13 agosto 2019

sem fins lucrativos


Em véspera de partir para os tais dias de descanso, encontro este livro da filósofa Martha C. Nussbaum e não consigo deixar de pegar nele para espreitar e perceber de que se trata. Conheço esta autora desde o tempo do meu mestrado, tendo sido referência recorrente em vários módulos. O sub-título do livro foi o que me chamou mais a atenção, na medida em que também considero que a maior lacuna das actuais democracias capitalistas é o esquecimento da dimensão humanista nessas sociedades. Acredito, honestamente, que a qualidade das sociedades está relacionada com a dimensão humanista das mesmas, nos seus ambientes educacionais e formativos, na cidadania e no conhecimento.
Ainda que a lista de livros para ler nestes dias seja ambiciosa, não posso deixar de acrescentar este pequeno quase-manifesto por um mundo melhor, mais justo e mais solidário.

Na contra-capa, está escrito o seguinte:

Neste livro tão breve quanto poderoso, Martha C. Nussbaum, filósofa norte-americana, revela a importância central das humanidades em todos os níveis da educação e discorre sobre as razões pelas quais devem ser considerados inconformáveis para a criação de cidadãos democráticos competentes. Recentemente, a tendência perturbadora, nos Estados Unidos e não só, para tratar a educação como se o objectivo principal fosse ensinar os alunos a serem economicamente produtivos, em vez de lhes fornecer ferramentas para pensarem criticamente enquanto indivíduos conhecedores e empáticos, revela que a crise das ciências humanas está longe de diminuir. A par de uma crescente incapacidade para pensar, vemos também cada vez mais reduzida a solidariedade para com algumas franjas da sociedade, bem como a competência para lidar com problemas globais complexos. A perda destas aptidões elementares, defende Nussbaum, põe em risco a saúde das democracias e a esperança num mundo melhor.
Em resposta a esta situação, Nussbaum propõe que resistamos aos esforços para reduzir a educação a uma ferramenta do Produto Interno Bruto. Em vez disso, é fundamental trabalharmos para associar a educação às humanidades, a fim de proporcionar aos estudantes a possibilidade de se tornarem verdadeiros cidadãos democráticos dos seus países e do mundo. Traduzido em mais de vinte línguas, Sem Fins Lucrativos oferece-nos um cenário preocupante mas esperançoso, e constitui um manifesto que deve ser um grito de guerra para quem se preocupa com os propósitos mais profundos da educação.

Reflexão: o título deste livro daria um bom epitáfio para a história da minha vida...

as capadeiras de Rebordãos

As mulheres de Rebordãos, no concelho de Bragança, ainda hoje são conhecidas por capadeiras. No contacto que mantivemos com os habitantes desta aldeia, por entre sorrisos, reconhecendo essa nomeada, não sabem a sua origem ou fundamento, conseguindo apenas justificar essa adjectivação pela bravura e coragem das suas mulheres. Entre várias expressões e comentários, registámos:

Dizem que somos bravas, que temos pelo na benta…; as nossas mulheres são fodidas, não se metam com elas…; ora, eu bem vejo pela minha, não há quem a ature…; elas são lindas, é que é das mais velhas, até às garotinhas, todas iguais...;

Ainda que exista esta atitude condescendente e até bem-humorada, por parte dos locais, face à nomeada recebida, não conseguimos recolher junto da população nenhuma versão relacionada com aquela que o Abade de Baçal documentou sobre a sua origem. Nas memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, o Abade remete a sua presumível origem para a segunda metade do século XIX, baseando-se numa carta do juiz de direito da comarca de Bragança ao administrador do concelho, em que se relatava:

«Ill.mo Snr. – Tendosse instaurado hum processo crime contra hûas mulheres de Rebordãos, por causa de hum acontecimento que entre ellas e hum criado do Estafeta de Rebordãos houve; e tendosse espalhado hontem e hoje que o dito criado apareceu morto no Adro da Igreja da Senhora da Serra; e constandome que V. S.a já procedera a varias averiguações a tal respeito, rogo a V. S.a que com a maior brevidade me informe sobre o resultado das suas averiguações, por assim o exigir o andamento do processo...... Bragança 16 de Agosto de 1855. O Juiz de Direito, B.meu Car.al de M.es Th…» (Alves, tomo VII, 2000:649)

O mesmo autor refere um outro episódio posterior que terá contribuído para o reforço dessa mesma nomeada:

Maria Gonçalves do Vale, de Rebordãos, filha de Francisco Gonçalves do Vale e de Teresa de Morais, presa em 1875 por infligir maus tratos a um galego (parece que o queixoso se gabava de proezas cupidíneas que não fazia, donde a irritação das raparigas de Rebordãos que, em legítimo desforço, o castraram. (Alves, tomo VII, 2000:188)

12 agosto 2019

a loucura da arte

Trabalhamos no escuro - fazemos o que podemos - damos o que temos. A nossa dúvida é a nossa paixão, e a nossa paixão é o nosso ofício. O resto é a loucura da arte.
Henry James (the middle years), in O Escritor Fantasma de Philip Roth.

os charros da Mofreita

Um dos casos de nomeada colectiva mais peculiares na região é o da aldeia de Mofreita, concelho de Vinhais, conhecidos e referenciados como charros, vulgo charrelos, ou ainda de beócios da terra de Bragança, numa alusiva comparação com os habitantes da Beócia, antiga região da Grécia, que tinham fama de ser rudes e grosseiros. Esta nomeada tem por fundamento ou razão um conjunto de histórias que se contam sobre as gentes da Mofreita, que vão sobrevivendo na memória das pessoas e são transmitidas de geração em geração, com o intuito de os remeter a uma condição de simplórios e analfabetos. Escreveu sobre eles o Abade de Baçal:

É enorme a lista de lhonas e pachouchadas que se atribuem aos charros de Mofreita, todas pelo teor das antecedentes, de onde fazermos ponto, pois para já basta para se julgarem as demais. Mas isto são lendas idênticas a outras respeitantes a diversos povos desde a mais remota antiguidade, como vemos pelos gregos através dos beócios. (Alves, vol. IX - 2000:268)

Uma das história que se contam e que contribui para o reforço dessa nomeada diz que os da Mofreita fazem as presas no rio com presuntos e tapam os buracos com salpicões. Diz-nos António Gonçalves (2008:121) que os da Mofreita replicavam: - Lá isso é verdade, mas só até enquanto não deram neles os cães da vila… Segundo o mesmo autor, a origem desta história poderá estar relacionada e ser contemporânea das invasões francesa.

Por ocasião da segunda invasão francesa, em Abril de 1809, as tropas francesas entraram em Portugal pela fronteira norte, junto a Chaves, tendo rapidamente dominado a região, invadindo e saqueando todas as terras por onde passava. A notícia espalhou-se por todas as povoações da região e, então, os habitantes da Mofreita, com receio que os invasores lhes saqueassem os haveres, lembraram-se de transferir para a povoação espanhola de Ermisende o seu fumeiro - presuntos, salpicões e restante fumeiro, contando que ali estaria a salvo. Carregaram carros-de-bois e puseram-se a caminho. Chegados ao rio Pequeno, um afluente do Tuela, já próximo do destino, depararam com um enorme caudal no rio, mas ainda assim tentaram passar o rio a vau. Logo o primeiro carro-de-bois, não aguentando a corrente, voltou-se, fazendo com que todo o fumeiro fosse levado pela corrente do rio, indo parar à represa mais próxima desse local. (adaptado de Gonçalves, 2008:122)

Uma outra história, contada pelo mesmo autor...

