21 março 2010

17 março 2010

velocidades

Quando das primeiras experiências ao volante e quando aprendi a conduzir, os automóveis ainda só tinham 4 velocidades (mais a marcha-atrás) e foi com essa mecânica que fiz a minha aprendizagem enquanto cidadão encartado e devidamente autorizado para conduzir e, muitas vezes, inconsciente dos reais perigos, meter-me em confusões e aventuras. A velha R12 lá de casa foi um excelente carro de ensaios. Depois, lá veio a estonteante novidade da mecânica automóvel que acabou com décadas e décadas de hábito a 4 e passámos a ter disponíveis automóveis equipados com caixa de 5 velocidades. Concerteza, alguns desgraçaram as suas vidas com essa inovação mecânica e tantos outros, que não a conseguiram compreender, ainda hoje conduzem os seus automóveis só tendo em conta essas 4 velocidades. Eu conheço alguns.... Mais recentemente apareceram os carros com caixa de 6 velocidades. Eu tenho um. Estou completamente ambientado e habituado a engrenar qualquer uma dessas velocidades. De tal forma que, não raras vezes, dou comigo a querer passar de 6ª para 7ª velocidade. Asneira. Ainda não tenho. Intuitivamente faz-me falta. Vejam lá se tratam disso.

16 março 2010

a minha regionalização

(imagem roubada do blogue Regionalização)

novas paisagens rurais

A desestruturação do território nacional evidenciada pelos estudos realizados, permite perceber o “vazio” a que o território não urbano está sujeito. Este artigo é um olhar sobre esse vasto território desestruturado e carente de investimento, no sentido de analisar e perceber as novas dinâmicas, os novos agenciamentos das novas paisagens rurais. Os diferentes mundos rurais. Tipologias emergentes, intervenientes e processos locais de translocalização e transnacionalização verificáveis na costa oeste da Europa.

Este é o resumo do meu contributo para o projecto editorial da Burkeley University "Globalization and Metropolization: new developments in Europe's West Coast". Tendo prazos para cumprir - e hoje era um desses prazos intermédios, tenho conseguido dar resposta, ainda que a custo e à custa de maratonas noturnas que me vão afastando do sono. Agora, descansar, depois regressar para finalizar texto até ao final do mês de Março.

11 março 2010

queda de viadutos e afins

A palavra queda tem associada uma carga negativa muito expressiva e, se calhar, por isso somos educados a evitar perigos e vivemos num ambiente que tende a afastar essa perigosidade. Contudo, não conseguimos arredar da nossa experiência de vida esse perigo latente. A palavra queda significará esse perigo eminente, que espreita a cada esquina e a cada passo que damos - do puto que esfola o joelho, ao jovem que cai da bicicleta e parte a cabeça, ao adulto que é vitima da incúria e da irresponsabilidade de terceiros nas estradas, ao idoso que simplesmente cai e se desmancha. É inevitável. Queda significa dor, perigo, doença, ferimento, morte. Algo do qual todos e cada um de nós foge o mais que pode...
Num incidente como aquele que aconteceu ontem, em Amarante, não sei como se pode evitar o perigo.
O infeliz azarado que ficou esmagado debaixo daquele monte de ferros retorcidos, muito provavelmente nem teve tempo de perceber o que lhe estava a acontecer. Foi, de facto, uma morte aleatória e é precisamente esse factor (sorte/azar) que me perturba neste momento. Por acaso foi ele, mas poderia ter sido qualquer outra pessoa, poderia até ter sido eu, que por lá passei uns cinco minutos antes do trágico incidente. Poderia ter sido eu. Não fui.

10 março 2010

espelhos


mais à frente...

08 março 2010

oxalá te veja

espelhos

02 março 2010

recontagens

Aqui há tempos soube da morte do Tio Laurindo, mais recentemente foi a vez do velhinho Tio Firmino morrer. Chega-me agora a notícia que o Tio Norberto está mal de saúde. Está muito doente. Internado no hospital (que um dia foi distrital) vai recebendo a visita daqueles que ainda podem lá ir. Estes dizem que faz dias que ele nada come e que perdeu já para cima de trinta quilos. Consciente e sem dores perceberá que o mal que padece lhe leva, rapidamente, a vida.
Sou assim levado para esta contabilidade triste de ter que dizer que ainda somos tantos. E digo "somos" com a propriedade de quem se inclui, de quem também se considera, de quem também quer fazer parte. A própria utilização do termo "Tio" trá-los para perto, bem perto de mim. É reveladora de uma proximidade tão típica das cortinhas e das águeiras dos lugares pequenos, por onde todos andámos. Circunscritas permitem reconhecermo-nos. Muitas vezes recordo um outro Tio, velho amigo entretanto falecido, que muitas vezes comentava, para quem o queria ouvir, que se lembrava de mais pessoas já falecidas do que aquelas que conhecia ainda vivas.
Também eu começo a olhar em meu redor e apercebo-me que à medida que o tempo passa, que o meu tempo se vai gastando, com ele o meu passado vai ganhando espaço e a memória importância. Não sei como estará o meu saldo nesse deve e haver das pessoas conhecidas. Nem me importa. Vou-me lembrando delas. Sei é que gosto muito de estar com elas.

19 fevereiro 2010

espelhos

16 fevereiro 2010

na cabeceira I

Nos últimos dias, ou melhor, na última semana este foi um dos livros que me ocupou os últimos minutos antes de adormecer, em cada noite. Trago-o aqui porque me surpreendeu, não sei se pelas melhores ou se pelas piores razões, pois este senhor, Martin Page, consegue retratar a história do território luso desde 700 a.c. até ao século XX, em apenas cerca de 300 páginas de texto. E que texto! Se nada soubessemos acerca dessa mesma história com a leitura desta optimista elegia, que nos transfigura nos grandes obreiros do mundo, ficaríamos com a melhor das opiniões acerca dos nossos feitos. Este é um texto escrito ao estilo do Professor José Hermano Saraiva, ou seja, ligeiro mas pormenorizado, científico mas pantomineiro.
Como dos fracos não reza a história, cantemos alto nossas vitórias, ainda que passadas. Até porque, algures nesse mesmo passado, algo correu mal e a partir daí, foi sempre a degenerar até hoje, até à pequenez e à insignificância que tão bem nos caracterizam. Aconselhável a todos aqueles que nos (des)governam.

13 fevereiro 2010

instantes urbanos X

Num balcão, enroscados em cervejas

Entrei apressado num café café em Bragança. Estava cheio e com dificuldade consegui encostar-me a uma ponta do balcão. Enquanto ingeria a pequena mas necessária dose de cafeína, não pude deixar de ouvir o diálogo que dois individuos, a meu lado, mantinham:
"- Então diz-me lá, qual é a estação a seguir a Campanhã, depois da ponte?
- É General Torres!.. Então não sei. Eu andei por lá tanto tempo, conheço aquilo tudo...
- E a seguir, qual é?
- É Gaia.
- Então não é as Devesas?
- Sim é isso, é a mesma coisa... oh pá, então não!?...
- Áh, então é isso.
- Eu conheço aquilo, andei por lá durante muito tempo. Todos os dias ia de Campanhã para Parâmio, depois de Espinho. E depois das Devesas é Francelos. Então não é? Eu sei.
- Pois sabes, pois sabes."

12 fevereiro 2010

esferográficas

Hoje, numa conversa com um informante de um estudo em curso, fui presenteado com duas canetas vindas do lado de lá do Atlântico. Quando mas passavam para a mão, disseram: "- A vermelha é para ter sorte no amor. A prateada é para ganhar muito dinheiro." Não sei de onde raio virá tal crença e quais os seus significados. Agradeci a simpatia.

