20 fevereiro 2019

uma boa notícia


Bernie Sanders, senador independente de Vermont, anunciou, ontem, que será candidato nas presidenciais de 2020, contra o actual presidente. Sobre este afirmou que é "um embaraço para o país" e que Trump é "um mentiroso patológico. Também é racista, existe, homofónico, xenófobo, alguém que está a ganhar pontos políticos ao atacar as minorias, muitas vezes imigrantes ilegais".
Está dito e bem dito. O anúncio da sua candidatura, apesar da sua idade (77 anos) é, e será sempre, uma boa notícia para a democracia americana e para as democracias de todo o mundo. Já nas eleições anteriores, nas quais perdeu a corrida no partido democrata para Hillary Clinton, eu escrevi aqui que teria sido melhor escolha para enfrentar e derrotar Donald Trump. Claro que agora outros candidatos a candidatos aparecerão e não faltarão escolhas absurdas, mas este senhor merece-me todo o respeito e credibilidade.

voyeurismo involuntário

Sala de espera de um consultório médico, nomeadamente, de uma dentista. Foram as dores insuportáveis que aí me levaram. Apesar da hora marcada para a minha vez, espero sozinho nessa sala durante largos minutos. No entretanto, chegam duas senhoras (aparentando cerca de 50 anos) que, ignorando a minha presença, mantêm a conversa que já traziam da rua. Mesmo sem querer, pelo tom, pelo volume e pela descontração do diálogo, sou obrigado a ouvir a conversa e nem mesmo as dores que trago e que me fazem deambular pelo espaço e me impedem de concentrar no que for, me conseguem abstrair da amena e peculiar conversa.
Falam entusiasmadas e com expressividade dos seus períodos menstruais. É tal o detalhe técnico e fisiológico: desde tipologias de fluídos e suas características, aos absorventes e suas qualidades, às alergias internas e externas, aos efeitos secundários desses dias complicados - os humores, as dores e os amores - à fisionomia dos peitos e até aos apetites sexuais de cada uma dessas senhoras. Lindo. E nem o meu olhar furtivo sobre elas as demove.
Estou cada mais certo de que estarei sempre a aprender. Ainda bem.

mediascape: retrógados?

"Escolas francesas querem acabar com termos 'Mãe' e 'Pai'
A ideia é tratar as famílias tradicionais e os casais do mesmo sexo de forma igual."


Não sei se é verdade, ou uma fake new. Para bem de todos nós, espero que seja mais uma mentira deste novo e estranho mundo. A ser verdade, é a loucura total de um mundo perdido na hiper-sensibilidade comportamental e, acima de tudo, linguística. A República francesa, com o propósito de melhorar o sistema educacional nacional e prevenir a discriminação, pretende adoptar novas designações para substituir as palavras "Pai" e "Mãe", sendo as palavras escolhidas "progenitor 1" e "progenitor 2"... esta nova nomenclatura servirá, segundo a ilustre deputada Valérie Petit (LaREM), para que "ninguém se sentir excluído pelos pensamentos retrógrados da sociedade". Por amor da santa, então ser Pai ou Mãe, ou melhor, ser denominado por "Pai" ou Mãe" é sintoma de anacronismo social?!
Òh senhoras e senhores, atinem!
Vamos alegremente coleccionando degenerescências que, sei, um dia serão estudadas e, sem hesitação, consideradas absurdas e ridículas.

matemática, sempre a matemática

14 fevereiro 2019

gosto


Alexandria Ocasio-Cortez, jovem, bonita e com carisma, esta nova-iorquina de trinta anos é a mais recente estrela do partido democrata no congresso norte-americano. Não sei qual o seu futuro político, mas a julgar pelas intervenções que tem realizado, é, sem dúvida, uma lufada de ar fresco na, habitualmente, cinzenta e amorfa vida política dos EUA. A sua inteligência, perspicácia e coragem tem surpreendido e, com certeza, incomodado muita gente, mesmo no establishment democrata. Gosto, gosto muito.

13 fevereiro 2019

serviço nacional de saúde sitiado

Face àquilo que tem acontecido nas últimas semanas, só podemos concluir que está em marcha um ataque concertado ao Serviço Nacional de Saúde (SNS). Primeiro foi a greve, para uns cirúrgica, para outros selvagem, dos enfermeiros, que só terminou com a, mais que discutível, requisição civil por parte do governo e que, por mais estranho que pareça, mereceu uma estrondosa indiferença dos partidos à esquerda do PS. Não sei, mas com esta atitude, assistimos ao princípio do fim da lei da greve, tal qual a conhecemos. Vão, a breve trecho, alterá-la. Eu quase aposto...
Segundo, o tremendo ruído em torno da ADSE e das ameaças dos prestadores privados de saúde em romperem os acordos com esse subsistema de saúde. Vamos lá ver, a ADSE, suportada por um parecer da Procuradoria Geral da República que lhe deu razão, exigiu aos prestadores privados de saúde o pagamento de cerca de 38 milhões de euros que estes cobraram a mais indevidamente. Aliás, é de conhecimento generalizado que esses privados usam e abusam, há décadas, do Estado através deste seu subsistema. Agora, como reacção a essa exigência e para não pagarem o que devem, alguns privados ameaçam acabar com os protocolos estabelecidos com a ADSE.
Perante tal cenário, não deixa de ser curiosa e impressionante a rapidez com que alguns querem responsabilizar o governo pela destruição da ADSE e, pior, acreditam que o SNS deveria ser privatizado e entregue à especulação dos "mercados". A maioria das pessoas não sabe, outros nem querem saber e, outros ainda, fingem não saber, que a ADSE é exclusivamente paga pelos seus utentes e não é suportada pelo orçamento de Estado, ou seja, por todos os portugueses. Portanto, e ao contrário daquilo que os seus detractores afirmam, a ADSE não é um privilégio de alguns. Se qualquer cidadão português pode adquirir sistema complementar de saúde, ou subscrever um seguro de saúde, porque é que os funcionários públicos não hão-de poder ter, pagando do seu bolso, o seu sistema complementar de saúde?
Aquilo que estes prestadores privados agora estão a fazer não tem outra qualificação que não seja chantagem negocial, ameaçando privar os utentes da ADSE e com isso empurrá-los para o SNS, sabendo que este não tem capacidade para absorver e dar resposta a tal solicitação. Com esta atitude esses privados demonstram, igualmente, que o lucro, o seu lucro, é o fim que justificará sempre qualquer procedimento ou acção e que "vender" saúde não é diferente de "vender" qualquer outro bem ou serviço.
É, pois, em momentos como este que rejubilo, apesar de todas as suas carências e defeitos, pela existência de um Serviço Nacional de Saúde em Portugal, de acesso universal e, preferencialmente, gratuito. O que aconteceria se não existisse um SNS, ou se este fosse privatizado e ficasse nas mãos destes especuladores privados?... Bem podemos imaginar.
Não quero saber de ideologias ou de partidos, aqui como noutras dimensões sociais, quero é uma sociedade mais justa e civilizada, na qual a saúde não pode ser um negócio e na qual os utentes, pacientes ou doentes não sejam convertidos em clientes.

solilóquio

As salas de espera dos dentistas (esses sacerdotes da sádica arte de tortura humana) são verdadeiros cadafalsos e onde as dores que nos mortificam, fazem-nos desejar que a morte chegue breve.

insegurança existência

Apareceu na minha timeline do Twitter, o seguinte texto de alguém que não conheço, nem sigo nessa rede:

Vocês também olham para outras pessoas da vossa idade e acham que parecem todos bué mais adultos e maturos que vocês?

Num impulso, respondi-lhe à dúvida existência...

Isso acontece-me desde puto. Os outros é que sabem, é que são bons e superiores. Insegurança talvez?! Não sei, mas desconfio que assim será até ao fim.

Mas fiquei a reflectir sobre o assunto e a verdade é que recordo ser miúdo e admirar a capacidade de afirmação, de personalidade, que alguns e algumas, entre pares, evidenciavam. De igual forma, em relação aos adultos, condição que entendia como longínqua e quase incansável para mim. Depois, já mais crescido, enquanto estudante e até enquanto jovem adulto, trabalhador e emancipado (ou quase), senti sempre alguma insegurança naquilo que eram as minhas convicções, as minhas opiniões e até as minhas capacidades. O sentimento permanente de alguma inferioridade acompanhou-me até hoje. Claro que, no entretanto, fui aprendendo a lidar e a gerir esses sentimentos. A própria vida se encarrega de nos contrariar e de nos presentear com momentos que vão reforçando a auto-estima e a confiança.
Contudo, ainda hoje, em plena segunda idade, reconheço em mim, e em determinados momentos, essa pueril insegurança. Por outro lado, e chegados aqui, também considero que esse facto é indissociável de uma dada humildade que, em mim e para mim, será sempre uma qualidade existêncial.

a sério?

