Depois de vários meses à espera, chegaram-me às mãos as cinco edições da revista Memória Rural, publicação anual do Museu da Memória Rural, em Carrazeda de Ansiães. Agradeço ao amigo Rui Leonardo que me fez o favor de as trazer até mim. Apesar de todos os números desta revista estarem disponíveis gratuitamente na internet (aqui), e eu já conhecer a maioria dos seus textos e artigos, nada como tê-la entre mãos, até porque se trata de uma edição cuidada e com muita qualidade. Prazer para os próximos dias.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
09 fevereiro 2023
06 fevereiro 2023
03 fevereiro 2023
01 fevereiro 2023
capa dura
A colecção "ensaios da fundação" da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) tinha até Dezembro de 2022 cento e vinte e cinco livros publicados, todos eles com duas opções de edição: uma edição de capa mole com o preço de venda ao público de três euros e meio, e outra edição em capa dura com o preço de cinco euros. Pois bem, já em Janeiro deste ano foram publicados mais três números e apenas em capa mole. Eu que tenho toda a colecção da edição em capa dura, esperei até hoje para ver se aparecia a outra edição em escaparate. Não apareceu, nem vai aparecer. Desconhecendo e farto de aguardar, resolvi contactar directamente e por email a livraria da FFMS, que rápido me responderam, afirmando laconicamente: "Informamos que deixámos de produzir capas duras."
Pois bem, quem lamenta sou eu e, agora, hesitante estou se vou ou não continuar a colecção. Muito obrigado.
31 janeiro 2023
inolvidável
Chegou hoje na volta do carteiro a nova carta de condução. No ano em que completo cinco décadas de existência sou, como todos os demais condutores, obrigado a renovar a licença para poder conduzir. Fí-lo pela internet e através de um processo simples e rápido. Já cá está e, por isso, é tempo de arquivar, para memória futura, a velhinha carta cor-de-rosa que me mantinha jovem desde Maio de 1992, com cara de imberbe mas já com muitos milhares de quilómetros conduzidos.
abismo civilizacional
Não há como não estar preocupado com a realidade política e partidária em Portugal. Perspectivada deste lugar, o da Esquerda, considero que o futuro próximo será um tempo muito difícil para nós e para todas as esquerdas. Acabo de escrever isto e já fico arreliado pela designação no plural - as esquerdas. Os sintomas e diagnósticos, as estratégias e as tácticas, as punchlines das narrativas estão já todas alinhadas entre os diversos actores e agentes políticos e mediáticos. O poder tem que ser entregue à Direita o mais depressa possível. Tudo está concertado e preparado para essa clivagem política e, depois, social. Espero estar errado, mas já não haverá retorno sem um novo governo de Direita e extrema-Direita. Lamento, e lamento ainda mais porque tenho a percepção que a culpa foi, e é, maioritariamente, do PS (esta ida de Ana Catarina Mendes à convenção dos fascistas…) e das esquerdas (não consigo esquecer votações de 2021...). É verdade que este governo de maioria PS não presta, está derrotado e degenerativo, mas a oposição de esquerda não irá reverter a seu favor, mas sim beneficiar aqueles que são os nossos verdadeiros adversários e que eu não desejaria, jamais, ver no governo. Com um novo governo do PSD, virá agregado o pior da nossa sociedade - reaccionários, anacrónicos, misóginos, xenófobos, saudosistas, nacionalistas e fascistas, e o retrocesso civilizacional será mais do que certo. Bem sei que muitos consideram que entre o PS e o PSD e arredores não há diferenças, mas ainda assim eu prefiro, e preferirei sempre, um governo do PS do que qualquer governo de Direita. Temos andado a brincar com o fogo, gostava que não nos queimássemos, mas caminhamos conscientes para esse abismo.
(Adaptação. Escrito a 30 de Janeiro e publicado originalmente no blogue da Convergência Porto)
30 janeiro 2023
epifanias
"De súbito, o que passou a haver na minha pasta, em todo o lado para onde vá, foi um caderno para colher epifanias escritas e desenhadas que certamente só terão verdadeiramente leitura para mim e no modo como as imagino úteis."
Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1365, Janeiro e Fevereiro 2023.
tique nervoso
Descobri, recentemente, um lugar onde se toma um delicioso café. Algo cada vez mais difícil de acontecer. Passei a lá ir todos os dias e tem alguns que lá vou de propósito mais do que uma vez. Espaço simples e pequeno, muito asseado e de preços baratos. As empregadas são uma simpatia, ao ponto de uma delas, para além de meter conversa ocasional comigo, sempre que me atende pisca o olho. Com certeza, um tique nervoso que repete com outros clientes, mas em todo o caso, passei a estar atento e a tentar perceber se o tique se repete com os demais. Ainda não consegui.
27 janeiro 2023
sumptuosidade, soberba e descaramento
Nada me opõe à realização das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) em Portugal e em Lisboa. Dito isto, quero manifestar o meu indisfarçável incómodo em relação ao comportamento e atitudes daqueles que foram e são responsáveis pela organização das JMJ. Aquilo que está a acontecer é bem característico da atitude das nossas elites institucionais e dos nossos decisores políticos na gestão e uso do erário público. Num país com tantas carências estruturais e sociais, dão-se ao luxo de querer gastar milhões para receber durante um dia, ainda que sejam, dois, três ou quatro, o Papa Francisco. A trapalhada mediática instalada, com todos a sacudir a água do seu capote e a passar culpas para terceiros, com o Presidente da República ao sabor do vento, a dar o dito pelo não dito, com o inenarrável presidente da Câmara Municipal de Lisboa completamente desorientado e surpreendido pelo alvoroço na opinião pública, a pedir aos portugueses para "acreditarem" num milagre de retorno financeiro deste investimento, como se este evento e suas intervenções fossem um investimento para o país e para a cidade de Lisboa, sendo de imediato desmentido por todos os agentes culturais que não encontram proveito nenhum nesse recinto e sua estrutura. Mas mais, na ânsia de justificar o injustificável, Moedas faz chantagem, perguntando se os portugueses querem ou não querem receber o Papa e socorre-se da fórmula de sempre: socializa-se a despesa (erário público) e promete-se mais-valias incomensuráveis provenientes do evento, esquecendo-se contudo de dizer que essas mais-valias, a acontecerem, não serão socializadas, ou seja, não serão para o benefício colectivo dos portugueses, nem sequer dos lisboetas. Depois, falta referir a questão mais importante, a adjudicação directa, sem concurso público, do projecto a uma empresa que, só por coincidência, tem Paulo Portas na administração, amigo pessoal de Moedas e ex-presidente do CDS que, também por coincidência, faz parte da coligação que preside à Câmara de Lisboa. Enfim, uma cagada em três actos, protagonizada por gente de bem.
Será importante não deixar desaparecer este assunto da agenda mediática, pois caso contrário e apesar dos discursos de revisão do projecto, descaradamente tudo ou mais irá ser feito e gasto. Aliás, é para mim o maior defeito da ICAR, a sumptuosidade em que se veste e reveste, afrontando ontológica e essencialmente a sua origem e missão.
Enfim, nada nem ninguém fica bem na fotografia que se está a tirar por estes dias.
25 janeiro 2023
no terreno
Em Deilão, terras da Lombada do concelho de Bragança, em casa da família Morais. Pela manhã do dia 21 de Janeiro de 2023.
24 janeiro 2023
dezasseis anos
Assinalo hoje o décimo sexto aniversário desta minha tábua branca de escrever. Uma vez que aqui continuo a vir, que mantenho o gosto de organizar em escrita e em diferentes suportes a minha existência, faz todo o sentido manter e promover o meu recanto da escrita e afins, reafirmando hoje a vontade e intenção de a sustentar com crescente regularidade e participação. Apurriar, siga.
23 janeiro 2023
excertos das palavras ditas na apresentação de "enclausurados - vivências em pandemia" (4 de 4)
(no passado dia 21 de Janeiro, pelas 17 horas, no Lost Corner Bar, em Bragança)
excertos das palavras ditas na apresentação de "enclausurados - vivências em pandemia" (3 de 4)
(no passado dia 21 de Janeiro, pelas 17 horas, no Lost Corner Bar, em Bragança)
excertos das palavras ditas na apresentação de "enclausurados - vivências em pandemia" (2 de 4)
(no passado dia 21 de Janeiro, pelas 17 horas, no Lost Corner Bar, em Bragança)
excertos das palavras ditas na apresentação de "enclausurados - vivências em pandemia" (1 de 4)
(no passado dia 21 de Janeiro, pelas 17 horas, no Lost Corner Bar, em Bragança)
conversa da raia
À mesa do Gastrobar, depois de um magnífico caldo Galego, com os amigos raianos Carlos d'Abreu e José Ballasteros.