11 fevereiro 2010

o guia da noite na baixa do porto

"Ele há coisas a que um homem não pode dizer que não!" - assim dizia uma canção que Aguardela cantava. E foi precisamente desta frase que me lembrei quando, quase por acaso, encontrei este lugar virtual. Um guia da noite na baixa do Porto. Em primeiro lugar importa referir que há muito tempo deixei de ser consumidor da noite portuense (e de qualquer outra), o que não quer dizer que, ainda que a espaços, não faça uma ou outra incursão pelos novos e velhos espaços e lugares de consumo nocturno da cidade. Depois, este guia trouxe-me imediatamente à memória o tempo, já ido, em que frequente e teimosamente não conhecia outro habitat nocturno que não o Porto. Claro que noutros locais e noutros ambientes, mas até isso foi um exercício interessante, pois o mapa detalhado da baixa da cidade apresentado, permite-nos localizar cada um dos diferentes espaços, sua agenda e contactos. Dei comigo à procura daqueles espaços que eu frequentava...
Um projecto que se identifica com as espacialidades e as temporalidades da baixa portuense e pretende participar na construção de uma identidade em que o lugar marca o tempo e o tempo se explica referenciado pelo lugar.
Com uma boa apresentação, intuitiva e funcional (apesar de num primeiro momento aparecer muita informação e parecer, por isso, muito confuso, rapidamente o visitante percebe a lógica de funcionamento). Um outro aspecto importante, será a reunião e disponibilidade de todos os eventos num só portal, algo que não conhecia. O que significará, porventura, um desafio para a equipa deste projecto, pois implicará um grande esforço de concentração e organização de informação. Se isso for conseguido, não tenho dúvida da grande mais valia que será para cada um dos seus visitantes e assinantes, assim como para a própria indústria e, evidentemente, para a cidade do Porto. Eu já assinei a newsletter, pois apesar de não ser um assiduo consumidor, não invalida que possa estar a par daquilo que vai acontecendo na cidade e na noite dessa cidade. Também por isso vai directamente para os atalhos partilhados, mesmo aqui ao lado...
Conselho de amigo, frequentem.

07 fevereiro 2010

Ελληνικοu

Quando viajei para Atenas, em Maio de 2006, uma das surpresas foi a gastronomia local (leia-se grega) e desde então recordo com nostalgia alguns dos ingredientes por lá experimentados. Num esforço de reencontrar tais sabores, enquanto não regresso à Grécia, em viagens pelas cidades europeias procuro sempre saber se existem lugares cuja especialidade seja a cozinha grega. Com alguma sorte, ou azar, tal reencontro já sucedeu pelo menos em Madrid, em Paris e em Bruxelas. Ainda ontem, depois de ter sido informado por amigos da existência de uma casa de pasto grega na cidade do Porto, não hesitei em reservar mesa para essa mesma noite. Inadvertidamente, resolvi convidar um casal amigo para tal experiência. Inicialmente, o grupo seria muito maior, mas a incapacidade da sala não o permitiu...
Admito o entusiasmo perante a perspectiva de poder vir a experimentar, uma vez mais, tais sabores e odores, ainda por cima, bem perto de casa. Reserva feita, lá fomos. Num espaço pequeno, mas acolhedor, algumas referências iconográficas à "terra mãe" e um ambiente quente, embalado por sons nativos. Depois, as ementas eram confusas e pouco legíveis, o serviço era péssimo e aquilo que comemos não soube a grego. Enfim, o que grego nos deixou foi a conta que nos foi apresentada para pagar. A verdade é que ainda não foi desta que voltei a experimentar os ambientes que trago na memória. Aproximo-me da ideia de que apenas lá, e só lá.

04 fevereiro 2010

"rasto de hortelã"

A cerca de dois anos do fim dos seus dias, Rosa Lobato Faria escreveu a sua autobiografia para o Jornal de Letras. Encontrei esse texto e li-o. A minha vontade era colocá-lo aqui na íntegra, mas porque é relativamente extenso, fica o link para quem o quiser ler. Uma vida inteira tão bem (d)escrita.

03 fevereiro 2010

acabei de LER

Num número quase exclusivamente dedicado à ciência, gostei particularmente da entrevista de Carlos Vaz Marques ao Físico António Manuel Baptista e do ensaio de Jorge Buescu, intitulado "As Batalhas pela Ciência", no qual faz uma leitura sobre o clássico "as duas culturas" onde se percebe o "abismo de imcompreensão mútua" entre os cientistas e os intelectuais; descreve algumas das principais correntes de pensamento do século XX e dá especial relevo ao construtivismo social e à crítica pós-moderna da Ciência. Depois, o mesmo de sempre, vários títulos que quero e irei (não sei quando) comprar.

bonito

28 janeiro 2010

twix de palermas actualidades

Na agenda pública, partidária e mediática, nestes últimos dias sobressaem duas palermices:
- a Lei das Finanças Regionais, que tanto dislate proporciona às bocas dos líderes regionais, nomeadamente ao da Madeira, e às dos líderes dos principais partidos do continente. Assim, e que uma vez mais o parlamento português prepara-se para aprovar esta Lei que vem ofender, pela injustiça económica, todo o restante país. Tal como refere Eduardo Pitta no seu blogue, isto de "ser autónomo à custa dos outros é cómodo e barato". Numa altura em que é apresentado um orçamento de estado para 2010 que tem por tema central a contenção das despesas e a moderação nos investimentos, o Governo e o Sr. Ministro das Finanças curvam-se perante a birra trauliteira e insolência de Alberto João Jardim, que não percebeu ainda que se não fosse Lisboa e o País, a Madeira não passava de uma república das bananas. Literalmente. Mas se é isso que ele (João Jardim) e eles (madeirenses) realmente querem, força com a independência. Vamos lá tratar disso e, assim, acabar de vez com este eterno compromisso de avalizar todos os desmandos insulares. Força Madeira;
- o PIDDAC para 2010, conhecido ontem (?), que de uma vez por todas coloca Trás-os-Montes fora do mapa de Portugal. Inscrevendo uma verba pouco superior a um milhão de euros para o distrito de Bragança, o governo só pode estar a gozar com os contribuintes da região. Governo este que ainda há pouco foi eleito para novo mandato, também por gente de Bragança. Melhor seria não terem inscrito qualquer verba neste documento. A sério! Mais honesto teria sido escreverem no documento que o território de Bragança deixou de ser contabilizado no que a investimentos diz respeito. Que aguardam paliativamente o desaparecimento (morte e migrações) das suas populações. Sugestão: vendam a região a Espanha ou à Galiza que, concerteza, não seriam tão mal tratados. Ou então optem por uma solução tipo Madeira: região autónoma de Trás-os-Montes e dotem-na de verbas idênticas às da Madeira. Aí sim.
Assim, assimétrico, sobrevive o nosso país...

27 janeiro 2010

quem?

Sublinhado de uma das leituras recentemente efectuadas: Bauman afirma que se trata também, talvez mais do que qualquer outra coisa, de um estado de espírito. Mais precisamente, continua, o estado daqueles espíritos que têm por hábito (ou será compulsão?) reflectir sobre si mesmos, de procurar os próprios conteúdos e de os relatar: o espírito dos filósofos, dos pensadores sociais e dos artistas. O estado de espírito dos novos intermediários culturais, que parecem ser os grandes protagonistas da pós-modernidade, tal como a burguesia e a classe operária foram os protagonistas da modernidade.

24 janeiro 2010

parabéns

Aproveito para assinalar mais um aniversário deste espaço. O Apurriar surgiu em Janeiro de 2007, precisamente no dia 24, e ao longo deste três anos tem sido o fiel depositário dos meus estados de alma. Até quando não sei, mas vamos continuando e vamos bem. Aquilo que sinto, quando "folheio" estes três anos de textos e imagens, é que muito do que eu sou está também aqui e como sei que os amigos e amigas também por aqui vão passando, aproveito para lhes agradecer esse esforço, essa partilha. Será sempre com o pensamento (ilusão, talvez) que serei "desfolhado" por eles e elas, que me proponho prosseguir. Obrigado.