...um dia, quatro homens de Mofreita foram à pesca com as redes para o rio Tuela, para junto dos pontões de Fresulfe. Fez-se noite, mas estava uma clara noite de lua cheia. Enquanto esperavam que os peixes malhassem nas redes, foram para cima do pontão e viram a lua reflectida na água do rio. Pensando que era um queijo de ouro no fundo do poço, logo idealizaram a melhor maneira de o tirar. Como não sabiam mergulhar, pensaram: um de nós agarra-se com as mãos a uma trave do pontão e os outros vão-se pendurando sucessivamente, agarrando-se, uns aos pés dos outros, até o último chegar ao fundo do poço e tirar o queijo. Assim fizeram. Quando já estavam quase todos pendurados, o que estava agarrado à trave do pontão, de cansado que estava, já se lhe começavam a escorregar as mãos. Então gritou para os outros: - Segurai-vos bem, que eu vou cuspir nas mãos. Ao largar as mãos da trave, caíram todos ao rio. (Gonçalves, 2008:124)

Conhecemos uma outra versão desta história do Queijo de Ouro. Ouvida na região, diz-se que depois de todos os homens estarem pendurados uns nos outros, o último verificou que não chegava ao queijo e então terá gritado: - Não chego lá. É preciso mais um homem.Quem lhe respondeu foi o primeiro, aquele que estava agarrado ao pontão, que disse: - Deixa estar que vou aí eu...

Estes são dois exemplos das inúmeras histórias que se contam sobre os da Mofreita e que contribuem para a sua nomeação e perpetuação da sua fama. Contudo, também é perceptível determinado incómodo e incompreensão face a esta nomeação, não só da parte dos naturais da Mofreita, como também junto dos estudiosos que, ao longo do tempo, nomeadamente durante o século XX, tiveram contacto com esta comunidade:

É aos habitantes deste pequenino rincão da região vinhaense que os outros povos chamam «charros» como sinónimo de parvos e papalvos. E porque será? Se eles são trabalhadores, honestos, de bons costumes? O apodo perde-se na noite dos tempos. E, por isso, qualquer historieta relativa a parvoíce é aplicada aos laboriosos filhos da Mofreita. (Martins, vol. I - 1997:287)

Povo honrado, trabalhador e crente como o das outras povoações da região. Ali ouve pessoas notáveis e de valor, como refere o douto abade de Baçal, lembrando ainda que da Beócia eram alguns dos maiores homens que teve a Grécia: Pindaro, Hesioso e Plutarco. (Martins, vol. II - 1997:478)

A Mofreita é uma povoação laboriosa e morigerada, a que não é, evidentemente, estranha a benéfica influência moral do convento que semeia a paz, o conforto e a caridade na alma dos seus habitantes. A vida ali, é simples e rudimentar; vive-se do que produz a terra e o rio. (F.J.A no Jornal Mensageiro de Bragança de 18/05/1962 in Gonçalves, 2008:26)

Mas seriam os mofreitenses tão simplórios ou papalvos que merecessem aquela alcunha? – Não me parece, pois os mofreitenses não seriam (nem são), nem mais simplórios, nem mais rudes, nem mais grosseiros do que os habitantes de outras terras, vizinhas ou não. Todavia, desconhece-se desde quando e qual a origem deste apodo… (…)Não levam a mal que lhes chamem “charrelos”, pois são bastante orgulhosos dos seus antepassados, das suas tradições e da sua cultura. (Gonçalves, 2008:28)

05 agosto 2019

igreja dos Congregados

Sentado em frente ao altar-mor, ocupado pelo Santíssimo Sacramento, observo o movimento das pessoas que aqui entram. Bem no coração da cidade do Porto, e apesar do quase silêncio que se consegue, é impossível não perceber a agitação exterior. Por entre os muitos turistas que deambulam pela igreja, procurando junto dos diferentes altares informações escritas, são também muitos aqueles que aqui vêm, percebe-se, para rezar. Continua a impressionar-me a fé que as pessoas têm nos especialistas intermediários da entidade suprema e divina. A Igreja soube, desde há muito tempo, satisfazer a todos, ou quase, naquilo que são as aflições, as necessidades e as carências da razão.
Para além dessa essência religiosa, não há como negar a qualidade destes autênticos refúgios urbanos - tranquilidade, temperatura, silêncio e paz - para a meditação e para isto que acabo de fazer. Escrever.

03 agosto 2019

a censura

Um Bailarino na Batalha, de Hélia Correia, foi distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Na cerimónia de entrega do prémio, que aconteceu no dia 22 de Julho, na Fundação Calouste Gulbenkian, a autora fez uma intervenção que, agora, o Jornal de Letras publicou na íntegra. Dessa intervenção, sublinho as suas palavras sobre o ambiente censório que actualmente experimentamos...

Conheci a censura. Mas, não tendo gosto pelas memórias ressentidas, só muito raramente falo dela. (...) E, no entanto, está a acontecer. Não pela força de um poder instituído e frequentemente muito estúpido, mas pela força de um poder massificado, igualmente estúpido, igualmente autorizado por um puritanismo executório. É uma polícia de opinião que não parece imposta e que se aloja no interior de cada um para desencorajar a ousadia, sendo que a ousadia não está hoje na infantil libertinagem sexual e sim no dar palavra e dar figura ao que o homem e a natureza têm de terrível, de necessário, de indomesticável. Dar a palavra ao que é inominável, afrontar o tabu, eis a tarefa. Não podemos deixar que uma cruzada de higienização se estenda à arte. (...) A ameaça da ignorância muda de face mas não muda de maldade. A maldade benzida que extermina, essa maldade medieval que ainda opera noutros países da contemporaneidade, pouco difere desta maldade nova e aparentemente redentora que visa erradicar das histórias infantis tudo o que possa criar medo ou erros de julgamento. (...) Tal como o outro, este censor é um verme que passa para dentro da pele e decompõe a nossa liberdade natural. Mas, quanto a este, cabe a cada corpo social, ao indivíduo e ao grupo defenderem-se, num estado que não é de resistência, a nobre resistência da clandestinidade - mas de guerra. Guerra de rosto descoberto, guerra altiva. Porque ela, a ignorância, já calçou as botas para a parada.
(Hélia Correia, in Jornal de Letras nº 1274, Julho/Agosto 2019)

02 agosto 2019

e a Burra?...

A aldeia de Aveleda, no concelho de Bragança, situa-se junto à fronteira norte com Espanha e dentro do actual território do Parque Natural de Montesinho. A sua gente, para além da tradicional agricultura, dedicava-se a produzir carvão, proveniente das espécies vegetais abundantes no seu território, para abastecer as necessidades energéticas da cidade de Bragança e com isso obter um rendimento extra. Com regularidade deslocavam-se à cidade para, no mercado municipal e, principalmente, nos dias de feira, venderem o seu produto, que era transportado em burras, mulas ou machos. A distância entre a Aveleda e Bragança era grande e, por norma, entravam na cidade pelo lado nascente, sendo comum, nesses dias de feira, encontrar na Avenida do Sabor um grande número de animais em fila, à espera da sua vez de entrar no espaço do mercado ou da feira. Como a espera poderia ser longa, muitos dos carvoeiros deixavam os seus animais presos e iam até às tabernas comer e beber, ou aos outros comércios tratar da sua vida. Quem os recebia, em jeito de cumprimento, indagava sempre: - Então, e a burra?… Para além da evidente provocação, a questão demonstraria a relação próxima, quase familiar, entre esses indivíduos e os seus animais e, também, significaria que não existiria ninguém na Aveleda que não possuísse um animal e que não o utilizasse para chegar à cidade. Certo é que, ainda hoje, quando a actividade já desapareceu há muitas décadas, os naturais de Aveleda são conhecidos por esse género de cumprimento, que os relaciona com a a sua condição pretérita de produtores e comerciantes de carvão.

leituras para os dias sossegados

Ainda que em modo descontraído, a leitura é, e será sempre, parte significativa dos dias. Assim, a escolha daquilo que há que ler e para ler é importante. Para os dias deste Agosto e primeiros de Setembro, além das leituras imprevistas e esporádicas, a literatura que me espera é:
- Escritor fantasma, de Philip Roth;
- Identidades, de Francis Fukuyama;
- Serotonina, de Michel Houellebecq;
- Quem disser o contrário é porque tem razão, de Mário de Carvalho;
Boas leituras.