A aproximação da falência traz aos grupos financeiros uma consciência intensa da nação a que pertencem.
(André Malraux, 1933)

01 fevereiro 2019

cultura

É muito difícil, senão impossível, explicar a um néscio a importância da cultura, pois ele não tem cultura para perceber a falta dela.
(Afonso Cruz, in Jornal de Letras nº 1261)

31 janeiro 2019

baron noir

Inspirada na vida política francesa dos últimos anos, esta série que, actualmente, a RTP2 transmite, tem-me obrigado a ligar a TV por volta das 22 horas (um pouco mais cedo do que o habitual). Dizem que as suas personagens representam cada um dos políticos reais da República Francesa. Como não conheço com esse detalhe a actualidade política gaulesa, apenas consigo identificar os principais intervenientes. Excelente enredo, actores magníficos. Enfim, é uma produção francesa. Muito bom.

30 janeiro 2019

mediascape:incompreensão

Circula por aí, nesse fascinante universo das redes sociais, uma indignação por João Miguel Tavares ter sido convidado para presidir às próximas comemorações do dia 10 de Junho. Não entendo porquê tanto alarido e indignação por causa disto. Independentemente de concordar ou não com as posições, com as opiniões ou com a mundivisão do referido jornalista, parece-me descabida a reacção de alguns sectores da sociedade. Seria interessante perceber as verdadeiras razões deste incómodo. Eu até desconfio saber a verdade, mas prefiro guardá-la para mim.

mediascape:extasiado

Só hoje tive oportunidade de ler e reflectir sobre as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa a propósito da sua possível recandidatura à Presidência da República. Recordo bem quando, ainda em campanha para o seu primeiro mandato, afirmava para quem o ouvia que era apologista de mandatos únicos e que não tencionava recandidatar-se a um segundo mandato. Pois bem, o Presidente da República Portuguesa mudou de opinião e afirmou recentemente, extasiado pelo anúncio da realização das jornadas mundiais da juventude em Lisboa, que existiam dois pressupostos para se recandidatar: 1º ter saúde (a sério?!...) e, 2º, (pasmem-se) saber que não há ninguém em melhores condições para receber o Papa; Bem, nem sei como adjectivar este segundo termo da equação, mas trazer para o plano político, numa república laica, um evento da cariz religioso, ainda por cima promovendo-o a critério de ponderação e decisão política é, no mínimo, ofensivo aos valores da República e demonstra, de uma vez por todas, o quão populista é o nosso Presidente da República.

23 janeiro 2019

imparidades, dizem!

Foi divulgada recentemente, e pelo que tudo indica ao luso jeito de "fuga de informação", a lista com as empresas e indivíduos com maiores dívidas à Caixa Geral de Depósitos, resultantes de empréstimos bancários concedidos e que significaram avultadas perdas por incumprimento no pagamento desses empréstimos. Um vergonha nacional! Um crime que lesa a pátria e cada um de nós, portugueses. Tendo em conta alguns dos nomes que aqui encontramos, agora se percebe porque é que o Banco de Portugal não queria divulgar a lista, nem sequer entregá-la à Assembleia da República. Tem que haver imediatas consequências políticas e criminais do conhecimento destes factos. Já foi alguém detido? Linchado em praça pública? Claro que não. Não podemos continuar a aceitar que, alguns espertos, nos inflijam esta sodomização colectiva. Eu, pelo menos, não aprecio.
Lembram-se agora do mote: "andamos a viver acima das nossas possibilidades, agora temos que pagar"? Pois bem, onde estão esses senhores? É aqui, nesta lista, que está a dívida privada e pública, é aqui que estiveram a viver acima das suas (e nossas) possibilidades, é aqui que está parte da culpa por ter existido um resgate internacional ao nosso país.

22 janeiro 2019

a escola

Sem ser propriamente inédito, aqui está um texto que deveria ser de leitura obrigatória para todos os alunos do ensino básico e secundário em Portugal. Mas mais do que consciencializar as gerações mais novas, as que estão agora na escola, para a importância da Escola e sua ontogenia, importava que os mais velhos, aqueles que decidem as políticas do ensino em Portugal para o presente e para o futuro, fossem também obrigados a lê-lo.
Porque não está ainda disponível na página do Jornal de Letras, digitalizei-o para aqui o partilhar.

(Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1260, Janeiro 2019)

16 janeiro 2019

solilóquio

A espaços regresso a esta mesa de trabalho que, apesar de vermelha, está, ainda, encostada a uma enorme janela. A imensa luz do dia que a alcança ilumina-me e permite-me respirar para além das herméticas paredes dos lugares que habito.

conversar

A leitura é exactamente uma conversa com homens muito mais sensatos e mais interessantes do que os que podemos ter ocasião de conhecer à nossa volta.
Marcel Proust in "O Prazer da Leitura", (1997).

10 janeiro 2019

curiosidade


Curioso, a Antropologia não é tida nem achada por nenhuma das suas "parentes", nem ela se cita a si mesma...

09 janeiro 2019

solilóquio

incomoda sentir-me inconveniente;
desconcerta a arrogância da ignorância alheia;
desarma, por completo, a má educação;
eu, hoje, em particular.

nem de propósito

Rui Nunes, em entrevista ao Jornal de Letras, diz-se farto da literatura... (negritos meus)

Não gosto do que se escreve hoje, particularmente no domínio da ficção. Acho que se separou completamente da realidade. (...) a realidade não está lá. (...) falta-lhes abertura ao mundo. (...) O eco de outras leituras está demasiado presente e o eco do mundo cada vez mais distante. É uma literatura que trabalha sobre a literatura, livros que se escrevem sobre livros.
(...)
Vemos que essas ideias (nazismo) têm uma presença cada vez mais forte. E parece que estamos esquecidos. (...) E parece que não se vê que essa luz maligna está a inundar e estranhamente a iluminar o mundo actual. E a seduzir muita gente, tal como nos anos 20 e 30.
(...)
É que quando se fala desse horror (nazismo) tão próximo, assim como da escalada a que se assiste hoje, fala-se de uma maneira normalizada E a normalização do discurso impede o seu funcionamento. As pessoas lêem e esquecem. É mais uma história. É preciso uma escrita que não seja normalizada para que as pessoas se interroguem acerca do que diz. Uma escrita normalizada é rápida e leva a um esquecimento muito rápido. Se perguntarmos a muita gente o que leu ontem no jornal, veremos que já não se lembra. O presente tem um poder muito forte e faz esquecer o passado de que é produto. Penso que é preciso reinventar, embora não goste muito deste termo, a escrita.
(...)
É preciso criar na própria escrita um atrito, uma violência que seja de certo modo homóloga à que temos presente na realidade. Uma linguagem normalizada não permite que se pare, enquanto o atrito obriga a parar.

08 janeiro 2019

a democracia, o politicamente correcto e a coragem

Vi, em directo, o Eixo do Mal do último Sábado e assisti à intervenção corajosa de Daniel Oliveira. Quis logo partilhá-la aqui, mas só agora consegui encontrar esse segmento. Um exemplo daquilo que todos nós, cidadãos de um Estado de Direito democrático deveríamos fazer, valorizar e defender. Aquilo que estamos a assistir em Portugal, embalado pelo que tem vindo a acontecer em vários países da Europa e mundo, e pelos órgãos de comunicação social e seus actores - jornalistas, comentadores e colunistas, é a uma preocupante normalização dos discursos e práticas de extrema-direita que, a vingarem, representarão o fim da própria democracia.

Nota: O ridículo daquilo que Luís Goucha fez ao levar Mário Machado ao seu programa televisivo, sob o pretexto da liberdade de expressão, é não se ter apercebido que esse senhor, caso as suas ideias saiam vencedoras, não só não hesitará em lhe retirar toda a sua liberdade de expressão, como não descansará enquanto não o exterminar.


