário público. Num país com tantas carências estruturais e sociais, dão-se ao luxo de querer gastar milhões para receber durante um dia, ainda que sejam, dois, três ou quatro, o Papa Francisco. A trapalhada mediática instalada, com todos a sacudir a água do seu capote e a passar culpas para terceiros, com o Presidente da República ao sabor do vento, a dar o dito pelo não dito, com o inenarrável presidente da Câmara Municipal de Lisboa completamente desorientado e surpreendido pelo alvoroço na opinião pública, a pedir aos portugueses para "acreditarem" num milagre de retorno financeiro deste investimento, como se este evento e suas intervenções fossem um investimento para o país e para a cidade de Lisboa, sendo de imediato desmentido por todos os agentes culturais que não encontram proveito nenhum nesse recinto e sua estrutura. Mas mais, na ânsia de justificar o injustificável, Moedas faz chantagem, perguntando se os portugueses querem ou não querem receber o Papa e socorre-se da fórmula de sempre: socializa-se a despesa (erário público) e promete-se mais-valias incomensuráveis provenientes do evento, esquecendo-se contudo de dizer que essas mais-valias, a acontecerem, não serão socializadas, ou seja, não serão para o benefício colectivo dos portugueses, nem sequer dos lisboetas. Depois, falta referir a questão mais importante, a adjudicação directa, sem concurso público, do projecto a uma empresa que, só por coincidência, tem Paulo Portas na administração, amigo pessoal de Moedas e ex-presidente do CDS que, também por coincidência, faz parte da coligação que preside à Câmara de Lisboa. Enfim, uma cagada em três actos, protagonizada por gente de bem.
Será importante não deixar desaparecer este assunto da agenda mediática, pois caso contrário e apesar dos discursos de revisão do projecto, descaradamente tudo ou mais irá ser feito e gasto. Aliás, é para mim o maior defeito da ICAR, a sumptuosidade em que se veste e reveste, afrontando ontológica e essencialmente a sua origem e missão.
Enfim, nada nem ninguém fica bem na fotografia que se está a tirar por estes dias.

25 janeiro 2023

no terreno



Em Deilão, terras da Lombada do concelho de Bragança, em casa da família Morais. Pela manhã do dia 21 de Janeiro de 2023.

24 janeiro 2023

dezasseis anos

Assinalo hoje o décimo sexto aniversário desta minha tábua branca de escrever. Uma vez que aqui continuo a vir, que mantenho o gosto de organizar em escrita e em diferentes suportes a minha existência, faz todo o sentido manter e promover o meu recanto da escrita e afins, reafirmando hoje a vontade e intenção de a sustentar com crescente regularidade e participação. Apurriar, siga.

23 janeiro 2023

excertos das palavras ditas na apresentação de "enclausurados - vivências em pandemia" (4 de 4)



(no passado dia 21 de Janeiro, pelas 17 horas, no Lost Corner Bar, em Bragança)

excertos das palavras ditas na apresentação de "enclausurados - vivências em pandemia" (3 de 4)



(no passado dia 21 de Janeiro, pelas 17 horas, no Lost Corner Bar, em Bragança)

excertos das palavras ditas na apresentação de "enclausurados - vivências em pandemia" (2 de 4)



(no passado dia 21 de Janeiro, pelas 17 horas, no Lost Corner Bar, em Bragança)

excertos das palavras ditas na apresentação de "enclausurados - vivências em pandemia" (1 de 4)


(no passado dia 21 de Janeiro, pelas 17 horas, no Lost Corner Bar, em Bragança)

sabedoria lapidar

conversa da raia

À mesa do Gastrobar, depois de um magnífico caldo Galego, com os amigos raianos Carlos d'Abreu e José Ballasteros.

(Galende, 21 de Janeiro de 2023)

21 janeiro 2023

17 janeiro 2023

o firmamento

Tendo uma superlativa admiração pela escrita e, também, pela vida peculiar e até errática de Luíz Pacheco, sou ávido consumidor de toda a produção sobre ele. Ainda não consegui adquirir nenhum dos seus livros nas edições originais, mas continuo a alentar esse desejo. Mal saiu esta nova biografia pela pena de António Cândido Franco, pois claro, fui buscá-la ao escaparate. Aguarda agora, e apenas, as horas disponíveis para ser lida.

16 janeiro 2023

olhar-me noutras vidas


(Texto digitalizado do Jornal de Letras nº 1364, Janeiro de 2023)

São tantas as semelhanças empíricas e de memória com o meu contexto ou ambiente de origem, que fiquei incomodado e nostalgicamente espantado com este magnífico texto de Valter Hugo Mãe.

13 janeiro 2023

em Bragança

12 janeiro 2023

uma outra existência

Terminei ontem à noite a leitura do livro "Ibéria esvaziada - despovoamento, decrescimento, colapso", de Carlos Taibo, que já aqui tinha referido. Pois bem, para além dos diagnósticos apresentados e muito bem documentados sobre essa Ibéria vazia e sem gente, as propostas avançadas para esses vastos territórios são inovadoras e algo surpreendentes. Para além disso, são apresentados conceitos que eu não conhecia, pelo menos com este pormenor e profundidade, o que me motivou os sentidos e a curiosidade para descobrir os vários autores que cita e seus conceitos e propostas. A proposta de Carlos Taibo é cada vez mais uma possibilidade para um futuro próximo que se aproxima a grande velocidade. Naquilo que diz respeito à minha existência, sendo um urbanita com muitos referentes rurais e com um relativo conhecimento de parte dessa Ibéria esvaziada, agrada-me muito a ideia de colapso, de podermos substituir esta sociedade de consumo individualista, por uma outra mais solidária e de maior entre-ajuda comunitária.
Veremos o que nos espera.