01 agosto 2019

ex-querido mês

Com a chegada do mês de Agosto, chegam também os dias de maior preguiça e descontração. Não por falta de trabalho, ou pelo menos, do ter o que fazer, mas por um imperativo pessoal, catártico e terapêutico, veraneio apenas. Apesar de já estar aliviado das obrigações burocráticas da Faculdade e outras desde 2ª feira, só hoje me sinto de férias. Por muito que a vida nos tenha obrigado a prescindir do hábito das férias em Agosto, a verdade é que fica sempre uma vontade de lá regressar, como que uma nostalgia desse tempo fora do tempo, em que toda a vida se alterava e ajustava ao ritmo do tal querido mês de Agosto, com lugares, espaços-tempo e rituais próprios, cronologicamente organizados e ordenados. Era um mês pleno de momentos únicos que, apesar de anualmente cíclicos, eram esperados e vividos como experiências únicas e irrepetíveis. Neste momento de revisitação, a memória consegue regressar aos tempos de menino e alcançar momentos singulares de uma existência aldeã; recordar a aldeia rejuvenescida com o regresso dos filhos emigrantes, adornados com os seus “ricos” Francos e “portentosos” automóveis; reviver a cor e a alegria de todas as festas, romarias, arraiais e respectivos bailaricos; relembrar cheiros e sabores para sempre perdidos; evocar amigos e amigas, alguns já desaparecidos.
Claro que esta nostalgia, possível porque um dia se experimentou, se conheceu, se esteve lá, não passará nunca disso mesmo, ou seja, de uma memória. Por mais que lá regressemos ao longo da vida, esse ambiente e essa gente já lá não estão. O mês mudou e nós com ele. Ainda assim, é mês de Agosto.

30 julho 2019

sapatilhas: um paradigma dominante

Hoje em dia toda a gente anda com sapatilhas nos pés. Olhemos à nossa volta e só vemos pés calçados com sapatilhas, de todas as cores, feitios e materiais. Sapatilhas a rodos. Sapatilhas, sapatilhas e mais sapatilhas. É impressionante! Quer dizer, para mim é impressionante a forma como esses sapatos inventados para praticar desporto, migraram para um uso indiscriminado, extensivo e, também, intensivo, no caminhar ordinário de todos os dias e horas. A nossa sociedade desfez-se de todas as outras alternativas e adoptou-as, definitivamente, como parte imprescindível do seu “dress-code”. Não importa se estamos a passear à beira-mar, se vamos às compras, ou se vamos trabalhar. Neste último caso, importa também fazer nota da indiferença perceptível e a falta de noção (eu diria, do ridículo…) ao se apresentarem nos seus postos de trabalho assim calçados. Dou alguns exemplos: parece-me bem que a minha fisioterapeuta use sapatilhas no seu trabalho, tal como um professor de educação física, ou um empregado de mesa numa esplanada, ou ainda um atleta ou treinador de um qualquer desporto; mas já me parece mal, até desrespeitoso, que um professor, um médico, um advogado, um juíz, um vendedor, um bancário, entre tantos outros, se apresente nesses preparos. Hoje, nos mais variados ramos, aceita-se esse calçado. Não entendo, nem aceito. Aliás, eu jamais o permitiria.
Para além desse desajuste, há que referir outros dois aspectos relacionados com este novo paradigma - o da sapatilha calçada - que tem dominado a nossa sociedade, digamos, nas duas últimas décadas. O primeiro está relacionado com o preço, pois já não basta estarem em todo o lado, como também são caras e, numa sociedade consumista e possidónia, é ver o sucesso comercial das marcas de prestígio e tradição, com modelos a custar nunca menos de uma centena de euros; o segundo aspecto, sem querer ser ofensivo, é a questão estética, pois a variedade da oferta inclui modelos e, principalmente, cores e padrões inimagináveis para o bom-senso e perigosos para a saúde pública. Quero eu dizer, posso até comprar sapatilhas de cores florescentes, rendilhadas, com purpurinas, laços e luzes para crianças e, quando muito, adolescentes, mas ver passar adultos, alguns já maduros, com esses enfeites decorativos nos pés, é, será sempre, aos meus olhos, apenas ridículo.
Se eu fosse parte interessada no sector do calçado estaria muito preocupado, pois ao olhar para os pés das nossas crianças e jovens, só posso antever a extinção de todo um sector de mercado (calçado de peles e couros). Até quando?
Atenção: Eu também tenho um par de sapatilhas, quase sempre tive sapatilhas, e sempre brancas. Apesar de raramente as usar, farão sempre jeito para as poucas vezes em que me decido fazer caminhadas, andar de bicicleta, ou acompanhar a minha criança numa qualquer aventura.
Enfim. Parabéns às sapatilhas e às respectivas marcas, que não só se conseguiram impor, como conseguiram, sem lógica ou razão, valorizar-se exponencialmente e monopolizar o mercado.
Viva a sapatilha.

29 julho 2019

das coisas da Loisa

Carlos Alberto d’Abreu, num artigo de 2011, escreve sobre a nomeada colectiva dos naturais da sua aldeia, a Loisa, no concelho de Torre de Moncorvo, tentando esclarecer a origem e motivação para esse epíteto que, apesar de não ofender, pelo menos incomoda os seus habitantes...
Nós somos os labregos. Alcunho que assumimos com a maior das naturalidades, porquanto labrego significa rural, campesino, rústico, lavrador. O que ama o agros e dele retira o sustento, com muito esforço e dedicação, acrescente-se.
Para além de labregos, os da Loisa tinham, e têm, má fama. O autor tenta perceber de onde poderá provir esse sentimento de terceiros sobre os loiseiros e encontra a seguinte história:
Ainda há poucos anos, com relativa frequência, encontrávamos gente pela região, mesmo noutros distritos, que quando dizíamos que éramos loiseiros, vinham com a história da (má) fama de que os da Loisa puseram a Guarda a lavrar. (…) Alguns, e essa era/é a versão mais vulgar, verdadeira ou construída (como meio de defesa), diziam que não era verdade. Que chegaram a ir buscar a canga (e o arado) mas que não lha puseram ao cachaço. Dois guardas - já republicanos, pois pelas nossas contas o episódio terá ocorrido por finais da década de 1920, nos primeiros da Ditadura Nacional -, em patrulha pela Loisa, entraram à taberna do Varela, existente na Carreira, para matarem a sede, ou talvez até a fome, e repararam num labrego com dois coelhos à cintura, isto no tempo do defeso. O que não era de estranhar, pois os loiseiros, mercê talvez da distância (distância física e distância-tempo) que os separava da vila (de Moncorvo) - terra onde se concentravam todas as (in)justiças-, sempre abusaram neste aspecto, diga-se em abono da verdade. Os homens fardados intervieram, por obrigação profissional. Mas os loiseiros, que na sua terra se sentiam livres e donos dos seus recursos (incluindo os cinegéticos, está bom de ver), não podiam submeter-se a tal vexame. Poderiam lá consentir que um dos seus fosse preso por dois bichos-caretos, apenas por haver caçado uns laparotos como complemento à pobre dieta, láparos esses nados e criados no seu país? Ora essa… Vai daí, arma-se um tumulto que desarmou os guardas. E o pior vexame veio da mulher do Carocha, qual Brites de Almeida. Quitou os coelhos ao caçador e com eles esbofeteou a autoridade, que já o não era. Foram buscar a dita canga e o arado e apenas os ameaçaram que os poriam a lavrar. E com isto os deixaram ir em paz. Desarmados, claro está. As autoridades administrativo-judiciais é que não estiveram pelos ajustes. Apresentaram-se na aldeia com uma aparatosa força militar, não sabendo nós se no dia seguinte, se nos dias subsequentes, pois os caminhos eram ruins. Entrou a força a cavalo e, no meio do povo, encontraram uma barreira humana, constituída por mulheres e raparigos. Umas prinhadas, outras paridas. O comandante da força, questionou-as sobre o paradeiro dos homens. E elas responderam que não tinham homem. O que levou o servidor da ordem a voltar a perguntar: se não tendes homem, quem vos emprenhou? (…) Ora os homens, andavam a monte, acaçapados nas lorgas dos bichos, porque baterem-se com uma força daquelas, já não estava ao seu alcance. A verdade, ou pelo menos aquela que ouvimos contar, é que da dita “brincadeira”, vários foram os degradados para o Ultramar. E pelos vistos alguns, sem culpa nenhuma.
(Abreu, Carlos Alberto, 2011)