07 janeiro 2019

terra da maçã

O programa Share retirou-me do aconchego da lareira no dia de ontem, Domingo, ainda por cima dia de festa familiar, para me levar até terras de Armamar, na margem esquerda do Douro. Apesar do dia soalheiro, estava um frio de rachar e foi num estado de quase hipotermia que cheguei a casa por volta das vinte e uma horas. A razão que me levou até à terra das maçãs foi a conversa com senhora que já participa neste estudo há vários anos e que agora vive nessa pequena aldeia de Armamar. Quase no final da nossa conversa, a senhora levantou-se e saiu da cozinha, espaço onde conversávamos, e quando regressou trazia um enorme saco cheio de maças, couves e dióspiros para me oferecer. Ainda tentei resistir, pois não era suposto eu receber nada em troca, a não ser a informação que procurava, mas a simpatia e insistência da minha interlocutora foi mais forte. Só quando cheguei ao Porto e restabeleci a temperatura corporal, fui abrir o saco. Que espectáculo de maçãs - bonitas, grandes e saborosas. Bem se podem auto-denominar e projectar como a terra da maçã...

05 janeiro 2019

pensamento

Curioso como o pensamento e os grandes pensadores estão desvalorizados no século XXI. Para quê pensar se todos estão precisamente, agora mesmo, ocupados a ter uma opinião?
Gonçalo M. Tavares, in Jornal de Letras.

02 janeiro 2019

ler

Apenas hoje a encontrei nas bancas. É o número de Outono, mas só agora saiu. Enfim.


abstinência natalícia

Na última visita ao médico, quando faltavam duas ou três semanas para o Natal, fui alertado, por ele, para ter algum cuidado com a alimentação nessa quadra tão propícia a consumos exagerados. Logo na altura sosseguei-o, dizendo-lhe que, normalmente, nesta altura do ano, são dias de fome para mim, pois não sou, de todo, apreciador das iguarias natalícias e afins.
Agora que esse tempo de voluptuosidade e faustosidade gastronómica terminou, posso reafirmar essa minha (pré)disposição para a abstinência alimentar. Para além do vinho que ingeri, de um ou outro whisky, não cometi qualquer pecado de gula. E doçarias, apesar da variada oferta, nem lhes toquei.
A balança confirma e é testemunha do que digo.

com parcimónia

Ao contrário do que esperava, foi com muita facilidade que, hoje, bem cedo, cheguei ao centro da cidade. Talvez por inexperiência ou pela longa ausência, sempre pensei que o segundo dia do ano fosse já pleno de actividade e confusão na Invicta e seus arredores. Não. Sente-se a cidade a espreguiçar da ressaca dos dias de nomeada e folia passados. Pelos vistos, reiniciar a labuta custa e é com parcimónia que regressamos ao ritmo habitual, às andanças dos dias ordinários. Com certeza, amanhã, com o regresso em força dos estudantes e professores às escolas, a realidade será outra e o reboliço matinal estará de volta.

01 janeiro 2019

primeiro de Janeiro

Novo ano, vida nova, costumam dizer. Não sei, tenho dúvidas quanto a essa "novidade", mas aquilo que acontece logo neste primeiro dia do novo ano, não pode deixar de me preocupar e de me alertar os sentidos. A vida nova do Brasil começa hoje com a tomada de posse de Bolsonaro. Um mau presságio para o resto do ano e dos tempos que hão-de vir.
Também por isto, a palavra escolhida como lema para 2019 é a mais adequada: resistência. Há que resistir, temos e vamos resistir. Bom ano.

31 dezembro 2018

últimas horas, dias, de 2018

Aproveitando o frio da capital transmontana, mantenho-me refugiado e embrulhado em mantas e cobertores, ou melhor, agora são ederdons quem nos mantém a temperatura e aquece a estrutura. Para além do estado semi-dormente que esse aconchego propicia, vou aproveitando os intervalos lúcidos para ler. São vários os livros que se acumularam nos últimos meses e estão em fila de espera para meu prazer e sabedoria.
Hoje, último dia de 2018, por volta das seis da manhã iniciei a leitura desta obra, obrigatória para qualquer cidadão deste mundo, e que por estúpida omissão e gritante ignorância, ainda não li. Aliás, não conheço de todo a obra de André Malraux. Aí está uma das provas da minha enorme ignorância. Ainda assim, vou tentando recuperar e melhorar essa minha condição.
Bom ano de 2019 para toda a gente.

28 dezembro 2018

um escritor feliz

Porque escreve afinal?
Porque amo estar o dia inteiro fechado em casa a escrever; porque o cheiro do papel e da tinta é um vício; e porque acredito na imortalidade das bibliotecas.
É, então, um escritor realizado?
Sim, sou um escritor feliz.
E o que é a felicidade?
Uma vida com sentido. Tudo o que aconteceu comigo foi porque escrevi. A minha única religião é a Literatura.
(Orhan Pamuk, na FIL de Guadalajara, 2018)

a igualdade

Boaventura Sousa Santos (esse mal amado pela lusa pátria das ciências e afins...), no Jornal de Letras (nº 1258), escreve sobre o desafio que lhe propuseram para a sua participação no 1º Fórum Mundial do Pensamento Crítico, que se realizou em Buenos Aires, no passado mês de Novembro. O repto era: explicar a igualdade aos 1% mais ricos do mundo.
Daquilo que escreveu, saliento e transcrevo as seguintes ideias:

No século XXI, e depois de todas as vitórias dos movimentos feministas e antirracistas, seria mais correcto explicar não a igualdade mas a diferença. A igualdade não existe sem ausência de discriminação, ou seja, sem o reconhecimento de diferenças, sem hierarquias entre elas.
(...)
Temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza e o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.
(...)
A filosofia eurocêntrica - e as epistemologias do Norte que dela nasceram e deram origem à ciência moderna - assenta na contradição de defender em abstrato a igualdade universal e ao mesmo tempo justificar que parte da humanidade não é plenamente humana e não é, por isso, abrangida pelo conceito de igualdade universal, seja ela constituída por escravos, mulheres, povos indígenas, povos afrodescendentes, trabalhadores sem direitos, castas inferiores.
(...)
Uma metáfora menos chocante será a de pensar que a ajuda ao desenvolvimento ajuda de facto os países a desenvolver-se. Ao contrário do que promete, ela contribui não para desenvolver os países mas para os manter subdesenvolvidos e dependentes dos mais desenvolvidos.
(...)
As epistemologias do Sul que tenho vindo a defender partem dos conhecimentos nascidos nas lutas daqueles e daquelas que viveram e vivem a desigualdade e a discriminação, e resistem contra elas. Estes conhecimentos permitem tratar a igualdade como denúncia das desigualdades que oculta ou considera irrelevantes para a contradizerem. Permitem também tratá-la como instrumento de luta contra a desigualdade e a discriminação. Apenas para dar um exemplo: as epistemologias do Sul permitem reconceptualizar o capital financeiro global, o verdadeiro motor da extrema desigualdade entre pobres e ricos e entre países ricos e países pobres, como uma nova forma de crime organizado.
(...)
À luz das epistemologias do Sul, os crimes cometidos pelo capital financeiro global serão uns dos principais crimes de lesa-humanidade do futuro. Junto com eles e articulados com eles estarão os crimes ambientais.

27 dezembro 2018

eu vou lá estar

26 dezembro 2018

o tédio

Ausente da blogosfera e da actualidade global, local e até pessoal, no último par de meses, aproveito agora o ritmo mais vagaroso das horas para espreitar e, retroactivamente, ler aquilo que fui deixando escapar. Num desses lugares, bem frequentado e com excelente memória, encontrei este excerto que aqui transcrevo e descontextualizo do seu ambiente natural. Parece-me bem, bem demais.

Temos hoje horror ao tédio. A nossa atenção e sentidos são permanentemente convocados, estimulados e titilados por um vendaval ininterrupto de notícias divertidas, vídeos engraçadinhos e outros excitantes palermas. Tudo é programado ao milímetro e ao segundo para impedir o ennui e para eliminar os pensamentos melancólicos do nosso espírito, cada vez mais infantilizado. A principal função do polegar oponível do Sapiens consiste agora em deslizar imagens patetas no ecrã de um smartphone. Nas praias e nos cafés, nos jardins ou nas ruas, tudo agarrado ao telemóvel. A toda a hora, de dia e ou de noite, levamos connosco uma Coney Island de bolso, muito portátil. Com isso evacua-se o tédio, decerto, mas perde-se também o seu enorme valor cultural e civilizacional. Sem falar no "ócio criativo", outrora muito apreciado nas melhores universidades inglesas, eram as tardes lânguidas da puberdade que levavam os adolescentes a ler. A ler horas a fio, sob o incentivo do tédio e da circunstância singela, mas decisiva, de não haver nada para fazer, absolutamente nada. Devoravam-se obras quilométricas, intermináveis mas fundamentais, que hoje amarelecem nas prateleiras, esmagadas pelo pó da ignorância e pela sujidade da desmemória. Para um teenager, entre a gratificação imediata de um like e a lenta e densa trama de Guerra e Paz a escolha é óbvia, irrecusável. Sem tédio, perdendo-se a capacidade de lidar com o tédio, é impossível aprender uma língua morta, estudar com afinco o latim ou o grego antigo, repetir à náusea os exercícios de violino ou harpa, gastar os dias a contemplar as nuvens do céu ou as avezinhas dos bosques. Não é por acaso que a Inglaterra, cinzenta e húmida, sempre foi grande terra de birdwatchers.
Matámos o tédio, muito bem, paz à sua alma. Mas, com essa morte, matámos também o que restava da nossa cultura humanista, baseada no livro e na leitura, na música dos planetas, no espanto da Natureza. Duvidam? Uma em cada cinco das livrarias registadas no Ministério da Cultura já não existe. Das restantes, apenas um terço reúne os requisitos para ser considerada livraria; e 40% dos livros ali expostos acabarão por ser devolvidos às editoras, por falta de compradores. Depois do tédio, as trevas. 

