19 outubro 2009

do arquivo pessoa

A única realidade para mim são as minhas sensações. Eu sou uma sensação minha. Portanto nem da minha própria existência estou certo. Posso está-lo apenas daquelas sensações a que eu chamo minhas.
A verdade? É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho a certeza. Uma sensação minha? De quê?
Procurar o sonho é pois procurar a verdade, visto que a única verdade para mim, sou eu próprio. Isolar-se tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade.
s.d. - Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 220.

metáfora

(clicar para ampliar e conseguir ler)



15 outubro 2009

instantes urbanos VII

Distraído, provavelmente a olhar o nada que passa no chão que vou pisando, passo em frente a uma loja Natura, de onde sai um agradável cheiro de insenso, que reconheço e que gostava de voltar a sentir lá por casa. Recuo e entro na loja à procura de uma qualquer funcionária, a quem pergunto:
- Que cheiro é este que se ouve lá fora?
(um momento de silêncio)... - Desculpe!?
- Este cheiro que chega lá fora é insenso. Mas qual?
- Ah, o cheiro de insenso! É sandalo, mas não temos para venda.
- Ok, obrigado.

(dias esquivos estes)

13 outubro 2009

momentos em campanha






LER 84

LER: "Somos um país de brandos costumes ou já mudámos alguma coisa?"
Augusto Cid: "Nunca fomos. A nossa História está recheada de violência e assassinatos. A versão dos "brandos costumes" vem do facto de sermos um país de ignorantes."

"Escrever, no sentido mais original do termo, nós não sabemos exactamente o que seja." Eduardo Lourenço

27 setembro 2009

descompressão

Em final de noite de eleições e para sair do assunto, começo a arrumar a carteira, onde encontro este cartãozinho. Diz respeito a um sítio simpático onde fui jantar com um grupo de amigos(as) no início do mês de Setembro. Sei apenas que ficava lá para os lados do Bairro Alto, em Lisboa.

26 setembro 2009

olho de Alá

(texto escrito a pedido de um amigo para um "panfleto" de apresentação de uma peça de teatro com o mesmo nome. O resultado não agrada, mas mesmo assim enviei-lho com a indicação de que se não gostasse não o utilizasse)

“a fé na capacidade humana de transcender limitações”
Ana Saldanha

A sociedade ocidental, fortemente influenciada pelo positivismo, ainda hoje vive agarrada à ciência convencional, que na sua pressa pelas descobertas e na sua voracidade pelo conhecimento, objectivo santo e sacro da “boa” ciência, esquece com facilidade tudo ou parte daquilo que a precedeu, fundou ou fundamentou e permitiu evoluir até ao estado presente. Vivemos um tempo complexo, de tal forma especializado que, sem reflexão, vamos reinventando os limites da nossa percepção. Um dos momentos primeiros desta nova ciência, foi como que um acaso, num encontro fortuito de culturas, a curiosidade pelo outro e pelo exótico levou até à velha Europa um estranho instrumento, levado da Península Ibérica nas alforges de um velho comerciante. Diz a lenda que foi o seu peculiar design que despertou o interesse. Já no centro do mundo de então terá chegado às mãos de um mestre, interessado nas ciências do oculto e que na clandestinidade praticava as suas manhas e patranhas. Como estava bem consciente do perigo da sua actividade, era com secretismo que aceitava partilhar os seus conhecimentos e mostrar a terceiros as suas estranhas descobertas. Foi este clandestino que baptizou o tal objecto de “olho de Alá”, pois percebera que este tinha poderes extraordinários, jamais vistos, sem humana explicação ou entendimento e que ultrapassava em muito os limites da percepção de então. Algo semelhante aos poderes divinos ou à visão de um Deus, daí a designação. Nessa pré-época moderna, os paradigmas vigentes estavam nas mãos de um poder instituído fortemente influenciado pela hierarquia da igreja, o que levava a uma atitude persecutória em relação a tudo o que pudesse por em questão essa mesma ordem. O olho de Alá foi o elemento que fundou a crítica e o movimento contestatário ao status quo desse tempo. Foi ele que permitiu conhecer todo um mundo novo, até aí desconhecido, que se nos apresentava através dessas lentes. Mundo esquivo de novas dimensões, que obrigava a uma nova abordagem e, consequentemente, a uma nova ciência que não dependesse sequer do poder da Igreja, mas da arte e engenho do Homem em rasgar com as velhas lógicas e agarrar a vanguarda da descoberta e do conhecimento.