25 julho 2019

cerveja: do macaco à civilização


Foi um prazer ler este pequeno ensaio de Afonso Cruz sobre a importância histórica da cerveja. Divertido, descontraído e descomprometido, o autor coloca o álcool, em geral, e a cerveja, em particular, como principal catalisador de toda a evolução da nossa espécie. Existem muitas teorias e perspectivas sobre essa grande aventura filogenética humana, mas nunca tinha encontrado esta da relevância da fermentação etílica. Em jeito de aperitivo, deixo-vos um resumo do autor.

livros e escola, escola e livros

Ontem, no jornal Público, António Carlos Cortez, reflecte sobre essa coisa estranha que é, hoje em dia, e nas escolas, a capacidade de ler, de escrever e de raciocinar. Questiona a desvalorização do objecto livro, assim como questiona o paradigma vigente na Educação nacional. Rejeita os modelos actuais - de facilitismo, de desresponsabilização, de desconhecimento - que estruturam a Escola em Portugal. De tão óbvio, não entendo como pode alguém não concordar com o que o autor escreve. Pena é que o Ministério da Educação não esteja povoado por estas ideias e estes ideais. Talvez um dia.
Porque teria que citar quase o artigo todo, deixo-o na íntegra para quem interessar. Considero que deveria ser do interesse (leitura obrigatória) de todo e qualquer pai e/ou mãe.

saber fazer

No reduzido número das coisas que me agradaram, e que soube fazer bem, aquilo que por certo fiz melhor foi beber. Embora tenha lido muito, bebi mais. Escrevi muito menos do que a maior parte das pessoas que escrevem; mas bebi muito mais que a maioria das pessoas que bebem.
Guy Debord, in Panegírico.

23 julho 2019

devoção


Este foi o serão em que li o mais recente livro de Patti Smith. Continuo a gostar da sua escrita, biográfica e até confessional, que nos leva por viagens, lugares e pessoas que habitam a nossa memória colectiva. Continuarei atento ao que for escrevendo, pois é ela quem, retórica, questiona e, de imediato, responde: - Porque escrevemos? - Porque não nos podemos limitar a viver.

what the fuck is this Patti Smith?

Enquanto vagueio por ali, sou dominada por uma tontura inesperada, ainda que familiar, na qual uma intensificação do abstrato se conjuga com a refração da disposição mental.
Patti Smith, in Devoção, 2019:32

22 julho 2019

ainda as raças humanas...

Hoje, no P2 do jornal Público, David Marçal explica porque é errado falar em raças humanas...

O conceito de raça foi desacreditado ao longo do século XX, primeiro pela antropologia e logo depois pela biologia. No século XXI, a genética entrou em campo a sério e não só triturou qualquer vestígio do conceito de raça, como trouxe uma perspectiva muito mais rica acerca da história das populações humanas. (…) Uma palavra para a cor da pele: é um caso invulgar, pois as diferenças médias entre populações noutras características são tipicamente muito mais pequenas. (…) Todas as actuais populações são o resultado de misturas de populações altamente divergentes (muito diferentes entre si) e que já não existem na forma não misturada. (…) A história das populações é de grandes misturas e migrações de longa distância — a maioria das populações actuais não descende exclusivamente das pessoas que viviam nos mesmos locais há 10.000 anos. Somos todos o resultado de misturas, em grande parte ocorridas nos últimos 5000 anos. O conceito de raça tem subjacente a ideia de uma homogeneidade de longo prazo, populações relativamente uniformes que viveram no mesmo local durante muito tempo. E isso sabemos que não é verdade. Num passado relativamente recente, as populações humanas eram tão diferentes entre si como são hoje, mas as linhas de separação entre elas seriam para nós irreconhecíveis. As actuais populações são misturas de populações do passado, que eram misturas elas mesmas. Os agrupamentos que hoje podemos reconhecer são um retrato instantâneo de misturas em curso. E isso arrasa os mitos nacionalistas apoiados em preconceitos raciais. (…) Mas estudar diferenças genéticas entre agrupamentos populacionais é um assunto delicado. Uma das vozes críticas é a antropóloga Duana Fullwiley, da Universidade de Stanford (EUA), para quem estes estudos de genética médica reabilitam a ideia da raça, sob a capa de uma suposta neutralidade do ADN. Mas o investigador em genética David Reich, no seu livro Who We Are and How We Got Here (Quem Somos e como Chegámos Aqui), argumenta: “Como sociedade, deveríamos comprometer-nos com a igualdade de direitos para todos, apesar das diferenças que possam existir entre indivíduos. Se aspiramos a tratar todos os indivíduos com respeito, independentemente das diferenças extraordinárias que existem entre indivíduos dentro de uma população, não deve ser muito mais difícil acomodar as diferenças médias mais pequenas, mas ainda significativas, entre populações.” Não se pode assim abrir espaço para que os avanços da genética sejam distorcidos de modo a reabilitar ideias racistas (há quem procure fazê-lo, é certo) e para isso é necessário discuti-los. Até porque possivelmente os argumentos que demonstram a não existência de raças humanas não têm sido suficientemente difundidos. Afinal, várias décadas depois, a ideia de uma classificação racial ainda parece fazer sentido para muitas pessoas.

19 julho 2019

determinismo


Assustadora, de tão realista, que é esta perspectiva da vida. Ainda assim, aceitando certo determinismo, o chão que vou pisando nem sempre corresponde à conformidade deste percurso vital. Feliz por isso.

16 julho 2019

ao espelho (futuro)


Anda toda a gente (leia-se, meio mundo...) excitadíssima com esta aplicação que projecta o que será a nossa aparência quando mais velhos. Não há quem ainda não tenha experimentado e publicado nas redes sociais a sua experiência...
Através da recolha de uma fotografia do rosto, a aplicação retribui com aquilo que será esse rosto mais envelhecido, faltando saber qual é critério temporal (intervalo de tempo/idade) dessa projecção. Mas isso serão minudências que, pelos vistos, não importam ao comum dos mortais. Por outro lado, não deixa de ser paradoxal, num tempo em que as sociedades exacerbam a juventude e sua beleza, este epifenómeno da curiosidade pela aparência futura, transformada em moda.
Enfim, a mim, e ao contrário do que também tenho lido, não são as questões de segurança ou a mais que provável recolha massiva de dados biométricos que esta aplicação permite, que me levam a nem sequer a experimentar. Na verdade, nem curiosidade por me ver ao espelho futuro. É que não preciso dela, pois a minha aparência desde muito novo sempre foi de alguém mais velho. Portanto, a minha actual aparência corresponde a essa idade maior. Estarei com bom aspecto para alguém dessa (qualquer) idade. Pronto.

exasperante

Pode-se dormir com as janelas abertas sem medo de ser picado. O maior luxo é almoçar bem e prolongar a tarde, primeiro com conhaques, depois com gins-tónicos, antes de jantar cedo e levemente — com um ou dois pregos, por exemplo.
Miguel Esteves Cardoso, in jornal Público, 15/07/2019

alteridade

Esta não é uma observação necessariamente religiosa; é política também. Creio sinceramente que nós, portugueses, nos orgulhamos de aceitar as diferenças sobretudo porque as diferenças nunca exigiram muito da nossa aceitação.
Tiago Cavaco, in LER nº 153

09 julho 2019

a besta

«Era uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?»

Foi com estas palavras que o Presidente Brasileiro reagiu, se não estou em erro, através do Twitter, à morte de João Gilberto, uma das maiores figuras da história musical do Brasil. Não conheço a sua música, nem sou apreciador daquilo que nos chega do lado de lá do Atlântico, mas isso não me impede de saber quem importa e reconhecer a relevância do legado de João Gilberto no panorama da música brasileira contemporânea. O Brasil nas mãos de uma besta, sem mundo e sem samba.

06 julho 2019

o algoritmo

O algoritmo é a ditadura do futuro, a nova tecnocracia. Por isso desconfiamos sempre destes delírios tecnológicos - para quem será esse futuro? Desde Saint-Simon (1760-1825), os profetas da tecnocracia que trazia a justiça ao mundo já estão todos mortos.
Álvaro Domingues, in Granta 3, Maio de 2019.