António Araújo, in "Entre as brumas da memória", dia 26/12/2018.

12 novembro 2018

mediascape: porque não?

A história noticiada há dias é simples de contar. Um holandês de 69 anos sente-se discriminado pela idade que tem, vai daí inicia batalha jurídica para que o tribunal, logo o Estado, lhe retire vinte anos à sua idade. Diz ele que se podemos mudar de nome e até de género, porque não mudar a idade. Aqui está mais um exemplo da estupidez humana, ou então, aqui está um exemplo de como um indivíduo ridiculariza a sociedade, brincando com as suas instituições. Confesso que, tendo que escolher, preferiria a segunda opção e que isto não fosse mais do que o reflexo do tédio acumulado deste, pelos vistos, ilustre cidadão holandês.
Vivemos, de facto, tempos magníficos que, com toda a minha certeza, irão um dia ser estudados e, depois, ajuizados como tempos de completa alienação social, de estupidificação crónica e sistémica.
Este caso relembra-me aqueles, normalmente figuras publicadas, que, tendo chegado já a uma determinada idade, teimam em afirmar-se eternamente jovens, ("de espírito" ou "de mentalidade" dizem eles), apesar da carcaça já meia apodrecida. Está bem, está. Não entendo a resistência ao envelhecimento. Percebo que custe ter consciência de que o fim se aproxima e de que a imagem devolvida pelo espelho não reflicta a ideia que temos de nós mesmos, mas é assim para todos e de nada serve a negação, a não ser para diferentes e variados graus de ridicularização.

09 novembro 2018

concordo, mas...


Eu também considero que os maus tratos a animais não é uma questão de gosto, mas sim um indicador civilizacional que nos localiza enquanto sociedade. Como tal, também me custa saber que há em Portugal uma "tradição" tauromática que ainda congrega muitos(as) portugueses(as), que consideram aceitável - para alguns, defensável até - o ritual de morte lenta dos toiros em arenas para gáudio das "multidões".
Percebo também as reacções, mais ou menos, efusivas e espalhafatosas do lobby pró-toiradas, que conscientes do seu extermínio, vão vociferando contra tudo e contra todos, não se apercebendo que são uma espécie em vias de extinção e que o tempo não lhes é favorável. Veja-se o triste papel a que Manuel Alegre se sujeitou ao escrever aquela carta aberta a António Costa, implorando ao primeiro-ministro que não se deixe influenciar por minorias da sociedade que são contra a caça e as touradas. Mais triste ainda é ele, tão formado e informado, não se aperceber que "minoria" é já quem "caça" e quem "toureia".
Com isto também quero dizer que, apesar da opinião contrária que tenho sobre as duas matérias (caça e tourada), não me parece producente extinguir por decreto tais actividades. Legislar, educar novas gerações para a sua restrição, parece-me muito mais aconselhável e, tal como já está dito, o tempo encarregar-se-á de extinguir tais práticas, pelo menos, nos formatos e espaços em que ainda hoje acontecem.
Mas sim, concordo com a Ministra da Cultura.

01 novembro 2018

a decadência

A História também tem qualquer coisa de imponderável. As grandes civilizações perfeitas caíram sozinhas. O Ocidente, provavelmente, também cairá. Até pelo excesso. Comparo muito o nosso tempo a um momento de decadência. Atingimos o cume do que era possível atingir, do bem-estar social, das liberdades, dos direitos, da defesa da saúde. Chegámos provavelmente o mais perto da perfeição que era possível. Mas tornámo-nos numa sociedade de abundância, do desperdício, da falta de cuidado. A partir daí, só se pode descer.
(...)
Estamos a descer, como os romanos desceram. A vomitar para comer mais. As pessoas comem, comem e depois vão para os ginásios correr em máquinas, quando podiam andar no chão. Falta capacidade de inovação, o que é visível até nas pulsões retro da moda, em coisas que me parecem obscenas, como vestir calças esfarrapadas. A abundância estraga o indivíduo, hipervaloriza-o e desequilibra-o. É um desarranjo da forma de viver, o que é muito perigoso. Vivemos num tempo de muitos perigos e ameaças.
(Hélia Correia, in Jornal de Letras)

25 outubro 2018

mediascape:assumpção

"Nestas eleições, eu não votaria no Brasil."
Assunção Cristas, líder do CDS-PP, na Rádio Renascença.

Para memória futura. E, acima de tudo, como testemunho de como se assumem posições políticas claras e inequívocas no que diz respeito ao que se deseja para a sociedade...

19 outubro 2018

granta

Chegou ontem, na volta do carteiro, o número dois da Granta em língua portuguesa, a última edição coordenada por Carlos Vaz Marques e cujo tema é: Deus/es. Vamos ler.

mediascape:aberração

É preciso falar de educação de forma concreta. A educação é quando a avozinha ou o avozinho vai lá a casa e a criança é obrigada a dar o beijinho à avozinha ou ao avozinho. Isto é educação, estamos a educar para a violência sobre o corpo do outro e da outra desde crianças. Obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa como obrigação coerciva é uma pequena pedagogia que depois cresce.

Esta foi a frase proferida por Daniel Cardoso no programa Prós e Contras, do passado dia 15 de Outubro e que veio incendiar os media e, principalmente, as redes sociais. Não vi em directo esse programa que se dedicava, em especial, ao movimento me too, e só muito depois me apercebi do que acontecera e, em particular a esta peculiar afirmação.
Eu aceito todas as teorias científicas, toda a evolução do discurso científico e a possibilidade da diversidade exploratória e/ou hipotética das noções, dos constructos e dos conceitos que almejam a teoria, o princípio ou regra geral em ciência, ainda que possa não concordar com ela. Para além disso, o que mais existe no edifício da ciência são ideias, princípios, conceitos e teorias, proscritas, assim como idiotas desacreditados.
Sobre esta afirmação apenas quero dizer o seguinte: não quero saber se existe ou não conhecimento científico(?) construído sobre o assunto, importa-me manifestar o meu completo desprezo por este tipo de discurso, proveniente por uma minoria que, sob todas as formas e através de todos os meios à sua disposição, procuram fazer vingar a sua agenda, ou seja, normalizar aquilo que é uma anormalidade e, acima de tudo, ostracizar o comportamento afectivo dos indivíduos, sejam eles adultos ou crianças, naquilo que é a relação afectuosa/amorosa familiar e entre gerações, numa missão evangelizadora daquilo que consideram ser o ideal de comportamento entre as pessoas. Numa palavra: aberração.

post-scriptum - ao escrever estas linhas lembrei-me da agenda do tão famoso "politicamente correcto" e de que no seu fundamentalismo/radicalismo/univocidade, é bem capaz de tolerar, ou mesmo defender, este tipo de afirmações. Que estupidez! Uma vez mais, reafirmo: aberração.

novo projecto


Estou desde hoje, oficialmente, envolvido no projecto SHARE - Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe, naquilo que é a sétima "vaga" realizada em Portugal. Este é um projeto multidisciplinar e multi-nacional que disponibiliza dados sobre a saúde, o estatuto sócio-económico e as redes sociais e familiares de mais de 120.000 indivíduos, com 50 anos ou mais (cerca de 297 mil entrevistas) de 27 países europeus (+ Israel).
Para além do interesse profissional que me motiva à participação, há também o interesse académico e a possibilidade de aceder, gratuitamente, a esta gigantesca base de dados relativa às gerações mais velhas da população de muitos dos países europeus (+ Israel).
Para conhecerem o projecto e/ou para se inscreverem e terem acesso a este acervo, consultar aqui.