dia de reflexão

Sempre no dia seguinte a um período de campanha eleitoral, este é o dia em que todos devemos reflectir sobre aquilo que queremos para o futuro do país, assim como é o dia de descanso para todos aqueles e aquelas que participaram activamente no trabalho das campanhas eleitorais. Esse período de cerca de 15 dias foi um tempo muito intenso e desgastante, no qual fizemos milhares de quilómetros e visitámos todas as sedes de concelho do distrito de Bragança. Se na generalidade podemos dizer que fomos bem recebidos em todo o lado, também é verdade que há localidades onde a nossa presença é mais notada e criticada. Mas em democracia é mesmo assim: Aplaudidos e/ou vaiados temos que saber continuar e sempre com um sorriso nos lábios. Enfim, foi uma experiência interessante e pessoalmente enriquecedora. Não sei se algum dia a voltarei a experimentar (pelo menos nestas condições e com esta responsabilidade), mas valeu a pena. As expectativas são elevados e a ansiedade pelo resultado de amanhã enorme. Estamos prontos.

20 setembro 2009

forwarded message

Caro sr. Luís Vale,
Gostei muito da sua proposta sobre a Regionalização, mas você parece-me estar sózinho em relação aos líderes nacionais do BE ou aparenta ser uma voz a pregar no deserto do BE. Parece-me que o BE continua a seguir o modelo burocrático, seguidista e desregionalizador da direita. É ser-se de esquerda propor ou concordar com a regionalização burocrática da regiões-plano artificiais e burocráticas como propõe o PS e os outros partidos de direita do do bloco central?
Então qual é a diferença em votar no BE ou nos partidos da direita incluindo PS?
Em termos de regionalização, NENHUMA!
Por causa da política oficial do BE em relação à Regionalização (não confundam a verdadeira regionalização ao serviço dos povos regionais de Portugal com a DESREGIONALIZAÇÃO que o PS e a direita agora propõem) este ano nas Legislativas de 27 Setembro, eu não voto BE! Não sei se vote CDU, POUS, PCTP-MRPP ou outro de esquerda que apareça, mas BE até proporem uma verdadeira Regionalização, não voto mais!
Então o BE e a esquerda portuguesa estão tão preocupados com a autonomia ou a liberdade dos povos regionais de outros países, galegos, bascos, chechenos, corsos, escoceses, morávios, etc, etc. mas não ligam nenhuma aos povos regionais de Portugal?
Os ribatejanos não existem? Os galaicos ou minhotos também não existem? Os estremenhos não existem? os lusitanos ou beirões também não existem?
Eu aconselhava era toda a Direcção Nacional do BE a darem uma olhadela no site de uma Associação regionalista lusitana que defende a distinção entre os portugueses e os outros povos regionais de Portugal e a regionalização de todas as regiões étnico-culturais e a provincialização das regiões históricas como entidades regionais secundárias, para ver se aprendiam alguma coisa sobre as culturas étnico-culturais dos povos regionais e nativos de Portugal e as tradições que ainda sobrevivem (embora ameaçadas) neste país atrofiado e ignorado até por alguns camaradas de esquerda.
Amigo e camarada Luís Vale , eu sempre fui um homem de esquerda (nunca votei PS nem direita), posso dizer-lhe que a sua proposta é a melhor que vi até agora (é quase perfeita), embora seja necessário, na minha humilde opinião pessoal, preservar a existência da região do Ribatejo e do Grande Porto independentes, e a região das Beiras poderia ser uma só embora subdividida em três ou quatro províncias também oficiais, e porque não devolver outra vez o nome original da BEira, que sempre foi Lusitânia e que ainda hoje é habitada no seu interior montanhoso por um povo com tradições culturais únicas que sempre se chamou de lusitano?
Obrigado pela sua atenção.
PS- Espero que este humilde cidadão português não seja alvo de censura, porque há dois meses +-, enviei uma carta semelhante a manifestar a minha preocupação em relação à posição oficial de alguns lideres nacionais do BE sobre a Regionalização e a denunciar a Desregionalização, mas a minha carta, não só não foi publicada na página do partido na internet como também não obtive até hoje resposta. Pelo Socialismo e o poder popular!
José Silva.