A ficção científica está a tornar-se, em parte, realidade. Por isso precisamos das humanidades para questionar à medida que se faz esse percurso. Não é depois de termos descoberto um Frankenstein que vamos questionar o que fazer com o monstro.
Isabel Capeloa Gil, citada por Helder Martins, in jornal Expresso, 6 Julho 2019.

Foi a recente leitura de dois textos, um de cada um dos autores acima mencionados, que me trouxe até esta pequena reflexão. 
Dizem-nos, e nós, ignorantes, acreditamos, que vivemos rodeados de algoritmos, que são eles quem comandam e sincronizam o ritmo da vida dos seres humanos e que, sem qualquer dúvida, serão eles quem determinarão a evolução das nossas sociedades, naquilo que poderão ser as tendências culturais, económicas, políticas e, acima de tudo, ideológicas.
Se tenho grande dificuldade em acreditar na existência de uma entidade superiora, omnipresente e omnipotente, enquanto criadora, gestora e juíza de toda a existência, maiores e acrescidas reservas morais e, até, éticas me assaltam, ao perspectivar a nossa existência subjugada pelos humores de um qualquer código, estúpido e insensível, desprovido de qualquer réstia emocional, que se baseia exclusivamente na contabilidade da imensidão de dados, de padrões e de correspondências. Talvez porque sou um humanista e acredito no valor intrínseco, se preferirem, ontogénico do Homem, prefiro a adopção de um pragmatismo utilitário desses "códigos mágicos", ou seja, utilizar as novas tecnologias e ferramentas, na medida em que nos são úteis e simplificam as tarefas e os acessos a determinadas fontes e informações.
Contudo, uma certeza tenho, não me sinto condicionado nas minhas escolhas, nos meus gostos e preferências, nas minhas convicções, nem tão pouco nos meus consumos, por nenhum algoritmo. Não sei, ao contrário das certezas dos inúmeros arautos dos amanhãs tecnológicos que por aí pululam, o que nos aguarda o futuro - certamente será um mundo magnífico e surpreendente. Acredito na ciência, na razão, na arte e engenho do ser humano. Procuro manter-me actualizado e informado, ainda que sempre da margem e numa atitude contemplativa.

04 julho 2019

estados de alma


a) Aqueles que me rodeiam e me conhecem sabem do meu desconforto estival, da minha má vontade para com o Sol e da neurastenia da minha tiróide com o calor. É, por isso, com satisfação e alguma tranquilidade que, tendo regressado de Trás-os-Montes há dias, onde experimentei temperaturas infernais, vim encontrar a Invicta e arredores debaixo de neblinas e ambientes amenos e aprazíveis. Assim, sim, é bom viver aqui;
b) Julgo ser conhecimento público eu considerar-me um transmontano de Massarelos. Pertenço, assim, a duas cidades - Porto e Bragança - onde me sinto em casa e me identifico. Cidades que me têm orientado a existência e às quais jamais deixarei de ser leal e amante. Não creio que algum dia o meu percurso se desvie deste eixo existêncial e sentimental;

compras matutinas


Chegar ao quiosque e encontrar, não uma, mas duas boas surpresas. O dia só poderá correr-me bem.

03 julho 2019

irritação


Só hoje li o capítulo "Malfadado Acordo" do livro Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro e fiquei mal disposto. Como é possível alguém ter construído tamanha monstruosidade para a nossa língua?! Para além dos inúmeros exemplos de palavras desacordadas pelo Acordo, deixa-me irritado perceber que entendidos e políticos deram o seu aval a este escarro. Mais ainda, fico desatinado por saber que os meus dois filhos aprenderam, na escola pública, a escrever mal a Língua Portuguesa. Ignorantes por culpa alheia serão e eu não posso responsabilizar ninguém por esse crime.

da resistência à uniformização

" A segunda pessoa do plural foi vassourada - aspecto gravíssimo - até de certos livros e fontes com conjugações verbais. Já vi um livro escolar com todas as pessoas conjugadas, excepto a segunda do plural. Já vi um programa de televisão sobre língua afirmar que "fizestes" não existe! Sírio Possenti, em Malcomportadas Línguas, defende que o pronome vós (o "dinossauro") seja banido de uma "gramática normativa". Eu encontro o putativo dinossauro amiúde. Não podemos rasurar Padre António Vieira, Camões, as traduções da Bíblia e milhentas outras coisas. Não podemos ignorar comunidades linguísticas de Portugal (ainda hoje), mormente nortenhas, que usam com naturalidade a segunda pessoa do plural. Curiosíssimo que pessoas analfabetas dessas comunidades linguísticas sempre conjugaram com muito mais facilidade e rigor a segunda pessoa do plural do que os moderníssimos doutores lisboetas (e não só) atafulhados de plumas académicas. (...) Demais, não devemos alterar frases ou expressões que fazem parte da memória de muitos. "
Manuel Monteiro, in Por Amor à Língua.

aos interessados...

o fim da história?

Quis comprar o último livro de Francis Fukuyama, Identidades, publicado em Portugal no final de 2018. Sabia que o autor, neste seu novo trabalho, se dedica às questões de identidade enquanto fundamento e origem de tudo o que vai acontecendo na política mundial actual. Só que Fukuyama, tem toda uma vida e obra dedicada ao estudo da história da humanidade ao longo dos séculos, nomeadamente dos enormes contrastes entre as diferentes tipologias de organizações políticas e soberanias. Ele é o autor do famoso livro, já um clássico, O Fim da História e o Último Homem, escrito e publicado no final da década de 80 do século XX, período especialmente conturbado na geo-política mundial, nos sistemas políticos e na reorganização dos paradigmas dominantes nas diferentes geografias do planeta. Não me pareceu producente ler Identidades antes de conhecer O Fim da História e o Último Homem e por isso, comprei os dois livros e comecei de imediato a ler este último.  Aqui o autor parte de um conjunto de questões, também partilhada por vários filósofos do passado: a história da humanidade segue uma direcção?... se sim, qual será o seu fim?... e em que ponto nos encontramos em relação ao "fim da história"?
Procurando dar respostas a estas questões, são apresentados elementos que indicam a presença de duas forças imensas na história humana: a lógica da ciência moderna, que tem na sua génese o processo económico racional; e a luta pelo reconhecimento, que é entendido por Fukuyama, mas também por Hegel, como o próprio catalisador da história. Estas duas forças conduziram, ao longo do tempo, ao colapso de ditaduras de direita e de esquerda, impelindo as sociedades, mesmo culturalmente distintas, para a democracia capitalista liberal, entendida como estádio final do processo histórico.
Excelente reflexão sobre a questão suprema do sentido e do destino das sociedades humanas e do próprio Homem. Curiosidade: ler este livro passados cerca de trinta anos depois de ter sido escrito, permite-nos perceber onde o autor acertou e onde falhou, nas suas análises prospectivas sobre o que seria o futuro. Futuro, agora presente. Em breve, lerei então e com atenção o Identidades.

01 julho 2019

diário de campo

Novo mês, novo projecto. Durante os próximos vinte e dois meses, parte do meu tempo - pesquisa, leitura e escrita - será dedicado à Vila de Vinhais. É sempre um prazer olhar, com detalhe, para o retrovisor colectivo que é a nossa história. Lugares, pessoas e momentos que se destacaram e contribuíram decididamente para a construção da História da comunidade. Vamos lá.

a nossa língua







José Pacheco Pereira, in Jornal Público (29/06/2019)

Sem meios técnicos para reproduzir da melhor forma o texto, ainda assim, aquilo que aqui, uma vez mais, é afirmado é por demais importante para todos nós, portugueses, e para todos os utilizadores da nossa língua, a portuguesa. Tal como o meu irmão mais novo diz: - o Pacheco Pereira é o maior!

24 junho 2019

nas palavras dos outros...

Nunca discutimos o futuro por duas razões: porque temos medo dele e porque não estamos preparados para ele. Todo o desígnio de desenvolvimento em Portugal foi e continua a ser estático.
Clara Ferreira Alves,  in  Revista do Expresso, 22/06/2019.

09 junho 2019

nas palavras dos outros...