08 outubro 2018

sim

Sou também louco pela montanha. (...) Caminhar por entre as colinas, simplesmente caminhar e olhar. (...) Não sou uma criatura do mar, um amante da democracia das praias. A montanha opera uma selecção rude. Quanto mais se sobe, menos gente se encontra. A solidão é, sem dúvida, a grande prova. Valerá a pena viver-se, viver consigo próprio?
(George Steiner, 2006:143)
Viver de ti. Só.

decência

Uma boa, ou melhor, uma alegre notícia a atribuição do prémio Nobel da Paz a Denis Mukwege, médico ginecologista congolês, e a Nadia Murad, activista e ex-escrava sexual dos extremistas do Estado Islâmico. Duas personalidades discretas e sem direito aos grandes palcos mediáticos, que na sua vida quotidiana contribuíram, e contribuem, efectivamente para denunciar os crimes de violência sexual que vitimam milhares de mulheres em todo o mundo. Esta notícia é tanto mais importante e relevante, quando nos media e durante os últimos meses, se especulou sobre a possibilidade de este prémio ser entregue a Donald Trump e a Kim Jong-un, o que seria não só uma estupidez, como uma autêntica palhaçada.
Afinal ainda há esperança.

04 outubro 2018

subscrevo

Tudo o que importa agora é política e não cultura. Não aceito isso. Acho que a cultura é superior à política. A política é interessante e importante e vital, e sou uma analista política, mas ponho a cultura num plano mais elevado. 
Camille Paglia, in revista Ler nº 149, página 78.

instantes

Perceber que teremos alguns minutos de paz e sossego para a leitura, mesmo que apenas pequenos instantes, é sempre uma alegria. Depois, depois é só reunir esses recantos do nosso tempo e verificar aquilo, o tanto, que conseguimos.

02 outubro 2018

desalento

Conheci Robert Mapplethorpe através do livro "Just Kids" (2010) de Patti Smith, no qual a autora lhe dedica a narrativa dos seus anos de juventude, do seu relacionamento e da sua separação. A descoberta dessa personagem trouxe a normal curiosidade sobre ela e bastou uma pesquisa no Google para satisfazer esse interesse. Agora que uma exposição de obras suas está patente em Portugal e, ainda por cima, no Porto, preparava-me para a ir visitar, mas com toda a polémica que se instalou à sua volta, com o completo esvaziamento de qualquer putativo interesse estético ou artístico dessa colecção e a sua transformação num conjunto de imagens pudicamente ofensivas à moral e aos bons costumes da nossa parvónia, perdi a vontade. Já não vou. Lamento perder esta oportunidade próxima, mas desconfio que aquilo que está agora a acontecer em Serralves é apenas um exercício voyeurista.

(na imagem, roubada do google, Patti Smith e Robert Mapplethorpe)

01 outubro 2018

esquecimento

Foi no momento em que arquivava a revista LER de Verão (nº 150) que verifiquei, com espanto e incrédulo, que não tinha adquirido o número anterior (nº 149), relativo à Primavera deste ano. Como foi possível tal esquecimento, foi o pensamento que me acompanhou durante os dias seguintes. Depois desse sobressalto inicial, logo tratei de a adquirir. Agora, que já cá está, retroactivamente, vou LER.

19 setembro 2018

mediascape:aliança e impostos

Leio no Diário de Notícias online que Santana Lopes, hoje e no momento em que formalizava a fundação do seu novo partido, no Tribunal Constitucional, afirmou que a Aliança tem como missão a redução de impostos... se quiserem pôr um rótulo na Aliança é: menos impostos.
A sério Dr. Santana Lopes?! Então e onde irá buscar o valor correspondente a essa redução de impostos? Esta era a questão que lhe deveria ter sido, de imediato, colocada pelos jornalistas presentes, mas não, para punch-line é mais do que suficiente e servirá para as parangonas das próximas horas e dias.
Ainda assim, nós sabemos a resposta a essa hipotética pergunta. Para desobrigar aqueles que mais podem pagar impostos, o Sr. Dr. Santana Lopes irá compensar os cofres da fazenda pública, obrigando aqueles que menos têm, logo menos podem pagar - os trabalhadores, pensionistas e desempregados, assim como irá reduzir os encargos com as obrigações de um estado social, ou seja, reduzir investimentos na educação, saúde e justiça.
Se comparado com estes senhores da Aliança, Mário Centeno (e as suas cativações), é um mãos-largas.

18 setembro 2018

esplanadas

Lugar, por excelência, para eu estar. Lugar, vivido e sentido, para eu ficar. O gostar de esplanadas poderá, melhor, deverá, ser entendido como uma declaração do meu estado ideal de existência. É lá que habito considerável parte do meu tempo estival. Condição essencial: ter sombra. É que só os lugares equipados com esse equipamento, que me permite ficar, se podem designar como tal; Condição quase-essencial, mas em certas circunstâncias, prescindível: ter Wi-Fi. Maior parte das vezes até nem é necessário estar ligado na rede, mas confesso que me sinto mais confortável, sabendo que a qualquer momento poderei conectar-me.
As esplanadas são o meu lugar de Verão.

mediascape: os buracos e os ridículos

Ele há coisas que de tão estúpidas, idiotas ou parvas, não queremos acreditar que possam ser verdade. O caso em apreço aconteceu, ou pelo menos foi notícia, este Verão e constituiu-se do seguinte teor:
Uma instituição norte-americana, a Healthline, através do seu sítio na internet, publicou um guia direccionado para a comunidade LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgéneros, Queers, Intersexuais e Assexuais), onde sugere a substituição da designação médica de vagina pela designação de buraco da frente, tudo em nome de um discurso mais inclusivo e para não ferir a susceptibilidade das referidas comunidades, assim como para não discriminar as pessoas com identidade trans ou não-binária.
Buraco da frante?!?!?
Esta gente não sabe mais como chamar a atenção e, assim sendo, vão produzindo estas alarvidades linguísticas, apenas e só para serem vistos, para manterem os holofotes mediáticos na sua causa (?), nos seus discursos e nos seus comportamentos. Deixem-se de merdas, a vagina há-de ser sempre a vagina, ou melhor, a cona há-de ser sempre a cona (e façam o favor de a pronunciar, tratar e designar em maiúsculas). Obrigado.

Post-Scriptum
A estas mentes brilhantes e talentosas, sempre na vanguarda do saber, apetece-me aconselhar, tal como já fiz anteriormente e noutros contextos, a leitura de:

09 setembro 2018

LER

Cada vez mais atrasada em relação à respectiva estação do ano, aí está a revista LER do Verão de 2018. Vamos LER.

03 setembro 2018

coesão territorial

Ao ler a entrevista do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa ao Expresso e ao perceber a sua intenção de impor ao Governo, em sede de orçamento de Estado, a redução dos preços dos passes sociais de Lisboa e dos 18 concelhos que pertencem à Grande Lisboa, lembrei-me de imediato daquele projecto "Movimento pelo Interior" que apareceu com grande protagonismo mediático algures no mês de Maio, ou seja, há cerca de quatro meses, com um programa subscrito por várias luminárias, especialistas e reconhecidos académicos, e composto por um conjunto de medidas que prometiam inverter o eterno e crónico abandono do interior do nosso país.
Pois bem, mesmo com esse relatório e essas propostas em mãos, o Governo não consegue inverter, ou pelo menos simular essa inversão do forte centralismo da capital. Não só não vamos ter qualquer medida efectiva de promoção do interior, como vamos reforçar o peso de Lisboa e suas populações na despesa no Orçamento de Estado que se avizinha.
Na altura em que foi conhecido o documento desse Movimento pelo Interior, não tendo tido tempo para o ler com atenção, imprimi-o e guardei-o para estes dias de férias. Está lido e avaliado. Em breve trarei aqui as minhas considerações. Em todo o caso, mais do mesmo!... com aparato, com pomposos signatários, com luzes e laçarotes, mas nove fora nada. Certo?!

mediascape:irreparável


Imagens como esta não podem deixar de nos incomodar, mas sabendo que se trata do centenário Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, a impressão ainda é maior. Não podemos ficar indiferentes à destruição completa e definitiva do maior acervo e espólio da cultura brasileira e sul americana. Era neste bonito palácio oitocentista que se encontrava o maior acervo histórico e antropológico da cultura brasileira, logo, sul americana, logo, ameríndia, logo, portuguesa.
Lamentável é saber que esta jóia da cultura brasileira foi, nos últimos anos, esquecida e desprezada pelo poder e que já desde 2014 que a sua dotação financeira não era satisfeita totalmente. Segundo relatos que nos chegam do lado de lá do Atlântico, o seu orçamento anual era pequeno e mesmo assim prescindível para a sua tutela. Uma vergonha e uma irreparável perda.