19 janeiro 2010

assim

Um encontro, ao contrário de todos os outros, demorado, dolorosamente silencioso e contemplativo. No regresso e já bem perto do último instante, as mãos que viajaram juntas comprimiram-se e, enquanto ele a guiava, o rosto dela inundava-se de lágrimas. Por fim, um beijo e um forte abraço, em silêncio. Depois disto, apenas um sms dela que dizia: "Desculpa-me tudo isto. Amo-te".

17 janeiro 2010

disponibilidade e bom senso

Como republicano, quero uma República moderna, escola pública, serviço nacional de saúde, protecção social, direitos políticos individuais articulados com os direitos sociais, culturais e ambientais.
Como socialista, acredito na possibilidade de construir uma sociedade mais justa e solidária, através de serviços públicos geridos, não pela lógica do lucro, mas pela realização do interesse geral, e através de um novo modelo económico onde se conjuguem planeamento e concorrência, iniciativa pública e iniciativa privada.
Como democrata, penso que o espaço e a intervenção da cidadania são o sal da vida pública e que a democracia participativa é indispensável à renovação da democracia representativa.
Como português, digo que Portugal é muito maior do que a sua dimensão geográfica e que pela história, pela língua e pela cultura é um dos países que pode ser no mundo um actor global.
(Manuel Alegre em Portimão no dia 15/01/2010)

16 janeiro 2010

Haiti

Será unânime o sentimento perante tragédias da dimensão desta que aconteceu no Haiti. Também eu me sinto terrivelmente angustiado com tamanha desgraça. Mais angustiado fico perante a dura constatação da real condição do Homem perante a força da natureza, que não escolhe data e local para se manifestar e reclamar, sem avisos prévios, aquilo que a sí pertence. É poderoso, é triste.
Ao mesmo tempo e perante toda a informação que nos invade, principalmente através da televisão, a quietude e o conforto da nossa civilização, vários são os pensamentos e os sentimentos que ganham forma e força, adulterando aquilo que deveria ser essencial e urgente para minorar o sofrimento daquela gente. Gente, miserável e desinformada, que habita um não-país, desestruturado, sem forças militares, sem recursos, sem governo e onde, imagine-se, o Presidente não tem onde dormir, nem onde trabalhar. Se já, antes desta catástrofe, estávamos perante um estado falhado, agora estaremos, sem qualquer dúvida, perante um estado terminado. Ainda hoje, Daniel Oliveira nas páginas do Expresso escreveu: "A terra, quando treme, treme para ricos e pobres. Mas quando o chão se mexe sob os pés de um miserável é bem mais dramática a sua queda. Porque nada o segura".
Aquilo que temos assistido, nestes dias que se seguiram ao desastre, é uma verdadeira disputa:
a) entre os órgãos de comunicação social que, quais Abutres à procura do melhor e maior naco de carne putrefacta, há muito ultrapassaram o dever da informação para, agora, alimentarem o voyeurismo macabro da desgraça alheia;
b) entre as nações, os estados e os países - da China ao Chile, da Rússia à Austrália, para ver quem vai primeiro, quem leva mais e quem será o grande salvador dessa pátria. Todos querem, genuinamente, ajudar e ainda bem, digo eu e todos aplaudem essa disponibilidade e prontidão. Mas, vão-me perdoar, os mais ingénuos e crédulos, a blasfémia: tudo soa mal e cheira a hipocrisia, pois todas essas nações tiveram mais que tempo para participar e contribuir para a construção deste país e, assim, quiçá, teriam evitado tamanha hecatombe humana.
Falharam as organizações transnacionais, nomeadamente as Nações Unidas, que nunca conseguiram criar um ambiente de paz e normalidade social naquele terço do território da ilha Hispaniola das Antilhas. Isso, agora, resultará num enorme drama social e humano, pois para além dos milhares de mortos que é preciso enterrar, para além dos incontáveis feridos que é preciso tratar, será preciso assistir e cuidar dos milhares de refugiados que, assustados e sem nada a perder, partiram em direcção à fronteira com a República Dominicana. O que fazer com toda esta massa humana de refugiados ambientais?
Assim, como escrevia ainda ontem (6ª feira) Miguel Esteves Cardoso no Público, "a grande tragédia é a nossa ignorância" e "o socorro é um filho triste dessa tragédia".
Assim, também, se processa a localização do mundo e o 4º e o 5º mundo continuarão a existir e haverá mais, muito mais sofrimento, aqui e acolá, não importa.

12 janeiro 2010

a força da palavra


Um livro incómodo ao ponto de ter sido sensurado (em 1996), escrito por alguém que acabou por ser "desterrado" para lugar incerto. Via Arrastão, consegui aceder ao link do ficheiro em pdf do texto na íntegra. Para quem quiser e puder, ler aqui. Eu já descarreguei o ficheiro para a pasta dropbox, para assim o poder ler em qualquer lugar.

10 janeiro 2010

ecos de imprensa


festa do livro 2010

De 7 a 27 de Janeiro acontece mais uma edição da festa do livro no Porto. A grande novidade desta edição acabou por ser a sua transferência do Mercado Ferreira Borges para a fundação Cupertino de Miranda, sem que por isso tenha havido notórias transformações ou alterações. Prevendo que a corrida aos saldos fosse grande, principalmente durante os primeiros dias e aos fins-de-semana, tratei de agendar a minha visita ao certame logo para a fase inicial, principalmente por motivações egoístas, ou seja, porque sei que será sempre nos primeiros dias que se encontram os melhores exemplares - mais variedade e melhor estado de conservação. Assim, ontem (dia 8) lá estive, durante mais de duas horas, à pesca de algo que me pudesse interessar. Levei comigo um amigo e uma lista de títulos em falta, mas nem um desses conseguí encontrar. Ao contrário do que costuma acontecer e para minha surpresa, não regressei a casa com muitos livros, nem fiquei com vontade de lá regressar. Para que conste:
- BARROS, Vitor Coelho, 2003, Desenvolvimento Rural, Lisboa, Terramar;
- MEDEIROS, António, 2003, A Moda do Minho, Lisboa, Edições Colibri;
- PAIXÃO, Pedro, 2000, Amor Portátil, Lisboa, Livros Cotovia;
- VIEIRA, António Bracinha, 1995, Ensaios sobre a evolução do Homem e da Linguagem, Lisboa, Fim de Século;
- NAVARRO, António Modesto, 2005, Morte em Vila Flor, Lisboa, Sete Caminhos;
- JÚDICE, Nuno, 2005, O Fenómeno Narrativo, Lisboa, Edições Colibri;
- FRAZÃO-MOREIRA, Amélia e FERNANDES, Manuel Miranda (org.), 2005, Plantas e Saberes, Lisboa, Edições Colibri;

Ler 87

Apesar de já ter chegado há uns dias, só agora a referência. Número dedicado à história e que dá destaque ao historiador Rui Ramos e ao seu trabalho, que sem me escandalizar também não me seduz ou sequer me transmite qualidade. De toda a leitura quero destacar o texto de Rogério Casanova acerca de Nabokov & Kafka, num exercício interessante de História Alternativa; O relato da estadia na Casa de Escritores e Tradutores, na Letónia - lugar bonito, que deveria ser repetido em tantos outros lugares - escrito por José Riço Direitinho; e as crónicas de Onésimo Teotónio de Almeida e de Jorge Reis-Sá. Uma nota última para o artigo "Teses para todos" da Booktailoring (Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes) que alerta para um problema - a não existência de edições de trabalhos científicos, académicos e investigativos - também por mim diagnosticado e que, sem explicação, está por acontecer. Boa leitura.