Uma e outra vez as mesmas políticas vão sendo impostas como se no momento fossem a melhor ou única solução. O mesmo se pode dizer da privatização da segurança social e, portanto, do sistema público de pensões. (...) A receita continua a ser imposta e a ser vendida como a salvação do país. Porque se insiste no erro de impor medidas cujo fracasso é antecipadamente reconhecido? São muitas as razões, mas todas convergem na que considero ser a mais importante: o objectivo de criar uma situação de crise permanente que force as decisões políticas a concentrarem-se em medidas de emergência e de curto prazo. Estas medidas, apesar de envolverem sempre a transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos e imporem sacrifícios aos que menos podem suportá-los, são aceites como necessárias e inviabilizam qualquer discussão sobre o futuro e alternativas de curto e médio prazo.
Boaventura Sousa Santos, in Jornal de Letras nº 1270, Junho 2019.

03 junho 2019

incontornável

Não há como não assinalar o desaparecimento de Agustina Bessa-Luís (1922-2019).

31 maio 2019

por falar em língua...


Chegou-me em forma de presente do mano mais novo, este autêntico manual de escrita em Português correcto, ou pelo menos, um manual para evitar erros básicos e recorrentes. Já anda comigo para todo o lado, para nos intervalos das horas, ir espreitando e aprendendo. Desde já, uma nota de destaque: a referência em capa para o desuso da segunda pessoa do plural e que, incorrectamente, é substituída pela terceira pessoal do plural... Eu utilizo essa conjugação frásica, sempre fiz uso do "vós" quando me dirijo a mais do que uma pessoa, o que me foi valendo ao longo da vida vários comentários de admiração, curiosidade e de peculiaridade na escrita e, principalmente, na oralidade. Nunca gostei da impessoal terceira pessoa do plural.
Entretanto, vamos aprender mais.
Boa leitura.

28 maio 2019

obtusidade mental e não só

Por favor, leiam com atenção este texto:


(Henrique Monteiro, in Jornal Expresso, 18/05/2019)

No dia 18 de Maio, Henrique Monteiro dedicou grande parte da sua página no jornal Expresso, a um texto sobre o Acordo Ortográfico. Logo na altura reagi no Twitter, àquilo que me pareceu uma profunda confusão dos termos, bem característico de uma mente obtusa. Ainda por cima, não fiquei a perceber, porque não é minimamente perceptível, qual a opinião dele acerca do Acordo Ortográfico. Escreveu, escreveu e não disse nada...
Nessa reacção, em formato Twitter, escrevi:
(1) Já li 3 vezes este artigo de Henrique Monteiro e continuo sem perceber o que quer dizer. Não sei se serão "alhos com bugalhos", ou apenas obtusidade. Enfim.
(2) Escreve Henrique Monteiro: "a ortografia é mera representação. Cada um fala como ouve falar..." Errado, pois a ortografia não diz respeito à oralidade, mas sim à escrita dessa língua e isso não é mera representação, mas sim essencial e idiossincrático.
(3) Escreve Henrique Monteiro: "(a língua) é um legado, um monumento da Expansão portuguesa." Curiosa maiusculação de "expansão", que revela um dado saudosismo de antanho, do magnífico luso Império e do ad eternum devir da pátria.
(4) Escreve Henrique Monteiro: "Não brinquem com ela." Porque raio é que quem critica o AO está a brincar, quando quem mexeu nela foi quem promoveu este AO?! Quando se desvaloriza assim uma ortografia como "mera representação", como faz, é que se está, sem senso, a brincar.
(5) Escreve Henrique Monteiro: "Cá também é moda ser contra o Acordo". Errado, moda foi Portugal ter-se precipitado na entrada em vigor deste Aborto, pois mais nenhum país quis, ou quer, saber dele. Mais tarde ou mais cedo a "moda" passará e a brincadeira também.
(6) Importa ainda relembrar ao ilustre H. Monteiro que a riqueza de uma língua é sua diversidade e não adjectivar-se como "cosmopolita". A língua portuguesa, seja em que geografia e com que pronúncia, na sua variedade, é inteligível para toda a lusofonia. Não carece de decreto.

27 maio 2019

politicamente incorrecto

Por motivos alheios aos poucos leitores deste meu apurriar, só pude acompanhar a noite eleitoral de ontem já bem tarde, quando tudo estava determinado, ou quase. Os vencedores já tinham festejado e os derrotados já tinham, a custo, admitido o fracasso e a desilusão. Já muito foi dito e comentado sobre estas eleições europeias - sobre a abstenção obscena, sobre o CDS e a ex-futura primeira-ministra, sobre a CDU e o seu lento estertor, sobre o fantasma do aumento das votações dos partidos de extrema-direita e anti-europeistas, sobre a vitória "poucochinha" do PS e sobre o crescimento do BE, e por isso não vou acrescentar mais nada sobre o tanto que já foi dito e escrito. Reservo esta pequena reflexão ao PAN e à sua "vitória", por ter conseguido eleger o primeiro euro-deputado. Muito bem. Fico de alguma forma satisfeito por esse sucesso, mas ainda assim, de tudo o que ouvi na noite, retive as palavras de Miguel Sousa Tavares (MST), na TVI24, que a propósito do PAN, afirmou:

O PAN é um partido que recolhe votos nos meios urbanos, mas não nos meios rurais, onde toda a gente o detesta. O PAN não tem um voto nos meios rurais, é o partido dos urbano-depressivos, daqueles que acham que os animaizinhos não se podem comer. É o partido dos vegan, os que só comem alface e verdura. O PAN é uma bofetada de luva branca numa coisa que se chama os Verdes que é um apêndice do PCP que nunca foi a votos por si só e que não faz nenhuma política ecologista.

Para além da eterna boçalidade deslavada, trocista, trauliteira e até marialva, de MST, sou obrigado a reconhecer que esta afirmação, que desobedece ao espartilho do politicamente correcto actual, tem muito de verdade. Concordo, na essência, com esta opinião, pois também acho que a perspectiva deste novo ecologismo, enquanto ideologia, paixão e discurso, não tem como fundamento, ou inspiração, um conhecimento da realidade da vida dos cidadãos não-urbanos, ou se preferirem, da existência espartana da vida rural. Tal como já tanta gente o referiu, a perspectiva de alguém que nunca precisou de trabalhar a terra, de criar animais para a lavoura e para a sua dieta alimentar, nunca poderá compreender a relação que se estabelece entre pessoas e animais nesse habitat fora das muralhas urbanas. Para aqueles que, protegidos pelo conforto e oferta da cidade, e que apenas consomem, será sempre consideravelmente mais fácil prescindirem deste ou daquele alimento e, assim, optarem por uma narrativa alternativa. Um luxo só ao alcance de alguns...
Estou consciente da emergência de uma nova atitude face às gravíssimas alterações climáticas e quero que essa preocupação entre rapidamente nas agendas dos partidos políticos nacionais e europeus, mas, confesso-vos, tenho medo do PAN, do seu radicalismo, da sua relativa ignorância e da sua aversão à ciência. Cuidado, muito cuidado com estes senhores.

22 maio 2019

fomos Porto?