"O objectivo principal deste livro é aplicar à Ibéria esvaziada as ferramentas que surgem da perspectiva do decrescimento e da teoria do colapso. Com esse propósito, nas suas páginas delimita-se o conceito, amiúde nebuloso, dessa Ibéria, e a esse respeito considera-se tanto o cenário espanhol como o português. É também delineado um conjunto de propostas relativas ao que deve ser preservado, recuperado, introduzido e rejeitado nos espaços afectados, sem deixar de prestar atenção a debates importantes como os relativos ao povoamento, às mulheres, à neo-ruralidade, às biorregiões, ou à natureza de um modelo económico e social alternativo. Acima de tudo, este livro pretende ser um esboço que estimule um debate visivelmente em falta: o do decrescimento." (in contra-capa)

"a cidade está preparada"

Foi com estas palavras que o vereador da Câmara Municipal do Porto, Pedro Bragança se pronunciou sobre as cheias que Lisboa sofreu no passado mês de Dezembro, garantindo ao Porto Canal que na cidade do Porto essa situação não aconteceria. Pois bem, aqui está um bom exemplo para quem tem telhados de vidro não atirar pedras ao ar, e não foi preciso esperar muito para os telhados do vereador Pedro Bragança se partirem com as pedras que andou a atirar para o céu da Invicta.
Ainda assim, e para além do ensinamento popular que desautorizou o dislate do insigne autarca, importa reflectir sobre o que aconteceu nos dias 7 e 8 de Janeiro na Invicta e não são suficientes as tíbias declarações dos responsáveis locais e autárquicos sobre a imprevisibilidade deste tipo de ocorrências. Há esclarecimentos a dar, causas por encontrar e responsabilidades por atribuir. Acontece que os rios e as ribeiras que atravessam a cidade e desaguam no Douro já há muito tempo estão entubadas e nem por isso assistimos jamais a inundações desta dimensão. No caso do rio da Vila, principal leito que atravessa a cidade, ele já está entubado desde o século XIX e terá sido algures no seu percurso que houve problemas obrigando-o a transbordar e passar a correr à superfície para o Douro, inundando tudo no seu caminho.
O que terá motivado este fenómeno? Avança-se com a possibilidade de terem sido as obras do Metro na baixa, mas não podemos esquecer outras intervenções que têm acontecido um pouco por todo o centro da cidade, tais como as obras no mercado do Bolhão, as obras no quarteirão do Rivoli, na Praça D. João I, entre outras, que poderão também ter contribuído para desestabilizar os leitos das ribeiras e a natural drenagem da cidade. O Rio da Vila continua a ser alimentado por várias nascentes e estas continuam a existir, como por exemplo a do antigo monte de Santa Catarina, ou as fontes e arcas de água da Batalha e Santo Ildefonso. É nosso entendimento que para além das responsabilidades daqueles que interferiram e desestabilizaram estes cursos de água, o grande problema do Porto é o excesso da impermeabilização dos solos, transformando toda a cidade num contínuo impermeável, situação que se acentua no centro histórico da cidade, numa relação muito estreita de causalidade entre as políticas urbanísticas e de planeamento da cidade e a voragem das ambições especulativas e de consumo do cluster do turismo. Há que repensar a cidade e restituí-la aos portuenses.


Adenda:
Escrevi este texto sobre as inundações ocorridas na Invicta no passado dia 7 de Janeiro. Depois, uns amigos quiseram subscrever e acrescentar algo mais, o resultado foi publicado no sítio da internet da Convergência. Partilho aqui também esse texto.

10 janeiro 2023

nada para lá do horror


Confesso que não sou adepto do género, nem muito menos aficionado por estas personagens ou histórias de um horror incomensurável, mas tanto ouvi falar e comentar sobre esta série, que lá me dispus a vê-la. Terminei ontem à noite e a verdade é que demorei, sei lá, cerca de três meses para visionar os apenas dez episódios, mas também devo dizer que para além do choque inicial (primeiro episódio, talvez ainda o segundo), não fiquei agarrado, nem convencido com esta narrativa, ambientes e personagens. Para além do horror real em que se baseia, não sei se me agrada esta mitificação destes monstros sociais, sociopatas dementes, revestindo-os de um certo carisma e transformando-os em quase-heróis. Está visto, mas não será conselho para ninguém.

06 janeiro 2023

vida

Cheguei ao ano em que completarei cinco décadas de existência. Caramba! Até aqui foi um instante e o que me sobrará outro sopro de vida será.

01 janeiro 2023

dia feliz


Hoje estarei, estaremos muitos, com os sentidos focados no lado de lá do Atlântico. No dia primeiro de uma nova vida para o Brasil. Viva 2023.