25 dezembro 2009

21 dezembro 2009

a máscara e opções políticas

Porque vem referido neste documento e porque foi algo que aconteceu há poucos dias, gostaria vos trazer uma pequena reflexão acerca da Bienal da Máscara, dos caretos e das diferentes iniciativas organizadas pela autarquia sobre esta temática, isto é, sobre a Máscara. Isto porque, sendo uma iniciativa da Câmara Municipal será uma opção política e por isso mesmo considero importante partilhar convosco o seguinte:
Começo com uma afirmação pela qual assumo total responsabilidade: NUNCA COMO HOJE, EM BRAGANÇA E SUA REGIÃO, A MÁSCARA TEVE TANTA IMPORTÂNCIA, TANTO PROTAGONISMO, TANTA CENTRALIDADE.
Bem sei e, concerteza, saberão os demais aqui presentes que nos últimos tempos e por esse mundo fora, assim como em Portugal, temos assistido a uma forte tematização como forma de estruturar e gerir os territórios (patrimónios mundiais ou reservas naturais são alguns exemplos que todos conhecem). Um bom exemplo, concreto e bem próximo, será o do município de Sabrosa, que não satisfeito com a sua inclusão num território protegido pela UNESCO, não satisfeito pela produção de vinhos de qualidade, adoptou uma personagem - Fernão de Magalhães, cuja origem, envolta em polémica, alguns afirmam ser em Sabrosa, como ponto de partida para uma circum-navegação de imaginários globalizantes, ou seja, a associação global de um personagem ao seu ponto de origem, que por acaso é em Sabrosa, que por acaso é em Portugal. A isto se dá o nome de tematização.
Aquilo que o município de Bragança faz com a Máscara poderia muito bem ser também uma tematização, mas pelo que me é dado a perceber pelas narrativas, pelos discursos e pelas actividades não é isso que se trata. E também importa salientar que aquilo que está em questão, no meu entender, não é a realização da Bienal da Máscara ou o Museu da Máscara (que considero um excelente equipamento) nem os inputs de outras geografias. Aquilo que me preocupa são as narrativas, os discursos repletos de lugares comuns produzidos pelos mesmos de sempre e que, ano após ano, vão-se repetindo na elegia ao objecto como o sacrossanto da região, numa folclorização exacerbada que até poderá levar as pessoas para as ruas e que reunirá os grupos de máscaras ou de caretos, consoante a sua origem (e vejam como a própria designação do grupo já nos remete para algo folclórico…), e que mais não fazem do que uma actuação para os outros verem e que alguém paga. Aliás, mesmo na nossa região assistimos ao aparecimento e à organização de muitos desses grupos no lugar dos velhos rituais que em muitos lugares e aldeias há muito tinham desaparecido.
Não me parece que a folclorização revivalista seja a melhor forma de dignificar a Máscara, nem me parece que a médio ou longo prazo possa ser uma mais-valia para a região e para o município de Bragança. Importante era estudar, recolher e perceber junto daqueles que têm essa memória.
Agora para finalizar, regresso à minha afirmação inicial, para vos dizer que ela tanto mais me parece verdade, que a Máscara nos seus ambientes originais, rurais, nunca teve tantas honras e tanta serventia. A sua utilização era sempre ritual, com data e hora marcada, num tempo de excepção, num tempo dentro do tempo, devidamente enquadrado pelo ciclo anual agrícola e pelo ciclo anual litúrgico. Tempo oportuno para alguma redistribuição (géneros alimentares, adereços, etc) dentro das comunidades, como a antropóloga Paula Godinho defende, e tempo de uma maior tolerância social que poderia funcionar como descompressor das tensões existentes nas comunidades. Tudo isto, durante meia dúzia de dias em cada ano. É por isto e mais, que me desagrada ver toda esta parafernália discursiva e de legitimação forçada de algo que querem que seja aquilo que nunca foi. Mas há muito para fazer e esta é só uma opinião.

(intervenção na Assembleia Municipal de Bragança, em 18/12/2009, a propósito da IV Bienal da Máscara)

17 dezembro 2009

ausência

Como custa viver num dia assim. Não estar bem em lugar nenhum, não saber o que fazer, ainda que se tente disfarçar com o trabalho. Repetir rotinas sem razão e ir aos lugares comuns para tentar aliviar a ansiedade foi estratégia que não resultou e a amargura perdurou. Não saber o que pensar, mas sentir que o futuro estará a ser decidido sem eu poder participar, sem eu poder intervir, deixa-me angustiado.
Sem uma única noticia tua. Sem, que seja, um sinal. Diz-me, não importa o quê, mas liga-me. Fala-me.
No fim deste dia talvez saiba algo mais, mas a incerteza já terá durado o suficiente para saber que te amo verdadeiramente. Fala-me.

14 dezembro 2009

páginas da vida num guardanapo abandonado numa mesa de café. a higiene das vidas que nos rodeiam e se (des)organizam em índices vagabundos


sarau medieval

Foi no passado Sábado em Bragança que a convite do meu amigo António Afonso reuni com os elementos do grupo de teatro de Bragança e com o grupo de teatro de Zamora. Foi noite muito aprazível e divertida. Com direito a um momento "epifánico" de âmbito pessoal. Com programa cultural variado e de excelente qualidade, do qual destaco os momentos de representação de ambos os grupos. Deste momento sobra este único registo (sei que outros existirão) da entrada no cenário e do papel ao qual me prestei. Pena é que não se veja a dama que trazia pela mão, pois seria bem mais interessante: bem vestida e muito gira.

09 dezembro 2009

07 dezembro 2009

destes dias e dos outros

- BENJAMIM, Walter, 2000, A Modernidade e os Modernos, Rio de Janeiro, Edição Tempo Brasileiro;
- MATTELART, Armand e NEVEU, Érik, 2006, Introdução aos Cultural Studies, Porto, Porto Editora;
- FORTUNA, Carlos (org.), 2001, Cidade, Cultura e Globalização, Oeiras, Celta Editora;
- VÁRIOS, 2005, O Rio, Porto, PANMIXIA - Associação Cultural;
- PEREIRO, Xerardo, RISCO, Luís e LLANA, César, 2006, As Fronteiras e as Identidades Raianas entre Portugal e España, Vila Real, Sector Editorial dos SDE;
- AFONSO, Nuno, 2009, O meu povo em gente, Porto, Papiro Editora;
- DUARTE, Alice, 2009, Experiências de Consumo - estudos de caso no interior da classe média, Porto, U. Porto Editorial;
- VÁRIOS, 2009, Dicionário do Judaísmo Português, Queluz, Editorial Presença;

em jeito de balanço anual, relatório anual de actividades ou lista de compras, aí (aqui) está


05 dezembro 2009

gratuitidade da qualidade

Se gostam e querem ler qualidade, o meu conselho de amigo é visitarem este blogue. A 1 dia do paraíso é, digo eu, estar perto desse paraíso, mas ter a consciência que esse dia jamais chegará, e por isso, que o paraíso nunca será alcançado. Apropriada metáfora para a nossa imperfeita condição.

28 novembro 2009

Siza Vieira e oito milhões de euros





reunião de trabalho a jantar com amigos

Estava agendado há algum tempo, exclusivamente, para discutir pormenores de projecto que se pretende terminar até o mês de Agosto do próximo ano.
O local para o encontro foi o mesmo de encontros anteriores. Em Gimonde e numa mesa redonda éramos cinco pessoas. Supostamente trabalharíamos o formato e o acabamento da edição a preparar para essa data, mas a conversa começou por ser sobre tudo e mais alguma coisa menos aquilo que (me) interessava. Enquanto o bacalhau do chefe Ruca era degustado, aprendi alguma coisa do muito que eles sabem acerca de cogumelos. Impressionante tudo que estes amigos conhecem acerca do mundo dos cogumelos – qualidades, formatos, características, cores, locais, tamanhos, melhor forma de os colher, congelar, consumir, preços, e mais e mais. Eu, para não ficar completamente deslocado, depois de fazer a devida declaração de interesses, na qual afirmei que cogumelos só os enlatados, lá fui colocando uma ou outra questão, mostrando interesse pela conversa, que tanto os entusiasmava. Não será preciso dizer que nada retive e que, neste momento, sei o mesmo que sempre soube, nada.
Depois disto e já depois da refeição, passámos aos cafés e digestivos e então lá começamos a falar acerca daquilo que estava na agenda de trabalhos. A partir deste momento pedi autorização para gravar a conversa e com os seus consentimentos coloquei o gravador no centro da mesa. Fomos falando sobre vários aspectos mas sempre tendo como pano de fundo o culto e a festa da comunidade dos quatro indivíduos. A qualidade do registo sonoro, ainda não verifiquei, mas logo fiquei com a sensação que bom material estaria a ser recolhido - pormenores muito interessantes e importantes para a investigação foram revelados e discutidos.
Noite dentro e já sozinhos no restaurante, depois de mais de duas horas de conversa, alguém se lembrou que os donos do restaurante só estavam à espera da nossa saída para fechar.
Entretanto, enquanto o whisky abundava nos copos e a boa disposição se sentia, um dos rapazes ao falar da sua experiência e relação pessoal com a santa padroeira, não evitou as lágrimas. O que só veio reforçar a ideia que já tinha: a forte e sentida relação entre os indivíduos desta comunidade e sua santa padroeira. Impressionante.
Quando saí, a certeza de que este projecto vai ser um sucesso e terá os apoios necessários.