(Galende, 21 de Janeiro de 2023)
21 janeiro 2023
17 janeiro 2023
o firmamento
Tendo uma superlativa admiração pela escrita e, também, pela vida peculiar e até errática de Luíz Pacheco, sou ávido consumidor de toda a produção sobre ele. Ainda não consegui adquirir nenhum dos seus livros nas edições originais, mas continuo a alentar esse desejo. Mal saiu esta nova biografia pela pena de António Cândido Franco, pois claro, fui buscá-la ao escaparate. Aguarda agora, e apenas, as horas disponíveis para ser lida.
16 janeiro 2023
olhar-me noutras vidas
(Texto digitalizado do Jornal de Letras nº 1364, Janeiro de 2023)
São tantas as semelhanças empíricas e de memória com o meu contexto ou ambiente de origem, que fiquei incomodado e nostalgicamente espantado com este magnífico texto de Valter Hugo Mãe.
13 janeiro 2023
12 janeiro 2023
uma outra existência
Terminei ontem à noite a leitura do livro "Ibéria esvaziada - despovoamento, decrescimento, colapso", de Carlos Taibo, que já aqui tinha referido. Pois bem, para além dos diagnósticos apresentados e muito bem documentados sobre essa Ibéria vazia e sem gente, as propostas avançadas para esses vastos territórios são inovadoras e algo surpreendentes. Para além disso, são apresentados conceitos que eu não conhecia, pelo menos com este pormenor e profundidade, o que me motivou os sentidos e a curiosidade para descobrir os vários autores que cita e seus conceitos e propostas. A proposta de Carlos Taibo é cada vez mais uma possibilidade para um futuro próximo que se aproxima a grande velocidade. Naquilo que diz respeito à minha existência, sendo um urbanita com muitos referentes rurais e com um relativo conhecimento de parte dessa Ibéria esvaziada, agrada-me muito a ideia de colapso, de podermos substituir esta sociedade de consumo individualista, por uma outra mais solidária e de maior entre-ajuda comunitária.
Veremos o que nos espera.
"O objectivo principal deste livro é aplicar à Ibéria esvaziada as ferramentas que surgem da perspectiva do decrescimento e da teoria do colapso. Com esse propósito, nas suas páginas delimita-se o conceito, amiúde nebuloso, dessa Ibéria, e a esse respeito considera-se tanto o cenário espanhol como o português. É também delineado um conjunto de propostas relativas ao que deve ser preservado, recuperado, introduzido e rejeitado nos espaços afectados, sem deixar de prestar atenção a debates importantes como os relativos ao povoamento, às mulheres, à neo-ruralidade, às biorregiões, ou à natureza de um modelo económico e social alternativo. Acima de tudo, este livro pretende ser um esboço que estimule um debate visivelmente em falta: o do decrescimento." (in contra-capa)
"a cidade está preparada"
Foi com estas palavras que o vereador da Câmara Municipal do Porto, Pedro Bragança se pronunciou sobre as cheias que Lisboa sofreu no passado mês de Dezembro, garantindo ao Porto Canal que na cidade do Porto essa situação não aconteceria. Pois bem, aqui está um bom exemplo para quem tem telhados de vidro não atirar pedras ao ar, e não foi preciso esperar muito para os telhados do vereador Pedro Bragança se partirem com as pedras que andou a atirar para o céu da Invicta.
Ainda assim, e para além do ensinamento popular que desautorizou o dislate do insigne autarca, importa reflectir sobre o que aconteceu nos dias 7 e 8 de Janeiro na Invicta e não são suficientes as tíbias declarações dos responsáveis locais e autárquicos sobre a imprevisibilidade deste tipo de ocorrências. Há esclarecimentos a dar, causas por encontrar e responsabilidades por atribuir. Acontece que os rios e as ribeiras que atravessam a cidade e desaguam no Douro já há muito tempo estão entubadas e nem por isso assistimos jamais a inundações desta dimensão. No caso do rio da Vila, principal leito que atravessa a cidade, ele já está entubado desde o século XIX e terá sido algures no seu percurso que houve problemas obrigando-o a transbordar e passar a correr à superfície para o Douro, inundando tudo no seu caminho.