01 setembro 2018

mediascape:inveja

Toma hoje posse como Responsável da Biblioteca apostólica e do Arquivo do Vaticano José Tolentino Mendonça. Na entrevista que dá ao Público de hoje confessa que a sua primeira preocupação é ocupar-se dos relatórios sobre o estado actual da Biblioteca e do Arquivo. Serão as suas leituras prioritárias. Mas como bibliotecário deverá enamorar-se também pela espantosa biblioteca e tem uma lista mental infindável de tesouros que gostaria de encontrar no tempo, e exemplifica:
- Codex Vaticanus, do século IV, que contém o mais antigo texto completo da Bíblia em grego;
- Os dois volumes da Bíblia de Gutenberg, que foi o primeiro livro impresso no Ocidente, segundo a técnica de impressão moderna;
- As Etymologiae, de Santo Isidoro de Sevilha, que contêm um dos primeiros tratados sobre como organizar uma biblioteca;
- A Commedia de Dante ilustrada por Sandro Botticeli;
- O Apocalipse de São João ilustrado por Albrecht Durer;
Para lá das escolhas pessoais, a verdade é que o sentimento que me assalta é muito pouco cristão, e não posso deixar de sentir considerável inveja pelo privilégio de aceder a tamanho tesouro.

mediascape:horários

Discussão do momento: deve-se ou não continuar a mudar a hora na Europa, entre os horários de Verão e de Inverno?
Sondagens a nível europeu para um lado, pareceres técnicos e de especialistas para outro lado, aquilo que vai acontecer, já percebi, é que o horário de Verão vai ser o escolhido e deixaremos de atrasar o relógio no mês de Outubro.
Para ser sincero, não quero saber se alternamos ou não entre os dois horários; não me interessa; não me preocupa; nem percebo a importância dessa discussão. É-me indiferente acordar de dia ou acordar de noite; é-me indiferente regressar a casa ainda de dia ou já de noite. Façam o que bem entenderem.
No entanto, naquilo que pude perceber das preocupações dos técnicos/especialistas, a escolha de um horário e o fim da alternância entre horários poderá trazer alguns distúrbios às crianças e jovens, naquilo que poderá ser alguma confusão em acordar e ir para a escola ainda de noite. Pois bem, na minha mais insignificante opinião, o que está errado, e não é de agora, é fazer as crianças de 4, 5, 6, 7 anos entrarem na escola entre as oito e as nove da manhã. Se querem fazer algo de benéfico, alterem os horários escolares e distribuam-nos pelo dia e não os façam madrugar para estudar. Nunca percebi esta imposição da escola começar às 8:15, ou às 8:30, ou às 9:00. Tanto dia, tantas horas, tanta tarde, tanta luz solar para aproveitar.

mediascape:vale dos caídos

Vale dos Caídos, nas imediações de Madrid, é o altar da extrema-direita espanhola, onde se presta o culto a Franco e a Primo Rivera. É igualmente o símbolo máximo e paradigmático das históricas cisões na sociedade espanhola, que se traduz num contencioso permanente que chegou aos nossos dias. Acontece que o governo socialista de Pedro Sánchez, não só quer exumar os restos mortais do ditador Franco que se encontram sepultados nesse local, como pretende transformar o Vale dos Caídos num memorial às vítimas da Guerra Civil e do franquismo, assim como criar uma Comissão de Memória, com a vigência de dois anos e com a finalidade de apurar a verdade do que ocorreu, contribuir para o esclarecimento das violações de direitos humanos e das graves infracções cometidas durante a Guerra Civil e o franquismo. Tarefas, todas elas, de difícil concretização, pois as feridas abertas nesse período negro da história de Espanha ainda não estão saradas e, seja por omissão, seja por ocultação, nunca houve um verdadeiro ajuste de contas com o passado.
A este propósito, hoje no jornal Público, o seu director - Manuel Carvalho, e em editorial, escreve que "a exumação do cadáver de Franco e as melhores formas de matar a simbologia extremista do Vale dos Caídos" demonstra como "a Espanha continua a debater-se com os vírus que originaram o franquismo e que, ainda hoje, persistem em perturbar o seu metabolismo nacional", enraizados na sociedade através de um radicalismo de direita e em instituições como a Igreja.
Manuel Carvalho tem razão quando afirma que não basta apagar os lugares da memória para que esta seja erradicada do presente, mas também será verdade que sem esses lugares de memória, será bem mais difícil, geracionalmente, perpetuar essas memórias. Só podemos e devemos desejar que o PSOE seja, finalmente, bem sucedido neste seu propósito.

setembro, dia primeiro

Ainda que o regresso só esteja previsto para os próximos dias, o dia primeiro de Setembro é, para mim, dia de retomar algumas rotinas e de recuperar pensamentos, ideias e preocupações. O mês que agora inicia é sempre muito grande, pleno de tarefas e eventos aos quais não conseguimos escapar. Depois destes dias e semanas de férias em que estive ausente e me abstive de aqui vir, é tempo também de retomar o hábito de partilhar aquilo que me importa e interessa. Comecemos.

09 agosto 2018

23 julho 2018

mediascape: contramão

Aconteceu um destes dias. Vários condutores que circulavam na A12, perante o cenário de um grande incêndio próximo da auto-estrada, que provocava imenso fumo, resolveram fazer inversão de marcha e circular em contramão.
Não sei qual teria sido a minha reacção numa situação destas, mas apesar de saber que tal atitude é muito perigosa, parece-me extemporânea a reacção da Protecção Civil, ao condenar esses condutores. Para além disto, não me restam dúvidas que tal comportamento só aconteceu porque na memória de todos nós estão ainda todos aqueles que morreram nas estradas portuguesas, vítimas dos incêndios do último Verão. É muito preocupante percebermos que, apesar de todas as promessas por parte das autoridades, os cenários de pânico, de perigo eminente, de reacções extemporâneas, permanecem, estão latentes. Sorte ainda não ter vindo calor a sério.

17 julho 2018

as identidades que matam


Não recordo o dia, nem a hora, mas sei que foi numa conversa com o cantor José Mário Branco, nas últimas semanas, que ouvi da boca do cantor que um dos livros que mais o marcaram foi este "Identidades Assassinas" de Amin Maalouf. Fiquei curioso, até porque já conhecia o autor, de um outro seu trabalho magnífico em que vai em busca das suas "Origens". Procurei-o nas lojas do costume e logo me apercebi que não seria fácil encontrá-lo. Trata-se de uma edição de 1999 da extinta Difel e, por isso, só em alfarrabistas ou na internet o poderia encontrar. Numa busca na internet e contactando vários alfarrabistas, apenas consegui que dois me respondessem afirmativamente. Finalmente o livro cá me veio parar às mãos e foi com alguma expectativa que depressa o li.
Trata-se de uma reflexão do autor - franco-libanês - acerca da importância das identidades individuais, da importância dos sentimentos de pertença a um determinado grupo e da relevância dessas dimensões identitárias na evolução das sociedades, no confronto de ideologias, na sobrevivência das comunidades, nas disputas religiosas e origens dos movimentos extremistas, radicais e fundamentalistas, e no enorme hiato que existe entre as civilizações ocidental e oriental/muçulmana.
Perfeitamente datado e contextualizado - final do século XX (antes do 11 de Setembro de 2001, entre outros) - poderemos até considerá-lo ultrapassado em várias das suas afirmações, mas em todo o caso, parece-me pertinente atentar nalgumas das questões suscitadas:

Porquê estes véus, estes tchadors, estas barbas severas, estes apelos ao assassínio? Porquê tantas manifestações de arcaísmo, de violência? Será tudo isto inerente a estas sociedades, à sua cultura, à sua religião? Será o Islão incompatível com a liberdade, com a democracia, com os direitos do homem e da mulher, com a modernidade?