24 novembro 2009

a propósito de paixão

O apaixonado prefere o presente imediato, sem olhar ao futuro, ou recorda o passado com satisfação, na esperança de o tornar presente. Ambiciona um presente contínuo que torne perpétua a sua satisfação. E pelos vistos desde sempre assim terá sido: Rezam os anais da história que:
Para os hedonistas toda a paixão é boa. Os românticos comprazem-se em exaltar o seu valor emocional e energético e em glorificar todos os instintos. Para os estóicos a paixão é uma doença da alma e uma monstruosidade oposta à razão. Os epicuristas vêem nela o contrário à serenidade. Kant considera-a uma rebelião das tendências contra a autoridade soberana da razão. Para S. Tomás, considerada em si mesmo, a paixão não é boa nem é má.
Como remédios curativos ou paliativos para as paixões são apontados: remédios preventivos - viagens, estudo, divertimentos, novas actividades; remédios repressivos - imaginação, vontade, temperamento, ambientes, sublimação; depois disto, e caso não resulte: flagelação física e psíquica - chicotes, dildos, lubrificantes, bonecas, ceras derretidas, grampos, enfim, a parafernália possível...

20 novembro 2009

leitura de clássicos dá nisto... não paramos de encontrar contemporaneidades

"Acabou para nós a ficção: calculamos; mas para que pudéssemos calcular, tivemos de fazer ficção primeiro" - Nietzsche

"Que necessidade é esta que organiza e guia a experiência humana e a escuda contra os terrores do Caos?"
"De onde veio o impulso que levantou os frios, imóveis e estéreis rochedos da lógica?"
"As ondas murmuram o seu murmúrio eterno,
O vento sopra, correm as nuvens,
As estrelas cintilam indiferentes e frias,
E um louco aguarda a sua resposta."
"E um homem sensato? - Este retomando o seu trabalho na vida, o turbilhão das ficções de hoje, que podem ser a realidade de amanhã, lança um último olhar aos cumes distantes, atrás dos quais se perde a origem do pensamento, e repete as palavras do mestre:
Ainda que a fonte seja obscura, o rio continua a correr. (Poincaré)" - Tobias Dantzig

"A dúvida é a pedra-de-toque da verdade, o ácido que dissolve os erros. Por isso, ser-nos-á necessário torná-la tão forte quanto possivel e duvidar de tudo sempre que possível. só então teremos a certeza de apenas conservar o ouro puro da verdade" - A. Koyré

"O tempo é feito de uma sucessão de instantes em que cada um é uma espécie de nada de duração. Não tem qualquer força nem realidade própria. Não possui em si qualquer princípio de continuidade." - Descartes

"Afinal quem sonha: o mundo, os poetas, ou ele próprio." - Dadognet

"No universo existem duas realidades: a que tem uma forma imutável, que de nenhuma maneira nasce nem perece, que jamais admite elementos vindo de outra parte, que nunca se transforma noutra coisa, que não é perceptível nem pela vista, nem por outro sentido; e outra que tem o mesmo nome, é semelhante à primeira, mas é acessivel à experiência dos sentidos, é engendrada, está sempre em movimento, nasce num lugar determinado para em seguida desaparecer; é acessível à opinião unida à sensação." - Platão

18 novembro 2009

instantes urbanos IX

Sons enamorados na Invicta, de uma tarde em que venceram os beijos e abraços

Ele diz: Gostaste?
Ela diz: Gostei muito de ter estado contigo. Amei ter passeado contigo na baixa. Amei estar na passadeira contigo, amei encostar-me a ti nas escadas. Gostei de te ter beijado.
Ele diz: Eu também. Muito.
Ela diz: Gosto demasiado de ti para conseguir ficar indiferente às outras mulheres que te querem.
Ele diz: Sabes o que me irrita nesta merda?
Ela diz: Não é preciso ficares assim…
Ele diz: Eu podia ter inventado mil desculpas mas disse-te a verdade.
- (silêncio) -
Ela diz: O que é relevante para ti?
Ele diz: Acordar e não sentir a tua falta...perder vontade de te beijar... deixar que alguém ocupe o teu espaço...
Ela diz: Gosto de ti. Tu não existes…
Ele diz: Neste momento nenhuma mulher se atravessa no teu caminho; não deixo…
Ela diz: Eu sei.
Ele diz: …e não quero!
- (silêncio) -
Ele diz: Eu já falei de ti, todo o meu mundo sabe que existes.
Ela diz: Amo-te. Adeus.

No preciso momento em que se cruzam, despedem-se trocando os olhares e desligam os telefones.

doutada

" Exma. D. AAAA

No atinente à solicitação efectuada compete-nos informar a especificidade da situação em causa, isto é, neste momento o funcionário WWWW está sob orientação de estágio - regulado então por essa situação.

Em anexo, remetemos a documentação requestada.

Sem mais de momento, subscrevemo-nos com a mais elevada estima e consideração.

Atentamente,

XXXXX  "

16 novembro 2009

hábito de ti

um conhecimento de ti,
com todo o sentido.
um impulso para ti,
forte e continuado.
um louco por ti,
consciente mas tropeço.
um saber para ti,
bom ou mau hábito.
desejo de ti,
num hábito interior.
nada em ti,
desmente o amor.
tudo em mim,
hábito de afectos.

(de exercícios poetéticos)

às vezes sim

Algumas pessoas devoram os alimentos, em vez de os comerem. Comportam-se como se fossem ladrões a comer vorazmente a presa, ou prestes a serem levados para a cadeia. Metem as mãos nos pratos, mal se acabam de sentar, e enchem de tal maneira a boca que as bochechas lhes incham como foles. Comem e bebem sem fazerem qualquer pausa, não por terem fome ou sede, mas porque não conseguem controlar os seus movimentos de outra maneira. Coçam a cabeça, brincam com uma faca, são incapazes de se absterem de tossir, resfolegar e cuspir. Erasmo

às vezes não

Todos os que sabem escrever com proficiência sabem tão bem como dar forma a cada letra, e conhecem tão bem cada palavra a escrever, que deixaram de ter consciência desse conhecimento, ou de reparar nesses actos específicos de vontade. A escrita é um exercício habitual de inteligência. Paul Connerton

15 novembro 2009

mais cromos...