O que terá motivado este fenómeno? Avança-se com a possibilidade de terem sido as obras do Metro na baixa, mas não podemos esquecer outras intervenções que têm acontecido um pouco por todo o centro da cidade, tais como as obras no mercado do Bolhão, as obras no quarteirão do Rivoli, na Praça D. João I, entre outras, que poderão também ter contribuído para desestabilizar os leitos das ribeiras e a natural drenagem da cidade. O Rio da Vila continua a ser alimentado por várias nascentes e estas continuam a existir, como por exemplo a do antigo monte de Santa Catarina, ou as fontes e arcas de água da Batalha e Santo Ildefonso. É nosso entendimento que para além das responsabilidades daqueles que interferiram e desestabilizaram estes cursos de água, o grande problema do Porto é o excesso da impermeabilização dos solos, transformando toda a cidade num contínuo impermeável, situação que se acentua no centro histórico da cidade, numa relação muito estreita de causalidade entre as políticas urbanísticas e de planeamento da cidade e a voragem das ambições especulativas e de consumo do cluster do turismo. Há que repensar a cidade e restituí-la aos portuenses.
Adenda:
Escrevi este texto sobre as inundações ocorridas na Invicta no passado dia 7 de Janeiro. Depois, uns amigos quiseram subscrever e acrescentar algo mais, o resultado foi publicado no sítio da internet da Convergência. Partilho aqui também esse texto.
10 janeiro 2023
nada para lá do horror
Confesso que não sou adepto do género, nem muito menos aficionado por estas personagens ou histórias de um horror incomensurável, mas tanto ouvi falar e comentar sobre esta série, que lá me dispus a vê-la. Terminei ontem à noite e a verdade é que demorei, sei lá, cerca de três meses para visionar os apenas dez episódios, mas também devo dizer que para além do choque inicial (primeiro episódio, talvez ainda o segundo), não fiquei agarrado, nem convencido com esta narrativa, ambientes e personagens. Para além do horror real em que se baseia, não sei se me agrada esta mitificação destes monstros sociais, sociopatas dementes, revestindo-os de um certo carisma e transformando-os em quase-heróis. Está visto, mas não será conselho para ninguém.
06 janeiro 2023
vida
Cheguei ao ano em que completarei cinco décadas de existência. Caramba! Até aqui foi um instante e o que me sobrará outro sopro de vida será.
01 janeiro 2023
31 dezembro 2022
29 dezembro 2022
transitando
Terminar o ano com tranquilidade e concentrado naquilo que pretendo realizar e organizar já no início de 2023 será, no meu entendimento, uma boa e optimista atitude, não só porque me mantém ocupado e vigilante, como também porque significa que o ano que agora finda foi um bom ano. Sim, 2022 foi, no plano pessoal e "profissional", um excelente ano e isso permite-me perspectivar o ano seguinte com renovada vontade e resiliência. Venha 2023.
28 dezembro 2022
tento ser
"A reciclagem é uma formatação que a sociedade de consumo nos impôs para resolver um problema que ela própria criou e para continuarmos a consumir. São estratégias que nos querem convencer de que somos o que somos, quando muitas vezes somos o quem nos mandaram ser. Tento ser o que quero ser. Daí que passe muito tempo em luta com o mundo. Mas só sei viver assim."
Isabela Figueiredo, in Jornal de Letras nº 1362 - Dezembro 2022.
27 dezembro 2022
24 dezembro 2022
orgulhoso estou
Já tinha pensado escrever isto antes, mas achei mais seguro só o fazer hoje.
Então não é que este ano, finalmente, ninguém se lembrou das decorações de Natal cá em casa. Estamos a ficar crescidinhos... e a trabalheira que se poupou... e o lixo que não se fez... LINDO!
Hoje, à hora de almoço e à mesa comentei com o resto da gente. Riram-se do meu orgulho, mas não ficaram convencidos, o que deverá significar que ainda não será em definitivo, mas é um princípio. Orgulhoso estou de nós.