Não gosto de escrever sobre futebol, sobre jogadores, treinadores, árbitros ou equipas, muito menos gosto de escrever sobre o meu clube. Não o faço. Não gosto de o fazer porque, enquanto adepto que sempre fui do FCP, não se usa da razão, apenas e só conseguimos verter as emoções que nos assaltam o ser. Escrever com razão sobre futebol, sendo adepto, não é um exercício honesto e imparcial - veja-se a panóplia desmesurada de opinadores televisivos, ou leiam-se os doutos entendidos nos três diários desportivos e afins. Perante tamanho chinfrim mediático, a perplexidade permanece: haverá público para tanto dislate, para tanta ignorância, para tanta pseudo-ciência (estou a lembrar-me de um tal de Luís Freitas Lobo) aplicada ao futebol? Pelos vistos, sim, há.
Esperei pelo desfecho do campeonato nacional e pelo acalmar das emoções, para aqui vir reflectir um pouco [entenda-se, um carpir das mágoas de adepto magoado] sobre o desempenho do FCP durante este campeonato. Como foi possível, depois de uma vantagem que chegou a ser de sete pontos, depois de provocar uma chicotada psicológica no Benfica, perder nove pontos e assim o campeonato? Com toda a certeza, haverá mais do que um responsável, mas aquilo que mais me custou foi não ter percebido em ninguém, da estrutura e/ou dos arredores, do FCP um mea culpa, um reconhecimento de erro, de má decisões, ou de negligência. Para além das óbvias responsabilidades de Sérgio Conceição, enquanto líder e senhor das decisões técnicas e tácticas, parte do problema foi ter mantido a jogar um conjunto de jogadores que já não queriam estar no Dragão, como por exemplo, Brahimi e Herrera, que em épocas anteriores tinham carregado a equipa e deslumbrado com a sua força e brilhantismo, e este ano, nada, andaram a arrastar-se pelos relvados, nitidamente desmotivados; outro exemplo, foi o central Éder Militão que, há muitos meses com a cabeça em Madrid, foi cometendo erro atrás de erro. Depois, tivemos o caso de Maraga, o todo poderoso, mas que não consegue dominar uma bola e que, segundo a estatística, precisa de três oportunidades para fazer um golo. Sempre apreciei e privilegiei jogadores inteligentes e que tratam a bola "intimamente" por tu...
O que se percebeu, e com grande estrondo, foi o mesmo de sempre, um permanente sacudir da água do capote e de responsabilização de tudo e de todos, menos dos próprios. Volto a remeter para os comentadeiros que, há distância de uma TV, Rádio ou Jornal, espumam irracionalidade e estupidez.
Lamento muito, muito mesmo, mas, por demérito do FCP, o Benfica acabou por ser um justo campeão. Este campeonato NÃO FOMOS PORTO!

mediascape: errado

João Duque, na sua coluna no caderno de economia do Jornal Expresso, aproveitou a recente história de Joe Berardo para puxar as brasas, novamente, às suas sardinhas, que é como quem diz, não perde uma oportunidade para afirmar a sua fundamentalista crença no mercado - livre e especulador - e o seu visceral ódio ao sector público, demonstrado em todas e cada uma das suas intervenções públicas. Acontece que o raciocínio para além de errado, não me parece intelectualmente honesto, na medida em que a conclusão a que chega não se baseia em factos, ou dados em concreto, mas sim no seu pavor com a possibilidade de uma qualquer nacionalização. Se na CGD houve má gestão (e é certo que sim), que se encontrem e penalizem os responsáveis; o mesmo direi para os bancos privados. Agora, ao contrário do que conclui o ilustre professor, se os portugueses foram e são chamados a injectar dinheiro nos bancos, porque não trazê-los para a esfera pública? Parece-me óbvio e lógico. Mas para o excelentíssimo Professor o que deveria acontecer era precisamente o contrário: privatizar a CGD seria o ideal.

voto precoce e abstenção

No passado dia 14 de Maio, o PAN apresentou na Assembleia da República um projecto de resolução que visava consagrar o direito de voto dos cidadãos maiores de 16 anos de idade, ou seja, uma antecipação dos 18 para os 16 anos, o que implicaria uma revisão constitucional extraordinária. A proposta foi chumbada pela maioria dos deputados, tendo votado favoravelmente apenas o deputado do PAN e a bancada do BE. Um dos fundamentos ou razões para a apresentação desta resolução era o combate à abstenção em Portugal e que os cerca de 140 mil jovens que passariam a poder votar, poderiam inverter a persistente indiferença e alheamento dos portugueses em relação àquilo que é a nossa vida política e das instituições de poder.
Nada me opõe a essa antecipação na idade para votar, mas desconfio da eficácia da medida face aos propósitos enunciados, pois a ter em conta aquilo que são os dados conhecidos dos últimos actos eleitorais, é precisamente nas faixas etárias mais jovens que se encontra maior percentagem de abstenção. Assim, com a aprovação de tal resolução, às tantas, em vez de conseguirmos reduzir as percentagens de abstenção, ainda iríamos conseguir aumentá-las mais. Digo eu.

21 maio 2019

destruição do saber


Foi notícia na semana passada, mais um episódio de violência numa escola pública portuguesa, nomeadamente, a agressão violenta de uma professora primária, pela mãe e pela avó de uma aluna ou aluno, dentro da escola e com todos os alunos a presenciarem. Acontece que desta vez aconteceu bem perto de mim e, nas minhas andanças quotidianas, passo nessa escola, o que me permitiu testemunhar o protesto da comunidade perante tal agressão.
Para além do acto de violência em si, sempre condenável, inadmissível e intolerável, duas ideias me ficaram retidas no pensamento. A primeira é de que, de facto, o Professor perdeu qualquer autoridade, qualquer relevância e até respeito, na generalidade da sociedade portuguesa e, hoje, é mal tratado e abusado, não só pelo sistema, mas também pela comunidade escolar. A segunda é mais gravosa e importante: que educação, que exemplo, que futuro, poderão ter os filhos e netos de pais/avós que, em sua presença, agridem violentamente os seus professores. Que importância darão estas crianças ao saber?! Tristes crianças.
Ambas contribuem superlativamente para a destruição da escola pública nacional e, assim, contribuirão para um futuro mais pobre, mais inculto e mais infeliz.

nas palavras dos outros...

Há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala.
José Pacheco Pereira, in Jornal Público, 18 Maio 2019

16 maio 2019

bonito

hoje, na caixa do correio...

13 maio 2019

novo, estranho e disruptivo

Experimentei pela primeira vez, por pressão da minha filha, os serviços da UBER EATS. Final de tarde chuvosa, nenhuma vontade de fazer o jantar, a solução foi encomendar comida através dessa aplicação. Paguei com o cartão de crédito na própria aplicação e à hora marcada, a encomenda estava à porta. Só que não na minha porta, mas sim numa morada onde eu nunca residi. Depois de várias conversas com o "colaborador" da empresa, sem nunca conseguir fazer valer a minha argumentação, fui aconselhado a reclamar junto da empresa. Assim tentei fazer, só que não encontrei onde, nem com quem!... a encomenda foi cancelada.
Conclusão: fiquei sem a encomenda e sem o dinheiro que paguei. Fiquei chateado, nem tanto pelo dinheiro, mas pela atitude do “colaborador” e, acima de tudo, pela forma como estas empresas trabalham - não têm uma presença física, não permitem interacções e nem sequer podemos comunicar. Dizem-me que este é o paradigma do futuro nos negócios e nos serviços, mas eu não quero acreditar que assim venha a ser. Esse estranho e disruptivo mundo poderá até vingar nalguns sectores, mas as relações laborais manterão vivos, por muitos e bons anos, os valores dos velhos contratos sociais.
E não, não voltarei a utilizar tais serviços.

este país não é para gente séria


Esta é a imagem de um país de desonestos e iliteratos, mas espertos. Aquilo que este senhor fez na Comissão da Assembleia da República foi um atestado de menoridade e insignificância às instituições da nossa República e foi, acima de tudo, borrar a cara de todos os portugueses com merda, em directo e institucionalmente. Uma vergonha para todos nós, menos, como é claro, para o próprio que nem sequer se apercebe da figura que faz.

09 maio 2019

nas palavras de outros...

Só no grande perigo se diz com suficiente força amo-te.
Gonçalo M. Tavares, in Jornal de Letras nº 1268, Maio 2019

08 maio 2019

crónicas de Barcelona - VII

Regressar? [19-04-2019]

No final de mais uma longa mas tranquila viagem, agora de regresso a Portugal e, em concreto, a Bragança, onde iremos ficar uns dias, a sensação de satisfação é geral e partilhada pelo resto da família. Todos gostaram da viagem e do seu destino. Tal como já referi, esta era uma das cidades europeias que sempre pensara visitar. Já está. No entretanto, e reflectindo sobre Barcelona, diria que, ao contrário de outras cidades desta velha Europa, que já tive o privilégio de conhecer e revisitar, não me parece que algum dia sinta vontade de lá voltar. Já o escrevi aqui que, a regressar, gostaria de poder descobrir a cidade daqueles que tenho como referência e um dia andaram por lá, num roteiro alternativo e muito pessoal. De resto, penso que visitei e conheci o que de mais importante a cidade tem para oferecer enquanto destino turístico. Assim sendo, novos destinos e outras cidades europeias há para descobrir.
Agora, três dias de alguma ruralidade e sossego, regeneradores para o regresso ao quotidiano.