Dos últimos dias:
- Lourenço, Eduardo, 2005, Heterodoxia I, Lisboa, Gradiva;
- Lourenço, Eduardo, 2006, Heterodixia II, Lisboa, Gradiva;
- Silva, Luís, 2009, Casas no Campo - etnografia do turismo rural em Portugal, Lisboa, ICS;
- Almeida, Onésimo T, 2009,  De Marx a Darwin - a desconfiança das ideologias, Lisboa, Gradiva;
- Baudelaire, Balzac, D'Aurevilly, 2009, Manual do dândi - a vida com estilo, Belo Horizonte, Autêntica Editora;

desconfiar das ideologias



Conheci o autor, Onésimo Teotónio Almeida, através das (dia)crónicas que mensalmente assina na revista Ler. Pouco ou nada sabia dele, a não ser que está radicado nos EUA onde dá aulas, numa qualquer universidade. Precisamente, na revista Ler deste mês de Novembro, Francisco José Viegas no "Diário de Ocasião" faz a apresentação deste livro e do autor, dizendo: "o que mais me surpreendeu foi a diferença do método, comparado com o pobre debate universitário em Portugal; depois, o ritmo de trabalho e a qualidade da discussão, longe de lugares-comuns e de opiniões banais".
Comprei e rapidamente o li. Aliás, uma das últimas leituras que fiz. De fácil leitura, opta por uma escrita pedagógica, conseguindo percorrer a história das ciências modernas. Do próprio autor ficam as palavras:
"De repente Darwin faz anos, e Portugal, descobrindo-se modernaço e europeu, põe-se em bicos de pés a celebrá-lo com entusiasmo, esquecido já do avozinho Marx a quem ainda há pouco beijava ternamente. (Neo) darwinistas explicam-lhe o comportamento humano, pois a ciência justifica agora a nossa animalidade, visto verdade e ciência serem, na sua percepção, irmãs gémeas, ou sinónimas, para usarmos mais rigorosa linguagem."

13 novembro 2009

a minha dislexia

Num qualquer dicionário de bolso, de ensino primário, ou semelhante: s.f. (med.) perturbação patológica caracterizada por dificuldades na leitura (erros, lacunas, distorções) e na compreensão das palavras.
Vem isto a propósito da minha recorrente dificuldade em responder a determinadas questões. Nas situações mais irrelevantes do dia-a-dia, quando em contacto com "outros" e/ou quando confrontado com alguma questão inesperada, a probabilidade de dizer asneira é enorme. E não raras vezes, ainda estou a pronunciar as últimas sílabas de um qualquer dislate e já o meu cérebro está a processar a censura a si próprio. Serei a personificação dos alhos com bugalhos.

10 novembro 2009

por um beijo mais

Numa noite de Inverno, escura e fria, de há muitos anos atrás. Nem o álcool nem o aconchego da taberna evitavam a saudade, que ainda mal teria começado. Era a última das muitas noites passadas nesse lugar. Na manhã seguinte haveria hora marcada para o regresso à cidade. As voltas e os vícios consumiram todos os escudos e, nos bolsos, pouco mais restaria do que o valor para um bilhete de camioneta, mas num impulso irreflectido e não premeditado, embalado pelas dinâmicas etílicas, procura um táxi que, naquele lugar e naquele final de noite, jamais existiria.
- Eu vou lá. Eu vou lá.
Algum tempo depois e depois de muitas voltas, encontra um taxista encostado numa outra taberna. Cansado de beber, não se mostra interessado em fazer tal serviço. Depois de muita insistência lá acabam por viajar em direcção à vila vizinha, por estrada de montanha e com má sinalização, o que provocou náuseas até ao próprio motorista. Obcecado com o seu propósito, nem se apercebe da aventura e do dinheiro que não tem. Depois de uma hora de viagem, as luzes da urbe fazem-se sentir e, num ápice estão no destino. Sem delongas, a ordem ao taxista é para aguardar dez minutos.
Um toque de campainha, uma voz grave que se ouve do outro lado, um porquê, um silêncio, uma luz que se acende, uma porta que se abre, uma surpresa, um sorriso… do tamanho do seu mundo.
Foi, apenas por mais um beijo.

oferta de hoje. bonita.


05 novembro 2009

instantes urbanos VIII

(na recepção de um hospital privado e enquanto eu e mais 524 pessoas éramos atendidas. A determinado momento, ao meu lado esquerdo e bem perto, é a vez de uma senhora, que pela aparência arriscaria dizer que teria cerca de 50 anos, ser atendida. A conversa foi mais ou menos a que se segue.)

- Bom dia, em que posso ajudá-la?
- Queria marcar estes exames (entrega-lhe a prescrição médica), mas tenho urgência nos resultados.
- Muito bem, vamos ver. (a meninda do atendimento, simpática e gira, passa a olhar para o monitor do pc) - A senhora quer fazer os exames hoje?
- Hoje, agora?..
- Sim... Já comeu alguma coisa hoje?
- Já.
- Então não pode ser hoje. Deixe-me ver outra data. Na 4ª feira pode ser?
- 4ª feira... não posso. É dia de feira.
- E na próxima 6ª feira, dia 13?
- 6ª feira dia 13!?.. isso não menina. Eu não vou fazer exames num dia desses. Sabe menina, são as superstições...
- Então... e dia 16, 2ª feira, às 11:30 horas?
- 11:30!.. não pode ser mais cedo?.. é que estar sem comer até essa hora não é fácil...
- Assim deixa de ser urgência, mas deixe ver...
- Pois é menina, veja lá o que pode fazer...
- E no dia 20, 6ª feira, às 8 horas?
- Mas eu não consigo estar cá a essa hora. O melhor era mesmo por volta das nove, nove e meia...
- A essa hora só poderá ser no dia 30 de Novembro.
- Está bem, pode ser. Pode marcar menina. Obrigada.

LER


03 novembro 2009

triste(s) t(r)ópico(s)


Epitáfio a Claude Lévi-Strauss (28/11/1908 a 31/10/2009) - humilde e justo reconhecimento pelo seu trabalho, pelo seu pensamento e pelo seu contributo para a construção do edifício das ciências socias que hoje conhecemos.

29 outubro 2009

obtusidades

Atira para aquilo que vês e acerta naquilo que não vês.
Aproveitando o título escolhido para este texto, reconheço em mim algo de obtuso. Donde, a incompreensão perante a padronização dos consumos turísticos, actualmente na moda. Por isso, importará compreender todo o edifício construído pelo lobby do sector que impôs a actual ditadura, coagindo o tempo livre, detendo o poder sobre o nosso tempo livre. Inaceitável. É nas mãos desse poder (sem rosto) que está a informação factual sobre os destinos, assim como a produção e a gestão das expectativas e das representações dos potenciais clientes. Os objectos de consumo turístico adquirem maior visibilidade e protagonismo através das suas representações, do discurso publicitário, do que através das suas qualidades intrínsecas. A experiência turística, não raras vezes, é dissonante das expectativas criadas pelo discurso publicitário, ou, o discurso turístico afirma repetidamente que o turista muda(rá), enquanto que o próprio nativo permanece(rá) sempre inalterado. Depois, é num ambiente adverso que se assumem os compromissos: compra-se através de catálogo, devidamente produzido (cor, lettring, perspectiva, beleza, paisagem, o outro, o monumento), com preços convidativos (exclusivamente imbatíveis...), suportados pela solicitude dos colaboradores da agência de turismo/viagens que, pelo discurso, são uns felizardos e já visitaram todos os destinos possíveis e imagináveis.
Tenho uma enorme dificuldade em compreender como alguém escolhe; repito, escolhe um destino turístico para passar os seus dias de descanso, tendo por critério o "pacote" "oferecido". Compreensivelmente, as pessoas são obrigadas, por constrangimentos ou limitações orçamentais, a escolher destinos mais baratos, mais perto geograficamente e menos dias de veraneio. Agora, férias em pacote, famílias alargadas empacotadas num ditoso programa cultural, recreativo e gastronómico de qualidade duvidosa, isso não. Isso eu não compreendo, nem quero. Seriam demasiados constrangimentos e... I like the freedom to arrive anywhere or anytime off schedule by my way.
Isto está nos livros e eu ando a lê-los.

antes ripávamos folhas dos negrilhos, agora ripamos músicas dos cds

27 outubro 2009

primeira aula de piano

Lembro-me bem das primeiras sensações das aulas de Educação Musical e, principalmente, das aulas de Piano, que frequentei na Academia de Vilar do Paraíso há quase trinta anos. Era um mundo novo que até então a minha infância desconhecia. Já tinha experimentado n actividades, mas a nenhuma me fidelizei. Algures no início da década de oitenta do século passado, por iníciativa dos meus pais,começou uma bonita aventura que me permitiu experimentar sensações únicas e que jamais se repetiram. Agora, passados todos estes anos, estou de volta à Academia de Vilar do Paraíso (entretanto em novas instalações) para levar a Emília à sua primeira aula de Piano (experiência). Ela anda excitadíssima. Eu apreensivo e receoso que ela não goste do instrumento.