22 dezembro 2022
a Ibéria esvaziada
Ontem à noite fui ao Gato Vadio, na Invicta, assistir a um debate sobre a escassez da água e a crise ambiental. Debate que acabou por se transformar numa mesa redonda de conversa sobre o presente e o futuro da nossa casa comum. Entretanto, e enquanto deambulava pela livraria encontrei este livro, edição recente e que ainda não conhecia. Excelente, passa a prioridade de leitura para os poucos dias de "retiro" que se aproximam.
da mesa
"das relações infinitas possíveis numa mesa. [...] A mesa como <espaço operatório> lembra Didi-huberman; em cima da mesa fazem-se coisas, muitas. Demasiadas até para o entendimento humano. Acima de tudo, a mesa é um espaço de encontros lógicos ou absurdos, azarados ou felizes."
Gonçalo M. Tavares, in Jornal de Letras nº 1362 - Dezembro 2022.
18 dezembro 2022
sessão lançamento "enclausurados"
17 de Dezembro de 2022, pelas 18 horas, no Abstrato Café, em Valadares. Com velhos e novos amigos, num ambiente tranquilo e intimista. Que bem estivemos. Obrigado.
mais um rebento
Lançado ontem, dia 17 de Dezembro de 2022, pelas 18 horas, no Abstrato Café em Valadares, entre amigos que fizeram o favor de me vir abraçar. Em breve colocarei aqui algumas fotografias desse momento.
14 dezembro 2022
insofismável
Escreveu assim, por estes dias, J. Rentes de Carvalho na sua barca: Tempo Contado...
Os citadinos que desconhecem este viver idealizam famílias harmoniosas em volta da lareira, falam de “achas e toros a crepitar alegremente”, alheiras assadas, risos, copos de bom vinho, histórias de antigamente.
Se o acaso os trouxesse hoje para estas bandas, pronto lhes passaria o romantismo, e de certeza deitavam a fugir. Eu próprio, se me apetecesse, poderia encontrar outro poiso. Mas não é isso que conta. Conta o invisível, temeroso cárcere em que as aldeias moribundas se tornam, a tragédia dos que nelas aguardam que, sem mais dor, a morte os liberte da pena perpétua.
Ventania, chuva, frio polar. A noite vai cair. Se neste momento a filmassem, a única rua da aldeia valeria como imagem de um mundo que acabou. Nem cães se vêem."
13 dezembro 2022
11 dezembro 2022
regresso ao terreno
Hoje foi um dia bom. Depois de largos meses sem ir para o terreno, realizar trabalho de campo, hoje regressei e logo indo a lugar bonito da raia transmontana. Varge, pequena e bonita aldeia, perto de Rio de Onor, ao encontro de um antigo guarda-fiscal que privou, na década de 50, com o Padre Alípio de Freitas, cuja vida, espero, será objecto de investigação nos próximos meses/anos.
Como gosto desta vida de terrenos, diversificados e heterogéneos. É sempre um prazer regressar.
07 dezembro 2022
05 dezembro 2022
02 dezembro 2022
28 novembro 2022
já?!
Hoje, 28 de Novembro, desejaram-me "boas festas". Nessa fracção de segundo o meu cérebro bloqueou e não processou de imediato essa informação, só depois é que o meu bom(?) senso me obrigou, já com um sorriso nos lábios, a retribuir os desejos. Caramba, já cá estamos outra vez! É mesmo um eterno retorno.
25 novembro 2022
without black friday
Porque não gosto de gastar dinheiro que não tenho em coisas que não preciso, esta moda do black friday passa-me ao largo e consigo alhear-me desse consumismo sôfrego. No entanto, aconteceu passar pela porta de uma Almedina e resolvi entrar para ver se encontrava algo a bom preço. Pois não só nada havia em promoção que me interessasse, como acabei por encontrar algo inesperado e há muito esperado, sem promoção e que, claro, trouxe para casa. A tradução para português deste clássico da Antropologia, de Ruth Benedict, "O Crisântemo e a Espada", um trabalho encomendado pelo Governo e pelos militares americanos, em plena Segunda Guerra Mundial, para conhecerem melhor o Japão, então inimigo. Interessa também para quem queira conhecer a sociedade japonesa.