design inteligente

Andava eu entediado sem saber muito bem o que fazer. Tudo me aborrecia e não estava bem em lado nenhum. Passeava-me pelo cosmos sem destino, tropeçava num cometa aqui e numa estrela acolá, deambulava daqui para ali e de além para aqui sem qualquer destino ou propósito e, de vez em quando, para acrescentar adrenalina, lá me atirava para a centrifugação de um qualquer buraco negro. Mas tudo acontecia muito depressa e logo regressava à anterior monotonia. Acima de tudo, aquilo que mais me enfurecia era o facto de não precisar de qualquer esforço para conseguir o que pretendia. Um pensamento bastava para me transportar para essa realidade. Chatice. Algo novo e diferente precisava urgentemente.
A resposta veio em forma de mundo, imaginado, projectado e construído num tempo que precisei de organizar e chamei dias. Porque gostei e me deu imenso prazer, gastei sete desses tempos. Agora que o recordo, foram os melhores tempos da minha intangível existência. Tanto tempo já passou e tanto fiz depois, mas esse momento primeiro foi o mais belo e perfeito. O cuidado e a atenção a que me obriguei, permitiu-me desenhar tudo ao mais ínfimo pormenor, experimentar e testar antes de fazer e, depois de tudo montado, por a funcionar. Com omni-atenção consegui ir corrigindo alguns erros congénitos e pequenas falhas técnicas e assim, já no final do sexto tempo, pude com deleite apreciar o sublime. Ao sétimo momento, exausto descansei.

13 setembro 2009

colecta no congresso da APA

Aproveitando os preços (incrivelmente) reduzidos dos livros à venda numa pequena feira do livro promovida pela organização do IV Congresso da APA, trouxe alguns títulos que estavam em falta, ou seja, que eu queria e precisava comprar. Mas só para que se perceba a grande redução de preços, comprei um livro por 8 euros, quando nas lojas custa 24 euros. Só podia aproveitar.
- Medeiros, António, 2006, Dois lados de um rio - nacionalismos e etnografias na Galiza e em Portugal, Lisboa, ICS;
- Guimarães, Ana Paula, 2008, Nós de Vozes, Lisboa, Edições Colibri;
- Revista Etnográfica, vol. 12 nº1, Maio 2008, Lisboa, Centro de Estudos de Antropologia Social;
- Espírito Santo, Moisés, 1989, Fontes Remotas da Cultura Portuguesa, Lisboa, Assírio & Alvim;
- Raposo, Paulo, 1991, Corpos, Arados e Romarias, Lisboa, Escher;
- Guimarães, Ana Paula e Barbosa, João e Fonseca, Luís (org.), 2004, Falas da Terra - natureza e ambiente na tradição popular portuguesa, Lisboa, Edições Colibri;
- Balsa, Casimiro (org.), 2006, Relações Sociais de Espaço, Lisboa, Edições Colibri;

06 setembro 2009

é como voltar a casa

Este último ano que passei na televisão não foi feliz, sem culpa nenhuma para Manuela Moura Guedes, que me tratou com inalterável generosidade. À parte a minha má imagem (um understatement), a minha má voz, geral incoerência e péssima dicção, sucede que escrever (um ofício em que me eduquei) é exactamente o contrário de falar. Quem fala improvisa; quem escreve calcula, planeia, emenda, substitui. Os dois processos são contrários. Pior, são incompatíveis. Verdade que a prosa acabou por me levar à televisão: um compreensível acidente. Só que "um homem de letras", mesmo medíocre, nunca, no fundo, se transforma. Voltar a este privilegiado canto é, para mim, como voltar a casa.
Vasco Pulido Valente, Jornal Público, 06/09/2009

04 setembro 2009

como eu gostava, como eu quero estar enganado

Bem sei que ainda falta algum tempo para o dia das eleições legislativas e que muita água turva e revoltada vai passar por baixo desta ponte, mas hoje foi o dia em que me apercebi, me convenci que o caso do Jornal Nacional da TVI e o afastamento de Manuela Moura Guedes e demais equipa foi a machada final nas hipóteses de José Sócrates e do PS ganhar essas eleições. Bem dizem que as eleições não se ganham, mas perdem-se e este será mais um exemplo desse lapidar sentimento. Se assim for, e eu não quero que seja, nos próximos anos ou décadas o "reinado" de Sócrates será um case study nas melhores academias (da gestão e administração pública, do direito, da criminologia e investigação judicial, da comunicação, da política, do marketing, etc.). O seu maior legado será esse, o de contribuir para o avanço da ciência em Portugal e, quiçá, no estrangeiro (seja isso onde for...).