As respostas não são simples e o autor afirma que não acredita no exagero da influência das religiões sobre os povos, enquanto se negligencia a influência dos povos sobre as religiões, exemplificando, com o caso europeu. Se o cristianismo modelou a Europa, a Europa também modelou o cristianismo. Este é hoje o que as sociedades fizeram dele. Elas transformaram-se, material e intelectualmente, e transformaram consigo o seu cristianismo (p.74). Reforça esta ideia, escrevendo que a sociedade ocidental inventou a Igreja e a religião que tinha necessidade, tal como no mundo muçulmano, a sociedade produziu constantemente uma religião à sua imagem e que quando os muçulmanos atacam violentamente o Ocidente, não é só por serem muçulmanos e por o Ocidente ser Cristão, é também por serem pobres, dominados, ridicularizados e por o Ocidente ser rico e poderoso.
Um pouco mais à frente, o autor dedica-se à explicação/justificação da tal enorme diferença que podemos verificar entre o mundo ocidental e o resto do mundo, afirmando:

Esta primavera formidável da humanidade criadora, esta revolução total, científica, tecnológica, industrial, intelectual e moral, este longo trabalho “de buril” efectuado por povos em plena mutação, que todos os dias inventavam e inovavam, que sem cessar faziam tremer as certezas e sacudiam as mentalidades, não foi um acontecimento entre outros, foi único na História, foi o acontecimento fundador do mundo tal como o conhecemos hoje, e produziu-se no Ocidente - no Ocidente e em nenhum outro lugar. (...) Será que esta mutação se produziu graças ao cristianismo, ou apesar do cristianismo? (...) A emergência, no Ocidente, durante os últimos séculos, de uma civilização que iria tornar-se, para o mundo inteiro, a civilização de referência, tanto no plano material como no plano intelectual, de tal modo que todas as outras se encontraram marginalizadas, reduzidas a um estado de culturas periféricas, ameaçadas de extinção. (...) A partir de que momento se tornou esta predominância da civilização ocidental virtualmente irreversível? A partir do século XV? Nunca antes do século XVIII. Do ponto de vista que hoje é o meu, pouco importa. O que é certo, e fundamental, é que um dia uma civilização resoluta tomou as rédeas da carruagem planetária nas suas mãos. A sua ciência tornou-se a ciência, a sua filosofia tornou-se a filosofia, e este movimento de concentração e de “estandardização” nunca mais parou, pelo contrário, não deixa de acelerar, alargando-se ao mesmo tempo a todos os domínios e a todos os continentes. (p.81 e 82)

Uma crise de identidade é associada à causalidade de vários sentimentos de repulsa, aversão e repúdio face ao mundo ocidental...

A felicidade do mundo e a sua infelicidade, tudo isto veio do Ocidente.
Onde quer que se viva neste planeta, toda a modernização é, daqui em diante, ocidentalização. Uma tendência que os progressos técnicos não fazem senão acentuar e acelerar. Um pouco por todo o lado encontramos, evidentemente, monumentos e obras que trazem consigo a marca de civilizações específicas. Mas tudo o que se criou de novo - quer se trate de construções, instituições, instrumentos de conhecimento, ou modos de vida - foi criado à imagem do Ocidente. (...) Esta realidade não é vivida da mesma maneira pelos que nasceram no seio da civilização dominante e por aqueles que nasceram fora dela. Os primeiros puderam transformar-se, avançar na vida, adaptar-se, sem deixar de serem eles mesmos; poderíamos mesmo dizer que, para os ocidentais, quanto mais se modernizam, mais se sentem em harmonia com a sua cultura, somente os que recusam a modernidade se encontram desfasados. Para o resto do mundo, para todos aqueles que nasceram no seio de culturas desfeitas, a receptividade à mudança e à modernidade coloca-se em termos muito diferentes. Para os chineses, para os africanos, os japoneses, os indianos ou os ameríndios, assim como para os gregos e os russos, para os iranianos, os árabes, os judeus ou os turcos, a modernização implicou constantemente o abandono de uma parte de si mesmos. Mesmo quando ela suscitava por vezes o entusiasmo, nunca se desenrolava sem uma certa amargura, sem um sentimento de humilhação e de renúncia. Sem uma interrogação dolorosa sobre os perigos da assimilação. Sem uma profunda crise de identidade. (p.83 e 84)

Pode-se bem imaginar o sentimento que poderão experimentar os diferentes povos não ocidentais, para quem, desde há numerosas gerações, cada passo na sua existência se acompanha de um sentimento de capitulação e de negação de si próprios. Foi-lhes necessário reconhecer que o seu saber estava ultrapassado, que tudo o que produziam nada valia comparado com o que se produzia no Ocidente, que a sua manutenção da medicina tradicional resultava da superstição, que o seu valor militar não passava de uma reminiscência, que os seus grandes homens que tinham aprendido a venerar, os grandes poetas, os sábios, os militares, os santos, os viajantes, não contavam para nada aos olhos do resto do mundo, que a sua religião era suspeita de barbárie, que a sua língua era estudada apenas por meia-dúzia de especialistas… (…) Sim, a cada passo da sua vida, encontram uma decepção, uma desilusão, uma humilhação. Como não ter uma personalidade mortífera? Como não sentir a sua identidade ameaçada? Como não ter o sentimento de viver num mundo que pertence aos outros, que obedece a regras ditadas pelos outros, um mundo onde se sentem órfãos, estrangeiros, intrusos ou párias? (p.86 e 87)

O autor termina a sua reflexão partilhando aquilo que considera serem as inquietações da mundialização actual:

a) uniformização pela mediocridade - a ideia segundo a qual a efervescência actual, mais do que conduzir a um enriquecimento extraordinário, à multiplicação dos meios de expressão, à diversificação de opiniões, conduz paradoxalmente ao inverso, ao empobrecimento: assim, esta multiplicidade desenfreada de expressões musicais apenas desembocará, no final de contas, numa espécie de música de ambiente, afectada e adocicada. Assim, o formidável cadinho de ideias terá como resultado uma opinião unanimista, simplista, um menor-denominador-comum intelectual, a tal ponto que toda a gente, à excepção de um punhado de excêntricos, acabará por (…) engolir o mesmo caldo informe de sons, de imagens e de crenças;
b) uniformização pela hegemonia - Será a mundialização algo mais do que uma americanização? Não terá ela como consequência principal o impor ao mundo inteiro uma mesma língua, um mesmo sistema económico, político e social, um mesmo modo de vida, uma mesma escala de valores, os dos Estados Unidos da América? A acreditar em algumas pessoas, o conjunto do fenómeno da mundialização não passaria de um disfarce, de uma camuflagem, de um cavalo de Tróia, sob o qual se dissimularia uma empresa de dominação. É legitimo interrogarmo-nos se a mundialização não irá reforçar a predominância de uma civilização ou a hegemonia de uma potência. Isto apresentaria dois perigos graves: o primeiro, o de vermos, pouco a pouco, desaparecer línguas, tradições, culturas; o segundo, o de vermos os membros dessas culturas ameaçadas adoptarem atitudes cada vez mais radicais, cada vez mais suicidas.
Os riscos de hegemonia são reais. (p.126 a 129)

um homem bom


A notícia chegou madrugadora. Morreu João Semedo, dirigente e ex-coordenador do BE. Notícia esperada, mas sempre triste. Foi uma enorme honra ter conhecido e ter privado com o João.





Alguns dos momentos em que o acompanhei por terras de Trás-os-Montes.

30 junho 2018

organizar o silêncio

No passado dia 22 de Maio, quando da sua morte, a minha reacção perante aquilo que foi dito e escrito sobre ele, foi resgatar das prateleiras do armário, onde vou amontoando livros, os dois que sabia ter, para os colocar mais perto de mim e, assim que possível, os ler. Sabia da sua qualidade, sabia da sua importância para o consciente e para o inconsciente americano, sabia da sua importância para o retrato de uma determinada América - a da luta entre os géneros, entre as raças, entre as classes sociais, entre as confissões religiosas - sabia da sua importância para o (re)conhecimento de um ethos social e cultural nem sempre perceptível ou identificável. Por tudo isto e mais, sabia que teria que ler Philip Roth. Foi por isso que, um dia, comprei esses dois livros.
Agora, terminei a leitura de um deles, A Mancha Humana, onde o autor faz um retrato de vidas americanas do pós-guerra (2ª guerra mundial e Vietname), com todas as suas convulsões políticas e sociais, as suas manias e convenções, os seus tiques e hipocrisias. Segundo Roth, a mancha humana (americana) contamina e destrói tudo à sua volta, destrói a natureza e contamina os animais.
O narrador desta história, Nathan Zuckerman, que a determinada altura da sua vida desistiu da vida social e foi viver na solidão da montanha, a esse propósito, afirma:

O segredo de viver com um mínimo de sofrimento na voragem do mundo reside em atrair o maior número de pessoas para as nossas ilusões; o truque para viver sozinho aqui em cima, longe de todas as perturbadoras confusões, seduções e expectativas, afastado, sobretudo, da própria intensidade, consiste em organizar o silêncio, em pensar na sua plenitude de cume de montanha como capital, no silêncio como riqueza crescendo exponencialmente. No silêncio circundante como a fonte de proveito que escolhemos e a nossa única coisa íntima.