dados miseráveis que até (me) irritam
A rádio Brigantia noticia hoje (ler aqui) que os resultados definitivos do Censos 2021 revelam Bragança como um distrito em extinção, pois todos os seus doze concelhos perderam população em percentagens exageradas. Não é que seja surpresa a região continuar a perder população, mas quando já estávamos com valores tão baixos, sabermos que as perdas continuam acentuadas, deixa-nos completamente desarmados e incapazes de qualquer reacção. Bem sei que o facto do país ter regiões de baixa densidade não seria uma fatalidade em si e que até, tal como acontece noutros países europeus, as populações dessas regiões poderiam ter qualidade de vida, estabilidade e até serem competitivas, mas infelizmente não é essa a nossa realidade e Lisboa não tem feito mais do que desinvestir na região. Veja-se a retirada da ferrovia do distrito (e de outras regiões interiores do país) como o exemplo mais que evidente da falta de pensamento estratégico e apenas orientado pela e para a finança e especulação.
Mas regressemos aos dados do Censos 2021. Entre 2011 e 2021 o distrito perdeu 13.448 residentes, pois tinha 136.252 em 2011 e agora só tem 122.804 residentes. Por concelho as perdas são as seguintes:
Torre de Moncorvo = -20,42%
Alfândega da Fé = -15,34%
Freixo de Espada à Cinta = -15%
Vinhais = -14,32%
Carrazeda de Ansiães = -13,86%
Miranda do Douro = -13,62%
Mogadouro = -13%
Vimioso = -11,14%
Mirandela = -10,32%
Macedo de Cavaleiros = -9,67%
Vila Flor = -9,66%
Bragança = -2,15%
Pelos vistos, apenas nos resta esperar pela morte e migração dos poucos habitantes que cá resistem.
Aliás, a percepção que tenho é que o próprio Estado português já há muito tempo que decidiu que o interior do país seria para abandonar e que seria uma questão de tempo, entre três a quatro gerações para tal acontecer. Tudo isto com o conhecimento dos responsáveis políticos da região, falo dos autarcas, dos deputados e de todas as nomeações políticas para cargos sectoriais da Administração Pública. Foram décadas e décadas de protagonismos locais e regionais, de mão estendida em Lisboa e de satisfação pelas sobras que permitiam inaugurações de betão e alcatrão, enquanto assistiam, encolhendo os ombros, ou ausentes e distraídos, ao esvaziamento de serviços do Estado e à retirada das suas tropas. Um triste espectáculo: vão-se os dedos, mas ficam os anéis, que é como quem diz, vão-se as gentes, mas ficam os auditórios, as piscinas, as ciclovias, os museus, assim como os super e hiper-mercados e as tão desejadas vias-rápidas, itinerários principais e auto-estradas e continuam a cortar fitas e a ser capitais disto e daquilo...
Talvez esteja na altura de responsabilizarmos não só o Estado, mas também de olharmos para a nossa quota-parte de responsabilidade política e de assumirmos que esta tem rostos e tem nomes. Depois, seria bom começarmos a pensar sobre o que fazer com este vasto território, despovoado e abandonado à sua sorte, em vez de perpetuarmos a ilusão ou falsa esperança que um dia a realidade será diferente. Infelizmente, não será mais do que uma agonia e morte cada vez menos lenta.
24 novembro 2022
ferramentas
Descobri recentemente esta caneta e estou admirado com a qualidade de escrita dela. Tal como eu gosto, não é escrita fina e o toque de tinta no papel é suave. Por apenas 6,80 euros, para além da caneta, ainda traz seis recargas de tinta. Foi difícil de encontrar à venda, vamos lá ver o tempo que se aguenta e se vai conseguir substituir a minha velhinha Sheaffer.
18 novembro 2022
optimismo
"O melhor modo desde o princípio da História está longe de ser o melhor dos mundos possíveis, e é por isso que Popper defende que o optimismo é um dever, pois é esse mesmo optimismo que pode fazer com que faça sentido continuar a caminhar, lutar por algo melhor, porque a realidade é insuficiente. O presente é claramente insatisfatório e este mundo não nos pode contentar."
(Afonso Cruz, in jornal de Letras nº 1360, Novembro 2022)
vergonha presidencial
Não sei quando, nem em que contexto, o Presidente da República portuguesa proferiu esta declaração. Que vergonha, o mais alto magistrado de uma nação republicana e democrática relativiza a morte de escravos em países ou estados cleptocratas, ditatoriais e onde não existe um mínimo de respeito pela dignidade da vida humana. Este senhor não perde uma oportunidade para demonstrar a sua senilidade e irresponsabilidade. Eu nunca votei nele e, cada dia que passa, fico mais tranquilo por nunca ter gostado dele. Sempre o considerei um lobo disfarçado de cordeiro, ou seja, um anacrónico e salazarento, disfarçado de democrata e desempoeirado. Não tem feito mais do que dar-me razão.