24 outubro 2009

aguarela de um lugar

Num resto de parede branca, ou quase, junto a uma esquina e perto de uma janela, uma pequena aguarela, devidamente limitada por pobre moldura castanha. Oferta de um dia normal, nunca terá sido protagonista maior. Muitas vezes dou comigo, tal como agora, quedo a olhá-la: a imensidade dessa paisagem, as rugas de seu relevo e a insistência de suas cores dispõem-me à mais abstracta contemplação (o tempo que já terá sido consumido enquanto eu aqui estou, assim...). Que lugar bonito este. Eu reconheço o lugar. Muitas vezes por lá passei e tantas quero ainda passar. É precisamente nesta altura do ano que ele assim se apresenta, com a força e a ternura das cores outonais. Tenho que lá regressar.

22 outubro 2009

excerto

Não consigo deixar de me tornar permeável aos que me estão mais perto, sofrer com eles, preocupar-me com eles. Não gosto de ter opiniões, quanto mais de as escrever, porque fixar uma determinação é enfraquecê-la. Detesto convencer alguém de alguma coisa, porque já estive convencido de coisas opostas. Mas abomino o relativismo do vale tudo, o egoísmo do não ter nada que ver com isso, a injustiça mesmo quando provém da simples ignorância. Gosto de saber, mais uma vez, que alguns dos meus bons amigos não gostaram nada do que escrevi, porque sabem manter a inteligente e saudável distância entre o que se é e o que se escreve.
Pedro Paixão in "A Cidade Depois", 1999.

20 outubro 2009

três cantos

Sem dúvida uma boa notícia, recebida há uns dias atrás. Desde logo decidi ir assistir ao concerto destes três monstros da cena musical portuguesa, nunca imaginando que houvesse dificuldades na aquisição dos bilhetes para uma das duas datas previstas para o Coliseu do Porto. Bem enganado estava eu, pois hoje quando tentei saber mais e me dirigi a um balcão da Fnac, só já arranjei bilhetes para a segunda data (1 de Novembro) e terei sido dos últimos a conseguir lugares para a Plateia. Enfim, já está.

19 outubro 2009

do arquivo pessoa

A única realidade para mim são as minhas sensações. Eu sou uma sensação minha. Portanto nem da minha própria existência estou certo. Posso está-lo apenas daquelas sensações a que eu chamo minhas.
A verdade? É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho a certeza. Uma sensação minha? De quê?
Procurar o sonho é pois procurar a verdade, visto que a única verdade para mim, sou eu próprio. Isolar-se tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade.
s.d. - Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 220.

metáfora

(clicar para ampliar e conseguir ler)



15 outubro 2009

instantes urbanos VII

Distraído, provavelmente a olhar o nada que passa no chão que vou pisando, passo em frente a uma loja Natura, de onde sai um agradável cheiro de insenso, que reconheço e que gostava de voltar a sentir lá por casa. Recuo e entro na loja à procura de uma qualquer funcionária, a quem pergunto:
- Que cheiro é este que se ouve lá fora?
(um momento de silêncio)... - Desculpe!?
- Este cheiro que chega lá fora é insenso. Mas qual?
- Ah, o cheiro de insenso! É sandalo, mas não temos para venda.
- Ok, obrigado.

(dias esquivos estes)

13 outubro 2009

momentos em campanha






LER 84

LER: "Somos um país de brandos costumes ou já mudámos alguma coisa?"
Augusto Cid: "Nunca fomos. A nossa História está recheada de violência e assassinatos. A versão dos "brandos costumes" vem do facto de sermos um país de ignorantes."

"Escrever, no sentido mais original do termo, nós não sabemos exactamente o que seja." Eduardo Lourenço

27 setembro 2009

descompressão

Em final de noite de eleições e para sair do assunto, começo a arrumar a carteira, onde encontro este cartãozinho. Diz respeito a um sítio simpático onde fui jantar com um grupo de amigos(as) no início do mês de Setembro. Sei apenas que ficava lá para os lados do Bairro Alto, em Lisboa.

26 setembro 2009

olho de Alá

(texto escrito a pedido de um amigo para um "panfleto" de apresentação de uma peça de teatro com o mesmo nome. O resultado não agrada, mas mesmo assim enviei-lho com a indicação de que se não gostasse não o utilizasse)

“a fé na capacidade humana de transcender limitações”
Ana Saldanha

A sociedade ocidental, fortemente influenciada pelo positivismo, ainda hoje vive agarrada à ciência convencional, que na sua pressa pelas descobertas e na sua voracidade pelo conhecimento, objectivo santo e sacro da “boa” ciência, esquece com facilidade tudo ou parte daquilo que a precedeu, fundou ou fundamentou e permitiu evoluir até ao estado presente. Vivemos um tempo complexo, de tal forma especializado que, sem reflexão, vamos reinventando os limites da nossa percepção. Um dos momentos primeiros desta nova ciência, foi como que um acaso, num encontro fortuito de culturas, a curiosidade pelo outro e pelo exótico levou até à velha Europa um estranho instrumento, levado da Península Ibérica nas alforges de um velho comerciante. Diz a lenda que foi o seu peculiar design que despertou o interesse. Já no centro do mundo de então terá chegado às mãos de um mestre, interessado nas ciências do oculto e que na clandestinidade praticava as suas manhas e patranhas. Como estava bem consciente do perigo da sua actividade, era com secretismo que aceitava partilhar os seus conhecimentos e mostrar a terceiros as suas estranhas descobertas. Foi este clandestino que baptizou o tal objecto de “olho de Alá”, pois percebera que este tinha poderes extraordinários, jamais vistos, sem humana explicação ou entendimento e que ultrapassava em muito os limites da percepção de então. Algo semelhante aos poderes divinos ou à visão de um Deus, daí a designação. Nessa pré-época moderna, os paradigmas vigentes estavam nas mãos de um poder instituído fortemente influenciado pela hierarquia da igreja, o que levava a uma atitude persecutória em relação a tudo o que pudesse por em questão essa mesma ordem. O olho de Alá foi o elemento que fundou a crítica e o movimento contestatário ao status quo desse tempo. Foi ele que permitiu conhecer todo um mundo novo, até aí desconhecido, que se nos apresentava através dessas lentes. Mundo esquivo de novas dimensões, que obrigava a uma nova abordagem e, consequentemente, a uma nova ciência que não dependesse sequer do poder da Igreja, mas da arte e engenho do Homem em rasgar com as velhas lógicas e agarrar a vanguarda da descoberta e do conhecimento.

dia de reflexão

Sempre no dia seguinte a um período de campanha eleitoral, este é o dia em que todos devemos reflectir sobre aquilo que queremos para o futuro do país, assim como é o dia de descanso para todos aqueles e aquelas que participaram activamente no trabalho das campanhas eleitorais. Esse período de cerca de 15 dias foi um tempo muito intenso e desgastante, no qual fizemos milhares de quilómetros e visitámos todas as sedes de concelho do distrito de Bragança. Se na generalidade podemos dizer que fomos bem recebidos em todo o lado, também é verdade que há localidades onde a nossa presença é mais notada e criticada. Mas em democracia é mesmo assim: Aplaudidos e/ou vaiados temos que saber continuar e sempre com um sorriso nos lábios. Enfim, foi uma experiência interessante e pessoalmente enriquecedora. Não sei se algum dia a voltarei a experimentar (pelo menos nestas condições e com esta responsabilidade), mas valeu a pena. As expectativas são elevados e a ansiedade pelo resultado de amanhã enorme. Estamos prontos.