De facto, reflectindo sobre esta citação que tanto me diz, organizar o silêncio não é tarefa fácil ou simples. Não é, acima de tudo, acessível a qualquer um. Desconfio até que para a maioria dos indivíduos o silêncio é dispensável e dele fogem permanentemente, preferindo as referidas voragem, intensidade e confusão. No que a mim diz respeito, revejo-me integralmente nesta frase do narrador [ e por isso a trago aqui]; projecto-me para essa solidão, para esse isolamento, idealizo-me nessa necessidade, nessa ânsia pelo silêncio. Não sei, talvez um dia o alcance e, depois, o consiga organizar.

16 junho 2018

reset to USA democracy


Depois de ter visualizado, no youtube, o lançamento/debate deste livro, na feira do livro de Lisboa, em que participaram Daniel Oliveira e Pacheco Pereira, foi com bastante curiosidade que li, nas últimas horas, este pequeno livro, editado em Portugal pela Tinta da China.
Trata-se de um ensaio de um pensador político de esquerda, assumidamente de esquerda, que, através de uma escrita acessível ao comum dos leitores, faz uma crítica acérrima e assertiva (ainda que num ou noutro ponto discutível) à esquerda americana, ou seja, aos liberais e aos democratas. Segundo este autor, a esquerda americana, ao longo das últimas décadas, desde a presidência de Ronald Reagan, concentrou todas as suas energias na adesão ao liberalismo identitário e na defesa de políticas identitárias, entregando-se sem resistência à política dos movimentos sociais assentes na identidade, perdendo qualquer noção daquilo que os cidadãos partilham e daquilo que une a nação. Consequência disto, não são capazes de reflectir sobre o bem comum, não conseguem perspectivar uma ideia de futuro partilhado e, acima de tudo, promovem um narcisismo económico, uma guetização, ou um sectarismo, ou ainda, uma balcanização das minorias entre si, levando ao alheamento e indiferença do seu eleitorado habitual(?).
Ao mesmo tempo, Mark Lilla, entende que a eleição de Donald Trump e a sua presidência propiciaram o momento ideal para a esquerda começar de novo ("reset"): reconstruir a identidade em torno do que une o povo, encorajando o sentido de dever mútuo e inspirando todos na nação e no resto do mundo.

Os movimentos que remodelaram o nosso país ao longo dos últimos 50 anos tiveram um impacto muito positivo, especialmente na forma como mudaram, como se costuma dizer, corações e mentes. O que talvez seja a coisa mais importante que qualquer movimento concretiza, (...) mas durante um período de tempo considerável os movimentos não são capazes só por si de atingir fins políticos concretos. Precisam de políticos e funcionários públicos integrados no sistema, solidários com as metas do movimento, mas dispostos a empenhar-se no trabalho lento e paciente de fazer campanha eleitoral, conceber e negociar a aprovação de legislação, e controlar a burocracia que assegura a sua aplicação. (página 88)

08 junho 2018

mediascape:desintoxicação

“Ninguém poderá encontrar o seu caminho num mundo tecnológico se não souber ler, escrever, contar, respeitar os outros e trabalhar em equipa. Os telemóveis são um avanço tecnológico, mas não podem monopolizar as nossas vidas”.
Jean-Michel Blanquer, ministro da educação.

Soube-se hoje que a Assembleia Nacional francesa aprovou a proibição do uso de telemóveis nas escolas da República Francesa. Medida que entrará em vigor a partir do próximo ano lectivo.
Muito bem. Não poderia estar mais de acordo, pois tal como é dito pelos promotores deste projecto-lei, agora aprovado, esta é uma medida de desintoxicação, que tem por objectivo contribuir para a redução das distracções em sala de aulas e combater casos de bullying.
Bem podia a República Portuguesa imitar a Francesa e decretar também a proibição dos telemóveis em espaços escolares. Eu subscreveria tal medida.

o experimentalista


A notícia chegou-me à hora de almoço. Anthony Bourdain morreu; ter-se-á suicidado.
A sério?
O espanto perante a notícia do seu suicídio acontece naquilo que era, ainda é, a convicção de que alguém que é pago para viajar pelo mundo e suas cidades, a conhecer culturas e gastronomias tão diversificadas, é reconhecido, é apreciado e é famoso, não poderia ter razões para acabar com a sua vida. Quem não gostaria de poder ter uma vida semelhante?!...
Enfim, aquilo que me atraiu em Bourdain e que fazia com que o tolerasse - sim, não há pachorra para tanto especialista, tanto chef, tanto programa/concurso sobre cozinha e sobre empratamentos, já para não falar da inenarrável e moderníssima experiência em que se transformou o verbo comer - era o seu aparente (isto porque em televisão não vemos tudo) desalinhamento em relação ou status quo gastronómico vigente nos últimos anos. A sua capacidade de adaptação às diversas experiências gustativas, a sua vontade de experimentar, a sua tolerância para tudo quanto, nos dizem que, faz mal à saúde, a promoção que fazia a ingredientes, pratos e especialidades marginais, ausentes das grandes cozinhas e dos menus dos "grandes" chef's e especialistas. Acima de tudo, nos seus programas de televisão, agradava-me o seu apetite por todo o tipo de comida, a sua vontade de experimentar, a sua vontade de comer.

antologia autores transmontanos

O convite surgiu nos primeiros meses de 2017. A Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa organizou esta antologia de autores transmontanos e solicitou a sua organização/coordenação ao seu sócio e membro Dr. Armando Palavras.
Eu respondi ao desafio com um texto sobre as Nomeadas em Trás-os-Montes. O livro foi lançado no passado dia 26 de Maio, em Lisboa, no IV Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, organizado pela mesma Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Ainda não tive a oportunidade de olhar para o resultado final, pois não tendo ido ao referido congresso, ainda não me enviaram o exemplar a que tenho direito enquanto autor. Aguardo com expectativa a sua chegada. Por enquanto, apenas conheço a capa do mesmo...

04 junho 2018

"O vinho é o novo alvo dos proto-higienistas"

Transcrevo todo o texto, porque a mensagem deve passar na íntegra e não fora do seu contexto. Cambada de palermas.

Não é fácil explicar a um europeu que viva a norte dos 45º de latitude, que nós (no Sul) bebemos vinho às refeições, que temos o costume de não beber vinho como os finlandeses bebem vodka, que raramente bebemos sem comer, que dois copos de vinho por dia não são uma ameaça à paz mundial (como determinou o SNS britânico) – e que desprezamos o seu hábito de beber forte durante dois ou três dias (até cairem) e de aparecerem, depois, como puritanos, em culottes, com mau hálito e a implicar com tudo. Parece que há na UE uma “corrente de pensamento” proto-higienista, fomentada por burocratas que usam todos a mesma gravata, as mesmas cuecas e o mesmo tom de pele, que quer equiparar as garrafas de vinho a cargas de álcool eslavo, inutilizando os nossos rótulos com avisos mortais e ameaças de morte (à semelhança dos maços de tabaco). Se isso acontecer, Portugal e outros países civilizados do Sul da Europa devem pedir a rápida desanexação da UE. Esta é, por isso, uma crónica racista: contra a raça dos palermas e dos rostos pálidos que não sabem distinguir um vinho (com a sua carga de cultura, tradição, brilho, humanidade) de uma ampola de vodca bebida no aeroporto. Ninguém me convence de que isto não é uma conspiração de fascistas tolos, ainda por cima – lamento dizê-lo, ó pátria de grandes bebedores – irlandeses, o que é uma pena.

(Francisco José Viegas, no seu blogue - A Origem das Espécies. Aqui)

30 maio 2018

colecção revista Brigantia, finalmente

Após longos e difíceis cerca de 13 anos consegui, hoje, terminar a colecção das revista Brigantia. Estes foram os últimos três números que hoje trouxe para casa, conseguindo assim reunir toda a colecção. Quer dizer, talvez me falte um ou outro suplemento que, normalmente, era vendido com a revista, mas cuja associação é impossível agora fazer e encontrar. Ainda assim, a alegria é enorme, pois desde que iniciei esta empreitada, com particular insistência nos últimos anos, tinha por objectivo chegar ao dia em que ostentaria os mais de sessenta "livros" que compõem toda a colecção.
Foi o amigo Nuno Canavez, da Livraria Portuense, que me ofertou estes três últimos números. Fica o meu reconhecido agradecimento.
A partir deste momento, acompanharei, atento, a edição de novos números e esperarei, ansioso, pelo renascimento do seu cariz original - etnografia, arqueologia, história, etnologia e até antropologia, de âmbito local e regional.

(volume II - nº 2/3 - 1982)

(volume IV - nº 3 - 1984)

(volume XVI - nº 1/2 - 1996)

28 maio 2018

puerto