Eu considero inaceitável a FIFA ter concedido ao Qatar este mundial de futebol e mais inaceitável ainda o facto das selecções aceitarem jogar lá. Vai ser um mundial de hipocrisia e de indignidade. Eu não participarei nesse espectáculo. Não haverá visualização, ou sequer interesse, em nada relacionado com o evento. SHAME ON YOU!
11 novembro 2022
10 novembro 2022
solilóquio
Talvez um dia alguém leia as horas dos meus dias. Melhor, talvez um dia ela leia os meus dias em escrita.
(repescado de um pequeno caderno, escrito em 12 de Janeiro de 2018)
o futeboleiro
Há cerca de dois meses a minha criança começou a treinar futebol no Valadares Futebol Clube - Dragon Force, na turma dos onze anos. A turma ainda é pequena, talvez sete ou oito miúdos quando aparecem todos. A lógica é treinarem e os melhores, segundo parecer dos treinadores, serão convidados a integrarem a equipa de competição do respectivo escalão. Tem dois treinos por semana (4ª e 6ª feiras, às 18:30 horas) e está a adorar. Eu, pois claro, também tenho treino e sou coagido a estar sempre atento ao que se passa no relvado. Não sei se ele chegará a ser "convidado" para a equipa de competição, nem é objectivo que ele se transforme num futeboleiro. Aqui o primeiro e último objectivo é o treino e em equipa, pois ele está demasiado tempo sozinho. De qualquer forma, e sem qualquer pretensiosismo ou soberba, o miúdo até toca bem na bola, é inteligente a jogar... "toca e foge", e tem a "sorte" de ser canhoto, o que o diferencia de todos os outros da turma. O que lhe falta, tal como no resto da sua existência, é garra e força na disputa de bolas. Esguio e magro como é, tranquilo e sem precipitações, tem pinta de defesa central. A ver vamos no que isto irá dar. Entretanto, continuarei a ir aos treinos.
(escrito na bancada cinzenta e fria do estádio do Valadares, dia 8 de Novembro de 2022)
06 novembro 2022
abastardamento
"Dói-me o que está a acontecer em Portugal à língua portuguesa: um abastardamento acelerado. Sou alérgico ao 'grande beijinho', um contrassenso, porque um beijinho é um beijo pequeno, e portanto não pode ser grande. As pessoas já não pensam, palram como as pegas e os papagaios. Depois, desapareceram as profissões. Já não há médicos, enfermeiros, bombeiros, aviões ou helicópteros, etc. Há profissionais, operacionais, especialistas e meios aéreos! A individualidade desaparece e qualquer dia passamos a ser números. O pior é que ninguém repara na absurdidade desta situação. E embora seja grande fã da língua inglesa, abomino o abuso desta em Portugal. O episódio do ALLgarve foi o nadir de todas as tolices."
(Jorge Calado, in revista LER - Outono 2022, pág. 35-36)
a terra irmã de Portugal
Levei-o comigo de férias neste último Verão, mas não consegui sequer olhar para ele. Ficou para agora a sua leitura. A noite de ontem foi passada a conhecer a história deste território a Norte, terra de encantos e de misticismos vários.
"O espaço da antiga Galécia romana, com capital em Braga, constituiu uma unidade até ao século XII e esteve na origem do reino e da língua de Portugal. Desde então, mantiveram-se a continuidade das paisagens, a proximidade linguística, a intermitência dos diálogos culturais e a importância das relações transfronteiriças." (in contra-capa)
08 outubro 2022
03 outubro 2022
actas XXIV Jornadas Culturais de Balsamão
Estão já disponíveis as actas das XXIV Jornadas Culturais de Balsamão, se que realizaram em Setembro e outubro de 2021. A minha contribuição diz respeito a Carção e ao diálogo entre as duas comunidades, a dos Marranos e a dos Cristãos-velhos, aí existentes e ao papel da festa (novena) da Senhora das Graças, padroeira da aldeia, enquanto mediadora social e cultural.
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