20 setembro 2009

forwarded message

Caro sr. Luís Vale,
Gostei muito da sua proposta sobre a Regionalização, mas você parece-me estar sózinho em relação aos líderes nacionais do BE ou aparenta ser uma voz a pregar no deserto do BE. Parece-me que o BE continua a seguir o modelo burocrático, seguidista e desregionalizador da direita. É ser-se de esquerda propor ou concordar com a regionalização burocrática da regiões-plano artificiais e burocráticas como propõe o PS e os outros partidos de direita do do bloco central?
Então qual é a diferença em votar no BE ou nos partidos da direita incluindo PS?
Em termos de regionalização, NENHUMA!
Por causa da política oficial do BE em relação à Regionalização (não confundam a verdadeira regionalização ao serviço dos povos regionais de Portugal com a DESREGIONALIZAÇÃO que o PS e a direita agora propõem) este ano nas Legislativas de 27 Setembro, eu não voto BE! Não sei se vote CDU, POUS, PCTP-MRPP ou outro de esquerda que apareça, mas BE até proporem uma verdadeira Regionalização, não voto mais!
Então o BE e a esquerda portuguesa estão tão preocupados com a autonomia ou a liberdade dos povos regionais de outros países, galegos, bascos, chechenos, corsos, escoceses, morávios, etc, etc. mas não ligam nenhuma aos povos regionais de Portugal?
Os ribatejanos não existem? Os galaicos ou minhotos também não existem? Os estremenhos não existem? os lusitanos ou beirões também não existem?
Eu aconselhava era toda a Direcção Nacional do BE a darem uma olhadela no site de uma Associação regionalista lusitana que defende a distinção entre os portugueses e os outros povos regionais de Portugal e a regionalização de todas as regiões étnico-culturais e a provincialização das regiões históricas como entidades regionais secundárias, para ver se aprendiam alguma coisa sobre as culturas étnico-culturais dos povos regionais e nativos de Portugal e as tradições que ainda sobrevivem (embora ameaçadas) neste país atrofiado e ignorado até por alguns camaradas de esquerda.
Amigo e camarada Luís Vale , eu sempre fui um homem de esquerda (nunca votei PS nem direita), posso dizer-lhe que a sua proposta é a melhor que vi até agora (é quase perfeita), embora seja necessário, na minha humilde opinião pessoal, preservar a existência da região do Ribatejo e do Grande Porto independentes, e a região das Beiras poderia ser uma só embora subdividida em três ou quatro províncias também oficiais, e porque não devolver outra vez o nome original da BEira, que sempre foi Lusitânia e que ainda hoje é habitada no seu interior montanhoso por um povo com tradições culturais únicas que sempre se chamou de lusitano?
Obrigado pela sua atenção.
PS- Espero que este humilde cidadão português não seja alvo de censura, porque há dois meses +-, enviei uma carta semelhante a manifestar a minha preocupação em relação à posição oficial de alguns lideres nacionais do BE sobre a Regionalização e a denunciar a Desregionalização, mas a minha carta, não só não foi publicada na página do partido na internet como também não obtive até hoje resposta. Pelo Socialismo e o poder popular!
José Silva.

design inteligente

Andava eu entediado sem saber muito bem o que fazer. Tudo me aborrecia e não estava bem em lado nenhum. Passeava-me pelo cosmos sem destino, tropeçava num cometa aqui e numa estrela acolá, deambulava daqui para ali e de além para aqui sem qualquer destino ou propósito e, de vez em quando, para acrescentar adrenalina, lá me atirava para a centrifugação de um qualquer buraco negro. Mas tudo acontecia muito depressa e logo regressava à anterior monotonia. Acima de tudo, aquilo que mais me enfurecia era o facto de não precisar de qualquer esforço para conseguir o que pretendia. Um pensamento bastava para me transportar para essa realidade. Chatice. Algo novo e diferente precisava urgentemente.
A resposta veio em forma de mundo, imaginado, projectado e construído num tempo que precisei de organizar e chamei dias. Porque gostei e me deu imenso prazer, gastei sete desses tempos. Agora que o recordo, foram os melhores tempos da minha intangível existência. Tanto tempo já passou e tanto fiz depois, mas esse momento primeiro foi o mais belo e perfeito. O cuidado e a atenção a que me obriguei, permitiu-me desenhar tudo ao mais ínfimo pormenor, experimentar e testar antes de fazer e, depois de tudo montado, por a funcionar. Com omni-atenção consegui ir corrigindo alguns erros congénitos e pequenas falhas técnicas e assim, já no final do sexto tempo, pude com deleite apreciar o sublime. Ao sétimo momento, exausto descansei.

13 setembro 2009

colecta no congresso da APA

Aproveitando os preços (incrivelmente) reduzidos dos livros à venda numa pequena feira do livro promovida pela organização do IV Congresso da APA, trouxe alguns títulos que estavam em falta, ou seja, que eu queria e precisava comprar. Mas só para que se perceba a grande redução de preços, comprei um livro por 8 euros, quando nas lojas custa 24 euros. Só podia aproveitar.
- Medeiros, António, 2006, Dois lados de um rio - nacionalismos e etnografias na Galiza e em Portugal, Lisboa, ICS;
- Guimarães, Ana Paula, 2008, Nós de Vozes, Lisboa, Edições Colibri;
- Revista Etnográfica, vol. 12 nº1, Maio 2008, Lisboa, Centro de Estudos de Antropologia Social;
- Espírito Santo, Moisés, 1989, Fontes Remotas da Cultura Portuguesa, Lisboa, Assírio & Alvim;
- Raposo, Paulo, 1991, Corpos, Arados e Romarias, Lisboa, Escher;
- Guimarães, Ana Paula e Barbosa, João e Fonseca, Luís (org.), 2004, Falas da Terra - natureza e ambiente na tradição popular portuguesa, Lisboa, Edições Colibri;
- Balsa, Casimiro (org.), 2006, Relações Sociais de Espaço, Lisboa, Edições Colibri;

06 setembro 2009

é como voltar a casa

Este último ano que passei na televisão não foi feliz, sem culpa nenhuma para Manuela Moura Guedes, que me tratou com inalterável generosidade. À parte a minha má imagem (um understatement), a minha má voz, geral incoerência e péssima dicção, sucede que escrever (um ofício em que me eduquei) é exactamente o contrário de falar. Quem fala improvisa; quem escreve calcula, planeia, emenda, substitui. Os dois processos são contrários. Pior, são incompatíveis. Verdade que a prosa acabou por me levar à televisão: um compreensível acidente. Só que "um homem de letras", mesmo medíocre, nunca, no fundo, se transforma. Voltar a este privilegiado canto é, para mim, como voltar a casa.
Vasco Pulido Valente, Jornal Público, 06/09/2009

04 setembro 2009

como eu gostava, como eu quero estar enganado

Bem sei que ainda falta algum tempo para o dia das eleições legislativas e que muita água turva e revoltada vai passar por baixo desta ponte, mas hoje foi o dia em que me apercebi, me convenci que o caso do Jornal Nacional da TVI e o afastamento de Manuela Moura Guedes e demais equipa foi a machada final nas hipóteses de José Sócrates e do PS ganhar essas eleições. Bem dizem que as eleições não se ganham, mas perdem-se e este será mais um exemplo desse lapidar sentimento. Se assim for, e eu não quero que seja, nos próximos anos ou décadas o "reinado" de Sócrates será um case study nas melhores academias (da gestão e administração pública, do direito, da criminologia e investigação judicial, da comunicação, da política, do marketing, etc.). O seu maior legado será esse, o de contribuir para o avanço da ciência em Portugal e, quiçá, no estrangeiro (seja isso onde for...).