31 agosto 2009

internacionalização

Dear Paulo Castro Seixas, Luís Vale, and Jorge Morais Sarmento,
The Scientific Committee of the I International Conference on Intercultural Studies is glad to inform that we have accepted your essay "Culture as Translation: An ethnographic exercise on dialogue" for publication in the collection "From Here to Diversity:Globalization and Intercultural Dialogues", with Cambridge Scholars Publishing, scheduled for 2010.
Soon we will be sending the respective contributor agreement and further instructions.
Congratulations for the quality of your essay.
With our very best regards,
The Scientific Committee of the I International Conference onIntercultural Studies

24 agosto 2009

dias de festa

Eram dias de nomeada na vila, recheados de festivas actividades e sacros momentos que terminavam, invariavelmente, madrugada dentro com aparatosos arraiais, repletos de luz e som que inundavam grande parte da vila. O palco da festa era sempre o mesmo, porque único com capacidade para acolher os milhares de foliões que vinham, ano após ano, de todos os recantos do concelho e redondezas. Nesse recinto não faltava qualquer ingrediente, daqueles que tradicionalmente animam os santos e seus fíeis: do algodão-doce aos carrinhos-de-choque, das farturas aos Rayban's magrebinos, sem esquecer, claro, a banda ou artista que animavam cada noite da festividade. E porque de uma grande festa se tratava e o dinheiro aparentava abundar, eram chamadas várias celebridades, tentando assim cuidar de todos os gostos. Por fim, um parágrafo para aquilo que nunca, mas nunca, faltou: a zaragata ou escaramuça que animavam aqueles, os pândegos, que se deixavam ficar por ali e para o fim da festa. Destes, havia aqueles que acabavam a noite na urgência do hospital local, enquanto que os outros, a grande maioria, acordavam no dia seguinte perdidos num qualquer lameiro ou num qualquer palheiro, esquecidos daquilo que acontecera e prontos para mais um dia de festa.

17 agosto 2009

rostos difíceis

As voltas que já dei para recuperar o teu rosto. O esforço que continuo a fazer para o localizar. Há rostos assim, difíceis de encontrar: seja pela sua beleza, pela sua singularidade, pela sua estranheza, pelo seu recorte, pelo seu exotismo, etc. De tão bem que os guardámos na memória, a custo os conseguimos resgatar. O teu foi um dos tais, mas finalmente consegui colocar-te num espaço e num tempo passados.
Conheci-te há uns anos atrás num café que nunca cheguei a saber o nome. Era final de Verão. Fui levado até ti num grupo de amigos que, ritualmente, saltavam de café em café, de consumo em consumo até à exaustão da madrugada. Concerteza, iríamos a caminho de outro lugar e essa foi apenas mais uma paragem para ingerir quantidades estúpidas de alcool…
Foi o estado ébrio de então e a posterior amnésia que me fez remeter o teu rosto para o fundo da memória O que sorrimos, o que dissemos, o que pensámos não guardei. Nem sequer o teu nome. Daí saímos para acabar a noite, essa noite, num qualquer bordel da cidade, enroscados em sabores vulgares vindos, a soldo, dos trópicos.
Encontrar-te passados todos estes anos, obrigou-me a suplementar diligência e, apesar de ainda ter procurado nas tuas expressões um sinal de que eu estaria algures na tua memória, também aí nada consegui. Esse instante passado nada mais foi do que um breve e bonito espaço-tempo da nossa vida.

12 agosto 2009

agora é oficial

Hoje, por volta das 15 horas fomos ao tribunal de Bragança oficializar a candidatura do Bloco de Esquerda às eleições legislativas. À entrada do tribunal conversámos com a Comunicação Social Regional, que aparentemente está também (e merecidamente, digo eu) na sua Silly Season. Fica o agradecimento ao amigo João Cunha que aceitou o meu convite para mandatário da lista, ao José Soeiro da Comissão Política do BE por ter vindo apoiar a nossa candidatura, aos jornalistas que estiveram presentes e a todos os restantes membros da jovem lista. De resto, enquanto cabeça desta lista, assumo todas as responsabilidades inerentes ao desafio e em relação àquilo que viermos a fazer e a conseguir.