(fotografias: a)regresso a Portugal, b) panorâmica parcial de Barcelona e c) um histórico local para um dia descobrir)

crónicas de Barcelona - VI

O melhor, o pior e a campanha eleitoral... [18-04-2019]

Uma estadia de quatro ou cinco dias não permite conhecer toda a cidade e todos os seus pontos de interesse, nem tão pouco permite que alguém utilize o verbo conhecer. Para além daquilo que são os já referidos circuitos e polaridades turísticas, há uma cidade associada aos seus grandes nomes que gostaria de conhecer - casas, espaços públicos, cafés e restaurantes que, noutras épocas, foram frequentados por esses gigantes da cultura mundial. Seria um roteiro alternativo, personalizado e para realizar com calma e tempo, que me daria muito prazer.
Daquilo que me foi possível e dado a conhecer, destacaria como muito bom e surpreendente, o Palau De La Musica Catalã - auditório de música construído no início do século XX, projectado pelo arquitecto local Lluís Domènech i Montaner, um dos grandes representantes do modernismo catalão. Realizámos uma visita guiada e, assim, pudemos conhecer todos os pormenores associados à sua fundação, à sua arquitectura, à sua qualidade acústica e à sua importância na vida cultural, social e económica da cidade e região. É de facto impressionante e lindíssimo.
Pela negativa, ou seja, aquilo que visitei e conheci, mas que de alguma forma defraudou as minhas expectativas, eu referiria, (para além da já mencionada Sagrada Família) acima de tudo o resto, o Parque Güell - o grande parque urbano da cidade, situado no monte Carmelo, zona da Gràcia, concebido pelo arquitecto Antoni Gaudí (quem mais poderia ser?...), por encomenda do empresário catalão Eusebi Güell, na segunda década do século XX. Segundo consta na história, este parque seria um espaço privado de descanso e lazer para o empresário e sua família passarem as férias e/ou fins-de-semana. O projecto de Gaudí nunca foi terminado e em 1915/16 o arquitecto abandonou a obra para dar início à construção da catedral da Sagrada Família. Entretanto, com a morte do empresário, os seus herdeiros abandonaram a ideia e, já durante a década de 20, a cidade adquiriu esse espaço e transformou-o num espaço público para toda a população. Actualmente, o acesso a parte do parque é restrito e tem que se comprar bilhete, medida que apesar de contribuir para regular o enorme fluxo de turistas, mereceu a crítica de muitos habitantes da cidade, pois veio vedar o acesso livre a um espaço que é de todos.
Com todo o respeito que me merece o Sr. Gaudí e o reconhecimento da sua tremenda genialidade, não entendo o fascínio e a voracidade das massas por visitar uma escadaria decorada com bocados de azulejos, um enorme terraço suportado por inúmeros pilares de betão, que funciona como miradouro sobre uma pequena parte da cidade e sobre o mediterrâneo (onde a pressão dos visitantes não permite sequer tirar uma fotografia), e duas habitações com uma fisionomia estranhíssima. É isto que o bilhete comprado nos permite visitar. O resto, os enormes jardins são gratuitos e muito agradáveis, mas sinceramente estranho a ideia de alguém viajar de qualquer parte do mundo para vir visitar jardins…
Por estes dias que cá andei, decorre a campanha eleitoral para eleições gerais em Espanha. Não sei se por ser português e estar tão habituado ao ruído e à saturação destes períodos em Portugal, estranhei o silêncio e a ausência visual desses elementos de propaganda. Claro que andei essencialmente pelos circuitos turísticos, mas também pude cirandar pelas zonas habitacionais, de trabalho e comerciais, menos frequentados pelos visitantes, e mesmo aí quase não se percebe o momento político actual. Aí, para um estranho e pela primeira vez na cidade, aquilo que me chamou mais a atenção foram as bandeiras catalãs e as tarjas/faixas com a mensagem: Llibertat presos polítics! expostas em muitas janelas e varandas dos catalães.
Viva a República da Catalunha.




(fotografias: a) Palau de la Musica Catalã, b) Parque Güell, c) bandeira catalã e d) tarja ou faixa)

crónicas de Barcelona - V

Deambulações pelo casco velho [18-04-2019]

Por estes dias não temos sossegado. O passe de metro de 72 horas que comprámos, tem-nos permitido deambular por todo o lado sem preocupações. Nos espaços de tempo vazios, a minha sugestão tem sido sempre irmos para a zona velha da cidade, cuja referência é La Rambla, mas como é estupidamente agitada e movimentada, prefiro caminhar pelas ruas e ruelas - muitas delas pedonais - que derivam dessa artéria principal para Oeste e, principalmente, para Este, naquilo que é conhecido como bairro Gótico. É neste emaranhado de artérias envelhecidas, pejadas de comércio e "comes e bebes”, que se encontra a Plaça Sant Jaume, epicentro político da República da Catalunha e uma das praças mais simbólicas da cidade. É aqui que se encontra o Palau de La Generalitat, onde, em Outubro de 2017, foi proclamada unilateralmente a independência da República da Catalunha em relação ao Estado Espanhol. A sensação que tenho é que esta praça tem uma força centrífuga nesta complexa teia de ruas estreitas, escuras e sujas, na medida em que todos os percursos turísticos possíveis para quem quer visitar os monumentos e atracções - catedral, ajuntamento, biblioteca, museu Picasso, Palau de la Musica Catalana, Centro de Exposições Gaudí, etc. - desta parte velha da cidade, acabam por se cruzar, qual placa giratória, nesta praça. Um outro local muito bonito e confortável é a praça Real, bem perto de La Rambla, decorada com inúmeras palmeiras e onde, nas suas arcadas e em toda a praça, encontramos esplanadas de diferentes restaurantes e cervejarias. Gosto de lá estar e, por isso, aí temos ido várias vezes comer.
Se algum dia regressar a Barcelona, será por aqui que andarei, tentando conhecer melhor os seus recantos e encantos.


(fotografias: a) plaça Sant Jaume e b) plaça Real)

crónicas de Barcelona - IV

Comer e beber [17-04-2019]

Sou, desde há muito, um apreciador da gastronomia espanhola, e digo espanhola porque da Galiza à Andaluzia, do País Basco à Catalunha, os espanhóis sabem comer. Claro que aquilo que é vendido nos circuitos turísticos não representa a dieta caseira dos espanhóis, mas em todo o caso, comer em Espanha é sempre um prazer. Assim, esta viagem a Barcelona representava também a possibilidade de comer e beber bem, indo ao encontro daquilo que mais gosto - "comer de seco”, o que deste lado da fronteira, poderá ser designado de “tapas". Nas vésperas da viagem, indagámos algumas referências gastronómicas, mas acabámos por não experimentar nenhuma delas. Para além daquilo que é o estereotipo dessas “tapas” de pulpo, jamón, camarón e calamares, de pimento padron, são deliciosos os huevos revueltos, as paellas (exceptuando a de peixe), e as simples sandes de jamón. Em relação à bebida e mesmo sabendo da excelência da produção de vinhos, acabei por beber apenas cerveja ao copo, na tradução “canha" ou “tanque”. Ainda que num destino turístico muito visitado, não considerei os preços excessivos, muito nivelados pelos praticados em Portugal em idênticas circunstâncias.
Visitei o mercado municipal La Boqueria, onde podemos encontrar uma variedade de produtos à venda, desde o peixe, às frutas, aos queijos e presuntos, como também às especiarias e doces. Pode-se também experimentar, em certas bancas, algumas das mais famosas iguarias da região. Gostaria de me ter sentado numa dessas concorridas bancas, mas a dieta da criança obriga a comer de garfo e faca. Os olhos ficaram retidos nos magníficos presuntos em exposição e nas finas fatias que eram cortadas a todo o momento e abasteciam os pratos dos comensais. Quem sabe um dia.



(fotografias: a) huevos, b) tapas e c) jamón, no mercado La Boqueria)