Espelhos outros (em actualização):
- http://tinyurl.com/ntfb78

- http://tinyurl.com/lmyrqs

- http://tinyurl.com/m3ycwn

- http://tinyurl.com/lsva3x

instantes urbanos VII

Mal acabado de parar o carro em frente a casa, depois de uma noite inteira a ordenar listas, nomes e certidões para os processos eleitorais que se avizinham, estou à conversa com um amigo com quem a espaços convivo. Somos abordados por um casal de idosos que, num tom sofrego, nos questionam se algum de nós tem carro. Não alcançando desde logo aquela abordagem, com algum receio dizemos que sim. A explicação vem logo de seguida:
- Sabe, eu estou muito mal. Os senhores podiam levar-nos à urgência? É que não temos carro e eu não consigo chegar lá a pé... - diz-nos a senhora, visivelmente incomodada com uma qualquer dor.
- Concerteza, vamos lá. - Respondo eu, surpreso pelo pedido.
Durante o curto percurso e já quase a chegar ao hospital, resolvo aconselhá-los para, em situações semelhantes, chamarem uma ambulância. Só que a sua resposta foi completamente esclarecedora:
- Mas nós não temos telefone. Ainda tentamos ir ao café, mas já estava fechado.
- Pois. - Digo eu desarmado. - Assim é mais difícil.
Lá chegamos à porta da urgência e os deixámos. Agradeceram a amabilidade e já no regresso o meu amigo diz-me que acabáramos de fazer a nossa boa acção do dia (noite).
Despedimo-nos no mesmo sitio.
Na manhã seguinte, e tal como faço diariamente, abro a porta traseira do carro para pousar a pasta e dou de caras com um nota de 20 euros cuidadosamente pousada (mas visível) no chão do outro lado do carro. A boa acção da noite anterior afinal foi uma prestação de serviço e, por sinal, bem paga. Obrigado.

07 agosto 2009

04 agosto 2009

Novas Ruralidades

Nos passados dias 20, 21 e 22 de Julho estive em Ortigueira (na Corunha) – pequena e isolada localidade do norte da Galiza encostada ao oceano Atlântico, de onde (crê o povo) nos dias mais claros se consegue avistar a Inglaterra. Ortigueira é, principalmente, conhecida por aí se realizar, anualmente, o maior festival do mundo de música inter-céltica. Durante esses dias participei num encontro promovido pela Universidad Internacional Menéndez Pelayo, subordinado ao tema “Novas Ruralidades na Galiza”, onde técnicos e investigadores de várias áreas do saber reflectiram e discutiram os territórios rurais galegos, analisando a sua história, percebendo a sua actualidade e tentando perspectivar possíveis futuros. Regressado ao lado de cá, dou de caras com a notícia do “Estudo sobre a Pobreza na Região Norte de Portugal” elaborado pelo Centro de Estatística da Associação Nacional das PME e pela Universidade Fernando Pessoa para a Comissão Europeia, que indica Trás-os-Montes como a Sub-Região mais pobre dos 27 países da União Europeia.
Mais do que discutir este documento, gostaria de reflectir acerca da ruralidade que sempre vivemos, da ruralidade que actualmente existe e daquela que nos querem impor. Devemos partir do princípio que o rural se distingue do urbano (espaços, lugares, tempos, espaço-tempos e modos de vida) e que a questão principal será determinar os limites de uma e outra realidade. Esta limitação permitirá perceber as diferentes construções imaginárias de identidades, nomeadamente: a ideia de prestígio associado à vida nas cidades, o fascínio das luzes da cidade, o prestígio de ser migrante: comodidades, dinheiro e aparência, o atraso e a estática rural por oposição à dinâmica da cidade. Portanto, para podermos falar de ruralidade(s) teremos que ter sempre em consideração os processos de urbanização e, mais recentemente, os de metropolização – enquanto capacidade de atracção de indivíduos (rotinas, hábitos e consumos) por parte das cidades e suas regiões. Em Portugal e segundo João Ferrão e Duarte Vala (2002), existirão 4 cidades/regiões com potencial de metropolização – Lisboa, grande Porto, Algarve e região triangular entre Viseu, Aveiro e Coimbra, o que remeterá o restante território para uma existência sem grande capacidade de atrair novos indivíduos e novas actividades. No que a Trás-os-Montes diz respeito, todos já sabemos, por experiência própria e pelos constrangimentos históricos, a situação de extrema periferia em que vivemos e que agora o PROT N vem relembrar e, acima de tudo, legitimar e prolongar por mais algumas décadas.
Falar do mundo rural na actualidade é falar de um mundo em profundas mutações, cujas actividades económicas, dinâmicas sociais e valorizações materiais e simbólicas têm evoluído em vários sentidos. Para além disto, assistimos nos últimos anos a um crescente consumo dos símbolos rurais: a explosão do turismo rural foi o expoente máximo desse consumo; a “descoberta” dos certames temáticos de cariz local (feiras de fumeiro, de caça, de pesca, de produtos da terra, etc) que valorizam aspectos e produtos tradicionais locais; a folclorização de certas actividades agrícolas (matanças, ciclos de produção, etc) e recreativas (grupos de caretos e grupos de gaiteiros, ressurgimento de tradições sagradas e/ou profanas) revivalistas de tempos idos; a destradicionalização, ou seja, a procura de novas formas de expressão em cada momento/actividade (alheiras de Bacalhau, grupo de pauliteiras ou experiências gourmet com o fumeiro) que ao mesmo tempo que mantêm a referência cultural procuram a inovação e a diferenciação; a agricultura biológica que se vende à custa de uma imagem vegetariana, naturalista e saudável; o turismo da natureza (normalmente associado à prática de desportos de aventura e de conhecimento); a preservação e reconstrução de património construído – arqueológico (castros, fornos de telha).
Para um melhor entendimento do imaginário rural será preciso também ter em conta os actores sociais que permitem este novo cenário. Hoje em dia podemos identificar diferentes tipos de indivíduos no espaço rural, que se caracterizam por interesses divergentes, mas que se manifestam num mesmo território. Utilizando uma classificação de Paulo Castro Seixas, diria que temos: a) os sobreviventes – aqueles que apesar de tudo permaneceram e trabalham no rural (…que nos remetem para o conceito de resistência); b) novos pendulares – aqueles que apesar de trabalharem no sector secundário e terciário e num espaço urbano, optaram por viver no espaço rural e no seu dia-a-dia viajam entre os dois “mundos”; c) os regressados – aqueles que depois de uma vida de trabalho noutras geografias e noutros contextos laborais, regressam à comunidade rural de origem; d) consumidores rurais – todos aqueles que, tal como vimos atrás, procuram os símbolos rurais como divertimento, férias, descanso, aventura, etc; e) investidores rurais – aqueles que apesar de urbanitas procuram o rural e adquirem um espaço, que adoptam como sendo “seu”. Uma casa, uma quinta, uma propriedade, etc. Muitas vezes trata-se de puro investimento; f) novos rurais – a chegada de estrangeiros que no país de origem tinham um modo de vida urbanizado e cá optam por se estabelecer numa comunidade rural. Outro exemplo são os novos povoadores que saem das cidades e procuram novas oportunidades no interior rural do país (até existe uma empresa que fomenta e incentiva essa movimentação).
Os habitantes das comunidades rurais, ao contrário do que possam pensar, não têm o poder e a influência de decisão na construção dos seus futuros. Por muito que se inventem novos programas e incentivos para o desenvolvimento local, por muito que se venda o discurso da valorização dos recursos naturais e culturais, serão sempre interesses exógenos a ditar o presente e possíveis futuros. Interesses que não são mais do que respostas procedentes de certas classes urbanas e grupos sociais que, utilizando diversas estratégias, se sentem legitimadas para decidir o futuro das comunidades rurais, sem ter em conta, normalmente, a opinião dos locais do mundo rural.
Por último, assumir que os dados aqui apresentados mais do que certezas serão dúvidas e, por isso, mais do que afirmações, devem ser entendidas como meras hipóteses que importa estudar e/ou explorar. Serão ou não novas ruralidades? Serão ou não, sequer, ruralidades? Não creio. O rural está na moda, vende-se e por isso, actualmente, valoriza-se. Apenas.
(texto enviado para o Jornal Nordeste e publicado hoje, dia 4 de Agosto)